"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





domingo, 21 de dezembro de 2014

Neste Natal...


Arribas do Caniçal
Num dia tão luminoso como foi o de hoje, eu diria que o próprio sol se aliou a um esplendoroso céu de tom azul-cobalto para comemorar o solstício de inverno. Assim se inicia a estação mais fria do ano no hemisfério norte, época em que a maioria das plantas parece adormecida. Em contrapartida está na altura dos trabalhos profundos no jardim. Há que recolher as folhas murchas, podar os arbustos e árvores, limpar o solo de ervas não desejadas e principalmente arranjar os canteiros e fazer as sementeiras que irão dar vida e cor na primavera e inicio do verão. Este ano seja ousado e aproveite para fazer algumas experiências pois essa é a parte divertida da jardinagem. Semeie plantas autóctones; estão menos sujeitas a doenças, são económicas no gasto de agua e manutenção, estão adaptadas ao nosso clima e são muito apreciadas principalmente em países estrangeiros onde a jardinagem é levada muito a sério. Saiba como conseguir as sementes de espécies nativas em Sementes de Portugal.

Como presente de Natal para todos quantos têm tido a amabilidade de seguir este blog trago algumas fotos de uma espécie autóctone que floresce brevemente em maio mas cujas flores se transformam em lindos frutos que alegram o meu jardim durante todo o outono e inverno. Esta espécie é a Iris foetidissima. Veja mais detalhes AQUI





Desejo alegres festividades para todos. Mas, acima de tudo, que o ano de 2015 vos traga a concretização dos sonhos ainda não realizados.

"Foi o tempo que dedicaste à tua rosa que fez a tua rosa tão importante"
O pequeno príncipe - Antoine de Saint-Exupéry



quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Geranium rotundifolium L.

