"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





sábado, 28 de fevereiro de 2015

Calluna vulgaris (L.) Hull

Nomes comuns:
Urze; Urze-roxa; Torga; Torga-ordinária; Queiró;
Queiró-das-ilhas; Queiroga; Leiva; Mongariça; Rapa

“…urze campestre, cor de vinho, com as raízes muito agarradas e duras, metidas entre as rochas. Assim como eu sou duro e tenho raízes em rochas duras, rígidas…”
                                                                          Miguel Torga 
                                                          (pseudónimo de Adolfo Correia Rocha)

Calluna vulgaris é o nome botânico da espécie que muitos consideram a urze por excelência, tendo em conta as suas particularidades. O nome específico vulgaris, indica que é bastante mais frequente e amplamente distribuída do que outras espécies com ela aparentadas, nomeadamente as do género Erica. Pertence ao género Calluna - família Ericaceae - do qual é a única representante, não havendo mais nenhuma espécie neste género. Foi originalmente descrita por Linnaeus (1753), como fazendo parte do género Erica, com o nome Erica vulgaris L. Contudo, a constatação de caraterísticas únicas e distintas levou à sua inclusão num género monoespecífico, por Hull, em 1808. 
Folhas de Calluna vulgaris , estreitamente imbricadas
Calluna diferencia-se das espécies do género Erica, com as quais é muitas vezes confundida, principalmente pelas suas folhas que são muito pequenas, decussadas (cada par cruza–se com o par seguinte, formando um X) e que se dispõem umas sobre as outras de forma densamente imbricada. 
Folhas de Erica scoparia, mais compridas do que em Calluna vulgaris
Por seu lado as folhas de Erica são mais compridas – variando entre mais estreitas ou mais largas, dependendo da espécie - e dispõem-se em verticilos de 3 ou 4 folhas, dirigidas para fora. 
Flores de Calluna vulgaris
Também existem diferenças a nível do tamanho do cálice que em Calluna é maior que a corola, escondendo os estames, ao contrário do que acontece com Erica sp.

Calluna vulgaris distribui-se amplamente por toda a Europa desde as Ilhas Britânicas e Península Ibérica até aos Montes Urais na Rússia, e desde a Escandinávia até ao Mediterrâneo e Marrocos. 
Urzes e tojos andam muitas vezes a par...
Fonte: Wikipedia
Em charnecas e brejos, regiões áridas e batidas pelo vento, é muitas vezes a espécie dominante cobrindo extensas áreas, como por exemplo acontece na Irlanda, Escócia, Pais de Gales e Inglaterra, onde esta espécie é especialmente acarinhada. A escritora Emily Brontë descreveu, de forma memorável, a beleza rude das charnecas do Yorkshire onde predominam as urzes, em Wuthering Heights (em português: Monte dos Vendavais), obra clássica da literatura inglesa. Contudo, os mais entusiastas são os escoceses, de tal forma que, “puxando a brasa à sua sardinha”, deram a Calluna vulgaris o nome vernáculo de Scotch Heather (urze escocesa). Também a cerveja local denominada Fraoch (palavra em idioma gaélico escocês, de origem celta, que significa cerveja de urze) e que é produzida há mais de 4 mil anos, é aromatizada com folhas e flores de Calluna vulgaris.
Calluna vulgaris foi introduzida noutras partes do mundo incluindo o Canada, EUA, Austrália e Nova Zelândia. Em algumas regiões destes dois últimos países tornou-se um caso problemático como invasora, situação comum entre muitas plantas exóticas, as quais geralmente não causam problemas nos seus habitats nativos.
Mapa de distribuição em Portugal continental
Dados disponibilizados por:
P.V.Araújo, J.Lourenço, A.Carapeto, M.Porto, J.D.Almeida, A.J.Pereira, F.Clamote, A.Silva, et al. (2015).
Em território português Calluna vulgaris é autóctone do continente e Açores, onde ocorre de forma espontânea. Também se pode encontrar na Madeira onde foi introduzida pelos colonizadores e se naturalizou.
Calluna vulgaris no meio das roselhas (cistus crispus) e dos tojos (Ulex europaeus)
Calluna vulgaris vive em terras pobres em nutrientes e de pH ácido, em matagais, em clareiras de bosques ou sob coberto de pinhais e sobreirais, fazendo parte de matos baixos, geralmente associada a outras comunidades vegetais que partilham os mesmos requisitos, nomeadamente giestas, estevas, rosmaninhos, tojos, carquejas e sargaços. Em muitas das nossas encostas serranas, estas e outras espécies foram tomando o lugar dos antigos bosques, os quais se foram degradando pelos fogos ou por práticas agro-pastoris, muitas vezes improprias.
Em tempos idos, embora não mais distantes que meia dúzia de décadas, a urze era utilizada pelas populações mais pobres do interior do país para fazer vassouras, escovas para esfregar o soalho das habitações e para encher colchões. A madeira das velhas raízes era utilizada nas lareiras ou para fazer carvão. Chegou a ser utilizada para produzir tinta com a qual se tingiam cabedal e madeiras em cor amarela.

