"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





terça-feira, 11 de agosto de 2015

Tamarix L.

As tamargueiras

Tamarix africana
Tamaricaceae é uma pequena família botânica constituída por um reduzido número de géneros que podem ser 3, 4 ou 5, consoante o critério das diferentes bases de dados; do que não restam dúvidas, é que o maior género desta família, e único presente em Portugal, é o Tamarix.
Este género compreende um pouco mais de 50 espécies, autóctones da bacia do mediterrâneo, incluindo Portugal, Espanha, Itália, sul de França, norte de África (de Marrocos ao Mar Morto), nordeste da China e Índia. No nosso país estas espécies são, na generalidade, denominadas tamargueiras. 
Tamarix africana
São árvores ou arbustos de médio porte e muito ornamentais — alguns de folha perene, outros parcialmente de folha caduca — cujo principal atrativo reside nas longas inflorescências que agrupam centenas de pequenas flores brancas ou rosadas. São espécies de crescimento lento e vida relativamente longa, capazes de viver em habitats de condições ambientais muito diversas, resistindo a múltiplos fatores de stress, tais como altas temperaturas, sal e escassez de água. 
Tamarix africana
Ocorrem quer em climas temperados e subtropicais, quer em regiões áridas e semidesérticas, seja nas areias do litoral marítimo ou no interior. Encontramo-las em depressões húmidas, nas margens de lagos ou lagoas ou perto de cursos de água permanentes, sazonais ou intermitentes. No entanto, elas não vivem mergulhadas na água. Apesar de sujeitas a inundações ocasionais, elas procuram substratos bem drenados; em locais áridos é condição essencial que exista alguma humidade edáfica, quer superficial ou profunda.
Tamarix africana
Estas espécies estão ecologicamente adaptadas a ambientes áridos ou salinos. Para tal, dispõem de certo tipo de características, incluindo redução do tamanho das folhas para uma consequente diminuição da transpiração e um sistema radicular muito profundo e ramificado. As raízes podem descer aos 30 metros de profundidade na procura de água que pode ser doce, salobra ou mesmo salgada, dependendo das espécies. O excesso de sal é eliminado através das folhas por intermédio de glândulas secretoras de sal, mais ou menos desenvolvidas consoante as espécies (algumas espécies gostam mais do sal do que outras). 
Tamargal de Tamarix africana em Areia Branca/Lourinhã
Muitas vezes encontram-se exemplares isolados ou agrupados em pequenos núcleos, contudo, em certos locais tornam-se dominantes. Tal deve-se, sobretudo, ao sal que cai no chão através das folhas, criando condições para a proliferação das tamargueiras mas inviabilizando a proliferação de outras espécies. Nesta circunstância, formam galerias ao longo dos cursos de água ou na retaguarda das dunas do litoral, os chamados tamargais, os quais constituem um excelente refúgio para diversas espécies de fauna silvestre, vertebrados e invertebrados. Acresce ainda o facto de as flores das tamargueiras serem muito melíferas, atraindo muitos insetos, entre os quais as abelhas; certas borboletas procuram as tamargueiras para depositar os seus ovos e alimentar as suas larvas, por vezes delas dependendo como alimento exclusivo, como acontece com a Coleophora asthenella, uma pequena borboleta que se alimenta exclusivamente das folhas de Tamarix africana.
Tamarix africana
As tamargueiras são espécies muito resistentes ao vento graças ao seu sistema radicular muito ramificado, razão pela qual têm vindo a ser utilizadas na fixação das margens dos rios, prevenindo inundações de campos agrícolas. Também se têm utilizado para fixar os solos arenosos das dunas marítimas ou do deserto, embora possam não ser aconselháveis em climas demasiado secos. A falta de humidade edáfica de superfície poderá estimular o crescimento vertical das raízes, as quais podem chegar aos lençóis freáticos.
As tamargueiras são também resistentes ao fogo, conseguindo rebrotar a partir do sistema radicular, após a destruição das partes áreas.
Em regiões com poucos recursos florestais a sua madeira densa tem sido utilizada como combustível, nomeadamente no norte de África. Testemunhos arqueológicos da Antiguidade atestam a utilização da madeira de tamargueira na Síria e Palestina.
Tamarix parviflora - Fonte: Oregon State University
As tamargueiras são muito utilizadas em jardins não só pela sua beleza durante a floração mas também porque são resistentes a pragas e doenças, requerendo pouca manutenção para além de podas de formação que as tornem mais tufosas e densas, corrigindo a postura algo despenteada dos novos ramos. Devido à sua resistência ao vento são ideais para jardins do litoral.
Algumas espécies de tamargueiras possuem propriedades medicinais, nomeadamente diuréticas, sudoríferas e adstringentes. Em tempos remotos a casca e a raiz eram colocados em água fervente e utilizadas para tratar constipações, anginas e gengivites. Também as galhas, excrescências esponjosas que crescem nos ramos e que resultam da colonização de certos insetos ou fungos, eram utilizadas para tratar, tópicamente, problemas de pele.
Tamarix africana
