"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





terça-feira, 6 de junho de 2017

Scrophularia scorodonia L.

Nomes vulgares:
Escrofulária; erva-do-mau-olhado; japão; trolha

Scrophularia scorodonia var. scorodonia
Foto de Javier Martin
Fonte: Wikimedia commons
Scrophularia scorodonia, muitas vezes apelidada de erva-do-mau olhado, já não consta das listas de plantas modernamente “prescritas” como antídoto para invejas, energias negativas e quejandos. Como diz o povo, “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” e até as ervas especializadas em quebrar feitiços podem ser vítimas da modernidade. Também não há duvida que esta planta - em tempos idos, muito usada em fitoterapia tradicional por lhe serem atribuídas propriedades vulnerárias e anti-inflamatórias - passou de moda, tal como tem acontecido a tantas outras que foram caindo no esquecimento. Apesar das suas belas folhas de um tom verde musgoso, facilmente passa despercebida no meio de outras porque as suas flores, apesar de muito interessantes, são pequenas e pouco compactas. Não é, pois, uma planta que se destaque e isso paga-se em falta de popularidade.
Scrophularia scorodonia var. scorodonia - hábito
Scrophularia scorodonia é uma herbácea perene e rizomatosa que vive em habitats húmidos, em situação de pleno sol ou meia sombra, nomeadamente na orla dos bosques, nas margens de rios e ribeiros ou em valas de escoamento de águas da chuva. Não é uma espécie seletiva quanto às condições edáficas e embora mostre alguma preferência por solos moderadamente enriquecidos com nitrogénio não está presente em solos muito fertilizados. 
Scrophularia scorodonia var. scorodonia
É uma espécie essencialmente de climas temperados. A sua distribuição natural estende-se pela Europa atlântica, nomeadamente Sul da Grã-Bretanha, Oeste de França, Espanha,  Portugal (incluindo as ilhas) e também noroeste de Marrocos.
No que diz respeito à Península Ibérica esta espécie apresenta duas formas com caracteres morfológicos bem definidos. São classificadas como variedades por serem variações insuficientes para serem consideradas subespécies. Assim, temos: 
1- var. scorodonia:  
Esta é a variedade mais comum. É nativa de todo o território nacional desde o continente até aos arquipélagos de Madeira e Açores. Esta variedade Integra plantas claramente pubescentes à primeira vista. Os caules, a página inferior das folhas e os pecíolos são densamente pubescentes, com pelos patentes (inseridos segundo um angulo de cerca de 90 graus com o eixo). 
2- var. glabrescens: 
Esta variedade só pode ser encontrada no sudoeste da Península Ibérica onde é endémica. Caracteriza-se pela ausência de pubescência, à primeira vista. Contudo, ao serem observadas ao microscópio nota-se-lhes uma pubescência rala e inconspícua de pelos muito curtos. No que diz respeito a Portugal, a Flora Iberica regista a presença desta variedade no Alentejo e Estremadura.

NOTA:
Não devemos confundir os termos “variedade” e “cultivar” os quais, botanicamente falando, não são sinónimos.
Variedade (var.) é um grau dentro da escala taxonómica e que se situa abaixo de espécie. 
Cultivar, sendo usado como substantivo, refere-se a uma variedade híbrida obtida mediante cultivo (do inglês, contração das palavras cultivated + variety).

Scrophularia scorodonia var. scorodonia:
Distribuição em Portugal continental de Scrophularia scorodonia var . scorodonia
Fonte: Flora Digital de Portugal
Jardim Botanico da UTAD
Scrophularia scorodonia var. scorodonia tem caules ascendentes ou eretos, de seção quadrangular, pouco ramificados e densamente pubescentes. O seu crescimento varia entre os 25 e os 150 cm de altura.
Scrophularia scorodonia var. scorodonia - caule
Foto de 
Kriss de Niort
Fonte
As folhas dispõem-se nos caules de forma oposta, aos quais se ligam por pecíolos curtos, embora mais compridos nas folhas inferiores que nas superiores.
Scrophularia scorodonia var. scorodonia - folhas
As folhas são inteiras, com limbo rugoso de cor verde-escuro, de forma ovado-lanceolada ou triangular-lanceolada, com ápice agudo e a base em forma de coração. As margens são duplamente recortadas, geralmente crenadas. As nervuras são muito marcadas e distribuem-se no limbo de forma muito abundante e reticulada, ou seja, cruzando-se umas sobre as outras. A página superior das folhas pode ser glabra ou escassamente pubescente mas a página inferior apresenta pelos longos e bastos, sobretudo ao longo das nervuras.
Scrophularia scorodonia var. scorodonia
As flores dispõem-se em inflorescências que crescem na axila de brácteas foliáceas. As inflorescências estão bem apartadas umas das outras e são do tipo cimeira, situação em que o eixo principal ou pedúnculo é de crescimento limitado terminando numa flor. Neste caso temos cimeiras bíparas ou dicásios pois abaixo da flor terminal, nas axilas das duas bractéolas subjacentes e que ultrapassam em crescimento o eixo principal desenvolvem-se dois eixos laterais opostos que também terminam numa flor. Este padrão repete-se nos eixos inferiores laterais, formando dicásios compostos. As primeiras flores a abrir são as que se encontram no topo da inflorescência.
Os pelos que cobrem os pedúnculos são finos, curtos, por vezes ligeiramente mais longos e cerdosos.
As brácteas assemelham-se às folhas e são mais compridas que os pedúnculos.
As bractéolas, com cerca de 1 cm, são linear-lanceoladas, densamente pubescentes ou hispidas, glandulosas, muito mais curtas que as cimeiras.
Scrophularia scorodonia var. scorodonia

