"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Parietaria judaica L.

Nomes comuns:
Alfavaca; alfavaca-da-cobra; alfavaca-de-cova; amarras; cobrinha; columbrina; erva-das-muralhas; erva-das-paredes; erva-de-Nossa-Senhora; erva-de-Santa-Ana; erva-de-Santana; erva-do-amorra; erva-dos-muros; erva-fura-paredes; fava-da-cova; helxina; parietária; pulitaina; pulitária; urtiga-mansa.


Faz agora precisamente um ano que partilhei com vocês alguns factos sobre as nossas amigas urtigas, com especial enfoque na espécie Urtica membranacea. Agora, é a vez de darmos especial atenção a outra espécie da mesma família (Urticacaeae), a Parietaria judaica. A principal e óbvia diferença entre estas duas espécies que, embora da mesma família pertencem a géneros diferentes, reside no facto de Parietaria judaica não ser agressiva ao toque por falta de pelos urticantes.
Parietaria judaica é uma daquelas plantas que fazem parte da minha memória de infância. Entre outras, esta era uma das espécies que a minha mãe procurava e recolhia para secar e fazer chá, sempre que passávamos férias na Beira Baixa. Não que esta seja uma planta especialmente bonita ou tenha alguma característica fora do vulgar. No entanto, ficou-me na memória o nome engraçado de alfavaca-de-cobra pelo qual é conhecida na região. Até hoje, não consegui entender a razão de tal epíteto, ou seja, em que sentido é que a cobra é para aqui chamada. Sabemos que a palavra alfavaca vem do árabe “al-habōqâ”, nome que os árabes davam às plantas aromáticas usadas em culinária ou como medicamento. Em português a palavra alfavaca é dado a certas espécies aromáticas, nomeadamente o manjericão, planta inteiramente diferente da incrível alfavaca-de-cobra. Terá esta servido de mezinha contra os efeitos da mordidela de cobra? Há quem assim o afirme mas é impossível agora confirma-lo. Os nomes vulgares que o povo usou para batizar as plantas foram verbalmente transmitidas de geração em geração, por vezes ao longo de séculos, sujeitas a diferentes interpretações causadas por deturpação da língua. O mesmo já não acontece com os nomes em latim ou latinizados usados na classificação científica, pois são usados e reconhecidos em qualquer parte do mundo.
Como erva medicinal Parietaria judaica já teve o seu momento de glória. As suas folhas eram usadas em chá para problemas de estômago e intestinos, inflamações da bexiga, patologias hepáticas e renais entre outras. Também tem efeito diurético. O seu uso mais conhecido tem a ver com o tratamento de hemorróidas, em banhos de assento, usando a água do cozimento das folhas. Há quem ainda a use, muitas vezes associada com as malvas e outras ervas. 

Alerta:
Os tratamentos continuados com ervas medicinais sejam elas quais forem, não devem ser conjugados com a toma de medicamentos pois podem interferir com a ação destes. Podem duplicar a ação dos medicamentos, impedir a sua absorção ou até impossibilitar a eliminação dos mesmos pelo organismo no tempo programado. Os acidentes mais graves têm sido registados em casos de intervenção cirúrgica pois podem bloquear a ação dos anestésicos ou o tempo de coagulação do sangue. Veja mais AQUI

