"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Urtica membranacea Poir.

Nomes comuns:
Urtiga; urtiga caudada; 
urtiga-de-caudas; urtiga-menor-caudada

Em todos os solos saudáveis existem miríades de sementes de diferentes tipos de ervas que crescem de forma espontânea. De cada vez que os solos são remexidos ou recebem a frescura da chuva invernal umas quantas germinam, crescem e produzem flores e frutos, completando o ciclo que leva a que mais sementes sejam depositadas nos solos. Sob o ponto de vista do agricultor ou do jardineiro elas são um aborrecimento e uma carga de trabalhos, porque se não forem retiradas prejudicam o rendimento agrícola ou a estética do canteiro das flores. 
Generalizando, habituámo-nos a classificar de “daninhas” todas estas ervas que aparecem sem serem cultivadas, independentemente de causarem dano ou não. Tal termo é incorreto e altamente injusto, uma vez que a mesma erva pode ser daninha ou benéfica, consoante o local e a situação em que se encontra, e na medida em que é, ou não, desejada por nós, humanos. A verdade é que ainda não se encontrou o vocábulo certo para designar as plantas espontâneas cujo valor comercial não é reconhecido e que, não manifestando comportamentos sistematicamente agressivos e invasores, são fundamentais para a manutenção da biodiversidade e a saúde do meio ambiente. De facto, elas são o sinal de que que a natureza luta por todos os meios para criar os equilíbrios entre a vegetação, o solo e a fauna. Estas ervas, que podem ser também arbustos, protegem os solos da erosão provocada pela chuva e pelos ventos, contribuem para manter a humidade dos solos ao reduzir o aquecimento da superfície pela radiação solar e providenciam alimento e abrigo à fauna selvagem. E, uma vez mortas, a sua massa verde decompõe-se e incrementa os teores de matéria orgânica e nutrientes no solo, além de que as espécies maiores mobilizam o solo através do desenvolvimento radicular.
Mesmo as plantas mais simples podem ser uma mais-valia num jardim, criando estruturas ou servindo de cobertura de solo ou até aligeirando o efeito de plantas mais elaboradas, pelo que não deve ser esquecida a vertente ornamental.
Muitas destas ervas ou as suas sementes, não só são comestíveis, como também muito nutritivas, representando uma fonte adicional de vitaminas e minerais. Outras fornecem óleos essenciais utilizados em perfumaria ou são utilizadas na farmacopeia popular devido às propriedades curativas que possuem. 
Curiosamente, estas ervas parecem perceber que só podem contar consigo próprias. Por isso mesmo, as estratégias que adoptam para sobreviver são verdadeiramente inteligentes. Um dos problemas que enfrentam é a seca, sobretudo em regiões que não são especialmente dadas a chuva. Felizmente, neste outono e inverno têm recebido um reforço extra de humidade e ei-las a aproveitar as condições favoráveis, enquanto duram. Por exemplo, as urtigas estão belíssimas e com ar saciado. O quê? Urtigas? É verdade, vamos falar de urtigas, uma riqueza ao dispor da nossa saúde e do meio ambiente, mas barbaramente desperdiçada.  
Urtica membranacea
As urtigas, ervas incómodas e de má fama, estão rotuladas como “daninhas” pela maioria dos nossos contemporâneos. Aparecem de forma abundante e sem serem convidadas nas nossas hortas e jardins e dão um trabalhão a quem se quer livrar delas, já para não falar da forma como elas se sabem defender. 
Urtica membranacea - pelos urticantes
É que, toda a planta se encontra coberta de pelos de sílica chamados urticantes, os quais se assemelham a agulhas hipodérmicas e que, ao serem tocados de forma descuidada, injetam na pele um conjunto de compostos químicos (entre eles, o acido fórmico) que causam ardor e sensação de queimadura durante algumas horas. Estas picadelas e o respetivo desconforto que causam não são prejudiciais para a generalidade das pessoas, antes pelo contrário, elas estimulam a circulação (sei de quem se tenha curado das frieiras com as picadelas das urtigas) e sabemos que em gerações passadas era costume fustigarem as partes do corpo com urtigas para aliviar dores musculares e reumáticas.
Urtica membranacea
Na realidade, as urtigas são injustamente desprezadas e descarta-las é um desperdício que resulta em nosso prejuízo. Tudo o que sabemos ou já lemos sobre os efeitos benéficos das urtigas não caberia num único livro. Para começar, as urtigas são um ótimo auxiliar na agricultura ou jardinagem. O seu rico teor em minerais tem efeito regulador sobre o ferro e azoto do solo, estimulando o crescimento das plantas e os seus compostos químicos e conferindo-lhes proteção contra pragas e doenças. As urtigas podem ser diretamente incorporadas no solo ou partidas em pedaços e colocadas nos covachos de plantação, nomeadamente de flores, tomateiros ou batateiras e outros, servindo de fertilizante e protetor ao mesmo tempo. Na compostagem as urtigas aceleram a decomposição dos resíduos. A calda de urtigas obtida através da maceração das plantas em água durante 4 dias é um poderoso inseticida natural e se se deixar macerar durante um par de semanas obtém-se um chorume que é utilizado como fertilizante. No que me diz respeito, já há anos que reservo um espaço só para as urtigas (para prevenir pragas e doenças) embora não desdenhe das que vão nascendo noutros canteiros.
