"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





domingo, 23 de julho de 2017

Polygonum lapathifolium L.

Nomes comuns:
Erva-bastarda; erva-pessegueira; mal-casada

Polygonum lapathifolium
Polygonum lapathifolium pertence à família Polygonaceae e posso dizer que esta é uma das mais complexas em termos de taxonomia. Mas, afinal, não é o que ultimamente se tem dito da maioria das famílias e géneros botânicos?
As plantas apresentam características tão variadas e complexas que se torna cada vez mais difícil decidir a melhor forma de as agrupar. A classificação dos seres vivos, conhecida como taxonomia, teve as suas origens na Antiga Grécia. Foi reformulada e vestida de novo há quase 300 anos, quando Linnaeus desenvolveu o sistema de nomenclatura binominal. Este sistema ainda hoje é utilizado, apesar das profundas transformações que, entretanto, sofreu. Os microscópios eletrónicos permitem que os cientistas observem os organismos com detalhe muito maior e o sequenciação de todos os genomas permite que se façam distinções mais exatas entre organismos intimamente relacionados. 

A classificação antiga baseou-se essencialmente em critérios morfológicos mas o desenvolvimento das técnicas de ADN revelam grande quantidade de informações sobre a semelhança e relação entre os organismos que, em muitos casos, podem ir contra a classificação morfológica tradicional. Infelizmente, a tecnologia de ADN ainda é muito cara e demorada.
  
Os desenvolvimentos tecnológicos e científicos nos últimos 50 anos também mudaram o foco de biólogos. Linnaeus acreditava que as espécies faziam parte do plano de criação divina (ainda não existia a teoria da evolução e da seleção natural desenvolvida por Charles Darwin) mas os cientistas de hoje querem entender a natureza da vida e o processo da evolução e baseiam-se no princípio da ascendência comum. 

Sabemos hoje que Linnaeus subestimou o número de plantas da Terra. Posteriormente mais e mais espécies foram sendo descritas em jornais e publicações. Na ignorância do trabalho uns dos outros, por vezes, as mesmas espécies acabaram sendo descritas e registadas com nomes diferentes por dois ou mais autores, gerando uma confusão que chegou aos dias de hoje. Essa é apenas uma das razões que contribui para a listas de sinónimos bastante extensas de algumas espécies. 

A verdade é que nem todos os problemas vêm do passado. Apesar dos novos e sofisticados meios que podem ser postos ao dispor dos cientistas faltam, muitas vezes, os fundos que sustentem e possibilitem as investigações. Outro problema é a falta de consenso que resulta da escolha dos caracteres para análise que, sendo múltiplos, nem sempre são coincidentes, cada cientista tendo a sua própria opinião sobre quais são os fundamentais, pelo que as conclusões também resultam diferentes. Todos concordam que é preciso aperfeiçoar os sistemas de classificação mas, perante a grandeza da tarefa, o consenso não será fácil de conseguir, a breve prazo.

Polygonum lapathifolium
A família Polygonaceae inclui de 43 a 55 géneros, abrangendo de 1100 a 1200 espécies que ocorrem numa grande variedade de habitats situados maioritariamente em zonas temperadas do hemisfério norte com algumas espécies em regiões tropicais e subtropicais. 
Os membros de Polygonaceae são morfologicamente muito variados. Desde que a família foi reconhecida por Jussieu em 1789 a taxonomia de Polygonaceae tem sido continuamente revista. Em causa estão, sobretudo, a circunscrição de subfamílias, tribos e géneros. Muito resumidamente, numa das mais recentes revisões, esta família foi dividida em duas subfamílias, Eriogonoideae e Polygonoideae.

Polygonum, grupo a que pertence a espécie em questão no "post" de hoje, Polygonum lapathifolium, é o género mais alargado da subfamília Polygonoideae
Linnaeus estabeleceu o género Polygonum em 1754 como uma unidade heterogénea e alargada, nela incluindo diversas espécies não relacionadas e que não sabia onde mais poderia colocar. Desde logo, Polygonum passou a ser considerado um dos grupos mais problemáticos e a representar um grande desafio para os taxonomistas. 
Não cabe aqui a resenha das diferentes interpretações e consequentes alterações que Polygonum sofreu ao longo da sua história, em que foi subdivido em números variáveis de seções e subseções, desmembrado em diferentes géneros e tratado como tribo Polygoneae

Em "sentido amplo", Polygonum compõe-se presentemente de grupos mais pequenos de "sentido restrito", situação confirmada por estudos moleculares recentes. 
Dentro do sentido amplo de Polygonum incluem-se vários géneros sendo que um deles é o género Polygonum (em sentido restrito) e também o género Persicaria, entre outros. Menciono aqui o género Persicaria (descrito por Miller em 1754) porque a espécie Polygonum lapathifolium é incluída nesse género por alguns botânicos/sistemas e classificada como Persicaria lapathifolia
O género Persicaria é mais um pomo de discórdia, sendo considerado por alguns como parte de Polygonum (no sentido amplo) ou sinónimo de Polygonum (no sentido restrito) e por outros, como género de direito próprio, fazendo parte da tribo Persicarieae. Todo o historial é, na realidade, muito complicado.
  