Emergindo do interior da flor é bem visível o estigma, ansiando pela fertilização.

As flores são pequenas e fazem lembrar um animalzinho curioso e atrevido. 
A corola é composta por 5 pétalas orbiculares com as margens membranáceas, firmes e translucidas que se unem formando um tubo curto e globoso. Este abre-se para o exterior de forma peculiar: duas pétalas de cor purpura, separadas apenas na parte superior, formam o chamado lábio superior e erguem-se como se fossem duas orelhas arrebitadas; as restantes pétalas, de cor purpúreo-esverdeadas, estão dobradas para baixo deixando bem à vista os órgãos reprodutores. 
Scrophularia scorodonia var. scorodonia
As flores apresentam órgãos de reprodução masculinos e femininos e são polinizadas por insetos que recolhem o néctar segregado numa estrutura em forma de anel situada na base da corola aberta, entre o androceu e o gineceu.
Scrophularia scorodonia var. scorodonia
Para impedir a fertilização pelo seu próprio pólen estas flores socorrem-se de uma estratégia que consiste na separação temporal entre as funções masculinas e femininas. Mais especificamente, os órgãos sexuais femininos são os primeiros a amadurecer e a entrarem em atividade. Só quando estes deixam de estar recetivos é que é libertado o pólen.
O androceu consta de 4 estames férteis com anteras amarelas e ainda um estaminódio bem visível na abertura da corola, unido às pétalas do lábio superior e cuja estrutura é ligeiramente mais larga que comprida, arredondada ou elíptica, escamosa e esverdeada, podendo tornar-se avermelhada. O estaminódio é uma estrutura vestigial de um estame que por uma qual quer razão, perdeu a sua função original de produzir pólen.
Scrophularia scorodonia var. scorodonia
Embora cerca de 30% dos géneros da família Scrophulariaceae (a que pertence Scrophularia scorodonia) possua estaminódios ainda não foi possível determinar o padrão evolutivo destas estruturas que, dependendo das espécies, podem ser pequenos, grandes ou enormes. É provável que as espécies que possuem estaminódios de menor tamanho os venham a perder, estando eles condenados a desaparecer no seu processo de evolução. Contudo, parece que os estaminódios de maior tamanho estão a assumir novas funções. Ao contrário do que se podia pensar, não prejudicam a coleta de néctar nem alteram o tempo de visita do inseto polinizador, podendo até ser benéficos, atuando como barreira à entrada de chuva e evitando uma possível diluição do néctar. Além disso, uma vez que o seu posicionamento e tamanho permitem a sua visualização do exterior, passaram a ser mais um ponto de interesse e de atração para os polinizadores, aumentando o seu número de visitas e elevando o êxito reprodutivo da flor com a consequente incremento na produção de sementes. A dúvida que ainda permanece é se este órgão adquiriu uma nova função ou se está em processo de desaparecimento.

O gineceu consiste num único pistilo dividido em 2 carpelos, um único estilete e um ovário superior com 2 lóculos.
Scrophularia scorodonia var. scorodonia
Pormenor do 
cálice.
O cálice é composto por 5 sépalas ovais, de cor verde-claro, mais ou menos peludas e com a margem membranácea, inteiras ou ligeira e irregularmente dentadas.

A planta floresce e frutifica de março a junho ou julho.
O fruto é uma cápsula ovóide, mais comprida que o cálice dentro da qual existem numerosas e pequeníssimas sementes de cor escura.

