"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta, é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou séculos a construir"





domingo, 30 de Março de 2014

Cytisus grandiflorus (Brot.) DC.subsp. grandiflorus

Nome comum: Giesta-das-sebes

Por esta altura do ano os campos são um festival de amarelo e dourado. Às pequenas florinhas rasteiras juntam-se as giestas e os tojos, este ano particularmente viçosos e floridos. Agrupando-se em manchas de tons dourados, enriquecem a paisagem com uma beleza todos os anos repetida mas sempre surpreendente. E apesar da chuva e do frio que voltaram para nos lembrar que o verão ainda vem longe, essa beleza vai permanecer por mais algum tempo fazendo as delícias de abelhas, borboletas e outros insetos polinizadores.
A espécie Cytisus grandiflorus subsp. grandiflorus foi a escolhida para o “post” de hoje. Esta é uma espécie autóctone, nativa da Península Ibérica, bastante comum em muitas regiões do norte e centro de Portugal Continental. Cresce de forma espontânea em situações de sol ou meia sombra em terrenos rochosos e abandonados mas sobretudo fazendo parte do coberto vegetal constituído por espécies arbustivas que ocorrem em pinhais, carrascais ou montados, tais como urzes, carquejas, sargaços e estevas. Também é muito usada na recuperação paisagística sendo comum em taludes e à beira das autoestradas.
Cytisus grandiflorus subsp. grandiflorus forma um arbusto muito vistoso e de aspeto delicado. A floração não é tão densa como a de algumas outras espécies da mesma subfamília mas as flores são maiores (daí o nome da espécie, grandiflorus). Enquanto a floração se prolonga e novas flores vão surgindo, as mais velhas dão lugar aos frutos.

Os seus vários ramos crescem eretos e longos, formando ângulos separados por nós. A superfície dos ramos de 2º ano é esquinada, no sentido longitudinal, apresentando 5 arestas salientes e bastante pronunciadas. Quando envelhecem os ramos tornam-se roliços, perdem a cor verde e tornam-se cinzento-acastanhados e de aspeto rugoso, deixando de produzir folhas e flores as quais nascem em ramos mais jovens, geralmente do ano anterior.
As folhas, caducas, são simples, apenas com alguns pelos nas margens e quase não têm pecíolo. Nos ramos de entrenós mais compridos as folhas estão solitárias mas nos raminhos laterais cujos entrenós são mais curtos, as folhas encavalitam-se formando grupos de três a cinco.
As flores, providas de um pequeno pedicelo, nascem nas axilas das folhas e surgem solitárias ou aos pares. A corola, de cor amarela, é formada por cinco pétalas, uma maior e situada na parte superior (o estandarte), duas laterais (as asas) e duas situadas na parte inferior e que estão unidas (a quilha). 
Esquema de uma flor papilionácea
Este é um tipo de flor a que se chama papilionácea por ser semelhante a uma borboleta e é característico da família a que pertence a Cytisus grandiflorus. A diferente morfologia das pétalas corresponde a funções diferenciadas e complementares que resultam numa estratégia altamente especializada no que diz respeito à polinização por insetos, facilitando a polinização cruzada. 
Os órgãos reprodutivos femininos e masculinos da flor encontram-se encerrados na quilha.
O estandarte, sendo maior, é o fator de atração visual para os insetos e as asas funcionam como plataforma de aterragem. Ora, quando os polinizadores pousam nas asas, a quilha baixa e em consequência, os estames e estigma ficam expostos ao corpo do inseto, permitindo que se faça a troca de pólenes.
A base das pétalas que formam as asas e a quilha estão envoltas entre si formando um tubo do qual emergem 10 estames (5 curtos, 1 mediano e 4 compridos) e um estilo tão comprido que se enrola sobre si mesmo, em espiral.
Esta espécie floresce e frutifica de março a julho.
O fruto de Cytisus grandiflorus subsp. grandiflorus  é uma vagem linear-oblonga, toda ela muito peluda, ligeiramente curvada, fortemente comprimida. Começa por ser verde mas com a maturação a vagem torna-se negra, com pelos brancos. Cada vagem pode conter de 2 a 9 sementes, ovóides e pardacentas.

Cytisus grandiflorus é nativa do oeste e sul da Península Ibérica e noroeste de Marrocos e divide-se em duas subespécies, as quais nem sempre são de fácil identificação. No entanto existem algumas diferenças mais óbvias:
Cytisus grandiflorus subsp. grandiflorus  (Brot.) DC. (acima descrita):
- Em Portugal distribui-se pelo norte e centro de Portugal.
- A superfície dos ramos de 2º ano é esquinada, no sentido longitudinal, apresentando 5 arestas salientes e bastante pronunciadas.
- As vagens estão densamente cobertas por pelos brancos e compridos, em ambas as faces.
Cytisus grandiflorus subsp. cabezudoi Talavera
- Esta subespécie é endémica das regiões costeiras do sul da Península Ibérica. Em Portugal foi assinalada no Algarve e no Alentejo litoral, em solos arenosos e dunares.
- Os ramos de 2º ano são quase arredondados, estando as arestas pouco marcadas.
- Ambas as faces das vagens são glabras apresentando pelos apenas nas margens.