Enfim, depois de dissecado todo o material disponível sobre o assunto, a única conclusão a que se pode chegar é que não há conclusão nenhuma. Ou seja,  a exacta circunscrição e classificação infragenérica de Persicaria Mill. e Polygonum L. ainda são tema de debate.

Segundo o portal Flora-on (Sociedade Portuguesa de Botânica) ocorrem em Portugal 13 espécies do género Polygonum, na sua maioria autóctones. 
Polygonum lapathifolium, espécie autóctone de Portugal continental e Madeira, naturalizada nos Açores.
Polygonum lapathifolium é uma espécie autóctone de Portugal continental e arquipélago da Madeira. Também ocorre no arquipélago dos Açores, embora como espécie introduzida e naturalizada.

De forma geral Polygonum lapathifolium distribui-se pelas regiões temperadas do hemisfério norte (Europa, oeste asiático) e África do Sul.

Polygonum lapathifolium
Esta espécie infestante prefere os locais húmidos ou inundados, nitrogenados e em pleno sol.
Esta é uma infestante anual, especialmente problemática em culturas de regadio na primavera e verão. Vive em habitats perturbados por atividades humanas, preferencialmente húmidos, não só em solos cultivados mas também ao longo de margens de cursos de água e em valas de escoamento. É particularmente abundante em solos ricos em nutrientes e de consistência friável. Consegue conviver com situações pontuais de redução de humidade e nutrientes mas é exigente no que diz respeito à exposição solar, sendo intolerante à sombra.
Polygonum lapathifolium
Os caules, finos e de cor avermelhada, são formados por nós e entrenós.
O sistema radicular de Polygonum lapathifolium é superficial e fibroso. 
Os caules são herbáceos e crescem de forma ereta ou ascendente, podendo chegar aos 80 cm de altura. São hastes finas, lisas e lustrosas, mais ou menos ramificadas, de cor verde ou avermelhada e formadas por nós e entrenós.
Vem a propósito referir que o termo Polygonum deriva do grego: “poly” = muitos e “gonu” = joelhos, referindo-se aos múltiplos nós inchados presentes na constituição dos caules.
Polygonum lapathifolium
Algumas folhas apresentam uma mancha escura em forma de V.
As folhas dispõem-se de forma alternada, ligando-se ao caule por um pecíolo curto; são inteiras e lanceoladas ou elípticas, mais largas perto da base e estreitando progressivamente para o ápice, com alguns pelos curtos e rígidos protegendo as margens do limbo. Algumas, mas não todas, apresentam uma mancha escura na pagina superior do limbo em forma de V . 
Polygonum lapathifolium
Página superior da folha em que se notam as glândulas mencionadas no texto
 e ainda os bordos protegidos por pelos curtos e rígidos.
As folhas podem ser glabras ou ligeiramente pubescentes, com indumento de pelos curtos e densos na página superior e pelos curtos, espessos e emaranhados na página inferior ou apenas ao longo das nervuras. A superfície das folhas apresenta inconspícuas glândulas resinosas, translucidas ou amareladas, em ambas as páginas ou apenas na inferior.
Polygonum lapathifolium
As ócreas são formadas por duas estípulas unidas e que envolvem os nós do caule.
Tal como é característico da família Polygonaceae, esta espécie possui duas estipulas que são membranosas e estão unidas e enroladas em torno dos caules no ponto onde as folhas se inserem no caule, fundindo-se com ele e formando uma estrutura cilíndrica denominado ócrea. As ócreas de Polygonum lapathifolium apresentam nervuras tipicamente proeminentes e avermelhadas, com a borda truncada ou com cílios curtos, tornando-se mais escuras e escamando com a idade.
Polygonum lapathifolium - Ócrea

NOTA sobre as estípulas:
Apenas cerca de um terço das angiospermas (grupo das plantas que dão fruto a partir da fecundação do ovário de uma flor, o maior e mais moderno grupo de plantas, englobando cerca de 230 mil espécies) possuem estipulas. Estas aparecem aos pares e variam de espécie para espécie, em tamanho e morfologia; podem ser estruturas laminares, glândulas, pelos, espinhos ou escamas; algumas são caducas e outras são perenes; por vezes são insignificantes, outras vezes são de tal forma desenvolvidas que se confundem com verdadeiras folhas, ajudando no processo da fotossíntese; podem transformar-se em gavinhas, para ajudar no crescimento vertical da planta ou em espinhos, como forma de reduzir a predação por vertebrados herbívoros; em muitas espécies as estipulas são pequenas e residuais, sem nenhuma função óbvia; noutras espécies evoluíram para nectários extraflorais atraindo formigas (com as quais estabelecem interações mutualistas, de que beneficiam tanto as plantas como as formigas).
A função primitiva das estipulas permanece algo obscura e a maioria das angiospermas que não as tem, não parece sentir-lhes a falta. Contudo, a ausência destas estruturas é tão importante como a sua presença, pois é um fator fundamental na identificação das espécies.