As folhas são comestíveis, quer cruas, quer cozinhadas e não só são uma boa fonte de fibras como são também ricas em minerais (fosforo, ferro e cálcio) e vitaminas A, B1, B2, B3 e C. O sabor das folhas cruas lembra o do pepino mas se cozinhadas tornam-se mais suaves, permitindo que haja uma boa ligação com o sabor de outros alimentos. Apesar de fibrosos, os caules também são comestíveis.
Parietaria judaica é também uma planta bastante apreciada por certos tipos de borboletas cujas larvas se alimentam das suas folhas, como é o caso da Vanessa atalanta.
Vanessa atalanta: vulgarmente conhecida como red admiral ou Almirante vermelho europeu é bastante frequente em Portugal podendo ser observada em todo o país. Veja mais informações AQUI.
Foto de Didier Descouens / Fonte: Wikimedia Commons
Apesar das suas qualidades como erva medicinal, alguns de nós precisamos de ter cuidado com a Parietaria judaica. Os seus pequeníssimos grãos de pólen são muito abundantes e voláteis, além de persistirem longamente no ar que respiramos, provocando agravamento nos sintomas de asma e rinites alérgicas de quem é mais sensível ao pólen desta planta. 
A planta floresce de março a outubro e por vezes durante o ano inteiro, se o inverno for suave. Este longo período de florescimento e a alta produção de flores são atributos associados às plantas de habitats perturbados e portanto são características esperadas numa espécie ruderal como é o caso de Parietaria judaica.
No âmbito das chamadas ervas “daninhas” as Parietaria (género com 10 espécies das quais 3 existem Portugal) parecem ser as que motivam mais alergias. Contudo, são as gramíneas a principal fonte deste mal que atinge quase um terço da população. Também existem árvores cujo pólen nos pode causar alergia como é o caso da oliveira, dos eucaliptos ou dos carvalhos, apesar das suas flores serem tão pequenas que mal damos por elas. São precisamente os grãos de pólen mais pequenos que causam as maiores alergias; eles andam em suspensão no ar mas não os vemos. O seu efeito maléfico é potenciado nas cidades devido às partículas da poluição que alteram a sua configuração e os tornam mais agressivos.
Parietaria judaica encontra-se um pouco por todo o território nacional, sendo nativa de Portugal continental e Arquipélago da Madeira e introduzida nos Açores. Esta espécie é autóctone de toda a bacia mediterrânica (sul da Europa e norte de África) incluindo a Ásia menor. A planta foi introduzida noutros países podendo agora também ser encontrada em países do norte da Europa, na costa ocidental dos Estados Unidos e na Austrália. Cresce principalmente em terrenos pedregosos, rachas dos pavimentos, em paredes e muros antigos em cujas fendas se vai acumulando terra e lixo que tornam o solo rico em nitrogénio e onde as raízes encontram a frescura de que a planta necessita. É muito frequente aparecer em hortas e jardins cujo solo regado e nitrogenado muito aprecia. No entanto, é nas grandes cidades cujos ambientes estão altamente perturbados devido às contínuas movimentações do solo e à poluição que o seu efeito alergénico mais se faz sentir. Na verdade, alguns estudos sugerem que a poluição de metais pesados aumenta a capacidade reprodutiva desta espécie o que demonstra uma alta plasticidade fenotípica, capacidade que lhe permite alterar a sua morfologia de acordo com as condições ambientais. Esta característica é considerada como promotora do sucesso de espécies expansivas e invasoras (Rejmánek 1996).
O nome genérico Parietaria (que derivou da palavra latina paries = muro, parede) refere precisamente as suas preferências em termos de habitat. O epíteto judaica que designa a espécie foi-lhe dado por Lineu, autoridade que primeiro publicou a descrição da espécie em 1756 em Flora Palaestina, com base em espécies trazidas da antiga região da Judeia. Esta obra foi realizada em colaboração com Bengt Johan Strand (naturalista sueco 1738-1790) e é basicamente uma compilação das espécies coletadas por Frederic Hasselquist. Em resposta aos lamentos de Lineu quanto à falta de informação sobre a história natural da Palestina, este naturalista sueco (1722-1752) que tinha sido colega de Lineu na Universidade de Uppsala e era seu seguidor, empreendeu uma expedição à Palestina, Chipre, Egito e Asia Menor onde recolheu bastantes espécies. Esta expedição durou cerca de 3 anos. No regresso Hasselquist faleceu mas a sua coleção de plantas chegou a casa em segurança permitindo o seu estudo e classificação científica.
Os caules estão cobertos de pelos densos
Parietaria judaica é uma erva perene cujos caules formam pequenas moitas de 20 a 60 cm de altura e muito ramificadas. Os caules, de cor verde acastanhada ou avermelhados, são eretos ou prostrados. Estes tornam-se ligeiramente lenhosos na base e estão cobertos de pelos densos.
As folhas posicionam-se de forma alternada
As folhas não apresentam estipulas. São alternas, com pecíolos de 3 a 12 cm, inteiras, ovais ou lanceoladas, de cor verde-escuro, quase glabras ou pubescentes. 
A página superior está coberta de pelos
Os pelos curtos e irregulares que cobrem as folhas, sobretudo na página inferior e ao longo das nervuras fazem com que se agarrem à roupa. 
Pagina inferior das folhas
Lembro-me que em criança eu e os meus companheiros quase nos “vestíamos” destas folhas, cobrindo a nossa roupa com elas. Esta característica deve-se à presença de cistólitos. Estes são pequenas estruturas (que no caso desta planta são puntiformes) existentes nas paredes das células epidérmicas das folhas e que são formados por carbonato de cálcio.
As flores são minúsculas e reúnem-se em inflorescências que se formam na axila das folhas, desde a base até ao topo dos ramos. Cada inflorescência consiste numa flor central que é feminina, rodeada por 3 ou mais flores que são hermafroditas (com órgãos masculinos e femininos). Este conjunto está protegido por brácteas pubescentes, as quais formam um invólucro em volta das flores. De início as flores apresentam-se de cor esverdeada, tornando-se avermelhadas com a maturação.
Nenhuma destas flores possui pétalas. 
As pétalas e sépalas coloridas ou perfumadas que vemos nas flores de tantas outras espécies não são produzidas em benefício da beleza mas sim porque precisam de atrair insetos polinizadores. Esses “artifícios” de que se socorrem para completar o seu ciclo reprodutivo com sucesso custam caro e são um encargo enorme em termos de energia. Ora, a Parietaria judaica prescindiu dos atavios e evoluiu no sentido de não ficar dependente dos insetos, adaptando-se à polinização pelo vento.
Assim, vejamos como se organiza esta espécie em termos de reprodução: o perianto (conjunto das peças florais que rodeiam os órgãos sexuais da flor) é formado por 4 lóbulos que formam um tubo coberto de alguns pelos finos, tubo este que é acrescente, ou seja, continua a crescer mesmo depois da fecundação. 

Estames de Parietaria judaica com as anteras em evidência.
Foto de Hectonichus. Fonte Wikimedia Commons.
O androceu, ou seja a parte masculina das flores hermafroditas consiste em 4 estames que, enquanto a flor permanece fechada não têm altura suficiente pelo que são obrigados a ficar curvados dentro dela, em tensão. A emissão de pólen para a atmosfera ocorre quando a flor abre e os elásticos filamentos dos estames se endireitam bruscamente. 
Diagrama 1
O diagrama 1 mostra os estados de desenvolvimento de uma flor bissexual de Parietaria judaica.
      a) Fase de recetividade feminina com o estilete e o estigma prontos para receber o pólen lançado por outras flores para que se efetive a fecundação.
      b)  Início da fase de crescimento do perianto em que o estilete e o estigma murcham e caiem.
      c) Fase de crescimento está completa.
     d) Aliviada a tensão, os estames desenrolam-se de forma súbita libertando o pólen de forma explosiva. 

