"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





quarta-feira, 24 de junho de 2015

Verbascum virgatum Stokes

Nomes comuns:
Verbasco, verbasco-das-varas; 
barbasco; blatária-grande; blatária-maior

Verbascum virgatum é uma planta herbácea bienal. O seu ciclo evolutivo demora 2 anos a completar-se. No primeiro ano as sementes germinam, estabelecem raízes e surgem as primeiras folhas em forma de roseta. 
Os caules aparecem no segundo ano, logo seguidos de flores e frutos. O ciclo fica completo quando as sementes voltam à terra, ansiosas por recomeçar.
Os caules são geralmente solitários e simples, por vezes ramificados, podendo atingir 1 ou 1,5 m de altura; são eretos e sólidos com uma consistência algo coriácea, de seção redonda ou um pouco angulosa; a superfície é relativamente glabra na parte inferior da planta mas na parte superior, sobretudo ao nível das inflorescências, está coberta de pelos glandulares curtos, simples, bifurcados ou trifurcados.

As folhas basais são inteiras, oblongo-lanceoladas, onduladas, de consistência grossa e enrugada e com ápice agudo; as margens são recortadas de forma mais ou menos irregular e vão-se estreitando em direção ao eixo, formando um pecíolo curto. 
As folhas caulinares são semelhantes, mas dispõem-se ao longo do caule de forma alternada helicoidal; não só não têm pecíolo, como quase abraçam o caule, por vezes prolongando-se ao longo dele. Ambas as páginas das folhas são finamente pubescentes.
As flores, com 3 ou 4 cm de diâmetro, são amarelas e formam espigas compridas e pouco densas. As flores podem nascer isoladas ou em grupos de 3 a 5.
Em qualquer dos casos existem brácteas, semelhantes a pequenas folhas, na base dos pedúnculos florais. Os pedicelos, mais curtos que o cálice, são acrescentes ou seja, continuam a crescer mesmo depois da fecundação e engrossam ligeiramente durante a frutificação; estão cobertos de pelos gandulares, tal como acontece com as brácteas e com as sépalas que formam o cálice.
A corola é formada por 5 pétalas amarelas, peludas na face inferior, ligeiramente desiguais e que se dispõem em forma de taça; são soldadas na base e a extremidade é arredondada.
O cálice é constituído por 5 sépalas triangulares, soldadas na base mas mais curtas que as pétalas e persistentes no fruto.
As flores são perfeitas pois estão providas de órgãos reprodutores masculinos e femininos funcionais. 
O androceu apresenta 5 estames dimorfos ou seja, dois maiores e com as anteras inseridas obliquamente e os restantes três mais curtos e com as anteras inseridas de forma transversal; todos os filamentos estaminais estão cobertos por pelos longos e densos de cor violeta e branca. 
As anteras, de cor laranja, são glabras e em forma de rim. 
O gineceu consta de um ovário com pelos glandulares e um estilete longo, encimado por um estigma arredondado.
As flores são polinizadas por insetos e a planta floresce e frutifica de abril a agosto.
Frutos imaturos
Os frutos são cápsulas quase globosas, um pouco maiores que o cálice. 
Fruto maduro
As sementes que se encontram dentro dos frutos são numerosas, muito pequenas e leves, sendo facilmente dispersas pelo vento. Servem de alimento a pequenas aves e outros pequenos vertebrados.