Nome Comum: Gerânio-peludo

Geranium rotundifolium é o tema de hoje. Assim se encerra o ciclo Geranium no qual foram incluídas algumas espécies pertencentes ao referido género e que, até à data, observei pessoalmente nesta região.
Geranium rotundifolium partilha com as suas congéneres a frescura verde-musgosa das folhas, o recato das flores rosadas e a determinação em adaptar-se ao meio ambiente e até expandir-se. Apesar de partilharem os mesmos espaços e recursos, não rivalizam nem se enfrentam, antes se entrelaçam docemente numa quase promiscuidade. Contudo, no seu jeito manso cada uma destas espécies consegue imprimir a sua personalidade própria, destacando-se das demais.
Na aparente uniformidade característica de Geranium descobrem-se algumas dissemelhanças merecedoras de algo mais do que aquilo que foi dito no texto introdutório AQUI e foram elas que me levaram a dar atenção individualizada a cada uma destas espécies, perfeitamente merecida, embora necessariamente repetitiva em alguns aspetos.  
Geranium rotundifolium é nativa do norte de África e sul da Europa, sobretudo da região mediterrânica, tendo sido introduzida noutras partes do mundo onde está naturalizada. Nos últimos anos tem-se registado alguma expansão para norte da Europa, estando mais abundante em locais onde era extremamente rara e aparecendo esporadicamente em países setentrionais onde nunca antes tinha sido vista. São os seus atributos ecológicos e fisiológicos, aliás partilhados por outras espécies do mesmo género e já antes mencionados, que lhe permitem adaptar-se com tal sucesso a ambientes humanizados.
No nosso país está presente como espécie nativa em Portugal continental e arquipélago da Madeira e naturalizada no arquipélago dos Açores. Os seus habitats naturais são locais sombreados nas orlas dos bosques, pinhais e dunas. Aparece ainda na beira dos caminhos, orla dos campos cultivados ou de pousio, fendas dos muros e outros locais de perfil ruderal mas com boa humidade edáfica.
Geranium rotundifolium reproduz-se por semente e tem apenas um ciclo vegetativo, ou seja, é uma espécie anual. Germina logo que chegam as primeiras chuvas de outono e floresce e frutifica, espalhando novas sementes, a partir de março. De todas as espécies Geranium que crescem espontaneamente em Portugal, Geranium rotundifolium é a que tem uma floração mais prolongada, podendo ainda nesta altura do ano, nos fins de dezembro, ver-se alguns indivíduos com flores e frutos.
Com 10 a 40 cm de comprimento, os caules são tenros e verdes ou com coloração avermelhada. São eretos ou ascendentes e estão cobertos de pelos suaves compridos não glandulíferos e também por pelos glandulíferos curtos, situação que se repete em todas as partes da planta.
As primeiras folhas formam uma roseta. Conforme se desenvolvem os caules, as novas folhas dispõem-se neles de forma oposta. Quase todas as folhas apresentam longos pecíolos. O limbo foliar, com 5 ou mais nervuras, é arredondado, peludo e está dividido em 7 a 9 lóbulos pouco pronunciados, os recortes não excedendo metade da aba da folha; ambas as faces estão cobertas com pelos geralmente não glandulosos.
As folhas desta planta são muito arredondadas se as compararmos com outras do mesmo género. O termo rotundifolium que dá nome à espécie reflete essa característica e deriva do latim: rotundus = redonda e folius= folha.
As flores, de tamanho diminuto nascem aos pares no topo de um pedúnculo comum que se subdivide. As 5 pétalas, de cor rosa ou lilás são iguais, inteiras, livres e direitas na extremidade. 
As 5 sépalas que envolvem o botão floral e que formam o cálice são livres, mais curtas que as pétalas e de forma ovalada, terminando numa ponta curta, aguda e rígida. São de cor verde, com estrias mais escuras e densamente cobertas de pelos glandulíferos e não glandulíferos.
Anteras amarelas e braços estigmáticos de cor purpura
As flores são completas, ou seja, dispõem de órgãos reprodutores masculinos e femininos. No androceu existem 10 estames férteis cujos filetes estão cobertos de pelos finos na metade inferior e que se dilatam progressivamente em direção à base, onde se encontram os nectários. As anteras amarelas produzem pólen da mesma cor.
O pistilo tem um ovário formado por 5 carpelos encimado pelos correspondentes 5 estiletes e estigmas de cor purpura ou rosa escuro.
O fruto de Geranium rotundifolium é um esquizocarpo formado por 5 mericarpos independentes, unidos por fibras denominadas aristas a uma coluna alongada (em forma de bico de ave), a qual é formada pelo conjunto do estilete e estigma que se alongaram e continuaram a crescer até à maturação completa.
A dispersão das sementes das espécies do género Geranium é feita por explosão  violenta, como já vimos AQUI, AQUI  e AQUI. Tal acontece devido às propriedades higroscópicas das aristas. À medida que vão ficando desidratadas e distorcidas as aristas acumulam tensão semelhante à de um elástico esticado, de modo que, chegado o momento da rutura, se dobram repentinamente, catapultando as sementes a considerável distância da planta-mãe. 
Fonte Flora-on
Foto de João D. Almeida
Como vimos, as sementes das espécies Geranium desprendem-se de baixo para cima e quando a coluna se curva, por vezes arrasta consigo tiras da epiderme da coluna as quais ficam encaracoladas ou fazendo arco, ficando o mericarpo agarrado na extremidade quando as sementes são ejetadas para fora dele.


À primeira vista Geranium rotundifolium pode ser confundido com Geranium molle. Ambas as espécies se distinguem por vários fatores mas o principal é a morfologia das flores cujas pétalas têm margens inteiras em G. rotundifolium e entalhadas em G. molle.
Quadro comparativo entre as flores de Geranium molle - à esquerda e Geranium rotundifolium à direita
Fonte: Flora-on
Foto de Geranium molle - Ana Julia Pereira
Foto de Geranium rotundifolium -  Patricia Pinto Silva

Já constatamos que do ponto de vista terapêutico popular as espécies Geranium são muito apreciadas e Geranium rotundifolium não é exceção. Esta planta é usada pelas suas propriedades adstringentes e analgésicas.

Fotos: Serra do Calvo - Lourinhã, exceto qundo especificado

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Geranium purpureum Vill.