Scrophularia scorodonia pertence ao género Scrophularia que engloba cerca de 200 espécies (Fischer 2004) e é um dos géneros mais importantes da família Scrophulariaceae. Distribui-se pelas zonas temperadas dos dois hemisférios, com maior concentração de espécies no sudoeste asiático. Muitas das espécies incluídas  em Scrophularia contêm propriedades medicinais e como tal, foram usadas durante séculos para combater diversas patologias como a sarna, eczema, psoríase, ulceras da pele e principalmente a escrófula (inflamação dos gânglios linfáticos do pescoço, associada à tuberculose) nome que, a partir do correspondente termo em latim “scrofula”, deu origem à designação do género e da respetiva família.
Muitas das espécies de Scrophularia são usadas como alimento pelas larvas de algumas Lepidoptera. Não raramente, este tipo de borboletas restringe a sua alimentação a um único tipo de planta, pelo que o seu desaparecimento de uma determinada área trará consequências graves para a sobrevivência das espécies que dela se alimentam. 

A família Scrophulariaceae foi recentemente reorganizada, tendo perdido muito dos seus membros. Numerosos estudos de filogenia (relação evolutiva entre as espécies) com dados moleculares demonstraram que determinados géneros não tinham afinidade genética com esta família, pelo que foram transferidos para outras, principalmente Plantaginaceae e Orobanchaceae. Tradicionalmente, esta família agrupava 5000 espécies divididas em 275 géneros. Consideravelmente emagrecida após o reajuste, a família Scrophulariaceae tem agora 65 géneros que totalizam aproximadamente 1700 espécies, com distribuição mundial. A importância económica desta família reside principalmente na indústria de plantas ornamentais.

Fotos do blogue: Zambujeira e Areia Branca /Lourinhã





quinta-feira, 11 de maio de 2017

Convolvulus tricolor L. subsp. tricolor

Convolvulus tricolor subsp. tricolor
Corriola e gloria-da-manhã são nomes populares que referenciam algumas espécies de grupos taxonómicos diferentes, mas todas incluídas na família Convolvulaceae. Em território português esta família é representada por 6 géneros, entre os quais Convolvulus, Calystegia (que são autóctones) e Ipomoea (espécies exóticas).
São plantas sobejamente conhecidas e facilmente identificáveis pelas suas características flores em forma de trombeta, quer vestidas de branco, rosa, azul ou violeta, extremamente atrativas para diversos tipos de insetos essenciais à sua reprodução. São também denominadas bons-dias, campanelas, verdizelas ou madrugadas, entre outros nomes partilhados pela maioria destas espécies.
Convolvulus tricolor subsp. tricolor
Fazendo jus aos seus apelidos populares, as flores de muitas destas espécies abrem antes do nascer do dia, aproveitando ao máximo a hora a que os insetos mais madrugadores já andam a procurar alimento. Contudo, a vida destas flores é muito breve pois murcham durante a tarde. Esta situação não é invulgar. Existem plantas cujas flores apenas ficam abertas durante alguns minutos (como é ocaso da hera, Hedera hélix); em contrapartida, outras há que duram mais de 10 dias. Cada caso é um caso e todas as situações têm uma razão. No caso presente parece que não se trata de uma mera programação genética. Alguns estudos sugerem que o tempo de abertura destas flores depende do tempo que levam a ser polinizadas. A rápida polinização resulta num emurchecimento mais rápido das pétalas, o que pode ser uma estratégia comportamental adaptativa para reduzir custos de energia decorrentes da manutenção das peças florais. Uma vez terminada a sua missão de atrair os polinizadores, deixaram de ser necessárias. 
Um dos suportes desta teoria reside no facto de flores ainda não polinizadas ficarem abertas durante mais tempo do que as já fecundadas, o que aumenta as probabilidades de uma polinização bem sucedida. Desta forma, a planta canaliza estas poupanças de energia na produção de mais flores, o que na realidade acontece de forma continuada durante todo o seu período de floração.
Convolvulus tricolor subsp. tricolor
A bela Convolvulus tricolor é uma destas espécies. Floresce por esta altura do ano, mais especificamente de março a junho, de preferência em terrenos secos e argilosos, em campos de cultivo, valas e bermas de caminho, pastagens e prados. 
Convolvulus arvensis - Veja mais AQUI

Convolvulus althaeoides - Veja mais AQUI

Ao contrário de outras espécies do mesmo género (Convolvulus arvensis ou Convolvulus althaeoides) que tantas vezes convivem nos mesmos habitats, esta não é uma espécie invasora. 
Cultivada em jardins pode acrescentar muito interesse como planta anual, desde que cultivada em pleno sol. O alegre colorido das suas corolas e os longos caules prostrados tornam-na especialmente indicada para cestos suspensos, jardins de rocha e bordaduras, onde o seu efeito pode ser verdadeiramente deslumbrante. 
Apesar de lhe faltarem os ímpetos invasores o seu cultivo generalizado como ornamental teve como consequência a naturalização fora das fronteiras de difusão natural da espécie, o que ocasionalmente torna difícil delimita-las com precisão.

