"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





terça-feira, 14 de julho de 2015

Epilobium tetragonum L.


Nome comum: erva-bonita

Epilobium tetragonum é uma erva perene cuja forma biológica é designada por hemicriptófito. Quer isto dizer que, embora pareça secar e morrer após a frutificação, a planta apenas perde as partes aéreas, dado que as gemas de renovo subsistem ao nível do solo durante a estação desfavorável. As gemas de renovo são estruturas sensíveis, a partir das quais surgirão os novos rebentos, logo que se verifiquem as condições climatéricas adequadas. 
Folhas que protegem as gemas de renovo de E.tetragonum durante a estação desfavorável
Entretanto, as gemas de renovo permanecem protegidas por pequenas folhas de forma elíptica que nascem no final do verão ou outono e se dispõem em roseta, desaparecendo posteriormente. 
Apesar de finos, os caules de Epilodium tetragonum são robustos, eretos, cobertos de pelos curtos (não glandulares) e podem ser solitários, ramificados lateralmente ou a partir da base. 
Os caules são cilíndricos mas apresentam 2 a 4 linhas salientes no sentido longitudinal que lhe dão o aspeto quadrangular que justifica o epíteto específico de tetragonum.
As folhas caulinares dispõem-se de forma oposta, excetuando por vezes, as da parte superior da planta. São folhas simples e quanto à forma são oblongo-lanceoladas. As margens são serradas e a nervação é muito marcada. Geralmente são glabras exceto as superiores que apresentam alguns pelos na nervura central da página inferior. 
As folhas praticamente não têm pecíolo e são decurrentes, isto é, o limbo da folha cresce parcialmente aderente ao caule, prolongando-se abaixo do nível de inserção.
As flores, bracteadas, reúnem-se em inflorescências do tipo racemo ou cacho, em que o pedúnculo da inflorescência se ramifica repetidamente e os pedicelos das flores se inserem no caule a diferentes níveis , atingindo diferentes alturas. 
0s pedicelos não ultrapassam os 3 cm mas parecem muito mais compridos pois ligam-se à flor pela base do ovário, o qual é muito longo e estreito, formando um tubo.
Os botões florais apresentam forma ovóide, com a ponta distintamente cónica. 
As 4 sépalas que formam o cálice estão cobertas de pelos e são verdes quando jovens, tornando-se depois avermelhadas nas margens.
As 4 pétalas, de um tom rosa-purpura, são ligeiramente maiores que as sépalas e apresentam um pequeno entalhe a meio do ápice.
O estigma e os estames, estes carregados de pólen esbranquiçado
São flores perfeitas pois possuem órgãos masculinos e femininos funcionais. O androceu apresenta 8 estames desiguais sendo 4 maiores que os restantes. As anteras são esbranquiçadas, assim como os grãos de pólen.

O estilete, vindo do ovário, é ligeiramente maior que os estames mais compridos e termina num estigma claviforme ou seja, em forma de clava — uma estrutura alongada e cilíndrica, dilatada da base para o ápice, o qual é arredondado.
O ovário é muito estreito e comprido e é ínfero ou seja, posiciona-se abaixo das sépalas, pétalas e estames cujas bases se unem, formando um tubo designado por hipanto. 
Frutos verdes 
Depois da fecundação as peças florais caiem e o ovário engrossa, transformando-se num fruto valvar alongado, coberto de pelos curtos não glandulares e com 4 nervuras longitudinais salientes, tal como acontece nos caules. 
Fruto verde em que se podem ver as sementes verdes no seu interior
Quando maduras estas cápsulas secam e ao perderem humidade curvam-se e são forçadas a abrir, separando-se em 4 arcos graciosos, expondo as sementes envoltas em longos tufos de pelos sedosos.

Frutos e sementes maduras
As sementes, de forma obovóide, vão-se soltando aos poucos, sobretudo por ação do vento.
Epilobium tetragonum cresce sobretudo em lugares moderadamente húmidos, em solos enriquecidos e em pleno sol, como margens dos caminhos, orla de campos cultivados, jardins e estufas ou viveiros assumindo, por vezes, algum gosto pelos espaços ruderalizados.

Epilodium tetragonum L. subdivide-se em dois taxa, ambos presentes em Portugal:
- subsp. tournefortii e subsp. tetragonum

Basicamente a subsp. tournefortii tem caules mais robustos, as raízes mais grossas e as sementes maiores. As peças florais são também maiores. De resto, as características acima descritas são válidas para ambas as subespécies. Vejamos agora os carateres que as diferenciam e ajudam a identificar.