A Urtica membranacea protege os legumes e e as flores de pragas e doenças
As urtigas são riquíssimas em vitaminas do grupo B, C e K, betacaroteno (pigmento antioxidante) e também em minerais como o ferro e o magnésio, oligoelementos, cálcio, sais, fosfatos e ainda aminoácidos (entre eles a lisina, muito importante na absorção do cálcio) e proteínas.
Em tempos, as urtigas já fizeram parte da cozinha dos portugueses. Foram caindo em desuso à medida que a vida das populações rurais foi melhorando. Hoje em dia regista-se um renovado interesse pelas espécies silvestres e a urtiga faz parte da lista. Até já foi instituída a Confraria da Urtiga, sediada em Fornos de Algodres. Esta associação tem como objetivo a valorização e divulgação da urtiga, bem como de outros vegetais silvestres.
Usam-se como qualquer outro legume de folha, por exemplo em sopas, refogados, omeletas, misturada com arroz ou em esparregado. Utilizam-se apenas as folhas pois os caules são muito fibrosos, sendo aconselhável a manipulação da planta com luvas. Os pelos urticantes perdem ação poucas horas depois de colhidas ou logo que metidas em água a ferver. A textura das folhas, depois de cozinhadas, não é tão aveludada como o espinafre mas também não é tão áspera como a nabiça. O gosto é pouco pronunciado, pode ser mesmo considerado agradável, embora um pouco diferente, o que não deixa de ser estimulante para o paladar. As folhas podem secar-se e ser usadas para fazer infusões. As infusões preparam-se colocando algumas folhas de urtigas verdes ou secas num recipiente sobre o qual se despeja água a ferver. Deixa-se repousar por 10 minutos e está pronta a beber, recomendando-se 2 a 3 chávenas por dia durante períodos de 3 semanas. O seu efeito benéfico pode ser potenciado através da combinação com outras ervas medicinais. Preferencialmente devem colher-se as folhas antes de a planta dar flor pois é nessa altura que são mais ricas nos seus princípios ativos (evitar de recolhe-las na beira das estradas ou em locais igualmente poluídos). O processo de secagem é simples: basta colocar as plantas em local seco e escuro durante cerca de 3 semanas.
As urtigas têm variadas e extensas propriedades terapêuticas, sendo usadas não só a nível interno, através de chás, mas também a nível externo por meio de cataplasmas e compressas. Fortalecem o sistema imunitário e são um poderoso fortificante geral, depurativo, regenerador do sangue e estimulante das funções digestivas. Um dos seus compostos é a serotonina  que atua no cérebro regulando o humor, sono, apetite, ritmo cardíaco, temperatura corporal, sensibilidade à dor, movimentos e as funções intelectuais. Os teores de ferro, silício e de vitaminas B2 e B5 dão-lhe um excelente poder remineralizador, ajudando a combater a queda do cabelo e fortalecendo as unhas, além de que são muito eficazes no tratamento da acne, eczema, psoríase e outras afeções cronicas da pele. As urtigas também previnem a anemia pois contêm muita vitamina C, indispensável para a absorção do ferro. E também são diuréticas, reduzem o ácido úrico e auxiliam nos casos de gota e pedra nos rins; retardam a hipertrofia da próstata; aliviam as artroses, artrites e as afeções reumáticas; o seu poder hipoglicemiante ajuda a baixar o teor de açúcar no sangue; estimulam a irrigação sanguínea de todas as partes do corpo, controlam as hemorragias, amenizam os sintomas da rinite alérgica, sinusite e asma, etc. Entretanto, continuam a ser feitos estudos sobre as potencialidades das urtigas e vão surgindo notícias e relatos de cura de tumores malignos através de tratamentos com urtigas.
As urtigas pertencem ao género Urtica, um dos 45 géneros da família Urticaceae.
Em Portugal crescem de forma espontânea 4 espécies de urtigas , todas elas partilhando as mesmas ou semelhantes características terapêuticas. A espécie de urtiga mais comum entre nós é a Urtica membranacea. Esta espécie é nativa de Portugal continental e Arquipélago da Madeira, tendo sido introduzida no Arquipélago dos Açores.
Urtica membranacea - raiz
A Urtica membranacea cresce e dá-se bem em qualquer tipo de solo, de preferência em pleno sol mas também em locais sombrios.  Gosta de solos húmidos e perturbados, ricos em matéria orgânica. Sendo uma erva de características ruderais encontra-se mais facilmente em locais frequentados pelo Homem, perto de habitações, berma dos caminhos, muros rurais, campos cultivados e remexidos.  
É uma planta anual de vida longa, podendo ser encontrada desde o princípio do inverno até ao fim da primavera, prolongando-se pelo verão se se mantiverem as condições ideais de humidade do substrato.
Urtica membranacea - caule 
Os caules são simples eretos, ascendentes, canelados e raramente ramificados desde a base; normalmente chegam aos 30 ou 40 cm de altura embora se possam encontrar plantas bastante mais altas. Por vezes os caules apresentam-se de cor avermelhada e apresentam pelos urticantes.

