"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





sábado, 16 de maio de 2015

Equisetum telmateia Ehrh.

Nomes comuns: 
Cavalinha; Erva-pinheira; rabo-de-cavalo

As Equisetum - popularmente denominadas cavalinhas - já foram, há milhões de anos, espécies botânicas dominantes na Terra, cobrindo extensas regiões húmidas e alagadiças. Nesse passado tão distante formavam um grupo muito abundante e com grande diversidade de formas e tamanhos. Contudo, a maioria dos seus membros estão agora extintos e deles só se tem conhecimento a partir de restos fossilizados. As cavalinhas apareceram durante o período devoniano (há cerca de 416 a 359 milhões de anos), mas foi durante o período carbonífero (há mais de 230 milhões de anos) que se tornaram numa das espécies soberanas, algumas chegando a atingir 30 metros de altura.
O elevado número destas gigantescas plantas contribuiu largamente para a formação de vastos depósitos de carvão.
As espécies que resistiram até ao dia de hoje são bastante mais pequenas, sendo Equisetum myriochaetum, nativa da México, América Central, Colômbia, Equador e Peru, a maior de todas. Estas plantas podem atingir entre 4 e 7 m de altura, mantendo-se eretas pela estratégia de se ampararem umas às outras.
Equisetum myriochaetum - Royal Botanic Gardens, Edinburgh
Cultivada em estufa
(A folhagem que se vê no topo direito é de Dacrydium cupressinum)
Fonte: Wikipedia - Autor Alexlomas on Flickr
De todos os géneros de cavalinhas que já existiram, apenas 25 espécies sobreviveram. Foram todas colocadas no género Equisetum, único membro da família Equisetaceae e da ordem Equisetales. São todas plantas herbáceas que partilham características com os seus progenitores extintos, tal como a morfologia geométrica dos caules delgados, ocos e articulados, com entrenós longos e as folhas, extremamente reduzidas, arranjadas em espirais em torno dos nós.
As Equisetum são plantas vasculares sem sementes, ou seja, reproduzem-se sexualmente por meio de esporos tal como os fetos, embora morfologicamente existam muitas diferenças entre eles. Também é certo que são muito diferentes de outras plantas vasculares. Por estas razões, antes do advento dos modernos estudos moleculares, a relação deste grupo com outras plantas vivas e fosseis foi considerada problemática. Os botânicos tinham opiniões divergentes, não havia acordo quanto à forma de as classificar. Alguns reconheciam-na como divisão separada com o nome de Equisetophyta ou Sphenophyta. Outros autores consideraram este mesmo grupo como classe, incluída numa divisão constituída por outras plantas vasculares ou mais recentemente, dentro de um grupo de fetos expandido. Quando classificado como classe o grupo foi denominado Equisetopsida ou Sphenopsida.
Enfim, recentes análises filogenéticas forneceram as provas de que Equisetum pertence ao clado Pteridophytes (fetos verdadeiros), formando uma linhagem especializada.
Segundo alguns cientistas (Hauke,1963), Equisetum é provavelmente o mais antigo género vivo de plantas vasculares. Relembremos que as plantas vasculares são assim denominadas porque possuem sistemas de vasos para condução de água e nutrientes e englobam os grupos genericamente conhecidos como pteridófitas (com esporos em vez de sementes), gimnospermas (coníferas – produzem sementes que não estão encerradas em fruto) e angiospermas (produzem flor e as sementes estão encerradas num fruto). Aparentemente foram as pteridófitas (fetos e espécies afins) as primeiras plantas a apresentar este sistema condutor da seiva o que veio possibilitar uma irrigação mais rápida das células vegetais. Ao longo da história evolutiva da Terra, tal não só favoreceu o aparecimento de plantas de grande porte como contribuiu para a adaptação dessas plantas a ambientes terrestres e para o surgimento das plantas produtoras de sementes.
De notar que as plantas mais primitivas, nomeadamente as cavalinhas, dependiam do meio aquático para que a reprodução através de esporos se processasse.
Ainda hoje as espécies do género Equisetum são grandes amantes da água e por isso crescem perto dos rios ou em solos húmidos ou pantanosos de quase todos os continentes, com algumas exceções, nomeadamente Austrália, Nova Zelândia e Antártica.