A Cytisus grandiflorus pertence ao género Cytisus, um dos 700 géneros em que se divide a família das Fabaceae, também denominada Leguminosae, cujas espécies estão largamente distribuídas por todos os continentes, com exceção da Antártida. Compreendendo 18.000 espécies, esta é uma das maiores famílias botânicas, pelo que foi dividida em três subfamílias (Faboideae ou Papilionoideae, Mimosoideae e Caesalpinioideae). A Cytisus grandiflorus está colocada na subfamília Faboideae ou Papilionoideae.
São plantas de hábitos variados podendo ser herbáceas, trepadeiras, arbustos e árvores. Muitas delas são utilizadas como ornamentais, outras têm grande valor comercial ou industrial devido aos produtos que deles podem ser extraídos, nomeadamente o tanino, substância usada na indústria do couro, já para não falar dos corantes, tinturas, colas, vernizes etc. Mas, é sobretudo como alimentos básicos e essenciais na dieta de todos os povos que as leguminosas são mais conhecidas pois desta família fazem parte feijões, favas, ervilhas, soja, amendoim, apenas para citar algumas espécies.
Conforme já aqui referido em “posts” anteriores, as espécies da família Fabaceae são fixadoras do nitrogénio presente na atmosfera, tornando os solos mais férteis. Tal acontece através da formação de nódulos nas raízes resultantes da simbiose com bactérias do género Rhizobium as quais absorvem o azoto, também chamado nitrogénio, diretamente da atmosfera transformando-o em amoníaco, permitindo que este seja, de imediato, absorvido pela planta. Mas, nem todo o azoto é utilizado pela própria planta pelo que algum é libertado para o solo, para ser aproveitado por outras. O azoto é essencial ao crescimento das plantas pelo que esta característica é de extrema importância.
O efeito benéfico que advém do plantio de plantas leguminosas é conhecido desde há muitos séculos mas foi só em 1889 que foi identificada a primeira bactéria Rhizobium leguminosarum, comprovando o papel dos microrganismos na fixação do azoto atmosférico consociados com as leguminosas.
A quantidade de azoto fixado pelas bactérias que com elas vivem associadas depende, entre outros fatores, da espécie de leguminosa e das condições do solo.
Na agricultura dos nossos dias há quem prefira utilizar os chamados “adubos verdes” para enriquecer o solo, em detrimento de produtos químicos. Isto consiste em cultivar espécies de crescimento rápido, geralmente da família das leguminosas, as quais são colhidas e enterradas no mesmo local antes de florescerem e criarem sementes. Esta prática promove o enriquecimento do solo com azoto e outros nutrientes, além de melhorar a estrutura dos terrenos, protegendo-os da seca e limitando o desenvolvimento das ervas daninhas.
A Cytisus grandiflorus é uma espécie apreciada em jardins, destacando-se como exemplar isolado ou em maciços. Multiplica-se por semente podendo tornar-se invasora em algumas situações pois as sementes germinam facilmente. Aprecia os solos leves e arenosos com boa exposição solar. É uma espécie rústica e tem a vantagem de não se incomodar muito com os ventos marítimos. Apesar de resistente à seca deve ser regada periodicamente (sem encharcar) e para manter uma forma compacta e evitar que a planta fique demasiado nua nos ramos mais velhos, deve ser podada no inverno para estimular o desenvolvimento de ramos novos. Contudo há que ter em conta que é uma espécie tóxica, o que aliás acontece com muitas plantas de jardim.

Entretanto, muitas são as espécies arbustivas, aparentemente semelhantes entre si, que florescem nesta época do ano. As suas flores são muito idênticas, do tipo papilionáceo e quase sempre amarelas. As espécies são muitas e nem sempre é fácil distingui-las pelo que popularmente costumamos separa-las em dois grupos: as que têm picos e as que os não têm. Às espinhosas, geralmente mais baixas e compactas habituamo-nos a chamar tojos e as outras, altas e de ramos finos conhecemo-las por giestas. Tal "classificação" nem sempre corresponde à realidade. São todas da família Fabaceae, subfamília Faboideae mas pertencem a géneros diferentes, não só Cytisus mas também, Ulex, Genista e mais alguns, menos representativos. Veja as fotos que lhe poderão mostrar as diferenças e semelhanças entre várias destas espécies, no portal da Flora-on, clicando AQUI, AQUI e AQUI.

Fotos: Serra do Calvo/Lourinhã

terça-feira, 11 de Março de 2014

Phillyrea angustifolia L.

Nomes comuns:
Aderno-de-folhas-estreitas; cardono; lentisco; lentisco-bastardo


Phillyrea angustifolia é um arbusto nativo do noroeste africano (Argélia, Marrocos, Tunísia) e do sul da Europa (Itália, França, Espanha e Portugal). Distribui-se pela orla mediterrânica, onde predominam os invernos frios e húmidos e os verões quentes e secos. Cresce em matagais e matos constituídos por arbustos de pequeno porte característicos de locais secos e pedregosos, com grande exposição solar.
Distribuição em Portugal
Fonte: Jardim Botânico UTAD
Phillyrea angustifolia desenvolve-se a baixa altitude em qualquer tipo de solo pelo que em Portugal Continental (não existe nos arquipélagos da Madeira e dos Açores) tanto podemos encontra-la no interior do país como nas dunas do litoral. 
Nas arribas do Caniçal/Lourinhã a Phillyrea angustifolia cresce associada a outras espécies tipicamente mediterrânicas em que predominam os Cistus, os Juniperus Pistacia lentiscus, Daphne gnidium e Lonicera implexa, entre outras.
Estas espécies, chamadas xerófitas, caracterizam-se por terem desenvolvido mecanismos de adaptação que lhes permitem viver, de forma aparentemente confortável, em ambientes secos e quentes ou ventosos. Veja mais detalhes AQUI.
A Phillyrea angustifolia forma um arbusto densamente ramificado que na sua plenitude pode atingir os 4 metros de altura. Os ramos são longos e flexíveis, com casca lisa e acinzentada a qual apresenta numerosas saliências esponjosas de forma elíptica. 
Estas pequenas estruturas formam-se nas raízes, nos troncos, ramos e por vezes até nos frutos (Ex: pera) de muitas espécies de plantas vasculares que desenvolvem cascas grossas e têm como função fazerem as trocas gasosas entre o interior e o exterior da planta.
As folhas, persistentes durante o ano inteiro, são estreitas e inteiras, colocando-se de forma oposta nos caules; de pecíolo curto e exibindo um tom verde-escuro, o seu aspeto é coriáceo devido às ceras que protegem o limbo limitando a transpiração e evitando assim que haja perda inútil de água.
As flores, de tamanho diminuto, são aromáticas e geralmente são polinizadas pelo vento. Reúnem-se em cachos curtos que crescem bem apertados nas axilas das folhas do ano anterior. 
As pétalas são 4 e estão protegidas por 4 sépalas, estas ligeiramente pubescentes. Pétalas e sépalas, de tom branco rosado, estão unidas parcialmente na base formando um tubo curto. Os 2 estames têm filetes curtos mas são salientes em relação à corola devido às grandes anteras amarelas. Na parte superior do ovário, o estilo é curto e na sua parte superior aparece o estigma, bilobado.
O fruto é carnudo tal como uma azeitona mas de formato esférico. Quando está madura toma a cor preta ou azul escura. No seu interior encontra-se um caroço e dentro dele, uma única semente.
A Phillyrea angustifolia floresce no início da primavera mas os frutos só amadurecem no outono. As fotos das flores foram tiradas em finais de março e as dos frutos nos inícios de outubro. 
É um lindo arbusto que pode ser utilizado em jardins com muito sucesso, quer como exemplar solitário quer em conjunto, formando sebe. Prefere ser plantada em pleno sol, mas também não se incomoda com uma situação de meia sombra. Gosta de solos férteis mas não tem requisitos especiais no que diz respeito ao pH do solo. 
Tolera os ventos marítimos o que a torna muito útil em jardins da orla marítima. Não requer rega a não ser no primeiro ano, após a plantação (sem encharcar) ou até estar bem estabelecida. Para além de uma pequena poda todos os anos para lhe restringir o tamanho ou manter a forma, não requer cuidados especiais. É ainda muito atrativa para as aves que procuram os seus frutos no outono.
A Phillyrea angustifolia pode ser confundida com uma espécie semelhante, a Phillyrea latifolia, também nativa da região mediterrânica e que ocorre por vezes nos mesmos habitats. Podem no entanto distinguir-se facilmente sobretudo através das folhas que são mais largas na P. latifolia, como aliás os próprios nomes científicos das espécies indicam (angustifolia = folhas estreitas e latifolia = folhas largas). Veja a diferença AQUI.

