"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





sábado, 15 de Novembro de 2014

Geranium molle L.

Nome comum: Bico-de-pomba-menor

Geranium molle é uma espécie de origem europeia (desde a Península Ibérica e bacia do Mediterrâneo até à Escandinávia), arquipélagos da Madeira e Canárias, Ásia temperada e tropical e Norte de África. Foi introduzida no arquipélago dos Açores, África do Sul, Austrália e continente americano onde se naturalizou, sendo considerada uma erva invasora em algumas destas regiões.
Esta planta é frequente praticamente em todas as regiões do nosso país, embelezando a beira dos caminhos, muros de pedra e terrenos incultos ou de pousio, contribuindo para a riqueza nutritiva e a regularização da humidade dos solos. Também consegue desenvolver-se em situações de grande pressão ambiental, quer em terrenos degradados por lixos e entulhos, quer na proximidade de habitações citadinas. Geralmente cresce associada a outras plantas de morfologia semelhante, sejam do mesmo género ou de géneros aparentados, nomeadamente G.dissectum, G. rotundifolium, G. purpureum e também Erodium malacoides e E. moschatum. Falaremos destas espécies em futuras publicações e da melhor forma de as distinguir.
Se lhe for permitido crescer em jardins, Geranium molle torna-se muito útil como cobertura de solo, impedindo a proliferação de ervas indesejadas. Espalha-se pelo chão em comprimento ou se preferirmos, pode crescer em altura desde que lhe providenciemos apoio. É uma planta anual mas cresce rapidamente e ressemeia-se com facilidade, sendo no entanto relativamente fácil restringir-lhe o tamanho. Cresce bem em locais sombreados mas prefere o sol pleno.
Geranium molle é uma espécie da família Geraniaceae e está incluída no género Geranium. Pode ver mais detalhes sobre esta família e género AQUI

O nome específico molle vem do latim e significa mole ou suave, numa clara referência ao tipo de pelos que cobrem as diferentes partes da planta, os quais são brancos e macios, uns maiores que os outros; os pelos mais curtos estão providos de glândulas secretoras de substâncias aromáticas, ao contrário dos pelos compridos que não possuem glândulas. Esta é uma característica própria que nos permite distinguir esta espécie de outras semelhantes.
Os caules de Geranium molle são muito ramificados, tenros e frágeis, eretos ou ascendentes e podem chegar aos 60 cm de comprimento.
Na generalidade, as folhas apresentam um contorno arredondado bem visível mas o limbo apresenta recortes profundos formando entre 5 a 7 lóbulos, os quais por sua vez também se encontram recortados, terminando num ápice arredondado.
A maior parte da folhagem nasce ao nível do solo formando uma espécie de roseta à qual as folhas estão ligadas por longos pecíolos. 
Em contrapartida, as folhas dos caules superiores são de tamanho bastante mais pequeno e mostram pecíolos muito reduzidos.
De forma geral, as pequenas flores nascem em grupos de 2 ou 3, na axila das folhas superiores e estão providas de longos pedúnculos, os quais são eretos durante a floração mas que se curvam para baixo quando se inicia a frutificação. 
São flores pequenas mas muito mimosas, com 5 pétalas de cor rosa ou lilás, apresentando um entalhe profundo no ápice que parece dividir cada pétala em duas. Durante a floração esta característica permite distingui-la de imediato de outras espécies da mesma família.  
As 5 sépalas que formam o cálice apresentam cor verde e são livres, eretas e algo rígidas; externamente, estão cobertas por pelos curtos glandulares e por pelos compridos mas sem glândulas; embora sejam ligeiramente mais curtas que as pétalas, continuam a crescer após a floração e até à maturação do fruto.
Pormenor dos órgãos reprodutivos da flor.
Fonte: Wikipedia
As flores estão munidas de órgãos reprodutivos masculinos e femininos funcionais. Os 10 estames, fusionados na base, apresentam anteras bilobadas de um bonito tom azulado; dispõem-se em duas séries em redor do ovário, de forma que os 5 da série externa estão opostos às pétalas e alternam com os 5 da série interna que se situam opostos às sépalas; na base de cada um destes últimos existe uma glândula nectarífera. Encaixados entre os estames podem ver-se os 5 braços estigmáticos de aspeto aveludado e bela cor púrpura, cuja missão é recolher os grãos de pólen que serão conduzidos ao ovário através do estilete.
Esta espécie floresce durante a primavera e verão, época do ano em que a concorrência é grande entre as plantas que precisam de ser polinizadas. Alimento não falta aos insetos que têm muito por onde escolher e as flores do Geranium molle tentam compensar a pouco visibilidade que lhes confere o seu diminuto tamanho, oferecendo néctar aos polinizadores. Ainda assim, imprevistos podem acontecer e Geranium molle prefere jogar pelo seguro. Isto é, sendo que o verdadeiro objetivo das plantas é a perpetuação da sua espécie através da produção de frutos, quantas mais sementes produzir, melhor. Nesta conformidade Geranium molle não fecha as portas à autopolinização, a qual, nesta espécie, é favorecida pela proximidade física de estigmas e estames, tanto mais que aqueles ficam recetivos quando as anteras dos estames da série exterior ainda não derramaram todo o seu pólen. É verdade que entre as plantas silvestres a polinização cruzada é mais comum e aparentemente desejável como forma de promover a variabilidade genética. No entanto, em certas situações a autopolinização pode ser mais vantajosa. Este é mais um assunto interessante que teremos de deixar para uma futura publicação.
Frutos imaturos: protegido pelas sépalas do cálice o ovário (formado por 5 compartimentos que irão dar origem a 5 sementes) começa a inchar e a coluna em forma de bico de ave começa a alongar-se.
O fruto de Geranium molle é um esquizocarpo. Este é constituído por um conjunto de 5 cápsulas ou mericarpos, cada um deles com a sua semente. 
Mericarpos de Geranium molle, em redor da coluna à qual estão ligados por uma arista.Fonte
Estes 5 mericarpos estão agrupados em volta de uma coluna alongada (formada pelo conjunto dos órgãos do pistilo – ovário, estilete e estigma), estrutura essa que, após a fecundação, se alonga e continua a crescer até à maturação das sementes, ficando semelhante a um bico de ave. 
Ilustração de semente e arista
Fonte
Cada mericarpo está ligado à coluna central através de uma arista, formação delgada, longa e rígida, constituída por tecidos especializados e sensíveis à humidade. 
Nesta foto apresentada pela Flora-on, Ana Júlia Pereira captou dois momentos chave na dispersão das sementes da espécie Geranium molle, o "antes" e o "depois": 
- À esq. ,  o fruto maduro nos momentos que antecedem a expulsão das sementes

