"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





sábado, 16 de janeiro de 2016

Cyperus longus L.

Nomes comuns:
Albafor; junça; junça-de-cheiro; junça-longa; junça-ordinária

Cyperus longus
A faixa litoral do concelho da Lourinhã é uma zona de clima particularmente suave, de verões frescos e invernos temperados. Apesar de condicionada pela presença do oceano esta região apresenta fracos níveis de pluviosidade, possivelmente devido à relativa proximidade da serra de Montejunto para onde são desviadas as chuvas pelos ventos de noroeste. Em contrapartida, a humidade atmosférica é elevada. Ao condensar-se ao nível do solo o orvalho é, muitas vezes, o único refresco que, durante meses seguidos, recebem as pequenas ervas que bordejam os caminhos rurais. Sem água suficiente as plantas entram em regime de serviços mínimos, restringindo-se ao essencial, isto é, concentrando-se no seu único objetivo, a reprodução. Assim sendo, após um verão sem uma gota de chuva e um outono excecionalmente estival, as chuvas insistentes das últimas semanas foram um alívio para muitas espécies. De repente, nos solos encharcados, as pequenas plantas da época reverdecem e mostram-se exuberantes, viçosas e sem dúvida, saciadas. Agora que a água já corre em cachão nos ribeiros há muito secos, e até as valas de escoamento que ladeiam os campos agrícolas mais parecem afluentes, estão criadas as condições propícias à proliferação das espécies ripícolas.
Cyperus longus
Tomemos como exemplo a espécie Cyperus longus que já se apresenta alta e graciosa, com elegantes folhas arqueadas de um bonito verde e contrastantes espiguetas de flores acastanhadas. Esta é uma espécie perene que prospera em campos agrícolas de regadio, margens de cursos de água, charcos e na generalidade dos locais húmidos. Esta planta tolera locais mais secos, mas nesse caso nota-se que o seu crescimento vegetativo é afetado, ficando de menor tamanho.
É uma espécie docemente fragrante e a sua folhagem e flores estilizadas dão-lhe um aspeto algo exótico pelo que há quem utilize esta planta em lagos ou charcos de jardim onde fazem um belo efeito. Ora, veja AQUI.
Caso não se disponha de muito espaço, convém colocar os rizomas de Cyperus longus dentro de um cesto para evitar que se expanda demasiado pois pode tornar-se vigorosa, densa e invasiva. A profundidade aconselhada para fixar os rizomas vai dos 0 aos 30 cm. O crescimento denso de Cyperus longus encoraja, de forma excelente, a fauna selvagem ao proporcionar alimento e local de nidificação a espécies próprias de locais húmidos, mamíferos, anfíbios e insetos. Além do mais, contribuem para a purificação e oxigenação das águas e para o controle da erosão em zonas ribeirinhas.
Espiguetas de Cyperus longus antes da expansão das flores.
Nesta fase os órgãos das flores estão inteiramente cobertas pela gluma.
Cyperus longus pode ser encontrada um pouco por todo o pais sendo presumivelmente autóctone de Portugal continental e arquipélago da Madeira e tendo sido introduzida nos Açores.
De forma geral Cyperus longus distribui-se pelo centro e sul da Europa, norte de África, Ásia e África tropical.
Cyperus longus é uma espécie rizomatosa, isto é, cresce e multiplica-se vegetativamente a partir de um caule subterrâneo que se assemelha a uma raiz mas que na realidade é um rizoma engrossado, com 5 a 10 mm de diâmetro; por debaixo do rizoma formam-se as raízes e na parte superior existem gemas de renovo - ou seja, rebentos que dão origem a novos caules - as quais estão protegidas por folhas modificadas que são de cor castanha por não terem clorofila. Ao contrário de outras espécies, o rizoma de Cyperus longus não forma tubérculos (semelhantes a batatinhas) na extremidade das raízes. 
