"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





terça-feira, 21 de junho de 2016

Cynoglossum creticum Miller

Nomes comuns: 
Língua-de-cão; orelha-de-lebre; cinoglossa-de-flor-listada

A bela Cynoglossum creticum é uma planta herbácea bienal. Quer isto dizer, que o seu ciclo biológico leva dois anos a decorrer, crescendo vegetativamente no primeiro ano e produzindo flores e frutos no segundo. Após a germinação das sementes, o que geralmente acontece durante o verão ou outono, formam-se as primeiras folhas, as quais se dispõem em roseta ao nível do solo. É assim que a planta permanece durante a estação desfavorável, enquanto se desenvolve o seu sistema radicular. No final do inverno surgem os caules e as folhas caulinares que permitirão a formação de flores e frutos, durante o período que vai de março a maio. 
Cynoglossum creticum - Ilustração
Hoffmannsegg, J.C.von, Flore portugaise, vol.1: t.24 (1808-1840)
Fonte
Uma vez maduros os frutos, a planta seca; mas não está ainda terminada a sua missão. Ela mantém-se ereta e a segurar os frutos maduros durante mais algum tempo, dando-lhes a oportunidade de poderem ser levados para longe, o que acontece ao agarrarem-se ao pelo de alguma cabra, ovelha ou cão que por ela roce ou até à roupa das pessoas.
Os caules de Cynoglossum creticum podem ir de 20 a 90 cm de altura. Estes são eretos, robustos e angulosos, podendo ser solitários ou múltiplos, por vezes ramificando-se na parte superior. A sua cor é esbranquiçada devido aos pelos densos e macios que os cobrem.
As folhas, de um tom verde-claro, são inteiras, oblongo-lanceoladas, com nervuras laterais pouco marcadas e estão cobertas de pelos em ambas as páginas, que aderem à nossa roupa e ao pelo dos animais como se fossem "velcro". 
Tal acontece devido à presença de sílica e carbonato de cálcio na composição dos pelos. As folhas basais estão munidas de longos pecíolos ao contrário das caulinares cujos pecíolos se tornam cada vez mais curtos à medida que se posicionam na parte superior do caule. Desta forma, as folhas superiores são sésseis, por vezes quase abraçando o caule. A maioria das folhas são eretas, apontando para cima, exceto as basais que geralmente, são arqueadas.
As folhas contêm alcalóides que são tóxicos para o gado. De forma geral, estes animais não a ingerem se a encontrarem no campo, o problema existe quando vão misturadas com o pasto.
Ao contrário dos caules e das folhas, as flores são glabras. 
Elas dispõem-se em inflorescências mais ou menos longas, inserindo-se alternadamente para um lado e outro dos respetivos eixos, aos quais se ligam por pedúnculos que são eretos para baixo quando jovens, mas que progressivamente se curvam e alongam para cima.
O cálice consiste em 5 sépalas peludas que estão divididas quase até à base, formando lóbulos alongados e obtusos.
A corola é formada por 5 pétalas arredondadas, mais compridas que os lóbulos das sépalas e estão unidas na base, formando um tubo. 
Rodeando a entrada central deste tubo, denominada garganta, existem 5 pequenas estruturas de cor púrpura e semelhantes a escamas, ciliadas nas margens e que parecem formar uma segunda corola no interior da verdadeira; trata-se, provavelmente, de apêndices destinados a proteger o acesso aos órgãos reprodutores.
As pétalas são finamente decoradas com uma rede de linhas e nervuras entrecruzadas, em tom violeta ou azul-escuro,  o que as torna muito atrativas.
Esta espécie possui órgãos masculinos e femininos. Estes são pequenos e inconspicuos. O ovário, formado por 2 carpelos, está praticamente escondido na base do cálice e o estigma é mais curto que o tubo da corola. Os estames estão unidos e inserem-se na parte de baixo do tubo da corola, logo abaixo dos apêndices existentes na garganta do tubo.
Inicialmente, quando ainda estão em botão ou acabadas de abrir, as flores apresentam um tom rosado mas, ao envelhecerem mudam para cor azul. Tal deve-se à presença de pigmentos especiais cuja função é a proteção das plantas, suas flores e seus frutos contra os excessos de radiação da luz ultravioleta. Estes interessantes pigmentos, designados por antocianinas  e apenas presentes em algumas espécies são a razão pela qual podemos ver, ao mesmo tempo, flores rosa e azuis num mesmo ramo de  Cynoglossum creticum. Para os insetos polinizadores, sempre tão atarefados, esta  situação pode representar uma poupança de tempo, permitindo-lhes perceber quais as flores que ainda têm provisão de pólen e néctar e quais a que não valem a pena o incomodo. 
Os frutos são do tipo esquizocarpo pelo que ao amadurecerem se separam em grupos de 4  frutos secos e indeiscentes, semelhantes a nozes, os quais são bem visíveis dentro de cada cálice. Cada uma destas nozes contém uma semente. 