Subsp. tournefortii:
- Caules: 20 a 110 cm de altura e 2 a 10 mm de diâmetro.
- Pedicelos das flores: 1,5 a 3 cm de comprimento, na frutificação
- Folhas: 1,5 a 7 cm de comprimento e 0,3 a 1,8 cm de largura
- Botões florais: até 8 mm de comprimento
- Anteras: de 1,5 a 2,4 mm
- Pétalas: de 6 a 11 mm
- Cálice: de 6 a 10 mm, incluindo o tubo do hipanto
- Frutos: de 5,5 a 8,5 cm
- Sementes: de 1 a 1,3 mm

As características da flor, nomeadamente o tamanho das anteras e a posição destas em relação ao estigma parecem dar a indicação que a reprodução sexual se realiza através de polinização cruzada, ao contrário da subsp. tetragonum que, de modo geral,  é fecundada através de autopolinização (como acontece, aliás, com a maioria das espécies do mesmo género, Epilobium).
A subsp. tournefortii tem distribuição mediterrânica e ocorre, de forma relativamente dispersa, em  Portugal continental (oeste e sul, mais rara no norte), sul de Espanha,  sul de França, Córsega, Sardenha, Itália, Malta, Turquia, Líbano e Palestina.

Subsp. tetragonum:
É uma planta autóctone da Europa, sudoeste asiático e norte de África. Encontra-se naturalizada na África do sul, América do norte, Chile, Nova Zelândia e Austrália.
No que diz respeito a Portugal, é autóctone do continente e Madeira e naturalizada nos Açores. As fontes de informação sobre a distribuição em Portugal são escassas mas a Flora Iberica coloca-a na Beira Baixa, Beira Alta, Beira Litoral, Estremadura e Trás-os-Montes. Tanto quanto me foi possível apurar, embora não sendo uma planta rara também não é das mais abundantes. Apesar de tudo esta subespécie parece ser mais abundante que a subsp. tournefortii.
A subsp. tetragonum é, em geral, mais ramificado e mais denso que a outra subspécie. A produção de flores é bastante mais abundante resultando numa farta acumulação de longas cápsulas verticais.
- Caules: 20 a 90 cm de altura e 1 a 6 mm de diâmetro
- Folhas: 1,5 a 6 cm de comprimento e 0,3 a 0,8 cm de largura
- Pedicelos das flores: 1 a 2,5 cm de comprimento, durante a frutificação
- Botões florais: ate 5 mm
- Cálice: de 4 a 6 mm
- Pétalas: de 3 a 5,5 mm
- Anteras: 0,7 a 1,1 mm
- Frutos: de 6 a 9,5 cm
- Sementes: de 0,8 a 1 mm
Embora ocasionalmente visitada por insetos, nota-se na subsp. tetragonum, um elevado grau de autogamia, circunstância em que as flores são fecundadas pelo seu próprio pólen. Esta situação é comum em quase todas as espécies Epilobium e resulta do facto de as anteras dos estames superiores libertarem o pólen na fase em que o estigma começa a ficar recetivo, facilitando o acesso do pólen ao estigma, quer por ação do vento ou da gravidade. Tendo em conta o diminuto espaço entre estes órgãos também os insetos ao roçarem na base dos estames, favorecem o contato entre anteras e estigma.

