"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





quinta-feira, 26 de março de 2015

Senecio vulgaris L.

Nomes comuns:
Cardo-morto; tasna; tasneirinha

Senecio vulgaris
Senecio vulgaris pertence às Asteraceae (vulgarmente conhecidas como família dos malmequeres) e ao género Senecio, um dos maiores géneros desta família. Na realidade Senecio é um mega género, um dos maiores entre as Angiospermas (grupo de plantas que geram flor/fruto) e no qual foram incluídas espécies morfologicamente tão diversificadas que o tornaram bastante confuso. Aparentemente, ao longo dos séculos, foram sendo “despejadas” neste género espécies difíceis de classificar, do que resultou um grupo geneticamente artificial por ser polifilético, ou seja, não inclui o ancestral comum de todos os indivíduos nele incluídos.
Espécie ornamental Senecio Rowleyanus
Fonte - Wikipedia
As primeiras classificações científicas basearam-se apenas nas semelhanças morfológicas mas os novos métodos de biologia molecular permitem ter uma visão mais abrangente e consistente com o princípio da ascendência comum. O objetivo atual é classificar as espécies de modo a formar grupos monofiléticos, os quais devem incluir todos as espécies do ascendente imediato comum, incluindo o próprio ascendente imediato comum. 
Assim, na tentativa de reorganizar o género Senecio de forma sustentada, foram feitas análises filogenéticas e moleculares na sequência das quais muitas espécies tradicionalmente incluídas no género Senecio foram reclassificadas, sendo dele excluídas e atribuídas a outros géneros, nomeadamente Jacobaea, Delairea, Kleinia, Packera e mais 3 dezenas de géneros de nomes obscuros. 
Espécie ornamental Senecio elegans 
Fonte - Wikipedia
Apesar disso, o processo está longe de estar terminado e Senecio ainda inclui cerca de 1250 espécies muito diversificadas, incluindo anuais, perenes herbáceas, arbustos, trepadeiras, suculentas, pequenas árvores e até espécies aquáticas. A sua distribuição é muito ampla mas ocorrem principalmente na região mediterrânica, Africa do Sul, Ásia temperada e continente americano. Muitas destas espécies são problemáticas por terem comportamento invasivo difícil de controlar fora dos seus habitats nativos; outras são tóxicas, tanto para animais como para humanos, pois produzem alcalóides pirrolizidínicos cujo efeito cumulativo provoca doenças do fígado que podem ser fatais. Em contrapartida, Senecio também inclui espécies inofensivas e de grande valor no florescente comércio das plantas ornamentais.
Fruto de Senecio gallicus - Flores do Areal
Tal como todos os nomes científicos, Senecio tem origem no latim, mais propriamente no vocábulo “senex” que significa homem velho ou idoso, embora como alguém dizia, o género não seja curvado, frágil, nem venha a adquirir natureza sábia com a idade. Corre mundo que esta referência à velhice tem a ver com os frutos que, depois de maduros (mas antes de abandonarem a planta), formam um tufo de pelos brancos que fazem lembrar a barba branca de um homem idoso. 
Futo de Reichardia Gaditana - Flores do Areal
Pessoalmente não vejo grande lógica neste argumento uma vez que muitos outros géneros da família Asteraceae apresentam frutos semelhantes. Contudo, tendo  o vocábulo “senex” sido relacionado com este género há quase 2000 anos pelo naturalista romano Plinio,  pode assumir-se que, a existir qualquer outra razão mais fundamentada, a mesma ter-se-á perdido na escuridão dos tempos. 

Segundo a Sociedade Portuguesa de Botânica, através do portal Flora-on, são 17 as espécies do género Senecio que ocorrem em Portugal. Algumas são nativas e outras são exóticas (geralmente escapadas dos jardins e assilvestradas). Também se registam algumas espécies endémicas. Veja AQUI e depois, se desejar obter informações mais detalhadas sobre cada espécie, basta clicar em cima das fotos.  
Distribuição de Senecio vulgaris em Portugal continental - Fonte Flora-on
Informações disponibilizadas por:
 F.Clamote, P.V.Araújo, J.Lourenço,J.D.Almeida, A.Carapeto, A.J.Pereira, A.Silva, et al.(2015)
Senecio vulgaris, tal como o nome indica, é uma espécie comum e de ampla distribuição. Embora nativa do norte de África, Ásia temperada e tropical e maioria dos países europeus desde a Península Ibérica e bacia do mediterrâneo até à Rússia, hoje em dia está presente em todos os continentes. Em Portugal é autóctone no continente e Madeira e está naturalizada nos Açores.
Senecio vulgaris adapta-se a uma grande variedade de habitats mas ocorre principalmente em ambientes ruderais, migrando ocasionalmente para campos cultivados. É uma conhecida infestante cuja ação é muitas vezes inconsequente nos habitats nativos mas que pode provocar estragos consideraveis nos paises onde foi introduzida. Ainda assim, é uma espécie estabilizadora dos ecossistemas ao providenciar abrigo e alimento a uma grande variedade de espécies de escaravelhos, moscas, traças e borboletas.
Sendo considerada uma planta toxica para certos mamiferos e humanos (devido à presença de alcalóides pirrolizidínicos em todas as partes da planta, mas especialmente nas flores e folhas) podemos constatar, face às informações contraditórias, que os malefícios que possam advir da sua ingestão têm a ver com a quantidade consumida, tanto mais que os efeitos são cumulativos. Contudo alguns animais parecem imunes a estes alcaloides. As sementes são muito apreciadas por pequenas aves (ex tentilhões), os quais também se alimentam das folhas. Também as cabras e os coelhos incluem as folhas de Senecio vulgaris na sua dieta, ao contrário de ovelhas, vacas e cavalos que a evitam.