Inicialmente verdes, vão-se tornando castanho-escuras com a maturação. 

Desenho de um gloquídio.
Fonte: Wikipedia. Desenho de RoRo, a partir de Plant Systematics(Simpson 2005)
A superfície destes frutos está densamente coberta por cerdas cuja extremidade termina num conjunto de ganchos, conhecidos como gloquídios e que são os responsáveis pela aderência, não só ao pelo dos animais mas também à nossa roupa e meias quando damos os nossos passeios pelo campo. 
Esta é uma forma de dispersão bastante inteligente, permitindo a formação de novas colónias a quilómetros de distância da planta-mãe.

As sementes estão prontas a germinar logo que amadurecem desde que encontrem um lugar confortavelmente húmido para o fazer. A sua pressa tem toda a razão de ser pois embora cada planta possa produzir centenas de sementes a sua viabilidade no solo não vai alem de 2 ou 3 anos. Por esta razão, a reserva de sementes de Cynoglossum creticum existente no solo é bastante exígua. 
Cynoglossum creticum é uma espécie nativa da bacia do Mediterrâneo, incluindo Portugal continental (veja distribuição AQUI),  Madeira e Porto Santo. Também se encontra nas ilhas dos Açores embora como espécie introduzida e presentemente naturalizada.
Sendo uma espécie ruderal, cresce em terrenos ricos em nutrientes e perturbados pelas atividades humanas como dunas, pastagens, vinhedos, pomares, terrenos cultivados ou de pousio, sítios descampados e beira dos caminhos.

Cynoglossum creticum foi introduzida em diversos países do Novo Mundo onde, sem surpresa, se tornou invasora. Como tem acontecido com muitas outras espécies, ao ser levada para habitats que lhe eram estranhos Cynoglossum creticum perdeu o seu equilíbrio natural acabando por perturbar também o equilíbrio dos habitats locais. Livre dos seus inimigos naturais passou a reproduzir-se de forma descontrolada e demasiadamente vigorosa o que tem prejudicado as espécies nativas de países como os Estados Unidos, o Canadá, a Austrália, a Argentina ou o Chile onde se registam infestações em pastagens que causam grandes problemas aos agricultores e criadores de gado.

Em tempos idos, algumas partes desta planta (folhas, flores e raiz) eram utilizados em medicina tradicional, quer externamente como cicatrizante, quer internamente como antidiarreica, adstringente, hemostática e expetorante. No entanto, a sua utilização caiu em desuso pois os alcalóides pirrolicidinicos que contêm, são tóxicos. Dependendo da quantidade ingerida, são paralisantes e, a longo prazo, cancerígenos.

Cynoglossum creticum pertence ao género Cynoglossum o qual foi estabelecido por Tournefort (1694-1700) e validado por Lineu (1753). Este género é um dos mais complexos e problemáticos da família Boraginaceae, a qual tem sofrido muitas alterações à medida que vão sendo feitos exames fitogenéticos. Esta família inclui atualmente cerca de 2000 espécies divididas em 22 géneros. 

Do género Cynoglossum ocorrem 3 espécies em Portugal (Veja as outras espécies AQUI.) 
A autoridade cientifica que descreveu a espécie Cynoglossum creticum foi Philip Miller em The Gardeners Dictionary: eighth edition no. 3. 1768.

O nome Cynoglossum significa literalmente "língua de cão", numa clara referência à forma das folhas, sendo este termo uma forma latinizada do original grego (“Kynós”=cão e Glõsson =língua). Esta designação, da provável autoria de Sextius Niger, passou a ser conhecida a partir dos trabalhos de Dioscórides, médico e botânico grego e também de Plínio, naturalista romano, contemporâneos no século I. As obras de Plínio e Dioscórides apresentam algumas semelhanças apesar de todas as evidências históricas estabelecerem que eles não se conheciam. Pensa-se que essas semelhanças se devam ao facto de ambos terem usado como fonte os trabalhos de Sextius Niger.