Distinguem-se duas subespécies:
- Convolvulus tricolor subsp. tricolor que se  distribui sobretudo pela região mediterrânica: Portugal, Espanha, França, Itália, Grécia, Marrocos e Argélia. É cultivada como adventícia na Turquia, Creta, Líbano, Medio oriente e Paquistão.
- Convolvulus tricolor subsp. cuprianus que se distribui pelo mediterrâneo central: Malta, Sicília, Marrocos, Argélia e Tunísia.
Estas duas subespécies diferenciam-se pelas sépalas do cálice que na subespécie tricolor se dividem em duas partes dissemelhantes, ao contrário do que acontece na subespécie cuprianus.
As plantas ibéricas correspondem à subespécie tricolor que em Portugal cresce de forma espontânea no Algarve, Baixo Alentejo, Beira Litoral, Estremadura, Ribatejo e Trás-os-Montes e também no arquipélago da Madeira.
Convolvulus tricolor subsp. tricolor
Convolvulus tricolor subsp. tricolor é uma herbácea, de hábito prostrado ou ascendente. Os caules, de cor avermelhada, são simples ou escassamente ramificados e estão revestidos de pelos densos, particularmente na parte superior. 
Convolvulus tricolor subsp. tricolor- caule
Estas plantas são anuais ou raramente, perenes de vida curta. Muitas vezes iniciam o seu ciclo de vida no Outono através da formação de uma roseta de folhas ao nível do solo. No final do Inverno regista-se um rápido alongamento dos caules e internós da roseta, de modo que os caules se esticam até aos 45 ou 50 cm de comprimento. Após a floração e uma vez maduros todos os frutos, os caules secam e morrem. Entretanto, na base da planta podem formar-se rebentos que darão origem a uma nova roseta de folhas que se tornará visível no outono seguinte. Neste tipo de crescimento a roseta de folhas protege as gemas de renovo do vento, do sol, do frio e dos herbívoros e está perfeitamente adaptado ao tipo de clima mediterrânico caracterizado pelos verões quentes, secos e ventosos e os invernos frios e chuvosos.
Convolvulus tricolor subsp. tricolor - folhas superiores
Na ausência de pecíolo, as folhas inserem-se nos caules diretamente pela base do limbo, de forma atenuada; são inteiras, com nervuras bem vincadas, glabras ou pubescentes, com pelos mais compridos nas margens. Forma e tamanho do limbo variam ligeiramente entre as folhas inferiores que são espatuladas ou oblanceoladas com um pequeno chanfro a meio do ápice e as superiores que são espatuladas ou oblongas com ápice obtuso.
Convolvulus tricolor subsp. tricolor
As flores têm corolas azuis com o centro em tons de branco e amarelo. Crescem solitárias no topo de longos pedúnculos eretos que emergem da axila das folhas superiores os quais apresentam 2 bractéolas de forma linear. Estes pedúnculos são eretos durante a floração mas encurvam durante a frutificação, não só pelo peso acrescido do fruto mas também porque continuam a crescer e se tornam um pouco mais longos.
Convolvulus tricolor subsp. tricolor - Bractéolas e cálice
Convolvulus tricolor subsp. tricolor - Cálice
O cálice é mais ou menos acampanulado, com as 5 sépalas diferenciadas em duas partes morfologicamente diferentes. A inferior tem forma oblonga, convexa e é ligeiramente coriácea durante a floração. A parte superior é mais curta, amplamente ovada e as extremidades herbáceas terminam de forma aguda e ligeiramente curva. O crescimento do cálice prossegue mesmo depois da fecundação e até o fruto atingir a maturação.
Convolvulus tricolor subsp. tricolor - flor aberta e flores enroladas em botão
A corola é afunilada e em forma de trombeta, morfologia que resulta da fusão das 5 pétalas que a constituem. Quando a flor ainda está em botão, as peças florais (sépalas e pétalas) apresentam-se dobradas umas sobre as outras de forma contorcida ou espiralada, parecendo um guarda-chuva bem enrolado. 
Convolvulus tricolor subsp. tricolor - pétalas vincadas pelo enrolamento apertado
Curiosamente, quando as flores abrem, as pétalas apresentam vincos nos pontos onde estavam dobradas. 
Convolvulus tricolor subsp. tricolor - o limbo das pétalas é reforçado por 5 nervuras
De forma característica existem 5 nervuras bem visíveis a meio do limbo de cada uma das pétalas, as quais não só reforçam a arquitetura floral como também encurvam as pétalas para fora e ajudam no processo do desenrolar da corola quando ela se abre na ântese. 
A corola apresenta 3 bandas transversais de cores bem diferenciadas, amarela na base, branca na zona intermédia e azul-violeta na parte superior. Estas bandas coloridas formam padrões visuais destinados a guiar os insetos em direção ao néctar e ao pólen, disponível no centro da flor.
  Convolvulus tricolor subsp. tricolor
Nesta foto veem-se os filetes dos estames unidos formando uma coluna, as anteras com as suas listas azuis e ainda, os dois braços do estigma emergindo de entre os estames.
Estas flores apresentam órgãos reprodutores masculinos e femininos. Os estames são 5, com filetes comprimidos formando um a coluna curta que torneia o estilete, mas deixa abertas 5 estreitas passagens que conduzem ao néctar. Assim, ao entrar na flor, o corpo do inseto toca nos estigmas, ao mesmo tempo que fica empoado de pólen. 
As anteras são lisas e brancas mas com duas linhas azuladas. 
O disco nectarífero é intrastaminal ou seja, posiciona-se em forma de anel no centro da flor, em redor do ovário e dos estames. 
O ovário é pubescente e dele desponta um estilete que se divide em dois estigmas de cor branca. 
Convolvulus tricolor subsp. tricolor
Fruto capsular em vias de maturação, envolvido pelo cálice
O fruto é uma cápsula arredondada, pubescente até à maturação e dentro da qual se encontram 4 sementes de cor muito escura.