As folhas dispõem-se nos caules de forma oposta e são ovais ou arredondadas quanto à forma, com margens dentadas, com dentes quase tão compridos quanto largos. Ambas as páginas têm nervuras bem visíveis e pelos urticantes, flexíveis na base. O pecíolo é mais curto que o limbo. 
Urtica membranacea - Estipulas
Veja nota sobre a utilidade das estipulas AQUI.
Nos nós existem 4 estipulas, duas de cada lado do caule, em lados opostos, estando soldadas aos pares o que dá a ideia de serem apenas 1 de cada lado do nó.
Urtica membranacea - estipulas 
Urtica membranacea é uma espécie monoica, ou seja, as plantas ou são masculinas ou são femininas. Por vezes estas plantas podem ser dioicas, embora raramente. Neste caso apresentam flores masculinas + flores femininas na mesma planta.
As flores, de tamanho diminuto, reúnem-se em inflorescências que nascem nas axilas das folhas e estão dispostas em cachos estreitos, também semelhantes a espigas simples e arredondadas, implantadas em redor de um eixo roliço. 
Urtica membranacea - planta masculina
As plantas masculinas apresentam inflorescências mais compridas que os pecíolos das folhas e posicionam-se na parte superior da planta. 
Nas flores masculinas as peças florais que rodeiam os órgãos sexuais (perianto) são 4 lóbulos iguais e de forma arredondada, livres, membranosos, pubescentes e avermelhados; os 4 estames são salientes e existem rudimentos de um ovário.


Inflorescência masculina de Urtica membranacea em processo de amadurecimento, antes dos estames se tornarem visiveis


Urtica membranacea - inflorescência masculina (pormenor das flores em que os estames estão bem visíveis)
Nas plantas femininas as flores estão mais resguardadas, posicionando-se sempre abaixo do topo da planta. 
Urtica membranacea - planta feminina (foram removidas algumas das folhas para melhor se poderem observar as inflorescências)
As flores femininas formam cachos mais curtos que os pedicelos; as 4 peças do perianto são esverdeadas, membranosas e desiguais, sendo as duas internas maiores e persistentes na maturação do fruto; os órgãos sexuais exibem pequenos estaminódios (estames estéreis) e um ovário supero unilocular (apenas um compartimento) do qual surge um estilete simples com estigma capitado (em forma de cabeça).
Urtica membranacea - inflorescências com flores femininas
Urtica membranacea - flores femininas
Os frutos são ovóides, achatados e brilhantes e estão envoltos pelas duas peças internas do perianto que são persistentes.
Termino deixando-lhe um link para este video. Não deixe de ver.

Fotos: Serra do Calvo/Lourinhã
Texto e fotos de:
Fernanda Delgado do Nascimento  http://floresdoareal.blogspot.pt/
(exceto se especificada outra fonte).

sábado, 16 de janeiro de 2016

Cyperus longus L.