Texto e fotos de:

Fernanda Delgado do Nascimento  http://floresdoareal.blogspot.pt

(exceto quando especificada outra fonte). 

Fotos de Cynoglossum creticum: Serra do Calvo/Lourinhã

terça-feira, 7 de junho de 2016

Preservação das dunas da Areia Branca

Nunca é demais frisar a importância das dunas costeiras, como é o caso das dunas da Areia Branca/Lourinhã. Para além de serem espaços de grande diversidade biológica, as dunas estabelecem a transição entre o meio marinho e o ambiente terrestre agindo como barreira natural, impedindo a progressão do mar para o interior.
Sendo constituídas por uma acumulação de materiais arenosos de consistência muito precária, a estabilidade das dunas depende da manutenção do coberto vegetal. Assim, a vegetação desempenha um papel de primordial importância na sua formação e manutenção, pois são as plantas que ajudam a fixar as areias, prevenindo a erosão provocada pelos ventos, pela chuva e ondas do mar. 
Centaurea sphaerocephala
As espécies que vivem nas dunas são todas plantas especificamente adaptadas ao ambiente hostil em que vivem (ar carregado de partículas de sal, intensa luminosidade, falta de agua e nutrientes). A sua vida e sobrevivência são difíceis mas, apesar de tudo, conseguem apresentar lindas flores e agradáveis aromas.
Este passadiço, que se inclui na ciclovia que liga a praia à Lourinhã, permite agradáveis passeios nas dunas sem prejudicar as plantas
Felizmente, as entidades competentes da região parecem ter-se apercebido da deterioração que se regista em certos locais das dunas e algumas medidas começam a ser postas em marcha, o que não só promove a reconstrução dunar mas também aumenta o potencial turístico e a qualidade de vida das populações.
Numa louvável iniciativa, que teve como objetivo dar a conhecer e sensibilizar a população para a importância da preservação das espécies autóctones do sistema dunar da Areia Branca, o Município da Lourinhã assinalou  o Dia Mundial do Ambiente, a 5 de junho, com a plantação de 12 espécies autóctones do sistema dunar local, preenchendo dois canteiros, junto à Foz do Rio Grande. 
As espécies estão identificadas numa placa informativa afixada no local.
A assistir a este evento estiveram algumas dezenas de passeantes, entre eles várias crianças que também colaboraram na plantação das espécies. Estiveram ainda presentes o presidente da câmara, João Duarte de Carvalho, o técnico do Município responsável por este projeto Nuno Vinagre e o presidente da União das Freguesias de Lourinhã e Atalaia, Pedro Margarido.
Ao que consta, novas iniciativas estão já em planeamento, entre as quais se incluem o repovoamento dos espaços deteriorados das dunas e a eliminação de espécies invasoras, como é o caso dos chorões (Carpobrotus edulis) que são extremamente prejudiciais ao desenvolvimento e sobrevivência das plantas dunares autóctones.
Veja mais sobre as dunas AQUI, AQUI.