Estas duas espécies são as representantes do pequeno género Phillyrea o qual se inclui na família Oleaceae. Esta família agrupa cerca de 25 géneros e 600 espécies, distribuídas por quase todos cantos do mundo com exceção das regiões frias do hemisfério norte e do hemisfério sul. Algumas espécies são de grande importância económica como são os casos da oliveira (Olea europaea), importante oleaginosa e também o freixo (Fraxinus) muito usado na indústria da madeira. Há ainda muitas espécies cultivadas como ornamentais nomeadamente os jasmins (Jasminum), os lilases (Syringa) , os ligustros (Ligustrum) e as Forsythia.

Phillyrea angustifolia é uma espécie androdioica !

O que sabemos sobre o sistema reprodutivo da Phillyrea angustifolia foi reformulado recentemente após estudos efetuados em várias localidades de França. Os testes revelaram que esta espécie, numa mesma população, tem uma taxa elevada de plantas com flores masculinas (só produzem pólen), a par de plantas com flores hermafroditas (produzem óvulos e pólen através de órgãos reprodutores férteis de ambos os sexos). Nesta espécie as flores masculinas apresentam vestígios de um gineceu (órgão feminino) o qual não é funcional pois está atrofiado.
Esta espécie tem mecanismos que impedem a autopolinização. Assim, tendo em conta os fatores de incompatibilidade (mecanismo fisiológico de base genética que se manifesta pela incapacidade de uma planta fértil formar sementes quando fertilizada pelo seu próprio pólen) o pólen das flores masculinas hermafroditas tem o seu campo de ação limitado pois só consegue fertilizar uma em cada duas flores. É nesta situação que as flores das plantas masculinas mostram a sua importância e eficácia pois elas podem polinizar todas as flores hermafroditas, sem restrições familiares. Só assim se compreende que as flores masculinas não só não tenham desaparecido através da seleção natural, como se mantenham em tão grande número. A esta forma de reprodução, muito rara na natureza entre as angiospermas (plantas com flor), chama-se androdioicia
A androdioicia estável e bem definida é um dimorfismo que pressupõe a presença de indivíduos masculinos e hermafroditas separados, existentes numa população que se reproduza por via sexuada.
Durante muito tempo este sistema foi considerado apenas no plano teórico por muitos cientistas que acreditavam que nunca seria encontrado na natureza pois as condições necessárias para o surgimento e sustentação da androdioicia eram improváveis. Pensavam que as situações assinaladas não passavam de formas bizarras de dioicia
Entretanto, estudos realizados nas duas últimas décadas (Pannell 2002), vieram confirmar a androdioicia funcional em várias espécies vegetais. Apesar disso, este sistema de reprodução não deixa de ser raríssimo e os cientistas estão a ser muito cautelosos quando se trata de classificar uma planta como androdioica uma vez que na euforia da descoberta alguns testes poderão ser apressados e certos indicadores mal interpretados.

Há várias situações que podem ser confundidas com androdioicia, havendo nestes casos semelhanças que são apenas aparentes. Apresento alguns casos interessantes:

- Em certas espécies a determinação do sexo das flores depende do tamanho da planta, como acontece com Arisaema dracontium, Panax trifolium ou Apodanthera undulate.
Nestas espécies as plantas de pequeno tamanho têm geralmente função masculina e quando crescem são hermafroditas. Assim nestes casos particulares podem encontrar-se na mesma população plantas masculinas e plantas hermafroditas mas funcionalmente não são androdioicas. Este dimorfismo não é determinado geneticamente, o que acontece é que estas espécies têm a faculdade de escolher o fenótipo que possa vir a maximizar o seu desempenho num dado ano. Plantas pequenas ou sujeitas a condições ambientais “stressantes” geralmente escolhem o fenótipo masculino enquanto as mais fortes escolhem o morfo hermafrodita. Talvez isto aconteça porque a produção de sementes, para ser bem-sucedida, exige mais recursos do que a produção de pólen e assim as plantas pequenas optam pela função mais fácil de cumprir.