Polygonum lapathifolium - inflorescência
As flores de Polygonum lapathifolium agrupam-se em inflorescências cilíndricas, do tipo espiciforme, em que as flores sésseis se inserem de forma densa sobre um eixo alongado geralmente coberto de pequenas glândulas, assemelhando-se a uma espiga com cerca de 5 a 7 cm de comprimento. Estas inflorescências são longas, esguias e flexíveis, curvando-se para baixo de forma bastante atraente. Esta característica é única e marca a diferença em relação a outras espécies do mesmo género que apresentam inflorescências mais ou menos eretas.
Polygonum lapathifolium - flores agrupadas na inflorescência
As flores nunca abrem por completo. Cada pequena flor, com apenas cerca de 3 mm de comprimento apresenta 4 tépalas unidas na base. As tépalas são segmentos indistintos que constituem o perianto, fazendo as vezes de sépalas e pétalas e em cujo interior se situam os órgãos reprodutores masculinos e femininos. As tépalas apresentam uma gradação de cores que vai desde o branco até ao rosa-claro passando pelo esverdeado e apresentam glândulas amareladas na sua superfície. 
Polygonum lapathifolium
As setas indicam o contorno das nervuras das tépalas em forma de ancora, característico desta espécie.
Os pequenos pontos amarelos são as glândulas.
De forma característica, as tépalas apresentam uma nervação distintamente bifurcada, as nervuras curvando-se para baixo perto do ápice, com contorno semelhante a uma âncora. Este é um detalhe morfológico distintivo e único nesta espécie. 
O ovário tem 2 estiletes ligados pela base. Os estames são 6.

A floração ocorre desde o fim da primavera até ao fim do verão e dura cerca de mês e meio a dois meses.
As tépalas mantêm-se na planta durante a maturação dos frutos. Estes são aquénios que uma vez maduros apresentam cor muito escura e são brilhantes, de forma ovóide, por vezes grosseiramente triangulares e com os lados ligeiramente côncavos.
Polygonum lapathifolium
Frutos imaturos

Polygonum lapathifolium
As setas indicam os frutos maduros

Esta planta ressemeia-se naturalmente em locais que lhe sejam favoráveis, sendo esta a única forma de dispersão da espécie. Em média cada planta produz cerca de 800 a 850 sementes, as quais germinam principalmente durante a primavera. Para que a germinação se processe as sementes necessitam de passar pelos frios do inverno, quebrando a dormência.

Em face da sua ampla distribuição, hábito infestante e a sua relativa intolerância à sombra, Polygonum lapathifolium é potencialmente prejudicial em qualquer tipo de cultura de sementeira onde geralmente ocorre, brotando ao mesmo tempo que a sementeira se desenvolve.
A juntar aos seus efeitos competitivos, Polygonum lapathifolium serve de hospedeira a um significativo número de pragas prejudiciais à agricultura, nomeadamente o vírus do mosaico do pepino (CMV), Fusarium oxysporum que ataca as culturas do feijão, tomate ou espinafre, nematóides da haste da cebola, entre outros.
Em contrapartida, esta espécie é tremendamente importante para a vida selvagem. O néctar segregado pelas flores atrai moscas, vespas, abelhas e até pequenas borboletas. Uma enorme variedade de besouros e larvas de borboletas alimentam-se das folhas e outras partes da planta. Nas zonas húmidas as sementes são também uma fonte importante de alimento para varias espécies de patos e outras aves mais pequenas. Contudo, esta espécie não é do agrado dos herbívoros mamíferos devido ao seu sabor amargo e apimentado.

Polygonum lapathifolium pode ser confundida com Polygonum persicaria que é também autóctone no nosso país e que, muitas vezes, ocorre nos mesmo habitats.
Diferença nas ócreas das duas espécies que podem ser confundidas.
Foto da ócrea de Poligonum persicaria de Miguel Porto/Flora-on
A diferença mais óbvia entre as duas espécies reside na ócrea que em Polygonum persicaria é claramente ciliada ao contrário do que acontece com Polygonum lapathifolium

Em tempos idos, Polygonum lapathifolium foi usada em medicina tradicional. À semelhança do que acontece com outras espécies da mesma família esta planta contém compostos orgânicos com ação terapêutica no tratamento de algumas patologias. As propriedades antioxidantes, hepatoprotetoras e anti-inflamatórias devem-se à presença de substâncias químicas complexas de composição variada produzidas através dos metabólitos secundários e que existem nas partes aéreas da planta, nomeadamente Calconaflavonóides e ácido gálico.

Os metabólitos secundários:
As plantas sintetizam um enorme número de químicos, de natureza muito diversificada. Estes químicos podem ser divididos em metabólitos primários e secundários.

Os metabólitos primários incluem os químicos essenciais para o crescimento e desenvolvimento de todas as plantas, como a fotossíntese ou o metabolismo respiratório.

Os metabólitos secundários são estrutural e quimicamente muito mais diversificados que os metabólitos primários e referem-se a compostos presentes em células especializadas que, não sendo diretamente essenciais, são, ainda assim, necessários para a sobrevivência das plantas.
Os metabólitos secundários são capazes de responder eficazmente às situações de stress, aparentemente atuando como defesa (contra herbívoros, micróbios, viroses ou plantas concorrentes) como sinalização (para atrair polinizadores e animais dispersores das sementes) e também como antioxidantes e protetores da radiação solar.

Existem milhares de metabólitos secundários e são eles os responsáveis pelas propriedades terapêuticas registadas em tantas plantas consideradas medicinais.