Fotos: Praia da Areia Branca/Lourinhã

terça-feira, 24 de maio de 2016

Cymbalaria muralis P. Gaertn. , B. Mey. & Scherb. subsp. muralis

Nomes comuns:
Cimbalária-dos-muros; ruínas; violetas-de-sala
Cada planta ou flor silvestre, por mais modesta que seja, tem o poder de surpreender e encantar. Entre tantas características possíveis, seja a diferente textura ou formato das folhas, a cor brilhante das pétalas ou o engenho das estratégias de sobrevivência e reprodução, tudo é motivo de fascínio e encantamento, sejam as espécies grandes e vistosas ou pequenas e humildes. Devo confessar que tenho grande predileção pelas flores pequeninas e deleito-me com a perfeição miniatural das suas peças florais, de cores só possíveis na natureza. Também nunca deixa de me surpreender a forma ordenada como as diferentes espécies de ervas se sucedem de forma breve, aproveitando o mesmo pedaço de terra como se fizessem turnos, esperando pacientemente a sua vez de cumprir o objetivo de perpetuar a espécie. Outras há, que procuram habitats difíceis e só nas dificuldades que enfrentam se revelam em todo o seu esplendor miniatural, regalando os sentidos dos mais atentos. É o caso de Cymbalaria muralis, uma belíssima e delicada erva, uma das minhas favoritas.
Cymbalaria muralis é uma espécie rupícola, ou seja, vive quase exclusivamente em paredes e muros, como aliás o seu nome específico indica. Outras plantas rupícolas vivem em rochedos e afloramentos rochosos em campo aberto, mas tal não é o caso desta nossa plantinha. 
Ela prefere, sem sombra de dúvida a proximidade dos humanos pelo que a podemos encontrar sobretudo em decrépitos muros de pedra construídos em redor de campos agrícolas, velhas paredes de tijolo e cimento e até em antigos monumentos históricos (de onde deriva o nome vernáculo “ruína”). 
As raízes desta planta desenvolvem-se nas estreitas, escuras e profundas fissuras das paredes de argamassa, tijolo e cimento ou entre as pedras dos muros e muralhas. Nesses espaços mínimos acumulam-se partículas trazidas pelo vento, as quais vão formando pequenos núcleos de solo com alguns nutrientes e humidade que parecem suficientes às suas parcas necessidades. Em vista das condições de escassez do seu habitat, Cymbalaria muralis evita as áreas mais quentes e secas e locais onde se registem grandes amplitudes térmicas. É por isso que muitas vezes ocorre de forma fragmentada, aproveitando nichos de microclima húmido e suave. Desenvolve-se tanto na meia-sombra como em situações soalheiras, desde que as raízes beneficiem de alguma humidade.
Cymbalaria muralis é uma erva perene, de aspecto algo carnudo e suculento. O seu porte é rasteiro e o crescimento rápido, depressa formando uma massa compacta de folhas sobrepostas. Os longos caules estendem-se horizontalmente e em todas as direções; são finos e frágeis, glabros e lustrosos, frequentemente de cor avermelhada. Nos nós formam-se raízes adventícias que podem enraizar e servir de apoio.
As folhas, no topo de longos pecíolos, são muito bonitas e delicadas, apresentando-se lustrosas e de aspeto carnudo e encerado; dispõem-se nos caules de forma alternada, exceto as inferiores que são opostas; são planas e arredondadas ou em forma de coração, com recortes irregulares formando de 3 a 9 lóbulos desiguais. 
A página superior é verde, mas a inferior toma, frequentemente, tons avermelhados.
As flores surgem solitárias ou aos pares, a partir da axila das folhas.
As 5 pétalas estão unidas formando um tubo cuja base se prolonga de forma cónica e algo arqueada (denominado esporão) e dentro do qual se encontra o néctar. A outra extremidade do tubo abre-se para o exterior formando dois lábios. 
O lábio superior tem 2 pequenos lóbulos de cor violeta. O lábio inferior é mais amplo, tem 3 lóbulos de cor violeta e branca, a meio dos quais surgem duas saliências semelhantes a almofadas as quais se encostam ao lábio superior encerrando a entrada que conduz ao interior da flor, interditando o acesso a polinizadores não autorizados. Estas almofadas, muito vistosas na sua cor amarela e branca constituem uma provável pista de aterragem para os insetos polinizadores, maioritariamente constituídos por abelhas. Os veios mais escuros que se veem no interior dos lábios são guias de néctar que, mais uma vez, facilitam a vida das abelhas, indicando-lhes o caminho direto para o néctar e o pólen.