Calluna vulgaris forma um arbusto denso que pode chegar a 1 m de altura ou até mais, exceto em zonas muito ventosas ou rochosas onde tende a formar uma moita baixa. As raízes ramificam-se profundamente para melhor se segurarem na terra e com o decorrer dos anos tornam-se grossas, lenhosas e por vezes retorcidas.

A planta é muito ramificada desde a base. Os ramos são finos, eretos e ascendentes, pubescentes quando jovens. A maioria dos ramos fica verde durante todo o ano mas no inverno alguns podem apresentar lindas tonalidades castanhas, vermelhas ou amarelas que resultam dos restos de folhas envelhecidas que permanecem agarradas.

As folhas são muito pequenas, algo pubescentes, oposto-cruzadas, sem pecíolo e ligeiramente carnosas; nos ramos estéreis as folhas estão muito juntas, estreitamente imbricadas, mas nos ramos de flor estão mais espaçadas.
As flores, de cor rosada ou lilás, algumas vezes rosa mais escuro e raramente brancas, reúnem-se em cachos muito alongados; aparecem solitárias na axila das folhas e são numerosas. 

Os pedúnculos são curtos e curvos pelo que as flores se apresentam pendentes. 

Na base de cada flor, fazendo ligação com o pedúnculo, existem 4 brácteas verdes, semelhantes a folhas mas com as margens avermelhadas e penugentas. 

O cálice é formado por 4 sépalas rosadas de forma lanceolada mas com o ápice arredondado. A corola é constituída por 4 pétalas soldadas apenas na base, também de cor rosada e que têm a particularidade de serem mais curtas que as sépalas do cálice, ficando envolvidas por ele. 
O cálice é persistente, permanecendo na planta mesmo depois da maturação dos frutos, dando a ideia de uma floração bastante mais prolongada.

As flores são perfeitas, ou seja, estão providas de órgãos de reprodução masculinos e femininos funcionais. Os estames são 8, com filetes rosados e anteras acastanhadas e são inclusos, não ultrapassando o nível do cálice. Em contrapartida o estigma, que tem por missão recolher o pólen e encaminha-lo para o ovário, é bem visível pois é grosso e ultrapassa o nível das sépalas do cálice.

Por baixo do ovário existe um disco nectarífero destinado a atrair os polinizadores. Calluna vulgaris é muito visitada por vários tipos de insetos entre os quais se contam vários tipos de borboletas e abelhas melíferas que aí recolhem néctar em abundância, com o qual produzem o precioso mel (nas áreas onde uma determinada espécie é dominante, o mel produzido pelas abelhas reflete o seu sabor. Assim podemos ter mel de urze, mel de rosmaninho, mel de castanheiro, etc. Da mesma forma, a consistência e a cor de cada tipo de mel variam de acordo com as espécies que entraram na sua composição).

Nesta Calluna vulgaris os frutos já amadureceram há muito mas as sépalas das flores continuam na planta dando a ideia de que ela continua em flor
Na generalidade Calluna vulgaris floresce e frutifica de maio a dezembro mas aparenta estar em flor durante a maior parte do ano porque as sépalas, depois de secas, persistem na planta durante muito tempo, mesmo depois da maturação dos frutos. 
Os frutos são cápsulas de forma esférica densamente cobertas de pelos. No seu interior existem 4 compartimentos contendo numerosas sementes as quais se soltam por uma pequena abertura.
As sementes são disseminadas pelo vento, animais ou passeantes que ao passar roçam nas plantas.
Calluna vulgaris é fácil de propagar:
- Por sementes, as quais devem ser colocadas em pequenos vasos no início da primavera, de preferência numa pequena estufa ou em local abrigado e deixadas à superfície ou apenas ligeiramente cobertas por terra. Geralmente germinam dentro de 1 a 2 meses a uma temperatura de 20ºC. As pequenas plantas devem ser protegidas do frio e do vento durante o seu primeiro inverno mas estão prontas para ser plantadas no exterior na primavera seguinte.
- Por estacas semilenhosas em julho ou agosto ou estacas lenhificadas em outubro ou novembro.
- Por mergulhia. Este é o melhor método de obter novas urzes desde que se disponha de uma planta já estabelecida. Pode realizar-se em qualquer altura do ano embora os resultados mais rápidos se obtenham na primavera. Escolhe-se um ramo baixo e, sem o partir, dobra-se até ao solo. Retiram-se as folhas da parte do ramo que vai ficar em contacto com o solo e cobre-se com um bom punhado de terra ou turfa, sobre a qual se coloca uma pedra pesada. As mergulhias feitas na primavera terão criado raízes no outono; as que forem feitas no outono geralmente enraízam um ano depois. Finalmente, é só desenterrar os ramos com as novas raízes, separá-los da planta-mãe e plantá-los no novo local.

