"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





quinta-feira, 13 de abril de 2017

Genista tournefortii Spach

A tribo Genisteae

Genista tournefortii subsp. tournefortii em competição com outras espécies mediterrânicas
Entre tojos e giestas, muitas são as espécies arbustivas semelhantes que florescem nesta época do ano. As flores são do tipo papilionáceo e quase sempre amarelas. Nem sempre é fácil distinguir estas espécies pelo que, para simplificar há quem as separe em dois grupos: as que têm picos e as que os não têm. Às espinhosas, geralmente mais baixas e compactas, habituámo-nos a chamar tojos e as outras, de ramos finos e elegantes e folhas diminutas ou escassas, conhecemo-las por giestas. Porém, tal "classificação" é demasiado simplista e nem sempre corresponde à realidade. O grau de parentesco entre estas espécies é muito estreito e a sua evolução processou-se de forma tão complexa que, atendendo às suas tendências evolutivas foi necessário agrupar estas - e outras espécies relacionadas - num grupo taxonómico adicional denominado tribo, o qual se posiciona entre a subfamília e o género. Assim sendo, tojos e giestas pertencem à família Fabaceae/Leguminosae, subfamília Faboideae e tribo Genisteae mas distribuem-se por géneros diferentes: Cytisus, Ulex, Genista e mais alguns, menos representativos, como Pterospartum, Echinospartum, Stauracanthus e Retama (mencionados aqui apenas os géneros que ocorrem em Portugal). 
Genista tournefortii subsp. tournefortii
A tribo Genisteae inclui 25 géneros e cerca de 550 a 570 espécies distribuídas de forma predominante pela região mediterrânica, com dois centros de diversidade, um a oeste (Península Ibérica e Marrocos) e o segundo a leste (região balcânica). É grande a sua importância ecológica, principalmente nos países da região oeste mediterrânica onde a grande diversidade de espécies que a constituem colonizaram as florestas degradadas pelos fogos e desflorestação, tornando-se espécies dominantes e caracterizando a paisagem. 
Genista tournefortii subsp. tournefortii entre as estevas (cistus ladanifer)
As alterações climáticas e geológicas ocorridas há milhões de anos na região são causa e consequência da origem e distribuição das comunidades vegetais mediterrânicas, incluindo as identificadas em Genisteae
O cataclismo que propiciou a abertura do estreito de Gibraltar há cerca de 6 milhões de anos (permitindo a ligação do mar mediterrâneo ao oceano Atlântico), afetou a presente distribuição e  formação de diferentes espécies ibéricas e do norte de África, uma vez que, tendo constituído uma importante barreira para o fluxo de genes, pelo menos para plantas com mecanismos de dispersão de curta distancia, levou ao isolamento e à especiação por vicariância. 
Desde o final do Mioceno dois outros fatores históricos têm sido decisivos na forma como se distribuem as espécies e endemismos em redor do Mediterrâneo: o advento da seca de verão e, mais recentemente, o desenvolvimento de atividades humanas (Thompson, 2005).

NOTA:
A origem da especiação e distribuição das espécies resulta essencialmente de dois processos evolutivos, a dispersão e a vicariância.

A DISPERSÃO acontece quando uma população restrita a uma determinada área migra para outras áreas. Embora existam barreiras geográficas estas são ultrapassadas através de variados mecanismos de dispersão de sementes (levadas por animais, pelo vento, pela água). São várias as razões que induzem a esta migração, podendo depender do acaso, ser causadas por pressões intrapopulacionais ou por modificações ambientais. Com o passar do tempo, as espécies que migram acabam por se diferenciar da população original.

A VICARIÂNCIA é desencadeada por um ou mais eventos geológicos que leva à separação geográfica de uma determinada população, fragmentando-a. Mantendo-se a barreira que impede o contacto genético, as populações divididas evoluem de formas diferentes, conduzindo à formação de espécies diferenciadas. Convém notar que, "quando se fala de vicariância, acredita-se que a população ancestral ocupava o somatório das áreas habitadas hoje pelos seus descendentes, tendo sido dividida em populações menores pelo surgimento de barreiras que provocaram o isolamento entre subpopulações”.

Genista tournefortii subsp. tournefortii
As giestas do género Cytisus já foram referenciadas AQUI, com especial destaque para Cytisus grandiflorus, a vulgarmente conhecida giesta-das-sebes. Também os tojos do género Ulex tiveram AQUI o seu momento de glória. Assim sendo, esta parece ser a altura certa para fazer uma pequena apresentação sobre o género Genista.
Genista tournefortii subsp. tournefortii
Genista é um grande género, complexo e taxonomicamente difícil, cuja evolução genética revela poliploidias e aneuploidias (originando células onde há falta ou excesso de algum ou alguns cromossomas) relativamente recentes, que originaram espécies com alguma heterogeneidade. Estas espécies podem combinar espinhos com folhas ou apenas gerar folhas, geralmente de pequeno tamanho. As espécies do género Genista ocorrem na maioria dos países da Europa central e ocidental, embora a maior diversidade se encontre na Península Ibérica. Segundo o portal Flora-on, são 14 as espécies do género Genista que ocorrem em Portugal. 
Popularmente, se têm espinhos são apelidadas de tojos, se os não têm chamam-lhes giestas ou piornos. As representantes deste género assumem a forma arbustiva baixa, geralmente reunindo-se em maciços. Crescem em vários tipos de substratos, preferindo os solos altamente permeáveis. Ocorrem em diferentes condições climáticas, geralmente bem adaptadas a climas secos, limitando a transpiração através de estratégias adequadas como folhas pequenas ou espinhosas e/ou tomando a forma arredondada e densa semelhante a uma almofada, especialmente em zonas litorais mais batidas pelo vento.
A espécie Genista tournefortii é um endemismo do centro e oeste da Península ibérica e do noroeste de África. Consideram-se duas subespécies: a da Península Ibérica é Genista tournefortii subsp. tournefortii e a do norte de África (Marrocos) Genista tournefortii subsp. jahandiezii (Batt.) Talavera & P.E.Gibbs. 

