"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





domingo, 19 de Outubro de 2014

Helminthotheca comosa (Boiss.) Holub

Helminthotheca comosa (Boiss,) Holub = Picris spinifera Franco

Nomes comuns:
Raspa-saias-espinhosa; repassage

O meu post anterior foi dedicado à espécie Heminthotheca echioides , tendo sido feita uma breve introdução à sua nova taxonomia. Pois bem, a espécie que apresento hoje, mais conhecida por Picris spinifera, encontra-se na mesma situação ou seja, foi também transferida de Picris para o género Helminthotheca.
Nota: as outras duas espécies relacionadas, endémicas da Península Ibérica e que ocorrem em Portugal, não sofreram alteração de género , mantendo-se em Picris. Refiro-me a Picris hieracioides subsp. longifolia (Boiss. & Reut.) P.D.Sell (norte de Portugal) e a Picris willkommii Nyman (Algarve).
Helminthotheca comosa é uma planta herbácea e de aspeto espinhoso, autóctone do sul e oeste da Península Ibérica, com grande incidência em Portugal. Cresce em solos pedregosos e ressequidos, mais frequentemente em clareiras de matos ou bosques de espécies tipicamente mediterrânicas.
É uma espécie bienal ou perene de vida curta que seca no verão para ressurgir na primavera seguinte, as primeiras folhas formando uma roseta rente ao solo. 
Os caules que surgem desta roseta podem ir dos 30 aos 90 cm de altura e são eretos, ramificados na metade superior, com acúleos cobertos de um indumento formado por pelos minúsculos e espinhosos (os acúleos diferem dos espinhos porque ao contrario destes não estão ligados ao caule por feixes vasculares, sendo por isso mais fáceis de destacar).
Os caules praticamente só têm folhas no terço inferior. As folhas basais têm pecíolos curtos e as caulinares, bastante mais pequenas, são sesseis e frequentemente avermelhadas. Na generalidade as folhas apresentam acúleos inchados na base e alguns pelos rígidos.
Sendo esta uma espécie da família Asteraceae  as flores estão agrupadas em capítulos, o tipo de inflorescência característico desta família. 
Nesta espécie todas as pequenas flores são liguladas, de cor amarelo dourado e são flores hermafroditas, apresentando órgãos femininos e masculinos férteis. Os estames estão escondidos pelas “pétalas” mas entre elas veem-se os braços estigmáticos também de cor amarela. 
As peças florais estão protegidas por um invólucro formado por 3 camadas de brácteas, as exteriores ovadas, obtusas e arredondadas na base. 
As brácteas médias e as interiores são mais longas e estreitas e estão providas de pontas agudas e rígidas que excedem claramente as extremidades. Este invólucro de brácteas é distintivo do género Helminthotheca, no qual esta espécie foi agora incluída.
Helminthotheca comosa floresce e frutifica de maio a junho. Os frutos são cípselas e consistem num pequeno fruto com uma única semente. 
Estes frutos têm formato estreito e cilíndrico, são de cor acastanhada e estão providos de papilho numa das extremidades. 
O papilho ou papus é um tufo de pelos brancos, sedosos e compridos que ajudam as cípselas a flutuar como se fossem pequenos para-quedas pilosos, auxiliando na dispersão dos frutos pelo vento e servindo como defesa contra a herbivoria.
Embora algo semelhante, a Heminthotheca comosa diferencia-se facilmente da espécie tratada no post anterior (Heminthotheca echioides), pois é obviamente mais espinhosa. No que diz respeito às flores, a morfologia das bracteas das duas espécies é diferente, assim como a cor dos braços estigmáticos situados à superfície das “pétalas”.
Amaral Franco (1921-2009), conceituado botânico e sistemático português, descobriu que esta espécie apresentava algumas variações morfológicas que justificavam a separação em duas subespécies, classificação que foi aceite pelas autoridades competentes (1975):
Picris spinifera subsp. spinifera – endemismo Ibérico, existente em Portugal nas regiões centro e sul.
Picris spinifera subsp. algarbiensis – endemismo português do Algarve.
Agora que esta espécie passou do género Picris para o género Helminthotheca tentei encontrar os nomes científicos atualizados referentes às duas subespécies acima mencionadas. Contudo as principais bases de dados (IPNI, The Plant List, Euro+Med PlantBase) apenas dão um único resultado válido para uma subsespécie. AQUI e AQUI , The Plant List e Euro+Med Plantbase atestam que Helminthotheca comosa (Boiss.) Holub é o novo nome aceite para a espécie e que Helminthotheca comosa subsp. lusitanica (Schltdl.) P.Silva & Escudeiro é o nome da subespécie. Entretanto fico na dúvida se este nome se refere à subsespecie spinifera ou à subsp. algarbiensis.
As populações de Helminthotheca comosa apresentam um grande polimorfismo sobretudo na quantidade de acúleos e pelos que cobrem caules e folhas, no tamanho do invólucro e na morfologia, tamanho e pilosidade das brácteas externas do capítulo. Também os frutos maduros apresentam variações especialmente no que diz respeito ao comprimento do pico (filamento que liga a parte da semente ao papilho). Ao longo dos tempos, esta espécie suscitou grande interesse por parte de varios botânicos que a estudaram de forma isolada e por vezes baseados em critérios diferentes. Segundo os métodos tradicionais a classificação de uma espécie era feita apenas através da simples comparação de determinado conjunto de características com outras espécies semelhantes, estando sujeita à interpretação do pesquisador. Tendo em conta a deficiente comunicação disponível na época (situação que a internet veio, recentemente, facilitar enormemente) podemos compreender que classificações diferentes tenham sido propostas e aceites, tendo vindo posteriormente a descobrir-se que se tratava da mesma espécie. Contudo, segundo as regras existentes, as espécies e subespécies podem ter apenas um nome válido dentro de um género específico, o ultimo a ser aprovado (salvo algumas exceções previstas). Os nomes anteriores continuam para sempre ligados às espécies em causa mas passam para a categoria de sinónimos.
Fotos: Arribas do Caniçal/Lourinhã