- Outra situação presumível tem a ver com o tremendo esforço que representa para certas espécies hermafroditas a produção de frutos. O desgaste em termos energéticos é tão grande que as flores hermafroditas que frutificaram num ano poderão estar incapazes de produzir frutos no seguinte. Desta forma apenas os órgãos masculinas dessas flores produzirão durante uma estação, enquanto as funções femininas “cansadas” se recompõem. Entretanto as restantes flores que não tinham produzido na época anterior estarão teoricamente aptas na seguinte em ambas as funções, masculina e feminina. Em tais populações se as flores forem examinadas apenas uma vez poderão dar a ideia errónea de que são androdioicas.

- Há ainda o caso de certas plantas que se suspeitava serem androdioicas, como por exemplo a perene alpina Lloydia serotina, cujos estudos subsequentes vieram revelar que afinal elas possuem a estratégia de mudar de sexo de ano para ano, ora masculinas, ora hermafroditas, conforme seja mais conveniente ao seu melhor desempenho na produção de sementes.

Resumindo, as populações só devem ser consideradas funcionalmente androdioicas se revelarem um dimorfismo sexual claro com a existência de duas classes distintas de plantas: masculinas que não tenham função feminina e hermafroditas que contribuam geneticamente de forma substancial através de ambas as suas funções sexuais. Ou seja, uma população androdioica equilibrada deve incluir plantas masculinas e hermafroditas que façam, em média, igual contribuição genética para as gerações seguintes.

Pode ver mais detalhes em Functional ecology by J.R. Pannell

Fotos: Arribas do Caniçal/Lourinhã

sábado, 22 de Fevereiro de 2014

Heliotropium europaeum L.

Nomes comuns:
Erva-das-verrugas; tornassol; tornassol-com-pelos;
Verrucária; verrucária-peluda

Heliotropium europaeum é uma planta anual, nativa da região mediterrânica e que pode ser encontrada, de forma dispersa, no centro, sul e oeste da Europa, norte de África, sudoeste asiático e também nas ilhas da Macaronésia (exceto Cabo Verde). 
Foi introduzida noutros continentes, possivelmente de forma acidental, sendo o caso mais notório o da Austrália. Liberta dos seus inimigos naturais, a Heliotropium europaeum encontrou, em algumas regiões desse continente, excelentes condições para o seu desenvolvimento tornando-se altamente invasora e interferindo no equilíbrio ecológico. Ao seu comportamento infestante acresce o facto de ser uma planta muito toxica envenenando o gado e causando enormes prejuízos num setor importante da economia local. 
Esta planta multiplica-se apenas através de sementes mas essas permanecem no solo, mantendo-se férteis por muitos anos. Herbicidas químicos mostraram-se ineficazes no controle desta infestante pelo que têm sido realizados testes de controlo biológico através da introdução de insetos e micro-organismos recolhidos na região mediterrânica onde são agentes naturais de controlo da espécie. Em certas regiões da Austrália foi já experimentado, entre outros, o escaravelho Longitarsus albineus, grande apreciador das folhas de Heliotropium europaeum mas os bicharocos não se deram bem com o clima e a seca impediu-os de se estabelecerem. A borboleta Ethmia distigmatella mostrou ser mais eficaz: as suas larvas crescem nas inflorescências da H. europaeum e comem as flores e as sementes. Novos ensaios estão a ser levados a cabo, recorrendo também a agentes patogénicos nomeadamente fungos dos géneros Uromyces e Cercospora. A ideia é levar estes fungos a produzir doenças infeciosas nas plantas recém-nascidas desta infestante, matando-as.
Em Portugal a Heliotropium europaeum distribui-se por todo o território, sendo autóctone do continente e ilha da Madeira e naturalizada nos Açores. Sendo nativa na nossa região esta planta permanece controlada pelos seus inimigos naturais, escaravelhos, larvas de borboletas e outros, mantendo-se o equilíbrio dos ecossistemas onde ela vive, ao contrário do que aconteceu na Austrália. A interação entre todos os organismos que habitam uma região é quase sempre muito sensível pelo que a introdução de uma espécie exótica pode desencadear reações em cadeia e a consequente perda do equilíbrio existente. Este é um assunto muito interessante e ao qual voltarei, com mais detalhes, num dos próximos “posts”.
A Heliotropium europaeum cresce de preferência em pleno sol, em campos agrícolas, bermas de caminhos e também em escombros e estrumeiras onde gulosamente aproveita a elevada percentagem de azoto no solo.
O nome Heliotropium refere-se à característica aparentemente comum das plantas deste género  que leva as flores a seguirem o movimento do sol ao longo do dia (helio = sol, tropium = virar-se para).
Heliotropium europaeum forma um arbusto baixo e alargado que pode chegar aos 50 cm de altura. O seu sistema radicular é muito desenvolvido o que lhe permite recolher água do solo em épocas de seca. A sua raiz principal é fina mas está profundamente implantada no solo, por vezes a mais de 1 metro e além disso é muito ramificada.
Os caules, simples ou moderadamente ramificados desde a base, têm hábito ereto ou ascendente, e são algo ásperos ao tato devido aos pelos brancos que os cobrem e lhe dão a cor acinzentada.
As folhas, de forma elíptica, também estão cobertas por alguns pelos, particularmente na parte inferior, mas são macias; posicionam-se nos caules de forma alternada, aos quais se ligam por um pecíolo relativamente longo; as margens são inteiras e as nervuras do limbo são bem visíveis, sendo as da face inferior bastante proeminentes.
Ao contrário de outras espécies do mesmo género cujas flores exalam um agradável aroma a baunilha, as flores de Heliotropium europaeum não são odoríferas, antes pelo contrário.
As flores, sem pedúnculo e sem brácteas, reúnem-se aos pares e de forma alternada, em inflorescências compridas. Estas formam uma espiral que se vai desenrolando a medida que as flores vão abrindo, ficando finalmente enroladas apenas na ponta. A ponta enrolada e a textura peluda fazem com que os espigões florais se assemelhem a lagartas.
A corola é afunilada, sendo constituída por 5 pétalas unidas na base formando um tubo. A parte central da corola apresenta um desenho em forma de estrela. A superfície das pétalas é ondulada, com uma prega longitudinal entre os lóbulos e é quase toda branca exceto na base que é amarela. 
As flores estão providas de órgãos reprodutores femininos e masculinos mas são tão pequenas (2 a 4 mm) que estes não são visíveis a olho nu. Do androceu (órgãos masculinos) constam 5 estames amarelados que estão soldados à face interior das pétalas e o gineceu (órgãos femininos) apresentam um pistilo central com estigma linear cuja cor verde se vê na garganta da corola.
Envolvendo a base das pétalas e órgãos reprodutores, temos o cálice o qual consta de 5 sépalas estreitas, lineares ou triangulares muito peludas, separadas praticamente até à base e persistentes mesmo depois da queda do fruto. 
São as sépalas que seguram de forma firme os frutos em desenvolvimento, cobrindo-os parcialmente. 
Cada fruto é composto por um grupo de 4 nozes ou núculas que em conjunto têm forma esférica achatada. Cada núcula contém uma semente de cor escura. No processo de amadurecimento as sépalas ficam mais frouxas e as núculas separam-se umas das outras e caiem para o chão. Para além dos meios habituais (vento, animais, escorrência de agua no solo) não se conhece nenhum mecanismo específico de dispersão das sementes nesta espécie mas a verdade é que elas conseguem organizar-se de forma a germinarem a uma distância relativa umas das outras.
A Heliotropium europaeum floresce e frutifica entre os meses de maio e novembro.