Nomes comuns:
Albafor; junça; junça-de-cheiro; junça-longa; junça-ordinária

Cyperus longus
A faixa litoral do concelho da Lourinhã é uma zona de clima particularmente suave, de verões frescos e invernos temperados. Apesar de condicionada pela presença do oceano esta região apresenta fracos níveis de pluviosidade, possivelmente devido à relativa proximidade da serra de Montejunto para onde são desviadas as chuvas pelos ventos de noroeste. Em contrapartida, a humidade atmosférica é elevada. Ao condensar-se ao nível do solo o orvalho é, muitas vezes, o único refresco que, durante meses seguidos, recebem as pequenas ervas que bordejam os caminhos rurais. Sem água suficiente as plantas entram em regime de serviços mínimos, restringindo-se ao essencial, isto é, concentrando-se no seu único objetivo, a reprodução. Assim sendo, após um verão sem uma gota de chuva e um outono excecionalmente estival, as chuvas insistentes das últimas semanas foram um alívio para muitas espécies. De repente, nos solos encharcados, as pequenas plantas da época reverdecem e mostram-se exuberantes, viçosas e sem dúvida, saciadas. Agora que a água já corre em cachão nos ribeiros há muito secos, e até as valas de escoamento que ladeiam os campos agrícolas mais parecem afluentes, estão criadas as condições propícias à proliferação das espécies ripícolas.
Cyperus longus
Tomemos como exemplo a espécie Cyperus longus que já se apresenta alta e graciosa, com elegantes folhas arqueadas de um bonito verde e contrastantes espiguetas de flores acastanhadas. Esta é uma espécie perene que prospera em campos agrícolas de regadio, margens de cursos de água, charcos e na generalidade dos locais húmidos. Esta planta tolera locais mais secos, mas nesse caso nota-se que o seu crescimento vegetativo é afetado, ficando de menor tamanho.
É uma espécie docemente fragrante e a sua folhagem e flores estilizadas dão-lhe um aspeto algo exótico pelo que há quem utilize esta planta em lagos ou charcos de jardim onde fazem um belo efeito. Ora, veja AQUI.
Caso não se disponha de muito espaço, convém colocar os rizomas de Cyperus longus dentro de um cesto para evitar que se expanda demasiado pois pode tornar-se vigorosa, densa e invasiva. A profundidade aconselhada para fixar os rizomas vai dos 0 aos 30 cm. O crescimento denso de Cyperus longus encoraja, de forma excelente, a fauna selvagem ao proporcionar alimento e local de nidificação a espécies próprias de locais húmidos, mamíferos, anfíbios e insetos. Além do mais, contribuem para a purificação e oxigenação das águas e para o controle da erosão em zonas ribeirinhas.
Espiguetas de Cyperus longus antes da expansão das flores.
Nesta fase os órgãos das flores estão inteiramente cobertas pela gluma.
Cyperus longus pode ser encontrada um pouco por todo o pais sendo presumivelmente autóctone de Portugal continental e arquipélago da Madeira e tendo sido introduzida nos Açores.
De forma geral Cyperus longus distribui-se pelo centro e sul da Europa, norte de África, Ásia e África tropical.
Cyperus longus é uma espécie rizomatosa, isto é, cresce e multiplica-se vegetativamente a partir de um caule subterrâneo que se assemelha a uma raiz mas que na realidade é um rizoma engrossado, com 5 a 10 mm de diâmetro; por debaixo do rizoma formam-se as raízes e na parte superior existem gemas de renovo - ou seja, rebentos que dão origem a novos caules - as quais estão protegidas por folhas modificadas que são de cor castanha por não terem clorofila. Ao contrário de outras espécies, o rizoma de Cyperus longus não forma tubérculos (semelhantes a batatinhas) na extremidade das raízes. 
Os caules são do tipo colmo sendo constituídos por porções (entrenós) limitadas por nós; são rígidos, eretos e solitários podendo alcançar mais de 1,5 m de altura, embora se encontrem exemplares com caules bastante mais curtos. São sólidos no interior e de secção triangular.
Cada colmo que desponta do rizoma tem 3 folhas as quais alternam entre 3 pontos diferentes, perto da base. 
Rizoma e colmos de Cyperus longus. Nesta foto estão bem identificadas as escamas castanhas que protegem as gemas e também a inserção alternada das 3 folhas em redor de cada colmo.
Fonte: Herbari Virtual del Mediterrani Occidental
As folhas não têm pecíolo e no ponto de inserção apresentam uma bainha que envolve por completo a haste, crescendo com ela até certo ponto, dando-lhe consistência e formando o que se chama uma bainha fechada. As folhas são longas, embora bastante mais curtas que o caule e são planas, com nervação paralela; as margens do limbo da folha são rígidas, ásperas e cortantes devido ao elevado conteúdo em sílica existente nas células.
Cyperus longus. As flores estão na fase de expansão.
Notam-se os estames e os braços estigmáticos que ficam a descoberto nesta fase.
As flores reúnem-se em inflorescências no topo dos caules, estando rodeadas por 3 a 6 brácteas verdes e lineares as quais são muito desiguais, semelhantes a folhas e mais compridas que as inflorescências. 
Cyperus longus. Inflorescência e brácteas envolventes.