-À dta. ,  o cálice vazio após as sementes terem sido catapultadas
Através das suas propriedades higroscópicas, as aristas têm um papel preponderante no complexo sistema de dispersão. À medida que as sementes amadurecem as aristas vão ficando desidratadas e distorcidas, produzindo tensão (semelhante à de um elástico esticado) que se acumula na estrutura até que, chegado o momento da rutura as aristas se dobram repentinamente, catapultando as sementes a considerável distância da planta-mãe. As sementes estão cobertas por uma substância viscosa com a qual se agarram às plantas circundantes. Assim que a unidade de dispersão (constituída pela semente e respetiva arista) chega ao solo, a rígida arista reage à humidade que aí encontra e impulsiona a unidade no terreno até que consiga alojar-se numa fenda que propicie a germinação. 

Embora não existam estudos que comprovem propriedades medicinais em Geranium molle, a verdade é que esta planta tem sido usada sob a forma de chás e infusões desde tempos antigos, na terapia de muitas maleitas, nomeadamente no tratamento de feridas ou úlceras e no alívio de dores musculares e articulares.


Fotos: Serra do Calvo/Lourinhã, exceto quando especificado

terça-feira, 4 de Novembro de 2014

Geraniaceae, Geranium, Erodium e Pelargonium

Família Geraniaceae
"Geraniaceae é um grupo monofilético bem definido" (Price & Palmer, 1993)  