O cálice consta de 5 sépalas unidas até meio, separando-se depois em 5 segmentos semelhantes, glabros e com margens escariosas.
Cada flor apresenta órgãos reprodutores masculinos e femininos funcionais, podendo autopolinizar-se na falta de insetos adequados à anatomia da flor. Os estames, assim como o estigma, estão escondidos dentro da flor.
De forma geral, a planta floresce desde o inicio da primavera até final do verão.
O fruto é uma cápsula globosa que na maturação fica maior que o cálice. As sementes são pequenas, de cor escura e de forma oval ou redondas; são rugosas, com saliências longitudinais bastante evidentes. A sua superfície rugosa evita que rolem para fora das saliências onde são depositadas.
O aspeto mais interessante desta espécie é o seu comportamento e a estratégia de proteção das sementes. Refiro-me ao facto de esta planta demonstrar fototropismo, não só positivo mas também negativo. “Foto” é luz e “tropismo” é movimento. Fototropismo positivo é o movimento para a luz, que é o que todas as plantas fazem, crescendo em direção ao sol, de modo a deixarem as suas flores mais visíveis aos polinizadores ou vulneráveis ao vento que lhes leva as sementes. Mais raro nas plantas é o fototropismo negativo, isto é, o crescimento para longe da luz. 
Cymbalaria muralis cresce para a luz enquanto está em crescimento e em processo de polinização, mas uma vez completado o processo de fertilização, as sementes em formação tornam-se fototrópicas negativas, evitando a luz, encurvando os pedúnculos e procurando locais escuros, ao seu alcance, onde têm mais hipóteses de encontrar um nicho confortavelmente húmido onde possam germinar. A verdade é que dependendo apenas de um pequeno número disponível de locais seguros para largar as sementes, esta estratégia limita o número de novas plantas. Se por um lado permite a rápida substituição dos indivíduos que chegam ao seu fim de vida, a verdade é que também limita o estabelecimento de novas colónias. 
Contudo, surpreendentemente, estudos revelam que poucas são as sementes encontradas nos nichos, em comparação com o número de cápsulas aí depositadas. Muitas sementes poderão ser levadas pelas formigas ou escaravelhos, mas nunca para muito longe do seu local de origem. Resta saber que estratégias são utilizadas pela planta para enviar as sementes para longe. É de supor que a planta aproveite uma variedade de fatores que de alguma forma potenciem meios secundários de dispersão de longo alcance, embora ainda estejam por identificar.
Ao que se julga, Cymbalaria muralis é originária da Itália, nomeadamente da cordilheira dos Apeninos e região da Ístria (península do mar Adriático que hoje pertence a 3 países: Itália, Croácia e Eslovénia)). Presentemente encontra-se amplamente naturalizada por toda região mediterrânica e pela maioria dos países da Europa central. A forma como se expandiu para tão longe da sua área de diversificação ancestral permanece obscura embora algumas investigações levem a crer que possa ter sido, numa primeira fase, introduzida pelos romanos que a apreciavam muito e cultivavam como planta ornamental e medicinal, tendo-se aclimatado de forma discreta nuns lugares e extinguido noutros. Muitos séculos passados, a planta voltou a estar na moda e também por motivos decorativos foi introduzida ou reintroduzida, conforme o caso, a partir do século XVI, sobretudo nos países do norte europeu. Nesta conformidade, Cymbalaria muralis é considerada um arqueófito no sul da Europa, no pressuposto de que tenha sido introduzida na Antiguidade, enquanto na maioria dos países europeus do norte esteja classificada como neófito por ter sido introduzida depois da data limite ou seja, após o ano de 1500. De notar que as datas de introdução são frequentemente problemáticas em estudos deste tipo devido à falta de registos históricos detalhados. A distinção entre arqueófitos e neófitos é particularmente importante pois está amplamente comprovado que os dois grupos diferem nas relações entre si e o meio ambiente, em resultado dos regimes de seleção e cultivo contrastantes das sociedades antigas e as mais modernas. 
Distribuição de Cymbalaria muralis em Portugal continental.
Fonte: Flora Digital de Portugal UTAD
No que diz respeito a Portugal,  tudo leva a crer que Cymbalaria muralis é um arqueófito no continente e um neófito nos arquipélagos de Açores e Madeira.