O ovário, quer nas flores hermafroditas quer nas femininas, é superior e consiste num único carpelo do qual emerge um estilete com um estigma cujo ápice é formado por vários pelos, ficando semelhante a um pincel.
As flores femininas são as primeiras a amadurecer e só depois amadurecem as flores hermafroditas. No entanto as flores hermafroditas desta espécie são protogínicas, ou seja, os seus órgãos masculinos só amadurecem depois dos femininos terem cumprido a sua parte e deixarem de estar recetivos. Desta forma a planta consegue evitar a autopolinização, apesar de que existem indícios de que tal é possível, uma vez que parece existir autocompatibilidade.
Diagrama 2

O diagrama 2 representa a sequência dos estados de desenvolvimento sexual numa inflorescência de Parietaria judaica. A recetividade dos órgãos femininos está representado a cinzento escuro e a dos masculinos está assinalado com pontilhado cinzento mais claro.
     a) Estrutura da inflorescência: uma flor feminina no centro, rodeada de 6 a 7 flores bissexuais (hermafroditas).
      b) A flor central feminina fica recetiva 3 dias antes das flores bissexuais.
   c) Quando a recetividade feminina das flores bissexuais da periferia se inicia o estigma da flor central unissexual já murchou; este processo desenrola-se em serie, de forma escalonada; a recetividade feminina de uma inflorescência dura até 6 dias.
    d) Após a fase feminina inicia-se a libertação do pólen. Esta também se processa de forma escalonada, passando de uma flor bissexual para a seguinte; o processo completa-se em 1-5 dias, dependendo das condições ambientais.

A ântese (período em que a flor está aberta) começa nas inflorescências basais e processa-se de forma gradual até chegar às flores na parte superior dos caules o que permite que os caules continuem a crescer e a formar mais inflorescências. Este padrão de crescimento possibilita, simultaneamente, o crescimento vegetativo e reprodutivo. Esta é mais uma estratégia que permite o alastramento da espécie.
Após a maturação os periantos das flores bissexuais secam e caiem, ficando debaixo da planta-mãe o que pode resultar num grande banco de sementes naquele pedaço de solo. No entanto, em solos duros e impermeáveis, estes periantos secos, ainda envolvendo as sementes, podem ser arrastados pelas chuvas e ventos fortes.
Por sua vez, os periantos secos das flores femininas e respetivas sementes ficam agarrados às brácteas do invólucro, formando uma estrutura que pode ajudar na dispersão pelo vento ou a flutuar na água.
Os pelos que cobrem os periantos e o invólucro de brácteas são uma ajuda extra na dispersão das sementes ao agarrarem-se ao pelo dos animais ou à roupa e calçado dos passeantes.
Os frutos são pequenos, ovais e brilhantes, de cor escura.
Fruto de Parietaria judaica ao centro, à esquerda brácteas do invólucro e à direita o perianto da flor.
Foto de Leo Michels (Usage:Public Domain).
Muitas vezes Parietaria judaica é confundida com a sua congénere Parietaria officinalis que é muito semelhante mas que não cresce na Península Ibérica. 
Parietaria officinalis
Foto de Franz Xaver. Fonte: Wikimedia Commons
Segundo a Flora Iberica a P. judaica distingue-se de P. officinalis por ser uma erva prostrada ou ascendente com folhas até 5 a 7 cm de comprimento e com perianto tubular até 3 ou 3,5 mm na frutificação. Por seu lado, P. officinalis é uma planta ereta,com folhas até 12 cm de comprimento e com perianto acampanulado até 2,75 ou 3 mm na frutificação.

Parietaria judaica pertence ao género Parietaria um dos cerca de 50 da família Urticaceae, uma das grandes famílias botânicas englobando com mais de 2000 espécies largamente distribuídas pelas regiões tropicais, menos comum nas zonas temperadas, registando-se a maior concentração de géneros e espécies na Ásia tropical. As espécies desta família apresentam uma notável variedade morfológica. Sob o ponto de vista taxonómico é uma família difícil, parcialmente devido ao facto de muitos dos carateres de diagnóstico necessitarem de ser observadas ao microscópio para que haja uma identificação precisa, devido ao seu tamanho diminuto. Por outro lado, muitas espécies foram originalmente classificadas com base apenas em semelhanças morfológicas o que nem sempre comprova a relação entre as espécies tendo-se registado alguns casos de homoplasias, ou seja, as características morfológicas semelhantes são coincidência, tendo surgido independentemente, não representando proximidade genética. Assim, à semelhança do que acontece com tantas outras famílias, Urticaceae tem sofrido bastantes alterações  em resultado de análises filogenéticas as quais permitem estabelecer a relação evolutiva das espécies e determinar a importância relativa dos traços morfológicos para a classificação cientifica.

Texto e fotos de floresdoareal.blogspot.pt 
(exceto quando especificada outra fonte).

Local das fotos de Parietaria Judaica da autoria deste blog: Serra do Calvo/Lourinhã

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Prunella vulgaris L.