Nomes comuns: 
Erva-de-são-roberto;
bico-de-grou; bico-de-grou-robertino;  
erva-de-são-roque; erva-roberta; pássara

Geranium purpureum
A expansão das atividades agrícolas conta-se entre os muitos fatores associados às atividades humanas que causaram perturbação no equilíbrio dos habitats naturais. O abate intensivo de florestas, realizado ao longo de milénios, levou ao declínio populacional de algumas espécies vegetais. Em contrapartida, outras espécies tiraram partido da situação e aumentaram as suas populações de forma significativa tendo-se adaptado a ambientes mais ou menos artificializados pela ação humana. Essas espécies denominam-se ruderais (do latim ruder = cascalho) e caracterizam-se por uma grande diversidade florística. 
Echium plantagineum
Flores de todas as cores e morfologias sucedem-se ao longo do ano, alegrando pequenos e grandes espaços e servindo de alimento a muitas espécies de insetos; muitas delas são aromáticas, outras já se tornaram indispensáveis na farmácia do povo. 
Dittrichia viscosa
Crescem em zonas rurais ou suburbanas de preferência em cascalheiras, montes de entulho, campos baldios, fendas de muros e beiras de caminhos. O tipo de solo é-lhes geralmente indiferente mas procuram espaços enriquecidos em matéria orgânica. Não é que sejam gulosas, embora da fama não se livrem. 
Papaver rhoeas
Mas a verdade é que elas necessitam do suprimento nutricional adequado  ao seu curto ciclo de vida, tendo não só  a obrigação de crescer rapidamente mas também desenvolver flores, frutos e sementes férteis, tudo no espaço de uma estação.
Geranium purpureum
Contudo nem todas as plantas que vemos a crescer em meios antropogénicos são estritamente ruderais, podendo encontrar-se também em ambientes mais naturais. É o caso de Geranium purpureum uma espécie silvestre que também é nitrófila e ruderal. É fácil encontrá-la na vizinhança das populações rurais, especialmente em espaços por onde transitam humanos e gado mas também em matagais, pinhais, sebes, taludes, na orla dos bosques ou sob coberto das árvores pois aprecia os locais sombreados mas não demasiado secos. Esta espécie é nativa do norte de África, sudoeste asiático e continente europeu, com especial incidência na região mediterrânica. E uma espécie autóctone muito comum em quase todo o território de Portugal continental assim como no arquipélago da Madeira. Também existe em algumas ilhas do arquipélago dos Açores, onde se naturalizou.
Pertence ao género Geranium o qual se inclui na família Geraniaceae que, como já AQUI vimos, são grupos cheios de interesse. 
Geranium purpureum é uma pequena planta herbácea cuja altura varia entre os 10 ou 35 cm de altura. O seu ciclo de vida é anual e inicia-se no outono com a germinação das sementes, florescendo e frutificando de março a agosto do ano seguinte. Exala um forte odor que para alguns é agradavelmente aromático, para outros nem por isso, contudo não deixa de ser muito característico.
Os caules são delgados, avermelhados e de seção cilíndrica; podem ser eretos, ascendentes ou mesmo prostrados e estão cobertos de pelos glandulares e não glandulares, sobretudo na parte superior; são ramificados desde a base e formam pequenas moitas.
As folhas, com pelos em ambas as páginas, colocam-se nos caules de forma oposta, ligando-se a eles através de longos pecíolos.
Apresentam limbo de contorno triangular ou pentagonal, profundamente dividido em 3 a 5 segmentos que por sua vez se subdividem em segmentos secundários oblongos. 
As estipulas, de forma ovada, são glabras embora providas de pelos finos nas margens.
Tal como acontece com os caules, as folhas podem tornam-se avermelhadas, podendo apresentar vários tons de verde e vermelho, em simultâneo. O nome específico purpureum refere-se precisamente à coloração vermelha das folhas e caules.
As pequeníssimas e delicadas flores surgem aos pares nas axilas das folhas superiores, no topo de pedúnculos longos e peludos, com pequenas bractéolas avermelhadas na base.
Cada corola é formada por 5 pétalas inteiras e de cor rosa-malva, com veios mais escuros, possivelmente linhas que conduzem os insetos polinizadores às bolsas de néctar, localizadas na base de cada pétala. 
O cálice é composto por 5 sépalas estreitamente lanceoladas e mais curtas que as pétalas, com pelos glandulares densos e margens escariosas, firmes e translucidas. 
Existem órgãos femininos e masculinos em cada uma destas flores. Os estames são 10, todos férteis e fornecem pólen amarelo a partir de anteras também amarelas. O ovário é formado pela união de 5 carpelos e dele emerge um estigma que se divide em 5 braços filiformes de cor rosa ou purpura.
A polinização é feita por insetos mas à semelhança de outras espécies do mesmo género (e.g. Geranium molle  e Geranium dissectum  ) o Geranium purpureum é autocompativel, ou seja, está preparado para complementar a fertilização através da  autopolinização, assegurando a produção de sementes viáveis, quer receba a vista dos insetos, quer não. Planta prevenida...
O fruto de Geranium purpureum é formado por 5 mericarpos independentes, unidos por fibras denominadas aristas, a uma coluna alongada (em forma de bico de ave) a qual é formada pelo conjunto do estilete e estigma que se alongam e continuam a crescer até à maturação completa.
A dispersão das sementes das espécies do género Geranium é feita por expulsão violenta, como já vimos anteriormente. Tal acontece devido às propriedades higroscópicas das aristas (fibras que seguram os frutos). À medida que vão ficando desidratadas e distorcidas as aristas acumulam tensão semelhante à de um elástico esticado, de modo que, chegado o momento da rutura, se dobram repentinamente, catapultando as sementes a considerável distância da planta-mãe. Contudo, existem algumas diferenças de espécie para espécie na forma como este processo se desenrola. É como se cada uma delas necessitasse de impor alguma da sua personalidade própria, individualizando um processo demasiado uniforme e previsivel.
No caso de Geranium purpureum as sementes são catapultadas não só com  a membrana do mericarpo que as envolve, num processo semelhante ao de Geranium molle, mas também com  dois fios finos. Não se sabe exatamente para que servem estes fios mas possivelmente será para se agarrarem a qualquer outra planta, ferrramenta muito útil no caso de terrenos muito inclinados.
Semente de G.robertianum agarrada à arista e aos dois fios que lhe servem de freio, situação semelhante à de G.purpureum
Fonte
De notar que Geranium purpureum é muito semelhante a outra espécie do mesmo género Geranium robertianum L. com a qual pode facilmente ser confundida. Ambas as espécies têm características morfológicas muito semelhantes a olho nu e convivem nos mesmos habitats.
A principal diferença está no facto de que todas as partes de G.purpureum são mais pequenas que as de G. robertianum, especialmente no que diz respeito ao tamanho da flor. Outra diferença facilmente detetável é a cor das anteras que são amarelas no Geranium purpureum e laranja escuro no Geranium robertianum.