Verbascum virgatum é uma espécie nativa do oeste europeu, nomeadamente Península Ibérica, norte de Itália, França e sudoeste de Inglaterra. Foi introduzida e naturalizou-se na África do Sul, América do norte e América do Sul e ainda na Australásia.
Mapa de distribuição em Portugal continental
Fonte: Flora Digital de Portugal/Jardim Botânico - UTAD
No que diz respeito ao nosso país, é autóctone de Portugal continental e Madeira e foi introduzida nos Açores.
Podemos encontrar esta espécie em matos, terrenos cultivados, várzeas, beira dos caminhos, locais de solo remexido, baldios, lixeiras, dunas costeiras de solo perturbado com exposição abrigada do vento. Cresce em quase todos os tipos de solo e aguenta alguma seca mas prefere locais nitrificados e húmidos. Ressemeia-se com facilidade e coloniza facilmente habitats abertos mas não sobrevive a muita concorrência, pelo que não é considerada uma ameaça à atividade agrícola.
Verbascum virgatum pertence ao género Verbascum o qual inclui cerca de 360 espécies (e muitos híbridos) das quais, segundo o portal Flora-on,  9 estão presentes em Portugal. Veja AQUI
O nome genérico Verbascum deriva do vocábulo latino “Barbascum” que significa barba, numa clara referência à penugem que cobre as plantas, ainda que algumas espécies sejam bem mais peludas que outras.
O epíteto específico virgatum deriva também do latim, “virga” que significa vara, referindo-se à estrutura dos caules da planta.
As Verbascum virgatum são plantas muito vistosas e apreciadas pelos amantes da jardinagem. São valorizadas pelas belas flores, folhagem atrativa e elegância do porte, alto e estreito. Acresce o facto de permanecerem em flor por longos períodos de tempo, mesmo em solos secos. Outra vantagem é a baixa manutenção de que necessitam.
Existem disponíveis no mercado da horticultura, sobretudo em países apreciadores da jardinagem e onde as vendas de flores têm grande representatividade, cultivares para todos os gostos: com caules mais curtos, flores maiores e de cores mais variadas.
Nota: 
As cultivares resultam do “melhoramento” de uma determinada planta dando-lhe características que a tornam mais apetecida e em consequência mais vendável. Desta forma uma planta torna-se diferente de todas as outras no que diz respeito a resistência a doenças, a cor ou porte sem que no entanto tenha sido geneticamente modificada, muitas vezes recorrendo à hibridação. Para que uma nova cultivar possa ser registada, o que é obrigatório para poder ser comercializada, tem de manter características iguais em todas as plantas da mesma cultivar durante um espaço de tempo necessariamente longo.
Hibrido Verbascum ´Sugar Plum´
Fonte- fine Gardening
Em Dry Gardens of England pode aceder a fotos de jardins, muitos deles exibindo espécies de Verbascum.

No que diz respeito às espécies silvestres, uma vez estabelecidas e encontrando-se confortáveis, ressemeiam-se com facilidade. Havendo outras espécies do mesmo género nas proximidades a hibridação é muito frequente. E se por um lado as variações morfológicas que daí advêm complicam a delimitação das espécies, também é certo que se podem conseguir exemplares inesperados, certamente uma mais-valia para os amantes da jardinagem.

As espécies do género Verbascum têm uma longa história na medicina tradicional em quase todas as partes do mundo. Têm sido usadas durante séculos no tratamento de uma ampla variedade de doenças nomeadamente distúrbios respiratórios em geral, hemorróidas, dor reumática, situações inflamatórias da pele, feridas, infeções fúngicas e diarreia  e ainda como emoliente, diurético, expetorante e mucolítico. Para além das propriedades anti-inflamatórias são também conhecidas as suas propriedades antivirais, antimicrobianas, antimalária, antioxidantes, anticancerígenas, citotóxicas, imunomoduladoras, antiulcerogênicas, antihepatotoxicas, antihiperlipidémicas, etc. Enfim, poucas plantas terão assim tantas aplicações medicinais. 

Estes atributos devem-se aos metabólitos secundários, ou seja compostos químicos produzidos pelas plantas dos quais ainda só foram isolados saponinas, alcaloides, flavonoides, glicosídeos iridoides e feniletanoides. Apesar de todas as aplicações o conhecimento dos metabólitos acumulados em diferentes espécies de Verbascum é ainda limitado pelo que têm sido objeto de variados estudos e pesquisas na área da indústria farmacêutica.

Os tratamentos são feitos à base das flores e folhas por meio de extratos (ex.: maceração), decocção ou infusão, tendo o cuidado de filtrar bem os líquidos devido aos pelos existentes quer nas flores quer nas folhas e que são irritantes quando ingeridos.
Alertamos para o facto de que entre estes compostos químicos produzidos por algumas Verbascum sp está presente a cumarina (anticoagulante) e também a rotenona (inseticida e piscicida). Como sempre, qualquer tratamento deve ser acompanhado de aconselhamento de um ervanário credenciado pois há sempre a possibilidade de surgirem contra-indicações.

A espécie mais usada em medicina popular é Verbascum thapsus, espécie também presente em Portugal e nesta região. Veja AQUI.

