"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Geranium dissectum L.

Nomes comuns: Bico-de-pomba, coentrinho

Geranium dissectum é mais uma mimosa herbácea do género Geranium o qual se inclui na família Geraniaceae (Veja informações sobre este género e família AQUI). 
Esta é uma espécie anual, que rapidamente esgota o seu ciclo de vida. Mas quase não se dá por isso; embora definhe com o verão, logo ressurge com as primeiras chuvas de outono, recomeçando a partir de semente e trabalhando arduamente até voltar a dar fruto, num circulo continuo de esperança.
Geranium dissectum é nativa da Europa (exceto o extremo norte), Macaronésia, noroeste de África, Médio Oriente e também sudoeste e centro asiático. Encontra-se como espécie introduzida e naturalizada no continente americano (norte e sul), Japão, Austrália e Hawai.
É frequente em quase todas as regiões do nosso território, sendo uma espécie autóctone de Portugal continental e do arquipélago da Madeira. Foi introduzida nos Açores, onde se está naturalizada.
Esta planta raramente é encontrada em pastagens ricas, parecendo preferir áreas abrigadas, pouco ervadas e onde o solo é fofo por ter sido recentemente remexido ou de alguma forma perturbado, nomeadamente na beira de caminhos, orla dos bosques, campos cultivados ou baldios. Gosta de terrenos húmidos mas tolera o solo moderadamente seco e pedregoso, desde que seja rico em nutrientes. 
Curiosamente estas plantas não são consumidas pelo gado pois são ricas em metabólitos secundários (taninos) que atuam como defensores contra o ataque de herbívoros, tornando o seu sabor desagradável. O tanino é antisetico, altamente adstringente e tónico, pelo que toda esta planta, sobretudo a raíz, é muito usada em medicina alternativa, no tratamento de um um amplo leque de distúrbios alimentares. Também é útil no tratamento de feridas e inflamações. Recomenda-se que a colheita das plantas seja feita durante a sua floração não só para evitar confusões com espécies parecidas mas principalmente porque o teor em tanino é maior. Por esta mesma razão a recolha de folhas e sementes deve ser realizada antes da maturação dos frutos. Após a colheita devem ser colocadas a secar em lugar fresco e escuro e depois usadas em chás e infusões. Nunca é demais salientar que a ingestão de qualquer planta deve ser feita sob aconselhamento de quem tem os conhecimentos necessários. Existe a crença que “por ser natural, não pode haver mal” mas não esqueçamos que todas as plantas têm alguma dose de toxicidade.
Em redor da raiz principal, geralmente muito longa, surgem caules simples ou múltiplos formando uma espécie de roseta e que podem ir dos 10 aos 50 cm de comprimento nas plantas adultas.
Os caules ramificam-se  a partir da base ou dos nós, têm aparência robusta e podem ser eretos ou ascendentes, desenvolvendo primeiro uma pequena extensão no sentido horizontal, encurvando-se depois até assumirem uma postura quase vertical; são densamente pubescentes estando cobertos por pelos fracos e densos, não glandulares.
As folhas, cobertas de pelos curtos, apresentam contorno circular e nervuras bem marcadas que irradiam de um ponto central. São profundamente recortadas formando 5 lóbulos estreitos e irregulares que por sua vez também são recortados na metade superior. Aliás, o nome especifico dissectum, identificativo desta espécie, deriva da união do prefixo grego dis (= 2) com o termo latino sectus (= fenda ou fissura), numa clara referência aos recortes das suas folhas, primariamente divididas em 5 segmentos e depois subdivididas. (Jaeger 80,234).  
As primeiras folhas aparecem isoladas na extremidade de longos pecíolos dispondo-se alternadamente em espiral; as folhas caulinares dispõem-se de forma oposta e não só são mais pequenas que as basais mas também têm pecíolos mais curtos; na sua base existem 2 estipulas, de forma triangular e tingidas de vermelho.
NOTA sobre as estípulas:
Apenas cerca de um terço das angiospermas (plantas com flor, o maior e mais moderno grupo de plantas, englobando cerca de 230 mil espécies) possuem estipulas. Estas aparecem aos pares e variam de espécie para espécie, em tamanho e morfologia; podem ser estruturas laminares, glândulas, pelos, espinhos ou escamas; algumas são caducas e outras são perenes; por vezes são insignificantes, outras vezes são de tal forma desenvolvidas que se confundem com verdadeiras folhas, ajudando no processo da fotossíntese; podem transformar-se em gavinhas, para ajudar no crescimento vertical da planta ou em espinhos, como forma de reduzir a predação por vertebrados herbívoros; em muitas espécies as estipulas são pequenas e residuais, sem nenhuma função óbvia; noutras espécies evoluíram para nectários extraflorais atraindo formigas (com as quais estabelecem interações mutualistas, de que beneficiam tanto as plantas como as formigas).
A função primitiva das estipulas permanece algo obscura e a maioria das angiospermas que não as tem, não parece sentir-lhes a falta. Contudo, a ausência destas estruturas é tão importante como a sua presença, pois é um fator fundamental na identificação das espécies.
As flores de Geranium dissectum despontam geralmente aos pares na extremidade de um pedúnculo longo que parte das axilas das folhas e que se divide em dois pedicelos curtos, um para cada flor e os quais estão densamente cobertos de pelos glandulares.
