"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Abutilon theophrasti Medikus

Nomes comuns:
Folhas-de-veludo, malvão, juta-da-china

Foi no recanto do jardim reservado ao cultivo de frutos e legumes que vi pela primeira vez esta linda herbácea de folhas aveludadas. Quase escondida pela produção exuberante dos tomateiros, só em finais do verão dei por ela. Pelo seu pequeno tamanho  - considerando os padrões de exigência de uma planta anual - é possível que tenha germinado tardiamente. 
Apesar das flores incipientes era óbvio que já tinha florido anteriormente pois foram os frutos que primeiro chamaram a minha atenção. Era um exemplar solitário e completamente diferente das outras ervas que costumam invadir os canteiros da pequena horta. Certamente foi trazida de longe por alguma pequena ave, talvez, quem sabe, uma oferenda ou proposta de amizade... 
Deixei passar algumas semanas enquanto observava o seu desenvolvimento e tentava identifica-la. Entretanto, abriram as flores de tom amarelo e amadureceram os frutos mas Infelizmente as chuvas que este ano chegaram precocemente e de forma persistente deterioraram o que restava dos tomates e foi necessário arranca-los rapidamente, o mesmo acontecendo com as infestantes habituais que este ano atacaram com força redobrada. 
Quando dei por isso, da bela planta nem rasto, devidamente despejada juntamente com as suas “comadres” no contentor apropriado aos lixos biológicos. Mas, mais ano menos ano, ela voltará seguramente a germinar no mesmo local, pois algumas sementes terão ficado no solo. Quando tal acontecer, se eu desejar deixa-la crescer terei de ter o cuidado de recolher os frutos antes que as sementes amadureçam, evitando assim a sua proliferação. É que, identificada a espécie, Abutilon theophrasti, fiquei a saber que é uma infestante exótica e altamente invasora, habitual em grandes plantações de milho e soja. No nosso país a sua presença está assinalada principalmente no Douro litoral e Ribatejo.