quinta-feira, 9 de Outubro de 2014

Helminthotheca echioides (L.) Holub

Helminthotheca echioides (L.) Holub = Picris echioides L.

Nomes comuns:
Erva-tábua; picre-de-língua-de-víbora; raspa-pernas;
raspa-saias; repassage; rompe-saias; serralha-da-rocha

Todas as flores dos capítulos de Helminthotheca echioides são liguladas
Helminthotheca echioides é uma espécie da família das Asteraceae ou Compositae, uma das maiores e mais representativas do reino Plantae. As espécies desta família distinguem-se facilmente pelas suas inflorescências agrupadas em capítulos. Este tipo de inflorescência é formado por muitas flores de tamanho diminuto que se agrupam de forma compacta num só pedúnculo, aninhando-se diretamente num recetáculo em forma de disco, parecendo constituir uma única flor; geralmente, as flores periféricas apresentam prolongamentos unilaterais chamados lígulas os quais são semelhantes a pétalas (flores liguladas) ao passo que as flores do centro do disco são simples, sem prolongamentos (flores tubulosas). Esta estratégia reduz o investimento necessário para atrair os polinizadores pois apenas uma pequena porção das flores produzem “pétalas” beneficiando todas as outras. Contudo, na família Asteraceae também existem espécies que apresentam apenas flores tubulosas ou apenas flores liguladas.

Exemplos de capítulos:
À esquerda Helichrysum italicum - capítulos apenas com flores tubulosas
À direita Pulicaria odora - capitulo com flores tubulosas no centro e liguladas na periferia
Helminthotheca echioides  floresce durante o verão ao mesmo tempo que inúmeras espécies da mesma família sendo, à primeira vista, difíceis de distinguir umas das outras. Parecem todas semelhantes devido às suas flores do tipo malmequer, muitas delas de cor amarela, como se pode conferir no Portal Flora-on
No entanto, cada uma tem as suas características muito próprias, embora nem sempre sejam imediatamente evidentes. As primeiras classificações científicas basearam-se apenas nas semelhanças morfológicas mas os novos métodos de biologia molecular permitem ter uma visão mais abrangente e consistente com o princípio da ascendência comum. O objetivo atual é classificar as espécies de modo a formar grupos monofiléticos, os quais devem incluir todos as espécies do ascendente imediato comum incluindo o próprio ascendente imediato comum. Em consequência, tem havido múltiplas alterações na classificação das espécies. A família Asteraceae, devido à sua imensa diversidade e semelhança morfológica é uma das mais difíceis e tem sido um grande desafio para os cientistas.
Helminthotheca echioides já pertenceu ao género Picris mas recentemente foi transferida para o género Helminthotheca. O nome atualizado desta espécie é Helminthotheca echioides mas o nome Picris echioides continua valido como basiónimo, ou seja, como primeiro nome atribuído a esta espécie.
Nota: quando uma espécie muda de género o nome do autor do basiónimo é citado entre parêntesis, seguido do nome do autor que fez a nova combinação. Neste caso: novo nome Helminthotheca echioides (L.) Holub;  basiónimo Picris echioides L.
Os cientistas descobriram que Picris e Helminthotheca são dois géneros monofiléticos, isto é, embora sejam parentes muito próximos têm ascendentes imediatos diferentes.