Nomes comuns:
Consolda-menor; brunela; prunela; erva-férrea; erva-das-fridas

Prunella vulgaris. Fonte: Wikiwel
A protagonista de hoje é Prunella vulgaris, uma espécie da família Lamiaceae = Labiatae, popularmente denominada família das mentas. Esta erva é comestível e medicinal, podendo ser encontrada em diversas regiões do território português como espécie nativa, seja no continente ou nos arquipélagos de Madeira e Açores. Já foi famosa em tempos e indispensável no alívio de qualquer tipo de maleita, gozando de enorme protagonismo entre a grande variedade de mezinhas que fazem parte da medicina popular. Com a chegada dos produtos farmacêuticos de ação instantânea foi caindo no esquecimento popular e a fama das suas virtudes diluiu-se no tempo, como aconteceu a tantas outras plantas que tão úteis foram aos nossos antepassados. Na dieta das populações também se usavam as folhas, cruas ou cozidas, em saladas, sopas, estufados ou segundo a imaginação e criatividade de cada um. O seu sabor é amargo devido aos taninos presentes na composição dos seus tecidos, mas este travo pode ser suavizado através do truque de escaldar previamente as folhas.
Prunella vulgaris
O seu uso em medicina tradicional é antiquíssimo, tendo sido mencionado pela primeira vez na literatura médica chinesa durante a dinastia “Hanocidental” (206 a.C.-22 d.C.). A fama das suas qualidades terapêuticas chegou, entretanto, a todas as partes do globo e durante séculos foi remédio aconselhado para praticamente todas as maleitas conhecidas do Homem. Os anglo-saxões, com o espírito prático que os caracteriza foram diretos ao assunto, chamando-lhe “heal-all” e "self-heal" o que se traduz, respetivamente por “tudo-cura” e "cura-te a ti próprio", numa clara alusão à facilidade em encontrar o que achavam ser a cura para todos os males, sem necessidade de conselho médico.
Tendo-se tornado uma panaceia quase universal, em medicina ocidental esta erva era principalmente usada externamente para tratar lesões menores como feridas, queimaduras, contusões e ulceras da boca, dores de garganta, inflamação dos olhos e sangramentos, enquanto na medicina chinesa, era usada sobretudo para tratar queixas do foro hepático, atuando como estimulante do fígado e da vesicula biliar. Estudos recentes demonstram e confirmam a ação do ácido rosmarinico presente na composição quimica da planta, na redução de radicais livres ao nível das células hepáticas, preservando a integridade estrutural e funcional do figado.
Todas as partes da planta são medicinais e são usadas principalmente pela sua ação analgésica, antissética, adstringente, antibiótica, antiespasmódica, anti-inflamatória, antitumural, cicatrizante, carminativa, depurativa, diurética, hemostática, febrífuga, hipotensiva, sedativa, vermífuga, vulneraria e tónica. Entretanto, estudos recentes referentes ao uso da planta no tratamento de herpes, cancro, sida, problemas de alergias e diabetes, parecem prometedores. Assim, muitos dos benefícios lendários desta planta parecem estar a ser cientificamente suportados. 
Os constituintes químicos principais incluem taninos, ácido betulinico, acido canfórico, delfinidina, hiperoside, ácido oleanólico, ácido rosmarinico, ácido mirístico, ácido ursolico, ácido laurico, manganês,  beta-sitosterol e lupeol.
Prunella vulgaris
Além dos usos medicinais, Prunella vulgaris pode ser bastante interessante como planta ornamental atapetante, sobretudo em jardins de pedra ou do tipo silvestre, os quais podem mimetizar a natureza e valorizar a paisagem natural. As cores vibrantes das suas inflorescências em tons de roxo, violeta e verde tornam-na muito atraente, além de ser muito melífera. 
Prunella vulgaris
Esta planta requer climas temperados e dá-se bem em pleno sol mas é em situações de sombra parcial que melhor se desenvolve. Cresce em qualquer tipo de substrato e as suas necessidades de humidade são muito variáveis. Embora preferindo o pé bem húmido, uma vez bem estabelecida tolera situações ocasionais de alguma escassez de água, como acontece no fim do verão nas regiões mediterrânicas. De forma geral, encontramo-la em ambientes antropogénicos, em lugares húmidos como a beira de ribeiros, prados, lameiros, clareiras das florestas e pastagens. Nestes lugares cresce até aos 40 ou 60 cm de altura. Também pode aparecer em relvados onde, devido aos constantes cortes poderá não exceder os 5 cm de altura. Em certos locais esta planta é tão comum que mal damos por ela, sobretudo porque a determinada altura os caules vergam com o seu próprio peso e se misturam com as outras plantas.
Prunella vulgaris - Caule subterrâneo, raízes e gemas em fase de abrolhamento
Prunella vulgaris é uma erva perene, ereta ou rastejante, cuja altura varia entre os 5 e os 60 cm. Frequentemente os caules não aguentam o seu próprio peso e descaiem atingindo o solo onde enraízam nos nos pontos onde os nós tocam no substrato, dando origem a novas plantas.
A parte subterrânea desta planta caracteriza-se pela existência de um estreito rizoma, ou seja um ligeiro engrossamento de caules subterrâneos cuja missão é fazer reserva de nutrientes. Estes rizomas formam raízes finas que não só fixam a planta ao solo como também servem para absorver água e sais minerais entre outros compostos necessários ao desenvolvimento da planta. Estes rizomas têm a faculdade de se expandir, crescendo paralelamente em relação ao solo, produzindo, a determinados espaços, nós com gemas. A partir destas gemas surgem novas raízes e folhas, dando origem a novas plantas. Os caules aéreos têm seção quadrangular e a sua cor é avermelhada, apresentando alguns pelos dispersos que vão desaparecendo à medida que a planta envelhece. 
Prunella vulgaris - caules de seção quadrangular com folhas opostas
Os caules são relativamente pouco ramificados e as folhas, também pouco abundantes. As folhas dispõem-se de forma oposta nos caules e possuem pecíolos que podem ser longos ou curtos; o limbo é de cor verde-escura com a página inferior mais clara; a sua forma é ovada ou ovada-lanceolada, com margens inteiras ou com recortes arredondados.
Prunella vulgaris - folhas
Cada folha apresenta uma nervura central com 3 a 7 nervuras secundárias. Podem ter alguns pelos nas margens ou no veio mais proeminente na pagina inferior ou apresentarem-se glabras.
Prunella vulgaris - inflorescência
Esta planta é facilmente identificável pelas suas inflorescências as quais formam uma estrutura semelhante a uma espiga grossa e circular denominada verticilastro. Este tipo de estrutura floral, em que as flores se acomodam em camadas em redor de um eixo floral como se fossem anéis, é muito comum entre as espécies da família Lamiaceae/Labiate.
De notar que durante a época de floração o eixo floral da inflorescência continua a crescer pelo que novos anéis de flores vão sendo acrescentados. No entanto, as flores, cálices e brácteas vão diminuindo de tamanho da base para o ápice da inflorescência, pelo que o diâmetro da “espiga” é menor no ápice do que na base.
Esquema de vestilastros.
Fonte: Plantas y Hongos
As flores de Prunella vulgaris, protegidas pelos respetivos cálices e brácteas, posicionam-se em redor do eixo em grupos de 3 a 6 conjuntos bastante compactados e coloridos em que predominam as cores verde, purpura e violeta. 
Prunella vulgaris
Cada flor está protegida por duas brácteas de cor verde semelhantes a folhas, mas diferentes das folhas caulinares pois têm forma largamente ovada e margens providas de longos cílios brancos; entre a flor e as brácteas situam-se as sépalas, de cor purpura, com forma algo achatada e bordos com 5 dentes rígidos, 3 na parte superior e 2 na inferior. É de dentro das sépalas que surgem os botões florais, de cor violeta que são bem visíveis pois, embora de tamanho diminuto, ultrapassam o cálice em comprimento.
Flores  de Prunella vulgaris - Foto (detalhe) de Michael Gasperl (Migas)
Fonte Wikimedia Commons
As pétalas das flores são zigomorfas ou seja, só são simétricas bilateralmente. Elas estão divididas em dois lobos, formando um lábio superior que é inteiro e côncavo e um lábio inferior subdividido em 3 lóbulos sendo 2 deles estreitos, ladeando o lóbulo central de maior tamanho e que apresenta os bordos dentados. Logo abaixo dos lábios, as pétalas unem-se, formando o tubo da corola que tem a forma de um cone invertido e apresenta um anel de pelos no seu interior.