Resistente obstinada às inclemências do clima mas delicada na aparência e na fragrância, Calluna vulgaris não só consegue transformar as charnecas mais áridas ou as encostas mais rochosas em locais de grande beleza cénica, como contribui para a manutenção da biodiversidade: serve de alimento a borboletas e besouros, providencia abrigo a aves, pequenos mamíferos e lagartos. 

Tal como acontece com outras espécies de urzes, há muito que Calluna vulgaris é reconhecida pelas suas potencialidades decorativas e ornamentais. Só a partir desta espécie já foram criados mais de oitocentos cultivares que rendem milhões à indústria de horticultura na Europa e Estados Unidos. 
Fonte
Existem nos mercados internacionais, - especialmente em países onde a jardinagem é um passatempo muito difundido e praticado com verdadeiro entusiasmo – variedades de Calluna que vão desde os 10 cm aos 60 cm de altura ou mais, com folhagem que inclui tons dourados, bronze, cinzento-azulado e verde-vivo e flores em tons de púrpura, rosa, vermelho e branco-puro. Contudo, é de notar que muitos destes cultivares não são interessantes para os insetos pois foram feitas consideráveis alterações na morfologia das flores para impedir que os botões abram, aumentando assim o tempo de floração. 
Fonte
As Callunas são plantas fáceis de cuidar desde que lhes sejam providenciadas as condições adequadas, a começar por um substrato leve com pH ácido e situação em pleno sol ou meia sombra, especialmente em climas mais quentes.
Estas plantas são geralmente usadas em monocultura, como cobertura de solo formando tapetes multicoloridos, ficando muito bem quando conjugadas com coníferas anãs. Mas o efeito pode também ser espetacular se cultivadas em grupos, entre outras perenes como azáleas, camélias, bolbos e gramíneas. São ainda apropriadas para sebes, jardins de rocha, terrenos inclinados e vasos, além de que são flores de corte formidáveis e excelentes para fazer arranjos de flores secas.

Calluna vulgaris tem uma longa tradição em medicina popular, particularmente no tratamento dos problemas das vias urinárias, atuando como diurético e antisséptico. É também eficaz nos casos de tosse e constipação, ajudando a reduzir a produção de secreções devido ao seu efeito adstringente. Calluna vulgaris contém taninos e triterpenos, compostos químicos que promovem ação anticancerígena e anti-inflamatória. Os taninos são também poderosos antioxidantes. Tem sido também utilizada com sucesso no tratamento de dores reumáticas sobretudo no que respeita à denominada gota, causada pelo excesso de ácido úrico, o qual parece ser removido pelos componentes químicos de Calluna vulgaris.

Veja mais informações sobre as diversas espécies de urzes  AQUI.

Fotos: Serra do Calvo/Lourinhã exceto quando mencionada outra fonte

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

As urzes - Géneros Daboecia, Erica e Calluna / Família Ericaceae

As urzes
Matos de altitude dominados por urzes
Fonte - BIOREDE
Entre os muitos nomes adotados pelo povo das diferentes regiões do nosso país para designar os pequenos arbustos dos géneros Erica e Calluna, o termo urze é sem dúvida o mais comum, sendo praticamente transversal a todas estas espécies. Na verdade elas apresentam características morfológicas bastante semelhantes pelo que, à primeira vista podem prestar-se a uma certa confusão.
Existem no mundo aproximadamente 860 espécies de urzes das quais cerca de 760 ocorrem na África do Sul, estando na sua maioria concentradas no parque natural de Cape Floral Kingdom, localizado entre Cape Town e Port Elizabeth. Na Europa ocorrem 21 espécies e as restantes distribuem-se por algumas partes da África Austral, nomeadamente Madagáscar e Mascarene Islands.
De notar que as urzes africanas exibem uma enormíssima diversidade quer na forma, quer na cor e tamanho das suas flores. As urzes europeias apresentam flores pequenas reunidas em cachos longos e anafados.

As espécies nativas europeias dividem-se em três géneros, todos representados em Portugal: Daboecia, Erica e Calluna.