Heliotropium europaeum é uma espécie potencialmente perigosa pois todas as partes da planta são toxicas para animais e humanos. Tem causado a morte de muitos animais (gado) que a encontrem misturada nas pastagens. Os alcaloides contidos na planta provocam lesões irreversíveis no fígado o que não impede que seja incluída na farmacopeia popular como febrífuga, sedativa, analgésica e cicatrizante. Há quem use o suco obtido das folhas para eliminar verrugas, daí a origem de um dos nomes vulgares em Portugal (erva-das-verrugas).

Heliotropium europaeum pertence ao género Heliotropium, um dos 140 géneros em que se divide a Boraginaceaefamília botânica de importância económica relativa e cujas espécies são nativas dos trópicos, climas temperados, oeste americano e bacia do Mediterrâneo. Muitas das espécies Boraginaceae são cultivadas e apreciadas como ornamentais apresentando cachos de pequenas flores principalmente em tons de rosa, azul e roxo. Algumas das mais conhecidas são as minúsculas miosótis, os odoríferos heliotrópios, e as consoldas. Muitas outras são espontâneas em Portugal e algumas até já foram descritas neste “blog”. Vale a pena rever AQUI, AQUIAQUI e AQUI.

Fotos: Serra do Calvo/Lourinhã

terça-feira, 11 de Fevereiro de 2014

Oenothera rosea L´Hér. ex Aiton

Nome comum: Onagra rosa

Oenothera rosea é uma planta herbácea, perene de vida curta, que forma um pequeno arbusto cuja altura pode ir dos 10 aos 50 cm de altura. É nativa do continente americano (Norte, centro e sul) mas foi introduzida noutras partes do mundo, possivelmente como ornamental, tendo-se assilvestrado e naturalizado. Na Península Ibérica encontra-se distribuída de forma bastante dispersa podendo apresentar, em algumas regiões, comportamento invasor. Além de possuir uma elevada percentagem de sucesso na germinação das suas sementes também tem raízes rizomatosas que se subdividem rapidamente, dando origem a novas plantas. Cresce em terrenos incultos e bermas de caminhos mostrando preferência por solos alterados os quais são ricos em nutrientes. Gosta de crescer em pleno sol e é bastante resistente às amplitudes térmicas.
Os caules, de cor verde ou avermelhada, são simples ou ramificados e estão cobertos de pelos finos e rígidos; podem ser eretos ou prostrados.
As folhas, verdes, de nervuras bem marcadas, colocam-se nos caules de forma alternada; têm forma oblanceolada, algo onduladas e são inteiras ou ligeiramente dentadas.
As folhas vão diminuindo gradualmente de tamanho da base para o topo até assumir a forma de brácteas estreitas, logo abaixo das inflorescências.
As flores agrupam-se ou nascem solitárias na axila das folhas superiores. As pétalas, de cor rosa e embelezadas por veias mais escuras, são 4 e estão protegidas por 4 sépalas esverdeadas geralmente unidas na base mas bifurcadas na extremidade. 
As flores abrem ao anoitecer e fecham ao início da tarde, dai o nome de “evening primrose” que é dado em inglês à Oenothera rosea. Curiosamente as pétalas desta espécie abrem muito rapidamente, num momento estão fechadas, no minuto seguinte estão abertas, movimentos que têm desde há muito fascinado os biólogos.
As flores apresentam órgãos sexuais femininos e masculinos. O androceu tem 8 estames com filamentos longos e o gineceu tem um ovário densamente peludo dividido em 4 partes cujo estilo termina num estigma dividido mais ao menos até meio em 4 braços lineares os quais estão rodeados pelas anteras durante a floração.
Quando envelhecem as pétalas tornam-se mais escuras e caiem. Segue-se o fruto, uma estrutura capsular alongada e circular bastante mais dilatada no ápice o qual é arredondado. Esta cápsula apresenta 4 asas estreitas que alternam com 4 nervos engrossados; no seu interior há varias sementes castanhas de contorno elíptico ou arredondado.
Oenothera rosea floresce e frutifica de abril a outubro.
Nesta espécie, o ponto de inserção das bases das pétalas, sépalas e estames é muito desenvolvido formando um tubo estreito longamente prolongado acima do ovário. Esta estrutura denomina-se hipanto e é na sua base que se deposita o néctar, precioso líquido rico em hidratos de carbono que serve de chamariz aos insetos polinizadores. O hipanto é caduco, caindo juntamente com a flor, na frutificação.
Entre os insetos que polinizam a Oenothera rosea contam-se várias espécies de traças e borboletas noturnas mas nem todas as espécies europeias estão morfologicamente adaptadas para recolher o pólen e polinizar as flores desta planta exótica, a qual surgiu na Europa muito recentemente. Até 1987 foi considerada casual mas a partir dessa data espalhou-se rapidamente. Entretanto tem sido uma armadilha para muitos insetos nomeadamente a Macroglossum stellatarum, conhecida vulgarmente como borboleta-colibri; esta borboleta vai parando sobre cada flor, fazendo um barulho audível que é semelhante ao da ave beija-flor, enquanto se alimenta de pólen e néctar através da sua longa probóscide (armadura bucal longa e em forma de tubo, adaptada à aspiração de líquidos). 
Foto de Clive Crosby gentilmente cedida por Brian Cave de La Borie du Fourquet, Courdon, Lot/France
Na foto acima podemos ver uma Macroglossum stellatarum que ficou com a probóscide presa no longo tubo do hipanto de uma Oenothera rosea ao tentar recolher o néctar e acabou por morrer. Como é possível que tal tenha acontecido? O inseto ter-se-à posicionado, pairando, face a face com a flor aberta e introduzido a sua longa tromba no estreito tubo do perianto, empurrando-a para se alimentar. Ora, nesta e noutras espécies da mesma família os grãos de pólen estão ligados por fios viscosos que apesar de ténues e delicados poderão ter impedido que o inseto retirasse a probóscide. Pode ainda acontecer que o tubo do hipanto seja demasiado estreito para a morfologia do inseto…Outra explicação que me ocorre é que os pelos que forram o hipanto sejam virados para baixo, facilitando assim a entrada mas dificultando a saída. O certo é que na sua luta para se libertar a Macroglossum stellatarum se ensarilhou nas peças florais da Oenothera rosea acabando por morrer. Problemas idênticos acontecem com outras flores exóticas as quais são autênticas armadilhas para insetos providos de probóscides.
Oenothera rosea pretence ao género Oenothera um dos 20 géneros em que se divide a família Onagraceae. Esta família botânica distribui-se por todas as regiões tropicais, subtropicais e temperadas do globo mas com maior diversidade no continente americano. Muitas espécies são cultivadas como ornamentais como acontece com as espécies dos géneros Oenothera, Clarkia e também Fuchsia, estas ultimas especialmente apreciadas e vulgarmente conhecidas por brincos-de-princesa.

