"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





quinta-feira, 16 de junho de 2011

Cistus ladanifer L syn.Cistus ladanifer L. var. maculatus; Dunal Cistus ladaniferus L.; Cistus ladaniferus L. var. albiflorus Dunal; Cistus ladaniferus L. for. maculatus Dunal

Esteva

A Cistus ladanifer é conhecida vulgarmente no nosso país por esteva, esteva-ordinaria, láudano-de-espanha, ládano, lábdano, roselha ou xara, variando o nome conforme as regiões.
Esta planta é uma espécie do género Cistus, um dos 9 géneros em que se divide a família Cistaceae que na totalidade inclui cerca de 200 espécies.
As plantas do género Cistus são tipicamente mediterrânicas e adaptam-se perfeitamente aos solos pobres e a períodos secos prolongados. São plantas pouco exigentes em termos nutricionais e ocorrem espontaneamente em locais solarengos. Algumas espécies preferem os solos ácidos, outras vivem melhor em solos alcalinos. Devido à beleza decorativa das suas flores e também por terem folhas fortemente aromáticas as espécies do género Cistus são atualmente muito utilizadas em jardins, tanto mais que permitem alguma economia de água.

A Cistus ladanifer distribui-se pelo sul da França, Península Ibérica, noroeste africano e Macaronésia (Madeira, Açores, Canárias e Cabo Verde). Acima de tudo a Cistus ladanifer é característica das paisagens mediterrânicas, impregnando o ar quente do verão com o seu forte e inconfundivel aroma.
Em Portugal podemos encontrar esta espécie por todo o território, mas com maior incidência nas zonas mais quentes do centro e sul do país, em solos ácidos não calcários onde predominam os xistos, os granitos e os quartzos.
A Cistus ladanifer, prefere os solos pobres e secos sendo uma das primeiras plantas a ocupar os espaços deixados vagos quer pelos incêndios demasiado frequentes no centro interior, quer pelo abate de azinheiras no interior sul. A Cistus ladanifer é também resistente ao vento marítimo e é por isso que a podemos encontrar no Caniçal, embora na parte mais recuada da arriba, onde predominam os matos.

As folhas são inteiras, persistentes, estreitas, e inserem-se no caule de forma oposta.
A parte superior das folhas é pegajosa e brilhante, sem pelos e de cor verde escuro. A página inferior das folhas é mais clara devido aos pelos estrelados que a cobrem.

As flores ocorrem durante os meses de maio e junho e são solitárias e grandes, podendo ter de 5 a 8 cm de diâmetro. A corola é composta por 5 pétalas finas, de cor branca, com uma mancha castanha ou púrpura na base. Estas manchas, existentes apenas em algumas espécies, parecem ser uma estratégia para atrair os insetos polinizadores.


No centro da flor podem ver-se os estames que são os órgãos masculinos da flor e que no seu conjunto formam o androceu. Repare-se também nos pistilos que constituem o gineceu ou seja os órgãos femininos dos quais fazem parte o estigma, o estilete e o ovário.

O conjunto floral está protegido por um cálice constituído por 3 sépalas caducas.
Por serem tão frágeis, as flores da Cistus ladanifer têm vida muito curta, geralmente deixando cair as pétalas pouco mais de um dia após terem aberto. Esta situação é largamente compensada por uma floração muito profusa, havendo flores constantemente a abrir enquanto decorre a época da floração.
As flores atraem uma grande variedade de borboletas e outros insetos, incluindo as abelhas as quais são grandes apreciadoras do pólen das Cistus ladanifer, com o qual produzem um mel muito aromático.



O fruto da Cistus ladanifer é uma cápsula globosa com vários compartimentos (entre 7 e 10) coberta de pelos espessos, curtos e enrolados sobre si próprios, cobrindo uniformemente toda a superfície. Este fruto assemelha-se a um pequeno cesto, ciste” em grego, palavra que derivou para o latim e deu o nome ao género cistus.



Tanto os caules como as folhas da Cistus ladanifer são pegajosas, agarrando-se à roupa e à própria pele. Isto deve-se ao facto de toda a planta segregar uma resina que tem como finalidade protegê-la da dissecação nos climas secos onde habita, limitando-lhe a transpiração.
Esta resina chamada ládano ou lábdano, está na origem do nome ladanifer que designa esta espécie e tem sido utilizada desde a Antiguidade para fins medicinais, sendo-lhe atribuídas propriedades sedativas. Era raspada do pelo das cabras e ovelhas que pastoreavam nos estevais ou recolhida através de varas forradas com tecido ou couro. Atualmente esta resina é extraída através de métodos mais modernos, entre os quais a destilação, sendo muito utilizada na perfumaria, essencialmente como fixadora de perfumes.