Os caules são do tipo colmo sendo constituídos por porções (entrenós) limitadas por nós; são rígidos, eretos e solitários podendo alcançar mais de 1,5 m de altura, embora se encontrem exemplares com caules bastante mais curtos. São sólidos no interior e de secção triangular.
Cada colmo que desponta do rizoma tem 3 folhas as quais alternam entre 3 pontos diferentes, perto da base. 
Rizoma e colmos de Cyperus longus. Nesta foto estão bem identificadas as escamas castanhas que protegem as gemas e também a inserção alternada das 3 folhas em redor de cada colmo.
Fonte: Herbari Virtual del Mediterrani Occidental
As folhas não têm pecíolo e no ponto de inserção apresentam uma bainha que envolve por completo a haste, crescendo com ela até certo ponto, dando-lhe consistência e formando o que se chama uma bainha fechada. As folhas são longas, embora bastante mais curtas que o caule e são planas, com nervação paralela; as margens do limbo da folha são rígidas, ásperas e cortantes devido ao elevado conteúdo em sílica existente nas células.
Cyperus longus. As flores estão na fase de expansão.
Notam-se os estames e os braços estigmáticos que ficam a descoberto nesta fase.
As flores reúnem-se em inflorescências no topo dos caules, estando rodeadas por 3 a 6 brácteas verdes e lineares as quais são muito desiguais, semelhantes a folhas e mais compridas que as inflorescências. 
Cyperus longus. Inflorescência e brácteas envolventes.
As inflorescências são compostas por umbelas de espiguetas cujos raios são muito desiguais entre si, de tal forma que os eixos secundários ultrapassam em altura o eixo principal. As espiguetas são formadas por um conjunto de 6 a 22 flores, estruturalmente muito simples e funcionais. Uma vez que são polinizadas pelo vento, as flores das espiguetas deixaram de precisar de pétalas, sépalas e outros órgãos destinados a atrair os insetos. Assim, durante o seu processo evolutivo perderam essas estruturas, pouco mais restando que os órgãos reprodutores masculinos e femininos. Desta forma, as flores de Cyperus longus são compostas pelo androceu, com 3 estames salientes durante o período de expansão da flor e pelo gineceu cujo estilete se divide em 3 braços estigmáticos também salientes. Estes órgãos são protegidos por uma única bráctea (gluma) que é semelhante a uma escama e tem cor avermelhada. As flores inserem-se em lados opostos de um eixo, cada uma em seu nó, formando uma espiga algo espalmada.
Cyperus longus
A- Espigueta  B- Parte da inflorescência em que se reunem as espiguetas
C- Flor da espigueta: bráctea e órgãos reprodutores (estames, ovário, estilete e estigma)
Os frutos de Cyperus longus são frutos secos indeiscentes, de cor escura, obovoides e trígonos, dentro dos quais existe uma única semente. Quando se completa a maturação as espiguetas desintegram-se e os frutos dispersam-se, podendo viajar a longas distâncias quer através da água, do vento, quer nas patinhas de aves migradoras. Contudo parecem ser poucas as novas plantas geradas pela germinação das sementes. Na maioria dos casos Cyperus longus reproduz-se vegetativamente, através de pedaços do rizoma que se desprendem, muitas vezes desenterrados pelos animais que os comem e transportados por eles ou pela corrente de água, até encalhar noutro lugar. Qualquer pedaço de rizoma que tenha pelo menos uma gema dá origem a uma nova planta.