Verbascum é o maior género da família Scrophulariaceae, a qual foi recentemente reorganizada, tendo perdido muito dos seus membros. Numerosos estudos de filogenia (relação evolutiva entre as espécies) com dados moleculares demonstraram que determinados géneros não tinham afinidade genética com a família Scrophulariaceae, pelo que foram transferidos para outras famílias, principalmente Plantaginaceae e Orobanchaceae. Tradicionalmente esta família agrupava 5000 espécies divididas em 275 géneros. Consideravelmente emagrecida após o reajuste, a família Scrophulariaceae tem agora 65 géneros que totalizam aproximadamente 1700 espécies, com distribuição mundial. A importância económica desta família reside principalmente na indústria de plantas ornamentais, de que apresento alguns exemplos:
Híbrido Diascia ´Coral Belle´. Photo by Kenpei
Fonte: Wikimedia Commons
Buddleja davidii
Photo by abbamouse. Fonte Wikimedia Commons
Híbrido de Nemesia 'Sunsatia Banana'
Photo by Stan Shebs. Fonte Wikimedia Commons
O nome Scrophuriaceae teve origem no género-tipo desta família, o género Scrophularia, que por sua vez deriva do termo em latim “scrofula” = escrófula, uma infeção nos gânglios linfáticos (a nível mandibular e cervical) que no passado era tratada com medicamentos feitos a partir de plantas deste género.

Fotos de Verbascum virgatum
Lugar da Areia Branca/Lourinhã (a cerca de 200 metros da praia).

sábado, 6 de junho de 2015

Melilotus indicus (L.) All.

Nomes comuns:
Anafe-menor; coroa-de-rei;  meliloto-da-índia;
trevo-de-cheiro; trevo-de-namorado; meliloto

Melilotus indicus é uma planta aparentada com os trevos, nativa da região mediterrânica, norte de África, Ásia temperada (Península arábica, Médio Oriente, Cáucaso, Ásia central e China) e Ásia tropical (Índia, Nepal e Paquistão). 
No que diz respeito a Portugal, é nativa de Portugal continental e Madeira e naturalizada nos Açores.
Mapa de distribuição em Portugal continental
Fonte: Flora Digital de Portugal-Jardim Botânico da UTAD
Foi introduzida no norte da Europa e logo se espalhou por quase todas as regiões do mundo de clima temperado quente. Embora prefira substratos alcalinos com boa drenagem, dá-se bem em quase todos os tipos de solo, conseguindo mesmo conviver com alguma salinidade. 
É uma espécie pioneira, arvense ou ruderal que ocorre em jardins, beira das estradas e caminhos, estrumeiras, locais perturbados, dunas marítimas, campos cultivados e habitats ripários (margens de cursos de água). 
Apesar de naturalizada, a sua condição de espécie exótica tem-lhe facilitado o desenvolvimento de hábitos invasores em alguns locais, rapidamente formando densas colónias que abafam as espécies autóctones. No entanto, é também muito útil em várias vertentes: é uma planta muito melífera, uma das preferidas das abelhas; as suas raízes profundas penetram nos solos favorecendo o arejamento dos mesmos, além de que têm a capacidade de fixar o nitrogénio atmosférico transformando-o em nutrientes. Esta planta tem ainda a vantagem de crescer bem em solos moderadamente salinos, onde outras espécies forrageiras não proliferam. 
Melilotus indicus é cultivada como fonte de alimento para o gado, sendo uma espécie apropriada às características climáticas de certos locais, resultando economicamente rentável. Apesar do agradável aroma que liberta, o seu sabor é algo amargo pelo que não é muito apreciada. Por essa razão é geralmente cultivada em mistura com cevada, aveia, centeio ou ervilhaca, não devendo ser colhida antes da floração para minimizar os efeitos do aparecimento de bolor a que é propensa durante o armazenamento. De qualquer modo, Melilotus indicus apresenta um certo grau de toxicidade pelo que se for usada em excesso na alimentação do gado poderá causar problemas de saúde, tais como falta de apetite, distensão abdominal, letargia, paralisia e contaminação do leite. A substância culpada é um metabólito secundário, a cumarina. No entanto, já existem híbridos com baixa concentração deste componente químico. 
O ciclo de vida de Melilotus indicus é geralmente anual mas em alguns casos é bienal, dependendo das condições ambientais. Dos mesmos fatores depende o crescimento da planta cuja altura pode ir dos 10 aos 50 cm.
Os caules, ramificados e algo angulosos, são delgados, eretos ou ascendentes, glabros ou esparsamente pubescentes, sobretudo os mais jovens.
As folhas são alternas e compostas por 3 folíolos de forma oblonga ou obovada, com margens serradas. 
Na base do pecíolo existem duas estípulas, ou seja, dois pequenos apêndices foliares de margem membranosa, alongados e estreitos. Nem todas as plantas possuem estípulas e a sua função primitiva permanece algo obscura. Contudo, tanto a sua presença como a sua ausência são, muitas vezes, um fator fundamental para a identificação das espécies. Veja mais AQUI
De notar que os folíolos que compõem as folhas de Melilotus indicus apresentam nastias, ou seja, movimentos que ocorrem em resposta a estímulos ambientais, nomeadamente a luz do sol ou a sua falta. Durante o dia, em resposta à luz solar, os folíolos ficam bem distendidos (fotonastia) para captar o máximo de luz e à noite fecham-se sobre si mesmos (nictinastia) diminuindo a superfície exposta. Estes movimentos resultam da alteração rápida na turgidez das células que se encontram na base dos pecíolos e dos peciólulos, em estruturas mais espessas denominadas pulvinos. O estímulo sobre as células dos pulvinos provoca a libertação dos iões de potássio com a consequente perda de água nas células vizinhas devido ao decréscimo da capacidade de osmose. Desta forma os pulvinos contraem-se e esta reação, ao propagar-se rapidamente, faz com que todas as folhas se dobrem. As folhas abrem-se através do processo inverso. As alterações na turgidez das células são determinadas por agentes químicos cujo equilíbrio controla a contração ou expansão dos pulvinos, num processo ainda não completamente entendido e que tem sido objeto de vários estudos. Esta é uma das características das espécies da família Fabaceae (Leguminosae) a que pertence Melilotus indicus.
As folhas frescas são comestíveis depois de cozinhadas mas quando secas podem ser tóxicas devido à presença da cumarina, substancia química que dá às plantas secas a fragância - que muitos apreciam – do feno acabado de cortar.
As folhas são também repelentes de insetos. Em tempos, quando ainda se usavam colchões de palha, as folhas eram usadas para repelir os percevejos.