Segundo a Sociedade Portuguesa de Botânica, através do seu portal Flora-on, são 4 as espécies do género Equisetum, autóctones em Portugal. Veja AQUI.
Mapa atual de distribuição de Equisetum telmateia em Portugal
Fonte: Flora-on
Dados disponibilizados por: 
E.Portela-Pereira,  F.Clamote,  U.Schwarzer,  J.D.Almeida,  A.J.Pereira,  P.V.Araújo,  A.Carapeto,  J.Farminhão, et al. (2015).
Equisetum telmateia é autóctone não só no continente mas também nos Açores e Madeira. Pode ser observada principalmente em substratos argilosos e básicos, na beira dos charcos, terrenos pantanosos, rios, pequenos cursos de água ou campos alagados pela água da chuva na primavera. Ocorrem também em zonas perturbadas pelo homem em resultado de exploração agrícola e em locais onde tenham acesso a águas infiltradas no subsolo. 
Geralmente formam densas colónias, mais ou menos extensas que em alguns locais se podem tornar invasoras, com prejuízo das colheitas agrícolas. Por outro lado, a sobrevivência desta e de outras espécies de cavalinhas estão em risco, juntamente com outras espécies ripícolas, devido à crescente degradação dos habitats húmidos.
Na generalidade Equisetum telmateia ocorre em climas temperados da Europa meridional e central, norte de África, Macaronésia, sudoeste asiático e América do norte.
Divide-se em duas subespecies que basicamente diferem na cor do caule principal:
- Equisetum telmateia subsp. Telmateia, nativa da Europa, sudoeste asiático e noroeste de África   -  caule de cor verde-pálido ou branco-marfim
- Equisetum telmateia subsp. Braunii (Milde) Hauke, nativa da costa oeste da América do Norte, desde o sudeste do Alaska e oeste de British Columbia até ao sul da Califórnia   – caule de cor verde mais escuro
Equisetum temateia subespecie braunii - Fonte CalPhotos
Foto de Zoya Akulova Copyright © 2008 Zoya Akulova
Mais informações sobre a foto AQUI
Equisetum temateia subespécie telmateia, europeia, tem o caule mais claro que a americana (na foto acima)
Equisetum telmateia é uma planta perene, herbácea mas robusta. Reproduz-se quer por esporos quer pela expansão do seu rizoma o qual produz caules aéreos a intervalos curtos e formando colonias. Este caule subterrâneo cresce horizontalmente e subdivide-se lateralmente em várias direções, formando uma massa intrincada de múltiplas camadas que no caso desta espécie chega a atingir mais de 15 m de comprimento e penetrando até 4 m de profundidade. 
No seu ciclo de vida Equisetum telmateia gera, de forma sucessiva, dois tipos de caules: os caules férteis ( cuja função é a reprodução sexual e que aparecem em março, secando logo que libertam os esporos, em abril) e os caules estéreis ou vegetativos (que aparecem logo após e cuja missão é alimentar os rizomas através da fotossíntese). Estes dois tipos de caules, aparentemente independentes, nascem a partir do rizoma comum. No final do verão os caules estéreis secam também, mas o rizoma permanece vivo.
Os caules férteis são perfeitamente identificáveis. Não têm clorofila pelo que são esbranquiçados quando jovens e acastanhados quando chegam ao fim do seu ciclo. São curtos e grossos, constituídos por um caule que suporta uma estrutura de forma cónica (estróbilo), variando a sua altura total entre os 15 e os 45 cm. 
No caule, quase translucido, podem ver-se as folhas, estruturas rudimentares de cor acastanhada, pequenas, unidas entre si e que envolvem o caule como uma bainha ou tubo, com a margem superior serrada, com mais de 15 dentes compridos e estreitos. 
O estróbilo, é a estrutura reprodutora constituída por um eixo central rodeado de numerosos esporangióforos hexagonais e peltados (ligam-se perpendicularmente ao eixo por uma curta haste) agrupados em espiral e em cuja parte interna se originam os esporângios. É dentro dos esporângios que se formam os esporos.
Pormenor do estróbilo de Equisetum sp. em que se podem observar os esporangióforos hexagonais e por baixo deles os esporângios, de cor mais clara.
Fonte Wikipedia
Copyright by Curtis Clark
Corte transversal do estróbilo de Equisetum sp.
Podem observar-se os esporângios e as hastes que ligam os esporangióforos ao eixo central
Fonte Wikipedia
Copyright by Curtis Clark
Corte longitudinal de estróbilo de Equisetum arvense
Podem observar-se os esporângios suspensos dos esporangióforos e as hastes que ligam estes ao eixo
Fonte: Wikipedia - Foto de Keisotyo
Quando os esporos estão maduros os esporângios contraem-se e rompem-se ao longo da superfície interna, libertando-os. Os esporos podem ser masculinos ou femininos. Ao atingirem o solo eles germinam dando origem a uma planta muito simples (protalo) que dura pouco tempo e cuja função é produzir gametas ou seja as células sexuais. O protalo possui um órgão reprodutor feminino e outro masculino. Depois da fertilização da oosfera do gametófito feminino pelos anterozoides do gametófito masculino, o protalo degenera e desta união nasce um novo esporófito que corresponde a uma nova Equisetum telmateia
Os esporos são esféricos e na sua superfície granulosa formam-se 4 estruturas higroscópicas em forma de fita, denominadas elatérios, as quais empurram os esporos para fora da planta e aumentam o seu aerodinamismo em relação ao vento. Nas Equisetum os espessamentos das fitas dos elatérios, obrigam-nos a voltear e saltar, enrolando ou desenrolando, dependendo do grau de humidade, auxiliando na dispersão dos esporos (enrolam quando absorvem a humidade do solo e desenrolam quando o vento ou o sol os seca momentaneamente). E se durante as suas acrobacias tiverem a sorte de ser apanhados pelo vento, podem chegar a locais onde antes nenhum esporo conseguiu chegar. Eles conseguem saltar a grandes alturas - 1 centímetro - o que é um enorme feito pois representa cerca de 20 vezes o seu próprio tamanho, tanto mais que o gasto de energia é nulo.
Esquema copiado de "Les fougères de pleine terre et les prêles, lycopodes et sélaginelles rustiques.
Octave Droin éditeur, 1896" Fonte Wikipedia
Fig. 62 - Elatérios de Equisetum sp. enrolados em torno do esporo
Fig. 60 - Momento em que os elatérios se separam do esporo de Equisetum sp.
 Fig 61 - Elatérios de Equisetum sp. separados pela dissecação
Em 2013 uma equipa de cientistas franceses estudou as dinâmicas dos movimentos dos elatérios de Equisetum e publicaram os resultados em Proceedings of the Royal Society B . Foram também eles que fizeram o vídeo em que se podem ver esses movimentos em câmara lenta. Veja e delicie-se.
The Walking and Jumping Spores of Horsetails plants
Film by Philippe Marmottant – Lab. Interdisciplinaire de Physique CNRS and Univ. of Grenoble