Na generalidade, as tamargueiras são árvores de porte arbustivo. Os troncos são delgados, de cor acinzentada e tornam-se fissurados com a idade. Os ramos são longos e muito flexíveis podendo apresentar-se avermelhados. 
Tamarix africana
As folhas, muito pequenas e simples, têm forma triangular e estão dispostas de forma alternada e por vezes quase imbricada, abraçando o caule de forma parcial. A copa é bastante irregular e de aspeto plumoso.
Tamarix africana var. fluminensis
As flores dispõem-se em inflorescências compridas e cilíndricas e são brancas ou rosadas, cada uma acompanhada de uma bráctea solitária (espécie de pequena folha, na axila de cada flor). 
Tamarix africana var. fluminensis
As flores podem ter 4 ou 5 pétalas, dependendo da espécie e são completas, isto é, dispõem de órgãos reprodutores masculinos e femininos. Os estames inserem-se num disco nectarífero de consistência mais ou menos carnosa, o qual se localiza por baixo do ovário.
Os frutos são pequenas cápsulas triangulares cujas lados se abrem na maturação, soltando numerosas sementes, cada uma com um tufo de pelos na ponta.
Segundo o portal da Sociedade Portuguesa de Botanica Flora-onsão 4 as espécies do género Tamarix autóctones de Portugal continental: Tamarix canariensis, Tamarix gallica, Tamarix mascatensis e Tamarix africana, sendo esta ultima a espécie mais comum em Portugal.
Outras espécies, como por exemplo Tamarix parviflora, foram introduzidas com objetivos ornamentais, podendo ser observadas essencialmente em jardins, públicos ou privados. As espécies Tamarix conseguem naturalizar-se com facilidade.
Pelo que me foi dado constatar as espécies ibéricas do género Tamarix têm sido algo negligenciadas pelos botânicos, havendo muito poucos estudos sobre o assunto (com exceção da Flora Iberica). A situação é quase dramática no caso particular das espécies portuguesas, não havendo informações ou registos para além de Tamarix africana, a espécie mais comum. 
Este género é muito complexo devido à proximidade entre as espécies e a características morfologicamente muito semelhantes entre elas, o que torna complicada a sua identificação de forma rápida e segura. Acresce ainda o facto de haver várias espécies introduzidas com fins ornamentais do que resultam posteriores hibridações, o que complica ainda mais a situação. 
A diferenciação entre as espécies está, de uma forma ou de outra, relacionada com as inflorescências e certas características específicas das peças florais. A largura das inflorescências, o tamanho e o número de pétalas, o comprimento das brácteas em relação ao das sépalas, a configuração do disco estaminal ou nectarífero e a inserção dos estames são fatores essenciais para podermos distinguir com fiabilidade as diferentes espécies. Ora, vejamos:
Inflorescências, pétalas e brácteas:
- Em certas espécies, como no caso da Tamarix africana, as inflorescências nascem nos ramos lenhosos dos anos anteriores, os quais geralmente têm um diâmetro igual ou superior a 8 mm; noutras espécies, as inflorescências nascem nos ramos jovens do ano, os quais são tenros e mais estreitos, com diâmetro igual ou inferior a 5 mm, como parece ser o caso de T.gallica, T.canariensis e T. mascatensis.
- Embora as espécies autóctones de Portugal todas tenham 5 pétalas, o género Tamarix engloba também espécies com 4 pétalas, como por exemplo a espécie introduzida T.parviflora.
- Também certas espécies têm flores maiores pelo que apresentam inflorescências mais largas (entre 5 a 8 mm de largura), como é o caso de T. africana, a espécie mais comum em Portugal.
- T.canariensis, T.gallica e T. mascatensis são espécies de flores mais pequenas e em consequência, apresentam inflorescências mais estreitas, com menos de 5 mm.
- A bráctea que acompanha as flores também é taxonomicamente importante, não só quanto à forma mas também quanto ao tamanho, podendo exceder ou não o comprimento das sépalas do cálice.
Inserção dos estames no disco nectarífero
Esta característica é fundamental para a correta e rigorosa identificação das espécies Tamarix.
Cada uma das pequenas flores está provida de um disco nectarífero que se posiciona por baixo do ovário, formando uma excrescência carnosa e glandular, de forma anular e dividida em 4 ou cinco lóbulos, nos quais estão inseridos os estames. Esta inserção processa-se de formas diferentes pelo que se distinguem 3 tipos essenciais de discos:  
(os híbridos geralmente apresentam formas intermédias)
- Holólofo: os estames inserem-se por baixo do disco ao qual podem estar soldados. Encontra-se por exemplo em T. ramosíssima (espécie ornamental)
Esquema de disco estaminal ou nectarífero holólofo. Fonte: Flora Iberica
- Parálofo: o disco divide-se em 4 ou 5 lóbulos cujo ápice é truncado. Os estames nascem no centro do ápice de cada lóbulo, estando as duas estruturas bem diferenciadas.  Presente em T. mascatensis.
Esquema de diversos tipos de discos parálofos. Fonte: Flora Iberica
- Sínlofo: o disco esta profundamente dividido em 4 ou 5 lóbulos de cujo ápice atenuado saem os estames. Neste caso não há uma clara diferenciação entre estames e disco, parecendo que os estames são a continuação dos lóbulos. Presente em T. canariensis, T. gallica, T. parviflora e T.africana.
Esquema de diversos tipos de discos sínlofos. Fonte: Flora Iberica