A- flor de Geranium purpureum
B- flor de Geranium robertianum

Por Yeo, 1973
Fonte - Pavol Elias Jun.Dept of Botany, Slovak University of Agriculture


Devido à sua semelhança morfológica há quem considere que G.purpureum e G. robertianum são subespécies ou híbridos, contudo para a maioria dos cientistas não restam duvidas de que se trata de espécies diferentes. Algumas das diferenças estão registadas neste quadro:
Fonte - Pavol Elias Jun.Dept of Botany, Slovak University of Agriculture

À esquerda - semente de Geranium purpureum
À direita - semente de Geranium robertianum
Fonte
O forte e característico odor exalado pela planta deve-se aos componentes que entram na sua composição química, com referência especial para os taninos. Estes metabólitos secundários dão-lhe o sabor amargo mas também lhe conferem  as suas propriedades terapêuticas, sendo usada pelas populações em infusões e cataplasmas,  há centenas de anos. Diz o povo que tem propriedades anti-inflamatórias, antibacterianas, antidiarreicas, anticancerígenas, entre outras e que é especialmente eficaz como purificadora do sangue e do fígado. 
A utilização de certas plantas como medicamentos é praticamente tão antiga como a espécie humana e está mais do que provado que as espécies vegetais continuam a ter grandes potencialidades farmacêuticas. Mas, como em tudo, é necessário observar certas regras e seguir os conselhos de quem tem os conhecimentos necessários. Se resolver fazer a recolha pessoalmente certifique-se que identificou corretamente a planta e que nenhuma outra vem misturada. Por outro lado informe-se sobre quais são as partes da planta que deve usar e qual a forma correta de o fazer.

Fotos: Serra do Calvo e Caniçal/Lourinhã exceto quando especificado

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Geranium dissectum L.