As inflorescências são compostas por umbelas de espiguetas cujos raios são muito desiguais entre si, de tal forma que os eixos secundários ultrapassam em altura o eixo principal. As espiguetas são formadas por um conjunto de 6 a 22 flores, estruturalmente muito simples e funcionais. Uma vez que são polinizadas pelo vento, as flores das espiguetas deixaram de precisar de pétalas, sépalas e outros órgãos destinados a atrair os insetos. Assim, durante o seu processo evolutivo perderam essas estruturas, pouco mais restando que os órgãos reprodutores masculinos e femininos. Desta forma, as flores de Cyperus longus são compostas pelo androceu, com 3 estames salientes durante o período de expansão da flor e pelo gineceu cujo estilete se divide em 3 braços estigmáticos também salientes. Estes órgãos são protegidos por uma única bráctea (gluma) que é semelhante a uma escama e tem cor avermelhada. As flores inserem-se em lados opostos de um eixo, cada uma em seu nó, formando uma espiga algo espalmada.
Cyperus longus
A- Espigueta  B- Parte da inflorescência em que se reunem as espiguetas
C- Flor da espigueta: bráctea e órgãos reprodutores (estames, ovário, estilete e estigma)
Os frutos de Cyperus longus são frutos secos indeiscentes, de cor escura, obovoides e trígonos, dentro dos quais existe uma única semente. Quando se completa a maturação as espiguetas desintegram-se e os frutos dispersam-se, podendo viajar a longas distâncias quer através da água, do vento, quer nas patinhas de aves migradoras. Contudo parecem ser poucas as novas plantas geradas pela germinação das sementes. Na maioria dos casos Cyperus longus reproduz-se vegetativamente, através de pedaços do rizoma que se desprendem, muitas vezes desenterrados pelos animais que os comem e transportados por eles ou pela corrente de água, até encalhar noutro lugar. Qualquer pedaço de rizoma que tenha pelo menos uma gema dá origem a uma nova planta.
O tempo de floração desta planta parece ser bastante alargado. Os manuais da especialidade informam que a floração acontece durante o verão, nomeadamente de abril a setembro ou outubro, contudo algumas das fotos aqui inseridas foram registadas bastante mais cedo, em dezembro. Afinal, as plantas não ligam ao calendário e aproveitam-se das condições favoráveis.
O rizoma de Cyperus longus é comestível, tendo sido bastante apreciado pelas antigas populações rurais nos tempos em que a escassez de recursos os obrigava a procurar alimento entre as ervas do campo. Este rizoma exala uma fragrância muito agradável semelhante ao das violetas pelo que o seu óleo essencial tem utilização em perfumaria.
Os caules também são aproveitados para entretecer esteiras, cestos e assentos de cadeiras em palhinha.
Cyperus longus pertence à família Cyperaceae (a qual inclui cerca de 4500 espécies) e inclui-se no género Cyperus, um dos 122 géneros em que esta família está organizada.
A maior importância da família Cyperaceae reside no facto de as suas espécies constituírem a base da vegetação natural de pântanos e zonas ribeirinhas onde os seus rizomas densamente emaranhados contribuem para o controle da erosão e purificação da água. Nas zonas pantanosas fornecem abrigo e alimento a aves, anfíbios, insetos e outros animais de vida aquática pelo que as consequências da destruição destes habitats podem ter consequências desastrosas.
Os géneros mais representativos desta família em Portugal são Carex com 43 espécies e Cyperus com 10. As Cyperus são especialmente apreciadas em jardinagem devido às suas formas arquitetónicas, permitindo um certo efeito dramático, criativo e vibrante, dando uma ambiente exótico aos locais mais húmidos do jardim. Uma das mais apreciadas é a Cyperus papirus.
Cyperus papirus em Kew Gardens/Londres. Foto de Adrien Pingstone/Wikipedia.
Os caules de Cyperus papirus podem atingir os 6 m de altura proporcionando um grande efeito ornamental. Esta é uma espécie tropical natural do continente africano e a sua fama remonta à Antiguidade Egípcia. Estas plantas cresciam de forma abundante no delta do rio Nilo e era a partir da medula retirada dos seus colmos que os egípcios fabricavam o papiro, uma das primeiras formas de papel.
Dentro do género Cyperus podemos assinalar algumas espécies invasoras, como é o caso de Cyperus rotundus que vive nos mesmos habitats de Cyperus longus e com a qual é muitas vezes confundida. Cyperus rotundus é uma das piores espécies invasoras em todo o mundo afetando economicamente culturas como a cana-de-açúcar, milho, algodão, feijão. Esta autêntica praga desenvolve-se rapidamente competindo agressivamente com outras espécies em regiões temperadas, subtropicais e mesmo áridas, beneficiando das suas capacidades de adaptação a condições adversas. Cyperus rotundus diferencia-se de Cyperus longus por ter as espiguetas mais compridas e largas, alem de que o rizoma produz tubérculos globosos na extremidade das raízes, os quais dão origem a novas plantas e produzem substâncias químicas que inibem a germinação ou desenvolvimento de outras espécies.
Comparação entre sistema radicular de Cyperus longus, à esquerda e
Cyperus rotundus e Cyperus esculentus à direita
Fonte: University of California Agriculture & natural resources
Outra invasora é a Cyperus esculentus cujo rizoma também produz tubérculos mas que se diferencia de C. rotundus por ter espiguetas amareladas. Em certos países C. esculentus é uma espécie cultivada e os seus tubérculos com sabor a nozes são utilizados na alimentação. Em Espanha, na região de Valência, os tubérculos são usados na confeção de um refresco não alcoólico denominado horchata de chufa ou orxata de xufes.