As flores são muito pequenas mas numerosas e reúnem-se em elegantes cachos, densos e alongados. Cada pequena flor liga-se a um eixo central por meio de pedicelos curtos. As flores viram-se para baixo após a ântese (período de expansão da flor). 
O cálice, penugento e de cor verde-pálido, forma um tubo campanulado que termina em 5 dentes triangulares, tão compridos quanto o tubo. O comprimento total do cálice corresponde a cerca de metade do comprimento da corola.
A corola, de cor amarela, é formada por cinco pétalas, uma maior e mais comprida e situada na parte superior (o estandarte), duas laterais (as asas) e duas situadas na parte inferior e que estão parcialmente unidas (a quilha). 
Esquema de uma flor papilionácea
Este é um tipo de flor a que se chama papilionácea por ser semelhante a uma borboleta e que é característico de algumas espécies da família a que pertence a Melilotus indicus. As flores são perfeitas, assim classificadas porque dispõem de órgãos reprodutores masculinos e femininos. O androceu é formado por 10 estames com anteras de cor amarela ou alaranjada. Um dos estames é livre mas os restantes nove estão soldados, formando um tubo através do qual passa o estilete que surge a partir do ovário e que é persistente na maturação do fruto. O estigma é diminuto e de cor esverdeada.
Debaixo do ovário existe um recetáculo onde se forma o néctar, o qual é posto à disposição dos polinizadores entre os estames. Apesar deste incentivo aos insetos polinizadores Melilotus indicus geralmente recorre à autopolinização. Contudo é uma planta muito procurada pelas abelhas e com importância económica na produção de mel.
O fruto é uma vagem arredondada e de cor esverdeada que na maturação continua parcialmente envolvida pelo cálice que entretanto se torna rosado. 
Frutos de Melilotus indicus em amadurecimento (pormenor)
Fonte: Wikimedia Commons 
Autor: Forest & Kim Starr
O fruto tem forma ovóide ou quase globosa e a sua superfície apresenta-se ornamentada com vários sulcos que formam um desenho bastante intrincado. No seu interior existe 1 única semente, raramente 2.
Inicialmente as sementes são macias mas acabam por perder a humidade, tornando-se castanhas e duras, temporariamente impermeáveis. Podem manter-se viáveis no solo durante 11 a 50 anos, embora tenham sido encontradas sementes viáveis com 183 anos em San Fernando, no México. As plantas Melilotus indicus produzem uma media de 14,000 sementes por individuo, havendo no entanto plantas grandes que chegam a produzir de 200,000 a 350,000.
Quando maduros os frutos caiem no chão e as sementes acabam por se libertar, dispersando-se por ação do vento ou por animais, muitas vezes sendo ingeridas por pequenas aves.