Senecio vulgaris tem um longo historial como planta medicinal. Esta erva foi, no passado, muito utilizada pelas suas propriedades antihelminticas, antiescorbúticas, diafureticas, diuréticas e purgativas mas, face ao conhecimento de casos fatais envolvendo animais e pessoas, a planta foi desaconselhada, acabando por cair em desuso, quer na medicina caseira quer no pasto.

Senecio vulgaris é uma planta herbácea de raízes finas e abundantes, cujo caule ereto pode crescer até cerca de 40 cm de altura, embora na maioria dos casos não ultrapasse os 20 cm. 
Os vários caules surgem a partir de uma roseta basal e são ocos, simples e ramificados de forma irregular, especialmente na parte superior onde se formam as inflorescências. Os caules, as folhas e uma grande parte dos pedúnculos das flores ora estão cobertos de pelos esbranquiçados, muito finos, macios e flexíveis, semelhantes a teias de aranha, ora são glabros.
As folhas, de consistência carnuda, dispõem-se de forma alternada e são mais ou menos profundamente recortadas; as folhas inferiores são espatuladas isto é, são achatadas e oblongas, mais estreitas na base e alargando progressivamente em direção ao ápice que é arredondado; as folhas superiores são mais profundamente recortadas embora de forma irregular; o pecíolo é inexistente e a base das folhas é alargada e envolve parcialmente o caule (amplexicaule).
As flores são minúsculas, todas em forma de tubo e de cor amarela; agrupam-se em capítulos, característica marcante da família das Asteraceae, a que pertence esta espécie. Os capítulos não são solitários, isto é, juntam-se a outros, formando corimbos terminais mais ou menos densos, geralmente originados no mesmo pedúnculo. Os pedúnculos são pouco firmes, do que resulta que os capítulos se apresentem pendentes.
O capítulo de Senecio vulgaris caracteriza-se por apresentar muitas flores tubulares e de tamanho reduzido, agrupadas de forma muito compacta diretamente sobre um recetáculo em forma de disco, dando a ideia de que se trata de uma única flor. 
Em muitas espécies da família Asteraceae as flores periféricas deste disco prolongam-se para o lado de fora formando lígulas, semelhantes a pétalas, como no caso dos malmequeres, mas tal não acontece no caso de Senecio vulgaris, cujas flores são todas tubulares. 
As flores estão em plena floração, notando-se os braços estigmáticos.
Nesta foto notam-se bem os dois tipos de brácteas.
O conjunto de flores reunidas em cada capítulo é, em Senecio vulgaris, protegida por um invólucro de formato cilíndrico formado por duas camadas de brácteas. As brácteas da camada basal formam uma espécie de epicálice, são algo triangulares e bastante mais curtas que as da camada interior; são as brácteas da camada interior que constituem a maior parte do invólucro, sendo mais compridas e estreitas, envolvendo todas as flores até à maturação do fruto e dando a ideia de que as "flores" nunca abrem, mesmo quando estão em plena floração. Estas brácteas involucrais possuem a ponta manchada de negro de forma característica da espécie e no seu conjunto assemelham-se a garras ou dentes. As manchas da camada inferior são as mais visíveis.

As flores possuem órgãos reprodutores funcionais, tanto femininos como masculinos mas de tão apertadinhas não se distinguem os estames à vista desarmada. No entanto os braços do estigma são perfeitamente visíveis. Além de poder ser polinizada por insetos esta espécie também recorre à autopolinização razão pela qual prescinde das “pétalas” que apenas servem de chamariz mas que envolvem grande gasto de energia.
Esta planta é muito prolífera, florescendo praticamente durante o ano inteiro. Geralmente o seu ciclo de vida leva apenas 5 a 6 semanas a completar e geralmente formam-se 3 gerações em cada ano, cada planta produzindo cerca de 1700 sementes.
Cada pequena flor aninhada dentro dos capítulos produz um fruto seco com uma só semente, de cor acastanhada, oblonga e provida de um tufo de pelos brancos numa das extremidades, chamado pappus ou papilho. Estes tufos são constituídos por pelos sedosos e compridos que por ação do vento levam as sementes para longe - por vezes a 2 a 3 metros de distancia- quais pequenos para-quedas de brinquedo. 
As sementes permanecem apertadinhas dentro do invólucro até à sua completa maturação. Nessa altura, o invólucro abre-se completamente, curvando-se as brácteas bruscamente para baixo. Ao mesmo tempo, as sementes ainda ligadas ao recetáculo deixam de estar comprimidos e abrem como um harmónio, formando uma espécie de pom-pom de cor branca, formado pelos pappus ou papilhos.

Apesar do aspeto humilde que lhe é conferido pelo seu pequeno tamanho e pelas flores pouco chamativas, Senecio vulgaris é uma espécie suficientemente interessante para suscitar alguma controvérsia e diversos estudos e teorias têm sido apresentados por botânicos que questionam as suas origens, o seu grau de toxicidade, resistência ao fungo Puccinia lagenophorae e a certos tipos de herbicidas. Também as estratégias de adaptação de Senecio vulgaris a diferentes tipos de habitats têm motivado estudos sobre os processos evolutivos e adaptativos das plantas em geral, face aos recursos ambientais.