Oenothera rosea é uma espécie “splash-cup”!
A dispersão das sementes pelas gotas de chuva:

Um dos momentos decisivos no ciclo de vida de uma planta é a dispersão das suas sementes a qual tem de ser sobretudo eficiente pois dela depende a capacidade de sobrevivência da espécie.
Para qualquer planta com ambições o mais vantajoso é fazer germinar as suas sementes a uma distância razoável das suas progenitoras evitando a sobrelotação e a inevitável competição por água, luz e espaço que pode comprometer as hipóteses da semente chegar ao estado adulto. Por outro lado tem também o objetivo de se expandir criando colónias noutros lugares. 
Certas plantas possuem mecanismos particulares de dispersão que lhes permitem projetar as suas sementes a uma certa distancia mas na generalidade as plantas deixam simplesmente cair as sementes em seu redor e a dispersão é conseguida através de uma variedade de adaptações e mecanismos que envolvem praticamente todas as forças e agentes da natureza. O vento, a água dos locais alagados ou próximos de rios e os animais, são os agentes de dispersão mais falados.
As gotas da chuva representam também uma importante estratégia na disseminação de sementes, no entanto, tal facto tem sido negligenciado ou minimizado. Mesmo quando a chuva é escassa representa, ainda assim, uma poderosa força da natureza como agente dispersor de sementes, esporos e até de pólen. A adaptação à dispersão pelas gotas da chuva é tão perfeita e variada que já são reconhecidos mais de trinta mecanismos diferentes de dispersão “splash-cup” utilizados por espécies encontradas em quase todos os grupos de plantas.
As espécies denominadas “splash-cup” podem encontrar-se entre fungos, líquenes, hepáticas, musgos e algumas plantas de semente de pequena estatura, nomeadamente algumas espécies dentro dos géneros Oenothera (Oenothera rosea), Chrysosplenium, Gentiana, Gratiola, Mazus, Mitella, Ophiorrhiza, Sagina,Sedum, Trigonotis e Veronica. Contudo nem todas as espécies destes géneros são “splash-cup”.

Fruto de Oenothera rosea: o fruto abre no topo quando molhado, formando a taça/ Harold Brodie, Indiana University

Nas espécies “splash-cup” as sementes ou esporos amadurecem dentro de estruturas abertas de forma cónica, como uma taça (“cup”, em inglês). As paredes destas estruturas têm uma inclinação de 60º a 70 º. Ora, quando a gota de chuva cai e faz “splash” na taça dá origem a um jacto de saída que arrasta as sementes para longe da planta-mãe. A curvatura da taça ajuda a aumentar em cerca de 5 vezes a velocidade deste jacto, em relação à velocidade da gota de chuva. Levadas pelo jacto de saída, muitas sementes cairão relativamente perto da mãe mas outras chegam a ser lançadas até cerca de 1 metro de distância o que equivale a cerca de 10 vezes a altura da planta.
Diversos cientistas estão a levar a cabo estudos aprofundados no sentido de entender melhor o funcionamento do "splash". Através destas investigações espera-se poder, num futuro próximo, vir a aproveitar este exemplo da natureza em causas praticas como por exemplo, entre outras, na produção de energia.

Veja AQUI como funciona, numa simulação com um modelo construído para o efeito.