Helminthotheca echioides é uma espécie nativa de Portugal continental e Madeira, Espanha e países da bacia do mediterrâneo, estando naturalizada nos Açores e em países da Europa central e do norte, África do sul, Austrália, Nova Zelândia e América do Norte e do sul.
Cresce abundantemente em campos agrícolas incultos ou cultivados, na borda dos caminhos, em terrenos baldios. Gosta dos solos húmidos e perturbados os quais são ricos em azoto.
Distribuição em Portugal Continental
Fonte: Flora Digital de Portugal-Jardim Botânico da UTAD
É uma planta herbácea, anual ou bianual que apresenta caules eretos e ramificados de forma irregular, os quais podem chegar aos 100 cm de altura ou mais. Os caules, estriados longitudinalmente, são robustos, grossos e resistentes e estão cobertos com alguns pelos rígidos.
Todas as folhas são de um tom verde acinzentado e são ásperas ao toque devido a numerosos pelos rígidos desiguais e também a alguns espinhos dispersos. As primeiras folhas formam uma roseta ao nível do solo e apresentam pecíolos longos e forma elíptica ou lanceolada, com margens sinuadas a dentadas. As folhas caulinares são semelhantes às basais mas são mais pequenas e são amplexicaules, isto é, não têm pecíolos e abraçam os caules.
As flores estão reunidas em capítulos. Todas as pequeníssimas flores são liguladas ou seja, todas as flores têm um prolongamento em forma de pétala e não apenas as da periferia do disco. As lígulas são todas amarelas, de um tom dourado e são dentadas, no extremo exterior. Todas as pequenas flores dispõem de órgãos sexuais funcionais masculinos e femininos, respetivamente androceu e gineceu. Os estames, com anteras cilíndricas e tubulosas, são 5 mas não são visíveis pois os filamentos são muitíssimo curtos. Na realidade as anteras abrem quando a flor ainda está em botão e os polinizadores banqueteiam-se com o pólen que fica espalhado à superfície, noutras partes da flor (apresentação secundária de pólen). Os estiletes são do comprimento dos estames e cada um apresenta dois estigmas muito longos, cujos braços são de cor escura e que são bem visíveis entre as “pétalas” durante a sua fase fértil.

As peças florais estão protegidas por um invólucro duplo de brácteas os quais formam uma espécie de epicálice, morfologia esta que é característica do género Helminthotheca e que permite distingui-lo do género Picris. As brácteas externas deste involucro estão separadas das internas e são ovais ou em forma de coração (cordatas), com as margens espinhosas e a superfície coberta de pelos duros e espessos; as internas são mais estreitas e mais compridas e tem uma arista (uma formação delgada mas longa e rígida) na parte dorsal. 
A Helminthotheca echioides floresce e frutifica de março a agosto, dependendo da disponibilidade de água no solo.