Senecio vulgaris é basicamente uma planta ruderal. Pode ser encontrada em terrenos cultivados ou incultos mas é principalmente dos habitats humanizados que ela gosta mais. Ocorre preferencialmente na beira dos caminhos, cascalheiras, locais de despejo de restos de materiais de construção e outros lixos, brechas no alcatrão ou nas pedras dos passeios, enfim, todos os locais de solo remexido ou perturbado devido à remoção da camada superficial e que se tornaram repentinamente mais ricos em azoto e outros nutrientes. Estes distúrbios podem acontecer pela ação humana ou devido a catástrofes (inundações, derrocadas). As perturbações do habitat também podem advir da destruição de plantas maduras de uma comunidade instalada num local fértil (incêndio, pastoreio demasiado intensivo, passagem de maquinas agrícolas, herbicidas). Neste caso toda a biomassa destruída que fica no local aumenta o nível de nutrientes disponíveis no solo, ao mesmo tempo que o menor número de plantas diminui a competição. Estes locais geralmente apelidados de “perturbados” apresentam um alto índice de distúrbio mas em contrapartida têm uma baixa intensidade de stress (neste sentido, stress refere-se a uma combinação de variáveis ambientais que retardam o crescimento: falta de nutrientes disponíveis, alta ou baixa temperatura, baixa disponibilidade de água).
Resumindo, espécies que, tal como a Senecio vulgaris, prosperam em ambientes com alto índice de perturbação mas com baixa intensidade de stress, são chamadas ruderais. São geralmente plantas anuais cuja estratégia é crescer depressa e concluir rapidamente os seus ciclos de vida, produzindo grande quantidade de sementes. São as primeiras a florir e as primeiras a deitar semente e geralmente morrem logo após a maturação dos frutos. Há quem lhes chame oportunistas mas eu diria que têm sentido de oportunidade e instinto de sobrevivência da espécie. Esta estratégia foi adotada em função das condições de perturbação em que vivem, isto é, têm que se despachar a produzir sementes para perpetuar a espécie, não vá acontecer nova degradação no local que ponha em risco a vida da planta antes de poder produzir frutos. Neste aspeto, as plantas ruderais diferem de forma consistente de outras plantas que adotaram diferentes estratégias de vida.

Ruderais, Competidoras e Tolerantes ao stress:
Parece não haver duvida que existe uma estreita ligação entre a taxa de crescimento de cada espécie e a sua ocorrência num determinado habitat. Esta é a ideia essencial das teorias desenvolvidas por alguns botânicos, entre eles J. P. Grime proeminente professor da Universidade de Sheffield no Reino Unido e autor de Universal adaptive strategy theory. De acordo com a UAST as estratégias das plantas são moldadas pelas possíveis combinações de dois fatores que fazem parte da vida das plantas: stress e perturbação. Já acima vimos como as Ruderais criaram estratégias que lhes permitem escolher habitats com alto grau de perturbação e baixo nível de stress, os quais são pouco competitivos em termos de espaço (no início dos distúrbios) garantindo a formação de comunidades florísticas variadas e abundantes. Se (ou quando) terminarem os fatores de perturbação num determinado local, ao mesmo tempo que se for dando o gradual decréscimo em perturbação, aumentam os níveis de stress e há-de chegar o dia em que as ruderais terão de procurar novo lugar para viver. É então que chegam as Stress-tolerators (Tolerantes ao stress) cuja estratégia lhes permite um lugarzinho em habitats com alto grau de stress e baixo nível de perturbação. São geralmente perenes com taxas de crescimento lento, folhas perenes, altas taxas de retenção de nutrientes e baixa plasticidade fisiológica. Muitas dessas espécies são freqüentemente encontradas em ambientes muito frios ou aridos, sombra profunda, solos deficientes em nutrientes e níveis extremos de pH.
Numa terceira categoria, as Competitors (Competidoras) são espécies de plantas que se desenvolvem em áreas de baixa intensidade tanto de stress como de perturbação. Destacam-se pela competição biológica pois dado que estes são os ambientes mais favoráveis para o desenvolvimento, os nutrientes sofrem grande solicitação. Estas plantas conseguem suplantar as outras rentabilizando os recursos disponíveis da forma mais eficiente, através de uma combinação de características favoráveis, incluindo a taxa de crescimento rápido, de alta produtividade (crescimento em altura, extensão, e massa de raízes), e alta capacidade de plasticidade fenotípica. Esta última característica permite que as competidoras sejam altamente flexíveis no aspeto morfológico ao mesmo tempo que ajustam a distribuição dos recursos ao longo das várias partes da planta conforme necessário, ao longo da estação de crescimento.

Estes são apenas os vértices de um triângulo, entre os quais existem muitas combinações possíveis.

Leia mais AQUI e AQUI.