Abutilon theophrasti é por vezes cultivada em jardins mas aparece principalmente em áreas de resíduos, bermas dos caminhos, terrenos baldios, na proximidade de currais e em campos cultivados ou incultos. Na realidade é uma espécie tipicamente ruderal e infestante que coloniza os habitats modificados pelo Homem e enriquecidos com os fertilizantes das práticas agrícolas. 
A área de distribuição nativa de Abutilon theophrasti vai do sudeste asiático até ao centro da região mediterrânica. Na China já era cultivada intensamente há 3000 anos. Era utilizada principalmente para obter fibras usadas na confeção de fios, cordas, tapetes, sacos, pano grosso, sapatos, redes de pesca, papel e na calafetagem de barcos; em medicina alternativa usavam-na para tratar febres, disenteria e problemas estomacais; como alimento, as sementes, de sabor semelhante às do girassol, eram consumidas cruas (depois de tratadas para perderem o gosto amargo) ou usadas para fazer farinha depois de secas. Hoje em dia, contudo, existem alternativas mais rentáveis e saborosas pelo que se pode dizer que a planta deixou de ser apelativa.
Entretanto, através do Mediterrâneo, Abutilon theophrasti foi abrindo caminho para a Europa e o resto do mundo.
Abutilon theophrasti foi introduzida na América do Norte pelos ingleses antes de 1750, como uma potencial produtora de fibras. A ideia dos investidores era conseguir uma fonte de fibras que os tornasse autossuficientes nesse campo, em vez de estarem dependentes das fibras importadas.
No mundo de hoje, em que dispomos de uma variedade imensa de materiais sintéticos, é difícil imaginar como as fibras vegetais eram importantes para a sociedade de há centenas de anos. Todos os setores da vida doméstica ou comercial estavam delas dependentes, de uma forma ou outra. As fibras eram usadas não só na confeção de têxteis, cestaria, manufactura do papel mas também na construção civil, pesca e navegação marítima. Por exemplo, as correntes metálicas só foram introduzidas nos navios em meados do século XIX, sendo até então utilizadas grande quantidade de cordas, compridas e grossas, manufaturadas a partir de fibras vegetais.
Convento de Cristo - Tomar
Um belo exemplo do estilo Manuelino, em que as cordas se salientam como elemento decorativo
Podemos fazer apenas uma pálida ideia dos quilómetros de cordame que foram necessários durante a campanha dos descobrimentos, da dificuldade em conseguir tamanha quantidade de fibras e de quantas plantas foram sacrificadas para que novos mundos fossem alcançados. As cordas eram de tal forma importantes que constituíram um dos elementos decorativos mais repetidos pelos artistas do estilo Manuelino.
No Novo Mundo o projeto de uma indústria própria para a produção de fibras através de Abutilon theophrasti foi alvo dos esforços dos agricultores americanos durante mais de um século, mas nunca foi um sucesso comercial. Em vez disso, o plantio persistente desta planta tornou-a numa praga agrícola causando prejuízos avultados, chegando atualmente a reduzir as colheitas de milho e soja em cerca de 34%, só nos Estados Unidos e Canadá, apesar do uso intensivo de herbicidas. O mesmo se passa em alguns países do sudeste europeu, nomeadamente Alemanha, Republica Checa e Hungria.
De notar que cada planta de Abutilon theophrasti produz entre 800 a 17000 sementes as quais se mantêm viáveis no solo durante 4 a 5 décadas estabelecendo um banco de sementes tão abundante e resistente que torna praticamente impossível o controlo da espécie. Uma vez germinada, a planta torna-se altamente competitiva, concorrendo com as espécies agrícolas pela luz do sol, espaço no solo, por água e nutrientes. Além disso segrega substâncias alelopáticas cuja composição química impede que outras plantas se desenvolvam em seu redor.
Abutilon theophrasti é uma espécie anual que se desenvolve a partir de um caule ereto e vigoroso o qual se ramifica na parte superior formando um pequeno arbusto que pode alcançar mais de 1,5 m de altura.
O caule e os ramos estão densamente cobertos por curtos pelos estrelados e simples que lhe dão um toque aveludado.
As folhas têm peciolos longos e dispõem-se nos ramos de forma alternada; a venação é palminérvea; quanto à forma, as folhas são cordiformes (em forma de coração) ou arredondadas, com a extremidade aguda e ligeiramente curva; as margens apresentam pequenos dentes; são discolores porque a face superior tem um tom de verde diferente da página inferior; ambas as faces estão cobertas por pelos que as tornam macias e aveludadas ao toque.
As flores, providas de órgãos reprodutores masculinos e femininos, surgem na axila das folhas superiores e agrupam-se em inflorescências do tipo cimeira ou são solitárias. A corola é formada por 5 pétalas de um tom amarelo intenso, de forma obovada e com um pequeno entalhe na extremidade. O cálice é constituído por 5 sépalas cobertas por pelos e unidas na metade inferior e que continuam a crescer até à maturação dos frutos. Não existe epicálice. O androceu é formado por numerosos estames fundidos até certa altura, formando um tubo ao redor do ovário e depois livres entre si. A fecundação faz-se principalmente por autopolinização embora também possa ocorrer polinização cruzada com auxílio de insetos.
O fruto de Abutilon theophrasis é um esquizocarpo, densamente coberto por pelos, primeiro de cor verde, tornando-se quase preto ao atingir a maturação. 
O esquizocarpo é semelhante a uma cápsula circular, maior que o cálice e constituída por 12 a 15 mericarpos presos a uma coluna central e que permanecem intactos até à maturação. Os mericarpos estão dispostos como os gomos de uma laranja, e têm 3 faces: a dorsal ligeiramente côncava e estreita e as laterais planas, lisas e glabras.
Parte superior do esquizocarpo com sementes maduras
Foto de Invasive.org