Erodium cicutarium
Geraniaceae é uma pequena família botânica que contém cerca de 800 espécies, agrupadas em 7 géneros. O nome desta família deriva de Geranium, o género mais representativo. É que, as regras do ICBN estabeleceram que os nomes das famílias botânicas fossem construídos a partir do nome do género com maior representatividade, substituindo a declinação final pelo sufixo –aceae. Neste caso, Gerani(um)+aceae = Geraniaceae.
Os maiores géneros são Geranium (422 espécies), Pelargonium (280 espécies) e Erodium (60 espécies). 
Em Portugal esta família está representada pelos géneros Geranium com 12 espécies e Erodium com 9, segundo a Sociedade Portuguesa de Botânica, através do Portal Flora-on. O género Pelargonium não existe na natureza no nosso país; originários da África do Sul, os exemplares que por cá existem são espécies melhoradas ou híbridos, cultivados para fins ornamentais.
A grande maioria das espécies desta família encontra-se amplamente distribuída pelas regiões temperadas e subtropicais, sendo a região mediterrânica e a África do Sul os centros de maior diversidade. A sua importância económica resulta da comercialização de plantas ornamentais, especialmente as bem conhecidas sardinheiras (género Pelargonium) e da extração de óleos aromáticos usados em perfumaria, cosmética e aromaterapia. Na generalidade são plantas herbáceas ou subarbustivas, cobertas de pelos glandulares simples, folhas muito divididas e aromáticas, flores com 5 pétalas, 5 sépalas, 5 a 10 estames e 5 carpelos originando 5 frutos. 
Frutos de Geranium pupureum
A característica mais distinta desta família são os frutos. Estes encaixam-se em redor de uma coluna que na maturação se expande ficando semelhante a um bico de garça ou de cegonha. É este carater distintivo que está na origem dos nomes dos três géneros que hoje são aqui objeto de estudo. Os nomes Geranium, Pelargonium e Erodium derivam de termos gregos, respectivamente geranós (garça azul), pelargós (cegonha) e erodios (garça real).
Embora sejam diferentes, tem havido grande confusão entre os géneros Geranium e Pelargonium, situação que se prolonga desde a época em que as espécies pertencentes aos três géneros foram todas englobadas no género Geranium. Tal aconteceu numa época em que as sardinheiras e outras espécies exóticas pertencentes ao género Pelargonium geravam grande excitação na Europa botânica e assim, à falta de nomes tradicionais o termo geranium (em português, gerânio) popularizou-se a nível global. Aparentemente todos deram pela notícia mas a verdade é que poucos ouviram o desmentido e por essa razão a confusão instalou-se e já dura há perto de 250 anos. O público em geral tem sido levado ao engano não só nos pontos de venda mas também por profissionais de medicina alternativa, os quais por sua vez “beberam” as suas informações nos locais errados. Infelizmente diversos artigos em revistas da especialidade e grande número de livros, alguns de referencia, fazem uma grande baralhada. É o caso dos livros que trouxe como exemplo: fotos da capa demonstram desde logo que trata de Pelargonium mas não condizem com o título que é Geraniums:
Será difícil, se não impossível, que alguma vez o nome gerânio deixe de estar associado às sardinheiras, plantas que continuam a ser muito apreciadas e globalmente comercializadas. No entanto, nota-se um esforço para pôr as coisas no seu devido lugar por parte dos profissionais mais informados. Muitos deixaram de chamar gerânios às sardinheiras, chamando-lhes agora pelargónios, o que está mais acertado.
A nível científico não existem dúvidas nem confusões no que diz respeito a este assunto, mas o caso começou com a classificação original de C. Linnaeus quando ele juntou todas estas espécies num único género, Geranium, no seu livro Species Plantarum (1753). Nessa publicação Pelargonium e Erodium apenas constam como subgrupos. Foi só cerca de três décadas mais tarde (1789) que Charles L’Héritier fez o “up-grade” de Pelargonium e Erodium, elevando-os à categoria de géneros, em igualdade de circunstâncias com Geranium. Na realidade estas espécies não poderiam ser incluídas no mesmo género pois existem diferenças evidentes, nomeadamente no número de estames: Erodium tem 5 estames, Pelargonium 7 e Geranium 10. Estudos recentes também comprovaram que são espécies distintas.

Os meus próximos posts serão dedicados às espécies espontâneas por mim observadas nesta região, Geranium dissectum, G. purpureum, G. molle e G. rotundifolium e também Erodium malacoides e E. moschatum. Outra espécie residente nesta região, Erodium cicutarium, foi já descrita AQUI
Para já, aqui ficam algumas considerações gerais acerca dos 3 géneros acima mencionados:

Género Geranium
Geranium molle
Dentro da família Geraniaceae, Geranium é o género mais amplamente distribuído. Ocorre de forma espontânea em zonas temperadas do globo, especialmente do hemisfério norte e também em regiões montanhosas dos trópicos, mas o maior centro de diversidade é a região mediterrânica. São plantas herbáceas, geralmente rasteiras, raramente arbustivas; na generalidade são resistentes ao frio. Curiosamente uma das espécies existentes em Portugal, Geranium Robertianum, pode ser encontrada em climas muito frios, na proximidade da região Ártica. Outras espécies podem ser encontradas na região Antártica nomeadamente G. patagonicum e G. magellanicum. Este género compreende um total de 422 espécies, das quais 12 estão presentes em Portugal continental. Algumas dessas espécies também ocorrem na Madeira ou foram introduzidas nos Açores (veja AQUI). 
O género Geranium inclui plantas anuais, bianuais ou perenes que se diferenciam de Erodium e Pelargonium pelo número de estames férteis que são 10 (Erodium tem 5 e Pelargonium 7) e que se dispõem em duas séries: no verticilo exterior os estames estão opostos às pétalas e no interior os estames alternam com elas. As flores de Geranium, tal como em Erodium, são radialmente simétricas com 5 pétalas iguais, enquanto Pelargonium apresenta flores assimétricas com 2 pétalas mais pequenas. 
Na primavera e verão muitas destas espécies silvestres formam fofos "tapetes"  a que as folhas intensamente verdes e muito recortadas acrescentam renovado interesse. As pequenas flores brancas, rosadas ou azuladas e em forma de taça atraem muitas borboletas e abelhas e são encantadoras na sua simplicidade. Numa época em que se dá tanto valor a plantas exuberantes com flores grandes e de pétalas duplas, a delicada modéstia das Geranium silvestres é no mínimo refrescante. São uma boa opção para preencher os espaços num jardim de rochas e também têm lugar noutros tipos de canteiros como cobertura de solo, plantadas entre as coloridas perenes. Têm ainda a vantagem de, uma vez estabelecidas, não necessitarem de cuidados especiais.
Há centenas de anos que algumas espécies europeias deste género, nomeadamente G. robertianum e G. maculatum têm vindo a ser utilizadas pelas populações como ervas medicinais, hoje em dia disponíveis nas ervanárias e usadas sob a forma de infusões e tisanas.
Existem no mercado dezenas de espécies do género Geranium que foram “melhoradas”, nomeadamente cultivares e híbridos que são comercializados para fins ornamentais, com folhagem muito vistosa e atrativas flores em tons de rosa, azul, lilás e branco.
NOTA:
Cultivares e híbridos artificiais são plantas com novas caracteristicas obtidas a partir de espécies silvestres através de manipulação genética em laboratório. O objetivo é obter exemplares mais resistentes, produzindo flores maiores ou de cores diferentes, perfumadas ou com floração mais abundante e mais prolongada.
O termo cultivar vem do inglês culti(vated) + var(iety). A designação científica dos cultivares é diferente das espécies naturais. Assim ao nome do género e da espécie acresce um último nome que não precisa de ser em latim nem se escreve em itálico mas aparece entre aspas. Exemplo: Geranium pratense ‘Silver Queen’ é um cultivar da espécie Geranium pratense.
Os híbridos resultam do cruzamento de duas ou mais espécies diferentes e que não produzem sementes viáveis quando os seus genes são incompatíveis. Os híbridos entre duas espécies são identificáveis por um nome binominal do qual fazem parte os géneros das espécies utilizadas e cujas palavras estão separadas por um X. Se o X estiver no início do nome, sabemos que se trata de um hibrido que resultou do cruzamento entre várias espécies. Os híbridos podem resultar de um processo natural e espontâneo na natureza ou ser produto de manipulação em laboratório.