Os frutos são cípselas e consistem num pequeno fruto com uma única semente. Estes frutos têm formato estreito e cilíndrico, são de cor acastanhada e estão providos de papilho numa das extremidades. O papilho ou papus é um tufo de pelos brancos, sedosos e compridos que ajudam as cípselas a flutuar como se fossem pequenos para-quedas pilosos, auxiliando na dispersão dos frutos pelo vento e servindo como defesa contra a herbivoria.
Em medicina tradicional a Heminthotheca echioides tem sido utilizada como vermífugo, anti-inflamatório e anti-hemorrágico.
As folhas são comestíveis mas deve ter-se o cuidado de escolher as mais jovens por serem menos amargas.
Apresentação secundária do pólen:
"A apresentação secundária do pólen (ASP) é uma característica universal entre as Asteraceae". Este é um processo especializado através do qual o pólen é apresentado aos polinizadores de forma indireta. Isto é, o pólen continua a ser produzido pelas anteras mas é transferido para outras peças florais, como os filetes, as pétalas ou os estiletes, antes da abertura da flor.
Em muitas espécies o pólen é exposto aos visitantes pela própria antera mas neste sistema as anteras libertam o pólen de forma precoce, com a flor ainda em botão. Os estames formam um tubo em torno do estilete imaturo com as aberturas das anteras viradas para dentro. À medida que cresce e se alonga dentro do tubo anteral o estilete arrasta os grãos de pólen para o exterior da flor onde ficam retidos nas pétalas ou nos filetes, auxiliados por pelos, papilas ou outras adaptações especificas. Assim o pólen é apresentado aos polinizadores na superfície da inflorescência enquanto o estigma ainda não está recetivo, facilitando a polinização cruzada. Posteriormente o estigma amadurece e fica recetivo, abre os seus braços e aguarda que os insetos lhe tragam o pólen de outras plantas. 
Os grãos de pólen são um investimento caro e de grande valia para as plantas pois são eles os responsáveis pela formação dos gametas masculinos e pelo transporte destes para o saco embrionário, onde ocorrerá a fertilização. Na apresentação secundária de pólen apenas pequenas quantidades de pólen são apresentadas de cada vez, aumentando assim as hipóteses de alcançar maior número de polinizadores. Por isso, supõe-se que a apresentação secundaria de pólen seja um comportamento que tem a ver com a economia de custos da produção, evitando o desperdício e tornando a polinização mais eficiente.
Fotos: Serra do Calvo/Lourinhã

terça-feira, 23 de Setembro de 2014

SISTEMAS DUNARES DO LITORAL - Parte II

"As dunas litorais portuguesas possuem uma notável riqueza florística no contexto europeu"

A vegetação litoral mediterrânica, em especial a vegetação dunar portuguesa, detém uma elevada importância visto ser muito antiga (Costa, 1984 in Silva, 2006). 
As glaciações do Quaternário, menos severas em Portugal do que noutros locais da Europa, permitiram a sobrevivência de um grande número de espécies do Cenozóico que se extinguiram no resto do continente europeu" (Jansen, 2002).
Vista panorâmica do sistema dunar do Areal Sul, desde o topo da duna secundária até à foz do rio Grande, na Praia da Areia Branca
Muitos dos sistemas dunares do litoral português formaram-se junto à desembocadura dos rios. Os sedimentos transportados pelas águas fluviais, as correntes marítimas e o vento, associados a certas características geológicas fluviais, nomeadamente vales largos e plataformas em forma de rampa, contribuíram para a deposição de grandes quantidades de areia. Foi assim que o sistema dunar do Areal sul, na Areia Branca/Lourinhã, se formou no amplo espaço proporcionado pelo declive acentuado, junto à foz do chamado rio Grande.

Como se formam as dunas
As dunas do litoral começam a formar-se quando a areia, empurrada pelo vento, encontra um pequeno obstáculo, uma pedra ou uma planta, numa zona perto da orla do mar mas suficientemente longe da rebentação.
A duna cresce de barlavento (de onde sopra o vento) para sotavento (para onde sopra o vento) e avança na direção do vento predominante.
Por ação contínua do vento dominante e havendo suprimento suficiente de partículas arenosas, aquilo que começa por ser um montinho de areia vai aumentando de tamanho e movimentando-se no sentido do vento, podendo alcançar vários metros de altura. Pelo mesmo processo de formação e evolução vão surgindo novas dunas, ou seja, atrás de uma duna frontal existem outras cristas dunares, formadas em períodos anteriores, progressivamente mais antigas à medida que nos afastamos do mar. É assim que se formam os sistemas dunares, alguns simples, outros bastantes complexos.

Para que se mantenha o equilíbrio no desenvolvimento dos sistemas dunares costeiros é necessário que se mantenham as deposições regulares de partículas arenosas. É também fundamental que se estabeleça uma relação de complementaridade entre as praias e as dunas mais próximas do mar. Isto é, durante o verão é expectável que se registe uma acumulação regular de areia nas dunas frontais. Esta é uma reserva necessária tendo em conta que muita areia é arrastada para o mar durante as tempestades de inverno. Caso o sistema dunar esteja em equilíbrio essas partículas arenosas serão novamente lançadas na praia durante a época do bom tempo e em seguida, transportadas pelo vento até às dunas.