Apesar da semelhança do nome, convém não confundir esta resina com o láudano que é um extrato de ópio, com forte efeito sedativo e que esteve muito na moda na sociedade europeia dos séculos XVIII e XIX. O láudano era essencialmente consumido em preparações líquidas contendo também absinto, vinho, açafrão, canela ou outras especiarias.

Diz-se que Cistus ladanifer é um bom indicador biológico da degradação dos solos pois é pouco exigente e desenvolve-se melhor em locais menos férteis. Esta planta é também uma das primeiras a surgir na sequência do abate excessivo das florestas (pinhais, azinhais ou montados) ou da ocorrência contínua de incêndios, apressando-se a ocupar os espaços deixados vagos .
Daqui pode resultar que, ao substituirem outras espécies antes ali existentes, as Cistus ladanifer se tornem invasoras. No entanto, esta situação pode ser encarada como um mal menor na medida em que os solos, ao perderem a vegetação e a camada em decomposição fornecedora de nutrientes, ficam desprotegidos e expostos às intempéries. Não só as chuvas levarão os nutrientes ainda existentes no solo mas também arrastarão inevitavelmente o que resta da camada orgânica e seus agentes de decomposição, interrompendo todo o processo de enriquecimento do solo, consequentemente deixando os solos empobrecidos. 


Sobre os solos:
É preciso ter em conta que a decomposição é um processo fundamental para os ecossistemas, porque através dele são libertados elementos necessários para as plantas, sem os quais elas não conseguem desenvolver-se.
No dia a dia das florestas, os nutrientes vão ficando retidos na matéria orgânica fornecida pelas plantas que morrem e pelas folhas e ramos que caiem no chão. Este material vegetal é decomposto pelos micro-organismos do solo, a chamada fauna edáfica. A fauna edáfica é o conjunto de animais que trabalham o solo tais como minhocas, nemátodos, ácaros, larvas de insetos, besouros etc., uns na superfície, outros dentro do solo. Todos eles se alimentam de materiais orgânicos contudo são muito diferentes uns dos outros, podendo dizer-se que vivem numa sociedade bem organizada em que cada um tem a sua missão: uns funcionam como brigada de limpeza alimentando-se de folhas secas e bichos mortos, outros comem folhas verdes ou raízes vivas, outros ainda, comem pequenos animais que também vivem no solo. Estes pequenos animais são extremamente importantes para a manutenção dos ecossistemas terrestres uma vez que participam na decomposição de restos orgânicos que libertam os nutrientes minerais. É verdade que eles, por si só, não são capazes de fazer a decomposição mas ao digerirem os restos orgânicos existentes no solo  estão a prepará-los para a chegada dos fungos e bactérias que são, esses sim, os verdadeiros organismos decompositores.


Estudos sobre Cistus ladanifer:
Pelo facto de crescer e se desenvolver em zonas onde a maioria das plantas tem dificuldade em sobreviver a Cistus ladanifer tem sido alvo de alguns estudos, sobretudo no âmbito das áreas degradadas, junto a antigas minas de extração de minérios. Concluiu-se que estas plantas não só asseguram uma boa cobertura dos terrenos como também diminuem a erosão dos solos provocada pelas chuvas e pelos ventos. Por outro lado as Cistus ladanifer criam condições edáficas que contribuem para o desenvolvimento de outras espécies aumentando assim a biodiversidade.
Acontece que em Portugal existem cerca de 200 minas que cessaram a sua atividade e se encontram abandonadas, deixando em seu redor a consequente degradação dos ecossistemas. Os solos foram profundamente remexidos e degradados mas o mais grave é a contaminação dos solos e lençóis friáticos por metais pesados como estanho, chumbo, arsénico, cádmio, tungsténio e zinco. Usaram-se as plantas de Cistus ladanifer para estabilizar as escombreiras onde não existia vegetação e verificou-se que elas se desenvolveram rapidamente. Observou-se também que elas não só têm a capacidade de se desenvolver normalmente nesses solos contaminados como também de absorver os metais pesados sem que no entanto apresentem sinais de fitoxicidade. Esta estratégia de tolerância a elevadas concentrações de elementos químicos desenvolvida pela Cistus ladanifer é, sem dúvida, uma boa notícia. Esperemos que estes estudos não fiquem apenas na teoria e que o trabalho até aqui desenvolvido seja aproveitado no sentido de proceder à recuperação de espaços tão degradados e poluídos, com benefício para os ecossistemas e consequente incentivo da biodiversidade nessas áreas. Interessante verificar que a própria natureza pode ajudar o Homem a emendar os erros que contra ela cometeu. Assim, o Homem queira!