Género Erodium
Erodium moschatum
As espécies do género Erodium demonstram muitas semelhanças morfológicas com as espécies do género Geranium, tornando-as difíceis de diferenciar ao primeiro olhar. As flores também apresentam simetria radial, com todas as pétalas iguais. Contudo, os estames férteis são apenas 5. Os restantes 5 estames são estéreis e inconspícuos.
O centro de origem deste género é a região mediterrânica mas algumas espécies naturalizaram-se noutras partes do mundo especialmente naquelas onde impera um tipo de clima semelhante ao mediterrânico. Esta naturalização data de há muitíssimo tempo e supõe-se que as sementes tenham viajado através dos oceanos. Esta forma de dispersão é pouco comum mas é provável que tenha tido grande influência na propagação e diversificação das espécies deste género.
Este género compreende um total de 60 espécies, das quais 9 (entre espécies e subespécies) estão presentes em Portugal continental e Madeira, sendo 3 também autóctones dos Açores (veja AQUI).
Também algumas espécies silvestres do género Erodium deram origem a cultivares e híbridos, muito apreciados em certos países em que a jardinagem é devidamente valorizada e onde existem muitos colecionadores de todo o tipo de plantas, sempre ansiosos por novidades.

Género Pelargonium
Pelargonium peltatum
Foto Wikipedia de Jon Richfield
O género Pelargonium compreende um total de 280 espécies nativas de África do Sul, Austrália, Nova Zelândia, Madagáscar e ilhas do Atlântico sul Santa Helena e Tristão da Cunha. Contudo, o maior centro de biodiversidade é a África do Sul.
Pelargonium  exibe plantas com uma ampla variedade de hábitos de crescimento: herbáceas de vida curta, trepadeiras e arbustos mas o tipo dominante são as plantas com caules suculentos, geófitos (bolbosas e rizomatosas) e xerófitas (adaptadas a climas áridos).
As primeiras espécies importadas para a Europa vieram da África do Sul, especialmente da região do Cabo onde o tipo de clima é mediterrânico. Conhecemo-las por sardinheiras, plantas notoriamente diferentes das espécies dos géneros Geranium e Erodium. As flores são assimétricas, isto é, duas das pétalas são mais pequenas que as restantes 3. Além disso, apenas 7 estames são férteis. Os caules são algo suculentos mas lenhosos na base e as folhas são em geral ligeiramente carnudas, inteiras ou divididas.
A primeira espécie do género Pelargonium (Pelargonium triste) que foi trazida para a Europa veio para Leiden, cidade do sul da Holanda, no final do século XVI. Algumas décadas mais tarde John Tradescant  (1608- 1662), botânico, jardineiro e colecionador britanico, levou a espécie para Inglaterra onde causou grande impacto, de tal forma que nos anos seguintes outras espécies do mesmo género foram importadas por vários botânicos. Desde então estas espécies têm sido multiplicadas e hibridizadas de forma absolutamente entusiástica. O período alto aconteceu durante a época vitoriana em que todos os ricos proprietários de terras possuíam estufas quentes e frias e se dedicavam a colecionar plantas raras, nomeadamente as espécies Pelargonium que eram as exóticas da moda.
Pelargonium sp.
Foto de Wikipedia
Hoje em dia existem no mercado milhares de cultivares e híbridos de sardinheiras os quais foram criados a partir de umas 20 espécies silvestres. São bastante tolerantes ao calor e à seca mas não resistem às geadas e muito menos à neve pelo que em muitos países as recolhem para dentro de casa ou estufas durante o inverno. O nosso hábito tradicional de cultivar sardinheiras em vasos nas varandas é sempre motivo da admiração de estrangeiros, principalmente em Lisboa onde elas florescem o ano inteiro.
Até ao início do seculo XX as inestimáveis propriedades terapêuticas de algumas Pelargonium (antissépticas, antidepressivas, anti-inflamatórias e diuréticas) eram apenas conhecidas das tribos africanas, nomeadamente Zulus, Boers e Hottentots.