Sob o ponto de vista taxonómico Convolvulus tricolor inclui-se na complexa família Convolvulaceae, subfamília Convolvuloideae, tribo Convolvuleae e género Convolvulus.

Convolvulaceae:
A família Convolvulaceae, inclui cerca de 1650 espécies, agrupadas em diversas subfamílias e/ou tribos e 55 géneros que se concentram em regiões de clima tropical e subtropical, com apenas 10 % das espécies nas zonas temperadas. A família apresenta aspetos morfológicos bem definidos, como as flores em forma de trombeta e outras características bem marcantes próprias de climas secos. De forma geral, são plantas eretas ou prostradas e até trepadeiras volúveis que se enrolam sobre si próprias ou nas plantas vizinhas. Foi esta característica que deu nome à família o qual deriva do latim “convolvo” ou "convolvere"= entrelaçar.
Esta família conta com muitas espécies adventícias, ou seja naturalizadas, cuja distribuição está ligada a atividades humanas de dispersão intencional. Em contrapartida, a quota de endemismos é bastante grande.
Uma das características anatómicas mais percetíveis das Convolvulaceae é a existência de células foliares e/ou radiculares que segregam resinas glicosidicas (metabolitos secundários), responsáveis pelas propriedades purgativas, analgésicas e alucinogénicas de algumas espécies desta família.

Sob o ponto de vista taxonómico Convolvulaceae não tem sofrido muitas alterações desde que foi descrita por Jussieu em Genera Plantarum, em 1789. Contudo, a capacidade que exibe na diversificação e capacidade de colonização de regiões afastadas por todo o mundo, tem suscitado o interesse dos botânicos e diversos estudos têm sido realizados nas últimas décadas. Não é, pois, de admirar que se suscitem duvidas e se proponham alterações tal como acontece com a maioria das famílias de angiospermas.