Uma vez libertados os esporos, os caules férteis murcham. Nessa altura começam a crescer os caules chamados estéreis que constituem a estrutura vegetativa dominante. São eles que alimentam os rizomas através da fotossíntese, conduzindo as seivas entre os ramos e às raízes.
Os caules estéreis pouco mais são que caules verdes. O caule principal é verde-claro (nas plantas jovens) ou branco-marfim (nas plantas adultas mais velhas), ereto e a sua altura varia entre os 30 e os 150 cm, com diâmetro de cerca de 1 cm ou menos. A superfície exterior apresenta estrias longitudinais pouco definidas, com aspeto vidrado. Isto acontece porque os tecidos da planta são ricos em sílica, um dos principais componentes do vidro.
Este caule é oco e é formado por nós e entrenós colocados a espaços regulares e que lhe dão um aspeto segmentado. 
As folhas são muito finas, de aspeto escamoso e estão dispostas nos nós, unidas entre si e formando um anel em redor de cada nó, terminando numa coroa de dentes triangulares. A atividade fotossintética das folhas é praticamente inexistente, funcionando apenas logo no início e depressa secando.
Na base de cada anel de folhas surgem uns 20 ramos de cor verde formados por 8 ou 9 entrenós os quais se posicionam em redor do caule principal como os raios da roda de uma bicicleta. Estes ramos têm estrias proeminentes e cada entrenó envolve o seguinte por uma bainha de 4 escamas.
Tanto os caules férteis como os estéreis são comestíveis, crus ou cozinhados. Para tal devem ser colhidos jovens, tendo o cuidado de não destruir os rizomas. Devem ser descascados ou pelados.
Contudo, as células que formam os tecidos das plantas adultas estão cheios de sílica pelo que devem ser escolhidas as plantas jovens ou dará a sensação de mastigar areia. Por esta mesma razão, a planta torna-se especialmente abrasiva depois de seca, qualidade que foi aproveitada pelas população antigas que a usavam para polir artigos de metal ou esfregar o chão de madeira das suas casas.