Óleo essencial de gerânio
Fontes:
-Geranium and Pelargonium: History of Nomenclature, Usage and Cultivation  (Maria Lis-Balchin)
-Cad. acad., Tubarão, v. 3, n. 2, p. 105-127, 2011 

Algumas espécies africanas de Pelargonium, nativas da região do Cabo, têm grande valor comercial devido à produção de óleo essencial, o qual é erradamente denominado óleo de gerânio. Durante as últimas décadas este termo impróprio tem sido utilizado em dezenas de livros e revistas sobre aromaterapia, inclusive em obras científicas de referência, o que demonstra a total ignorância de alguns sobre o género, contribuindo para que o conceito errado se mantenha. Em muitos artigos chega-se ao ponto de mencionar direta ou indiretamente as espécies Geranium maculatum, G. robertium e outras espécies do género Geranium, pensando que estão a falar de espécies de Pelargonium e julgando que são a mesma coisa. Para dar um pequeno exemplo, entre muitos, temos um assombroso cocktail botânico nesta citação: “o óleo é extraído não dos familiares e brilhantemente coloridos gerânios mas da espécie Pelargonium Geranium Robert ou “lemon plant” – a qual é muitas vezes exibida abundamente em restaurantes gregos” (Worwood, 1991).
De notar que o uso principal das espécies Geranium é em ervanária (chás) enquanto o óleo de gerânio derivado de Pelargonium é usado em produtos de perfumaria, cosméticos e aromaterapia.
A produção comercial do óleo de gerânio a partir de diversos cultivares de Pelargonium faz-se de forma extensiva principalmente em Reunião, Egito e China. Contudo as vendas efetivas de óleo de gerânio excedem largamente a produção o que se deve à criação de óleos de gerânio sintéticos. O óleo de gerânio contém principalmente citronelol e geraniol podendo ser facilmente falsificado por óleos essenciais mais baratos. Curiosamente o aroma dos componentes sintéticos é por vezes mais atraente para os perfumistas do que o verdadeiro e natural óleo de gerânio.
O óleo de gerânio original rescende a rosas mas também existem outros aromas, entre eles pinho, hortelã, limão, maçã ou noz-moscada. É maioritariamente utilizado em perfumes, sabonetes, unguentos e pastas dentífricas.
“Os óleos essenciais são compostos naturais, voláteis e complexos, caracterizados por um forte odor sendo sintetizados por plantas aromáticas durante o metabolismo secundário e normalmente extraídos de plantas encontradas em países quentes, como as do mediterrâneo e dos trópicos, onde representam parte importante da farmacopeia tradicional. As propriedades farmacológicas atribuídas aos OE são diversas e algumas são preconizadas por apresentarem vantagens importantes quando comparadas com outros medicamentos, como por exemplo a sua volatilidade que os torna ideais para uso em nebulizações, banhos de imersão ou simplesmente em inalações. A volatilidade e o baixo peso molecular de seus componentes, possibilitam que eles sejam rapidamente eliminados do organismo através das vias metabólicas (BANDONI;CZEPAK, 2008).
As propriedades medicinais popularmente descritas sobre o óleo de gerânio são ação analgésica, regulador das hipossecreções andróginas e estrógenas, diurético, hemostático, repelente de insetos, cicatrizante, indicado para menopausa, acne, entre outras. Também foram atribuídas ações psicológicas e emocionais como relaxante, porém reanimador, aliviando a tensão nervosa, angústia e depressão. Estas propriedades são importantes para justificar o seu uso na Aromaterapia. (Silva, 1998; Corazza, 2004; Ulrich, 2004).
Aromaterapia é a terapia que utiliza óleos essenciais para a promoção e manutenção da saúde. Escritos evidenciam a utilização de substâncias aromáticas na Medicina Chinesa há 4500 anos, bem como em rituais espirituais e medicinais no Egito e também durante a Idade Média para prevenir infeções e pragas. (STEVENSEN, 1998). 
O termo aromaterapia foi concebido em 1927 pelo químico francês René-Maurice Gattefossé, que por ocasião de uma grave queimadura na sua mão mergulhou-a acidentalmente em óleo essencial de lavanda e observou melhoras substanciais na recuperação do ferimento. Este episódio foi um estímulo considerável para a continuidade dos seus estudos sobre as propriedades terapêuticas dos diferentes óleos essenciais. (STEVENSEN, 1998).
Gattefossé levou a sua experiência para os hospitais militares, durante a Primeira Guerra Mundial, e utilizou os óleos essenciais para prevenir gangrenas e curar queimaduras, promovendo rapidamente a reabilitação dos soldados. Jean Valnet, fisiologista, serviu com as tropas francesas durante a Segunda Guerra Mundial e aplicou de forma significativa os óleos essenciais, curando infeções e diminuindo também o uso massivo de penicilina. (STEVENSEN, 1998). 
Atualmente, a aromaterapia é utilizada não somente pelos efeitos antimicrobianos, antivirais e anti-inflamatórios, mas também pelos seus efeitos sobre os estados emocionais e mentais. (CANNARD, 2006). O entendimento de que saúde não é somente a ausência da doença é conhecido há tempos, pois incorpora de maneira geral o conceito de bem-estar, sendo este físico e mental. Inúmeros estudos têm sido feitos comprovando a eficácia da Aromaterapia em mudanças positivas de humor, bem como na redução da ansiedade, (MORRIS, 2002), além do que, oferece auxílio positivo nos sintomas físicos, promovendo também a qualidade de vida, autoajuda e bem-estar das pessoas. (STEVENSEN,1999)”. 