Cymbalaria muralis foi também levada para fora da Europa estando naturalizada em muitos dos climas temperados da Terra nomeadamente na Austrália, Nova Zelândia, Américas e África do Sul.
Embora seja uma bela planta, especialmente adequada a jardins de rocha  e a cestos suspensos, não podemos dizer que seja muito conhecida ou utilizada em jardinagem nos dias que correm. Contudo, não só é uma erva muito atrativa como é comestível, sendo rica em vitamina C. As flores e as folhas podem ser incluídas em saladas, embora com moderação. O sabor é ligeiramente acre e picante com algumas semelhanças com os agriões. Ingerida em excesso pode ser prejudicial à saúde, como aliás acontece com muitos alimentos comuns.
No passado, Cymbalaria muralis foi usada como erva medicinal. A infusão das folhas e flores era utilizada como tónica, diurética e antiescorbútica. As folhas frescas eram também colocadas sobre as feridas para promover a rápida cicatrização.

Cymbalaria muralis é uma das 10 espécies que constituem o género Cymbalaria, agora incluído na família Plantaginaceae (após ter sido recentemente transferido da família Scrophulariaceae em resultado de testes filogenéticos). Também o nome do género foi alterado, pois até meados dos anos 60 do século passado as espécies deste género pertenciam ao género Linaria - seção Cymbalaria
O nome Cymbalaria deriva do latim “Cymbalum” ou do grego “Kymbalon” numa referência à semelhança das folhas com os pratos do címbalo, instrumento musical de percursão.

Fotos de Cymbalaria muralis - Serra do Calvo/Lourinhã

Texto e fotos de:

Fernanda Delgado do Nascimento  http://floresdoareal.blogspot.pt/

(exceto quando especificada outra fonte). 

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Erica scoparia L.

Erica scoparia e subespécies:
Erica scoparia subsp. scoparia
Erica scoparia - da família Ericaceae e do género Erica - é uma das urzes europeias de maior envergadura. Frequentemente, quando pensamos em urzes, logo as relacionamos com arbustos de pequeno porte, o que de facto acontece com a Calluna vulgaris ou  a Erica cinerea (já anteriormente descritas neste blog), ou ainda com outras espécies também existentes no nosso país nomeadamente do género Erica, como E. tetralix, E. ciliaris, E. umbellata ou E. andevalensis.
Porém, existem outras espécies de urzes que assumem um porte bastante mais avantajado, podendo atingir entre 3 a 7 m de altura, consoante a espécie. Estão neste caso Erica arborea, Erica lusitanica, Erica australis e Erica Scoparia.
Entre as acima mencionadas, Erica scoparia foi a espécie escolhida como tema da entrada de hoje.
Erica scoparia subsp. scoparia
Esta urze forma arbustos eretos e frondosos, de porte generoso e com ramos aprumados e glabros os quais foram, em épocas passadas, muito usados para fazer vassouras. Vem daí o nome específico scoparia que deriva do termo em latim “scopae” que significa escova ou vassoura. A madeira dos troncos mais velhos é muito densa, pelo que constitui um excelente combustível. Foi muito usada para fazer carvão e a sua madeira utilizada para alimentar os fogões de lenha e para aquecer os fornos de cozer o pão. Também dela se fazem pequenos objetos como cachimbos. Na arte do mobiliário decorativo é utilizada na execução de paneis marchetados ou em embutidos.

Erica scoparia vegeta nos mesmos ambientes que Erica arborea com a qual é muitas vezes confundida e da qual se diferencia, sobretudo pelo seu tamanho mais modesto. Em E.scoparia os ramos jovens são glabros mas em E.arborea estão cobertos com densos pelos ramificados ou denticulados. A diferença mais visível reside na floração branca, densa e vistosa de E. arborea, ao contrário de Erica scoparia cuja floração é mais modesta.
Erica arborea - Fonte Wikipedia/ Foto de Xemenendura
De forma geral, Erica scoparia ocorre na zona ocidental do Mediterrâneo (sul da Europa e norte de África) e algumas ilhas da Macaronésia (Açores, Madeira e Canárias). No entanto, esta espécie evoluiu em 4 direções diferentes, formando 4 subespécies, tantas quantos os habitats específicos onde ocorre:
- Subespécie scoparia, ocorre na zona ocidental do Mediterrâneo (sul da Europa e norte de África).
- Subespécie azorica, endémica dos Açores.
- Subespécie maderincola, endémica da Madeira.
- Subespécie platycodon, endémica das Canárias.
Morfologicamente, as subespécies de Erica scoparia são muito semelhantes. As diferenças refletem-se no tamanho das folhas, tamanho e cor das flores, mas sobretudo, no tamanho e forma dos frutos e das sementes.

NOTA:
Na generalidade, subespécies são populações de uma mesma espécie que diferem entre si quanto a determinadas características mas não, ainda, as suficientes para serem consideradas espécies diferentes.
A formação das subespécies ocorre quando acontece um isolamento geográfico de populações de uma mesma espécie, deixando de haver trocas de genes entre elas. Obrigadas a adaptarem-se a diferentes condições ambientais, as populações adquirem características próprias, mais adequadas ao novo habitat, ao mesmo tempo que sofrem mutações que as vão tornando geneticamente diferentes. As subespécies continuam a ter a capacidade de se cruzarem, produzindo descendentes férteis. Este processo demora milhões de anos e a evolução é permanente. Se, e quando, essas alterações genéticas tornarem as subespécies reprodutivamente incompatíveis, ter-se-ão transformado em novas espécies. Ou seja, as subespécies representam uma etapa de transição na formação de novas espécies.