As cavalinhas são tóxicas para o gado mas principalmente letais para os cavalos. Contudo não existem evidências de que sejam tóxicas para os humanos desde que se estabeleça um limite ao seu consumo.

Equisetum telmateia  é muito usada em medicina tradicional pois possui propriedades mineralizantes, diuréticas, hemostaticas e cicatrizantes. Usa-se sob a forma de infusão, duas a três chávenas por dia. Colocam-se os ramos frescos ou secos em água acabada de ferver e deixam-se repousar durante 10 minutos. Para tratamentos específicos  é  recomendável procurar aconselhamento.

O nome genérico Equisetum deriva do latim “equus” (cavalo) + “seta” (cerda) talvez porque os ramos desta planta se assemelhem aos pelos grossos das caudas dos cavalos. Daí derivam também os nomes populares de cavalinha e rabo-de-cavalo em português e horsetail em inglês.
Quanto ao nome especifico telmateia deriva do grego “telmat” (pântano, atoleiro), referindo-se aos terrenos húmidos onde a planta geralmente vive.

Fotos: Serra do Calvo/Lourinhã, exceto quando mencionada uma outra fonte.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Cerastium glomeratum Thuill.

Nome Comum:
Orelha-de-rato; cerástio-enovelado

Cerastium glomeratum é uma das numerosas espécies de flores brancas que fazem parte de Cerastium L., género quase cosmopolita com cerca de 100 espécies, algumas perenes, outras anuais, mais abundantes em zonas temperadas e frias, sendo a Eurásia o seu principal centro de diversidade. Cerastium fontanum e Cerastium glomeratum são as espécies mais comuns a nível global porquanto a maioria das espécies deste género tem distribuição restrita.
Muitas das espécies do género Cerastium são usadas por alguns tipos de borboletas que aí depositam os seus ovos, servindo posteriormente de alimento às larvas. Entre os vertebrados, algumas pequenas aves comem as sementes, enquanto os coelhos bravos petiscam as folhas. Aparentemente também as galinhas caseiras adoram esta herbácea, pelo menos as galinhas anglo-saxónicas, a constatar pelo nome popular que em inglês se dá ao género Cerastium: “chickweeds”, ou seja ervas-das-galinhas. No que diz respeito a este cantinho de Portugal e outros por onde tenho andado, não encontrei nenhum indício de que se colha esta erva (ou qualquer outra, já agora) para alimentar galinhas, o que não quer dizer que não aconteça noutros locais. O que é mesmo certo, é que já são poucas as pessoas da aldeia que reconhecem as ervas que crescem pelos caminhos ou incomodam a sua plantação de couves.
As galinhas adoram comer Cerastium (ervas-das-galinhas)
Fonte http://www.eatthatweed.com/chickens-love-chickweed/
(Se este assunto lhe interessa, veja também AQUI). 

Segundo o portal Flora-on, são 6 as espécies deste género que se encontram presentes em Portugal. Veja AQUI.
Todas estas espécies apresentam flores de pequeno tamanho, de aspeto modesto e discreto, quando isoladas. Mas, em conjunto, formam alegres tapetes rasteiros ou franjas altas e espevitadas. A espécie mais comum no nosso país é a Cerastium glomeratum, planta grácil e com flores de uma brancura imaculada. Contudo não nos deixemos enganar pelo seu pretenso aspeto angelical pois é uma infestante bastante rápida e eficaz. No jardim é fácil de erradicar, bastando para tal arrancá-la à mão antes que produza frutos e sementes. Mais difícil é controlá-la nos terrenos cultivados de grande extensão pois é resistente aos produtos químicos, infelizmente tão utilizados hoje em dia; por outro lado, a ação de sachar a terra com enxadas ou lavrar mecanicamente só ajuda a espalhar as sementes.
Mapa actual de distribuição de Cerastium glomeratum em Portugal continental
Fonte:  Flora-on    
Dados disponibilizados por J.Lourenço, J.D.Almeida, F.Clamote, P.V.Araújo, M.Porto, A.J.Pereira, A.Silva, P.Silveira, et al. (2015).