Cada mericarpo contém 2 ou 3 sementes que são libertadas através de uma abertura situada no ápice. As sementes, achatadas e glabras, apresentam coloração escura e forma de rim.
A floração ocorre principalmente durante os meses de julho e agosto.
Uma vez iniciada a floração cada planta produz sementes de forma contínua até à chegada dos primeiros frios. As sementes amadurecem cerca de 20 dias após a abertura das flores. Cada esquizocarpo produz entre 25 a 45 sementes pelo que uma planta grande pode produzir varias centenas de mericarpos e milhares de sementes. As sementes maduras sao rapidamente disseminadas pelo vento, agarradas ao pelo de algum animal ou misturadas com as colheitas. De notar que passam incolumes pelo trato digestivo dos animais, se deglutidas.
Abutilon theophrasti pertence à familia Malvaceae que constitui uma das grandes famílias botânicas, abarcando atualmente mais de 4225 espécies, agrupadas em cerca de 243 géneros. Até há pouco tempo esta família era bem mais pequena mas após estudos filogenéticos, passou a englobar outras famílias.
Esta família reúne espécies que se distribuem por todos os continentes (exceto as regiões mais frias), havendo uma maior representatividade nos trópicos. É constituída principalmente por trepadeiras, herbáceas, arbustos e árvores estando o cacaueiro (Theobroma cacao)  e os algodoeiros (Gossypium spp) entre os seus representantes mais conhecidos. Muitas espécies desta família têm importância relevante em paisagismo. As espécies arbóreas de grande porte são indicadas para arborização de grandes parques e jardins enquanto certas espécies arbustivas, como os Hibiscus spp ou Abutilon spp também podem ser usadas em jardins familiares, em maciços ou como exemplares isolados. Estas espécies têm grande potencial ornamental. Desenvolvem-se bem na terra ou em vaso e têm a vantagem de ter uma floração muito abundante e prolongada.
Abutilon theophrasti está hoje em dia incluída no género Abutilon mas já esteve incluída no género Sida com o nome de Sida abutilon L. (basónimo de Abutilon theophrasti Medikus).

Fotos: Serra do Calvo/Lourinhã - exceto onde especificado

- Para ver um pequeno filme sobre a planta Abutilon theophrasti e a forma de recolher as fibras, clique AQUI.
- Clicando AQUI pode aceder a uma galeria de fotos de híbridos de Abutilon, especialmente preparados para fins ornamentais. 

domingo, 21 de dezembro de 2014

Neste Natal...


Arribas do Caniçal
Num dia tão luminoso como foi o de hoje, eu diria que o próprio sol se aliou a um esplendoroso céu de tom azul-cobalto para comemorar o solstício de inverno. Assim se inicia a estação mais fria do ano no hemisfério norte, época em que a maioria das plantas parece adormecida. Em contrapartida está na altura dos trabalhos profundos no jardim. Há que recolher as folhas murchas, podar os arbustos e árvores, limpar o solo de ervas não desejadas e principalmente arranjar os canteiros e fazer as sementeiras que irão dar vida e cor na primavera e inicio do verão. Este ano seja ousado e aproveite para fazer algumas experiências pois essa é a parte divertida da jardinagem. Semeie plantas autóctones; estão menos sujeitas a doenças, são económicas no gasto de agua e manutenção, estão adaptadas ao nosso clima e são muito apreciadas principalmente em países estrangeiros onde a jardinagem é levada muito a sério. Saiba como conseguir as sementes de espécies nativas em Sementes de Portugal.

Como presente de Natal para todos quantos têm tido a amabilidade de seguir este blog trago algumas fotos de uma espécie autóctone que floresce brevemente em maio mas cujas flores se transformam em lindos frutos que alegram o meu jardim durante todo o outono e inverno. Esta espécie é a Iris foetidissima. Veja mais detalhes AQUI





Desejo alegres festividades para todos. Mas, acima de tudo, que o ano de 2015 vos traga a concretização dos sonhos ainda não realizados.