Fotos: Serra do Calvo/Lourinhã, exceto quando especificado

domingo, 19 de Outubro de 2014

Helminthotheca comosa (Boiss.) Holub

Helminthotheca comosa (Boiss,) Holub = Picris spinifera Franco

Nomes comuns:
Raspa-saias-espinhosa; repassage

O meu post anterior foi dedicado à espécie Heminthotheca echioides , tendo sido feita uma breve introdução à sua nova taxonomia. Pois bem, a espécie que apresento hoje, mais conhecida por Picris spinifera, encontra-se na mesma situação ou seja, foi também transferida de Picris para o género Helminthotheca.
Nota: as outras duas espécies relacionadas, endémicas da Península Ibérica e que ocorrem em Portugal, não sofreram alteração de género , mantendo-se em Picris. Refiro-me a Picris hieracioides subsp. longifolia (Boiss. & Reut.) P.D.Sell (norte de Portugal) e a Picris willkommii Nyman (Algarve).
Helminthotheca comosa é uma planta herbácea e de aspeto espinhoso, autóctone do sul e oeste da Península Ibérica, com grande incidência em Portugal. Cresce em solos pedregosos e ressequidos, mais frequentemente em clareiras de matos ou bosques de espécies tipicamente mediterrânicas.
É uma espécie bienal ou perene de vida curta que seca no verão para ressurgir na primavera seguinte, as primeiras folhas formando uma roseta rente ao solo. 
Os caules que surgem desta roseta podem ir dos 30 aos 90 cm de altura e são eretos, ramificados na metade superior, com acúleos cobertos de um indumento formado por pelos minúsculos e espinhosos (os acúleos diferem dos espinhos porque ao contrario destes não estão ligados ao caule por feixes vasculares, sendo por isso mais fáceis de destacar).
Os caules praticamente só têm folhas no terço inferior. As folhas basais têm pecíolos curtos e as caulinares, bastante mais pequenas, são sesseis e frequentemente avermelhadas. Na generalidade as folhas apresentam acúleos inchados na base e alguns pelos rígidos.
Sendo esta uma espécie da família Asteraceae  as flores estão agrupadas em capítulos, o tipo de inflorescência característico desta família. 
Nesta espécie todas as pequenas flores são liguladas, de cor amarelo dourado e são flores hermafroditas, apresentando órgãos femininos e masculinos férteis. Os estames estão escondidos pelas “pétalas” mas entre elas veem-se os braços estigmáticos também de cor amarela. 
As peças florais estão protegidas por um invólucro formado por 3 camadas de brácteas, as exteriores ovadas, obtusas e arredondadas na base. 
As brácteas médias e as interiores são mais longas e estreitas e estão providas de pontas agudas e rígidas que excedem claramente as extremidades. Este invólucro de brácteas é distintivo do género Helminthotheca, no qual esta espécie foi agora incluída.
Helminthotheca comosa floresce e frutifica de maio a junho. Os frutos são cípselas e consistem num pequeno fruto com uma única semente. 
Estes frutos têm formato estreito e cilíndrico, são de cor acastanhada e estão providos de papilho numa das extremidades. 
O papilho ou papus é um tufo de pelos brancos, sedosos e compridos que ajudam as cípselas a flutuar como se fossem pequenos para-quedas pilosos, auxiliando na dispersão dos frutos pelo vento e servindo como defesa contra a herbivoria.
Embora algo semelhante, a Heminthotheca comosa diferencia-se facilmente da espécie tratada no post anterior (Heminthotheca echioides), pois é obviamente mais espinhosa. No que diz respeito às flores, a morfologia das bracteas das duas espécies é diferente, assim como a cor dos braços estigmáticos situados à superfície das “pétalas”.
Amaral Franco (1921-2009), conceituado botânico e sistemático português, descobriu que esta espécie apresentava algumas variações morfológicas que justificavam a separação em duas subespécies, classificação que foi aceite pelas autoridades competentes (1975):
Picris spinifera subsp. spinifera – endemismo Ibérico, existente em Portugal nas regiões centro e sul.
Picris spinifera subsp. algarbiensis – endemismo português do Algarve.
Agora que esta espécie passou do género Picris para o género Helminthotheca tentei encontrar os nomes científicos atualizados referentes às duas subespécies acima mencionadas. Contudo as principais bases de dados (IPNI, The Plant List, Euro+Med PlantBase) apenas dão um único resultado válido para uma subsespécie. AQUI e AQUI , The Plant List e Euro+Med Plantbase atestam que Helminthotheca comosa (Boiss.) Holub é o novo nome aceite para a espécie e que Helminthotheca comosa subsp. lusitanica (Schltdl.) P.Silva & Escudeiro é o nome da subespécie. Entretanto fico na dúvida se este nome se refere à subsespecie spinifera ou à subsp. algarbiensis.
As populações de Helminthotheca comosa apresentam um grande polimorfismo sobretudo na quantidade de acúleos e pelos que cobrem caules e folhas, no tamanho do invólucro e na morfologia, tamanho e pilosidade das brácteas externas do capítulo. Também os frutos maduros apresentam variações especialmente no que diz respeito ao comprimento do pico (filamento que liga a parte da semente ao papilho). Ao longo dos tempos, esta espécie suscitou grande interesse por parte de varios botânicos que a estudaram de forma isolada e por vezes baseados em critérios diferentes. Segundo os métodos tradicionais a classificação de uma espécie era feita apenas através da simples comparação de determinado conjunto de características com outras espécies semelhantes, estando sujeita à interpretação do pesquisador. Tendo em conta a deficiente comunicação disponível na época (situação que a internet veio, recentemente, facilitar enormemente) podemos compreender que classificações diferentes tenham sido propostas e aceites, tendo vindo posteriormente a descobrir-se que se tratava da mesma espécie. Contudo, segundo as regras existentes, as espécies e subespécies podem ter apenas um nome válido dentro de um género específico, o ultimo a ser aprovado (salvo algumas exceções previstas). Os nomes anteriores continuam para sempre ligados às espécies em causa mas passam para a categoria de sinónimos.
Fotos: Arribas do Caniçal/Lourinhã