Alguns cientistas consideram ainda a existência de uma terceira subespécie: Epilobium tetragonum lamyi (F.W.Schultz)Nyman.
Contudo este taxon tem sido objeto de ampla discussão, havendo falta de convergência na interpretação das características que lhe são atribuídas. Entretanto, os autores que se dedicam à investigação em Portugal e Espanha chegaram à conclusão que os registos que assinalam a presença de E. Lamyi na Península Ibérica, são erróneos.
Segundo o botânico espanhol Gonzalo Nieto Feliner, nas suas Notes on Epilobium (Onagraceae) from the western Mediterranean, assegura que “as características invocadas por diferentes autores para diagnosticarem E. lamyi não demonstram uma clara correlação com os numerosos espécimes examinados na Península Ibérica. Por outro lado, não existe consenso no que se refere as características deste taxon que o possam distinguir de E.tetragonum”.
Também com base nos estudos deste cientista, a Flora Iberica publicou as seguintes observações:
“Entre o material peninsular não vimos nada que claramente se refira à subsp. Lamyi (F.W. Schultz) Nyman, Consp.Fl.Eur.: 247 (1879).  A validade deste taxon é apoiada por muitos autores, mas há pouco consenso quanto aos carateres diagnóstico do mesmo. A razão, no que diz respeito à Península, é que o que geralmente é identificado como subsp. lamyi ou E. lamyi não é outra coisa senão  Epilobium obscurum. O tipo de E. lamyi — de Limoges, França — parece poder ser incluído em E. tetragonum, embora mostre algumas características mais próprias de E.obscurum, nomeadamente a forma, margem e base das folhas, o comprimento do fruto ou, em alguns casos, a presença de algum pelo glandular no tubo do cálice. Estas características são, aparentemente, a causa de tanta confusão”.
[Cf. Nieto Feliner in Anales Jard. Bot. Madrid 54: 255-264 (1996)].

Epilobium tetragonum pertence ao género Epilobium. Este inclui cerca de 170 espécies  herbáceas que se distribuem pela maioria dos climas árticos, temperados e subtropicais. Segundo o portal Flora-on são 8 as espécies deste género presentes em Portugal. Confira AQUI
O nome Epilobium significa literalmente “em cima da cápsula” e refere-se à posição da corola no topo do longo ovário. O nome deriva do grego “epi”=sobre ou em cima de + “lobos”= cápsula ou vagem.
Epilobium é um género notável pela sua diversidade morfológica, ecológica e citológica, sendo alvo de múltiplos estudos taxonómicos e evolutivos. Sob o ponto de vista taxonómico é um grupo muito difícil de identificar, não só porque muitas das espécies são semelhantes, mas sobretudo devido à tendência que têm para hibridar com outras espécies do mesmo género que existam nas proximidades. De notar que estes híbridos são maioritariamente férteis (capazes de produzir sementes viáveis) pois as espécies Epilobium são compatíveis entre si, o que geralmente não acontece noutros géneros.

Certas espécies de Epilobium, nomeadamente Epilobium angustifolium, E. hirsutum, E. palustre, E. tetragonum e E. rosmarinifolium têm sido usadas desde há séculos como alimento (os pequenos e tenros rebentos laterais) e em medicina tradicional. São-lhe atribuídas propriedades anti-inflamatórias, analgésicas, antioxidantes, além de atividades antiproliferativa e antimicrobiana. Os principais constituintes — os nossos já conhecidos metabólitos secundários — são os polifenóis, entre os quais ácidos fenólicos, flavonóides e taninos (oenothein A e principalmente B).
Os extratos de Epilobium podem ser usados internamente sob a forma de infusão. Todas as partes da planta podem ser usadas desde a raiz e caules até às folhas e flores.
O tratamento visa problemas da próstata, desordens gastrointestinais e da bexiga, infeções urinárias e incontinência urinária, aftas e outras afeções da mucosa bucal.
Externamente usa-se para tratar pequenas feridas da pele, acne, eczema, rosácea. Hoje em dia é muitas vezes adicionada a cosméticos, champôs e produtos de limpeza da pele. Certos produtos terapêuticos para tratamento das afeções da pele também incluem extratos de Epilopium.
Nota:
Epilobium interfere com a hormona progesterona pelo que deve ser evitada durante a gravidez, em caso de uso de pílulas anticoncepcionais ou terapia hormonal de substituição.

O género Epilobium é o maior dos 17 géneros que constituem a família Onagraceae cujo nome se baseia no género-tipo Onagra, agora rebatizado com o nome de Oenothera.
Esta família botânica distribui-se por todas as regiões tropicais, subtropicais e temperadas do globo, mas com maior diversidade no continente americano. 
Fuchsia spp.
Muitas espécies são cultivadas como ornamentais como acontece com as espécies dos géneros Oenothera, Clarkia e também Fuchsia, estas últimas especialmente apreciadas e vulgarmente conhecidas por brincos-de-princesa.