Tipologia dunar
Esquema de um sistema dunar simples tendo por base as dunas do Areal Sul.
Quando as dunas se multiplicam formam-se sistemas dunares que podem ser muito complexos e extensos, como é o caso da Costa da Caparica.
As dunas tomam formas e disposição diversas em função da intensidade e orientação dos ventos dominantes. Na costa oeste de Portugal o vento sopra predominantemente de Noroeste, pelo que geralmente as dunas crescem do litoral para o interior, formando dunas secundárias paralelas entre si mas transversais ao sentido do vento dominante.
“As dunas transversais são representadas por corpos arenosos de cristas rectas ou ligeiramente curvas, alinhadas perpendicularmente à direcção dominante do vento. Apresentam uma forma simples decorrente de um regime de vento unidireccional, possuindo uma única face de deslizamento, a qual é direccionada para sotavento” (Branco et al., 2003).
As dunas que estão mais perto do mar são móveis e instáveis devido à contínua movimentação de partículas arenosas por ação  do vento; as que se situam atrás das dunas móveis, numa posição mais recuada em relação ao mar e portanto mais protegidas do vento, vão-se tornando mais fixas na medida em que forem sendo estabilizadas pela vegetação; as dunas fósseis são as mais recuadas de todas, tendo sido consolidadas pela aglutinação progressiva dos grãos de areia, num processo que demorou milhares de anos.
À duna situada mais perto do mar geralmente chama-se duna primária; as seguintes chamam-se respectivamente dunas secundáriasterciárias segundo a sua maior ou menor proximidade do mar; o espaço interdunar corresponde à depressão existente entre elas, provocada pelos turbilhões criados pela circulação de ar a sotavento de uma duna.

A importância da vegetação nas dunas
A formação e estabilização de um sistema dunar do litoral é um processo constante e dinâmico no qual a vegetação desempenha um papel extremamente importante, contribuindo para capturar os grãos de areia e prevenindo a erosão provocada pelos ventos e pela chuva. 
A vegetação dos ecossistemas dunares é constituída por plantas especialmente adaptadas a um meio precário que possui características micro-climáticas e edáficas especiais e onde sobreviver não é tarefa nada fácil. O substrato de que dispõem é pobre em nutrientes e instável, podendo ocorrer soterramento. Estão ainda sujeitas à pouca disponibilidade de água doce, a ventos fortes carregados de partículas de sal, luminosidade excessiva e calor no verão e frio no inverno. 
A colonização destes habitats pelas comunidades vegetais não acontece de forma aleatória. De facto, as espécies distribuem-se por zonas conforme a sua especialização. Algumas tornaram-se mais aptas a viver nas areias móveis e instáveis da beira-mar enquanto outras, mais numerosas, preferem colonizar terrenos mais recuados, menos fustigadas pelos ventos fortes e salgados e beneficiando de um solo mais rico em nutrientes.
Para ultrapassarem todas estas limitações e sobreviver num ambiente tão adverso, as plantas tiveram de desenvolver diversas estratégias, através de adaptações de natureza morfológica, anatómica, fenológica e fisiológica (veja mais AQUI).