Embora a exata procedência de Cerastium glomeratum permaneça algo obscura, presume-se que seja de origem euroasiática mas é conhecida em quase todos os continentes como espécie introduzida e naturalizada. Em Portugal é autóctone do continente e arquipélago da Madeira e naturalizada nos Açores.
Cresce em muitos tipos de habitats quer naturais, quer antropizados, desde o nível do mar até 2000m de altitude: dunas, campos cultivados ou incultos, jardins, margens de caminhos, de preferência em áreas de solos perturbados e enriquecidos em nutrientes, demonstrando a sua natureza ruderal. O tipo de solo é-lhe indiferente mas precisa de alguma humidade e prefere exposição sombreada embora também cresça em pleno sol.
Cerastium glomeratum é uma planta anual de um tom de verde-claro e revestida de numerosos pelos compridos, densos e flexíveis que podem ser glandulares ou não. 
Os pelos glandulares residem essencialmente na parte superior da planta o que a torna algo pegajosa ao toque. A riqueza em nutrientes, a humidade do solo e o grau de exposição solar são três elementos que em conjunto ou cada um por si só, determinam o tamanho que as plantas de Cerastium glomeratum podem atingir na idade adulta. Algumas permanecem rasteiras com pouco mais de 5 cm, outras podem chegar aos 40 ou 45 cm de altura. Os caules, ramificados, são eretos ou ascendentes.
As folhas dispõem-se ao longo dos caules, a espaços regulares e em pares opostos. São folhas inteiras e simples, de forma oval ou elíptica com cerca de 2 ou 3 cm de comprimento. Não têm pecíolo e ambas as páginas estão cobertas de pelos.
A característica distintiva desta espécie é a forma como as flores se aglomeram em cimeiras compactas ou seja, em cachos densos, os quais se repetem sucessivamente. É um tipo de ramificação em que cada ápice se bifurca originando dois pedúnculos situados à mesma altura, de tal forma que os eixos florais se sucedem. Os pedicelos são do mesmo comprimento ou mais curtos que as sépalas.
Traduzido em termos técnicos dir-se-á que a inflorescência de Cerastium glomeratum é na realidade um dicásio (cimeira bípara) mas que aparece como uma cimeira multiflora muito contraída, também denominada glomérulo - de onde deriva o epiteto glomeratum que identifica a espécie.
Na base dos pedúnculos florais existem duas brácteas herbáceas e foliáceas.
As flores tem pedicelos que são mais curtos que as sépalas ou do mesmo comprimento (5 mm ou menos), os quais estão cobertos de pelos glandulares.
A corola, com diâmetro de 5 a 8 mm, é formada por 5 pétalas iguais, livres e cuja extremidade apresenta um entalhe no ápice. As flores raramente abrem por completo, por vezes nem chegam a abrir ou faltam algumas pétalas. Embora possam ser fecundadas por insetos estas flores estão vocacionadas para a autopolinização, caraterística assumida das plantas ruderais e que agiliza o processo de formação de sementes. Apesar disso estas pequeníssimas flores estão apetrechadas com nectários onde armazenam o delicioso e nutritivo néctar destinado a atrair insetos, especialmente abelhas, moscas e traças ou pequenas borboletas, o que acaba por ser um desperdício de energia (alguns géneros mais evoluídos dentro da família a que pertence Cerastium L. – Caryophyllaceae – já desenvolveram dispositivos que impedem o acesso aos nectários).
O cálice é constituído por 5 sépalas livres e lanceoladas, de cor verde as quais são mais curtas que as pétalas. As sépalas desta espécie têm margens membranosas e os pelos que as cobrem, na sua maioria glandulares, têm a particularidade de serem longos e compridos, ultrapassando o ápice das mesmas. As sépalas são persistentes, mantendo-se durante a frutificação.
As flores estão providas de órgãos reprodutores masculinos e femininos funcionais. Os estames são 10, com filetes esbranquiçados e anteras de cor amarelo-pálido. O ovário tem 5 carpelos e os correspondentes 5 estiletes de cor branca os quais são visíveis, juntinhos no centro da flor, entre os estames.
O período de floração prolonga-se desde o fim do inverno até meados do verão e cada planta completa o seu ciclo de vida em 3 ou 4 semanas. 
Frutos nos quais se pode ver a abertura formada por 10 pequenos dentes
O fruto de Cerastium glomeratum é uma pequena cápsula alongada, de consistência algo semelhante a papel fino e mais comprida que as sépalas - mas com pouco mais de 1 cm de comprimento - que resulta da fusão dos 5 carpelos. 
Fonte: CalPhotos
Photographer: Jean Pawek