Fotos de Epilobium tetragonum subsp. tournefortii: Serra do Calvo/Lourinhã 

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Verbascum virgatum Stokes

Nomes comuns:
Verbasco, verbasco-das-varas; 
barbasco; blatária-grande; blatária-maior

Verbascum virgatum é uma planta herbácea bienal. O seu ciclo evolutivo demora 2 anos a completar-se. No primeiro ano as sementes germinam, estabelecem raízes e surgem as primeiras folhas em forma de roseta. 
Os caules aparecem no segundo ano, logo seguidos de flores e frutos. O ciclo fica completo quando as sementes voltam à terra, ansiosas por recomeçar.
Os caules são geralmente solitários e simples, por vezes ramificados, podendo atingir 1 ou 1,5 m de altura; são eretos e sólidos com uma consistência algo coriácea, de seção redonda ou um pouco angulosa; a superfície é relativamente glabra na parte inferior da planta mas na parte superior, sobretudo ao nível das inflorescências, está coberta de pelos glandulares curtos, simples, bifurcados ou trifurcados.

As folhas basais são inteiras, oblongo-lanceoladas, onduladas, de consistência grossa e enrugada e com ápice agudo; as margens são recortadas de forma mais ou menos irregular e vão-se estreitando em direção ao eixo, formando um pecíolo curto. 
As folhas caulinares são semelhantes, mas dispõem-se ao longo do caule de forma alternada helicoidal; não só não têm pecíolo, como quase abraçam o caule, por vezes prolongando-se ao longo dele. Ambas as páginas das folhas são finamente pubescentes.
As flores, com 3 ou 4 cm de diâmetro, são amarelas e formam espigas compridas e pouco densas. As flores podem nascer isoladas ou em grupos de 3 a 5.
Em qualquer dos casos existem brácteas, semelhantes a pequenas folhas, na base dos pedúnculos florais. Os pedicelos, mais curtos que o cálice, são acrescentes ou seja, continuam a crescer mesmo depois da fecundação e engrossam ligeiramente durante a frutificação; estão cobertos de pelos gandulares, tal como acontece com as brácteas e com as sépalas que formam o cálice.
A corola é formada por 5 pétalas amarelas, peludas na face inferior, ligeiramente desiguais e que se dispõem em forma de taça; são soldadas na base e a extremidade é arredondada.
O cálice é constituído por 5 sépalas triangulares, soldadas na base mas mais curtas que as pétalas e persistentes no fruto.
As flores são perfeitas pois estão providas de órgãos reprodutores masculinos e femininos funcionais. 
O androceu apresenta 5 estames dimorfos ou seja, dois maiores e com as anteras inseridas obliquamente e os restantes três mais curtos e com as anteras inseridas de forma transversal; todos os filamentos estaminais estão cobertos por pelos longos e densos de cor violeta e branca. 
As anteras, de cor laranja, são glabras e em forma de rim. 
O gineceu consta de um ovário com pelos glandulares e um estilete longo, encimado por um estigma arredondado.
As flores são polinizadas por insetos e a planta floresce e frutifica de abril a agosto.
Frutos imaturos
Os frutos são cápsulas quase globosas, um pouco maiores que o cálice. 
Fruto maduro
As sementes que se encontram dentro dos frutos são numerosas, muito pequenas e leves, sendo facilmente dispersas pelo vento. Servem de alimento a pequenas aves e outros pequenos vertebrados.