Género Daboecia:
O género Daboecia Inclui apenas 2 espécies, sendo uma delas endémica dos Açores.
Ambas diferem das espécies de Erica e Calluna por produzirem flores com uma corola bojuda substancialmente maior. As folhas também são maiores, com limbo alargado.

Daboecia cantabrica (Huds.) K. Koch
Nasce espontaneamente em áreas costeiras da Irlanda, França, Espanha e Portugal (do Minho à Beira Litoral). Distingue-se de Daboecia azorica por ter pelos na corola e ter folhas maiores.
Daboecia cantabrica
Esquerda - Fonte: Wikipedia / Foto de Merce/Madrid
Direita - Fonte: Wikipedia /Foto de Johan N.
Daboecia azorica Tutin & Warb.
Esta espécie encontra-se exclusivamente no Arquipélago dos Açores e dada a sua raridade é espécie protegida pela Convenção de Berna e pela Diretiva Habitats.
Distingue-se de Daboecia cantábrica por ter folhas mais pequenas e não ter pelos na superfície da corola.
Daboecia azorica
Fonte:  SIARAM - Flora vascular dos Açores
Género Erica
O género Erica é o que tem maior número de espécies no nosso país, sendo representado por 10 espécies. Seguem-se fotos de cada uma dessas espécies, disponibilizadas pelo Portal Flora-on, da Sociedade Portuguesa de Botânica. Para aceder ao ficheiro completo de fotos de cada uma das espécies basta clicar no link colocado por baixo de cada foto, em legenda.
Erica inclui arbustos perenes, de pequeno ou médio porte e ainda algumas espécies arbustivas. Identificam-se pelas suas folhas pequenas e lineares que se dispõem, viradas para fora, em verticilos de 3 ou 4, em torno dos ramos estreitos; as flores, muito numerosas e com corolas bojudas, agrupam-se em cachos muito alongados. As flores apresentam tons de rosa, claro ou escuro, lilás e por vezes branco.
As plantas deste género são conhecidas na língua inglesa por “heaths”.

Erica australis                                  Erica ciliaris
Fonte: Flora-on                                Fonte: Flora-on
Foto de Sérgio Chosas                      Foto de C E. Ramalho
Erica cinerea                                   Erica erigena
Fonte Flora-on                                Fonte Flora-on
Foto: Joana Camejo                      Foto: Miguel Porto
Erica lusitanica                                           Erica scoparia
Fonte: Flora-on                                           Fonte: Flora-on
Foto: Ana J.Pereira                                   Foto: J.D.Almeida
Erica tetralix                                                Erica umbellata
Fonte: Flora-on                                            Fonte: Flora-on
         Foto: A.J.Pereira                                         Foto: C.E.Ramalho    

Erica andevalensis                                         Erica arborea
                             Fonte: Flora silvestre mediterranea         Fonte: Flora-on - Foto de Miguel Porto    
             
                                                


Género Calluna
Este género tem apenas uma espécie, Calluna vulgaris, cuja distribuição é muito ampla. As plantas deste género são conhecidas na língua inglesa por “heathers”.
Embora semelhante a outras urzes no aspeto geral, Calluna tem carateristicas próprias, como veremos no próximo post, o qual será dedicado em exclusivo a esta espécie.
Calluna vulgaris - Foto Flores do Areal
Na generalidade, as urzes do campo são espécies muito resistentes. Embora gostem de alguma humidade, suportam bem as secas estivais. A maioria das espécies também não se incomoda especialmente com o frio. Não só aguentam estoicamente as baixas temperaturas e a neve das regiões montanhosas como até parece aprecia-las. Atrevo-me a pensar que, após as intempéries, elas fazem questão de se preparar para florescer mais profusamente e com mais cor, fazendo prova do seu forte carater e tenacidade. E se é certo que elas evocam o lado rude e agreste da natureza, em contrapartida não se lhes pode negar a fragrância e a beleza requintada das suas flores.

As urzes florescem de forma abundante e generosa. Cada pequena flor está provida de um disco nectarífero, cujo néctar, petisco delicado e nutritivo, atrai vários tipos de insetos, induzindo-os a colaborar nos processos de polinização. Por lá andam também, atarefadas, numerosas abelhas melíferas, recolhendo o néctar que irá enriquecer a sua produção de mel com sabor predominante a urze.

Em Portugal as urzes distribuem-se um pouco por todo o território, desde as dunas do litoral até as zonas montanhosas, medrando em solos pobres, de maior ou menor grau de acidez, consoante a espécie, mas nunca em solos com calcário, os quais são alcalinos. As urzes são, portanto, plantas silicícolas ou seja, indicadoras de solos não calcários, resultantes da erosão de rochas magmáticas ou metamórficas, como granitos, quartzitos, xistos e gnaisses.