Fotos: Serra do Calvo/Lourinhã exceto quando mencionado

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Calluna vulgaris (L.) Hull

Nomes comuns:
Urze; Urze-roxa; Torga; Torga-ordinária; Queiró;
Queiró-das-ilhas; Queiroga; Leiva; Mongariça; Rapa

“…urze campestre, cor de vinho, com as raízes muito agarradas e duras, metidas entre as rochas. Assim como eu sou duro e tenho raízes em rochas duras, rígidas…”
                                                                          Miguel Torga 
                                                          (pseudónimo de Adolfo Correia Rocha)

Calluna vulgaris é o nome botânico da espécie que muitos consideram a urze por excelência, tendo em conta as suas particularidades. O nome específico vulgaris, indica que é bastante mais frequente e amplamente distribuída do que outras espécies com ela aparentadas, nomeadamente as do género Erica. Pertence ao género Calluna - família Ericaceae - do qual é a única representante, não havendo mais nenhuma espécie neste género. Foi originalmente descrita por Linnaeus (1753), como fazendo parte do género Erica, com o nome Erica vulgaris L. Contudo, a constatação de caraterísticas únicas e distintas levou à sua inclusão num género monoespecífico, por Hull, em 1808. 
Folhas de Calluna vulgaris , estreitamente imbricadas
Calluna diferencia-se das espécies do género Erica, com as quais é muitas vezes confundida, principalmente pelas suas folhas que são muito pequenas, decussadas (cada par cruza–se com o par seguinte, formando um X) e que se dispõem umas sobre as outras de forma densamente imbricada. 
Folhas de Erica scoparia, mais compridas do que em Calluna vulgaris
Por seu lado as folhas de Erica são mais compridas – variando entre mais estreitas ou mais largas, dependendo da espécie - e dispõem-se em verticilos de 3 ou 4 folhas, dirigidas para fora. 
Flor de Calluna vulgaris
A - sépalas do cálice (maiores que a corola)
B - pétalas da corola (mais curtas que o 
cálice)
Também existem diferenças a nível do tamanho do cálice que em Calluna é maior que a corola, escondendo os estames, ao contrário do que acontece com Erica sp (veja AQUI).

Calluna vulgaris distribui-se amplamente por toda a Europa desde as Ilhas Britânicas e Península Ibérica até aos Montes Urais na Rússia, e desde a Escandinávia até ao Mediterrâneo e Marrocos. 
Urzes e tojos andam muitas vezes a par...
Fonte: Wikipedia
Em charnecas e brejos, regiões áridas e batidas pelo vento, é muitas vezes a espécie dominante cobrindo extensas áreas, como por exemplo acontece na Irlanda, Escócia, Pais de Gales e Inglaterra, onde esta espécie é especialmente acarinhada. A escritora Emily Brontë descreveu, de forma memorável, a beleza rude das charnecas do Yorkshire onde predominam as urzes, em Wuthering Heights (em português: Monte dos Vendavais), obra clássica da literatura inglesa. Contudo, os mais entusiastas são os escoceses, de tal forma que, “puxando a brasa à sua sardinha”, deram a Calluna vulgaris o nome vernáculo de Scotch Heather (urze escocesa). Também a cerveja local denominada Fraoch (palavra em idioma gaélico escocês, de origem celta, que significa cerveja de urze) e que é produzida há mais de 4 mil anos, é aromatizada com folhas e flores de Calluna vulgaris.
Calluna vulgaris foi introduzida noutras partes do mundo incluindo o Canada, EUA, Austrália e Nova Zelândia. Em algumas regiões destes dois últimos países tornou-se um caso problemático como invasora, situação comum entre muitas plantas exóticas, as quais geralmente não causam problemas nos seus habitats nativos.
Mapa de distribuição em Portugal continental
Dados disponibilizados por:
P.V.Araújo, J.Lourenço, A.Carapeto, M.Porto, J.D.Almeida, A.J.Pereira, F.Clamote, A.Silva, et al. (2015).
Em território português Calluna vulgaris é autóctone do continente e Açores, onde ocorre de forma espontânea. Também se pode encontrar na Madeira onde foi introduzida pelos colonizadores e se naturalizou.
Calluna vulgaris no meio das roselhas (cistus crispus) e dos tojos (Ulex europaeus)
Calluna vulgaris vive em terras pobres em nutrientes e de pH ácido, em matagais, em clareiras de bosques ou sob coberto de pinhais e sobreirais, fazendo parte de matos baixos, geralmente associada a outras comunidades vegetais que partilham os mesmos requisitos, nomeadamente giestas, estevas, rosmaninhos, tojos, carquejas e sargaços. Em muitas das nossas encostas serranas, estas e outras espécies foram tomando o lugar dos antigos bosques, os quais se foram degradando pelos fogos ou por práticas agro-pastoris, muitas vezes improprias.
Em tempos idos, embora não mais distantes que meia dúzia de décadas, a urze era utilizada pelas populações mais pobres do interior do país para fazer vassouras, escovas para esfregar o soalho das habitações e para encher colchões. A madeira das velhas raízes era utilizada nas lareiras ou para fazer carvão. Chegou a ser utilizada para produzir tinta com a qual se tingiam cabedal e lã em tons de amarelo.

Calluna vulgaris forma um arbusto denso que pode chegar a 1 m de altura ou até mais, exceto em zonas muito ventosas ou rochosas onde tende a formar uma moita baixa. As raízes ramificam-se profundamente para melhor se segurarem na terra e com o decorrer dos anos tornam-se grossas, lenhosas e por vezes retorcidas.

A planta é muito ramificada desde a base. Os ramos são finos, eretos e ascendentes, pubescentes quando jovens. A maioria dos ramos fica verde durante todo o ano mas no inverno alguns podem apresentar lindas tonalidades castanhas, vermelhas ou amarelas que resultam dos restos de folhas envelhecidas que permanecem agarradas.