"Foi o tempo que dedicaste à tua rosa que fez a tua rosa tão importante"
O pequeno príncipe - Antoine de Saint-Exupéry



quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Geranium rotundifolium L.

Nome Comum: Gerânio-peludo

Geranium rotundifolium é o tema de hoje. Assim se encerra o ciclo Geranium no qual foram incluídas algumas espécies pertencentes ao referido género e que, até à data, observei pessoalmente nesta região.
Geranium rotundifolium partilha com as suas congéneres a frescura verde-musgosa das folhas, o recato das flores rosadas e a determinação em adaptar-se ao meio ambiente e até expandir-se. Apesar de partilharem os mesmos espaços e recursos, não rivalizam nem se enfrentam, antes se entrelaçam docemente numa quase promiscuidade. Contudo, no seu jeito manso cada uma destas espécies consegue imprimir a sua personalidade própria, destacando-se das demais.
Na aparente uniformidade característica de Geranium descobrem-se algumas dissemelhanças merecedoras de algo mais do que aquilo que foi dito no texto introdutório AQUI e foram elas que me levaram a dar atenção individualizada a cada uma destas espécies, perfeitamente merecida, embora necessariamente repetitiva em alguns aspetos.  
Geranium rotundifolium é nativa do norte de África e sul da Europa, sobretudo da região mediterrânica, tendo sido introduzida noutras partes do mundo onde está naturalizada. Nos últimos anos tem-se registado alguma expansão para norte da Europa, estando mais abundante em locais onde era extremamente rara e aparecendo esporadicamente em países setentrionais onde nunca antes tinha sido vista. São os seus atributos ecológicos e fisiológicos, aliás partilhados por outras espécies do mesmo género e já antes mencionados, que lhe permitem adaptar-se com tal sucesso a ambientes humanizados.
No nosso país está presente como espécie nativa em Portugal continental e arquipélago da Madeira e naturalizada no arquipélago dos Açores. Os seus habitats naturais são locais sombreados nas orlas dos bosques, pinhais e dunas. Aparece ainda na beira dos caminhos, orla dos campos cultivados ou de pousio, fendas dos muros e outros locais de perfil ruderal mas com boa humidade edáfica.
Geranium rotundifolium reproduz-se por semente e tem apenas um ciclo vegetativo, ou seja, é uma espécie anual. Germina logo que chegam as primeiras chuvas de outono e floresce e frutifica, espalhando novas sementes, a partir de março. De todas as espécies Geranium que crescem espontaneamente em Portugal, Geranium rotundifolium é a que tem uma floração mais prolongada, podendo ainda nesta altura do ano, nos fins de dezembro, ver-se alguns indivíduos com flores e frutos.
Com 10 a 40 cm de comprimento, os caules são tenros e verdes ou com coloração avermelhada. São eretos ou ascendentes e estão cobertos de pelos suaves compridos não glandulíferos e também por pelos glandulíferos curtos, situação que se repete em todas as partes da planta.
As primeiras folhas formam uma roseta. Conforme se desenvolvem os caules, as novas folhas dispõem-se neles de forma oposta. Quase todas as folhas apresentam longos pecíolos. O limbo foliar, com 5 ou mais nervuras, é arredondado, peludo e está dividido em 7 a 9 lóbulos pouco pronunciados, os recortes não excedendo metade da aba da folha; ambas as faces estão cobertas com pelos geralmente não glandulosos.
As folhas desta planta são muito arredondadas se as compararmos com outras do mesmo género. O termo rotundifolium que dá nome à espécie reflete essa característica e deriva do latim: rotundus = redonda e folius= folha.
As flores, de tamanho diminuto nascem aos pares no topo de um pedúnculo comum que se subdivide. As 5 pétalas, de cor rosa ou lilás são iguais, inteiras, livres e direitas na extremidade. 
As 5 sépalas que envolvem o botão floral e que formam o cálice são livres, mais curtas que as pétalas e de forma ovalada, terminando numa ponta curta, aguda e rígida. São de cor verde, com estrias mais escuras e densamente cobertas de pelos glandulíferos e não glandulíferos.
Anteras amarelas e braços estigmáticos de cor purpura
As flores são completas, ou seja, dispõem de órgãos reprodutores masculinos e femininos. No androceu existem 10 estames férteis cujos filetes estão cobertos de pelos finos na metade inferior e que se dilatam progressivamente em direção à base, onde se encontram os nectários. As anteras amarelas produzem pólen da mesma cor.
O pistilo tem um ovário formado por 5 carpelos encimado pelos correspondentes 5 estiletes e estigmas de cor purpura ou rosa escuro.
O fruto de Geranium rotundifolium é um esquizocarpo formado por 5 mericarpos independentes, unidos por fibras denominadas aristas a uma coluna alongada (em forma de bico de ave), a qual é formada pelo conjunto do estilete e estigma que se alongaram e continuaram a crescer até à maturação completa.
A dispersão das sementes das espécies do género Geranium é feita por explosão  violenta, como já vimos AQUI, AQUI  e AQUI. Tal acontece devido às propriedades higroscópicas das aristas. À medida que vão ficando desidratadas e distorcidas as aristas acumulam tensão semelhante à de um elástico esticado, de modo que, chegado o momento da rutura, se dobram repentinamente, catapultando as sementes a considerável distância da planta-mãe. 
Fonte Flora-on
Foto de João D. Almeida
Como vimos, as sementes das espécies Geranium desprendem-se de baixo para cima e quando a coluna se curva, por vezes arrasta consigo tiras da epiderme da coluna as quais ficam encaracoladas ou fazendo arco, ficando o mericarpo agarrado na extremidade quando as sementes são ejetadas para fora dele.