As urzes crescem de forma espontânea em matagais, clareiras de bosques ou sob coberto de pinhais e sobreirais. Em zonas de matos baixos e solo ácido são espécies recorrentes, geralmente associadas a outras comunidades vegetais que partilham os mesmos gostos, nomeadamente estevas, tojos, carquejas e sargaços. Em épocas de floração, quem viaja pelas estradas do país não terá dificuldade em reconhece-las, sobretudo em zonas de pinhal, formando como que uma névoa rosada, raramente totalmente branca.

Sobre o solo ácido:
O pH (potencial hidrogénio) é um índice que mede o nível de acidez ou alcalinidade do solo ou de uma qualquer substancia, variando numa escala que vai do 0 a 14.
Quanto mais baixo é o índice mais acida será a substancia em questão. Assim, um pH ácido apresenta valores entre 1 e 6 enquanto 7 é neutro e de 8 a 14 é básico ou alcalino.
O pH do solo pode variar de região para região e tem a ver com vários elementos, entre eles o clima e os componentes edáficos.
A acidez ou a alcalinidade condicionam a atividade dos microrganismos presentes no solo e a disponibilidade de nutrientes, de forma que os solos ácidos são pobres enquanto os solos alcalinos apresentam maior produtividade. Num solo acido a decomposição dos restos orgânicos realiza-se muito lentamente e podem ocorrer toxicidades de alumínio e manganésio ao mesmo tempo que existe deficiência em nitrogénio, cálcio, fosforo e magnésio ou micronutrientes. Estes solos não aguentam adubação com estrume nem adubos químicos que contenham nitrogénio/azoto pois as plantas que neles vivem não o consegue processar. Contudo podem adubar-se com composto resultante de resíduos orgânicos.
Verdade seja dita que nos solos alcalinos, particularmente nos calcários, também existem algumas deficiências nomeadamente em fosforo, ferro, zinco, boro e manganésio, podendo ser corrigido com estrume, adubos químicos ou composto orgânico.
Pode corrigir-se a acidez do solo aplicando-lhe calcário. Para acidificar um solo alcalino junta-se-lhe enxofre, sulfato de alumínio ou quelatos de ferro.
Embora algumas das espécies que vivem em solos ácidos também sejam tolerantes aos solos alcalinos outras existem que apenas sobrevivem e se desenvolvem em solos ácidos. É caso das gardénias, camélias, rododendros/azáleas, entre outras espécies ornamentais muito apreciadas. As hortênsias são um caso curioso pois embora precisem ocasionalmente de um acidificante (quando as folhas começam a perder a cor verde ao longo das nervuras), dão-se bem tanto em terra ácida (neste caso as flores nascem azuis) como em terra alcalina (as flores tornam-se cor-de-rosa).

Urzes de viveiros, cultivares e híbridos
Fonte: White Flower Farm
Há muito que as urzes ganharam reputação como espécies bastante decorativas, sendo resistentes, elegantes e não exigindo cuidados especiais. São muito apreciadas para fins ornamentais e apropriadas para uma ampla gama de situações, podendo ser plantadas diretamente no solo ou em vasos, uma vez que seja assegurado o grau adequado de acidez do substrato.
Por estas razões diversas espécies de urzes têm sido cultivadas para criar variedades com diferentes características sobretudo quanto ao porte e à cor. E assim surgiu no comércio das plantas ornamentais uma incrível quantidade de cultivares, ascendendo a muitas centenas. Em certos países podem ser adquiridos cultivares com todas as opções imagináveis, desde plantas anãs a arbustivas ou de medio porte e até rastejantes. A folhagem pode variar do amarelo mais claro ao verde mais escuro, passando pelo laranja e o bronze. Também se encontram cultivares de flores simples, dobradas e de cores variadas, nomeadamente branco puro, vários tons de rosa, salmão, lilás, malva, roxo ou vermelho. Além disso, todos esses cultivares são geralmente classificados de acordo com o período de floração havendo espécies que florescem entre junho e julho, outras que florescem em agosto e setembro, outras ainda que dão flor de outubro a dezembro.