Seguem-se algumas informações sobre as espécies portuguesas:

Tamarix mascatensis Bunge

Esta espécie distribui-se pela Península Ibérica, Mediterrâneo ocidental e Médio Oriente. É inexistente nos arquipélagos da Madeira e Açores mas em Portugal continental - segundo a Flora Ibérica – pode encontrar-se em Trás-os-Montes,  Alto e Baixo Alentejo.
Forma uma árvore que pode chegar aos 3 ou 4 metros de altura. Os troncos e ramos são cinzentos ou avermelhados. As inflorescências são estreitas, com 10 a 30 cm de comprimento e 3 a 5 mm de diâmetro e nascem em ramos verdes do ano (mais raramente em ramos lenhosos dos anos anteriores). As brácteas, iguais ou mais curtas que o cálice, são triangulares ou lanceoladas, com a extremidade aguda e ligeiramente curva. As sépalas são denticuladas.
As flores têm 5 pétalas e 5 estames. O disco nectarífero é parálofo.

Tamarix canariensis Willd.
Tamarix canariensis
Fonte Wikipedia
Foto de  Xemenendura - Trabajo propio. 
Esta espécie distribui-se em redor do Mediterrâneo ocidental, Península Ibérica e ilhas Canárias. Autóctone de Portugal continental, pode ser encontrada em Trás-os-Montes, Estremadura, Beira Litoral, Baixo Alentejo e Algarve (segundo a Flora Ibérica). Não está presente nem na Madeira nem nos Açores. De todas as espécies ibéricas esta é a mais resistente à salinidade.
É uma árvore de pequeno porte. Geralmente, a margem das brácteas e a superfície dos eixos das inflorescências estão providas de papilas. Estas são saliências da epiderme cuja função ainda é controversa, mas que neste caso se acredita possam ser eficazes contra o aquecimento excessivo, refletindo a luz solar quando é demasiado intensa.
 Os troncos e ramos são acinzentados ou avermelhados. As folhas apresentam abundantes glândulas secretoras de sal. As inflorescências nascem nos jovens ramos do ano e são estreitas, com cerca de 3 ou 4 mm de diâmetro.
As brácteas igualam ou ultrapassam o comprimento das sépalas, as quais são muito denticuladas. As flores têm 5 pétalas e 5 estames. O disco nectarífero é sinlofo.

Tamarix gallica L.
Tamarix gallica 
Fonte Wikipedia
Foto de TeunSpaans
Esta é uma espécie europeia que se distribui pelo sul do continente, nomeadamente Itália (incluindo a Sicília), França (incluindo a Córsega), Portugal e Espanha (incluindo as Baleares). No que diz respeito ao nosso país é autóctone de Portugal continental onde se pode encontrar- ainda segundo a Flora Iberica - na Beira Litoral e Estremadura; quanto às ilhas, foi introduzida na Madeira onde se naturalizou, mas não existe nos Açores.
Tamarix gallica forma uma árvore que pode ir dos 2 aos 10 metros de altura e cujos ramos apresentam a habitual coloração acinzentada ou vermelha. Esta é mais uma espécie de inflorescências estreitas, com 3 a 5 mm de diâmetro, as quais se formam principalmente nos jovens ramos do ano. As brácteas, de forma triangular, são menores que o cálice (muito mais curtas que nas outras espécies). As flores têm 5 pétalas e 5 estames e o disco é sinlofo.

Tamarix africana Poiret
var. fluminensis e var. africana

Esta espécie possui duas variedades que se distinguem pelo comprimento das brácteas: a fluminensis tem brácteas longas que ultrapassam amplamente o cálice, e a africana tem brácteas mais curtas.


Esta espécie forma uma pequena árvore, geralmente de 1 a 5 m de altura, glabra, exceto o eixo das inflorescências e as margens das brácteas florais que podem apresentar papilas. 
O tronco pode ser delgado ou grosso, às vezes retorcido, podendo ramificar-se a pouca distância do solo. O córtex é acinzentado, apresentando fissuras e sulcos. 
A copa é larga, irregular e pouco espessa, sendo formada por numerosos ramos longos e flexíveis, com tendência para se vergarem em direção ao chão e caducos na parte terminal.
As folhas são verdes mas muito pequenas o que limita a transpiração e a perda de agua; são alternas, lanceoladas, de margens escariosas e sem pecíolo, alargando-se na base e abraçando parcialmente o ramo.
A Tamarix africana floresce de março a maio. As flores aparecem antes ou ao mesmo tempo que as novas folhas e são de cor branca. Reúnem-se em inflorescências grandes e densas, com cerca de 3 a 6 cm de comprimento e com diâmetro de 0,5 a 0,8 cm, as quais são relativamente maiores que as do resto das tamargueiras. As inflorescências dispõem-se em ramos lenhosos dos anos anteriores.
Flores em botão da variedade fluminensis, em que se notam as brácteas interflorais mais longas que o cálice.
As flores dispõem de órgãos reprodutores masculinos e femininos férteis. 
A corola é composta por 5 pétalas simétricas que alternam com 5 sépalas desiguais, de cor branca ou rosa-pálido, por vezes persistentes na frutificação. Os 5 estames inserem-se num disco nectarífero do tipo sínlofo.

Cada semente tem um tufo de pelos na ponta. Quando os frutos abrem e as sementes ainda não foram dispersas pelo vento, formam grandes flocos que parecem de algodão.