As folhas são muito pequenas, algo pubescentes, oposto-cruzadas, sem pecíolo e ligeiramente carnosas; nos ramos estéreis as folhas estão muito juntas, estreitamente imbricadas, mas nos ramos de flor estão mais espaçadas.
As flores, de cor rosada ou lilás, algumas vezes rosa mais escuro e raramente brancas, reúnem-se em cachos muito alongados; aparecem solitárias na axila das folhas e são numerosas. 

Os pedúnculos são curtos e curvos pelo que as flores se apresentam pendentes. 

Na base de cada flor, fazendo ligação com o pedúnculo, existem 4 brácteas verdes, semelhantes a folhas mas com as margens avermelhadas e penugentas. 

O cálice é formado por 4 sépalas rosadas de forma lanceolada mas com o ápice arredondado. A corola é constituída por 4 pétalas soldadas apenas na base, também de cor rosada e que têm a particularidade de serem mais curtas que as sépalas do cálice, ficando envolvidas por ele. 
O cálice é persistente, permanecendo na planta mesmo depois da maturação dos frutos, dando a ideia de uma floração bastante mais prolongada.

As flores são perfeitas, ou seja, estão providas de órgãos de reprodução masculinos e femininos funcionais. Os estames são 8, com filetes rosados e anteras acastanhadas e são inclusos, não ultrapassando o nível do cálice. Em contrapartida o estigma, que tem por missão recolher o pólen e encaminha-lo para o ovário, é bem visível pois é grosso e ultrapassa o nível das sépalas do cálice.

Por baixo do ovário existe um disco nectarífero destinado a atrair os polinizadores. Calluna vulgaris é muito visitada por vários tipos de insetos entre os quais se contam vários tipos de borboletas e abelhas melíferas que aí recolhem néctar em abundância, com o qual produzem o precioso mel (nas áreas onde uma determinada espécie é dominante, o mel produzido pelas abelhas reflete o seu sabor. Assim podemos ter mel de urze, mel de rosmaninho, mel de castanheiro, etc. Da mesma forma, a consistência e a cor de cada tipo de mel variam de acordo com as espécies que entraram na sua composição).

Nesta Calluna vulgaris os frutos já amadureceram há muito mas as sépalas das flores continuam na planta dando a ideia de que ela continua em flor
Na generalidade Calluna vulgaris floresce e frutifica de maio a dezembro mas aparenta estar em flor durante a maior parte do ano porque as sépalas, depois de secas, persistem na planta durante muito tempo, mesmo depois da maturação dos frutos. 
Os frutos são cápsulas de forma esférica densamente cobertas de pelos. No seu interior existem 4 compartimentos contendo numerosas sementes as quais se soltam por uma pequena abertura.
As sementes são disseminadas pelo vento, animais ou passeantes que ao passar roçam nas plantas.
Calluna vulgaris é fácil de propagar:
- Por sementes, as quais devem ser colocadas em pequenos vasos no início da primavera, de preferência numa pequena estufa ou em local abrigado e deixadas à superfície ou apenas ligeiramente cobertas por terra. Geralmente germinam dentro de 1 a 2 meses a uma temperatura de 20ºC. As pequenas plantas devem ser protegidas do frio e do vento durante o seu primeiro inverno mas estão prontas para ser plantadas no exterior na primavera seguinte.
- Por estacas semilenhosas em julho ou agosto ou estacas lenhificadas em outubro ou novembro.
- Por mergulhia. Este é o melhor método de obter novas urzes desde que se disponha de uma planta já estabelecida. Pode realizar-se em qualquer altura do ano embora os resultados mais rápidos se obtenham na primavera. Escolhe-se um ramo baixo e, sem o partir, dobra-se até ao solo. Retiram-se as folhas da parte do ramo que vai ficar em contacto com o solo e cobre-se com um bom punhado de terra ou turfa, sobre a qual se coloca uma pedra pesada. As mergulhias feitas na primavera terão criado raízes no outono; as que forem feitas no outono geralmente enraízam um ano depois. Finalmente, é só desenterrar os ramos com as novas raízes, separá-los da planta-mãe e plantá-los no novo local.

Resistente obstinada às inclemências do clima mas delicada na aparência e na fragrância, Calluna vulgaris não só consegue transformar as charnecas mais áridas ou as encostas mais rochosas em locais de grande beleza cénica, como contribui para a manutenção da biodiversidade: serve de alimento a borboletas e besouros, providencia abrigo a aves, pequenos mamíferos e lagartos. 

Tal como acontece com outras espécies de urzes, há muito que Calluna vulgaris é reconhecida pelas suas potencialidades decorativas e ornamentais. Só a partir desta espécie já foram criados mais de oitocentos cultivares que rendem milhões à indústria de horticultura na Europa e Estados Unidos. 
Fonte
Existem nos mercados internacionais, - especialmente em países onde a jardinagem é um passatempo muito difundido e praticado com verdadeiro entusiasmo – variedades de Calluna que vão desde os 10 cm aos 60 cm de altura ou mais, com folhagem que inclui tons dourados, bronze, cinzento-azulado e verde-vivo e flores em tons de púrpura, rosa, vermelho e branco-puro. Contudo, é de notar que muitos destes cultivares não são interessantes para os insetos pois foram feitas consideráveis alterações na morfologia das flores para impedir que os botões abram, aumentando assim o tempo de floração. 
Fonte
As Callunas são plantas fáceis de cuidar desde que lhes sejam providenciadas as condições adequadas, a começar por um substrato leve com pH ácido e situação em pleno sol ou meia sombra, especialmente em climas mais quentes.
Estas plantas são geralmente usadas em monocultura, como cobertura de solo formando tapetes multicoloridos, ficando muito bem quando conjugadas com coníferas anãs. Mas o efeito pode também ser espetacular se cultivadas em grupos, entre outras perenes como azáleas, camélias, bolbos e gramíneas. São ainda apropriadas para sebes, jardins de rocha, terrenos inclinados e vasos, além de que são flores de corte formidáveis e excelentes para fazer arranjos de flores secas.