Esta família foi dividida em 3 ou 4 subfamílias que por sua vez se subdividem num numero de tribos variável, oscilando entre 3 e 12. Embora, de forma geral, tenha havido consenso no que diz respeito à relação entre estes grupos, existe ainda alguma controvérsia quanto à sua classificação taxonómica. Um dos pomos de discórdia é o grupo Cuscutoideae or Cuscutaceae, cujo único género Cuscuta (também presente em Portugal) alguns botânicos prefeririam segregar da família por serem espécies parasitas com especificidades a nível da corola e embrião.
Certos autores também discordam sobre a delimitação de alguns géneros dentro da família baseando-se nas variações do tamanho, forma ou pubescência das brácteas, sépalas, corola e pólen e também tendo em conta a forma e divisão dos estigmas e algumas características diferentes nas sementes.
Ipomoea batatas (flor da batata-doce)
Foto de H.Zell. Fonte Wikimedia commons
O maior género desta família é Ipomoea com 500 a 600 espécies, de distribuição tropical e no qual se inclui a espécie alimentar Ipomoea batatas, a nossa conhecida e apreciada batata-doce.
Na região mediterrânica e mais especificamente em Portugal, os géneros autóctones mais representativos da família Convolvulaceae são Calystegia e Convolvulus, os quais estão estreitamente relacionados. A característica mais evidente que diferencia os dois géneros reside na existência de bractéolas grandes e empoladas no género Calystegia que quase escondem as sépalas, como podemos rever em Calystegia soldanella
Calystegia soldanella. Veja mais AQUI
Convolvulus:
Estudos muito recentes estimam que o género Convolvulus inclui cerca de 200 espécies que se distribuem por todos os continentes, em regiões de clima temperado e subtropical. O seu maior centro de diversidade situa-se na área geográfica próxima ao mar Mediterrânico e Ásia Ocidental, com outros centros de diversidade na Ásia Oriental e na América do Sul temperada, no sul e no leste da África e na Australásia, ou seja, as três zonas temperadas do hemisfério sul.
É um género característico de habitats pedregosos e arenosos, essencialmente secos, desde o nível do mar até aos 3000 mt de altitude. 
Algumas espécies são invasoras e altamente prejudiciais em campos cultivados, outras são economicamente importantes no comércio das plantas ornamentais e até no ramo farmacêutico. 
Na generalidade, são espécies subcosmopolitas, mas algumas são endemismos e ocorrem em áreas muito restritas.

Convolvulus fernandesii é uma das espécies de distribuição confinada a uma determinada região. Na realidade é um endemismo português. É muito rara e a sua distribuição mundial restringe-se à Serra da Arrábida, mais especificamente ao curto espaço da costa que vai de Sesimbra ao Cabo Espichel. Floresce durante a primavera e cresce nas escarpas, entre fendas e afloramentos rochosos, em locais quase inacessíveis, razão pela qual terá passado despercebida durante séculos. Foi publicada no Boletim da Sociedade Broteriana pelo botânico português Pinto da Silva (P.Silva &Teles)  apenas em 1980.
Convolvulus fernandesii - Foto de Sérgio Chozas
Fonte Flora-on
É um arbusto perenifólio de caules volúveis e entrelaçados. Os caules mais velhos são glabrescentes e lenhosos mas as hastes mais jovens são pubescentes. As folhas são pecioladas, elípticas ou oblongo-elípticas, com o ápice arredondado ou truncado. As flores, em grupos de 3 a 6, reúnem-se em inflorescências axilares, são pedunculadas e apresentam bractéolas. As 5 pétalas são brancas e estão unidas tomando a forma afunilada característica da família e do género. As sépalas são obovadas ou elípticas com pontas curtas, agudas e rígidas.
Esta é uma espécie protegida ao abrigo do Estatuto Directiva de Habitats 92/43, como espécie prioritária do Anexo II e anexo IV.
Veja mais sobre esta espécie AQUI e AQUI.

Fotos:
Calystegia soldanella: Praia da Areia Branca/Lourinhã
Convolvulus tricolor subsp. tricolor: Zambujeira e Areia Branca/Lourinhã
Convolvulus arvensis: Serra do Calvo/Lourinhã
Convolvulus althaeoides: Arribas do Caniçal /Lourinhã