São flores diminutas, mas muito bonitas na sua simplicidade; quase parecem tímidas mas curiosas, pela forma como se escondem e ficam a espreitar por entre a densa folhagem musgosa. Sem prejuízo do prazer que retiramos da sua presença no campo ou em algum recanto abandonado na cidade, devo dizer que qualquer das espécies silvestres de Geranium  tem lugar num jardim, seja qual for o seu estilo. Podem ser-nos muito úteis se as usarmos como cobertura de solo, preenchendo espaços que de outra forma ficam à mercê de ervas não desejadas. A verdade é que quando planeamos os nossos canteiros geralmente damos toda a importância às espécies de flores e arbustos que lhe podem dar visibilidade e esquecemo-nos do solo que por vezes tanto trabalho nos dá a mondar. As plantas de cobertura estão a ser cada vez mais utilizadas pois não só nos permitem poupança de esforço na luta contra as ervas indesejadas mas também fornecem sombra ao solo, mantendo a humidade, protegendo-o da erosão e propiciando a reciclagem dos nutrientes.
As flores de Geranium dissectum apresentam 5 pétalas de cor rosada em cuja base existem glândulas nectaríferas; o ápice de cada pétala é ligeiramente chanfrado, embora não tão profundamente como na Geranium molle
As 5 sépalas são eretas, de forma elíptica, livres e agudas; os pelos interiores são simples e os exteriores estão providos de glândulas. No caso desta e outras espécies do género Geranium as sépalas não se limitam a proteger o botão floral; elas permanecem para proteger também o fruto até à maturação. Isto é, as sépalas abrem quando as pétalas se expandem na ântese mas quando estas terminam a sua função e definham, as sépalas fecham-se de novo sobre os frutos em formação, para voltar a abrir quando as sementes engrossam e ficam até estas amadurecerem por completo. 
Inicialmente as sépalas apresentam tamanho semelhante ao das pétalas mas continuam a crescer até à maturação dos frutos.
Foto Wikipedia by Fornax
Cada flor apresenta órgãos reprodutores masculinos e femininos. Os órgãos masculinos são constituídos por 10 estames todos férteis, dispostos em duas séries; as anteras, geralmente de cor azul-violeta, produzem pólen de um tom azulado.
Entre os estames podem ver-se os cinco braços estigmáticos (correspondentes aos 5 carpelos que constituem o ovário), de linda cor purpura e cuja estrutura tem a consistência apropriada para recolher os grãos de pólen; estes serão de imediato encaminhados para o ovário, através do tubo denominado estilete, por forma a permitir que os óvulos aí presentes sejam fecundados. O ovário de Geranium dissectum, tal como acontece com as outras espécies do género, é formado por 5 carpelos que vão dar origem a um fruto com 5 mericarpos, cada um com a sua semente, os quais crescem e se desenvolvem em redor do estilete. 
O estilete cresce continuamente até à maturação, expandindo-se e transformando-se numa estrutura colunar semelhante a um bico de pássaro.
As flores de Geranium dissectum florescem e frutificam de março a julho ou agosto, dependendo da disponibilidade de água no solo. Apesar da oferta de néctar, numa tentativa de atrair polinizadores, existe o risco de não se registarem suficientes visitas de insetos. É que estas plantas podem passar despercebidas não só pelo tamanho diminuto das suas flores mas também pelo seu hábito rasteiro. Por outro lado a época fértil dos seus estames e pistilos coincide com uma altura do ano em que os insetos têm muito que comer, não sabendo para onde se virar com tantos banquetes à sua disposição. Desta forma, Geranium dissectum socorre-se da autopolinização, situação que é favorecida pela proximidade física de estigmas e estames, tanto mais que aqueles ficam recetivos quando as anteras dos estames ainda não derramaram todo o seu pólen.
O fruto de Geranium dissectum é constituído por um agrupamento de 5 sementes situadas na base da coluna (bico); cada semente está encerrada dentro de uma cápsula (mericarpo) que está ligada à coluna através de uma haste denominada arista que, ao expulsar as sementes fica arqueada, em forma de vírgula. Inicialmente a arista faz parte da estrutura da coluna mas gradualmente vai-se separando.
A parte interessante acontece quando as sementinhas ficam maduras e têm de deixar o aconchego da casa materna para ficarem por sua conta e risco. Tendo em conta que o objetivo de cada planta é a perpetuação da sua espécie, não só a produção de sementes é importante como também a estratégia para a sua dispersão tem de ser bem pensada para ser apropriada e eficaz. As espécies Geraniaceae, geralmente de baixa envergadura, adotaram um sistema de dispersão muito interessante que catapulta as sementes a distâncias consideráveis, numa tentativa de expandir o seu território mas evitando a concorrência direta com as suas vizinhas da mesma espécie.
Existem pequenas diferenças, de espécie para espécie, na forma como a dispersão é realizada mas basicamente todos os processos têm a ver com as propriedades higroscópicas da camada interior das aristas (segmentos que ligam os mericarpos à coluna) que, ao ficarem desidratadas, vão criando tensão semelhante à de um elástico esticado. Chegado o momento da rutura as aristas dobram ou torcem repentinamente, arremessando as sementes de forma violenta.
Esquema 1 - Fonte
a) mericarpo posicionado em angulo reto aguardando o momento de catapultar a semente
b) posição pós-expulsão da semente
c) o involucro do mericarpo ainda ligado à arista e à coluna
d) semente
Há um pormenor interessante a considerar, ou seja, estando as sementes encerradas no mericarpo, em que momento se abrem “as portas” para que as sementes possam ser expelidas, sem que escapem antes de tempo?
Esquema 2 - Fonte
É preciso recordar que os mericarpos correspondem aos carpelos e que os mesmos são folhas modificadas dobradas sobre si mesmas. Uma vez que as bordas estão viradas para o interior, esta cápsula só abre para dentro e assim sendo, é legítimo pensar que quando o mericarpo explode violentamente, não resta outra opção à sementinha que não seja a de embater violentamente contra a parede. A verdade é tal não acontece porque esta dificuldade foi prevista pelas espécies Geranium e é superada de formas diferentes consoante as espécies. 
Fonte Flora-on
Foto de Ana Júlia Pereira, mostrando invólucros e aristas presos à coluna, após a expulsão das sementes