Interação das espécies vegetais com as dunas
O processo de formação do sistema dunar inicia-se na parte mais recuada da praia, muitas vezes chamada de pré-duna e onde se acumulam os detritos trazidos pela maré. 
Apesar de ser uma zona muito instável e sujeita a frequentes inundações pela água do mar, é colonizada por plantas anuais pioneiras como é o caso da Cakile marítima, espécie tolerante ao sal que, durante o verão, atua como obstáculo à passagem das areias transportadas pelo vento.
É para lá do limite das marés, numa  zona de suave declive e ocasionalmente atingida pelos salpicos das ondas, que surgem as primeiras plantas perenes que vão desencadear o processo de evolução do sistema dunar. A primeira entre todas é a Elymus farctus, gramínea perene de crescimento relativamente rápido, que desempenha um papel fundamental durante a acumulação de sedimentos, favorecendo a colonização do espaço adjacente por outras espécies. 
Para tal, Elymus farctus forma tufos pouco densos junto aos quais se vão acumulando as areias trazidas pelo vento. Estas acumulações de areia vão crescendo e aos poucos vão cobrindo parcialmente a planta. Mas ela não se dá por vencida e para compensar, também ela cresce em altura, evitando sempre o soterramento. Assim, o crescimento em altura da duna depende do desenvolvimento desta planta, o qual é estimulado pelo soterramento.
Neste declive são ainda visíveis outras espécies, nomeadamente Calystegia soldanella e Eryngium maritimum.
Seguem-se as dunas embrionárias as quais constituem a primeira defesa activa da costa e apenas ocorrem em praias onde o fornecimento de areia é constante, como acontece na Praia da Areia Branca. Começam por ser montes de areia originados pela acumulação de areia nos tufos da vegetação e que a dado momento se unem (por vezes não se unem de todo e nesse caso denominam-se nebkas). Formam uma espécie de parede e dão altura à duna, estabelecendo a transição para a duna primária. Esta é a zona mais frágil do sistema dunar devido à sua localização face ao vento que movimenta facilmente os grãos de areia, arrastando-os para o interior. Por esta razão o número de espécies vegetais na duna embrionária é escasso o que facilita o acesso dos veraneantes que procuram abrigo contra o vento, o que geralmente resulta em estragos nestas frágeis estruturas, retardando o processo.
A duna primária é também chamada duna branca por haver bastantes espaços de areia não cobertos por vegetação. Apesar de tudo, a duna primária corresponde a uma etapa já mais evoluída. Embora  caracterizada pela mesma instabilidade do solo arenoso, escassez de nutrientes e água, a vegetação é mais variada. Uma vez iniciado o processo de retenção das areias arrastadas pelo vento, ação em que Elymus farctus tem papel fundamental, outras espécies surgem nas areias, ainda móveis. A mais importante da duna primária é sem dúvida a Ammophila arenaria, muitas vezes chamada construtora das dunas devido à sua enorme capacidade de retenção e fixação de areia.
Esta espécie desponta quando a duna chega mais ou menos a um metro de altura, protegendo-se assim de possíveis submersões pela água do mar, cujo sal não tolera. É maior que a Elymus farctus e forma tufos mais fortes e densos cuja função principal é fixar as areias, permitindo que a duna, em formação, possa ter estabilidade suficiente para que outras espécies nela possam viver. Enquanto os seus densos tufos cortam a força do vento e dão abrigo e sombra, o seu raizame profundo e intrincado funciona como âncora. 
Entre as especies que se podem encontrar na duna primária incluem-se a Euphorbia paralias, Otanthus maritimus, Medicago marina, Pancratium maritimum, Polygonum maritimum e Eryngium maritimum.
As dunas secundárias são também denominadas dunas cinzentas devido ao tom acinzentado que lhes confere a vegetação, quando avistadas de longe. As dunas secundárias diferenciam-se das dunas primárias pela sua situação mais afastada do mar e também porque ocupam uma superfície maior, numa sucessão de cristas e corredores interdunares. As comunidades florísticas são mais densas e desenvolvidas pois o ambiente é mais favorável ao seu crescimento e reprodução. Além da diminuição da intensidade do vento e das partículas de sal, existe maior acumulação de água e matéria orgânica no solo. Pequenas comunidades de espécies subarbustivas alternam com coberto de herbáceas de pequeno tamanho, havendo ainda algumas áreas despidas de vegetação nos locais menos abrigados.
Nas dunas secundárias do Areal Sul podem encontrar-se variadas espécies, entre elas Artemisia marítimaHelichrysum italicum, Sedum sediformeMalcolmia littoreaOnonis ramosissimaCrucianella maritima,  Anagallis monellie alguns endemismos como Iberis procumbens e  Armeria welwitschii .
A duna terciária, também chamada duna castanha, caracteriza-se pelos solos ricos em húmus. As espécies são maioritariamente arbustivas e arbóreas, de que se destaca Juniperus phoenicea.

Fatores de ameaça
As dunas são importantes muralhas naturais contra o avanço do mar, defendendo pessoas e bens, pelo que é nossa obrigação tomarmos consciência da importância da sua preservação, antes que seja tarde demais. Mesmo quando parecem estabilizadas as dunas são zonas sensíveis cujo equilíbrio pode ser perturbado por vários fatores. À parte a erosão costeira provocada por fenómenos naturais, a intervenção humana é a grande responsável pela degradação da maior parte dos sistemas dunares europeus.
A circulação descuidada é um dos principais fatores de perturbação das dunas, originando redes de caminhos e clareiras no meio da vegetação. Quando as plantas são pisadas e destruídas podem demorar dezenas de anos para se recompor - podendo nem chegar a fazê-lo - deixando entretanto a areia nua, incapaz de oferecer resistência ao vento e pondo todo o sistema dunar em risco de colapso.
Certas plantas exóticas foram introduzidas nos ecossistemas costeiros. Devido ao seu comportamento invasor essas espécies têm vindo a ameaçar a sobrevivência das espécies nativas das nossas dunas. O caso mais grave é o do Carpobrotus edulis, espécie importada da África do Sul e vulgarmente conhecido por chorão, que se propaga com rapidez, cobrindo extensas áreas e sufocando as outras plantas até à morte.