quinta-feira, 13 de abril de 2017

Genista tournefortii Spach

A tribo Genisteae

Genista tournefortii subsp. tournefortii em competição com outras espécies mediterrânicas
Entre tojos e giestas, muitas são as espécies arbustivas semelhantes que florescem nesta época do ano. As flores são do tipo papilionáceo e quase sempre amarelas. Nem sempre é fácil distinguir estas espécies pelo que, para simplificar há quem as separe em dois grupos: as que têm picos e as que os não têm. Às espinhosas, geralmente mais baixas e compactas, habituámo-nos a chamar tojos e as outras, de ramos finos e elegantes e folhas diminutas ou escassas, conhecemo-las por giestas. Porém, tal "classificação" é demasiado simplista e nem sempre corresponde à realidade. O grau de parentesco entre estas espécies é muito estreito e a sua evolução processou-se de forma tão complexa que, atendendo às suas tendências evolutivas foi necessário agrupar estas - e outras espécies relacionadas - num grupo taxonómico adicional denominado tribo, o qual se posiciona entre a subfamília e o género. Assim sendo, tojos e giestas pertencem à família Fabaceae/Leguminosae, subfamília Faboideae e tribo Genisteae mas distribuem-se por géneros diferentes: Cytisus, Ulex, Genista e mais alguns, menos representativos, como Pterospartum, Echinospartum, Stauracanthus e Retama (mencionados aqui apenas os géneros que ocorrem em Portugal). 
Genista tournefortii subsp. tournefortii
A tribo Genisteae inclui 25 géneros e cerca de 550 a 570 espécies distribuídas de forma predominante pela região mediterrânica, com dois centros de diversidade, um a oeste (Península Ibérica e Marrocos) e o segundo a leste (região balcânica). É grande a sua importância ecológica, principalmente nos países da região oeste mediterrânica onde a grande diversidade de espécies que a constituem colonizaram as florestas degradadas pelos fogos e desflorestação, tornando-se espécies dominantes e caracterizando a paisagem. 
Genista tournefortii subsp. tournefortii entre as estevas (cistus ladanifer)
As alterações climáticas e geológicas ocorridas há milhões de anos na região são causa e consequência da origem e distribuição das comunidades vegetais mediterrânicas, incluindo as identificadas em Genisteae
O cataclismo que propiciou a abertura do estreito de Gibraltar há cerca de 6 milhões de anos (permitindo a ligação do mar mediterrâneo ao oceano Atlântico), afetou a presente distribuição e  formação de diferentes espécies ibéricas e do norte de África, uma vez que, tendo constituído uma importante barreira para o fluxo de genes, pelo menos para plantas com mecanismos de dispersão de curta distancia, levou ao isolamento e à especiação por vicariância. 
Desde o final do Mioceno dois outros fatores históricos têm sido decisivos na forma como se distribuem as espécies e endemismos em redor do Mediterrâneo: o advento da seca de verão e, mais recentemente, o desenvolvimento de atividades humanas (Thompson, 2005).

NOTA:
A origem da especiação e distribuição das espécies resulta essencialmente de dois processos evolutivos, a dispersão e a vicariância.

A DISPERSÃO acontece quando uma população restrita a uma determinada área migra para outras áreas. Embora existam barreiras geográficas estas são ultrapassadas através de variados mecanismos de dispersão de sementes (levadas por animais, pelo vento, pela água). São várias as razões que induzem a esta migração, podendo depender do acaso, ser causadas por pressões intrapopulacionais ou por modificações ambientais. Com o passar do tempo, as espécies que migram acabam por se diferenciar da população original.

A VICARIÂNCIA é desencadeada por um ou mais eventos geológicos que leva à separação geográfica de uma determinada população, fragmentando-a. Mantendo-se a barreira que impede o contacto genético, as populações divididas evoluem de formas diferentes, conduzindo à formação de espécies diferenciadas. Convém notar que, "quando se fala de vicariância, acredita-se que a população ancestral ocupava o somatório das áreas habitadas hoje pelos seus descendentes, tendo sido dividida em populações menores pelo surgimento de barreiras que provocaram o isolamento entre subpopulações”.

Genista tournefortii subsp. tournefortii
As giestas do género Cytisus já foram referenciadas AQUI, com especial destaque para Cytisus grandiflorus, a vulgarmente conhecida giesta-das-sebes. Também os tojos do género Ulex tiveram AQUI o seu momento de glória. Assim sendo, esta parece ser a altura certa para fazer uma pequena apresentação sobre o género Genista.
Genista tournefortii subsp. tournefortii
Genista é um grande género, complexo e taxonomicamente difícil, cuja evolução genética revela poliploidias e aneuploidias (originando células onde há falta ou excesso de algum ou alguns cromossomas) relativamente recentes, que originaram espécies com alguma heterogeneidade. Estas espécies podem combinar espinhos com folhas ou apenas gerar folhas, geralmente de pequeno tamanho. As espécies do género Genista ocorrem na maioria dos países da Europa central e ocidental, embora a maior diversidade se encontre na Península Ibérica. Segundo o portal Flora-on, são 14 as espécies do género Genista que ocorrem em Portugal. 
Popularmente, se têm espinhos são apelidadas de tojos, se os não têm chamam-lhes giestas ou piornos. As representantes deste género assumem a forma arbustiva baixa, geralmente reunindo-se em maciços. Crescem em vários tipos de substratos, preferindo os solos altamente permeáveis. Ocorrem em diferentes condições climáticas, geralmente bem adaptadas a climas secos, limitando a transpiração através de estratégias adequadas como folhas pequenas ou espinhosas e/ou tomando a forma arredondada e densa semelhante a uma almofada, especialmente em zonas litorais mais batidas pelo vento.
A espécie Genista tournefortii é um endemismo do centro e oeste da Península ibérica e do noroeste de África. Consideram-se duas subespécies: a da Península Ibérica é Genista tournefortii subsp. tournefortii e a do norte de África (Marrocos) Genista tournefortii subsp. jahandiezii (Batt.) Talavera & P.E.Gibbs. 