Esta espécie está incluída no género Melilotus cujas espécies apresentam, por vezes, características morfológicas muito semelhantes. De facto, Melilotus indicus pode facilmente ser confundida com outras espécies do mesmo género e que vivem nos mesmos habitats, especialmente com Melilotus officinalis mas também com Melilotus  sulcatus. Na generalidade as flores deste género são amarelas com exceção de Melilotus albus que tem flores brancas. Existem pequenas diferenças na densidade das inflorescências ou no tamanho das flores mas a melhor forma de distinguir as espécies é através da observação dos frutos maduros.
Esquemas dos frutos maduros, da esquerda para a direita: M. indicus, M. Officinalis, M.sulcatus
Fonte: Flora Iberica
Inicialmente Melilotus indicus foi incluída no grande género Trifolium por Linnaeus em 1753 (Species plantarum) mas foi posteriormente transferida para o género Melilotus pelo botânico italiano Carlo Allioni (Flora Pedemontana 1: 308. 1785)
O nome do género Melilotus vem do grego e quer dizer literalmente “planta leguminosa com mel” referindo-se ao facto de as suas espécies serem muito melíferas – “meli”= mel + “lotos” = planta leguminosa (Munz, Flora So. Calif. 464). O nome da espécie indicus vem do também do grego “indikos” e refere-se à Índia (Jaeger 127)- país onde sempre foi muito cultivada como forrageira.
Este género inclui 21 espécies largamente distribuídas e das quais 10 estão presentes em Portugal continental como autóctones. A maioria destas espécies também estão presentes nos arquipélagos de Açores e Madeira, algumas tendo sido introduzidas, outras sendo nativas (pode conferir os detalhes específicos em Flora-on). 
Melilotus indicus é uma leguminosa, pertencendo à família Fabaceae também denominada Leguminosae, uma das maiores famílias de plantas de flor, incluindo mais de 18,000 espécies agrupadas em cerca de 463 géneros, distribuídas praticamente pelo mundo inteiro. É grande a sua importância económica pois inclui espécies fundamentais na alimentação humana como sejam a soja, o feijão, o amendoim, o grão-de-bico, o tremoço, as ervilhas ou as favas, apenas para mencionar algumas.
Na generalidade, são plantas de hábitos variados podendo ser herbáceas, trepadeiras, arbustos ou árvores. Muitas espécies são também utilizadas como ornamentais, outras têm grande valor comercial ou industrial devido aos produtos que delas podem ser extraídos, nomeadamente o tanino, substância usada na indústria do couro, já para não falar dos corantes, tinturas, colas, vernizes etc.
Uma das características desta família é a faculdade de converter o nitrogénio atmosférico (azoto) em moléculas proteicas as quais são aproveitadas pela própria planta para seu desenvolvimento e o das plantas em seu redor. Isto acontece devido a uma relação simbiótica com bactérias Rhizobium que se fixam nas raízes das leguminosas através de nodosidades, visíveis a olho nu. Em contrapartida, as bactérias recebem das plantas os açúcares produzidos durante a fotossíntese. Esta simbiose permite não só a sobrevivência das referidas bactérias mas também que certas espécies possam desenvolver-se sem problemas em solos pobres em azoto e matéria orgânica.
Tirando partido desta capacidade Melilotus indicus é também usada como adubo verde, processo que consiste  em cultivar leguminosas de crescimento rápido, as quais são cortadas e enterradas no mesmo local antes de florescerem e criarem sementes. Esta prática promove o enriquecimento do solo com azoto e outros nutrientes, além de melhorar a estrutura dos terrenos, protegendo-os da seca e limitando o desenvolvimento das ervas daninhas.

Usos medicinais:
Todas as plantas sintetizam químicos variados, nomeadamente os chamados metabólitos secundários, muitos deles responsáveis por propriedades terapêuticas (veja mais AQUI ).
Melilotus indicus contém cumarina, que é um anticoagulante. A planta também é usada como emoliente, adstringente, laxante e narcótica. 
Entretanto aqui deixamos, mais uma vez, um conselho: qualquer tratamento que leve ao consumo interno das plantas deve ser precedido de aconselhamento apropriado, 

Fotos: Caniçal/Lourinhã, exceto quando mencionada outra fonte.

sábado, 16 de maio de 2015

Equisetum telmateia Ehrh.