Fotos: Serra do Calvo/Lourinhã

terça-feira, 28 de Janeiro de 2014

Anethum graveolens L. syn. Peucedanum graveolens (L.) C.B.Clarke.

Nomes comuns: Endro; aneto; funcho-bastardo; anega

Anethum graveolens é uma planta aromática muito apreciada e amplamente consumida no mundo inteiro mas principalmente na India, Egito e outros países mediterrânicos e também na Europa central e Escandinávia. Em Portugal é mais conhecida pelo nome vulgar de endro e em muitos países do mundo por dill. É uma espécie de origem asiática (Asia ocidental e India) que se assilvestrou e naturalizou em diversas regiões da Europa, presumivelmente introduzida durante a ocupação dos romanos.
Como consequência da colheita indiscriminada repetida ao longo de seculos, esta espécie está praticamente extinta como planta silvestre. No entanto é extensamente cultivada, quer em jardins e pequenas hortas, quer em grandes plantações cujo objetivo é a comercialização. Felizmente pode ainda ser encontrada, na sua forma espontânea, em alguns locais da Itália e da Península Ibérica. Em Portugal encontra-se por aqui e por ali, crescendo em campos cultivados, vinhas, milharais e beira dos caminhos.
À primeira vista a espécie Anethum graveolens pode ser confundida com o funcho, Foeniculum officinale, espécie mais conhecida entre nós, no entanto a semelhança é apenas aparente. Pertencem ambas à mesma família botânica mas o aroma e sabor são inteiramente diversos e, para além de outras características morfológicas que as diferenciam, o endro é uma espécie de ciclo anual enquanto que o funcho é perene, podendo durar 10 anos ou mais.
Anethum graveolens forma um pequeno arbusto que pode chegar a 1 metro ou mais de altura, dependendo das condições que encontra. É bastante atrativo e fica lindíssimo em qualquer jardim tendo a vantagem, para si próprio e para as outras espécies vizinhas, de atrair muitos insetos que chegam em busca de pólen e néctar. 
  
Alguns deles são polinizadores, abelhas, vespas, borboletas, visitantes de vai e vem. Outros, moscas-das-flores (sirfídeos) e besouros (coleópteros), nem sempre polinizam mas em contrapartida são agentes de controlo biológico natural de pragas pois são espécies predadoras (geralmente na fase larvar) de afídeos, pulgões, tripes e outras pragas que parasitam e sugam a seiva das plantas. 
Sirfídeos e coleópteros parecem encontrar na Anethum graveolens um sítio de abrigo com boas condições para o acasalamento, com recursos alimentares quer para adultos (pólen e néctar) quer para as larvas. 
Os caules finos, de seção cilíndrica, são ramificados na parte superior; são eretos mas, com o peso das umbelas, acabam por descair em direção ao solo; a superfície é de coloração verde azulada, sem pelos, e apresenta-se coberta de estrias longitudinais. 
No seu interior os caules são ocos, porém preenchidos com uma abundante medula branca.
As folhas inserem-se nas axilas dos nós, de forma alternada mostrando bainhas abertas e de forma cónica  que abraçam os caules.

O contorno do limbo das folhas é triangular ou em forma de losango mas é muitissimo recortado, subdividindo-se 3 ou 4 vezes,  resultando em múltiplos segmentos filiformes.

As minúsculas flores, de cor amarela, são muito numerosas e reúnem-se em grandes inflorescências arredondadas semelhantes a um conjunto de pequenos guarda chuvas abertos. Esta é a característica mais evidente da família botânica Apiaceae (também designada Umbelliferae) a que pertence a espécie Anethum graveolens. A estas inflorescências dá-se o nome de umbelas, origem do nome  Umbelliferae originalmente dado a esta família. As flores têm pedicelos de comprimentos diferentes o que lhes permite ficarem todas à mesma altura. Nesta espécie a inflorescência é composta por varias umbélulas, ou seja umbelas mais pequenas.

Numa umbela o extremo do pedúnculo dilata-se formando um recetáculo no qual se insere um número variável de pedicelos, chamados raios, geralmente de tamanhos aproximados. No caso particular da Anethum graveolens o tamanho dos raios é algo desigual.
As pequenas flores são hermafroditas pois possuem órgãos de reprodução de ambos os sexos. Fenecem rapidamente, começando por perder as pequenas corolas assim como os estames, pois nesta espécie a maturação das estruturas masculinas (estames) precede a maturação das estruturas femininas (estigmas e estiletes). A corola é constituída por 5 pétalas minúsculas, arredondadas, entalhadas no topo e dobradas para trás. As brácteas e as bractéolas estão ausentes nesta espécie. As sépalas estão reduzidas a 5 pequenos dentes situados no topo do ovário. Os estames são 5, de cor amarela. A parte superior do pistilo é formada por dois estilos livres com ápices divergentes os quais engrossam na base formando uma protuberância cónica onde se deposita o néctar e a qual persiste durante a frutificação.
A planta floresce e frutifica de junho a setembro.
Os frutos, produzidos em grande quantidade, são compostos por duas partes as quais se abrem durante a maturidade deixando sair as sementes. 
Os frutos são ovais, achatados e apresentam três nervuras longitudinais proeminentes e duas expansões laterais semelhantes a asas que ajudam na dispersão pelo vento
Anethum graveolens pertence à família Apiaceae ou Umbelliferae (ambos os nomes são admitidos), uma importante família botânica que engloba entre 2500 a 3700 espécies divididas entre 300 a 450 géneros, alguns deles de classificação duvidosa e seguramente sujeitos a revisão. Anethum graveolens está incluída no género Anethum, um pequeníssimo género de apenas 4 espécies mas esteve, durante algum tempo, incluída no género Peucedanum.