Genista tournefortii subsp. tournefortii Spach

Genista tournefortii subsp. tournefortii
Esta é, pois, uma das muitas plantas do género Genista que são endémicas da Península Ibérica. Em Portugal ocorre sobretudo na faixa litoral centro (Beira litoral, Ribatejo e Estremadura) e também perto da fronteira com a Espanha (Trás-os-Montes e Beira Alta). Pode conferir mapa de distribuição em Portugal na Naturdata, em imagens por satélite, AQUI.
Forma um arbusto muito ramificado, baixo e alargado com cerca de 20 a 40 cm de altura. Os ramos são estriados,  lenhosos na base e cobertos de pelos compridos; podem ser ascendentes ou decumbentes, neste caso desenvolvendo-se rente ao solo, tornando-se ascendentes nas extremidades. 
Genista tournefortii subsp. tournefortii - ramos velhos espinhosos em contraste
 com os mais jovens, cobertos de folhas
Os ramos mais velhos apresentam alguns espinhos em vez de folhas, mas os mais jovens têm folhas numerosas. 
Genista tournefortii subsp. tournefortii - ramo com folhas e flores

Genista tournefortii subsp. tournefortii - folhas
As folhas, de pecíolo pouco desenvolvido e cobertas de pelos longos, dispõem-se de forma alternada. As da base dos caules apresentam forma ovada e são menos peludas que as superiores, as quais são lanceoladas, assim como as médias.
Genista tournefortii subsp. tournefortii - inflorescência 
As flores reúnem-se no topo dos ramos em inflorescências de 2 a 5 cm que podem conter entre 6 a 30 flores e em cuja base existe uma bráctea de forma linear com 3 a 7 mm de comprimento
Cada uma destas flores está ligada ao eixo da inflorescência por um pequeno pedicelo peludo de 1 a 2 mm de comprimento com bractéolas lineares inseridas a meio do pedicelo.
Genista tournefortii subsp. tournefortii - partes da flor
As flores apresentam corolas de um amarelo dourado e são tipicamente papilionáceas, com 5 pétalas desiguais. A mais vistosa, denominada estandarte é mais comprida que as alas mas bastante menor que a quilha, a qual é bastante saliente. A pétala estandarte tem forma ovada com o ápice arredondado e a base em forma de coração, podendo ser glabra ou apresentar alguns pelos no nervo médio dorsal. As alas são oblongas e glabras embora apresentem alguns cílios nas aurículas. A denominada quilha (constituída por duas pétalas com pontos de união) é comprida, oblonga e com uma franja de pelos curtos na sua metade inferior.
Genista tournefortii subsp. tournefortii - cálice
O conjunto das pétalas é protegido pelo cálice que nesta espécie é formado por duas sépalas verdes e peludas. Estão unidas na base formando um tubo curto, após o que se separam em dois lábios subdivididos de forma desigual; o lábio superior é o mais curto e está bipartido em lóbulos triangulares; o lábio inferior, mais comprido, subdivide-se em três dentes lanceolados em que o central é maior que os laterais.
Sob o ponto de vista reprodutivo as flores estão equipadas com órgãos masculinos e femininos. O androceu tem um total de 10 estames que não são todos iguais, ou seja, 4 estames são curtos com anteras basifixas (presas pela base) e os restantes 6 são compridos, 1 com antera basifixa e os outros 5 com anteras dorsifixas (inseridas no filete pelo dorso). 
Posição das anteras nos estames em Genista tournefortii. FONTE

Os estames são monadelfos, isto é, os filetes estão todos unidos e formam um tubo membranáceo em torno dos órgãos femininos.

Do ovário desponta o estilete cuja parte visível é o estigma, sobre o qual se fixa e germina o pólen.
Esta espécie floresce de abril a junho ou julho.
Os frutos são vagens estreitas e achatadas, encurvadas como uma foice, coberta de pelos em ambas as faces. Dentro dela existem 1 ou 2 sementes escuras e de forma ovóide.

Genista tournefortii subsp. jahandiezii (Batt.) Talavera & P.E.Gibbs. 
Esta é a subespécie endémica do norte de África, mais especificamente de Marrocos, e ocorre nas montanhas do Rife e cordilheira do Atlas Médio. Diferencia-se da subespécie ibérica por ter todas as folhas lanceoladas e pelas brácteas na parte inferior da inflorescência que, ou não existem ou têm tamanho inferior a 2,5 mm.

Fotos de Genista tournefortii subsp. tournefortii - Arribas do Caniçal/Lourinhã