Prunella vulgaris- detalhes da flor
Foto de Jim Conrad. Fonte Wikimedia Commons
Estas flores possuem órgãos de reprodução masculinos e femininos os quais se formam dentro do tubo da corola. Os 4 estames, organizados em dois pares didínamos (dois grandes e dois pequenos), abrigam-se debaixo do lábio superior. 
Nesta ilustração podemos observar a morfologia particular dos estames que na foto acima é pouco percetivel. Cada um dos filetes se divide em dois braços, um deles com antera e o outro sem antera e com forma pontiaguda.
Fonte Illustrations of the British Flora 1924
O ovário, situado sobre o nectário, divide-se em 4 partes. A partir do ovário desenvolve-se o estilete que cresce por entre os dois estames mais compridos, dividindo-se em dois braços estigmáticos na parte terminal, prontos a receber o pólen trazido de outras flores.
Embora sendo atraída por múltiplos insetos devido ao néctar que produz, esta planta parece estar adaptada para ser fertilizada por abelhas, sendo estes os únicos insetos capazes de chegar ao néctar que está reservado no fundo da corola. O anel de pelos espessos que se encontra na garganta do tubo da corola impede a entrada a outro tipo de insetos mas permite a entrada dos longos probóscides das abelhas que assim conseguem sugar o precioso alimento, enquanto poisam no lábio inferior da flor. Ao fazê-lo as abelhas entram em contacto com o pólen das anteras posicionadas debaixo do lábio superior da flor.
Prunella vulgaris 
Após a polinização, as pétalas deixam de ser úteis e murcham, deixando os cálices com aspeto de envelopes abertos os quais permanecem em função, enquanto os frutos se vão formando e amadurecem.

Prunella vulgaris - sementes
Cada flor produz 4 sementes de forma ovóide, lisas e algo brilhantes.
A floração de Prunella vulgaris ocorre durante a primavera e o verão.

O género Prunella a que pertence esta planta inclui 8 espécies nativas do hemisfério norte, das quais 3 estão presentes em território português. Para além de Prunella vulgaris, acima descrita e que está presente tanto no continente como nas ilhas, existem mais duas espécies nativas e presentes apenas no território continental nomeadamente Prunella grandiflora, que difere de P.vulgaris por ter folhas e flores maiores e Prunella laciniata que tem flores brancas.

Este género pertence à família Lamiaceae = Labiatae, comumente conhecida como família das mentas que inclui mais de 3000 espécies distribuídas por uns 200 géneros, dos quais 29 estão presentes em Portugal. É considerada uma das famílias mais evoluídas entre as dicotiledóneas.