O sabor do endro é diferente do funcho ou de qualquer outra aromática, algo entre o amargo e o agradavelmente picante, com um travo muito ténue de anis. O aroma é muito intenso e característico. Folhas e sementes têm sabores ligeiramente diferentes mas são igualmente apreciadas.
As folhas devem ser utilizadas frescas, acabadas de colher ou congeladas pois perdem muito do seu sabor quando secas. Pela mesma razão devem ser adicionadas no final da cozedura ou ser usadas em cru. Pelo contrário as sementes inteiras devem ser incorporadas no início da cozedura pois levam algum tempo a libertar o seu sabor.
O endro é usado para dar sabor a sopas, guisados, massas, ovos, molhos, carnes grelhadas e pratos de peixe. Por exemplo, na Escandinávia o endro é ingrediente essencial no tempero do salmão.
Podem juntar-se as sementes a bolos e ao pão e são também muito usadas na aromatização de pickles aos quais dão um sabor muito característico. As próprias folhas e flores podem ser usadas como pickles. 
As sementes podem ser reduzidas a pó ou ser consumidas inteiras.
O óleo essencial que se obtém através da compressão das folhas é de qualidade inferior ao que se retira das sementes, sendo este de qualidade excelente, de odor muito característico mas agradável. O óleo essencial das folhas é utilizado na indústria dos licores enquanto que o óleo das sementes é utilizado como matéria-prima na confeção de sabonetes, detergentes, cremes, perfumes e loções. 
O endro é um repelente natural das traças pelo que se podem aproveitar as flores secas colocando-as dentro de saquinhos para perfumar e desinfetar armários e gavetas. Moscas e melgas também não gostam do seu cheiro.
Mas as qualidades do endro/Anethum graveolens não ficam por aqui, pois são muitas as propriedades terapêuticas que o levam a ser utilizado como remédio caseiro, para debelar uma quase interminável variedade de afeções. É especialmente eficaz para acalmar cólicas intestinais em bebés, estimula a digestão, cura enjoos, flatulência, azia, insónia, dispepsia, dores de dentes, infeções dos rins, infeções uterinas, problemas oculares, etc.
O endro é também ótimo para clarear a pele e fortalecer as unhas mas uma das qualidades que a tornaram mais preciosa nos tempos da Antiguidade era o de eliminar o mau hálito, uma patologia com implicações afetivas, sociais e até religiosas. Em certas culturas o mau hálito era considerado motivo valido para dissolução do casamento, daí a importância do endro e outras aromáticas em épocas tão remotas. As sementes do endro eram mastigadas ou misturadas com vinho e murta.

Os tratamentos passam pelas infusões das folhas ou das sementes e, desde que não haja exagero na sua ingestão não parece haver problemas de toxicidade. Contudo, convém não iniciar qualquer tratamento sem o conselho adequado para prevenir alguma possível contraindicação. O manuseamento persistente da planta pode causar dermatites e aumentar a sensibilidade da pele às radiações solares.

Anethum graveolens é uma espécie fácil de cultivar, quer no solo ou num vaso, de preferência num local abrigado mas não muito quente. Não suporta transplantes pelo que deve ser semeada no local definitivo. As sementes devem ser colocadas à superfície, (apenas cobertas com uma fina camada de terra) pois necessitam de claridade para germinar. A planta cresce rapidamente pois é de ciclo anual, podendo as sementes ser colhidas cerca de 3 ou 4 meses após a sementeira.

Usos e costumes:

Há milhares de anos que o endro (Anethum graveolens) é utilizado em culinária e em medicina popular. Já era usado pelos antigos egípcios há cerca de 5.000 anos, em xaropes para a tosse e alívio das dores de cabeça. Usavam-na também nos processos de mumificação e na preparação de unguentos e perfumes. 
Foi muito popular entre os gregos que queimavam o óleo extraído das sementes para perfumar o ambiente das suas casas, o que era considerado a maior das extravagâncias mesmo para os mais ricos, tendo em conta o alto preço desta planta. Os gregos também misturavam as folhas do endro no vinho para lhe incrementar o sabor e curavam as feridas dos soldados colocando as sementes sobre elas. 
Esta pratica foi seguida pelos romanos que também juntavam a planta à alimentação dos gladiadores na crença de que isso aumentaria a sua força física. 
Para o povo hebreu o valor comercial desta planta era enorme. O seu consumo foi sujeito a um imposto cobrado pelos romanos, durante a ocupação da Palestina e o dízimo, imposto religioso, era pago com uma porção de endro, entre outras especiarias. Atestando a sua importância existem referências a esta planta no Talmude e também na Bíblia, mais concretamente no Evangelho segundo São Mateus 23, 23:
"Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Vocês dão o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, mas têm negligenciado os preceitos mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Vocês devem praticar estas coisas, sem omitir aquelas.”
Reza ainda a Historia que Carlos Magno servia as sementes nos banquetes aos seus convidados como meio de sanar os soluços resultantes dos excessos no consumo de vinho e comida. 
Na Idade Média a planta foi muito usada, sendo uma das plantas favoritas tanto para fazer feitiços de cariz amoroso como na proteção contra a bruxaria. 
Durante o século XVII era usada com o objetivo de conservar uma boa saúde física e mental e também tinha fama de afrodisíaca. 
Durante os séculos XVII e XVIII, em Inglaterra, as sementes eram consumidas durante os longos serviços religiosos proporcionando algum conforto a adultos e crianças. 
No século seguinte as sementes chegaram a ser usadas como coadjuvantes nas dietas de emagrecimento. 
Hoje em dia o endro é um dos ingredientes característicos da cozinha tradicional de muitos países europeus especificamente em toda a Escandinávia, Rússia, Holanda, Polónia, Bulgária, Alemanha, Grécia e Turquia. Na India e Paquistão as sementes são especialmente valorizadas como digestivas e geralmente servidas no final das refeições, embora a espécie mais cultivada seja a Anethum sowa, cujas sementes são maiores.
Em Portugal o endro é pouco conhecido, não sendo muito utilizado na nossa cozinha tradicional, talvez porque são tantas as aromáticas que temos à disposição. A única exceção que conheço é a Sopa do Espírito Santo, prato típico da ilha de Santa Maria, nos Açores.

Fotos: Serra do Calvo/Lourinhã