Dentro desta cápsula formam-se minúsculas sementes de cor castanha ou alaranjada, as quais são libertadas pela parte superior. A abertura apresenta 10 pequenos dentes (múltiplos do número dos carpelos), os quais podem ser eretos ou ligeiramente curvados para fora.
O formato tubular e ligeiramente curvo desta cápsula está na origem do nome que designa o género: Cerastium deriva do grego “Kerastes” que uns dizem que se traduz por corno e outros por trombeta.

Cerastium glomeratum pode ser facilmente confundida com outras espécies do mesmo género, nomeadamente com Cerastium fontanum, espécie perene, mas com flores maiores embora menos compactadas. Mas a principal diferença reside na morfologia das sépalas que em Cerastium glomeratum estão revestidas de pelos bastante mais compridos e que ultrapassam o ápice; os pelos das sépalas de Cerastium fontanum são definitivamente mais curtos. Veja fotos de Cerastium fontanum AQUI.

Cerastium glomeratum pode ser também confundida com Stellaria media, do género irmão Stellaria, ambos da família Caryophyllaceae. Contudo, não é difícil diferenciá-las se tomarmos em consideração os seguintes pontos principais: enquanto as folhas de Stellaria media têm peciolos, as de Cerastium glomeratum são sésseis; a forma das folhas é diferente entre estas duas espécies; as pétalas de Stellaria media são bipartidas e as de Cerastium glomeratum só são fendidas até um terço do seu comprimento; Stellaria media tem 3 estiletes e Cerastium glomeratum tem 5. Veja fotos de Stellaria media AQUI.

A família Caryophyllaceae, à qual pertencem todas as espécies acima referenciadas, inclui 86 géneros, com mais de 2200 espécies, que ocorrem praticamente no mundo inteiro mas com maior incidência em regiões temperadas e quentes do Hemisfério norte. Embora muitas espécies sejam de pequeníssimas dimensões, anuais e infestantes das culturas, outras têm interesse económico pois são cultivadas como ornamentais, sendo as mais conhecidas os cravos (Dianthus L.) e a Gypsophila L.

Fotos: Serra do Calvo exceto quando mencionada outra fonte.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Veronica persica Poir.

Nome comum:
Verónica-da-pérsia
Veronica persica é uma pequena herbácea originária do sudoeste asiático, presumivelmente da região da antiga Pérsia, de onde derivou o seu nome específico. Foi introduzida na Europa nos finais do seculo XVIII ou início do seculo XIX, como planta de jardim. Através do vento ou por movimentação de terras acabou por escapar para os campos onde se assilvestrou, encontrando-se nesta altura confortavelmente naturalizada em muitas regiões de clima temperado de todo o globo.
A primeira autoridade cientifica a descrever e classificar esta espécie foi o botânico e explorador francês Jean Louis Marie Poiret (1755-1834). A publicação foi feita em 1808 na Encyclopédie Methodique, Botanique, suplemento, pagina 542 e da qual constam os detalhes morfológicos da espécie, assim como a seguinte informação:
“Esta planta cresce na Pérsia. É cultivada no Jardin des Plantes de Paris.” 

Book contributed by Missouri Botanical Garden -  Peter H. Raven Library
Para consultar este livro do qual consta a primeira publicação de Veronica persica (página 542), clique AQUI.
Mapa da distribuição de Veronica persica em Portugal continental.
Esta espécie também está presente nos Arquipélagos dos Açores e da Madeira
Fonte: Jardim Botanico da UTAD
Veronica persica é uma planta infestante, embora frágil e não muito agressiva. Cresce em campos de cultivo ou incultos, beira dos caminhos, jardins, áreas arrelvadas e todo o tipo de áreas perturbadas. É uma planta ruderal, característica de zonas antropizadas cujos solos apresentam concentrações elevadas de nitratos em consequência dos excessos de adubação.
Veronica persica é uma erva anual, herbácea que gera vários caules, por vezes bastante ramificados desde a base, formando um espesso emaranhado nas plantas mais desenvolvidas. 
Os caules podem ir dos 10 aos 40 cm de comprimento e são prostrados embora se tornem eretos na parte terminal, onde surgem as flores. 