quinta-feira, 9 de Outubro de 2014

Helminthotheca echioides (L.) Holub

Helminthotheca echioides (L.) Holub = Picris echioides L.

Nomes comuns:
Erva-tábua; picre-de-língua-de-víbora; raspa-pernas;
raspa-saias; repassage; rompe-saias; serralha-da-rocha

Todas as flores dos capítulos de Helminthotheca echioides são liguladas
Helminthotheca echioides é uma espécie da família das Asteraceae ou Compositae, uma das maiores e mais representativas do reino Plantae. As espécies desta família distinguem-se facilmente pelas suas inflorescências agrupadas em capítulos. Este tipo de inflorescência é formado por muitas flores de tamanho diminuto que se agrupam de forma compacta num só pedúnculo, aninhando-se diretamente num recetáculo em forma de disco, parecendo constituir uma única flor; geralmente, as flores periféricas apresentam prolongamentos unilaterais chamados lígulas os quais são semelhantes a pétalas (flores liguladas) ao passo que as flores do centro do disco são simples, sem prolongamentos (flores tubulosas). Esta estratégia reduz o investimento necessário para atrair os polinizadores pois apenas uma pequena porção das flores produzem “pétalas” beneficiando todas as outras. Contudo, na família Asteraceae também existem espécies que apresentam apenas flores tubulosas ou apenas flores liguladas.

Exemplos de capítulos:
À esquerda Helichrysum italicum - capítulos apenas com flores tubulosas
À direita Pulicaria odora - capitulo com flores tubulosas no centro e liguladas na periferia
Helminthotheca echioides  floresce durante o verão ao mesmo tempo que inúmeras espécies da mesma família sendo, à primeira vista, difíceis de distinguir umas das outras. Parecem todas semelhantes devido às suas flores do tipo malmequer, muitas delas de cor amarela, como se pode conferir no Portal Flora-on
No entanto, cada uma tem as suas características muito próprias, embora nem sempre sejam imediatamente evidentes. As primeiras classificações científicas basearam-se apenas nas semelhanças morfológicas mas os novos métodos de biologia molecular permitem ter uma visão mais abrangente e consistente com o princípio da ascendência comum. O objetivo atual é classificar as espécies de modo a formar grupos monofiléticos, os quais devem incluir todos as espécies do ascendente imediato comum incluindo o próprio ascendente imediato comum. Em consequência, tem havido múltiplas alterações na classificação das espécies. A família Asteraceae, devido à sua imensa diversidade e semelhança morfológica é uma das mais difíceis e tem sido um grande desafio para os cientistas.
Helminthotheca echioides já pertenceu ao género Picris mas recentemente foi transferida para o género Helminthotheca. O nome atualizado desta espécie é Helminthotheca echioides mas o nome Picris echioides continua valido como basiónimo, ou seja, como primeiro nome atribuído a esta espécie.
Nota: quando uma espécie muda de género o nome do autor do basiónimo é citado entre parêntesis, seguido do nome do autor que fez a nova combinação. Neste caso: novo nome Helminthotheca echioides (L.) Holub;  basiónimo Picris echioides L.
Os cientistas descobriram que Picris e Helminthotheca são dois géneros monofiléticos, isto é, embora sejam parentes muito próximos têm ascendentes imediatos diferentes.