Tamarix africana distribui-se pelo sul da Europa e norte de África: Portugal, Espanha (incl. lhas Canárias e Baleares), Argélia, Marrocos, Tunísia, Itália (incl. Sardenha e Sicília) e França (incl. Córsega).
Esta espécie é autóctone de Portugal continental e está naturalizada nos Açores onde foi introduzida. Não se regista na Madeira.
Mapa de distribuição em Portugal continental.
Fonte: Flora Digital de Portugal, Jardim Botânico da UTAD

Tamarix parviflora DC.
Tamarix parviflora
Fonte Wikipedia
Foto de Javier Martin
Esta espécie é autóctone do sudeste europeu (Albânia, Croácia, Grécia, Macedónia e Eslovénia) e também do oeste asiático (Israel e Turquia). Foi introduzida em Portugal continental onde se naturalizou e é cultivada com fins ornamentais. Não ocorre nos arquipélagos de Madeira e Açores.
Mapa de distribuição em Portugal
Fonte: Flora Digital, Jardim Botânico da UTAD
Forma uma pequena árvore com inflorescências que nascem nos ramos lenhosos de anos anteriores. É a espécie com inflorescências mais estreitas entre as mencionadas neste texto (1 a 4 cm de comprimento e 0,4 a 0,6 cm de diâmetro). Esta espécie é tetrâmera, ou seja, ao contrário das outras espécies aqui mencionadas, as corolas só têm 4 pétalas. As flores são também mais pequenas.
As brácteas são mais curtas que o cálice. Tanto as brácteas como as sépalas apresentam ápices de cor purpura.
Os estames são 4 e estão inseridos num disco nectarífero sínlofo.

O maná:
A identificação das plantas mencionadas na Bíblia tem sido uma árdua tarefa que há séculos tem ocupado muitos cientistas. A origem do maná, substância enviada por Deus e que alimentou as tribos de Israel durante os 40 anos de travessia do deserto, é um dos mistérios mais intrigantes.
Originalmente considerado de origem vegetal, alguns terão chegado à conclusão que poderá ser uma substância segregada pelos insetos Coccus manniparus que sugam a seiva rica em açucares da árvore Tamarix mannífera ou Tamarix gallica. Esta substância é um líquido doce que solidifica com os ventos secos e frios da noite e derrete com o sol da manhã. 
Outros investigadores garantem que o maná é uma secreção das larvas e fêmeas imaturas de cochonilhas Trabutina mannipara e Naiacoccus sepentinus, libertada após a digestão da seiva destas árvores, eliminando assim o excesso de açucares. Esta secreção é ainda hoje em dia recolhida pelos habitantes do Sinai e usada como substituto do açucar.
Através dos séculos, muitas e variadas têm sido as explicações e teorias sugeridas pelos investigadores, entre elas, o exsudado da árvore Fraxinus ornus ou do arbusto Hedyssarum alhagi que segrega uma substância açucarada sob a forma de grânulos de cor amarelada ou os líquenes Lecanora esculenta e Sphaerothalhia esculenta que crescem sobre rochas calcarias e que, arrastadas pelos ventos fortes, podem cair como chuva. Até a alga Nostoc commune tem sido aventada como hipótese
Existem outras teorias mas parece estarmos longe da solução devido a imponderáveis da natureza, a começar pela impossibilidade de alimentar tantos milhares de pessoas, durante tanto tempo, simplesmente à base de açucares. E assim o mistério está para durar.
A palavra maná poderá ter origem no vocábulo egípcio “mennu” que significa alimento. Contudo, alguns estudiosos contrapõem que vem do aramaico ou do hebraico e expressa a surpresa do povo judeu quando lhes foi enviado o alimento, até então desconhecido: “MAN HÛ” que quer dizer: O que é isto?

O maná é mencionado no Livro do Êxodo 16, versículos 1 a 36:
"E quando o orvalho se levantou, eis que sobre a face do deserto estava uma coisa miúda, redonda, miúda como a geada sobre a terra.
E, vendo-a os filhos de Israel, disseram uns aos outros: Que é isto? Porque não sabiam o que era. Disse-lhes pois Moisés: Este é o pão que o Senhor vos deu para comer". Exodus 14,15.
“O maná era mais ou menos do tamanho de uma semente de coentro, e parecia­-se com as gotas de resina que escorrem pelo tronco de uma árvore. O povo recolhia-­o do chão, moía-­o em moinhos para o transformar em farinha, ou pisava­-o num almofariz, cozia-­o e fazia bolos; sabia como qualquer bolo frito em azeite. O maná caía com o orvalho, durante a noite”.
Numeri 7/9

Fotos de Tamarix africana: Caniçal, Areia Branca, Zambujeira e Serra do Calvo/Lourinhã

terça-feira, 14 de julho de 2015

Epilobium tetragonum L.