Calluna vulgaris tem uma longa tradição em medicina popular, particularmente no tratamento dos problemas das vias urinárias, atuando como diurético e antisséptico. É também eficaz nos casos de tosse e constipação, ajudando a reduzir a produção de secreções devido ao seu efeito adstringente. Calluna vulgaris contém taninos e triterpenos, compostos químicos que promovem ação anticancerígena e anti-inflamatória. Os taninos são também poderosos antioxidantes. Tem sido também utilizada com sucesso no tratamento de dores reumáticas sobretudo no que respeita à denominada gota, causada pelo excesso de ácido úrico, o qual parece ser removido pelos componentes químicos de Calluna vulgaris.

Veja mais informações sobre as diversas espécies de urzes  AQUI.

Fotos: Serra do Calvo/Lourinhã exceto quando mencionada outra fonte

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

As urzes - Géneros Daboecia, Erica e Calluna / Família Ericaceae

As urzes
Matos de altitude dominados por urzes
Fonte - BIOREDE
Entre os muitos nomes adotados pelo povo das diferentes regiões do nosso país para designar os pequenos arbustos dos géneros Erica e Calluna, o termo urze é sem dúvida o mais comum, sendo praticamente transversal a todas estas espécies. Na verdade elas apresentam características morfológicas bastante semelhantes pelo que, à primeira vista podem prestar-se a uma certa confusão.
Existem no mundo aproximadamente 860 espécies de urzes das quais cerca de 760 ocorrem na África do Sul, estando na sua maioria concentradas no parque natural de Cape Floral Kingdom, localizado entre Cape Town e Port Elizabeth. Na Europa ocorrem 21 espécies e as restantes distribuem-se por algumas partes da África Austral, nomeadamente Madagáscar e Mascarene Islands.
De notar que as urzes africanas exibem uma enormíssima diversidade quer na forma, quer na cor e tamanho das suas flores. As urzes europeias apresentam flores pequenas reunidas em cachos longos e anafados.

As espécies nativas europeias dividem-se em três géneros, todos representados em Portugal: Daboecia, Erica e Calluna.

Género Daboecia:
O género Daboecia Inclui apenas 2 espécies, sendo uma delas endémica dos Açores.
Ambas diferem das espécies de Erica e Calluna por produzirem flores com uma corola bojuda substancialmente maior. As folhas também são maiores, com limbo alargado.

Daboecia cantabrica (Huds.) K. Koch
Nasce espontaneamente em áreas costeiras da Irlanda, França, Espanha e Portugal (do Minho à Beira Litoral). Distingue-se de Daboecia azorica por ter pelos na corola e ter folhas maiores.
Daboecia cantabrica
Esquerda - Fonte: Wikipedia / Foto de Merce/Madrid
Direita - Fonte: Wikipedia /Foto de Johan N.
Daboecia azorica Tutin & Warb.
Esta espécie encontra-se exclusivamente no Arquipélago dos Açores e dada a sua raridade é espécie protegida pela Convenção de Berna e pela Diretiva Habitats.
Distingue-se de Daboecia cantábrica por ter folhas mais pequenas e não ter pelos na superfície da corola.
Daboecia azorica
Fonte:  SIARAM - Flora vascular dos Açores
Género Erica
O género Erica é o que tem maior número de espécies no nosso país, sendo representado por 10 espécies. Seguem-se fotos de cada uma dessas espécies, disponibilizadas pelo Portal Flora-on, da Sociedade Portuguesa de Botânica. Para aceder ao ficheiro completo de fotos de cada uma das espécies basta clicar no link colocado por baixo de cada foto, em legenda.
Erica inclui arbustos perenes, de pequeno ou médio porte e ainda algumas espécies arbustivas. Identificam-se pelas suas folhas pequenas e lineares que se dispõem, viradas para fora, em verticilos de 3 ou 4, em torno dos ramos estreitos; as flores, muito numerosas e com corolas bojudas, agrupam-se em cachos muito alongados. As flores apresentam tons de rosa, claro ou escuro, lilás e por vezes branco.
As plantas deste género são conhecidas na língua inglesa por “heaths”.