Fotos: Sistema dunar do Areal Sul / Lourinhã

quinta-feira, 11 de Setembro de 2014

SISTEMAS DUNARES DO LITORAL - Parte I

O sistema dunar do Areal Sul - Lourinhã


A orla costeira do concelho da Lourinhã é uma faixa muito recortada de cerca de 12 km de extensão, de onde se avistam as ilhas Berlengas e o Cabo Carvoeiro. 
As praias, estreitas mas extensas, desenvolveram-se na base de arribas rochosas, elevadas e abruptas, hoje em dia muito desgastadas pela ação abrasiva dos ventos e das marés.
A foz do rio Grande é uma zona de exceção pois a morfologia desta parte da costa apresenta maior largura, proporcionando a formação não só de praias largas, nomeadamente Areia Branca e Areal Sul, mas também de um sistema dunar típico.
Foram os ventos fortes, que nesta zona sopram quase sempre com intensidade, que levaram à acumulação de areias com a consequente formação de um complexo dunar de pequenas dimensões mas de grande interesse natural, tanto mais que é o único neste concelho. 
Nunca é demais frisar a importância dos sistemas dunares do litoral. Para além de serem espaços de grande diversidade biológica, as dunas estabelecem a transição entre o meio marinho e o ambiente terrestre agindo como barreira natural, impedindo a progressão do mar para o interior.

As dunas costeiras são essencialmente uma acumulação de materiais arenosos de consistência muito precária e cuja estabilidade depende da manutenção do coberto vegetal. A vegetação desempenha um papel de primordial importância na sua formação e manutenção pois são as plantas que ajudam a fixar as areias prevenindo a erosão provocada pelos ventos, pela chuva e ondas do mar. 
Calystegia soldanella, Achillea ageratum, Anagallis monelli
Muitas das espécies que vivem no ambiente difícil das dunas foram já descritas neste blog, outras aguardam ainda a sua vez. São todas plantas especificamente adaptadas ao ambiente hostil em que vivem (ar carregado de partículas de sal, intensa luminosidade, falta de agua e nutrientes) e que conseguem, apesar de tudo, apresentar lindas flores e agradáveis aromas.

O equilíbrio nos sistemas dunares é muito sensível não só aos desastres naturais mas também às alterações provocadas pelo Homem, nomeadamente os passeios a pé, a cavalo ou a passagem de viaturas todo-o-terreno. Quando as plantas são pisadas e destruídas, dificilmente se regeneram e assim, abrem-se clareiras e a areia fica solta, deixando de oferecer resistência ao vento, colocando em risco todo o sistema dunar. 
As dunas do Areal Sul apresentam inevitável degradação. Necessitam urgentemente de trabalhos de recuperação, a exemplo do que já tem sido feito noutras regiões litorais.
Alguns esforços foram feitos no sentido de evitar a circulação de veículos mas pouco mais. Contudo, no passado mês de junho, numa iniciativa do concessionário Areal Beach Bar, a qual recebeu o apoio da Junta de Freguesia da Lourinhã e da Lourambi (Associação Defesa Ambiente), foi colocado o primeiro painel informativo com o objetivo de sensibilizar as populações para a riqueza que representam as dunas no âmbito do património ambiental da região. 
Deste painel constam dois pequenos textos informativos e três dezenas de fotografias que permitem ao visitante identificar algumas das espécies locais. Felizmente, o elenco florístico das dunas do Areal Sul mantém-se razoavelmente variado, apresentando mesmo alguns endemismos, para o que, seguramente, tem contribuido o clima caracteristicamente ameno que aqui se regista o ano inteiro.

Pormenores do Painel
A três meses de distância podemos atestar o sucesso desta iniciativa, a qual foi tão bem bem recebida pela população local como pelos muitos estrangeiros que nos visitam. Entre outros, chegaram até nós ecos de Espanha, que muito nos orgulham e aos quais se pode aceder através deste link:
Fotos: Areal sul e Paimogo - Lourinhã