Nome comum: erva-bonita

Epilobium tetragonum é uma erva perene cuja forma biológica é designada por hemicriptófito. Quer isto dizer que, embora pareça secar e morrer após a frutificação, a planta apenas perde as partes aéreas, dado que as gemas de renovo subsistem ao nível do solo durante a estação desfavorável. As gemas de renovo são estruturas sensíveis, a partir das quais surgirão os novos rebentos, logo que se verifiquem as condições climatéricas adequadas. 
Folhas que protegem as gemas de renovo de E.tetragonum durante a estação desfavorável
Entretanto, as gemas de renovo permanecem protegidas por pequenas folhas de forma elíptica que nascem no final do verão ou outono e se dispõem em roseta, desaparecendo posteriormente. 
Apesar de finos, os caules de Epilodium tetragonum são robustos, eretos, cobertos de pelos curtos (não glandulares) e podem ser solitários, ramificados lateralmente ou a partir da base. 
Os caules são cilíndricos mas apresentam 2 a 4 linhas salientes no sentido longitudinal que lhe dão o aspeto quadrangular que justifica o epíteto específico de tetragonum.
As folhas caulinares dispõem-se de forma oposta, excetuando por vezes, as da parte superior da planta. São folhas simples e quanto à forma são oblongo-lanceoladas. As margens são serradas e a nervação é muito marcada. Geralmente são glabras exceto as superiores que apresentam alguns pelos na nervura central da página inferior. 
As folhas praticamente não têm pecíolo e são decurrentes, isto é, o limbo da folha cresce parcialmente aderente ao caule, prolongando-se abaixo do nível de inserção.
As flores, bracteadas, reúnem-se em inflorescências do tipo racemo ou cacho, em que o pedúnculo da inflorescência se ramifica repetidamente e os pedicelos das flores se inserem no caule a diferentes níveis , atingindo diferentes alturas. 
0s pedicelos não ultrapassam os 3 cm mas parecem muito mais compridos pois ligam-se à flor pela base do ovário, o qual é muito longo e estreito, formando um tubo.
Os botões florais apresentam forma ovóide, com a ponta distintamente cónica. 
As 4 sépalas que formam o cálice estão cobertas de pelos e são verdes quando jovens, tornando-se depois avermelhadas nas margens.
As 4 pétalas, de um tom rosa-purpura, são ligeiramente maiores que as sépalas e apresentam um pequeno entalhe a meio do ápice.
O estigma e os estames, estes carregados de pólen esbranquiçado
São flores perfeitas pois possuem órgãos masculinos e femininos funcionais. O androceu apresenta 8 estames desiguais sendo 4 maiores que os restantes. As anteras são esbranquiçadas, assim como os grãos de pólen.

O estilete, vindo do ovário, é ligeiramente maior que os estames mais compridos e termina num estigma claviforme ou seja, em forma de clava — uma estrutura alongada e cilíndrica, dilatada da base para o ápice, o qual é arredondado.
O ovário é muito estreito e comprido e é ínfero ou seja, posiciona-se abaixo das sépalas, pétalas e estames cujas bases se unem, formando um tubo designado por hipanto. 
Frutos verdes 
Depois da fecundação as peças florais caiem e o ovário engrossa, transformando-se num fruto valvar alongado, coberto de pelos curtos não glandulares e com 4 nervuras longitudinais salientes, tal como acontece nos caules. 
Fruto verde em que se podem ver as sementes verdes no seu interior
Quando maduras estas cápsulas secam e ao perderem humidade curvam-se e são forçadas a abrir, separando-se em 4 arcos graciosos, expondo as sementes envoltas em longos tufos de pelos sedosos.

Frutos e sementes maduras
As sementes, de forma obovóide, vão-se soltando aos poucos, sobretudo por ação do vento.
Epilobium tetragonum cresce sobretudo em lugares moderadamente húmidos, em solos enriquecidos e em pleno sol, como margens dos caminhos, orla de campos cultivados, jardins e estufas ou viveiros assumindo, por vezes, algum gosto pelos espaços ruderalizados.

Epilodium tetragonum L. subdivide-se em dois taxa, ambos presentes em Portugal:
- subsp. tournefortii e subsp. tetragonum

Basicamente a subsp. tournefortii tem caules mais robustos, as raízes mais grossas e as sementes maiores. As peças florais são também maiores. De resto, as características acima descritas são válidas para ambas as subespécies. Vejamos agora os carateres que as diferenciam e ajudam a identificar.

Subsp. tournefortii:
- Caules: 20 a 110 cm de altura e 2 a 10 mm de diâmetro.
- Pedicelos das flores: 1,5 a 3 cm de comprimento, na frutificação
- Folhas: 1,5 a 7 cm de comprimento e 0,3 a 1,8 cm de largura
- Botões florais: até 8 mm de comprimento
- Anteras: de 1,5 a 2,4 mm
- Pétalas: de 6 a 11 mm
- Cálice: de 6 a 10 mm, incluindo o tubo do hipanto
- Frutos: de 5,5 a 8,5 cm
- Sementes: de 1 a 1,3 mm

As características da flor, nomeadamente o tamanho das anteras e a posição destas em relação ao estigma parecem dar a indicação que a reprodução sexual se realiza através de polinização cruzada, ao contrário da subsp. tetragonum que, de modo geral,  é fecundada através de autopolinização (como acontece, aliás, com a maioria das espécies do mesmo género, Epilobium).
A subsp. tournefortii tem distribuição mediterrânica e ocorre, de forma relativamente dispersa, em  Portugal continental (oeste e sul, mais rara no norte), sul de Espanha,  sul de França, Córsega, Sardenha, Itália, Malta, Turquia, Líbano e Palestina.