Yurigahara Park - Japão
Em geral plantam-se as urzes, em pleno sol ou meia sombra, em manchas de vários pés da mesma variedade, formando tapetes de cores mistas quer em bordaduras ou em jardins de rocha. Estes tapetes coloridos ficam espetaculares se forem plantados contra um fundo de pequenas coníferas para dar altura ao conjunto que de outra forma seria uma extensão relativamente incaracterística. Embora as urzes costumem ficar melhor quando plantadas em grupo também se podem produzir bonitos exemplares isolados. Quando o solo do jardim não é ácido a solução é plantar as urzes em vasos, em substrato apropriado à venda nos viveiros. Se apesar de tudo quisermos coloca-las no solo, o substrato calcário terá de ser substituído por terra acida até à profundidade de 30 cm, pelo menos. As variedades pequenas colocam-se a intervalos de 20 cm a 40 cm conforme sejam de menor ou maior porte. Há que ter em conta que se as regas forem efetuadas com água calcária, o substrato vai perdendo acidez pelo que se deve juntar um acidificante varias vezes por ano. Pode também cobrir-se o solo com agulhas de pinheiro as quais são acidificantes e atuam como cobertura de solo, mantendo a humidade durante mais tempo. Raras são as ervas que conseguem medrar perto do pé de uma urze. É que estas plantas têm propriedades alelopáticas, isto é, elas produzem metabólitos secundários ou seja, compostos químicos que, uma vez libertados no solo, impedem que outras espécies cresçam e se desenvolvam de forma normal.
Quando as urzes são jovens e ainda não estão estabelecidas não se deve deixar secar completamente o substrato. Rega-las demais também não é solução pois as raízes irao com certeza apodrecer sobretudo se estiverem em vasos.
As urzes não precisam nem gostam de grandes adubações, sobretudo porque não conseguem processar o nitrogénio presente nos adubos generalistas. Ainda assim podemos enriquecer a terra gasta com um pouco de adubo especial para plantas acidas, também recomendado para gardénias, camélias e azáleas/rododendros.
Azalea ‘Hinodegiri’in full flower in Yate, Bristol
As urzes pertencem à família botânica Ericaceae, atualmente com cerca de 4000 espécies agrupadas em 126 géneros. Esta família possui uma grande diversidade de espécies, algumas muito belas, circunstancia que lhe confere uma grande importância económica a nível mundial, sobretudo devido ao florescente comércio das plantas ornamentais (Ex: Rododendros/Azáleas e urzes).
Mas o poderio económico desta espécie também tem a ver com espécies que são cultivadas pelos seus frutos, sobretudo espécies do género Vaccinium, nomeadamente Vaccinium myrtillus (“cranberry” ou mirtilo vermelho) e  Vaccinium corymbosum (“blueberry” ou mirtilo azul) os quais são ricos em antioxidantes e têm ação bacteriana.
Vaccinium myrtillus e  Vaccinium corymbosum 
O consumo de mirtilos é recomendado pela sua eficácia no combate a infeções urinárias, sobretudo no capítulo da prevenção, dificultando a fixação de baterias na bexiga.
Medronheiro com frutos maduros
Fonte: Wikipedia
Arbustus unedo, o nosso bem conhecido medronheiro, usado para fazer licores e aguardentes, também pertence à família Ericaceae. Os seus frutos têm um forte poder antibacteriano sendo ricos em compostos com importante atividade biológica, ácidos gordos insaturados, nomeadamente ómega 3 e 6, fitoesteróis e triterpenóides. 
Arbustus unedo é uma árvore frutífera muito ornamental que fica bem em qualquer jardim que disponha de algum espaço. Ao contrário da maioria das Ericaceae tem a vantagem de ser indiferente ao pH, crescendo bem tanto em solos ácidos como alcalinos.

As espécies Ericaceae distribuem-se pelo mundo inteiro (exceto a Antártica) e são, na sua generalidade, amantes dos solos pobres e com propriedades ácidas. Uma caraterística da maioria das plantas desta família é a ausência de pelos radiculares o que dificulta a absorção dos nutrientes. Como forma de contornar esta particularidade as plantas de Ericaceae estabelecem relações simbióticas com fungos do solo (micorrizas), os quais são vitais para o seu desenvolvimento. Estes fungos formam uma rede que se entrelaça nas raízes da planta para as quais transferem os nutrientes minerais e agua que absorvem do solo. Em contrapartida as plantas fornecem os açúcares de que os fungos necessitam para sobreviver mas que não conseguem sintetizar.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Abutilon theophrasti Medikus

