"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





sábado, 15 de novembro de 2014

Geranium molle L.

Nome comum: Bico-de-pomba-menor

Geranium molle é uma espécie de origem europeia (desde a Península Ibérica e bacia do Mediterrâneo até à Escandinávia), arquipélagos da Madeira e Canárias, Ásia temperada e tropical e Norte de África. Foi introduzida no arquipélago dos Açores, África do Sul, Austrália e continente americano onde se naturalizou, sendo considerada uma erva invasora em algumas destas regiões.
Esta planta é frequente praticamente em todas as regiões do nosso país, embelezando a beira dos caminhos, muros de pedra e terrenos incultos ou de pousio, contribuindo para a riqueza nutritiva e a regularização da humidade dos solos. Também consegue desenvolver-se em situações de grande pressão ambiental, quer em terrenos degradados por lixos e entulhos, quer na proximidade de habitações citadinas. Geralmente cresce associada a outras plantas de morfologia semelhante, sejam do mesmo género ou de géneros aparentados, nomeadamente G.dissectum, G. rotundifolium, G. purpureum e também Erodium malacoides e E. moschatum. Falaremos destas espécies em futuras publicações e da melhor forma de as distinguir.
Se lhe for permitido crescer em jardins, Geranium molle torna-se muito útil como cobertura de solo, impedindo a proliferação de ervas indesejadas. Espalha-se pelo chão em comprimento ou se preferirmos, pode crescer em altura desde que lhe providenciemos apoio. É uma planta anual mas cresce rapidamente e ressemeia-se com facilidade, sendo no entanto relativamente fácil restringir-lhe o tamanho. Cresce bem em locais sombreados mas prefere o sol pleno.
Geranium molle é uma espécie da família Geraniaceae e está incluída no género Geranium. Pode ver mais detalhes sobre esta família e género AQUI