As graminóides: 
Cyperaceae, Poaceae e Juncaceae

O termo "graminóide" tem por base a família das gramíneas, cientificamente designadas Poaceae  (ou Gramineae). Esta é uma das maiores famílias entre as angiospérmicas (plantas com flor). A sua importância económico/ecológica é enorme. São fundamentais na vida humana e encontram-se nos maiores variados habitats, desde os exemplares de maior envergadura até à mais humilde relva do jardim. Contudo, existem espécies que, pertencendo a outras famílias apresentam, à primeira vista, semelhanças com as gramíneas a ponto de poderem ser confundidas. São elas a família Cyperaceae (junças) e a família Juncaceae (juncos).
Para maior facilidade os botânicos englobaram estas 3 famílias num grupo a que chamaram “graminóides”. 
Sob o ponto de vista taxonómico as graminóides são monocotiledóneas, caracterizando-se pelas suas longas folhas de forma linear e de venação paralela. 
[(Nota: As angiospermas (plantas de flor) subdividem-se em monocotiledóneas (de cuja semente brota uma única folha quando germinam, como acontece com o milho) e dicotiledóneas (de cuja semente brotam duas folhas durante a germinação, como no feijão)]. 
A grande semelhança entre estas 3 famílias monocotiledóneas reside no aspeto graminiforme, caracterizado por folhas lineares alongadas e com nervação paralela, flores de estrutura muito simplificada e caules do tipo colmo. Os colmos são eretos, ocos ou preenchidos por uma medula esponjosa; não são ramificados e são formados por porções (entrenós) ligadas umas às outras por nós que, consoante as espécies, são mais ou menos evidentes. Ao contrário da maioria das herbáceas que crescem apenas a partir de células meristemáticas existentes na parte superior dos caules ou nas gemas de ramificação, os colmos também crescem por baixo e por cima dos nós, o que lhes permite continuar a crescer quando são cortadas (como acontece com a relva).
Assim sendo, o reconhecimento e identificação das graminóides é um grande desafio. Apesar das diferenças a nível vegetativo, a melhor forma de distinguir as espécies consiste na observação das flores e dos frutos. Porém, por vezes estes órgãos são tão pequenos que o uso de uma lupa poderá facilitar o trabalho. 
Aqui deixo algumas das características que permitem a identificação das famílias. No que diz respeito ao reconhecimento das espécies, as dificuldades são maiores, sendo necessária a ajuda de uma chave de identificação.
Flor de Juncaceae 
Destas 3 famílias a inflorescência dos juncos (familia Juncaceae, em Portugal com 2 géneros, Juncus e Luzula) é a mais semelhante a uma flor "normal". As flores são tipicamente bissexuais, estando os órgãos reprodutores envolvidos por 6 tépalas (3 sépalas+3 pétalas, todas muito semelhantes). 
Flor do género Cyperus /Cyperaceae
Dependendo do género, as espiguetas das junças (Cyperaceae) podem ser formadas por flores bissexuais (género Cyperus) ou unixsexuais (género Carex), cada uma envolvida por uma única bráctea.
Flor de Poaceae
As inflorescências das gramíneas (Poaceae) têm a estrutura mais complexa das 3 famílias produzindo flores bissexuais envolvidas por brácteas especializadas, ou seja, cada flor está envolvida por duas brácteas, a lema no exterior e a pálea no interior. Estas flores formam espigas, elas próprias protegidas por duas brácteas denominadas glumas. Saiba mais AQUI e AQUI.
Também podemos diferenciar as graminóides a partir dos colmos e da forma como se inserem as folhas. 
Nas Poaceae os colmos são cilíndricos, ocos e os entrenós são bem visíveis. As folhas apresentam lígulas na base, são opostas e as bainhas são abertas, envolvendo parcialmente os nós.
Nas Cyperaceae os colmos são triangulares e cada um deles tem apenas 3 folhas que nascem perto da base da planta, alternadas em três pontos diferentes. As folhas não são liguladas e as bainhas são fechadas, envolvendo a haste por completo.
As Juncaceae apresentam colmos cilíndricos e sólidos preenchidos com uma medula esponjosa. As folhas formam tufos basais e têm bainhas fechadas. 

Apesar de partilharem características semelhantes as graminóides são, sem dúvida, um grupo muito diversificado, estimando-se que ocupem 20% do solo da terra, dominando tanto nos climas temperados como nos subtropicais. Encontramo-las nos habitats mais variados desde os húmidos e pantanosos aos mais secos; são plantas muito, muito antigas, havendo registos de plantas que datam de há 200 mil anos (a estrutura simplificada das flores mostra que sao muito evoluidas, ao contrário do que se poderia pensar); são essenciais para alimento do gado e indispensáveis na nossa alimentação (milho, trigo, arroz etc) estando também presentes em muitas bebidas que consumimos desde a cerveja ao whiskey; providenciam fibras utilizadas na construção de diversos materiais e até em construção civil; os relvados, constituídos por misturas de 6 ou mais tipos de graminóides são utilizados em milhões de jardins e parques já para não falar dos campos de golfe, ténis, rugby e futebol, entre outros.
A generalidade das graminóides contribui ainda para restaurar o arejamento dos solos, protegem-nos da erosão provocada pela chuva e pelos ventos e providenciam alimento e abrigo à fauna selvagem.

Fotos: Serra do Calvo e Zambujeira/Lourinhã

Texto e fotos de:
Fernanda Delgado do Nascimento  http://floresdoareal.blogspot.pt/
(exceto onde especificada a fonte).

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Nigella damascena L.

Nomes comuns:
Nigela-dos-jardins; cabelos-de-vénus; dama-de-verde;
damas-do-bosque; barba-de-velho


Nigella damascena é uma fascinante espécie anual que cresce de forma espontânea em campos cultivados, searas e pomares, terrenos baldios e beira dos caminhos, em solos pedregosos ou remexidos.
A sua folhagem é plumosa e algo etérea, embora resistente; a estrutura floral é delicada na aparência mas, bastante complexa e algo dramática. Por estas razões Nigella damascena é muito apreciada em jardins, sendo muitas vezes cultivada com fins ornamentais.