Fotos - Caniçal/Lourinhã


24 comentários:

  1. ouvi dizer que as pétalas são comestiveis, será verdade?

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  2. Olá Sérgio,
    As pétalas sao na realidade comestiveis, podendo ser uteis na decoraçao de pratos gastronomicos. O probema é que tem de se usadas logo após a colheita e ter em conta que só duram 1 dia.
    Cumprimentos
    Fernanda

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  3. muito, muito interessante!
    a Esteva traz-me memórias antigas na minha história -- viagens pela Serra Algarvia sob um calor abrasador e o seu odor enjoativo (na altura nem sabia do que se tratava, acho que pensava que era o cheiro natural daquelas paragens... bom, e é!)
    obrigado por este artigo sobre o que é nosso e é tantas vezes injustamente esquecido! : )

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    1. Olá Jorge Beleza,
      O olfato é de facto um sentido extraordinário pela forma como atua sobre a nossa memoria e nos faz regressar ao passado. No meu caso o cheiro da esteva mistura-se com o dos pinheiros e leva-me até à Beira Baixa e aos meus tempos de criança quando eu passava as ferias em casa dos meus avós. Ainda lá vou hoje em dia mas o cheiro que anda no ar sempre me transporta para épocas
      remotas.
      Obrigado por colaborar com o seu comentário.

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  4. Olá, bom dia

    Aromas Silvestres iniciou a produção do LÁDANO da Esteva “Cistus Ladanifer” muito utilizado na Perfumaria (fixador e activador de perfumes/aromas), na Aromaterapia (calmante, estimulante e relaxante dos músculos), na Cosmética (óleo de massagem) e também na saboaria.

    Na produção do nosso LADANO é utilizada Esteva (Cistus ladanifer) cultivada em modo de produção silvestre e o processo de extração utilizado, diluição a 310 ºC (590 ºF) em diluente certificado para fins medicinais, permite-nos garantir um elevado teor da fracção neutra do composto não volatil, conferindo ao produto final uma reforçada acção das suas características.

    Mais informamos que, estamos prontos a fornecer amostras deste produto.

    Ficando a aguardar as V/ notícias
    Com os melhores cumprimentos
    José Manso

    Aromas Silvestres
    5350-370 VALE PEREIRO (Alfândega da Fé)-PORTUGAL
    Tlf. 351.279449105 351. 966007647
    «aromas.silvestres@hotmail.com»

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    1. Bom dia sr. José Manso,
      É bom saber que o nosso património pode ser factor importante na economia dinamizando regiões afastados dos grandes centros. Aqui fica informação para todos quantos visitam esta pagina.
      Cumprimentos
      Fernanda

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    2. Qual a quantidade de óleo essencial que se obtém por tonelada de esteva?

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    3. Ola Louis Nave
      As percentagens de extracao sao muito baixas pelo que por cada tonelada senobtem apenas 1 kg de oleo.
      Cumprimentos

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  5. a propos de esteva, cistus ladanifer...
    https://hiddenagendas.bandcamp.com/track/esteva-cistus-ladanifer-fragmento
    excelente artigo.
    numa perspectiva mais sensorial é muito impressionante o poder que o aroma da esteva tem de convocar memórias fundas e fundos sentimentos. remete para dias quentes de verão de céu azul, seja num pinhal de uma serra na beira, seja no caminho para enseada na costa alentejana...
    tal como a Fernanda descreve, são memórias 'fulgurantes'; tal como para a maior parte das pessoas, as memórias que são convocadas pelo cheiro do giz e da ardósia, ou da terra molhada pelas primeiras chuvas...
    bem-hajam!
    https://hiddenagendas.bandcamp.com/track/esteva-cistus-ladanifer-fragmento

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    1. Ola Brumo Gomas,
      Vejo que estamos em sintonia. Obrigada pelo comentario e cumprimentos
      Fernanda

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  6. Eu chamo-me Laura Azeitona...
    Quero vender mil quilos de estevas quanto pagam e como é que as estevas tem de estar, secas ou verdes?