À primeira vista Geranium rotundifolium pode ser confundido com Geranium molle. Ambas as espécies se distinguem por vários fatores mas o principal é a morfologia das flores cujas pétalas têm margens inteiras em G. rotundifolium e entalhadas em G. molle.
Quadro comparativo entre as flores de Geranium molle - à esquerda e Geranium rotundifolium à direita
Fonte: Flora-on
Foto de Geranium molle - Ana Julia Pereira
Foto de Geranium rotundifolium -  Patricia Pinto Silva

Já constatamos que do ponto de vista terapêutico popular as espécies Geranium são muito apreciadas e Geranium rotundifolium não é exceção. Esta planta é usada pelas suas propriedades adstringentes e analgésicas.

Fotos: Serra do Calvo - Lourinhã, exceto quando especificado

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Geranium purpureum Vill.

Nomes comuns: 
Erva-de-são-roberto;
bico-de-grou; bico-de-grou-robertino;  
erva-de-são-roque; erva-roberta; pássara

Geranium purpureum
A expansão das atividades agrícolas conta-se entre os muitos fatores associados às atividades humanas que causaram perturbação no equilíbrio dos habitats naturais. O abate intensivo de florestas, realizado ao longo de milénios, levou ao declínio populacional de algumas espécies vegetais. Em contrapartida, outras espécies tiraram partido da situação e aumentaram as suas populações de forma significativa tendo-se adaptado a ambientes mais ou menos artificializados pela ação humana. Essas espécies denominam-se ruderais (do latim ruder = cascalho) e caracterizam-se por uma grande diversidade florística. 
Echium plantagineum
Flores de todas as cores e morfologias sucedem-se ao longo do ano, alegrando pequenos e grandes espaços e servindo de alimento a muitas espécies de insetos; muitas delas são aromáticas, outras já se tornaram indispensáveis na farmácia do povo. 
Dittrichia viscosa
Crescem em zonas rurais ou suburbanas de preferência em cascalheiras, montes de entulho, campos baldios, fendas de muros e beiras de caminhos. O tipo de solo é-lhes geralmente indiferente mas procuram espaços enriquecidos em matéria orgânica. Não é que sejam gulosas, embora da fama não se livrem. 
Papaver rhoeas
Mas a verdade é que elas necessitam do suprimento nutricional adequado  ao seu curto ciclo de vida, tendo não só  a obrigação de crescer rapidamente mas também desenvolver flores, frutos e sementes férteis, tudo no espaço de uma estação.
Geranium purpureum
Contudo nem todas as plantas que vemos a crescer em meios antropogénicos são estritamente ruderais, podendo encontrar-se também em ambientes mais naturais. É o caso de Geranium purpureum uma espécie silvestre que também é nitrófila e ruderal. É fácil encontrá-la na vizinhança das populações rurais, especialmente em espaços por onde transitam humanos e gado mas também em matagais, pinhais, sebes, taludes, na orla dos bosques ou sob coberto das árvores pois aprecia os locais sombreados mas não demasiado secos. Esta espécie é nativa do norte de África, sudoeste asiático e continente europeu, com especial incidência na região mediterrânica. E uma espécie autóctone muito comum em quase todo o território de Portugal continental assim como no arquipélago da Madeira. Também existe em algumas ilhas do arquipélago dos Açores, onde se naturalizou.
Pertence ao género Geranium o qual se inclui na família Geraniaceae que, como já AQUI vimos, são grupos cheios de interesse. 
Geranium purpureum é uma pequena planta herbácea cuja altura varia entre os 10 ou 35 cm de altura. O seu ciclo de vida é anual e inicia-se no outono com a germinação das sementes, florescendo e frutificando de março a agosto do ano seguinte. Exala um forte odor que para alguns é agradavelmente aromático, para outros nem por isso, contudo não deixa de ser muito característico.
Os caules são delgados, avermelhados e de seção cilíndrica; podem ser eretos, ascendentes ou mesmo prostrados e estão cobertos de pelos glandulares e não glandulares, sobretudo na parte superior; são ramificados desde a base e formam pequenas moitas.