Erica australis                                  Erica ciliaris
Fonte: Flora-on                                Fonte: Flora-on
Foto de Sérgio Chosas                      Foto de C E. Ramalho
Erica cinerea                                   Erica erigena
Fonte Flora-on                                Fonte Flora-on
Foto: Joana Camejo                      Foto: Miguel Porto
Erica lusitanica                                           Erica scoparia
Fonte: Flora-on                                           Fonte: Flora-on
Foto: Ana J.Pereira                                   Foto: J.D.Almeida
Erica tetralix                                                Erica umbellata
Fonte: Flora-on                                            Fonte: Flora-on
         Foto: A.J.Pereira                                         Foto: C.E.Ramalho    

Erica andevalensis                                         Erica arborea
                             Fonte: Flora silvestre mediterranea         Fonte: Flora-on - Foto de Miguel Porto    
             
                                                


Género Calluna
Este género tem apenas uma espécie, Calluna vulgaris, cuja distribuição é muito ampla. As plantas deste género são conhecidas na língua inglesa por “heathers”.
Embora semelhante a outras urzes no aspeto geral, Calluna tem carateristicas próprias, como veremos no próximo post, o qual será dedicado em exclusivo a esta espécie.
Calluna vulgaris - Foto Flores do Areal
Na generalidade, as urzes do campo são espécies muito resistentes. Embora gostem de alguma humidade, suportam bem as secas estivais. A maioria das espécies também não se incomoda especialmente com o frio. Não só aguentam estoicamente as baixas temperaturas e a neve das regiões montanhosas como até parece aprecia-las. Atrevo-me a pensar que, após as intempéries, elas fazem questão de se preparar para florescer mais profusamente e com mais cor, fazendo prova do seu forte carater e tenacidade. E se é certo que elas evocam o lado rude e agreste da natureza, em contrapartida não se lhes pode negar a fragrância e a beleza requintada das suas flores.

As urzes florescem de forma abundante e generosa. Cada pequena flor está provida de um disco nectarífero, cujo néctar, petisco delicado e nutritivo, atrai vários tipos de insetos, induzindo-os a colaborar nos processos de polinização. Por lá andam também, atarefadas, numerosas abelhas melíferas, recolhendo o néctar que irá enriquecer a sua produção de mel com sabor predominante a urze.

Em Portugal as urzes distribuem-se um pouco por todo o território, desde as dunas do litoral até as zonas montanhosas, medrando em solos pobres, de maior ou menor grau de acidez, consoante a espécie, mas nunca em solos com calcário, os quais são alcalinos. As urzes são, portanto, plantas silicícolas ou seja, indicadoras de solos não calcários, resultantes da erosão de rochas magmáticas ou metamórficas, como granitos, quartzitos, xistos e gnaisses.

As urzes crescem de forma espontânea em matagais, clareiras de bosques ou sob coberto de pinhais e sobreirais. Em zonas de matos baixos e solo ácido são espécies recorrentes, geralmente associadas a outras comunidades vegetais que partilham os mesmos gostos, nomeadamente estevas, tojos, carquejas e sargaços. Em épocas de floração, quem viaja pelas estradas do país não terá dificuldade em reconhece-las, sobretudo em zonas de pinhal, formando como que uma névoa rosada, raramente totalmente branca.

Sobre o solo ácido:
O pH (potencial hidrogénio) é um índice que mede o nível de acidez ou alcalinidade do solo ou de uma qualquer substancia, variando numa escala que vai do 0 a 14.
Quanto mais baixo é o índice mais acida será a substancia em questão. Assim, um pH ácido apresenta valores entre 1 e 6 enquanto 7 é neutro e de 8 a 14 é básico ou alcalino.
O pH do solo pode variar de região para região e tem a ver com vários elementos, entre eles o clima e os componentes edáficos.
A acidez ou a alcalinidade condicionam a atividade dos microrganismos presentes no solo e a disponibilidade de nutrientes, de forma que os solos ácidos são pobres enquanto os solos alcalinos apresentam maior produtividade. Num solo acido a decomposição dos restos orgânicos realiza-se muito lentamente e podem ocorrer toxicidades de alumínio e manganésio ao mesmo tempo que existe deficiência em nitrogénio, cálcio, fosforo e magnésio ou micronutrientes. Estes solos não aguentam adubação com estrume nem adubos químicos que contenham nitrogénio/azoto pois as plantas que neles vivem não o consegue processar. Contudo podem adubar-se com composto resultante de resíduos orgânicos.
Verdade seja dita que nos solos alcalinos, particularmente nos calcários, também existem algumas deficiências nomeadamente em fosforo, ferro, zinco, boro e manganésio, podendo ser corrigido com estrume, adubos químicos ou composto orgânico.
Pode corrigir-se a acidez do solo aplicando-lhe calcário. Para acidificar um solo alcalino junta-se-lhe enxofre, sulfato de alumínio ou quelatos de ferro.
Embora algumas das espécies que vivem em solos ácidos também sejam tolerantes aos solos alcalinos outras existem que apenas sobrevivem e se desenvolvem em solos ácidos. É caso das gardénias, camélias, rododendros/azáleas, entre outras espécies ornamentais muito apreciadas. As hortênsias são um caso curioso pois embora precisem ocasionalmente de um acidificante (quando as folhas começam a perder a cor verde ao longo das nervuras), dão-se bem tanto em terra ácida (neste caso as flores nascem azuis) como em terra alcalina (as flores tornam-se cor-de-rosa).