Ocasionalmente podem enraizar nos nós que estejam em contacto com o solo.

Os caules estão cobertos de pelos tectores simples e compridos os quais não produzem nenhum tipo de secreção mas que neste caso se supõe que auxiliem na diminuição da incidência luminosa, minimizando a transpiração e na defesa contra insetos fitófagos.

Pelos do mesmo tipo apresentam-se dispersos em ambas as páginas das folhas. Estas tem pecíolos curtos e são inteiras, com as margens grosseiramente  dentadas. O limbo é arredondado ou oval, o ápice é obtuso e a base é simples, em forma de coração.

As folhas da parte inferior inserem-se nos caules de forma oposta e as da extremidade superior são alternas.
As flores surgem solitárias na parte superior dos caules, nascendo na axila das folhas e apresentando pedicelos bastante mais compridos que as folhas axilantes correspondentes, sendo curvados na parte terminal.
A corola, com apenas 6 a 12 mm de diâmetro, é formada por 4 pétalas dispostas em forma de taça, unidas na base e com a extremidade arredondada.
As pétalas são de cor azul claro, com o centro branco e apresentam estrias mais escuras as quais geralmente tem a finalidade de guiar os insetos polinizadores para o centro, onde estão posicionados as bolsas de néctar e os órgãos reprodutores.
Uma das pétalas é mais estreita que as restantes e também apresenta uma tonalidade mais clara.
O cálice é formado por 2 pares de sépalas divergentes, de cor verde, ovado-lanceolados, soldadas na base e mais curtas que a corola e também providas de pelos nas margens e no veio central.
As flores são hermafroditas ou melhor dizendo, são perfeitas, pois possuem órgãos reprodutores masculinos e femininos funcionais. Os dois únicos estames apresentam anteras gordas e vistosas; o ovário, com dois carpelos unidos, tem um único estilo, o qual é bastante longo e persistente na frutificação, bem visível pois ultrapassa as paredes do fruto. A polinização é feita por insetos, no entanto, como acontece com as outras espécies ruderais, Veronica persica também recorre à autopolinização como medida preventiva, em virtude de ter ciclos de vida rápidos e tamanho diminuto. Além disso as flores são sensíveis à intensidade da luz, fechando durante a noite e em dias nublados, o que diminui ainda mais o tempo de exposição aos insetos.
Em condições favoráveis Veronica persica floresce durante a maior parte do ano; de forma mais ou menos exuberante, dependendo do clima e das condições atmosféricas locais, podem sempre encontrar-se algumas plantas desta espécie. A floração é mais intensa quando a primavera se faz anunciar mas podemos dizer que é uma daquelas ervas persistentes que só interrompem a floração com temperaturas muito baixas retomando a sua atividade logo que o inverno se torna mais suave. Contudo, tendem a secar no verão quando a intensidade do sol e a escassez de água assim o determinam.
Cada flor dá origem a um fruto seco coberto de pelos glandulares e que deixa sair as sementes pela parte superior; é composto por dois carpelos cujas paredes estão unidas, formando uma capsula achatada, larga e baixa, com  dois lóculos, contendo 5 a 20 sementes de cor amarelada, rugosas e que medem cerca de 1 a 2 milimetros.
Veronica persica é semelhante a muitas espécies do mesmo género pelo que pode facilmente ser confundida com elas. Uma das formas de identificar esta espécie reside no seu fruto característico o qual, embora tenha a habitual forma de coração, crescendo aninhado entre as sépalas do cálice, se diferencia das outras espécies por ter os dois lóculos e as sépalas marcadamente divergentes.