Verbascum virgatum é uma espécie nativa do oeste europeu, nomeadamente Península Ibérica, norte de Itália, França e sudoeste de Inglaterra. Foi introduzida e naturalizou-se na África do Sul, América do norte e América do Sul e ainda na Australásia.
Mapa de distribuição em Portugal continental
Fonte: Flora Digital de Portugal/Jardim Botânico - UTAD
No que diz respeito ao nosso país, é autóctone de Portugal continental e Madeira e foi introduzida nos Açores.
Podemos encontrar esta espécie em matos, terrenos cultivados, várzeas, beira dos caminhos, locais de solo remexido, baldios, lixeiras, dunas costeiras de solo perturbado com exposição abrigada do vento. Cresce em quase todos os tipos de solo e aguenta alguma seca mas prefere locais nitrificados e húmidos. Ressemeia-se com facilidade e coloniza facilmente habitats abertos mas não sobrevive a muita concorrência, pelo que não é considerada uma ameaça à atividade agrícola.
Verbascum virgatum pertence ao género Verbascum o qual inclui cerca de 360 espécies (e muitos híbridos) das quais, segundo o portal Flora-on,  9 estão presentes em Portugal. Veja AQUI
O nome genérico Verbascum deriva do vocábulo latino “Barbascum” que significa barba, numa clara referência à penugem que cobre as plantas, ainda que algumas espécies sejam bem mais peludas que outras.
O epíteto específico virgatum deriva também do latim, “virga” que significa vara, referindo-se à estrutura dos caules da planta.
As Verbascum virgatum são plantas muito vistosas e apreciadas pelos amantes da jardinagem. São valorizadas pelas belas flores, folhagem atrativa e elegância do porte, alto e estreito. Acresce o facto de permanecerem em flor por longos períodos de tempo, mesmo em solos secos. Outra vantagem é a baixa manutenção de que necessitam.
Existem disponíveis no mercado da horticultura, sobretudo em países apreciadores da jardinagem e onde as vendas de flores têm grande representatividade, cultivares para todos os gostos: com caules mais curtos, flores maiores e de cores mais variadas.
Nota: 
As cultivares resultam do “melhoramento” de uma determinada planta dando-lhe características que a tornam mais apetecida e em consequência mais vendável. Desta forma uma planta torna-se diferente de todas as outras no que diz respeito a resistência a doenças, a cor ou porte sem que no entanto tenha sido geneticamente modificada, muitas vezes recorrendo à hibridação. Para que uma nova cultivar possa ser registada, o que é obrigatório para poder ser comercializada, tem de manter características iguais em todas as plantas da mesma cultivar durante um espaço de tempo necessariamente longo.
Hibrido Verbascum ´Sugar Plum´
Fonte- fine Gardening
Em Dry Gardens of England pode aceder a fotos de jardins, muitos deles exibindo espécies de Verbascum.

No que diz respeito às espécies silvestres, uma vez estabelecidas e encontrando-se confortáveis, ressemeiam-se com facilidade. Havendo outras espécies do mesmo género nas proximidades a hibridação é muito frequente. E se por um lado as variações morfológicas que daí advêm complicam a delimitação das espécies, também é certo que se podem conseguir exemplares inesperados, certamente uma mais-valia para os amantes da jardinagem.

As espécies do género Verbascum têm uma longa história na medicina tradicional em quase todas as partes do mundo. Têm sido usadas durante séculos no tratamento de uma ampla variedade de doenças nomeadamente distúrbios respiratórios em geral, hemorróidas, dor reumática, situações inflamatórias da pele, feridas, infeções fúngicas e diarreia  e ainda como emoliente, diurético, expetorante e mucolítico. Para além das propriedades anti-inflamatórias são também conhecidas as suas propriedades antivirais, antimicrobianas, antimalária, antioxidantes, anticancerígenas, citotóxicas, imunomoduladoras, antiulcerogênicas, antihepatotoxicas, antihiperlipidémicas, etc. Enfim, poucas plantas terão assim tantas aplicações medicinais. 

Estes atributos devem-se aos metabólitos secundários, ou seja compostos químicos produzidos pelas plantas dos quais ainda só foram isolados saponinas, alcaloides, flavonoides, glicosídeos iridoides e feniletanoides. Apesar de todas as aplicações o conhecimento dos metabólitos acumulados em diferentes espécies de Verbascum é ainda limitado pelo que têm sido objeto de variados estudos e pesquisas na área da indústria farmacêutica.

Os tratamentos são feitos à base das flores e folhas por meio de extratos (ex.: maceração), decocção ou infusão, tendo o cuidado de filtrar bem os líquidos devido aos pelos existentes quer nas flores quer nas folhas e que são irritantes quando ingeridos.
Alertamos para o facto de que entre estes compostos químicos produzidos por algumas Verbascum sp está presente a cumarina (anticoagulante) e também a rotenona (inseticida e piscicida). Como sempre, qualquer tratamento deve ser acompanhado de aconselhamento de um ervanário credenciado pois há sempre a possibilidade de surgirem contra-indicações.

A espécie mais usada em medicina popular é Verbascum thapsus, espécie também presente em Portugal e nesta região. Veja AQUI.