O nome específico molle vem do latim e significa mole ou suave, numa clara referência ao tipo de pelos que cobrem as diferentes partes da planta, os quais são brancos e macios, uns maiores que os outros; os pelos mais curtos estão providos de glândulas secretoras de substâncias aromáticas, ao contrário dos pelos compridos que não possuem glândulas. Esta é uma característica própria que nos permite distinguir esta espécie de outras semelhantes.
Os caules de Geranium molle são muito ramificados, tenros e frágeis, eretos ou ascendentes e podem chegar aos 60 cm de comprimento.
Na generalidade, as folhas apresentam um contorno arredondado bem visível mas o limbo apresenta recortes profundos formando entre 5 a 7 lóbulos, os quais por sua vez também se encontram recortados, terminando num ápice arredondado.
A maior parte da folhagem nasce ao nível do solo formando uma espécie de roseta à qual as folhas estão ligadas por longos pecíolos. 
Em contrapartida, as folhas dos caules superiores são de tamanho bastante mais pequeno e mostram pecíolos muito reduzidos.
De forma geral, as pequenas flores nascem em grupos de 2 ou 3, na axila das folhas superiores e estão providas de longos pedúnculos, os quais são eretos durante a floração mas que se curvam para baixo quando se inicia a frutificação. 
São flores pequenas mas muito mimosas, com 5 pétalas de cor rosa ou lilás, apresentando um entalhe profundo no ápice que parece dividir cada pétala em duas. Durante a floração esta característica permite distingui-la de imediato de outras espécies da mesma família.  
As 5 sépalas que formam o cálice apresentam cor verde e são livres, eretas e algo rígidas; externamente, estão cobertas por pelos curtos glandulares e por pelos compridos mas sem glândulas; embora sejam ligeiramente mais curtas que as pétalas, continuam a crescer após a floração e até à maturação do fruto.
Pormenor dos órgãos reprodutivos da flor.
Fonte: Wikipedia
As flores estão munidas de órgãos reprodutivos masculinos e femininos funcionais. Os 10 estames, fusionados na base, apresentam anteras bilobadas de um bonito tom azulado; dispõem-se em duas séries em redor do ovário, de forma que os 5 da série externa estão opostos às pétalas e alternam com os 5 da série interna que se situam opostos às sépalas; na base de cada um destes últimos existe uma glândula nectarífera. Encaixados entre os estames podem ver-se os 5 braços estigmáticos de aspeto aveludado e bela cor púrpura, cuja missão é recolher os grãos de pólen que serão conduzidos ao ovário através do estilete.
Esta espécie floresce durante a primavera e verão, época do ano em que a concorrência é grande entre as plantas que precisam de ser polinizadas. Alimento não falta aos insetos que têm muito por onde escolher e as flores do Geranium molle tentam compensar a pouco visibilidade que lhes confere o seu diminuto tamanho, oferecendo néctar aos polinizadores. Ainda assim, imprevistos podem acontecer e Geranium molle prefere jogar pelo seguro. Isto é, sendo que o verdadeiro objetivo das plantas é a perpetuação da sua espécie através da produção de frutos, quantas mais sementes produzir, melhor. Nesta conformidade Geranium molle não fecha as portas à autopolinização, a qual, nesta espécie, é favorecida pela proximidade física de estigmas e estames, tanto mais que aqueles ficam recetivos quando as anteras dos estames da série exterior ainda não derramaram todo o seu pólen. É verdade que entre as plantas silvestres a polinização cruzada é mais comum e aparentemente desejável como forma de promover a variabilidade genética. No entanto, em certas situações a autopolinização pode ser mais vantajosa. Este é mais um assunto interessante que teremos de deixar para uma futura publicação.
Frutos imaturos: protegido pelas sépalas do cálice o ovário (formado por 5 compartimentos que irão dar origem a 5 sementes) começa a inchar e a coluna em forma de bico de ave começa a alongar-se.
O fruto de Geranium molle é um esquizocarpo. Este é constituído por um conjunto de 5 cápsulas ou mericarpos, cada um deles com a sua semente. 
Mericarpos de Geranium molle, em redor da coluna à qual estão ligados por uma arista.Fonte
Estes 5 mericarpos estão agrupados em volta de uma coluna alongada (formada pelo conjunto dos órgãos do pistilo – ovário, estilete e estigma), estrutura essa que, após a fecundação, se alonga e continua a crescer até à maturação das sementes, ficando semelhante a um bico de ave. 
Ilustração de semente e arista
Fonte
Cada mericarpo está ligado à coluna central através de uma arista, formação delgada, longa e rígida, constituída por tecidos especializados e sensíveis à humidade. 
Nesta foto apresentada pela Flora-on, Ana Júlia Pereira captou dois momentos chave na dispersão das sementes da espécie Geranium molle, o "antes" e o "depois": 
À esq.  o fruto maduro nos momentos que antecedem a expulsão das semente
À dta.  o cálice vazio após as sementes terem sido catapultadas
Através das suas propriedades higroscópicas, as aristas têm um papel preponderante no complexo sistema de dispersão. À medida que as sementes amadurecem as aristas vão ficando desidratadas e distorcidas, produzindo tensão (semelhante à de um elástico esticado) que se acumula na estrutura até que, chegado o momento da rutura as aristas se dobram repentinamente, catapultando as sementes a considerável distância da planta-mãe. No caso desta espécie as sementes seguem viagem ainda envoltas no invólucro do mericarpo (noutras espécies, o invólucro rasga-se e apenas as sementes são ejetadas).  De notar, contudo, que no Geranium molle a arista nem sempre acompanha o mericarpo, havendo situações em que fica agarrada à coluna.
Esquema de expulsão do carpelo típica de Geranium molle
Fonte
Embora não existam estudos que comprovem propriedades medicinais em Geranium molle, a verdade é que esta planta tem sido usada sob a forma de chás e infusões desde tempos antigos, na terapia de muitas maleitas, nomeadamente no tratamento de feridas ou úlceras e no alívio de dores musculares e articulares.


NOTA:
As espécies silvestres do género Geranium são por vezes muito semelhantes havendo a possibilidade de facilmente as confundirmos. Existem, no entanto, algumas características que permitem a sua identificação. Geranium molle e Geranium dissectum são as duas espécies mais comuns no nosso território. Apesar de G. dissectum apresentar folhas com segmentos mais estreitos do que G. molle, nem sempre é seguro diferencia-las pela folhagem pois existe grande variabilidade. A forma mais fiável é através dos pelos das sepalas que em G. dissectum são todos curtos e em G. molle existem dois tipos de pelos de tamanhos diferentes, como podemos observar no seguinte quadro comparativo da Flora-on:


Texto e fotos de:
Fernanda Delgado do Nascimento  http://floresdoareal.blogspot.pt/
(exceto quando especificado).

Fotos de Geranium molle: Serra do Calvo/Lourinhã.

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