Subsp. tetragonum:
É uma planta autóctone da Europa, sudoeste asiático e norte de África. Encontra-se naturalizada na África do sul, América do norte, Chile, Nova Zelândia e Austrália.
No que diz respeito a Portugal, é autóctone do continente e Madeira e naturalizada nos Açores. As fontes de informação sobre a distribuição em Portugal são escassas mas a Flora Iberica coloca-a na Beira Baixa, Beira Alta, Beira Litoral, Estremadura e Trás-os-Montes. Tanto quanto me foi possível apurar, embora não sendo uma planta rara também não é das mais abundantes. Apesar de tudo esta subespécie parece ser mais abundante que a subsp. tournefortii.
A subsp. tetragonum é, em geral, mais ramificado e mais denso que a outra subspécie. A produção de flores é bastante mais abundante resultando numa farta acumulação de longas cápsulas verticais.
- Caules: 20 a 90 cm de altura e 1 a 6 mm de diâmetro
- Folhas: 1,5 a 6 cm de comprimento e 0,3 a 0,8 cm de largura
- Pedicelos das flores: 1 a 2,5 cm de comprimento, durante a frutificação
- Botões florais: ate 5 mm
- Cálice: de 4 a 6 mm
- Pétalas: de 3 a 5,5 mm
- Anteras: 0,7 a 1,1 mm
- Frutos: de 6 a 9,5 cm
- Sementes: de 0,8 a 1 mm
Embora ocasionalmente visitada por insetos, nota-se na subsp. tetragonum, um elevado grau de autogamia, circunstância em que as flores são fecundadas pelo seu próprio pólen. Esta situação é comum em quase todas as espécies Epilobium e resulta do facto de as anteras dos estames superiores libertarem o pólen na fase em que o estigma começa a ficar recetivo, facilitando o acesso do pólen ao estigma, quer por ação do vento ou da gravidade. Tendo em conta o diminuto espaço entre estes órgãos também os insetos ao roçarem na base dos estames, favorecem o contato entre anteras e estigma.

Alguns cientistas consideram ainda a existência de uma terceira subespécie: Epilobium tetragonum lamyi (F.W.Schultz)Nyman.
Contudo este taxon tem sido objeto de ampla discussão, havendo falta de convergência na interpretação das características que lhe são atribuídas. Entretanto, os autores que se dedicam à investigação em Portugal e Espanha chegaram à conclusão que os registos que assinalam a presença de E. Lamyi na Península Ibérica, são erróneos.
Segundo o botânico espanhol Gonzalo Nieto Feliner, nas suas Notes on Epilobium (Onagraceae) from the western Mediterranean, assegura que “as características invocadas por diferentes autores para diagnosticarem E. lamyi não demonstram uma clara correlação com os numerosos espécimes examinados na Península Ibérica. Por outro lado, não existe consenso no que se refere as características deste taxon que o possam distinguir de E.tetragonum”.
Também com base nos estudos deste cientista, a Flora Iberica publicou as seguintes observações:
“Entre o material peninsular não vimos nada que claramente se refira à subsp. Lamyi (F.W. Schultz) Nyman, Consp.Fl.Eur.: 247 (1879).  A validade deste taxon é apoiada por muitos autores, mas há pouco consenso quanto aos carateres diagnóstico do mesmo. A razão, no que diz respeito à Península, é que o que geralmente é identificado como subsp. lamyi ou E. lamyi não é outra coisa senão  Epilobium obscurum. O tipo de E. lamyi — de Limoges, França — parece poder ser incluído em E. tetragonum, embora mostre algumas características mais próprias de E.obscurum, nomeadamente a forma, margem e base das folhas, o comprimento do fruto ou, em alguns casos, a presença de algum pelo glandular no tubo do cálice. Estas características são, aparentemente, a causa de tanta confusão”.
[Cf. Nieto Feliner in Anales Jard. Bot. Madrid 54: 255-264 (1996)].

Epilobium tetragonum pertence ao género Epilobium. Este inclui cerca de 170 espécies  herbáceas que se distribuem pela maioria dos climas árticos, temperados e subtropicais. Segundo o portal Flora-on são 8 as espécies deste género presentes em Portugal. Confira AQUI
O nome Epilobium significa literalmente “em cima da cápsula” e refere-se à posição da corola no topo do longo ovário. O nome deriva do grego “epi”=sobre ou em cima de + “lobos”= cápsula ou vagem.
Epilobium é um género notável pela sua diversidade morfológica, ecológica e citológica, sendo alvo de múltiplos estudos taxonómicos e evolutivos. Sob o ponto de vista taxonómico é um grupo muito difícil de identificar, não só porque muitas das espécies são semelhantes, mas sobretudo devido à tendência que têm para hibridar com outras espécies do mesmo género que existam nas proximidades. De notar que estes híbridos são maioritariamente férteis (capazes de produzir sementes viáveis) pois as espécies Epilobium são compatíveis entre si, o que geralmente não acontece noutros géneros.

Certas espécies de Epilobium, nomeadamente Epilobium angustifolium, E. hirsutum, E. palustre, E. tetragonum e E. rosmarinifolium têm sido usadas desde há séculos como alimento (os pequenos e tenros rebentos laterais) e em medicina tradicional. São-lhe atribuídas propriedades anti-inflamatórias, analgésicas, antioxidantes, além de atividades antiproliferativa e antimicrobiana. Os principais constituintes — os nossos já conhecidos metabólitos secundários — são os polifenóis, entre os quais ácidos fenólicos, flavonóides e taninos (oenothein A e principalmente B).
Os extratos de Epilobium podem ser usados internamente sob a forma de infusão. Todas as partes da planta podem ser usadas desde a raiz e caules até às folhas e flores.
O tratamento visa problemas da próstata, desordens gastrointestinais e da bexiga, infeções urinárias e incontinência urinária, aftas e outras afeções da mucosa bucal.
Externamente usa-se para tratar pequenas feridas da pele, acne, eczema, rosácea. Hoje em dia é muitas vezes adicionada a cosméticos, champôs e produtos de limpeza da pele. Certos produtos terapêuticos para tratamento das afeções da pele também incluem extratos de Epilopium.
Nota:
Epilobium interfere com a hormona progesterona pelo que deve ser evitada durante a gravidez, em caso de uso de pílulas anticoncepcionais ou terapia hormonal de substituição.