Verbascum é o maior género da família Scrophulariaceae, a qual foi recentemente reorganizada, tendo perdido muito dos seus membros. Numerosos estudos de filogenia (relação evolutiva entre as espécies) com dados moleculares demonstraram que determinados géneros não tinham afinidade genética com a família Scrophulariaceae, pelo que foram transferidos para outras famílias, principalmente Plantaginaceae e Orobanchaceae. Tradicionalmente esta família agrupava 5000 espécies divididas em 275 géneros. Consideravelmente emagrecida após o reajuste, a família Scrophulariaceae tem agora 65 géneros que totalizam aproximadamente 1700 espécies, com distribuição mundial. A importância económica desta família reside principalmente na indústria de plantas ornamentais, de que apresento alguns exemplos:
Híbrido Diascia ´Coral Belle´. Photo by Kenpei
Fonte: Wikimedia Commons
Buddleja davidii
Photo by abbamouse. Fonte Wikimedia Commons
Híbrido de Nemesia 'Sunsatia Banana'
Photo by Stan Shebs. Fonte Wikimedia Commons
O nome Scrophuriaceae teve origem no género-tipo desta família, o género Scrophularia, que por sua vez deriva do termo em latim “scrofula” = escrófula, uma infeção nos gânglios linfáticos (a nível mandibular e cervical) que no passado era tratada com medicamentos feitos a partir de plantas deste género.

Fotos de Verbascum virgatum
Lugar da Areia Branca/Lourinhã (a cerca de 200 metros da praia).

sábado, 6 de junho de 2015

Melilotus indicus (L.) All.

Nomes comuns:
Anafe-menor; coroa-de-rei;  meliloto-da-índia;
trevo-de-cheiro; trevo-de-namorado; meliloto

Melilotus indicus é uma planta aparentada com os trevos, nativa da região mediterrânica, norte de África, Ásia temperada (Península arábica, Médio Oriente, Cáucaso, Ásia central e China) e Ásia tropical (Índia, Nepal e Paquistão). 
No que diz respeito a Portugal, é nativa de Portugal continental e Madeira e naturalizada nos Açores.
Mapa de distribuição em Portugal continental
Fonte: Flora Digital de Portugal-Jardim Botânico da UTAD
Foi introduzida no norte da Europa e logo se espalhou por quase todas as regiões do mundo de clima temperado quente. Embora prefira substratos alcalinos com boa drenagem, dá-se bem em quase todos os tipos de solo, conseguindo mesmo conviver com alguma salinidade. 
É uma espécie pioneira, arvense ou ruderal que ocorre em jardins, beira das estradas e caminhos, estrumeiras, locais perturbados, dunas marítimas, campos cultivados e habitats ripários (margens de cursos de água). 
Apesar de naturalizada, a sua condição de espécie exótica tem-lhe facilitado o desenvolvimento de hábitos invasores em alguns locais, rapidamente formando densas colónias que abafam as espécies autóctones. No entanto, é também muito útil em várias vertentes: é uma planta muito melífera, uma das preferidas das abelhas; as suas raízes profundas penetram nos solos favorecendo o arejamento dos mesmos, além de que têm a capacidade de fixar o nitrogénio atmosférico transformando-o em nutrientes. Esta planta tem ainda a vantagem de crescer bem em solos moderadamente salinos, onde outras espécies forrageiras não proliferam. 
Melilotus indicus é cultivada como fonte de alimento para o gado, sendo uma espécie apropriada às características climáticas de certos locais, resultando economicamente rentável. Apesar do agradável aroma que liberta, o seu sabor é algo amargo pelo que não é muito apreciada. Por essa razão é geralmente cultivada em mistura com cevada, aveia, centeio ou ervilhaca, não devendo ser colhida antes da floração para minimizar os efeitos do aparecimento de bolor a que é propensa durante o armazenamento. De qualquer modo, Melilotus indicus apresenta um certo grau de toxicidade pelo que se for usada em excesso na alimentação do gado poderá causar problemas de saúde, tais como falta de apetite, distensão abdominal, letargia, paralisia e contaminação do leite. A substância culpada é um metabólito secundário, a cumarina. No entanto, já existem híbridos com baixa concentração deste componente químico. 
O ciclo de vida de Melilotus indicus é geralmente anual mas em alguns casos é bienal, dependendo das condições ambientais. Dos mesmos fatores depende o crescimento da planta cuja altura pode ir dos 10 aos 50 cm.
Os caules, ramificados e algo angulosos, são delgados, eretos ou ascendentes, glabros ou esparsamente pubescentes, sobretudo os mais jovens.
As folhas são alternas e compostas por 3 folíolos de forma oblonga ou obovada, com margens serradas. 
Na base do pecíolo existem duas estípulas, ou seja, dois pequenos apêndices foliares de margem membranosa, alongados e estreitos. Nem todas as plantas possuem estípulas e a sua função primitiva permanece algo obscura. Contudo, tanto a sua presença como a sua ausência são, muitas vezes, um fator fundamental para a identificação das espécies. Veja mais AQUI
De notar que os folíolos que compõem as folhas de Melilotus indicus apresentam nastias, ou seja, movimentos que ocorrem em resposta a estímulos ambientais, nomeadamente a luz do sol ou a sua falta. Durante o dia, em resposta à luz solar, os folíolos ficam bem distendidos (fotonastia) para captar o máximo de luz e à noite fecham-se sobre si mesmos (nictinastia) diminuindo a superfície exposta. Estes movimentos resultam da alteração rápida na turgidez das células que se encontram na base dos pecíolos e dos peciólulos, em estruturas mais espessas denominadas pulvinos. O estímulo sobre as células dos pulvinos provoca a libertação dos iões de potássio com a consequente perda de água nas células vizinhas devido ao decréscimo da capacidade de osmose. Desta forma os pulvinos contraem-se e esta reação, ao propagar-se rapidamente, faz com que todas as folhas se dobrem. As folhas abrem-se através do processo inverso. As alterações na turgidez das células são determinadas por agentes químicos cujo equilíbrio controla a contração ou expansão dos pulvinos, num processo ainda não completamente entendido e que tem sido objeto de vários estudos. Esta é uma das características das espécies da família Fabaceae (Leguminosae) a que pertence Melilotus indicus.
As folhas frescas são comestíveis depois de cozinhadas mas quando secas podem ser tóxicas devido à presença da cumarina, substancia química que dá às plantas secas a fragância - que muitos apreciam – do feno acabado de cortar.
As folhas são também repelentes de insetos. Em tempos, quando ainda se usavam colchões de palha, as folhas eram usadas para repelir os percevejos.

