"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Geranium purpureum Vill.

Nomes comuns: 
Erva-de-são-roberto;
bico-de-grou; bico-de-grou-robertino;  
erva-de-são-roque; erva-roberta; pássara

Geranium purpureum
A expansão das atividades agrícolas conta-se entre os muitos fatores associados às atividades humanas que causaram perturbação no equilíbrio dos habitats naturais. O abate intensivo de florestas, realizado ao longo de milénios, levou ao declínio populacional de algumas espécies vegetais. Em contrapartida, outras espécies tiraram partido da situação e aumentaram as suas populações de forma significativa tendo-se adaptado a ambientes mais ou menos artificializados pela ação humana. Essas espécies denominam-se ruderais (do latim ruder = cascalho) e caracterizam-se por uma grande diversidade florística. 
Echium plantagineum
Flores de todas as cores e morfologias sucedem-se ao longo do ano, alegrando pequenos e grandes espaços e servindo de alimento a muitas espécies de insetos; muitas delas são aromáticas, outras já se tornaram indispensáveis na farmácia do povo. 
Dittrichia viscosa
Crescem em zonas rurais ou suburbanas de preferência em cascalheiras, montes de entulho, campos baldios, fendas de muros e beiras de caminhos. O tipo de solo é-lhes geralmente indiferente mas procuram espaços enriquecidos em matéria orgânica. Não é que sejam gulosas, embora da fama não se livrem. 
Papaver rhoeas
Mas a verdade é que elas necessitam do suprimento nutricional adequado  ao seu curto ciclo de vida, tendo não só  a obrigação de crescer rapidamente mas também desenvolver flores, frutos e sementes férteis, tudo no espaço de uma estação.
Geranium purpureum
Contudo nem todas as plantas que vemos a crescer em meios antropogénicos são estritamente ruderais, podendo encontrar-se também em ambientes mais naturais. É o caso de Geranium purpureum uma espécie silvestre que também é nitrófila e ruderal. É fácil encontrá-la na vizinhança das populações rurais, especialmente em espaços por onde transitam humanos e gado mas também em matagais, pinhais, sebes, taludes, na orla dos bosques ou sob coberto das árvores pois aprecia os locais sombreados mas não demasiado secos. Esta espécie é nativa do norte de África, sudoeste asiático e continente europeu, com especial incidência na região mediterrânica. E uma espécie autóctone muito comum em quase todo o território de Portugal continental assim como no arquipélago da Madeira. Também existe em algumas ilhas do arquipélago dos Açores, onde se naturalizou.
Pertence ao género Geranium o qual se inclui na família Geraniaceae que, como já AQUI vimos, são grupos cheios de interesse. 
Geranium purpureum é uma pequena planta herbácea cuja altura varia entre os 10 ou 35 cm de altura. O seu ciclo de vida é anual e inicia-se no outono com a germinação das sementes, florescendo e frutificando de março a agosto do ano seguinte. Exala um forte odor que para alguns é agradavelmente aromático, para outros nem por isso, contudo não deixa de ser muito característico.
Os caules são delgados, avermelhados e de seção cilíndrica; podem ser eretos, ascendentes ou mesmo prostrados e estão cobertos de pelos glandulares e não glandulares, sobretudo na parte superior; são ramificados desde a base e formam pequenas moitas.
As folhas, com pelos em ambas as páginas, colocam-se nos caules de forma oposta, ligando-se a eles através de longos pecíolos.
Apresentam limbo de contorno triangular ou pentagonal, profundamente dividido em 3 a 5 segmentos que por sua vez se subdividem em segmentos secundários oblongos. 
As estipulas, de forma ovada, são glabras embora providas de pelos finos nas margens.
Tal como acontece com os caules, as folhas podem tornam-se avermelhadas, podendo apresentar vários tons de verde e vermelho, em simultâneo. O nome específico purpureum refere-se precisamente à coloração vermelha das folhas e caules.
As pequeníssimas e delicadas flores surgem aos pares nas axilas das folhas superiores, no topo de pedúnculos longos e peludos, com pequenas bractéolas avermelhadas na base.
Cada corola é formada por 5 pétalas inteiras e de cor rosa-malva, com veios mais escuros, possivelmente linhas que conduzem os insetos polinizadores às bolsas de néctar, localizadas na base de cada pétala. 
O cálice é composto por 5 sépalas estreitamente lanceoladas e mais curtas que as pétalas, com pelos glandulares densos e margens escariosas, firmes e translucidas. 
Existem órgãos femininos e masculinos em cada uma destas flores. Os estames são 10, todos férteis e fornecem pólen amarelo a partir de anteras também amarelas. O ovário é formado pela união de 5 carpelos e dele emerge um estigma que se divide em 5 braços filiformes de cor rosa ou purpura.
A polinização é feita por insetos mas à semelhança de outras espécies do mesmo género (e.g. Geranium molle  e Geranium dissectum  ) o Geranium purpureum é autocompativel, ou seja, está preparado para complementar a fertilização através da  autopolinização, assegurando a produção de sementes viáveis, quer receba a vista dos insetos, quer não. Planta prevenida...
O fruto de Geranium purpureum é formado por 5 mericarpos independentes, unidos por fibras denominadas aristas, a uma coluna alongada (em forma de bico de ave) a qual é formada pelo conjunto do estilete e estigma que se alongam e continuam a crescer até à maturação completa.
A dispersão das sementes das espécies do género Geranium é feita por expulsão violenta, como já vimos anteriormente. Tal acontece devido às propriedades higroscópicas das aristas (fibras que seguram os frutos). À medida que vão ficando desidratadas e distorcidas as aristas acumulam tensão semelhante à de um elástico esticado, de modo que, chegado o momento da rutura, se dobram repentinamente, catapultando as sementes a considerável distância da planta-mãe. Contudo, existem algumas diferenças de espécie para espécie na forma como este processo se desenrola. É como se cada uma delas necessitasse de impor alguma da sua personalidade própria, individualizando um processo demasiado uniforme e previsivel.
No caso de Geranium purpureum as sementes são catapultadas não só com  a membrana do mericarpo que as envolve, num processo semelhante ao de Geranium molle, mas também com  dois fios finos. Não se sabe exatamente para que servem estes fios mas possivelmente será para se agarrarem a qualquer outra planta, ferrramenta muito útil no caso de terrenos muito inclinados.
Semente de G.robertianum agarrada à arista e aos dois fios que lhe servem de freio, situação semelhante à de G.purpureum
Fonte
De notar que Geranium purpureum é muito semelhante a outra espécie do mesmo género Geranium robertianum L. com a qual pode facilmente ser confundida. Ambas as espécies têm características morfológicas muito semelhantes a olho nu e convivem nos mesmos habitats.
A principal diferença está no facto de que todas as partes de G.purpureum são mais pequenas que as de G. robertianum, especialmente no que diz respeito ao tamanho da flor. Outra diferença facilmente detetável é a cor das anteras que são amarelas no Geranium purpureum e laranja escuro no Geranium robertianum.