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  7. Eu chamo-me Laura Azeitona...
    Quero vender mil quilos de estevas quanto pagam e como é que as estevas tem de estar, secas ou verdes?

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  8. Viva,
    Hoje estava a ver um documentário da BBC, com o David Attenborough, chamado "O Reino da Plantas", e a certa altura ele referia que a planta Cistus, típica do mediterrâneo, tinha a capacidade de incendiar-se espontaneamente quando as temperaturas atingiam ou ultrapassavam os 32º.
    É realmente verdade??...

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    1. Olá José Tomás,
      Quando as temperaturas são muito altas e o é clima muito seco a vegetação fica ressequida podendo acontecer a chamada combustão espontânea. No entanto o índice de flamabilidade varia conforme as espécies. Arbustos como Cistus ladanifer, C. salvifolius, ou C. crispus apresentam uma capacidade moderada de se inflamar, o quer dizer que a combustão espontânea poderá acontecer apenas em condições extremas. Em certas regiões do mediterrâneo, nomeadamente no interior do nosso país as temperaturas atingem muitas vezes os 40 graus ou mais, o que representa um risco não só para as espécies Cistus mas também para outras.
      Cumprimentos

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    2. Olá José Tomás,
      Quando as temperaturas são muito altas e o é clima muito seco a vegetação fica ressequida podendo acontecer a chamada combustão espontânea. No entanto o índice de flamabilidade varia conforme as espécies. Arbustos como Cistus ladanifer, C. salvifolius, ou C. crispus apresentam uma capacidade moderada de se inflamar, o quer dizer que a combustão espontânea poderá acontecer apenas em condições extremas. Em certas regiões do mediterrâneo, nomeadamente no interior do nosso país as temperaturas atingem muitas vezes os 40 graus ou mais, o que representa um risco não só para as espécies Cistus mas também para outras.
      Cumprimentos

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  9. Boas estou a fazer um trabalho sobre a esteva no aspecto mais místico da flor as cinco chagas de Cristo alguem pode ajudar-me com a sua historia como testemunho dos seus antepassados uma lenda quem sabe

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  10. Boa tarde , eu queria saber se posso utilizar as raízes secas para decoração do meu aquário?

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    1. Carmen,
      Todas as madeiras colocadas dentro de água sofrem deterioração mais ou menos lenta. Nesse processo libertam substâncias que vão poluir a água do aquário, sobretudo se for uma madeira colhida na natureza. Embora eu não seja especialista em aquários sei que as madeiras utilizadas nestes casos devem ser submetidas a um processo natural de conservação e cobertas com uma camada de resina especial para impermeabilizar. Se deseja colocar uma madeira para embelezar o seu aquário, sem risco de envenenar os seus peixes, recomendo que se dirija a uma loja especializada, pois eles podem ajuda-la.

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  11. Boa tarde, como posso propagar a esteva?

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    1. A esteva reproduz-se muito bem atraves de semente. Caso necessite de sementes pode adquiri-las contactando sementesdeportugal.blogspot.pt
      Cumprimentos

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  12. Vi, num documentário de David Attenborough, em agosto de 2015, que o "cistus" se autoinflama a cerca de 30º. Na altura alertei alguém para o facto de existir muito em zonas que todos os anos ardem sem razão aparente. Que me diz disso?

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    1. Sim, é um facto mas para que tal aconteça é necessário que se reúnam certas condicionantes. As cistus geralmente crescem sob coberto de pinheiros e outras árvores que lhes dão sombra e frescura, raramente chegando o cerne dessas plantas a atingir tais temperaturas. A possibilidade de acontecer autocombustao não está de parte mas esssas espécies existem há milhões de anos e não conheço registos de catástrofes por elas provocadas. Também os raios causam incêndios mas isso são incontornáveis problemas da natureza. O que eu sei é que que nunca houve incêndios como agora, em que se nota nitida mão humana. Não me diga que agora vamos por a culpa dos incêndios que deflagram de noite e em frentes de vários quilómetros nas coitadas das plantas?

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