As flores são muito pequenas mas numerosas e reúnem-se em elegantes cachos, densos e alongados. Cada pequena flor liga-se a um eixo central por meio de pedicelos curtos. As flores viram-se para baixo após a ântese (período de expansão da flor). 
O cálice, penugento e de cor verde-pálido, forma um tubo campanulado que termina em 5 dentes triangulares, tão compridos quanto o tubo. O comprimento total do cálice corresponde a cerca de metade do comprimento da corola.
A corola, de cor amarela, é formada por cinco pétalas, uma maior e mais comprida e situada na parte superior (o estandarte), duas laterais (as asas) e duas situadas na parte inferior e que estão parcialmente unidas (a quilha). 
Esquema de uma flor papilionácea
Este é um tipo de flor a que se chama papilionácea por ser semelhante a uma borboleta e que é característico de algumas espécies da família a que pertence a Melilotus indicus. As flores são perfeitas, assim classificadas porque dispõem de órgãos reprodutores masculinos e femininos. O androceu é formado por 10 estames com anteras de cor amarela ou alaranjada. Um dos estames é livre mas os restantes nove estão soldados, formando um tubo através do qual passa o estilete que surge a partir do ovário e que é persistente na maturação do fruto. O estigma é diminuto e de cor esverdeada.
Debaixo do ovário existe um recetáculo onde se forma o néctar, o qual é posto à disposição dos polinizadores entre os estames. Apesar deste incentivo aos insetos polinizadores Melilotus indicus geralmente recorre à autopolinização. Contudo é uma planta muito procurada pelas abelhas e com importância económica na produção de mel.
O fruto é uma vagem arredondada e de cor esverdeada que na maturação continua parcialmente envolvida pelo cálice que entretanto se torna rosado. 
Frutos de Melilotus indicus em amadurecimento (pormenor)
Fonte: Wikimedia Commons 
Autor: Forest & Kim Starr
O fruto tem forma ovóide ou quase globosa e a sua superfície apresenta-se ornamentada com vários sulcos que formam um desenho bastante intrincado. No seu interior existe 1 única semente, raramente 2.
Inicialmente as sementes são macias mas acabam por perder a humidade, tornando-se castanhas e duras, temporariamente impermeáveis. Podem manter-se viáveis no solo durante 11 a 50 anos, embora tenham sido encontradas sementes viáveis com 183 anos em San Fernando, no México. As plantas Melilotus indicus produzem uma media de 14,000 sementes por individuo, havendo no entanto plantas grandes que chegam a produzir de 200,000 a 350,000.
Quando maduros os frutos caiem no chão e as sementes acabam por se libertar, dispersando-se por ação do vento ou por animais, muitas vezes sendo ingeridas por pequenas aves.