As folhas, com pelos em ambas as páginas, colocam-se nos caules de forma oposta, ligando-se a eles através de longos pecíolos.
Apresentam limbo de contorno triangular ou pentagonal, profundamente dividido em 3 a 5 segmentos que por sua vez se subdividem em segmentos secundários oblongos. 
As estipulas, de forma ovada, são glabras embora providas de pelos finos nas margens.
Tal como acontece com os caules, as folhas podem tornam-se avermelhadas, podendo apresentar vários tons de verde e vermelho, em simultâneo. O nome específico purpureum refere-se precisamente à coloração vermelha das folhas e caules.
As pequeníssimas e delicadas flores surgem aos pares nas axilas das folhas superiores, no topo de pedúnculos longos e peludos, com pequenas bractéolas avermelhadas na base.
Cada corola é formada por 5 pétalas inteiras e de cor rosa-malva, com veios mais escuros, possivelmente linhas que conduzem os insetos polinizadores às bolsas de néctar, localizadas na base de cada pétala. 
O cálice é composto por 5 sépalas estreitamente lanceoladas e mais curtas que as pétalas, com pelos glandulares densos e margens escariosas, firmes e translucidas. 
Existem órgãos femininos e masculinos em cada uma destas flores. Os estames são 10, todos férteis e fornecem pólen amarelo a partir de anteras também amarelas. O ovário é formado pela união de 5 carpelos e dele emerge um estigma que se divide em 5 braços filiformes de cor rosa ou purpura.
A polinização é feita por insetos mas à semelhança de outras espécies do mesmo género (e.g. Geranium molle  e Geranium dissectum  ) o Geranium purpureum é autocompativel, ou seja, está preparado para complementar a fertilização através da  autopolinização, assegurando a produção de sementes viáveis, quer receba a vista dos insetos, quer não. Planta prevenida...
O fruto de Geranium purpureum é formado por 5 mericarpos independentes, unidos por fibras denominadas aristas, a uma coluna alongada (em forma de bico de ave) a qual é formada pelo conjunto do estilete e estigma que se alongam e continuam a crescer até à maturação completa.
A dispersão das sementes das espécies do género Geranium é feita por expulsão violenta, como já vimos anteriormente. Tal acontece devido às propriedades higroscópicas das aristas (fibras que seguram os frutos). À medida que vão ficando desidratadas e distorcidas as aristas acumulam tensão semelhante à de um elástico esticado, de modo que, chegado o momento da rutura, se dobram repentinamente, catapultando as sementes a considerável distância da planta-mãe. Contudo, existem algumas diferenças de espécie para espécie na forma como este processo se desenrola. É como se cada uma delas necessitasse de impor alguma da sua personalidade própria, individualizando um processo demasiado uniforme e previsivel.
No caso de Geranium purpureum as sementes são catapultadas não só com  a membrana do mericarpo que as envolve, num processo semelhante ao de Geranium molle, mas também com  dois fios finos. Não se sabe exatamente para que servem estes fios mas possivelmente será para se agarrarem a qualquer outra planta, ferrramenta muito útil no caso de terrenos muito inclinados.
Semente de G.robertianum agarrada à arista e aos dois fios que lhe servem de freio, situação semelhante à de G.purpureum
Fonte
De notar que Geranium purpureum é muito semelhante a outra espécie do mesmo género Geranium robertianum L. com a qual pode facilmente ser confundida. Ambas as espécies têm características morfológicas muito semelhantes a olho nu e convivem nos mesmos habitats.
A principal diferença está no facto de que todas as partes de G.purpureum são mais pequenas que as de G. robertianum, especialmente no que diz respeito ao tamanho da flor. Outra diferença facilmente detetável é a cor das anteras que são amarelas no Geranium purpureum e laranja escuro no Geranium robertianum.