Nomes comuns: Bico-de-pomba, coentrinho

Geranium dissectum é mais uma mimosa herbácea do género Geranium o qual se inclui na família Geraniaceae (Veja informações sobre este género e família AQUI). 
Esta é uma espécie anual, que rapidamente esgota o seu ciclo de vida. Mas quase não se dá por isso; embora definhe com o verão, logo ressurge com as primeiras chuvas de outono, recomeçando a partir de semente e trabalhando arduamente até voltar a dar fruto, num circulo continuo de esperança.
Geranium dissectum é nativa da Europa (exceto o extremo norte), Macaronésia, noroeste de África, Médio Oriente e também sudoeste e centro asiático. Encontra-se como espécie introduzida e naturalizada no continente americano (norte e sul), Japão, Austrália e Hawai.
É frequente em quase todas as regiões do nosso território, sendo uma espécie autóctone de Portugal continental e do arquipélago da Madeira. Foi introduzida nos Açores, onde se está naturalizada.
Esta planta raramente é encontrada em pastagens ricas, parecendo preferir áreas abrigadas, pouco ervadas e onde o solo é fofo por ter sido recentemente remexido ou de alguma forma perturbado, nomeadamente na beira de caminhos, orla dos bosques, campos cultivados ou baldios. Gosta de terrenos húmidos mas tolera o solo moderadamente seco e pedregoso, desde que seja rico em nutrientes. 
Curiosamente estas plantas não são consumidas pelo gado pois são ricas em metabólitos secundários (taninos) que atuam como defensores contra o ataque de herbívoros, tornando o seu sabor desagradável. O tanino é antisetico, altamente adstringente e tónico, pelo que toda esta planta, sobretudo a raíz, é muito usada em medicina alternativa, no tratamento de um um amplo leque de distúrbios alimentares. Também é útil no tratamento de feridas e inflamações. Recomenda-se que a colheita das plantas seja feita durante a sua floração não só para evitar confusões com espécies parecidas mas principalmente porque o teor em tanino é maior. Por esta mesma razão a recolha de folhas e sementes deve ser realizada antes da maturação dos frutos. Após a colheita devem ser colocadas a secar em lugar fresco e escuro e depois usadas em chás e infusões. Nunca é demais salientar que a ingestão de qualquer planta deve ser feita sob aconselhamento de quem tem os conhecimentos necessários. Existe a crença que “por ser natural, não pode haver mal” mas não esqueçamos que todas as plantas têm alguma dose de toxicidade.
Em redor da raiz principal, geralmente muito longa, surgem caules simples ou múltiplos formando uma espécie de roseta e que podem ir dos 10 aos 50 cm de comprimento nas plantas adultas.
Os caules ramificam-se  a partir da base ou dos nós, têm aparência robusta e podem ser eretos ou ascendentes, desenvolvendo primeiro uma pequena extensão no sentido horizontal, encurvando-se depois até assumirem uma postura quase vertical; são densamente pubescentes estando cobertos por pelos fracos e densos, não glandulares.
As folhas, cobertas de pelos curtos, apresentam contorno circular e nervuras bem marcadas que irradiam de um ponto central. São profundamente recortadas formando 5 lóbulos estreitos e irregulares que por sua vez também são recortados na metade superior. Aliás, o nome especifico dissectum, identificativo desta espécie, deriva da união do prefixo grego dis (= 2) com o termo latino sectus (= fenda ou fissura), numa clara referência aos recortes das suas folhas, primariamente divididas em 5 segmentos e depois subdivididas. (Jaeger 80,234).  
As primeiras folhas aparecem isoladas na extremidade de longos pecíolos dispondo-se alternadamente em espiral; as folhas caulinares dispõem-se de forma oposta e não só são mais pequenas que as basais mas também têm pecíolos mais curtos; na sua base existem 2 estipulas, de forma triangular e tingidas de vermelho.
NOTA:
Apenas cerca de um terço das angiospermas (plantas com flor/fruto, o maior e mais moderno grupo de plantas, englobando cerca de 230 mil espécies) possuem estipulas. Estas aparecem aos pares e variam de espécie para espécie, em tamanho e morfologia; podem ser estruturas laminares, glândulas, pelos, espinhos ou escamas; algumas são caducas e outras são perenes; por vezes são insignificantes, outras vezes são de tal forma desenvolvidas que se confundem com verdadeiras folhas, ajudando no processo da fotossíntese; podem transformar-se em gavinhas, para ajudar no crescimento vertical da planta ou em espinhos, como forma de reduzir a predação por vertebrados herbívoros; em muitas espécies as estipulas são pequenas e residuais, sem nenhuma função óbvia; noutras espécies evoluíram para nectários extraflorais atraindo formigas (com as quais estabelecem interações mutualistas, de que beneficiam tanto as plantas como as formigas).
A função primitiva das estipulas permanece algo obscura e a maioria das angiospermas que não as tem, não parece sentir-lhes a falta. Contudo, a ausência destas estruturas é tão importante como a sua presença, pois é um fator fundamental na identificação das espécies.
As flores de Geranium dissectum despontam geralmente aos pares na extremidade de um pedúnculo longo que parte das axilas das folhas e que se divide em dois pedicelos curtos, um para cada flor e os quais estão densamente cobertos de pelos glandulares.
São flores diminutas, mas muito bonitas na sua simplicidade; quase parecem tímidas mas curiosas, pela forma como se escondem e ficam a espreitar por entre a densa folhagem musgosa. Sem prejuízo do prazer que retiramos da sua presença no campo ou em algum recanto abandonado na cidade, devo dizer que qualquer das espécies silvestres de Geranium  tem lugar num jardim, seja qual for o seu estilo. Podem ser-nos muito úteis se as usarmos como cobertura de solo, preenchendo espaços que de outra forma ficam à mercê de ervas não desejadas. A verdade é que quando planeamos os nossos canteiros geralmente damos toda a importância às espécies de flores e arbustos que lhe podem dar visibilidade e esquecemo-nos do solo que por vezes tanto trabalho nos dá a mondar. As plantas de cobertura estão a ser cada vez mais utilizadas pois não só nos permitem poupança de esforço na luta contra as ervas indesejadas mas também fornecem sombra ao solo, mantendo a humidade, protegendo-o da erosão e propiciando a reciclagem dos nutrientes.