Nomes comuns:
Folhas-de-veludo, malvão, juta-da-china

Foi no recanto do jardim reservado ao cultivo de frutos e legumes que vi pela primeira vez esta linda herbácea de folhas aveludadas. Quase escondida pela produção exuberante dos tomateiros, só em finais do verão dei por ela. Pelo seu pequeno tamanho  - considerando os padrões de exigência de uma planta anual - é possível que tenha germinado tardiamente. 
Apesar das flores incipientes era óbvio que já tinha florido anteriormente pois foram os frutos que primeiro chamaram a minha atenção. Era um exemplar solitário e completamente diferente das outras ervas que costumam invadir os canteiros da pequena horta. Certamente foi trazida de longe por alguma pequena ave, talvez, quem sabe, uma oferenda ou proposta de amizade... 
Deixei passar algumas semanas enquanto observava o seu desenvolvimento e tentava identifica-la. Entretanto, abriram as flores de tom amarelo e amadureceram os frutos mas Infelizmente as chuvas que este ano chegaram precocemente e de forma persistente deterioraram o que restava dos tomates e foi necessário arranca-los rapidamente, o mesmo acontecendo com as infestantes habituais que este ano atacaram com força redobrada. 
Quando dei por isso, da bela planta nem rasto, devidamente despejada juntamente com as suas “comadres” no contentor apropriado aos lixos biológicos. Mas, mais ano menos ano, ela voltará seguramente a germinar no mesmo local, pois algumas sementes terão ficado no solo. Quando tal acontecer, se eu desejar deixa-la crescer terei de ter o cuidado de recolher os frutos antes que as sementes amadureçam, evitando assim a sua proliferação. É que, identificada a espécie, Abutilon theophrasti, fiquei a saber que é uma infestante exótica e altamente invasora, habitual em grandes plantações de milho e soja. No nosso país a sua presença está assinalada principalmente no Douro litoral e Ribatejo.

Abutilon theophrasti é por vezes cultivada em jardins mas aparece principalmente em áreas de resíduos, bermas dos caminhos, terrenos baldios, na proximidade de currais e em campos cultivados ou incultos. Na realidade é uma espécie tipicamente ruderal e infestante que coloniza os habitats modificados pelo Homem e enriquecidos com os fertilizantes das práticas agrícolas. 
A área de distribuição nativa de Abutilon theophrasti vai do sudeste asiático até ao centro da região mediterrânica. Na China já era cultivada intensamente há 3000 anos. Era utilizada principalmente para obter fibras usadas na confeção de fios, cordas, tapetes, sacos, pano grosso, sapatos, redes de pesca, papel e na calafetagem de barcos; em medicina alternativa usavam-na para tratar febres, disenteria e problemas estomacais; como alimento, as sementes, de sabor semelhante às do girassol, eram consumidas cruas (depois de tratadas para perderem o gosto amargo) ou usadas para fazer farinha depois de secas. Hoje em dia, contudo, existem alternativas mais rentáveis e saborosas pelo que se pode dizer que a planta deixou de ser apelativa.
Entretanto, através do Mediterrâneo, Abutilon theophrasti foi abrindo caminho para a Europa e o resto do mundo.
Abutilon theophrasti foi introduzida na América do Norte pelos ingleses antes de 1750, como uma potencial produtora de fibras. A ideia dos investidores era conseguir uma fonte de fibras que os tornasse autossuficientes nesse campo, em vez de estarem dependentes das fibras importadas.
No mundo de hoje, em que dispomos de uma variedade imensa de materiais sintéticos, é difícil imaginar como as fibras vegetais eram importantes para a sociedade de há centenas de anos. Todos os setores da vida doméstica ou comercial estavam delas dependentes, de uma forma ou outra. As fibras eram usadas não só na confeção de têxteis, cestaria, manufactura do papel mas também na construção civil, pesca e navegação marítima. Por exemplo, as correntes metálicas só foram introduzidas nos navios em meados do século XIX, sendo até então utilizadas grande quantidade de cordas, compridas e grossas, manufaturadas a partir de fibras vegetais.
Convento de Cristo - Tomar
Um belo exemplo do estilo Manuelino, em que as cordas se salientam como elemento decorativo
Podemos fazer apenas uma pálida ideia dos quilómetros de cordame que foram necessários durante a campanha dos descobrimentos, da dificuldade em conseguir tamanha quantidade de fibras e de quantas plantas foram sacrificadas para que novos mundos fossem alcançados. As cordas eram de tal forma importantes que constituíram um dos elementos decorativos mais repetidos pelos artistas do estilo Manuelino.
No Novo Mundo o projeto de uma indústria própria para a produção de fibras através de Abutilon theophrasti foi alvo dos esforços dos agricultores americanos durante mais de um século, mas nunca foi um sucesso comercial. Em vez disso, o plantio persistente desta planta tornou-a numa praga agrícola causando prejuízos avultados, chegando atualmente a reduzir as colheitas de milho e soja em cerca de 34%, só nos Estados Unidos e Canadá, apesar do uso intensivo de herbicidas. O mesmo se passa em alguns países do sudeste europeu, nomeadamente Alemanha, Republica Checa e Hungria.
De notar que cada planta de Abutilon theophrasti produz entre 800 a 17000 sementes as quais se mantêm viáveis no solo durante 4 a 5 décadas estabelecendo um banco de sementes tão abundante e resistente que torna praticamente impossível o controlo da espécie. Uma vez germinada, a planta torna-se altamente competitiva, concorrendo com as espécies agrícolas pela luz do sol, espaço no solo, por água e nutrientes. Além disso segrega substâncias alelopáticas cuja composição química impede que outras plantas se desenvolvam em seu redor.
Abutilon theophrasti é uma espécie anual que se desenvolve a partir de um caule ereto e vigoroso o qual se ramifica na parte superior formando um pequeno arbusto que pode alcançar mais de 1,5 m de altura.
O caule e os ramos estão densamente cobertos por curtos pelos estrelados e simples que lhe dão um toque aveludado.
As folhas têm peciolos longos e dispõem-se nos ramos de forma alternada; a venação é palminérvea; quanto à forma, as folhas são cordiformes (em forma de coração) ou arredondadas, com a extremidade aguda e ligeiramente curva; as margens apresentam pequenos dentes; são discolores porque a face superior tem um tom de verde diferente da página inferior; ambas as faces estão cobertas por pelos que as tornam macias e aveludadas ao toque.
As flores, providas de órgãos reprodutores masculinos e femininos, surgem na axila das folhas superiores e agrupam-se em inflorescências do tipo cimeira ou são solitárias. A corola é formada por 5 pétalas de um tom amarelo intenso, de forma obovada e com um pequeno entalhe na extremidade. O cálice é constituído por 5 sépalas cobertas por pelos e unidas na metade inferior e que continuam a crescer até à maturação dos frutos. Não existe epicálice. O androceu é formado por numerosos estames fundidos até certa altura, formando um tubo ao redor do ovário e depois livres entre si. A fecundação faz-se principalmente por autopolinização embora também possa ocorrer polinização cruzada com auxílio de insetos.
O fruto de Abutilon theophrasis é um esquizocarpo, densamente coberto por pelos, primeiro de cor verde, tornando-se quase preto ao atingir a maturação. 
O esquizocarpo é semelhante a uma cápsula circular, maior que o cálice e constituída por 12 a 15 mericarpos presos a uma coluna central e que permanecem intactos até à maturação. Os mericarpos estão dispostos como os gomos de uma laranja, e têm 3 faces: a dorsal ligeiramente côncava e estreita e as laterais planas, lisas e glabras.
Parte superior do esquizocarpo com sementes maduras
Foto de Invasive.org