A- flor de Geranium purpureum
B- flor de Geranium robertianum

Por Yeo, 1973
Fonte - Pavol Elias Jun.Dept of Botany, Slovak University of Agriculture


Devido à sua semelhança morfológica há quem considere que G.purpureum e G. robertianum são subespécies ou híbridos, contudo para a maioria dos cientistas não restam duvidas de que se trata de espécies diferentes. Algumas das diferenças estão registadas neste quadro:
Fonte - Pavol Elias Jun.Dept of Botany, Slovak University of Agriculture

À esquerda - semente de Geranium purpureum
À direita - semente de Geranium robertianum
Fonte
O forte e característico odor exalado pela planta deve-se aos componentes que entram na sua composição química, com referência especial para os taninos. Estes metabólitos secundários dão-lhe o sabor amargo mas também lhe conferem  as suas propriedades terapêuticas, sendo usada pelas populações em infusões e cataplasmas,  há centenas de anos. Diz o povo que tem propriedades anti-inflamatórias, antibacterianas, antidiarreicas, anticancerígenas, entre outras e que é especialmente eficaz como purificadora do sangue e do fígado. 
A utilização de certas plantas como medicamentos é praticamente tão antiga como a espécie humana e está mais do que provado que as espécies vegetais continuam a ter grandes potencialidades farmacêuticas. Mas, como em tudo, é necessário observar certas regras e seguir os conselhos de quem tem os conhecimentos necessários. Se resolver fazer a recolha pessoalmente certifique-se que identificou corretamente a planta e que nenhuma outra vem misturada. Por outro lado informe-se sobre quais são as partes da planta que deve usar e qual a forma correta de o fazer.

Fotos: Serra do Calvo e Caniçal/Lourinhã exceto quando especificado