Nomes comuns: 
Cavalinha; erva-pinheira; rabo-de-cavalo

As Equisetum - popularmente denominadas cavalinhas - já foram, há milhões de anos, espécies botânicas dominantes na Terra, cobrindo extensas regiões húmidas e alagadiças. Nesse passado tão distante formavam um grupo muito abundante e com grande diversidade de formas e tamanhos. Contudo, a maioria dos seus membros estão agora extintos e deles só se tem conhecimento a partir de restos fossilizados. As cavalinhas apareceram durante o período devoniano (há cerca de 416 a 359 milhões de anos), mas foi durante o período carbonífero (há mais de 230 milhões de anos) que se tornaram numa das espécies soberanas, algumas chegando a atingir 30 metros de altura.
O elevado número destas gigantescas plantas contribuiu largamente para a formação de vastos depósitos de carvão.
As espécies que resistiram até ao dia de hoje são bastante mais pequenas, sendo Equisetum myriochaetum, nativa da México, América Central, Colômbia, Equador e Peru, a maior de todas. Estas plantas podem atingir entre 4 e 7 m de altura, mantendo-se eretas pela estratégia de se ampararem umas às outras.
Equisetum myriochaetum - Royal Botanic Gardens, Edinburgh
Cultivada em estufa
(A folhagem que se vê no topo direito é de Dacrydium cupressinum)
Fonte: Wikipedia - Autor Alexlomas on Flickr
De todos os géneros de cavalinhas que já existiram, apenas 25 espécies sobreviveram. Foram todas colocadas no género Equisetum, único membro da família Equisetaceae e da ordem Equisetales. São todas plantas herbáceas que partilham características com os seus progenitores extintos, tal como a morfologia geométrica dos caules delgados, ocos e articulados, com entrenós longos e as folhas, extremamente reduzidas, arranjadas em espirais em torno dos nós.
As Equisetum são plantas vasculares sem sementes, ou seja, reproduzem-se sexualmente por meio de esporos tal como os fetos, embora morfologicamente existam muitas diferenças entre eles. Também é certo que são muito diferentes de outras plantas vasculares. Por estas razões, antes do advento dos modernos estudos moleculares, a relação deste grupo com outras plantas vivas e fosseis foi considerada problemática. Os botânicos tinham opiniões divergentes, não havia acordo quanto à forma de as classificar. Alguns reconheciam-na como divisão separada com o nome de Equisetophyta ou Sphenophyta. Outros autores consideraram este mesmo grupo como classe, incluída numa divisão constituída por outras plantas vasculares ou mais recentemente, dentro de um grupo de fetos expandido. Quando classificado como classe o grupo foi denominado Equisetopsida ou Sphenopsida.
Enfim, recentes análises filogenéticas forneceram as provas de que Equisetum pertence ao clado Pteridophytes (fetos verdadeiros), formando uma linhagem especializada.
Segundo alguns cientistas (Hauke,1963), Equisetum é provavelmente o mais antigo género vivo de plantas vasculares. Relembremos que as plantas vasculares são assim denominadas porque possuem sistemas de vasos para condução de água e nutrientes e englobam os grupos genericamente conhecidos como pteridófitas (com esporos em vez de sementes), gimnospermas (coníferas – produzem sementes que não estão encerradas em fruto) e angiospermas (produzem flor e as sementes estão encerradas num fruto). Aparentemente foram as pteridófitas (fetos e espécies afins) as primeiras plantas a apresentar este sistema condutor da seiva o que veio possibilitar uma irrigação mais rápida das células vegetais. Ao longo da história evolutiva da Terra, tal não só favoreceu o aparecimento de plantas de grande porte como contribuiu para a adaptação dessas plantas a ambientes terrestres e para o surgimento das plantas produtoras de sementes.
De notar que as plantas mais primitivas, nomeadamente as cavalinhas, dependiam do meio aquático para que a reprodução através de esporos se processasse.
Ainda hoje as espécies do género Equisetum são grandes amantes da água e por isso crescem perto dos rios ou em solos húmidos ou pantanosos de quase todos os continentes, com algumas exceções, nomeadamente Austrália, Nova Zelândia e Antártica.