Urzes de viveiros, cultivares e híbridos
Fonte: White Flower Farm
Há muito que as urzes ganharam reputação como espécies bastante decorativas, sendo resistentes, elegantes e não exigindo cuidados especiais. São muito apreciadas para fins ornamentais e apropriadas para uma ampla gama de situações, podendo ser plantadas diretamente no solo ou em vasos, uma vez que seja assegurado o grau adequado de acidez do substrato.
Por estas razões diversas espécies de urzes têm sido cultivadas para criar variedades com diferentes características sobretudo quanto ao porte e à cor. E assim surgiu no comércio das plantas ornamentais uma incrível quantidade de cultivares, ascendendo a muitas centenas. Em certos países podem ser adquiridos cultivares com todas as opções imagináveis, desde plantas anãs a arbustivas ou de medio porte e até rastejantes. A folhagem pode variar do amarelo mais claro ao verde mais escuro, passando pelo laranja e o bronze. Também se encontram cultivares de flores simples, dobradas e de cores variadas, nomeadamente branco puro, vários tons de rosa, salmão, lilás, malva, roxo ou vermelho. Além disso, todos esses cultivares são geralmente classificados de acordo com o período de floração havendo espécies que florescem entre junho e julho, outras que florescem em agosto e setembro, outras ainda que dão flor de outubro a dezembro.

Yurigahara Park - Japão
Em geral plantam-se as urzes, em pleno sol ou meia sombra, em manchas de vários pés da mesma variedade, formando tapetes de cores mistas quer em bordaduras ou em jardins de rocha. Estes tapetes coloridos ficam espetaculares se forem plantados contra um fundo de pequenas coníferas para dar altura ao conjunto que de outra forma seria uma extensão relativamente incaracterística. Embora as urzes costumem ficar melhor quando plantadas em grupo também se podem produzir bonitos exemplares isolados. Quando o solo do jardim não é ácido a solução é plantar as urzes em vasos, em substrato apropriado à venda nos viveiros. Se apesar de tudo quisermos coloca-las no solo, o substrato calcário terá de ser substituído por terra acida até à profundidade de 30 cm, pelo menos. As variedades pequenas colocam-se a intervalos de 20 cm a 40 cm conforme sejam de menor ou maior porte. Há que ter em conta que se as regas forem efetuadas com água calcária, o substrato vai perdendo acidez pelo que se deve juntar um acidificante varias vezes por ano. Pode também cobrir-se o solo com agulhas de pinheiro as quais são acidificantes e atuam como cobertura de solo, mantendo a humidade durante mais tempo. Raras são as ervas que conseguem medrar perto do pé de uma urze. É que estas plantas têm propriedades alelopáticas, isto é, elas produzem metabólitos secundários ou seja, compostos químicos que, uma vez libertados no solo, impedem que outras espécies cresçam e se desenvolvam de forma normal.
Quando as urzes são jovens e ainda não estão estabelecidas não se deve deixar secar completamente o substrato. Rega-las demais também não é solução pois as raízes irao com certeza apodrecer sobretudo se estiverem em vasos.
As urzes não precisam nem gostam de grandes adubações, sobretudo porque não conseguem processar o nitrogénio presente nos adubos generalistas. Ainda assim podemos enriquecer a terra gasta com um pouco de adubo especial para plantas acidas, também recomendado para gardénias, camélias e azáleas/rododendros.
Azalea ‘Hinodegiri’in full flower in Yate, Bristol
As urzes pertencem à família botânica Ericaceae, atualmente com cerca de 4000 espécies agrupadas em 126 géneros. Esta família possui uma grande diversidade de espécies, algumas muito belas, circunstancia que lhe confere uma grande importância económica a nível mundial, sobretudo devido ao florescente comércio das plantas ornamentais (Ex: Rododendros/Azáleas e urzes).
Mas o poderio económico desta espécie também tem a ver com espécies que são cultivadas pelos seus frutos, sobretudo espécies do género Vaccinium, nomeadamente Vaccinium myrtillus (“cranberry” ou mirtilo vermelho) e  Vaccinium corymbosum (“blueberry” ou mirtilo azul) os quais são ricos em antioxidantes e têm ação bacteriana.
Vaccinium myrtillus e  Vaccinium corymbosum 
O consumo de mirtilos é recomendado pela sua eficácia no combate a infeções urinárias, sobretudo no capítulo da prevenção, dificultando a fixação de baterias na bexiga.
Medronheiro com frutos maduros
Fonte: Wikipedia
Arbustus unedo, o nosso bem conhecido medronheiro, usado para fazer licores e aguardentes, também pertence à família Ericaceae. Os seus frutos têm um forte poder antibacteriano sendo ricos em compostos com importante atividade biológica, ácidos gordos insaturados, nomeadamente ómega 3 e 6, fitoesteróis e triterpenóides. 
Arbustus unedo é uma árvore frutífera muito ornamental que fica bem em qualquer jardim que disponha de algum espaço. Ao contrário da maioria das Ericaceae tem a vantagem de ser indiferente ao pH, crescendo bem tanto em solos ácidos como alcalinos.

As espécies Ericaceae distribuem-se pelo mundo inteiro (exceto a Antártica) e são, na sua generalidade, amantes dos solos pobres e com propriedades ácidas. Uma caraterística da maioria das plantas desta família é a ausência de pelos radiculares o que dificulta a absorção dos nutrientes. Como forma de contornar esta particularidade as plantas de Ericaceae estabelecem relações simbióticas com fungos do solo (micorrizas), os quais são vitais para o seu desenvolvimento. Estes fungos formam uma rede que se entrelaça nas raízes da planta para as quais transferem os nutrientes minerais e agua que absorvem do solo. Em contrapartida as plantas fornecem os açúcares de que os fungos necessitam para sobreviver mas que não conseguem sintetizar.