Nota:
As angiospermas dividem-se em dois grandes grupos, monocotiledóneas e dicotiledóneas, assim denominadas, entre outras diferenças, consoante o embrião da semente contenha, respetivamente um ou dois cotilédones. Assim sendo, quando uma semente germina as primeiras “folhas” que aparecem são os cotilédones, um no caso de planta monocotiledónea ou dois no caso de dicotiledóneas. Na realidade, os cotilédones são folhas modificadas que servem de reserva alimentar que ajudam a planta a subsistir durante a fase de germinação, geralmente caindo quando surgem as primeiras folhas verdadeiras.

Os membros desta família são espécies arbustivas ou herbáceas e, caso único entre as famílias botânicas, têm a particularidade de todas elas serem aromáticas e apresentarem propriedades medicinais. Ou seja, muitas outras famílias incluem algumas espécies aromáticas e/ou medicinais mas no caso da família das mentas todas as espécies incluem essas características. São especialmente abundantes na região Mediterrânica e uma parte da Ásia de onde são originárias, mas gradualmente foram sendo introduzidas noutras regiões do globo, encontrando-se, hoje em dia, amplamente distribuídas. Entre os exemplares mais conhecidos desta família podemos nomear as hortelãs, as alfazemas, os orégãos, os tomilhos, as salvias, os rosmaninhos, os alecrins e os manjericões, entre muitas outras.
A importância económica das Lamiaceae/Labiatae é, como se calcula, enorme. À parte o uso caseiro e artesanal, as diversas industrias têm tirado bom partido das qualidades ornamentais, aromáticas e medicinais destas espécies. Assim, são vendidas nos viveiros e utilizadas em paisagismo; depois de secas e devidamente empacotadas são vendidas nos supermercados como condimentos ou chás; através de processos sofisticados são retirados os óleos essenciais os quais são utilizados em aromaterapia e na indústria cosmética e farmacêutica.
Apesar de serem cultivadas em muitos lugares do mundo de clima temperado é na região mediterrânica que estas espécies se sentem em casa e onde medram com mais vigor e concentram os melhores aromas. São espécies que gostam de habitats livres, em encostas de solos tantas vezes pedregosos, vivendo entre outras plantas de baixo porte, que não lhes encobrem o pleno sol e tal como elas estão adaptadas à secura dos verões e às chuvas invernais e primaveris tão características do clima mediterrânico. De forma geral, florescem no verão, altura em que se faz a colheita. Curiosamente, a colheita deve ser realizada ao fim da manhã, momento em que apresentam maior quantidade de óleos essenciais.

A família Lamiaceae/Labiatae é uma das maiores famílias de plantas melíferas. A floração é geralmente abundante e as flores, generosas, não regateiam o néctar, parecendo haver tanto mais deste suco açucarado quanto mais visitantes houver. Aliás, parece haver uma especial relação entre estas flores e as abelhas. A morfologia das corolas, que apresentam um lábio superior e um inferior diferenciados, aparenta ser especialmente adaptada ao corpo destes insetos.


Texto e fotos de floresdoareal.blogspot.pt

(exceto quando especificada outra fonte).

Localização das fotos de Prunella vulgaris da autoria deste blogue: Zambujeira/Lourinhã

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

BOAS FESTAS


Após a chuva podemos alegrar-nos com estes dias de sol esplendorosos. Pouco falta para começar oficialmente o inverno mas as temperaturas continuam amenas e não tarda nada os dias recomeçam a crescer, prometendo a primavera. Os campos e beira dos caminhos começam a cobrir-se de amarelo, a cor “oficial” desta época e as primeiras florinhas a chegar são as Oxalis pes-caprae que apesar de friorentas fazem jus à sua fama e proveito de grandes invasoras.

Entretanto, gozemos as delícias das Festas Natalícias e façamos as promessas da ordem.
BOAS FESTAS para todos e que o ANO de 2017 permita a realização de sonhos e projetos.


terça-feira, 22 de novembro de 2016

Delairea odorata Lem., syn: Senecio mikanioides Walpers

Nomes comuns:
Erva-de-São-Tiago; erva-de-santiago; 
trepadeira-do-Natal; tasneirinha-de-correr 