No caso de Geranium dissectum o que acontece é o seguinte: algum tempo antes da deiscência os mericarpos posicionam-se em ângulo reto em relação à coluna central; entretanto as bordas do mericarpo separam-se mas logo surge uma franja de pelos suficientemente fortes para segurar as sementes no seu lugar mas sobejamente elásticos para permitir-lhes escapar quando se der a “explosão”. Após a expulsão, as aristas e invólucros dos mericarpos ficam ligados à coluna, enrolando-se para cima mas ficando presos pelas extremidades superiores.
Assim, enquanto no Geranium molle os mericarpos são ejetados de forma completa (com invólucro do mericarpo, semente e arista), no caso de Geranium dissectum apenas as sementes são catapultadas.

NOTA:
As espécies silvestres do género Geranium são por vezes muito semelhantes sendo fácil confundi-las. Existem, no entanto, algumas características que permitem a sua identificação. Geranium molle e Geranium dissectum são as duas espécies mais comuns no nosso território. Apesar de G. dissectum apresentar folhas com segmentos mais estreitos do que G. molle, nem sempre é seguro diferencia-las pela folhagem pois existe grande variabilidade. A forma mais fiável é através dos pelos das sepalas que em G. dissectum são todos curtos e em G. molle existem dois tipos de pelos de tamanhos diferentes, como podemos observar no seguinte quadro comparativo da Flora-on:

Fotos de Ana Júlia Pereira
Texto e fotos de:
Fernanda Delgado do Nascimento  http://floresdoareal.blogspot.pt/
(exceto quando especificado).

Fotos de Geranium dissectum: Serra do Calvo/Lourinhã 

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