Fotos: Abelheira/Lourinhã



terça-feira, 6 de junho de 2017

Scrophularia scorodonia L.

Nomes vulgares:
Escrofulária; erva-do-mau-olhado; japão; trolha

Scrophularia scorodonia var. scorodonia
Foto de Javier Martin
Fonte: Wikimedia commons
Scrophularia scorodonia, muitas vezes apelidada de erva-do-mau olhado, já não consta das listas de plantas modernamente “prescritas” como antídoto para invejas, energias negativas e quejandos. Como diz o povo, “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” e até as ervas especializadas em quebrar feitiços podem ser vítimas da modernidade. Também não há duvida que esta planta - em tempos idos, muito usada em fitoterapia tradicional por lhe serem atribuídas propriedades vulnerárias e anti-inflamatórias - passou de moda, tal como tem acontecido a tantas outras que foram caindo no esquecimento. Apesar das suas belas folhas de um tom verde musgoso, facilmente passa despercebida no meio de outras porque as suas flores, apesar de muito interessantes, são pequenas e pouco compactas. Não é, pois, uma planta que se destaque e isso paga-se em falta de popularidade.
Scrophularia scorodonia var. scorodonia - hábito
Scrophularia scorodonia é uma herbácea perene e rizomatosa que vive em habitats húmidos, em situação de pleno sol ou meia sombra, nomeadamente na orla dos bosques, nas margens de rios e ribeiros ou em valas de escoamento de águas da chuva. Não é uma espécie seletiva quanto às condições edáficas e embora mostre alguma preferência por solos moderadamente enriquecidos com nitrogénio não está presente em solos muito fertilizados. 
Scrophularia scorodonia var. scorodonia
É uma espécie essencialmente de climas temperados. A sua distribuição natural estende-se pela Europa atlântica, nomeadamente Sul da Grã-Bretanha, Oeste de França, Espanha,  Portugal (incluindo as ilhas) e também noroeste de Marrocos.
No que diz respeito à Península Ibérica esta espécie apresenta duas formas com caracteres morfológicos bem definidos. São classificadas como variedades por serem variações insuficientes para serem consideradas subespécies. Assim, temos: 
1- var. scorodonia:  
Esta é a variedade mais comum. É nativa de todo o território nacional desde o continente até aos arquipélagos de Madeira e Açores. Esta variedade Integra plantas claramente pubescentes à primeira vista. Os caules, a página inferior das folhas e os pecíolos são densamente pubescentes, com pelos patentes (inseridos segundo um angulo de cerca de 90 graus com o eixo). 
2- var. glabrescens: 
Esta variedade só pode ser encontrada no sudoeste da Península Ibérica onde é endémica. Caracteriza-se pela ausência de pubescência, à primeira vista. Contudo, ao serem observadas ao microscópio nota-se-lhes uma pubescência rala e inconspícua de pelos muito curtos. No que diz respeito a Portugal, a Flora Iberica regista a presença desta variedade no Alentejo e Estremadura.

NOTA:
Não devemos confundir os termos “variedade” e “cultivar” os quais, botanicamente falando, não são sinónimos.
Variedade (var.) é um grau dentro da escala taxonómica e que se situa abaixo de espécie. 
Cultivar, sendo usado como substantivo, refere-se a uma variedade híbrida obtida mediante cultivo (do inglês, contração das palavras cultivated + variety).

Scrophularia scorodonia var. scorodonia:
Distribuição em Portugal continental de Scrophularia scorodonia var . scorodonia
Fonte: Flora Digital de Portugal
Jardim Botanico da UTAD
Scrophularia scorodonia var. scorodonia tem caules ascendentes ou eretos, de seção quadrangular, pouco ramificados e densamente pubescentes. O seu crescimento varia entre os 25 e os 150 cm de altura.
Scrophularia scorodonia var. scorodonia - caule
Foto de 
Kriss de Niort
Fonte
As folhas dispõem-se nos caules de forma oposta, aos quais se ligam por pecíolos curtos, embora mais compridos nas folhas inferiores que nas superiores.
Scrophularia scorodonia var. scorodonia - folhas
As folhas são inteiras, com limbo rugoso de cor verde-escuro, de forma ovado-lanceolada ou triangular-lanceolada, com ápice agudo e a base em forma de coração. As margens são duplamente recortadas, geralmente crenadas. As nervuras são muito marcadas e distribuem-se no limbo de forma muito abundante e reticulada, ou seja, cruzando-se umas sobre as outras. A página superior das folhas pode ser glabra ou escassamente pubescente mas a página inferior apresenta pelos longos e bastos, sobretudo ao longo das nervuras.
Scrophularia scorodonia var. scorodonia
As flores dispõem-se em inflorescências que crescem na axila de brácteas foliáceas. As inflorescências estão bem apartadas umas das outras e são do tipo cimeira, situação em que o eixo principal ou pedúnculo é de crescimento limitado terminando numa flor. Neste caso temos cimeiras bíparas ou dicásios pois abaixo da flor terminal, nas axilas das duas bractéolas subjacentes e que ultrapassam em crescimento o eixo principal desenvolvem-se dois eixos laterais opostos que também terminam numa flor. Este padrão repete-se nos eixos inferiores laterais, formando dicásios compostos. As primeiras flores a abrir são as que se encontram no topo da inflorescência.
Os pelos que cobrem os pedúnculos são finos, curtos, por vezes ligeiramente mais longos e cerdosos.
As brácteas assemelham-se às folhas e são mais compridas que os pedúnculos.
As bractéolas, com cerca de 1 cm, são linear-lanceoladas, densamente pubescentes ou hispidas, glandulosas, muito mais curtas que as cimeiras.
Scrophularia scorodonia var. scorodonia

Emergindo do interior da flor é bem visível o estigma, ansiando pela fertilização.