Helminthotheca echioides é uma espécie nativa de Portugal continental e Madeira, Espanha e países da bacia do mediterrâneo, estando naturalizada nos Açores e em países da Europa central e do norte, África do sul, Austrália, Nova Zelândia e América do Norte e do sul.
Cresce abundantemente em campos agrícolas incultos ou cultivados, na borda dos caminhos, em terrenos baldios. Gosta dos solos húmidos e perturbados os quais são ricos em azoto.
Distribuição em Portugal Continental
Fonte: Flora Digital de Portugal-Jardim Botânico da UTAD
É uma planta herbácea, anual ou bianual que apresenta caules eretos e ramificados de forma irregular, os quais podem chegar aos 100 cm de altura ou mais. Os caules, estriados longitudinalmente, são robustos, grossos e resistentes e estão cobertos com alguns pelos rígidos.
Todas as folhas são de um tom verde acinzentado e são ásperas ao toque devido a numerosos pelos rígidos desiguais e também a alguns espinhos dispersos. As primeiras folhas formam uma roseta ao nível do solo e apresentam pecíolos longos e forma elíptica ou lanceolada, com margens sinuadas a dentadas. As folhas caulinares são semelhantes às basais mas são mais pequenas e são amplexicaules, isto é, não têm pecíolos e abraçam os caules.
As flores estão reunidas em capítulos. Todas as pequeníssimas flores são liguladas ou seja, todas as flores têm um prolongamento em forma de pétala e não apenas as da periferia do disco. As lígulas são todas amarelas, de um tom dourado e são dentadas, no extremo exterior. Todas as pequenas flores dispõem de órgãos sexuais funcionais masculinos e femininos, respetivamente androceu e gineceu. Os estames, com anteras cilíndricas e tubulosas, são 5 mas não são visíveis pois os filamentos são muitíssimo curtos. Na realidade as anteras abrem quando a flor ainda está em botão e os polinizadores banqueteiam-se com o pólen que fica espalhado à superfície, noutras partes da flor (apresentação secundária de pólen). Os estiletes são do comprimento dos estames e cada um apresenta dois estigmas muito longos, cujos braços são de cor escura e que são bem visíveis entre as “pétalas” durante a sua fase fértil.

As peças florais estão protegidas por um invólucro duplo de brácteas os quais formam uma espécie de epicálice, morfologia esta que é característica do género Helminthotheca e que permite distingui-lo do género Picris. As brácteas externas deste involucro estão separadas das internas e são ovais ou em forma de coração (cordatas), com as margens espinhosas e a superfície coberta de pelos duros e espessos; as internas são mais estreitas e mais compridas e tem uma arista (uma formação delgada mas longa e rígida) na parte dorsal. 
A Helminthotheca echioides floresce e frutifica de março a agosto, dependendo da disponibilidade de água no solo.

Os frutos são cípselas e consistem num pequeno fruto com uma única semente. Estes frutos têm formato estreito e cilíndrico, são de cor acastanhada e estão providos de papilho numa das extremidades. O papilho ou papus é um tufo de pelos brancos, sedosos e compridos que ajudam as cípselas a flutuar como se fossem pequenos para-quedas pilosos, auxiliando na dispersão dos frutos pelo vento e servindo como defesa contra a herbivoria.
Em medicina tradicional a Heminthotheca echioides tem sido utilizada como vermífugo, anti-inflamatório e anti-hemorrágico.
As folhas são comestíveis mas deve ter-se o cuidado de escolher as mais jovens por serem menos amargas.
Apresentação secundária do pólen:
"A apresentação secundária do pólen (ASP) é uma característica universal entre as Asteraceae". Este é um processo especializado através do qual o pólen é apresentado aos polinizadores de forma indireta. Isto é, o pólen continua a ser produzido pelas anteras mas é transferido para outras peças florais, como os filetes, as pétalas ou os estiletes, antes da abertura da flor.
Em muitas espécies o pólen é exposto aos visitantes pela própria antera mas neste sistema as anteras libertam o pólen de forma precoce, com a flor ainda em botão. Os estames formam um tubo em torno do estilete imaturo com as aberturas das anteras viradas para dentro. À medida que cresce e se alonga dentro do tubo anteral o estilete arrasta os grãos de pólen para o exterior da flor onde ficam retidos nas pétalas ou nos filetes, auxiliados por pelos, papilas ou outras adaptações especificas. Assim o pólen é apresentado aos polinizadores na superfície da inflorescência enquanto o estigma ainda não está recetivo, facilitando a polinização cruzada. Posteriormente o estigma amadurece e fica recetivo, abre os seus braços e aguarda que os insetos lhe tragam o pólen de outras plantas. 
Os grãos de pólen são um investimento caro e de grande valia para as plantas pois são eles os responsáveis pela formação dos gametas masculinos e pelo transporte destes para o saco embrionário, onde ocorrerá a fertilização. Na apresentação secundária de pólen apenas pequenas quantidades de pólen são apresentadas de cada vez, aumentando assim as hipóteses de alcançar maior número de polinizadores. Por isso, supõe-se que a apresentação secundaria de pólen seja um comportamento que tem a ver com a economia de custos da produção, evitando o desperdício e tornando a polinização mais eficiente.
Fotos: Serra do Calvo/Lourinhã