Esta espécie está incluída no género Melilotus cujas espécies apresentam, por vezes, características morfológicas muito semelhantes. De facto, Melilotus indicus pode facilmente ser confundida com outras espécies do mesmo género e que vivem nos mesmos habitats, especialmente com Melilotus officinalis mas também com Melilotus  sulcatus. Na generalidade as flores deste género são amarelas com exceção de Melilotus albus que tem flores brancas. Existem pequenas diferenças na densidade das inflorescências ou no tamanho das flores mas a melhor forma de distinguir as espécies é através da observação dos frutos maduros.
Esquemas dos frutos maduros, da esquerda para a direita: M. indicus, M. Officinalis, M.sulcatus
Fonte: Flora Iberica
Inicialmente Melilotus indicus foi incluída no grande género Trifolium por Linnaeus em 1753 (Species plantarum) mas foi posteriormente transferida para o género Melilotus pelo botânico italiano Carlo Allioni (Flora Pedemontana 1: 308. 1785)
O nome do género Melilotus vem do grego e quer dizer literalmente “planta leguminosa com mel” referindo-se ao facto de as suas espécies serem muito melíferas – “meli”= mel + “lotos” = planta leguminosa (Munz, Flora So. Calif. 464). O nome da espécie indicus vem do também do grego “indikos” e refere-se à Índia (Jaeger 127)- país onde sempre foi muito cultivada como forrageira.
Este género inclui 21 espécies largamente distribuídas e das quais 10 estão presentes em Portugal continental como autóctones. A maioria destas espécies também estão presentes nos arquipélagos de Açores e Madeira, algumas tendo sido introduzidas, outras sendo nativas (pode conferir os detalhes específicos em Flora-on). 
Melilotus indicus é uma leguminosa, pertencendo à família Fabaceae também denominada Leguminosae, uma das maiores famílias de plantas de flor, incluindo mais de 18,000 espécies agrupadas em cerca de 463 géneros, distribuídas praticamente pelo mundo inteiro. É grande a sua importância económica pois inclui espécies fundamentais na alimentação humana como sejam a soja, o feijão, o amendoim, o grão-de-bico, o tremoço, as ervilhas ou as favas, apenas para mencionar algumas.
Na generalidade, são plantas de hábitos variados podendo ser herbáceas, trepadeiras, arbustos ou árvores. Muitas espécies são também utilizadas como ornamentais, outras têm grande valor comercial ou industrial devido aos produtos que delas podem ser extraídos, nomeadamente o tanino, substância usada na indústria do couro, já para não falar dos corantes, tinturas, colas, vernizes etc.
Uma das características desta família é a faculdade de converter o nitrogénio atmosférico (azoto) em moléculas proteicas as quais são aproveitadas pela própria planta para seu desenvolvimento e o das plantas em seu redor. Isto acontece devido a uma relação simbiótica com bactérias Rhizobium que se fixam nas raízes das leguminosas através de nodosidades, visíveis a olho nu. Em contrapartida, as bactérias recebem das plantas os açúcares produzidos durante a fotossíntese. Esta simbiose permite não só a sobrevivência das referidas bactérias mas também que certas espécies possam desenvolver-se sem problemas em solos pobres em azoto e matéria orgânica.
Tirando partido desta capacidade Melilotus indicus é também usada como adubo verde, processo que consiste  em cultivar leguminosas de crescimento rápido, as quais são cortadas e enterradas no mesmo local antes de florescerem e criarem sementes. Esta prática promove o enriquecimento do solo com azoto e outros nutrientes, além de melhorar a estrutura dos terrenos, protegendo-os da seca e limitando o desenvolvimento das ervas daninhas.

Usos medicinais:
Todas as plantas sintetizam químicos variados, nomeadamente os chamados metabólitos secundários, muitos deles responsáveis por propriedades terapêuticas (veja mais AQUI ).
Melilotus indicus contém cumarina, que é um anticoagulante. A planta também é usada como emoliente, adstringente, laxante e narcótica. 
Entretanto aqui deixamos, mais uma vez, um conselho: qualquer tratamento que leve ao consumo interno das plantas deve ser precedido de aconselhamento apropriado, 

Fotos: Caniçal/Lourinhã, exceto quando mencionada outra fonte.