As flores são pequenas e fazem lembrar um animalzinho curioso e atrevido. 
A corola é composta por 5 pétalas orbiculares com as margens membranáceas, firmes e translucidas que se unem formando um tubo curto e globoso. Este abre-se para o exterior de forma peculiar: duas pétalas de cor purpura, separadas apenas na parte superior, formam o chamado lábio superior e erguem-se como se fossem duas orelhas arrebitadas; as restantes pétalas, de cor purpúreo-esverdeadas, estão dobradas para baixo deixando bem à vista os órgãos reprodutores. 
Scrophularia scorodonia var. scorodonia
As flores apresentam órgãos de reprodução masculinos e femininos e são polinizadas por insetos que recolhem o néctar segregado numa estrutura em forma de anel situada na base da corola aberta, entre o androceu e o gineceu.
Scrophularia scorodonia var. scorodonia
Para impedir a fertilização pelo seu próprio pólen estas flores socorrem-se de uma estratégia que consiste na separação temporal entre as funções masculinas e femininas. Mais especificamente, os órgãos sexuais femininos são os primeiros a amadurecer e a entrarem em atividade. Só quando estes deixam de estar recetivos é que é libertado o pólen.
O androceu consta de 4 estames férteis com anteras amarelas e ainda um estaminódio bem visível na abertura da corola, unido às pétalas do lábio superior e cuja estrutura é ligeiramente mais larga que comprida, arredondada ou elíptica, escamosa e esverdeada, podendo tornar-se avermelhada. O estaminódio é uma estrutura vestigial de um estame que por uma qual quer razão, perdeu a sua função original de produzir pólen.
Scrophularia scorodonia var. scorodonia
Embora cerca de 30% dos géneros da família Scrophulariaceae (a que pertence Scrophularia scorodonia) possua estaminódios ainda não foi possível determinar o padrão evolutivo destas estruturas que, dependendo das espécies, podem ser pequenos, grandes ou enormes. É provável que as espécies que possuem estaminódios de menor tamanho os venham a perder, estando eles condenados a desaparecer no seu processo de evolução. Contudo, parece que os estaminódios de maior tamanho estão a assumir novas funções. Ao contrário do que se podia pensar, não prejudicam a coleta de néctar nem alteram o tempo de visita do inseto polinizador, podendo até ser benéficos, atuando como barreira à entrada de chuva e evitando uma possível diluição do néctar. Além disso, uma vez que o seu posicionamento e tamanho permitem a sua visualização do exterior, passaram a ser mais um ponto de interesse e de atração para os polinizadores, aumentando o seu número de visitas e elevando o êxito reprodutivo da flor com a consequente incremento na produção de sementes. A dúvida que ainda permanece é se este órgão adquiriu uma nova função ou se está em processo de desaparecimento.

O gineceu consiste num único pistilo dividido em 2 carpelos, um único estilete e um ovário superior com 2 lóculos.
Scrophularia scorodonia var. scorodonia
Pormenor do 
cálice.
O cálice é composto por 5 sépalas ovais, de cor verde-claro, mais ou menos peludas e com a margem membranácea, inteiras ou ligeira e irregularmente dentadas.

A planta floresce e frutifica de março a junho ou julho.
O fruto é uma cápsula ovóide, mais comprida que o cálice dentro da qual existem numerosas e pequeníssimas sementes de cor escura.

Scrophularia scorodonia pertence ao género Scrophularia que engloba cerca de 200 espécies (Fischer 2004) e é um dos géneros mais importantes da família Scrophulariaceae. Distribui-se pelas zonas temperadas dos dois hemisférios, com maior concentração de espécies no sudoeste asiático. Muitas das espécies incluídas  em Scrophularia contêm propriedades medicinais e como tal, foram usadas durante séculos para combater diversas patologias como a sarna, eczema, psoríase, ulceras da pele e principalmente a escrófula (inflamação dos gânglios linfáticos do pescoço, associada à tuberculose) nome que, a partir do correspondente termo em latim “scrofula”, deu origem à designação do género e da respetiva família.
Muitas das espécies de Scrophularia são usadas como alimento pelas larvas de algumas Lepidoptera. Não raramente, este tipo de borboletas restringe a sua alimentação a um único tipo de planta, pelo que o seu desaparecimento de uma determinada área trará consequências graves para a sobrevivência das espécies que dela se alimentam. 

A família Scrophulariaceae foi recentemente reorganizada, tendo perdido muito dos seus membros. Numerosos estudos de filogenia (relação evolutiva entre as espécies) com dados moleculares demonstraram que determinados géneros não tinham afinidade genética com esta família, pelo que foram transferidos para outras, principalmente Plantaginaceae e Orobanchaceae. Tradicionalmente, esta família agrupava 5000 espécies divididas em 275 géneros. Consideravelmente emagrecida após o reajuste, a família Scrophulariaceae tem agora 65 géneros que totalizam aproximadamente 1700 espécies, com distribuição mundial. A importância económica desta família reside principalmente na indústria de plantas ornamentais.