Cada mericarpo contém 2 ou 3 sementes que são libertadas através de uma abertura situada no ápice. As sementes, achatadas e glabras, apresentam coloração escura e forma de rim.
A floração ocorre principalmente durante os meses de julho e agosto.
Uma vez iniciada a floração cada planta produz sementes de forma contínua até à chegada dos primeiros frios. As sementes amadurecem cerca de 20 dias após a abertura das flores. Cada esquizocarpo produz entre 25 a 45 sementes pelo que uma planta grande pode produzir varias centenas de mericarpos e milhares de sementes. As sementes maduras sao rapidamente disseminadas pelo vento, agarradas ao pelo de algum animal ou misturadas com as colheitas. De notar que passam incolumes pelo trato digestivo dos animais, se deglutidas.
Abutilon theophrasti pertence à familia Malvaceae que constitui uma das grandes famílias botânicas, abarcando atualmente mais de 4225 espécies, agrupadas em cerca de 243 géneros. Até há pouco tempo esta família era bem mais pequena mas após estudos filogenéticos, passou a englobar outras famílias.
Esta família reúne espécies que se distribuem por todos os continentes (exceto as regiões mais frias), havendo uma maior representatividade nos trópicos. É constituída principalmente por trepadeiras, herbáceas, arbustos e árvores estando o cacaueiro (Theobroma cacao)  e os algodoeiros (Gossypium spp) entre os seus representantes mais conhecidos. Muitas espécies desta família têm importância relevante em paisagismo. As espécies arbóreas de grande porte são indicadas para arborização de grandes parques e jardins enquanto certas espécies arbustivas, como os Hibiscus spp ou Abutilon spp também podem ser usadas em jardins familiares, em maciços ou como exemplares isolados. Estas espécies têm grande potencial ornamental. Desenvolvem-se bem na terra ou em vaso e têm a vantagem de ter uma floração muito abundante e prolongada.
Abutilon theophrasti está hoje em dia incluída no género Abutilon mas já esteve incluída no género Sida com o nome de Sida abutilon L. (basónimo de Abutilon theophrasti Medikus).

Fotos: Serra do Calvo/Lourinhã - exceto onde especificado

- Para ver um pequeno filme sobre a planta Abutilon theophrasti e a forma de recolher as fibras, clique AQUI.
- Clicando AQUI pode aceder a uma galeria de fotos de híbridos de Abutilon, especialmente preparados para fins ornamentais.