O género Epilobium é o maior dos 17 géneros que constituem a família Onagraceae cujo nome se baseia no género-tipo Onagra, agora rebatizado com o nome de Oenothera.
Esta família botânica distribui-se por todas as regiões tropicais, subtropicais e temperadas do globo, mas com maior diversidade no continente americano. 
Fuchsia spp.
Muitas espécies são cultivadas como ornamentais como acontece com as espécies dos géneros Oenothera, Clarkia e também Fuchsia, estas últimas especialmente apreciadas e vulgarmente conhecidas por brincos-de-princesa.

Fotos de Epilobium tetragonum subsp. tournefortii: Serra do Calvo/Lourinhã 

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Verbascum virgatum Stokes

Nomes comuns:
Verbasco, verbasco-das-varas; 
barbasco; blatária-grande; blatária-maior

Verbascum virgatum é uma planta herbácea bienal. O seu ciclo evolutivo demora 2 anos a completar-se. No primeiro ano as sementes germinam, estabelecem raízes e surgem as primeiras folhas em forma de roseta. 
Os caules aparecem no segundo ano, logo seguidos de flores e frutos. O ciclo fica completo quando as sementes voltam à terra, ansiosas por recomeçar.
Os caules são geralmente solitários e simples, por vezes ramificados, podendo atingir 1 ou 1,5 m de altura; são eretos e sólidos com uma consistência algo coriácea, de seção redonda ou um pouco angulosa; a superfície é relativamente glabra na parte inferior da planta mas na parte superior, sobretudo ao nível das inflorescências, está coberta de pelos glandulares curtos, simples, bifurcados ou trifurcados.

As folhas basais são inteiras, oblongo-lanceoladas, onduladas, de consistência grossa e enrugada e com ápice agudo; as margens são recortadas de forma mais ou menos irregular e vão-se estreitando em direção ao eixo, formando um pecíolo curto. 
As folhas caulinares são semelhantes, mas dispõem-se ao longo do caule de forma alternada helicoidal; não só não têm pecíolo, como quase abraçam o caule, por vezes prolongando-se ao longo dele. Ambas as páginas das folhas são finamente pubescentes.
As flores, com 3 ou 4 cm de diâmetro, são amarelas e formam espigas compridas e pouco densas. As flores podem nascer isoladas ou em grupos de 3 a 5.
Em qualquer dos casos existem brácteas, semelhantes a pequenas folhas, na base dos pedúnculos florais. Os pedicelos, mais curtos que o cálice, são acrescentes ou seja, continuam a crescer mesmo depois da fecundação e engrossam ligeiramente durante a frutificação; estão cobertos de pelos gandulares, tal como acontece com as brácteas e com as sépalas que formam o cálice.
A corola é formada por 5 pétalas amarelas, peludas na face inferior, ligeiramente desiguais e que se dispõem em forma de taça; são soldadas na base e a extremidade é arredondada.
O cálice é constituído por 5 sépalas triangulares, soldadas na base mas mais curtas que as pétalas e persistentes no fruto.
As flores são perfeitas pois estão providas de órgãos reprodutores masculinos e femininos funcionais. 
O androceu apresenta 5 estames dimorfos ou seja, dois maiores e com as anteras inseridas obliquamente e os restantes três mais curtos e com as anteras inseridas de forma transversal; todos os filamentos estaminais estão cobertos por pelos longos e densos de cor violeta e branca. 
As anteras, de cor laranja, são glabras e em forma de rim. 
O gineceu consta de um ovário com pelos glandulares e um estilete longo, encimado por um estigma arredondado.
As flores são polinizadas por insetos e a planta floresce e frutifica de abril a agosto.
Frutos imaturos
Os frutos são cápsulas quase globosas, um pouco maiores que o cálice. 
Fruto maduro
As sementes que se encontram dentro dos frutos são numerosas, muito pequenas e leves, sendo facilmente dispersas pelo vento. Servem de alimento a pequenas aves e outros pequenos vertebrados.