Fotos do blogue: Zambujeira e Areia Branca /Lourinhã





quinta-feira, 11 de maio de 2017

Convolvulus tricolor L. subsp. tricolor

Convolvulus tricolor subsp. tricolor
Corriola e gloria-da-manhã são nomes populares que referenciam algumas espécies de grupos taxonómicos diferentes, mas todas incluídas na família Convolvulaceae. Em território português esta família é representada por 6 géneros, entre os quais Convolvulus, Calystegia (que são autóctones) e Ipomoea (espécies exóticas).
São plantas sobejamente conhecidas e facilmente identificáveis pelas suas características flores em forma de trombeta, quer vestidas de branco, rosa, azul ou violeta, extremamente atrativas para diversos tipos de insetos essenciais à sua reprodução. São também denominadas bons-dias, campanelas, verdizelas ou madrugadas, entre outros nomes partilhados pela maioria destas espécies.
Convolvulus tricolor subsp. tricolor
Fazendo jus aos seus apelidos populares, as flores de muitas destas espécies abrem antes do nascer do dia, aproveitando ao máximo a hora a que os insetos mais madrugadores já andam a procurar alimento. Contudo, a vida destas flores é muito breve pois murcham durante a tarde. Esta situação não é invulgar. Existem plantas cujas flores apenas ficam abertas durante alguns minutos (como é ocaso da hera, Hedera hélix); em contrapartida, outras há que duram mais de 10 dias. Cada caso é um caso e todas as situações têm uma razão. No caso presente parece que não se trata de uma mera programação genética. Alguns estudos sugerem que o tempo de abertura destas flores depende do tempo que levam a ser polinizadas. A rápida polinização resulta num emurchecimento mais rápido das pétalas, o que pode ser uma estratégia comportamental adaptativa para reduzir custos de energia decorrentes da manutenção das peças florais. Uma vez terminada a sua missão de atrair os polinizadores, deixaram de ser necessárias. 
Um dos suportes desta teoria reside no facto de flores ainda não polinizadas ficarem abertas durante mais tempo do que as já fecundadas, o que aumenta as probabilidades de uma polinização bem sucedida. Desta forma, a planta canaliza estas poupanças de energia na produção de mais flores, o que na realidade acontece de forma continuada durante todo o seu período de floração.
Convolvulus tricolor subsp. tricolor
A bela Convolvulus tricolor é uma destas espécies. Floresce por esta altura do ano, mais especificamente de março a junho, de preferência em terrenos secos e argilosos, em campos de cultivo, valas e bermas de caminho, pastagens e prados. 
Convolvulus arvensis - Veja mais AQUI

Convolvulus althaeoides - Veja mais AQUI

Ao contrário de outras espécies do mesmo género (Convolvulus arvensis ou Convolvulus althaeoides) que tantas vezes convivem nos mesmos habitats, esta não é uma espécie invasora. 
Cultivada em jardins pode acrescentar muito interesse como planta anual, desde que cultivada em pleno sol. O alegre colorido das suas corolas e os longos caules prostrados tornam-na especialmente indicada para cestos suspensos, jardins de rocha e bordaduras, onde o seu efeito pode ser verdadeiramente deslumbrante. 
Apesar de lhe faltarem os ímpetos invasores o seu cultivo generalizado como ornamental teve como consequência a naturalização fora das fronteiras de difusão natural da espécie, o que ocasionalmente torna difícil delimita-las com precisão.