Foi em fevereiro passado que nos demos a conhecer, eu e a Delairea odorata. No espaço de dias, aquilo que parecia o habitual coberto de um muro de sustentação constituído por diversas espécies de heras, cobriu-se de cascatas de flores amarelas, numa explosão de cor e brilho. Até aquele dia não me tinha dado conta desta espécie trepadeira e ela já tinha vários metros de altura. Das duas uma, ou andei muito distraida ou a "plantinha" se disfarçou bem enquanto tomava conta do local.
De forma sub-repticia, germinou numa linha de escoamento de águas da chuva, a 100 metros da minha casa e, de forma determinada lá foi crescendo, apoiando-se aqui e ali nas plantas mais fortes que foi encontrando no caminho, como quem faz uma escalada. Uma coisa é certa, no ano anterior não estava lá. 
Contudo, o mais surpreendente estava para vir, quando uns dias mais tarde me deparei com nova trepadeira da mesma espécie, dissimulada na beira da sebe de heras que protege o meu jardim do vento sul do inverno. A planta nasceu fora do meu terreno, alimentada pela humidade de uma regueira que corre num nível muito inferior ao do meu muro e lá foi subindo, subindo, até chegar onde queria, para florir por entre as folhas da hera e os losangos da rede, espreitando primeiro de forma algo tímida e depois, criando ânimo, apresentando-se em toda a sua beleza e esplendor.
Esta é uma espécie exótica nativa da África do Sul mais especificamente das regiões de Natal e Cabo, onde o clima é tipicamente mediterrânico (verões quentes e secos e invernos chuvosos). Foi introduzida na Europa meridional e noutras partes do mundo nomeadamente na Califórnia, sudoeste da Austrália, Nova Zelândia, sudoeste asiático onde ocorre até cerca de 650 m de altitude. Apesar do clima do Hawaii ser mais quente que o do habitat nativo, também aí esta espécie se naturalizou, embora apenas ocorra entre os 800 e os 2000 m de altitude, onde as temperaturas são mais frescas.
Delairea odorata foi introduzida na Europa em meados do século XIX, com fins ornamentais, tendo sido incentivado o seu cultivo em jardins e estufas em função da beleza das suas florações suavemente perfumadas e também devido ao seu rápido crescimento e fácil propagação. Contudo, Delairea odorata mostrou-se traiçoeira. POssivelmente apreciadora da liberdade, depressa cortou as “amarras” e fazendo transportar a suas numerosas e leves sementes para fora dos jardins e viveiros, com a ajuda do vento, foi naturalizar-se onde melhor lhe convinha. O pior é que se verificou que não é uma planta recomendável devido à sua tendência em competir com a vegetação autóctone. 
Delairea odorata cresce rapidamente e de forma agressiva. Apesar de não ter gavinhas ou raízes aéreas facilmente encontra forma de subir até às árvores e arbustos mais altos, enrolando-se nos seus troncos e subindo de forma progressiva, privando-os de luz e em casos mais graves, sufocando-os de forma letal. Quando não encontra suporte vertical, Delairea odorata forma tapetes densos que cobrem totalmente o solo matando a vegetação nativa, não só tapando-lhes a luz solar mas também alimentando-se dos seus nutrientes e impedindo que se reproduzam por semente.
Aparentemente as sementes de Delairea odorata não têm nenhum mecanismo que lhe induza dormência pelo que germinam rapidamente, quer se encontrem à superfície ou semi-enterradas no solo e conseguem fazê-lo numa ampla gradação de temperaturas. As sementes são viáveis durante décadas pelo que os bancos de sementes desta espécie se vão acumulando no subsolo.
Encontra-se de preferência em locais húmidos como margens de linhas de água, pastagens, bosques húmidos, beira dos caminhos florestais e ambientes ruderalizados, perto de habitações.
Esta espécie invade geralmente as zonas litorais onde o clima é mais fresco e também mais húmido, o que não impede que ocorra em locais moderadamente secos ou até mesmo secos. É resistente a geadas ligeiras e existem registos da sua presença em arribas do litoral onde está exposta aos salpicos salgados da água do mar. Tanto cresce em pleno sol como na sombra e não é esquisita no que toca ao tipo de solo desde que seja fértil. É, pois, uma espécie com feitio acomodaticio e flexivel, cuja excelente adaptabilidade é a chave do seu sucesso como planta invasora.
De notar que não só altera o habitat das espécies nativas mas também afeta a vida da fauna, com especial incidência nas zonas ribeirinhas pois possui alcaloides bastante tóxicos capazes de envenenar os ambientes aquáticos. A planta também é considerada tóxica para o gado e para os humanos.
Delairea odorata é, como já vimos, uma trepadeira vigorosa, de folhagem perene, cujos caules longos e volúveis são herbáceos em quase toda a sua extensão exceto na base que é algo lenhosa. 
Os caules volúveis.
Os caules emitem ramificações que rapidamente crescem e, sendo bastante fracos e flexíveis, logo procuram suporte, enrolando-se em qualquer estrutura que encontrem à sua beira. Com o tempo tornam-se mais grossos, embora não excedendo os 10 mm de espessura. O seu aspeto é carnudo e partem-se com facilidade, enraizando com facilidade a partir do mais pequeno pedaço. Também os nós que tocam no solo criam raizes com facilidade. São verdes, por vezes avermelhados, glabros (sem pelos) e com seção cilíndrica. 
As folhas lobadas são semelhantes às da hera.
As folhas surgem na extremidade de longos pecíolos; são finas mas de aspeto carnudo com limbos de cor verde, encerado e brilhante; dispõem-se nos caules de forma alternada e estão divididas em vários lobos triangulares com a base recortada, de forma muito semelhante às folhas de hera; são fragrantes quando esmagadas. As folhas da parte superior da planta são mais pequenas que as da parte de baixo.
As florinhas reunem-se em capitulos que por sua vez constituem os corimbos.
As inflorescências de Delairea odorata são corimbos muito densos que surgem na axila das folhas na extremidade dos ramos e que são constituídos por numerosos capítulos (de 15 a 50). 
Aqui, as flores ainda estão fechadas o que nos permite observar as brácteas que formam
 o invólucro e as bractéolas abaixo dos invólucros.
As 8 a 12 florinhas que formam cada capítulo inserem-se num recetáculo em forma de disco, formando um conjunto que é protegido por umas 8 a 10 brácteas de cor verde que formam um invólucro cilíndrico com metade do tamanho das flores. Na base do invólucro existem 2 (por vezes 4) bractéolas, também de cor verde e que são características desta espécie e por conseguinte, importantes para a sua identificação. 
As florinhas abertas apresentando os bordos lobados e os braços estigmaticos aguardando pelo polen
As florinhas, de um amarelo brilhante são afuniladas, com corolas em forma de tubo com bordos divididos em 5 lobos revirados para fora. Ao contrário de muitas outras espécies da mesma família (Asteraceae) as florinhas de Delairea odorata não têm lígulas, semelhantes a pétalas. Todas as flores são perfeitas, ou seja, estão equipadas com órgãos reprodutores masculinos e femininos. Os filamentos dos estames são um pouco mais compridos que as corolas e juntamente com as anteras formam uma espécie de cone. Emergindo do ovário, o estilete é filiforme e termina num estigma com dois braços, distintamente salientes e cujas extremidades são truncadas e divididas em segmentos filamentosos paralelos e muito finos formando uma espécie de franja. Curiosamente, o estilete e os estames desta espécie estão unidos na base, formando uma coluna comum, separando-se apenas na parte superior. 
As flores são suavemente perfumadas o que justifica o epiteto especifico de odorata. 
As flores são polinizadas por insetos, não havendo registo de autopolinização. De facto esta é uma espécie protândrica, ou seja, as anteras amadurecem antes dos órgãos femininos. Acontece que as anteras abrem e libertam o polen enquanto as florinhas ainda estão fechadas mas a autopolinização nesta fase parece pouco provável porque os estigmas ainda estão unidos e mantêm-se muito apertadinhos dentro da corola fechada. A polinização acontece apenas depois que o estilete se tiver alongado para um nível superior ao das anteras, altura em que se divide em dois braços, expondo a superfície estigmática que é recetiva ao pólen trazido de outras plantas pelos insetos.
Cada florinha de cada capitulo se transforma numa semente com a sua coroa de pelos fofos, o papilho
Depois de polinizadas as flores dão origem a inúmeros frutos denominados cipselas e que são constituídos por uma semente quase cilíndrica e uma coroa de pelos denominada papilho.
Semente e papilho
Impulsionado pelo vento, o papilho ajuda a semente a viajar longas distâncias, numa ou mais viagens de parapente.
 