Segundo a Sociedade Portuguesa de Botânica, através do seu portal Flora-on, são 4 as espécies do género Equisetum, autóctones em Portugal. Veja AQUI.
Mapa atual de distribuição de Equisetum telmateia em Portugal
Fonte: Flora-on
Dados disponibilizados por: 
E.Portela-Pereira,  F.Clamote,  U.Schwarzer,  J.D.Almeida,  A.J.Pereira,  P.V.Araújo,  A.Carapeto,  J.Farminhão, et al. (2015).
Equisetum telmateia é autóctone não só no continente mas também nos Açores e Madeira. Pode ser observada principalmente em substratos argilosos e básicos, na beira dos charcos, terrenos pantanosos, rios, pequenos cursos de água ou campos alagados pela água da chuva na primavera. Ocorrem também em zonas perturbadas pelo homem em resultado de exploração agrícola e em locais onde tenham acesso a águas infiltradas no subsolo. 
Geralmente formam densas colónias, mais ou menos extensas que em alguns locais se podem tornar invasoras, com prejuízo das colheitas agrícolas. Por outro lado, a sobrevivência desta e de outras espécies de cavalinhas estão em risco, juntamente com outras espécies ripícolas, devido à crescente degradação dos habitats húmidos.
Na generalidade Equisetum telmateia ocorre em climas temperados da Europa meridional e central, norte de África, Macaronésia, sudoeste asiático e América do norte.
Divide-se em duas subespecies que basicamente diferem na cor do caule principal:
- Equisetum telmateia subsp. Telmateia, nativa da Europa, sudoeste asiático e noroeste de África   -  caule de cor verde-pálido ou branco-marfim
- Equisetum telmateia subsp. Braunii (Milde) Hauke, nativa da costa oeste da América do Norte, desde o sudeste do Alaska e oeste de British Columbia até ao sul da Califórnia   – caule de cor verde mais escuro
Equisetum temateia subespecie braunii - Fonte CalPhotos
Foto de Zoya Akulova Copyright © 2008 Zoya Akulova
Mais informações sobre a foto AQUI
Equisetum temateia subespécie telmateia, europeia, tem o caule mais claro que a americana (na foto acima)
Equisetum telmateia é uma planta perene, herbácea mas robusta. Reproduz-se quer por esporos quer pela expansão do seu rizoma o qual produz caules aéreos a intervalos curtos e formando colonias. Este caule subterrâneo cresce horizontalmente e subdivide-se lateralmente em várias direções, formando uma massa intrincada de múltiplas camadas que no caso desta espécie chega a atingir mais de 15 m de comprimento e penetrando até 4 m de profundidade. 
No seu ciclo de vida Equisetum telmateia gera, de forma sucessiva, dois tipos de caules: os caules férteis ( cuja função é a reprodução sexual e que aparecem em março, secando logo que libertam os esporos, em abril) e os caules estéreis ou vegetativos (que aparecem logo após e cuja missão é alimentar os rizomas através da fotossíntese). Estes dois tipos de caules, aparentemente independentes, nascem a partir do rizoma comum. No final do verão os caules estéreis secam também, mas o rizoma permanece vivo.
Os caules férteis são perfeitamente identificáveis. Não têm clorofila pelo que são esbranquiçados quando jovens e acastanhados quando chegam ao fim do seu ciclo. São curtos e grossos, constituídos por um caule que suporta uma estrutura de forma cónica (estróbilo), variando a sua altura total entre os 15 e os 45 cm. 
No caule, quase translucido, podem ver-se as folhas, estruturas rudimentares de cor acastanhada, pequenas, unidas entre si e que envolvem o caule como uma bainha ou tubo, com a margem superior serrada, com mais de 15 dentes compridos e estreitos. 
O estróbilo, é a estrutura reprodutora constituída por um eixo central rodeado de numerosos esporangióforos hexagonais e peltados (ligam-se perpendicularmente ao eixo por uma curta haste) agrupados em espiral e em cuja parte interna se originam os esporângios. É dentro dos esporângios que se formam os esporos.
Pormenor do estróbilo de Equisetum sp. em que se podem observar os esporangióforos hexagonais e por baixo deles os esporângios, de cor mais clara.
Fonte Wikipedia
Copyright by Curtis Clark
Corte transversal do estróbilo de Equisetum sp.
Podem observar-se os esporângios e as hastes que ligam os esporangióforos ao eixo central
Fonte Wikipedia
Copyright by Curtis Clark
Corte longitudinal de estróbilo de Equisetum arvense
Podem observar-se os esporângios suspensos dos esporangióforos e as hastes que ligam estes ao eixo
Fonte: Wikipedia - Foto de Keisotyo
Quando os esporos estão maduros os esporângios contraem-se e rompem-se ao longo da superfície interna, libertando-os. Os esporos podem ser masculinos ou femininos. Ao atingirem o solo eles germinam dando origem a uma planta muito simples (protalo) que dura pouco tempo e cuja função é produzir gametas ou seja as células sexuais. O protalo possui um órgão reprodutor feminino e outro masculino. Depois da fertilização da oosfera do gametófito feminino pelos anterozoides do gametófito masculino, o protalo degenera e desta união nasce um novo esporófito que corresponde a uma nova Equisetum telmateia
Os esporos são esféricos e na sua superfície granulosa formam-se 4 estruturas higroscópicas em forma de fita, denominadas elatérios, as quais empurram os esporos para fora da planta e aumentam o seu aerodinamismo em relação ao vento. Nas Equisetum os espessamentos das fitas dos elatérios, obrigam-nos a voltear e saltar, enrolando ou desenrolando, dependendo do grau de humidade, auxiliando na dispersão dos esporos (enrolam quando absorvem a humidade do solo e desenrolam quando o vento ou o sol os seca momentaneamente). E se durante as suas acrobacias tiverem a sorte de ser apanhados pelo vento, podem chegar a locais onde antes nenhum esporo conseguiu chegar. Eles conseguem saltar a grandes alturas - 1 centímetro - o que é um enorme feito pois representa cerca de 20 vezes o seu próprio tamanho, tanto mais que o gasto de energia é nulo.
Esquema copiado de "Les fougères de pleine terre et les prêles, lycopodes et sélaginelles rustiques.
Octave Droin éditeur, 1896" Fonte Wikipedia
Fig. 62 - Elatérios de Equisetum sp. enrolados em torno do esporo
Fig. 60 - Momento em que os elatérios se separam do esporo de Equisetum sp.
 Fig 61 - Elatérios de Equisetum sp. separados pela dissecação
Em 2013 uma equipa de cientistas franceses estudou as dinâmicas dos movimentos dos elatérios de Equisetum e publicaram os resultados em Proceedings of the Royal Society B . Foram também eles que fizeram o vídeo em que se podem ver esses movimentos em câmara lenta. Veja e delicie-se.
The Walking and Jumping Spores of Horsetails plants
Film by Philippe Marmottant – Lab. Interdisciplinaire de Physique CNRS and Univ. of Grenoble