Distinguem-se duas subespécies:
- Convolvulus tricolor subsp. tricolor que se  distribui sobretudo pela região mediterrânica: Portugal, Espanha, França, Itália, Grécia, Marrocos e Argélia. É cultivada como adventícia na Turquia, Creta, Líbano, Medio oriente e Paquistão.
- Convolvulus tricolor subsp. cuprianus que se distribui pelo mediterrâneo central: Malta, Sicília, Marrocos, Argélia e Tunísia.
Estas duas subespécies diferenciam-se pelas sépalas do cálice que na subespécie tricolor se dividem em duas partes dissemelhantes, ao contrário do que acontece na subespécie cuprianus.
As plantas ibéricas correspondem à subespécie tricolor que em Portugal cresce de forma espontânea no Algarve, Baixo Alentejo, Beira Litoral, Estremadura, Ribatejo e Trás-os-Montes e também no arquipélago da Madeira.
Convolvulus tricolor subsp. tricolor
Convolvulus tricolor subsp. tricolor é uma herbácea, de hábito prostrado ou ascendente. Os caules, de cor avermelhada, são simples ou escassamente ramificados e estão revestidos de pelos densos, particularmente na parte superior. 
Convolvulus tricolor subsp. tricolor- caule
Estas plantas são anuais ou raramente, perenes de vida curta. Muitas vezes iniciam o seu ciclo de vida no Outono através da formação de uma roseta de folhas ao nível do solo. No final do Inverno regista-se um rápido alongamento dos caules e internós da roseta, de modo que os caules se esticam até aos 45 ou 50 cm de comprimento. Após a floração e uma vez maduros todos os frutos, os caules secam e morrem. Entretanto, na base da planta podem formar-se rebentos que darão origem a uma nova roseta de folhas que se tornará visível no outono seguinte. Neste tipo de crescimento a roseta de folhas protege as gemas de renovo do vento, do sol, do frio e dos herbívoros e está perfeitamente adaptado ao tipo de clima mediterrânico caracterizado pelos verões quentes, secos e ventosos e os invernos frios e chuvosos.
Convolvulus tricolor subsp. tricolor - folhas superiores
Na ausência de pecíolo, as folhas inserem-se nos caules diretamente pela base do limbo, de forma atenuada; são inteiras, com nervuras bem vincadas, glabras ou pubescentes, com pelos mais compridos nas margens. Forma e tamanho do limbo variam ligeiramente entre as folhas inferiores que são espatuladas ou oblanceoladas com um pequeno chanfro a meio do ápice e as superiores que são espatuladas ou oblongas com ápice obtuso.
Convolvulus tricolor subsp. tricolor
As flores têm corolas azuis com o centro em tons de branco e amarelo. Crescem solitárias no topo de longos pedúnculos eretos que emergem da axila das folhas superiores os quais apresentam 2 bractéolas de forma linear. Estes pedúnculos são eretos durante a floração mas encurvam durante a frutificação, não só pelo peso acrescido do fruto mas também porque continuam a crescer e se tornam um pouco mais longos.
Convolvulus tricolor subsp. tricolor - Bractéolas e cálice
Convolvulus tricolor subsp. tricolor - Cálice
O cálice é mais ou menos acampanulado, com as 5 sépalas diferenciadas em duas partes morfologicamente diferentes. A inferior tem forma oblonga, convexa e é ligeiramente coriácea durante a floração. A parte superior é mais curta, amplamente ovada e as extremidades herbáceas terminam de forma aguda e ligeiramente curva. O crescimento do cálice prossegue mesmo depois da fecundação e até o fruto atingir a maturação.
Convolvulus tricolor subsp. tricolor - flor aberta e flores enroladas em botão
A corola é afunilada e em forma de trombeta, morfologia que resulta da fusão das 5 pétalas que a constituem. Quando a flor ainda está em botão, as peças florais (sépalas e pétalas) apresentam-se dobradas umas sobre as outras de forma contorcida ou espiralada, parecendo um guarda-chuva bem enrolado. 
Convolvulus tricolor subsp. tricolor - pétalas vincadas pelo enrolamento apertado
Curiosamente, quando as flores abrem, as pétalas apresentam vincos nos pontos onde estavam dobradas. 
Convolvulus tricolor subsp. tricolor - o limbo das pétalas é reforçado por 5 nervuras
De forma característica existem 5 nervuras bem visíveis a meio do limbo de cada uma das pétalas, as quais não só reforçam a arquitetura floral como também encurvam as pétalas para fora e ajudam no processo do desenrolar da corola quando ela se abre na ântese. 
A corola apresenta 3 bandas transversais de cores bem diferenciadas, amarela na base, branca na zona intermédia e azul-violeta na parte superior. Estas bandas coloridas formam padrões visuais destinados a guiar os insetos em direção ao néctar e ao pólen, disponível no centro da flor.
  Convolvulus tricolor subsp. tricolor
Nesta foto veem-se os filetes dos estames unidos formando uma coluna, as anteras com as suas listas azuis e ainda, os dois braços do estigma emergindo de entre os estames.
Estas flores apresentam órgãos reprodutores masculinos e femininos. Os estames são 5, com filetes comprimidos formando um a coluna curta que torneia o estilete, mas deixa abertas 5 estreitas passagens que conduzem ao néctar. Assim, ao entrar na flor, o corpo do inseto toca nos estigmas, ao mesmo tempo que fica empoado de pólen. 
As anteras são lisas e brancas mas com duas linhas azuladas. 
O disco nectarífero é intrastaminal ou seja, posiciona-se em forma de anel no centro da flor, em redor do ovário e dos estames. 
O ovário é pubescente e dele desponta um estilete que se divide em dois estigmas de cor branca. 
Convolvulus tricolor subsp. tricolor
Fruto capsular em vias de maturação, envolvido pelo cálice
O fruto é uma cápsula arredondada, pubescente até à maturação e dentro da qual se encontram 4 sementes de cor muito escura.

Sob o ponto de vista taxonómico Convolvulus tricolor inclui-se na complexa família Convolvulaceae, subfamília Convolvuloideae, tribo Convolvuleae e género Convolvulus.

Convolvulaceae:
A família Convolvulaceae, inclui cerca de 1650 espécies, agrupadas em diversas subfamílias e/ou tribos e 55 géneros que se concentram em regiões de clima tropical e subtropical, com apenas 10 % das espécies nas zonas temperadas. A família apresenta aspetos morfológicos bem definidos, como as flores em forma de trombeta e outras características bem marcantes próprias de climas secos. De forma geral, são plantas eretas ou prostradas e até trepadeiras volúveis que se enrolam sobre si próprias ou nas plantas vizinhas. Foi esta característica que deu nome à família o qual deriva do latim “convolvo” ou "convolvere"= entrelaçar.
Esta família conta com muitas espécies adventícias, ou seja naturalizadas, cuja distribuição está ligada a atividades humanas de dispersão intencional. Em contrapartida, a quota de endemismos é bastante grande.
Uma das características anatómicas mais percetíveis das Convolvulaceae é a existência de células foliares e/ou radiculares que segregam resinas glicosidicas (metabolitos secundários), responsáveis pelas propriedades purgativas, analgésicas e alucinogénicas de algumas espécies desta família.