Distribuição de Delairea odorata em Portugal continental. Fonte.
Em Portugal Delairea odorata distribui-se pelo litoral norte e centro do território continental, na ilha da Madeira e na maioria das ilhas dos Açores. Geralmente floresce durante o inverno, entre os meses de janeiro e março.
A forma mais efetiva de evitar a sua dispersão é o arranque manual, tendo o cuidado de descartar em local próprio todos os pedaços da planta, pois ela não se reproduz só por semente, mas também vegetativamente. Qualquer segmento de caule que caia no chão ou seja transportada pela água, tem boas probabilidades de enraizar. Não deve, pois, ser adicionada aos resíduos de jardim.
O método mais utilizado na sua erradicação inclui produtos químicos, os quais são nocivos para a fauna e flora e que cada vez são menos eficazes no seu objetivo pois as plantas vão criando resistência aos químicos, embora continuem a poluir o ambiente.
Nos últimos anos têm sido estudados métodos de controlo biológico que não degradem ainda mais o ambiente. Foi proposto utilizar-se a traça (Digitivalvadelaireae) e a mosca (Parafreutretaregalis), inimigos naturais da planta na Africa do sul e que poderão causar grande dano comendo as folhas de Delairea odorata, minando os caules e neles colocando o seus ovos. Nos Estados Unidos, nomeadamente no estado da Califórnia, que é o estado mais atingido, foi já  autorizada a largada da traça acima referida, pela USDA-APHIS Technical Advisory Group on Biological Control of Weeds.  

Delairea odorata pertence à família Asteraceae, a maior das famílias botânicas de plantas de flor. Esta planta em particular está muito relacionada com o género Senecio no qual já esteve incluída com o nome Senecio Mikanioides, classificação que muitos continuam a usar. No entanto esta espécie foi transferida para o género Delairea do qual é a única representante. A principal característica que a diferencia de Senecio são as bractéolas que se situam na base do invólucro. 

No que diz respeito à taxonomia esta espécie tem um historial muito confuso devido à sua publicação quase simultânea por dois autores diferentes. 
A primeira descrição cientifica da planta e da sua inclusão no género Delairea Lem. foi publicada em 1844 por Lemaire que a descreveu como “espécie distinta diferindo de parentes próximos pelo papilho unisseriado, capítulos com flores todas hermafroditas, etc”.
Em 1845 Walpers publicou a descrição de uma planta largamente cultivada na Alemanha (só posteriormente  se percebeu que era a mesma a que se referia Lemaire) e que ele denominou Senecio mikanioides Otto ex Walpers ou Senecio mikanioides Wapers, mencionando que já se lhe tinha referido numa anterior publicação, embora sem carater formal. 
Numa publicação posterior, a planta foi confirmada no género Senecio por Harvey (1894). Mais recentemente, em 1986 e também em 1992 o botânico Jeffrey publicou varias revisões do género Senecio, tendo voltado a incluir a planta no género Delairea com o nome cientifico Delairea odorata Lem., baseando-se na forma acampanulada do limbo da corola e outras características morfológicas. Entretanto, cada vez mais taxonomistas se põem de acordo com a nova classificação. Apesar disso, nota-se ainda uma grande habituação ao nome antigo, o que não é de estranhar.

Texto e fotos de floresdoareal.blogspot.pt
(exceto quando especificada outra fonte).

Fotos:Serra do Calvo/Lourinhã