Foi há milhões de anos que as sementes de Erica scoparia chegaram às ilhas da Macaronésia, vindas da bacia mediterrânica. A forma como lá chegaram é ainda pouco conhecida. Contudo, conhecem-se certas rotas ou trilhos, entretanto desaparecidos, e que podem ter permitido que tantas espécies tenham chegado aos arquipélagos de Açores, Madeira e Canárias. Há muito que esses trilhos desapareceram, em virtude das alterações registadas na disposição dos mares e continentes, nomeadamente, a separação da África do norte do sul da Europa, a abertura do Mediterrâneo ao Atlântico através do estreito de Gibraltar, a submersão progressiva de várias ilhas atlânticas que serviam de escala e ainda a desertificação do Sahara, que antes era uma região de florestas. Foram, assim, criadas barreiras geográficas que levaram ao desaparecimento de rotas que durante milhões de anos tinham funcionado como passagem e através das quais, importantes grupos de espécies se vieram a estabelecer nas ilhas atlânticas, não só a partir do Mediterrâneo mas também da África do sul.
Mapa dos territórios incluídos na chamada Macaronésia.
Macaronésia é o nome que designa uma região biogeográfica de particular riqueza botânica que inclui os arquipélagos dos Açores, Madeira, Canárias, Cabo Verde e ainda uma faixa costeira do noroeste de África. Estas regiões apresentam ecossistemas únicos e uma elevada diversidade de espécies e endemismos. A Macaronésia não foi seriamente afetada pelas sucessivas alternâncias climatéricas de grande impacto do período quaternário, pelo que muitas espécies extintas na Europa continental conseguiram sobreviver nos territórios da Macaronésia. Muitas dessas espécies fazem parte do que resta das florestas Laurissilva, recheadas de verdadeiras relíquias.
Uma vez instaladas nos Açores, Madeira e Canárias, as Erica scoparia deixaram de ter contacto com as populações suas ancestrais do sul da Europa. Tão-pouco houve intercâmbio com as populações dos outros arquipélagos. Desta forma, deixou de haver troca de genes pelo que, ao longo de milhares de anos, evoluíram de 4 formas ligeiramente diferentes, tendo dado origem a 4 subespécies. Esta evolução foi condicionada pela necessária adaptação a condições climáticas e recursos nutricionais bastante diferentes. Como diria Darwin a propósito do seu conceito de seleção natural, não são os mais fortes que sobrevivem, mas sim aqueles que melhor sabem adaptar-se.

Erica scoparia subsp. scoparia L.
Nomes comuns:
Urze-das-vassouras; vassoura; urze-durázia; moita-alvarinha.
De forma geral, Erica scoparia subsp.scoparia distribui-se como autóctone pelo sul da Europa (Portugal, Espanha, sul de França e Itália) e África do norte. 
Distribuição de Erica scoparia subsp.scoparia em Portugal continental.
Fonte: Flora Digital de Portugal UTAD
No nosso país, Erica scoparia subespécie scoparia ocorre apenas no território continental. É inexistente nos Açores e Madeira onde está representada pelas subespécies endémicas. 
Esta subespécie pode encontrar-se desde as areias costeiras até 900 m de altitude. Medra em matagais, clareiras e orlas dos bosques onde rivaliza com outras espécies amantes de solos siliciosos mas não excessivamente ácidos, nomeadamente outros tipos de urzes, tojos, estevas, roselhas, giestas e rosmaninhos. Embora suportem alguma seca, desenvolvem-se melhor em substratos com alguma humidade. 
Erica scoparia subsp. scoparia
Os ramos e troncos são eretos e aprumados, de cor castanho-clara com laivos cinzentos, podendo atingir 2 metros de altura, ou mais, nos exemplares mais antigos.
Erica scoparia subsp. scoparia