As flores de Geranium dissectum apresentam 5 pétalas de cor rosada em cuja base existem glândulas nectaríferas; o ápice de cada pétala é ligeiramente chanfrado, embora não tão profundamente como na Geranium molle
As 5 sépalas são eretas, de forma elíptica, livres e agudas; os pelos interiores são simples e os exteriores estão providos de glândulas. No caso desta e outras espécies do género Geranium as sépalas não se limitam a proteger o botão floral; elas permanecem para proteger também o fruto até à maturação. Isto é, as sépalas abrem quando as pétalas se expandem na ântese mas quando estas terminam a sua função e definham, as sépalas fecham-se de novo sobre os frutos em formação, para voltar a abrir quando as sementes engrossam e ficam até estas amadurecerem por completo. 
Inicialmente as sépalas apresentam tamanho semelhante ao das pétalas mas continuam a crescer até à maturação dos frutos.
Foto Wikipedia by Fornax
Cada flor apresenta órgãos reprodutores masculinos e femininos. Os órgãos masculinos são constituídos por 10 estames todos férteis, dispostos em duas séries; as anteras, geralmente de cor azul-violeta, produzem pólen de um tom azulado.
Entre os estames podem ver-se os cinco braços estigmáticos (correspondentes aos 5 carpelos que constituem o ovário), de linda cor purpura e cuja estrutura tem a consistência apropriada para recolher os grãos de pólen; estes serão de imediato encaminhados para o ovário, através do tubo denominado estilete, por forma a permitir que os óvulos aí presentes sejam fecundados. O ovário de Geranium dissectum, tal como acontece com as outras espécies do género, é formado por 5 carpelos que vão dar origem a um fruto com 5 mericarpos, cada um com a sua semente, os quais crescem e se desenvolvem em redor do estilete. 
O estilete cresce continuamente até à maturação, expandindo-se e transformando-se numa estrutura colunar semelhante a um bico de pássaro.
As flores de Geranium dissectum florescem e frutificam de março a julho ou agosto, dependendo da disponibilidade de água no solo. Apesar da oferta de néctar, numa tentativa de atrair polinizadores, existe o risco de não se registarem suficientes visitas de insetos. É que estas plantas podem passar despercebidas não só pelo tamanho diminuto das suas flores mas também pelo seu hábito rasteiro. Por outro lado a época fértil dos seus estames e pistilos coincide com uma altura do ano em que os insetos têm muito que comer, não sabendo para onde se virar com tantos banquetes à sua disposição. Desta forma, Geranium dissectum socorre-se da autopolinização, situação que é favorecida pela proximidade física de estigmas e estames, tanto mais que aqueles ficam recetivos quando as anteras dos estames ainda não derramaram todo o seu pólen.
O fruto de Geranium dissectum é constituído por um agrupamento de 5 sementes situadas na base da coluna (bico); cada semente está encerrada dentro de uma cápsula (mericarpo) que está ligada à coluna através de uma haste denominada arista que, ao expulsar as sementes fica arqueada, em forma de vírgula. Inicialmente a arista faz parte da estrutura da coluna mas gradualmente vai-se separando.
A parte interessante acontece quando as sementinhas ficam maduras e têm de deixar o aconchego da casa materna para ficarem por sua conta e risco. Tendo em conta que o objetivo de cada planta é a perpetuação da sua espécie, não só a produção de sementes é importante como também a estratégia para a sua dispersão tem de ser bem pensada para ser apropriada e eficaz. As espécies Geraniaceae, geralmente de baixa envergadura, adotaram um sistema de dispersão muito interessante que catapulta as sementes a distâncias consideráveis, numa tentativa de expandir o seu território mas evitando a concorrência direta com as suas vizinhas da mesma espécie.
Existem pequenas diferenças, de espécie para espécie, na forma como a dispersão é realizada mas basicamente todos os processos têm a ver com as propriedades higroscópicas da camada interior das aristas (segmentos que ligam os mericarpos à coluna) que, ao ficarem desidratadas, vão criando tensão semelhante à de um elástico esticado. Chegado o momento da rutura as aristas dobram ou torcem repentinamente, arremessando as sementes de forma violenta.
Esquema 1 - Fonte
a) mericarpo posicionado em angulo reto aguardando o momento de catapultar a semente
b) posição pós-expulsão da semente
c) o involucro do mericarpo ainda ligado à arista e à coluna
d) semente
Há um pormenor interessante a considerar, ou seja, estando as sementes encerradas no mericarpo, em que momento se abrem “as portas” para que as sementes possam ser expelidas, sem que escapem antes de tempo?
Esquema 2 - Fonte
É preciso recordar que os mericarpos correspondem aos carpelos e que os mesmos são folhas modificadas dobradas sobre si mesmas. Uma vez que as bordas estão viradas para o interior, esta cápsula só abre para dentro e assim sendo, é legítimo pensar que quando o mericarpo explode violentamente, não resta outra opção à sementinha que não seja a de embater violentamente contra a parede. A verdade é tal não acontece porque esta dificuldade foi prevista pelas espécies Geranium e é superada de formas diferentes consoante as espécies. 
Fonte Flora-on
Foto de Ana Júlia Pereira, mostrando invólucros e aristas presos à coluna, após a expulsão das sementes