O tempo de floração desta planta parece ser bastante alargado. Os manuais da especialidade informam que a floração acontece durante o verão, nomeadamente de abril a setembro ou outubro, contudo algumas das fotos aqui inseridas foram registadas bastante mais cedo, em dezembro. Afinal, as plantas não ligam ao calendário e aproveitam-se das condições favoráveis.
O rizoma de Cyperus longus é comestível, tendo sido bastante apreciado pelas antigas populações rurais nos tempos em que a escassez de recursos os obrigava a procurar alimento entre as ervas do campo. Este rizoma exala uma fragrância muito agradável semelhante ao das violetas pelo que o seu óleo essencial tem utilização em perfumaria.
Os caules também são aproveitados para entretecer esteiras, cestos e assentos de cadeiras em palhinha.
Cyperus longus pertence à família Cyperaceae (a qual inclui cerca de 4500 espécies) e inclui-se no género Cyperus, um dos 122 géneros em que esta família está organizada.
A maior importância da família Cyperaceae reside no facto de as suas espécies constituírem a base da vegetação natural de pântanos e zonas ribeirinhas onde os seus rizomas densamente emaranhados contribuem para o controle da erosão e purificação da água. Nas zonas pantanosas fornecem abrigo e alimento a aves, anfíbios, insetos e outros animais de vida aquática pelo que as consequências da destruição destes habitats podem ter consequências desastrosas.
Os géneros mais representativos desta família em Portugal são Carex com 43 espécies e Cyperus com 10. As Cyperus são especialmente apreciadas em jardinagem devido às suas formas arquitetónicas, permitindo um certo efeito dramático, criativo e vibrante, dando uma ambiente exótico aos locais mais húmidos do jardim. Uma das mais apreciadas é a Cyperus papirus.
Cyperus papirus em Kew Gardens/Londres. Foto de Adrien Pingstone/Wikipedia.
Os caules de Cyperus papirus podem atingir os 6 m de altura proporcionando um grande efeito ornamental. Esta é uma espécie tropical natural do continente africano e a sua fama remonta à Antiguidade Egípcia. Estas plantas cresciam de forma abundante no delta do rio Nilo e era a partir da medula retirada dos seus colmos que os egípcios fabricavam o papiro, uma das primeiras formas de papel.
Dentro do género Cyperus podemos assinalar algumas espécies invasoras, como é o caso de Cyperus rotundus que vive nos mesmos habitats de Cyperus longus e com a qual é muitas vezes confundida. Cyperus rotundus é uma das piores espécies invasoras em todo o mundo afetando economicamente culturas como a cana-de-açúcar, milho, algodão, feijão. Esta autêntica praga desenvolve-se rapidamente competindo agressivamente com outras espécies em regiões temperadas, subtropicais e mesmo áridas, beneficiando das suas capacidades de adaptação a condições adversas. Cyperus rotundus diferencia-se de Cyperus longus por ter as espiguetas mais compridas e largas, alem de que o rizoma produz tubérculos globosos na extremidade das raízes, os quais dão origem a novas plantas e produzem substâncias químicas que inibem a germinação ou desenvolvimento de outras espécies.
Comparação entre sistema radicular de Cyperus longus, à esquerda e
Cyperus rotundus e Cyperus esculentus à direita
Fonte: University of California Agriculture & natural resources
Outra invasora é a Cyperus esculentus cujo rizoma também produz tubérculos mas que se diferencia de C. rotundus por ter espiguetas amareladas. Em certos países C. esculentus é uma espécie cultivada e os seus tubérculos com sabor a nozes são utilizados na alimentação. Em Espanha, na região de Valência, os tubérculos são usados na confeção de um refresco não alcoólico denominado horchata de chufa ou orxata de xufes.