Genista tournefortii subsp. tournefortii Spach

Genista tournefortii subsp. tournefortii
Esta é, pois, uma das muitas plantas do género Genista que são endémicas da Península Ibérica. Em Portugal ocorre sobretudo na faixa litoral centro (Beira litoral, Ribatejo e Estremadura) e também perto da fronteira com a Espanha (Trás-os-Montes e Beira Alta). Pode conferir mapa de distribuição em Portugal na Naturdata, em imagens por satélite, AQUI.
Genista tournefortii subsp. tournefortii
Forma um arbusto muito ramificado, baixo e alargado com cerca de 20 a 40 cm de altura. Os ramos são estriados,  lenhosos na base e cobertos de pelos compridos; podem ser ascendentes ou decumbentes, neste caso desenvolvendo-se rente ao solo, tornando-se ascendentes nas extremidades. 
Genista tournefortii subsp. tournefortii - ramos velhos espinhosos em contraste
 com os mais jovens, cobertos de folhas
Os ramos mais velhos apresentam alguns espinhos em vez de folhas, mas os mais jovens têm folhas numerosas. 
Genista tournefortii subsp. tournefortii - folhas

Genista tournefortii subsp. tournefortii - folhas
As folhas, de pecíolo pouco desenvolvido e cobertas de pelos longos, dispõem-se de forma alternada. As da base dos caules apresentam forma ovada e são menos peludas que as superiores, as quais são lanceoladas, assim como as médias.
Genista tournefortii subsp. tournefortii - inflorescência 
As flores reúnem-se no topo dos ramos em inflorescências de 2 a 5 cm que podem conter entre 6 a 30 flores e em cuja base existe uma bráctea de forma linear com 3 a 7 mm de comprimento
Genista tournefortii subsp. tournefortii - flor individual
Cada uma destas flores está ligada ao eixo da inflorescência por um pequeno pedicelo peludo de 1 a 2 mm de comprimento com bractéolas lineares inseridas a meio do pedicelo.
Genista tournefortii subsp. tournefortii - partes da flor
As flores apresentam corolas de um amarelo dourado e são tipicamente papilionáceas, com 5 pétalas desiguais. A mais vistosa, denominada estandarte é mais comprida que as alas mas bastante menor que a quilha, a qual é bastante saliente. A pétala estandarte tem forma ovada com o ápice arredondado e a base em forma de coração, podendo ser glabra ou apresentar alguns pelos no nervo médio dorsal. As alas são oblongas e glabras embora apresentem alguns cílios nas aurículas. A denominada quilha (constituída por duas pétalas com pontos de união) é comprida, oblonga e com uma franja de pelos curtos na sua metade inferior.
Genista tournefortii subsp. tournefortii - cálice
O conjunto das pétalas é protegido pelo cálice que nesta espécie é formado por duas sépalas verdes e peludas. Estão unidas na base formando um tubo curto, após o que se separam em dois lábios subdivididos de forma desigual; o lábio superior é o mais curto e está bipartido em lóbulos triangulares; o lábio inferior, mais comprido, subdivide-se em três dentes lanceolados em que o central é maior que os laterais.
Sob o ponto de vista reprodutivo as flores estão equipadas com órgãos masculinos e femininos. O androceu tem um total de 10 estames que não são todos iguais, ou seja, 4 estames são curtos com anteras basifixas (presas pela base) e os restantes 6 são compridos, 1 com antera basifixa e os outros 5 com anteras dorsifixas (inseridas no filete pelo dorso). 
Posição das anteras nos estames em Genista tournefortii. FONTE

Os estames são monadelfos, isto é, os filetes estão todos unidos e formam um tubo membranáceo em torno dos órgãos femininos.

Do ovário desponta o estilete cuja parte visível é o estigma, sobre o qual se fixa e germina o pólen.
Esta espécie floresce de abril a junho ou julho.
Os frutos são vagens estreitas e achatadas, encurvadas como uma foice, coberta de pelos em ambas as faces. Dentro dela existem 1 ou 2 sementes escuras e de forma ovóide.

Genista tournefortii subsp. jahandiezii (Batt.) Talavera & P.E.Gibbs. 
Esta é a subespécie endémica do norte de África, mais especificamente de Marrocos, e ocorre nas montanhas do Rife e cordilheira do Atlas Médio. Diferencia-se da subespécie ibérica por ter todas as folhas lanceoladas e pelas brácteas na parte inferior da inflorescência que, ou não existem ou têm tamanho inferior a 2,5 mm.

Fotos de Genista tournefortii subsp. tournefortii - Arribas do Caniçal/Lourinhã


Texto e fotos de floresdoareal.blogspot.pt 
(exceto quando especificada outra fonte).