Verbascum virgatum é uma espécie nativa do oeste europeu, nomeadamente Península Ibérica, norte de Itália, França e sudoeste de Inglaterra. Foi introduzida e naturalizou-se na África do Sul, América do norte e América do Sul e ainda na Australásia.
Mapa de distribuição em Portugal continental
Fonte: Flora Digital de Portugal/Jardim Botânico - UTAD
No que diz respeito ao nosso país, é autóctone de Portugal continental e Madeira e foi introduzida nos Açores.
Podemos encontrar esta espécie em matos, terrenos cultivados, várzeas, beira dos caminhos, locais de solo remexido, baldios, lixeiras, dunas costeiras de solo perturbado com exposição abrigada do vento. Cresce em quase todos os tipos de solo e aguenta alguma seca mas prefere locais nitrificados e húmidos. Ressemeia-se com facilidade e coloniza facilmente habitats abertos mas não sobrevive a muita concorrência, pelo que não é considerada uma ameaça à atividade agrícola.
Verbascum virgatum pertence ao género Verbascum o qual inclui cerca de 360 espécies (e muitos híbridos) das quais, segundo o portal Flora-on,  9 estão presentes em Portugal. Veja AQUI
O nome genérico Verbascum deriva do vocábulo latino “Barbascum” que significa barba, numa clara referência à penugem que cobre as plantas, ainda que algumas espécies sejam bem mais peludas que outras.
O epíteto específico virgatum deriva também do latim, “virga” que significa vara, referindo-se à estrutura dos caules da planta.
As Verbascum virgatum são plantas muito vistosas e apreciadas pelos amantes da jardinagem. São valorizadas pelas belas flores, folhagem atrativa e elegância do porte, alto e estreito. Acresce o facto de permanecerem em flor por longos períodos de tempo, mesmo em solos secos. Outra vantagem é a baixa manutenção de que necessitam.
Existem disponíveis no mercado da horticultura, sobretudo em países apreciadores da jardinagem e onde as vendas de flores têm grande representatividade, cultivares para todos os gostos: com caules mais curtos, flores maiores e de cores mais variadas.
Nota: 
As cultivares resultam do “melhoramento” de uma determinada planta dando-lhe características que a tornam mais apetecida e em consequência mais vendável. Desta forma uma planta torna-se diferente de todas as outras no que diz respeito a resistência a doenças, a cor ou porte sem que no entanto tenha sido geneticamente modificada, muitas vezes recorrendo à hibridação. Para que uma nova cultivar possa ser registada, o que é obrigatório para poder ser comercializada, tem de manter características iguais em todas as plantas da mesma cultivar durante um espaço de tempo necessariamente longo.
Hibrido Verbascum ´Sugar Plum´
Fonte- fine Gardening
Em Dry Gardens of England pode aceder a fotos de jardins, muitos deles exibindo espécies de Verbascum.

No que diz respeito às espécies silvestres, uma vez estabelecidas e encontrando-se confortáveis, ressemeiam-se com facilidade. Havendo outras espécies do mesmo género nas proximidades a hibridação é muito frequente. E se por um lado as variações morfológicas que daí advêm complicam a delimitação das espécies, também é certo que se podem conseguir exemplares inesperados, certamente uma mais-valia para os amantes da jardinagem.

As espécies do género Verbascum têm uma longa história na medicina tradicional em quase todas as partes do mundo. Têm sido usadas durante séculos no tratamento de uma ampla variedade de doenças nomeadamente distúrbios respiratórios em geral, hemorróidas, dor reumática, situações inflamatórias da pele, feridas, infeções fúngicas e diarreia  e ainda como emoliente, diurético, expetorante e mucolítico. Para além das propriedades anti-inflamatórias são também conhecidas as suas propriedades antivirais, antimicrobianas, antimalária, antioxidantes, anticancerígenas, citotóxicas, imunomoduladoras, antiulcerogênicas, antihepatotoxicas, antihiperlipidémicas, etc. Enfim, poucas plantas terão assim tantas aplicações medicinais. 

Estes atributos devem-se aos metabólitos secundários, ou seja compostos químicos produzidos pelas plantas dos quais ainda só foram isolados saponinas, alcaloides, flavonoides, glicosídeos iridoides e feniletanoides. Apesar de todas as aplicações o conhecimento dos metabólitos acumulados em diferentes espécies de Verbascum é ainda limitado pelo que têm sido objeto de variados estudos e pesquisas na área da indústria farmacêutica.

Os tratamentos são feitos à base das flores e folhas por meio de extratos (ex.: maceração), decocção ou infusão, tendo o cuidado de filtrar bem os líquidos devido aos pelos existentes quer nas flores quer nas folhas e que são irritantes quando ingeridos.
Alertamos para o facto de que entre estes compostos químicos produzidos por algumas Verbascum sp está presente a cumarina (anticoagulante) e também a rotenona (inseticida e piscicida). Como sempre, qualquer tratamento deve ser acompanhado de aconselhamento de um ervanário credenciado pois há sempre a possibilidade de surgirem contra-indicações.

A espécie mais usada em medicina popular é Verbascum thapsus, espécie também presente em Portugal e nesta região. Veja AQUI.

Verbascum é o maior género da família Scrophulariaceae, a qual foi recentemente reorganizada, tendo perdido muito dos seus membros. Numerosos estudos de filogenia (relação evolutiva entre as espécies) com dados moleculares demonstraram que determinados géneros não tinham afinidade genética com a família Scrophulariaceae, pelo que foram transferidos para outras famílias, principalmente Plantaginaceae e Orobanchaceae. Tradicionalmente esta família agrupava 5000 espécies divididas em 275 géneros. Consideravelmente emagrecida após o reajuste, a família Scrophulariaceae tem agora 65 géneros que totalizam aproximadamente 1700 espécies, com distribuição mundial. A importância económica desta família reside principalmente na indústria de plantas ornamentais, de que apresento alguns exemplos:
Híbrido Diascia ´Coral Belle´. Photo by Kenpei
Fonte: Wikimedia Commons
Buddleja davidii
Photo by abbamouse. Fonte Wikimedia Commons
Híbrido de Nemesia 'Sunsatia Banana'
Photo by Stan Shebs. Fonte Wikimedia Commons
O nome Scrophuriaceae teve origem no género-tipo desta família, o género Scrophularia, que por sua vez deriva do termo em latim “scrofula” = escrófula, uma infeção nos gânglios linfáticos (a nível mandibular e cervical) que no passado era tratada com medicamentos feitos a partir de plantas deste género.

Fotos de Verbascum virgatum
Lugar da Areia Branca/Lourinhã (a cerca de 200 metros da praia).