A- flor de Geranium purpureum
B- flor de Geranium robertianum

Por Yeo, 1973
Fonte - Pavol Elias Jun.Dept of Botany, Slovak University of Agriculture


Devido à sua semelhança morfológica há quem considere que G.purpureum e G. robertianum são subespécies ou híbridos, contudo para a maioria dos cientistas não restam duvidas de que se trata de espécies diferentes. Algumas das diferenças estão registadas neste quadro:
Fonte - Pavol Elias Jun.Dept of Botany, Slovak University of Agriculture

À esquerda - semente de Geranium purpureum
À direita - semente de Geranium robertianum
Fonte
O forte e característico odor exalado pela planta deve-se aos componentes que entram na sua composição química, com referência especial para os taninos. Estes metabólitos secundários dão-lhe o sabor amargo mas também lhe conferem  as suas propriedades terapêuticas, sendo usada pelas populações em infusões e cataplasmas,  há centenas de anos. Diz o povo que tem propriedades anti-inflamatórias, antibacterianas, antidiarreicas, anticancerígenas, entre outras e que é especialmente eficaz como purificadora do sangue e do fígado. 
A utilização de certas plantas como medicamentos é praticamente tão antiga como a espécie humana e está mais do que provado que as espécies vegetais continuam a ter grandes potencialidades farmacêuticas. Mas, como em tudo, é necessário observar certas regras e seguir os conselhos de quem tem os conhecimentos necessários. Se resolver fazer a recolha pessoalmente certifique-se que identificou corretamente a planta e que nenhuma outra vem misturada. Por outro lado informe-se sobre quais são as partes da planta que deve usar e qual a forma correta de o fazer.

Texto e fotos de:
Fernanda Delgado do Nascimento  http://floresdoareal.blogspot.pt/
(exceto quando mencionada outra fonte).

Fotos de Geranium purpureum: Serra do Calvo e Caniçal/Lourinhã.

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