Foi muito popular durante o século XIX e parte do século XX sobretudo nas “cottages” inglesas e seus jardins rústicos. Depois, caiu em desuso perante o surgimento de plantas exóticas de cores mais vistosas. Porém, volta a estar na moda por direito próprio. As Nigella damascena são ótimas para preencher lacunas entre as perenes dos canteiros durante o verão, especialmente vistosas se semeadas em grupos, formando massas de flores azuis envolvidas em vaporosas folhas verdes. Também funcionam bem em vasos e cestos suspensos, além de que são excelentes flores de corte para colocar em jarras ou para fazer ramos e bouquets. Também depois de secas, tanto as flores como os frutos, fazem lindos arranjos.
Fonte: Martha Stewart Weddings
Bouquet de noiva com Nigella damascena, Anemona sp. e Muacari sp.
Fonte: Martha Stewart weddings
Exemplos de arranjos singelos, entre eles Nigella damascena
Nigella damascena é uma espécie com ampla distribuição mediterrânica sendo nativa de:
Europa:
- sudoeste europeu: Portugal continental (na Madeira é uma espécie introduzida e não existe nos Açores), Espanha, França;
- sudeste europeu: Albania, Bosnia e Herzegovina, Bulgaria, Croacia, Grecia, Italia, Malta, Montenegro, Servia e Eslovenia;
- leste europeu: Ucrânia;
África:
- Ilhas Canarias, Argelia, Libia, Marrocos e Tunisia;
Ásia temperada:
- Azerbeijao, Ciscascausia (Federação Russa), Chipre, Irão, Iraque, Turquia e Síria.
Mapa de distribuição de Nigella damascena em Portugal continental. Fonte Naturdata
A cor amarela mostra as regiões onde a espécie foi observada em estado selvagem mas sem que tenha havido reconfirmação.
A cor verde significa que  a espécie foi validada internamente. Veja mais AQUI sobre como interpretar o mapa.
Nigella damascena pertence ao género Nigella cujo nome deriva do latim e se refere à cor negra das sementes.
Flores de Nigella damascena em botão
O epíteto damascena que designa a espécie refere-se a Damasco, na Síria, muito provavelmente o seu centro de diversidade. Foi assim denominada pelo naturalista e botânico suíço Conrad Gesner em 1561. Contudo, a espécie só foi publicada por Lineu, em 1753, tendo sido por ele atribuída ao género Nigella.
Nigella é o mais pequeno género na família Ranunculaceae e inclui 14 espécies, todas anuais e que se distribuem desde a região mediterrânica até à Asia temperada. Além da Nigella damascena, o género inclui outras espécies importantes como Nigella sativa (inexistente em Portugal no seu estado espontâneo), cultivada em várias partes do mundo e renomada pelas suas propriedades aromáticas e medicinais.
Desenho esquemático/comparativo  de Nigella sativa (à esquerda) e Nigella damascena (à direita)
Fonte: Wikipedia
Autor: Franz Eugen Köhler
As sementes de N. sativa são conhecidas pelo nome comum de cominho preto embora nada tenham a ver com o nosso conhecido cominho
Cuminum cyminum que é da família das umbelíferas. As sementes de N.sativa ganharam popularidade e consequente interesse comercial. Além de utilizadas em culinária como condimento são estimadas como antioxidantes, anti-hipertensivas, analgésicas, anti-inflamatórias, anti-histamínicas, carminativas e antibacterianas.
Há quem use as sementes de N.damascena em culinária apesar do seu teor aromático ser menos intenso mas, segundo algumas fontes, o seu uso é pouco recomendável uma vez que, em doses excessivas, podem ser tóxicas.
Caule e folhas
Os caules de Nigella damascena são eretos ou ascendentes, angulosos, simples ou escassamente ramificados desde a base. A altura da planta varia entre os 10 e os 70 cm.
As longas folhas estão divididas em segmentos muito estreitos, quase lineares.
As flores, com 2 a 3 cm de diâmetro, são hermafroditas. Geralmente, são de cor azul-clara ou brancas e aparecem solitárias no extremo dos caules, aninhando-se num invólucro verde e rendilhado constituído por 5 brácteas, maiores do que a flor.
Parte de baixo da flor mostrando o ninho de brácteas
Estas brácteas apresentam-se muito afastadas umas das outras (quase em ângulos de 90º) e estão divididas em segmentos longos, estreitos e pontiagudos, assemelhando-se às folhas.
As flores de Nigella damascena partilham uma serie de características com outros membros do seu género no entanto, apresentam uma particularidade muito interessante que é a rara coexistência, nas populações naturais, de dois tipos morfológicos que resultam num dimorfismo da composição do perianto.
O perianto é o conjunto das peças florais que rodeiam os órgãos sexuais da flor, nomeadamente as pétalas (que formam a corola) e as sépalas (que constituem o cálice). Por vezes pétalas e sépalas são mais ou menos semelhantes pelo que são designadas indiferentemente por tépalas. As tépalas semelhantes a sépalas são sepalóides e as que são semelhantes a pétalas são petalóides.
O dimorfismo floral desta espécie regista as seguintes duas formas de arquitetura floral em indivíduos diferentes:
Forma de flores simples:
Morfo de flores simples
Adaptado de Wikipedia 
Tem um perianto diferenciado em que as sépalas do cálice e as pétalas que constituem a corola são peças bem distintas. O perianto é formado por 5 sépalas azuladas petalóides e 5 a 10 pétalas de tamanho reduzido e de cor mais escura transformadas em bolsa de néctar, com dois lábios sendo o inferior bilobulado.
Forma de flores dobradas:
Morfo de flores dobradas
Nesta variante o perianto é indiferenciado, ou seja, todas as peças florais são mais ou menos semelhantes. Não existem pétalas nectaríferas mas sim um grande número de órgãos petalóides semelhantes a sépalas situados entre as sépalas petalóides no exterior e os vários estames no interior. 
Ou seja, a ausência de pétalas é colmatada por órgãos sepaliformes, observando-se um gradiente contínuo de formas que se traduz na produção de formas intermediárias bizarras, na transição entre o perianto e os estames.