Para comparar os frutos de varias espécies do género Veronica clique AQUI.
A média de sementes geradas por cada planta de Veronica persica é de 6500 as quais caem no chão perto da planta-mãe e estão logo prontas para germinar, se as condições o permitirem. Uma minoria de sementes é levada pelas aves ou pelo vento, por vezes ainda agarradas à planta original, já seca. As sementes permanecem viáveis durante 30 anos ou mais. Assim, havendo movimentação de terras que as soterrem por longo tempo, nada está perdido para ela; basta-lhe aguardar pacientemente o dia em que verá de novo a luz do sol para então rapidamente germinar.

Em fitoterapia usam-se as partes aéreas desta planta a qual parece ter propriedades estimulantes, expetorantes, digestivas, sudoríferas e antirreumáticas.
Aliás, Veronica persica pertence ao género Veronica cujas espécies são caracterizadas pela presença de importantes metabólitos secundários denominados glucoseideos bis-sesquiterpenos e iridoides. 
Muitos destes produtos naturais são de grande interesse devido à sua atividade farmacológica, nomeadamente os iridoides. Estes representam um largo grupo de monoterpenos que ocorrem na natureza de forma amplamente disseminada principalmente em certas famílias, nomeadamente nas Plantaginaceae, família em que se inclui o género Veronica. Estudos recentes e extensivos revelaram que os iridoides demonstram uma vasta gama de bioactividades com efeitos neuroprotetores, antinflamatorios, hepaprotetores, cardioprotetores e imunomoduladores. Tambem foram relatadas propriedades citostáticas, antioxidantes, antimicrobianas, hipoglicemiantes, hipolipemiantes, coleréticas, antiespasmódicas e purgativas, destacando-se as bioactividades antibacterianas, anticoagulantes, antifúngicas e antiprotozoárias. Os glicosídeos iridóides mais espalhados no género Veronica são aucubina e catalpol.
Estes metabólitos secundários e outros, são também extremamente importantes na quimiotaxonomia, ajudando os cientistas na sua complicada tarefa de fazer a revisão da classificação científica das plantas. Complementando os dados morfológicos disponíveis, contribuem para melhor inventariar e descrever a biodiversidade e para melhor compreender as relações filogenéticas entre os organismos.
Tradicionalmente o género Veronica compreendia entre 250 a 300 espécies distribuídas fundamentalmente pelas zonas temperadas do hemisfério norte, principalmente Europa e Ásia. Contudo, estudos recentes apoiados em dados moleculares determinaram alterações que ampliaram o número de espécies para 450, passando a incluir também algumas espécies do hemisfério sul.
Segundo o portal Flora-on estão presentes em Portugal 20 espécies deste género. Confira AQUI.
Na generalidade, as espécies do género Veronica são nativas de uma grande diversidade de habitats: prados húmidos ou secos, pastos, encostas rochosas e regiões arborizadas, desde o nível do mar até às regiões de clima alpino nos Himalaias, a 5000 m de altitude. Incluem espécies anuais ou perenes, muitas delas apropriadas para jardins, podendo ser usadas numa multiplicidade de situações, dependendo do gosto e da imaginação. Existem espécies rasteiras que são perfeitas para cobertura de solo e jardins de rocha, como é o caso da V. persica e espécies mais altas e sofisticadas que são adequadas para sebes ou como exemplares isolados. As flores podem ser brancas, rosa ou azuis, com estames de vistosas anteras. Muitos cultivam-nas não apenas pela sua beleza mas também porque atraiem muitos insetos, sendo alimento para as larvas de vários tipos de borboletas.
Seguem-se dois exemplos, entre as muitas espécies do género Veronica que são cultivadas, manipuladas e hibridizadas, sendo posteriormente comercializadas com fins ornamentais:
Veronica spicata 'Rosea'
Autor: 
Ghislain118 (AD)
Fonte Wikimedia Commons

"Veronica austriaca". Licensed under CC BY-SA 3.0 via Wikimedia Commons
Veronica é um género muito grande e complexo estando a ser sujeito a diferentes estudos sistemáticos e filogenéticos com consequentes alterações na taxonomia que nem sempre são consensuais. É o caso de algumas espécies do género Hebe que foram mudadas para o género Veronica, situação que ainda não foi aceite por uma parte da comunidade cientifica.
O género Veronica, inicialmente incluído na família Scrophulariaceae foi recentemente transferido para a família Plantaginaceae (APG 2003) , família em que também se inserem as espécies do género Plantago. 



Fotos: Serra do Calvo/Lourinhã exceto quando especificado