As graminóides: 
Cyperaceae, Poaceae e Juncaceae

O termo "graminóide" tem por base a família das gramíneas, cientificamente designadas Poaceae  (ou Gramineae). Esta é uma das maiores famílias entre as angiospérmicas (plantas com flor). A sua importância económico/ecológica é enorme. São fundamentais na vida humana e encontram-se nos maiores variados habitats, desde os exemplares de maior envergadura até à mais humilde relva do jardim. Contudo, existem espécies que, pertencendo a outras famílias apresentam, à primeira vista, semelhanças com as gramíneas a ponto de poderem ser confundidas. São elas a família Cyperaceae (junças) e a família Juncaceae (juncos).
Para maior facilidade os botânicos englobaram estas 3 famílias num grupo a que chamaram “graminóides”. 
Sob o ponto de vista taxonómico as graminóides são monocotiledóneas, caracterizando-se pelas suas longas folhas de forma linear e de venação paralela. 
[(Nota: As angiospermas (plantas de flor) subdividem-se em monocotiledóneas (de cuja semente brota uma única folha quando germinam, como acontece com o milho) e dicotiledóneas (de cuja semente brotam duas folhas durante a germinação, como no feijão)]. 
A grande semelhança entre estas 3 famílias monocotiledóneas reside no aspeto graminiforme, caracterizado por folhas lineares alongadas e com nervação paralela, flores de estrutura muito simplificada e caules do tipo colmo. Os colmos são eretos, ocos ou preenchidos por uma medula esponjosa; não são ramificados e são formados por porções (entrenós) ligadas umas às outras por nós que, consoante as espécies, são mais ou menos evidentes. Ao contrário da maioria das herbáceas que crescem apenas a partir de células meristemáticas existentes na parte superior dos caules ou nas gemas de ramificação, os colmos também crescem por baixo e por cima dos nós, o que lhes permite continuar a crescer quando são cortadas (como acontece com a relva).
Assim sendo, o reconhecimento e identificação das graminóides é um grande desafio. Apesar das diferenças a nível vegetativo, a melhor forma de distinguir as espécies consiste na observação das flores e dos frutos. Porém, por vezes estes órgãos são tão pequenos que o uso de uma lupa poderá facilitar o trabalho. 
Aqui deixo algumas das características que permitem a identificação das famílias. No que diz respeito ao reconhecimento das espécies, as dificuldades são maiores, sendo necessária a ajuda de uma chave de identificação.
Flor de Juncaceae 
Destas 3 famílias a inflorescência dos juncos (familia Juncaceae, em Portugal com 2 géneros, Juncus e Luzula) é a mais semelhante a uma flor "normal". As flores são tipicamente bissexuais, estando os órgãos reprodutores envolvidos por 6 tépalas (3 sépalas+3 pétalas, todas muito semelhantes). 
Flor do género Cyperus /Cyperaceae
Dependendo do género, as espiguetas das junças (Cyperaceae) podem ser formadas por flores bissexuais (género Cyperus) ou unixsexuais (género Carex), cada uma envolvida por uma única bráctea.
Flor de Poaceae
As inflorescências das gramíneas (Poaceae) têm a estrutura mais complexa das 3 famílias produzindo flores bissexuais envolvidas por brácteas especializadas, ou seja, cada flor está envolvida por duas brácteas, a lema no exterior e a pálea no interior. Estas flores formam espigas, elas próprias protegidas por duas brácteas denominadas glumas. Saiba mais AQUI e AQUI.
Também podemos diferenciar as graminóides a partir dos colmos e da forma como se inserem as folhas. 
Nas Poaceae os colmos são cilíndricos, ocos e os entrenós são bem visíveis. As folhas apresentam lígulas na base, são opostas e as bainhas são abertas, envolvendo parcialmente os nós.
Nas Cyperaceae os colmos são triangulares e cada um deles tem apenas 3 folhas que nascem perto da base da planta, alternadas em três pontos diferentes. As folhas não são liguladas e as bainhas são fechadas, envolvendo a haste por completo.
As Juncaceae apresentam colmos cilíndricos e sólidos preenchidos com uma medula esponjosa. As folhas formam tufos basais e têm bainhas fechadas. 

Apesar de partilharem características semelhantes as graminóides são, sem dúvida, um grupo muito diversificado, estimando-se que ocupem 20% do solo da terra, dominando tanto nos climas temperados como nos subtropicais. Encontramo-las nos habitats mais variados desde os húmidos e pantanosos aos mais secos; são plantas muito, muito antigas, havendo registos de plantas que datam de há 200 mil anos (a estrutura simplificada das flores mostra que sao muito evoluidas, ao contrário do que se poderia pensar); são essenciais para alimento do gado e indispensáveis na nossa alimentação (milho, trigo, arroz etc) estando também presentes em muitas bebidas que consumimos desde a cerveja ao whiskey; providenciam fibras utilizadas na construção de diversos materiais e até em construção civil; os relvados, constituídos por misturas de 6 ou mais tipos de graminóides são utilizados em milhões de jardins e parques já para não falar dos campos de golfe, ténis, rugby e futebol, entre outros.
A generalidade das graminóides contribui ainda para restaurar o arejamento dos solos, protegem-nos da erosão provocada pela chuva e pelos ventos e providenciam alimento e abrigo à fauna selvagem.

Fotos: Serra do Calvo e Zambujeira/Lourinhã

Texto e fotos de:
Fernanda Delgado do Nascimento  http://floresdoareal.blogspot.pt/
(exceto onde especificada a fonte).

Sem comentários:

Enviar um comentário