Ambas as formas são complementadas por várias series de estames que constituem os órgãos masculinos da flor.
O gineceu é formado por 5 carpelos unidos em toda a sua extensão, apresentando estiletes eretos, longos e engrossados, os quais são persistentes na maturação.
Depois de fecundados os óvulos, o ovário incha e forma uma cápsula insuflada muito lisa e globosa, com 5 compartimentos separados, os quais contêm numerosas sementes achatadas e negras.
Fruto maduro e sementes de Nigella Damascena
Fonte Wikipedia

Fruto e sementes de Nigella damascena
Fonte Wikipedia
Na maturação os frutos estão anichados no invólucro de brácteas, tal como a flor. A sua forma capsular coroada pelos estiletes é algo intrigante e bizarra pelo que são excelentes para incluir em arranjos de flores, secas ou não. 
Antes da completa maturação a superfície externa dos frutos pode apresentar listas longitudinais de cor purpura. Depois de secos tomam a cor da palha, ficam com uma textura semelhante à do pergaminho e é nessa altura que se rompem, geralmente pelo atrito com o vento, deixando sair as sementes
Para secar estes frutos colhem-se com os respetivos caules enquanto as características estrias avermelhadas ainda estão visíveis e penduram-se, com as cápsulas viradas para baixo, num lugar escuro, seco e arejado. Para as flores o método é semelhante mas, para que conservem a cor, precisam ser penduradas num armário ou forno com uma atmosfera morna.
Ramo de frutos secos de Nigella damascena
Embora seja uma planta anual, uma vez semeada num determinado local a Nigella damascena volta todos os anos pois ressemeia-se e germina com facilidade nos anos seguintes. Para manter as populações controladas nos canteiros basta repicar no local e descartar as plântulas de que não necessitamos.

A existência das duas formas florais de Nigella damascena é conhecida desde os primórdios do século XVII e, desde então, foi descrita em muitas publicações (Lineu 1753; Hoffman 1875; Blaringhem 1910).
Hendrik Jannes Toxopéus (1927) estudou a espécie sob o ponto de vista genético e chegou à conclusão que este dimorfismo floral é controlado por um gene específico e que a forma simples é a dominante, sendo a forma dobrada recessiva. A prevalência da forma simples e dos seus carateres florais partilhados com o resto dos membros do seu género sugerem fortemente ser essa a forma ancestral.
Uma vez que as diferenças morfológicas existentes entre as duas formas de Nigella damascena estão diretamente relacionadas com os caracteres especificamente desenvolvidos para atrair os polinizadores (a presença ou ausência de pétalas nectaríferas e o número de órgãos atrativos), é inevitável que o comportamento dos insetos e a forma de reprodução das flores seja por elas influenciado. De facto, estudos recentes comprovaram que as flores com forma floral simples são muito visitadas por insetos, os quais são atraídos pelo néctar existente nas pequenas pétalas, sendo a fecundação feita a partir de polinização cruzada. Em contrapartida, as flores da forma floral dobrada são praticamente ignoradas pelos insetos, sobretudo os coletores de néctar, como é o caso das abelhas, que de alguma forma parecem ter conhecimento, à distância, que dali não levam nada e não vale a pena o incómodo. Neste caso a fecundação realiza-se através de autopolinização.  
No caso de populações mistas em que convivem plantas de ambos os morfos, as flores simples podem ser polinizadas pelo pólen de flores dobradas e vice-versa. Ainda assim, ambas as formas estão capacitadas para, na ausência de insetos, se reproduzirem através de autopolinização pois nesta espécie não existem mecanismos de autoincompatibilidade.

Fotos: Serra do Calvo/Lourinhã

Texto e fotos de:
Fernanda Delgado do Nascimento  http://floresdoareal.blogspot.pt/
(exceto onde especificada a fonte).