Erica scoparia subsp. scoparia 

As folhas, por vezes de um verde luminoso, são muito estreitas, com as margens muito recurvadas para a página inferior; são glabras e algo lustrosas, dispondo-se de forma circular nos ramos, em verticilos de 3 ou 4.
Erica scoparia subsp. scoparia 
As flores, de tamanho diminuto, formam cachos longos e densos, ligando-se aos ramos através de pequenos pedúnculos grossos. 
Erica scoparia subsp. scoparia 
As corolas, de cor esverdeada ou amarelada, estão unidas tomando uma forma acampanulada, com bordos profundamente fendidos.
O cálice é formado por 4 sépalas ovadas e glabras.
Erica scoparia subsp. scoparia 
As flores estão equipadas com órgãos reprodutores masculinos e femininos. Os estames e as anteras são 8, mas são mais curtos que as pétalas pelo que estão inclusos dentro da corola. Do ovário emerge um estigma relativamente grande e em forma de disco, o qual toma cor rosada com a maturação.
Erica scoparia subsp. scoparia 
Dependendo das condições atmosféricas esta planta floresce durante a primavera e o verão. Contudo, o período de floração é muito breve e por vezes, nem se dá por ela, pois as flores, por serem de cor esverdeada passam despercebidas por entre as folhas.
Os frutos são cápsulas que se abrem através de 4 valvas.

Erica scoparia subsp. azorica (Hochst. ex Seub.) D. A. Webb
Nomes comuns:
Urze; vassoura; mato; barba-do-mato


Erica scoparia subsp. azorica. Fonte: Portal SIARAM

Esta subespécie de E.scoparia é endémica dos Açores, estando presente em todas as ilhas, ocorrendo desde o nível do mar até aos 2000 m de altitude.
É um arbusto de porte arbóreo que no seu apogeu pode atingir mais de 5 m de altura, embora seja difícil encontrar colónias de espécimes antigos por ser muito utilizada como combustível e para fazer carvão. Encontra-se predominantemente nas encostas rochosas costeiras. A sua presença é de suma importância como reconstrutora florestal, sendo uma das primeiras espécies arbóreas a recolonizar áreas sem vegetação, principalmente acima dos 500 m de altitude.
Esta subespécie está protegida pela Convenção de Berna e pela Directiva Habitats.
Erica scoparia subsp. azorica. Fonte:Portal SIARAM
“Normalmente desenvolvem-se em substrato lávico basáltico pouco evoluído e com forte exposição aos ventos. É um substrato pobre de fraca capacidade de retenção hídrica. A capacidade de colonização de solos lávicos desta Erica levam à possibilidade de se formarem bosques em substratos jovens, provavelmente originando a primeira colonização. A distribuição mundial de ericáceas é designada por "heathlands". Estes geralmente apresentam solos pobres e ácidos. Atualmente, a sua distribuição é restrita, o que se deve à procura da madeira da Erica azorica para obtenção de lenha e carvão. Apesar desta ser uma espécie protegida, ainda se encontram braçadas e pilhas de troncos de Erica em muros junto aos fornos, nas ilhas do Pico e São Jorge”. Fonte (Centro de Ciência de Angra do Heroísmo)
Comunidade pioneira de Erica scoparia subsp. azorica. Fonte: Centro de Ciência de Angra do Heroísmo
Erica scoparia subsp. maderincola D. McClintock
[(sinonimo: Erica platycodon subsp. maderincola (D.C.McClint.) Rivas Mart. & al.] 
Nomes comuns: 
Urze-das-vassouras; urze durázia
Esta subespécie é endémica da ilha da Madeira (rara em Porto Santo), muito comum nas comunidades de substituição nas florestas Laurissilva, sendo uma das espécies mais utilizadas no restauro de áreas ardidas onde aparece associada a Erica arborea, entre muitas outras espécies. É uma planta de altitude, crescendo principalmente acima dos 1000 m nos solos pedregosos das encostas rochosas, resistente ao vento e às amplitudes térmicas.

Erica scoparia subsp. platycodon (Webb & Berthel.) A.Hansen & G.Kunkel
Nome comum : Tejo
Esta subespécie é endémica das Canárias onde cresce em altitude, entre os 800 e os 1100 m, nas encostas mais escarpadas e batidas pelos ventos húmidos dominantes em La Gomera e Tenerife.

Fotos de Erica scoparia subsp. scoparia: Serra do Calvo/Lourinhã

Texto e fotos de:

Fernanda Delgado do Nascimento  http://floresdoareal.blogspot.pt/

(exceto quando especificada outra fonte).