Uma vez libertados os esporos, os caules férteis murcham. Nessa altura começam a crescer os caules chamados estéreis que constituem a estrutura vegetativa dominante. São eles que alimentam os rizomas através da fotossíntese, conduzindo as seivas entre os ramos e às raízes.
Os caules estéreis pouco mais são que caules verdes. O caule principal é verde-claro (nas plantas jovens) ou branco-marfim (nas plantas adultas mais velhas), ereto e a sua altura varia entre os 30 e os 150 cm, com diâmetro de cerca de 1 cm ou menos. A superfície exterior apresenta estrias longitudinais pouco definidas, com aspeto vidrado. Isto acontece porque os tecidos da planta são ricos em sílica, um dos principais componentes do vidro.
Este caule é oco e é formado por nós e entrenós colocados a espaços regulares e que lhe dão um aspeto segmentado. 
As folhas são muito finas, de aspeto escamoso e estão dispostas nos nós, unidas entre si e formando um anel em redor de cada nó, terminando numa coroa de dentes triangulares. A atividade fotossintética das folhas é praticamente inexistente, funcionando apenas logo no início e depressa secando.
Na base de cada anel de folhas surgem uns 20 ramos de cor verde formados por 8 ou 9 entrenós os quais se posicionam em redor do caule principal como os raios da roda de uma bicicleta. Estes ramos têm estrias proeminentes e cada entrenó envolve o seguinte por uma bainha de 4 escamas.
Tanto os caules férteis como os estéreis são comestíveis, crus ou cozinhados. Para tal devem ser colhidos jovens, tendo o cuidado de não destruir os rizomas. Devem ser descascados ou pelados.
Contudo, as células que formam os tecidos das plantas adultas estão cheios de sílica pelo que devem ser escolhidas as plantas jovens ou dará a sensação de mastigar areia. Por esta mesma razão, a planta torna-se especialmente abrasiva depois de seca, qualidade que foi aproveitada pelas população antigas que a usavam para polir artigos de metal ou esfregar o chão de madeira das suas casas.


As cavalinhas são tóxicas para o gado mas principalmente letais para os cavalos. Contudo não existem evidências de que sejam tóxicas para os humanos desde que se estabeleça um limite ao seu consumo.

Equisetum telmateia  é muito usada em medicina tradicional pois possui propriedades mineralizantes, diuréticas, hemostaticas e cicatrizantes. Usa-se sob a forma de infusão, duas a três chávenas por dia. Colocam-se os ramos frescos ou secos em água acabada de ferver e deixam-se repousar durante 10 minutos. Para tratamentos específicos  é  recomendável procurar aconselhamento.

O nome genérico Equisetum deriva do latim “equus” (cavalo) + “seta” (cerda) talvez porque os ramos desta planta se assemelhem aos pelos grossos das caudas dos cavalos. Daí derivam também os nomes populares de cavalinha e rabo-de-cavalo em português e horsetail em inglês.
Quanto ao nome especifico telmateia deriva do grego “telmat” (pântano, atoleiro), referindo-se aos terrenos húmidos onde a planta geralmente vive.

Fotos: Serra do Calvo/Lourinhã, exceto quando mencionada uma outra fonte.