No caso de Geranium dissectum o que acontece é o seguinte: algum tempo antes da deiscência os mericarpos posicionam-se em ângulo reto em relação à coluna central; entretanto as bordas do mericarpo separam-se mas logo surge uma franja de pelos suficientemente fortes para segurar as sementes no seu lugar mas sobejamente elásticos para permitir-lhes escapar quando se der a “explosão”. Após a expulsão, as aristas e invólucros dos mericarpos ficam ligados à coluna, enrolando-se para cima mas ficando presos pelas extremidades superiores.
Assim, enquanto no Geranium molle os mericarpos são ejetados de forma completa (com invólucro do mericarpo, semente e arista), no caso de Geranium dissectum apenas as sementes são catapultadas.

NOTA:
As espécies silvestres do género Geranium são por vezes muito semelhantes sendo fácil confundi-las. Existem, no entanto, algumas características que permitem a sua identificação. Geranium molle e Geranium dissectum são as duas espécies mais comuns no nosso território. Apesar de G. dissectum apresentar folhas com segmentos mais estreitos do que G. molle, nem sempre é seguro diferencia-las pela folhagem pois existe grande variabilidade. A forma mais fiável é através dos pelos das sepalas que em G. dissectum são todos curtos e em G. molle existem dois tipos de pelos de tamanhos diferentes, como podemos observar no seguinte quadro comparativo da Flora-on:

Fotos de Ana Júlia Pereira
Fotos: Serra do Calvo/Lourinhã exceto quando especificado