Sob o ponto de vista taxonómico Convolvulaceae não tem sofrido muitas alterações desde que foi descrita por Jussieu em Genera Plantarum, em 1789. Contudo, a capacidade que exibe na diversificação e capacidade de colonização de regiões afastadas por todo o mundo, tem suscitado o interesse dos botânicos e diversos estudos têm sido realizados nas últimas décadas. Não é, pois, de admirar que se suscitem duvidas e se proponham alterações tal como acontece com a maioria das famílias de angiospermas.

Esta família foi dividida em 3 ou 4 subfamílias que por sua vez se subdividem num numero de tribos variável, oscilando entre 3 e 12. Embora, de forma geral, tenha havido consenso no que diz respeito à relação entre estes grupos, existe ainda alguma controvérsia quanto à sua classificação taxonómica. Um dos pomos de discórdia é o grupo Cuscutoideae or Cuscutaceae, cujo único género Cuscuta (também presente em Portugal) alguns botânicos prefeririam segregar da família por serem espécies parasitas com especificidades a nível da corola e embrião.
Certos autores também discordam sobre a delimitação de alguns géneros dentro da família baseando-se nas variações do tamanho, forma ou pubescência das brácteas, sépalas, corola e pólen e também tendo em conta a forma e divisão dos estigmas e algumas características diferentes nas sementes.
Ipomoea batatas (flor da batata-doce)
Foto de H.Zell. Fonte Wikimedia commons
O maior género desta família é Ipomoea com 500 a 600 espécies, de distribuição tropical e no qual se inclui a espécie alimentar Ipomoea batatas, a nossa conhecida e apreciada batata-doce.
Na região mediterrânica e mais especificamente em Portugal, os géneros autóctones mais representativos da família Convolvulaceae são Calystegia e Convolvulus, os quais estão estreitamente relacionados. A característica mais evidente que diferencia os dois géneros reside na existência de bractéolas grandes e empoladas no género Calystegia que quase escondem as sépalas, como podemos rever em Calystegia soldanella
Calystegia soldanella. Veja mais AQUI
Convolvulus:
Estudos muito recentes estimam que o género Convolvulus inclui cerca de 200 espécies que se distribuem por todos os continentes, em regiões de clima temperado e subtropical. O seu maior centro de diversidade situa-se na área geográfica próxima ao mar Mediterrânico e Ásia Ocidental, com outros centros de diversidade na Ásia Oriental e na América do Sul temperada, no sul e no leste da África e na Australásia, ou seja, as três zonas temperadas do hemisfério sul.
É um género característico de habitats pedregosos e arenosos, essencialmente secos, desde o nível do mar até aos 3000 mt de altitude. 
Algumas espécies são invasoras e altamente prejudiciais em campos cultivados, outras são economicamente importantes no comércio das plantas ornamentais e até no ramo farmacêutico. 
Na generalidade, são espécies subcosmopolitas, mas algumas são endemismos e ocorrem em áreas muito restritas.

Convolvulus fernandesii é uma das espécies de distribuição confinada a uma determinada região. Na realidade é um endemismo português. É muito rara e a sua distribuição mundial restringe-se à Serra da Arrábida, mais especificamente ao curto espaço da costa que vai de Sesimbra ao Cabo Espichel. Floresce durante a primavera e cresce nas escarpas, entre fendas e afloramentos rochosos, em locais quase inacessíveis, razão pela qual terá passado despercebida durante séculos. Foi publicada no Boletim da Sociedade Broteriana pelo botânico português Pinto da Silva (P.Silva &Teles)  apenas em 1980.
Convolvulus fernandesii - Foto de Sérgio Chozas
Fonte Flora-on
É um arbusto perenifólio de caules volúveis e entrelaçados. Os caules mais velhos são glabrescentes e lenhosos mas as hastes mais jovens são pubescentes. As folhas são pecioladas, elípticas ou oblongo-elípticas, com o ápice arredondado ou truncado. As flores, em grupos de 3 a 6, reúnem-se em inflorescências axilares, são pedunculadas e apresentam bractéolas. As 5 pétalas são brancas e estão unidas tomando a forma afunilada característica da família e do género. As sépalas são obovadas ou elípticas com pontas curtas, agudas e rígidas.
Esta é uma espécie protegida ao abrigo do Estatuto Directiva de Habitats 92/43, como espécie prioritária do Anexo II e anexo IV.
Veja mais sobre esta espécie AQUI e AQUI.

Fotos:
Calystegia soldanella: Praia da Areia Branca/Lourinhã
Convolvulus tricolor subsp. tricolor: Zambujeira e Areia Branca/Lourinhã
Convolvulus arvensis: Serra do Calvo/Lourinhã
Convolvulus althaeoides: Arribas do Caniçal /Lourinhã