"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





Mostrar mensagens com a etiqueta monocotiledoneas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta monocotiledoneas. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Prunella vulgaris L.


Nomes comuns:
Consolda-menor; brunela; prunela; erva-férrea; erva-das-fridas

Prunella vulgaris. Fonte: Wikiwel
A protagonista de hoje é Prunella vulgaris, uma espécie da família Lamiaceae = Labiatae, popularmente denominada família das mentas. Esta erva é comestível e medicinal, podendo ser encontrada em diversas regiões do território português como espécie nativa, seja no continente ou nos arquipélagos de Madeira e Açores. Já foi famosa em tempos e indispensável no alívio de qualquer tipo de maleita, gozando de enorme protagonismo entre a grande variedade de mezinhas que fazem parte da medicina popular. Com a chegada dos produtos farmacêuticos de ação instantânea foi caindo no esquecimento popular e a fama das suas virtudes diluiu-se no tempo, como aconteceu a tantas outras plantas que tão úteis foram aos nossos antepassados. Na dieta das populações também se usavam as folhas, cruas ou cozidas, em saladas, sopas, estufados ou segundo a imaginação e criatividade de cada um. O seu sabor é amargo devido aos taninos presentes na composição dos seus tecidos, mas este travo pode ser suavizado através do truque de escaldar previamente as folhas.
Prunella vulgaris
O seu uso em medicina tradicional é antiquíssimo, tendo sido mencionado pela primeira vez na literatura médica chinesa durante a dinastia “Hanocidental” (206 a.C.-22 d.C.). A fama das suas qualidades terapêuticas chegou, entretanto, a todas as partes do globo e durante séculos foi remédio aconselhado para praticamente todas as maleitas conhecidas do Homem. Os anglo-saxões, com o espírito prático que os caracteriza foram diretos ao assunto, chamando-lhe “heal-all” e "self-heal" o que se traduz, respetivamente por “tudo-cura” e "cura-te a ti próprio", numa clara alusão à facilidade em encontrar o que achavam ser a cura para todos os males, sem necessidade de conselho médico.
Tendo-se tornado uma panaceia quase universal, em medicina ocidental esta erva era principalmente usada externamente para tratar lesões menores como feridas, queimaduras, contusões e ulceras da boca, dores de garganta, inflamação dos olhos e sangramentos, enquanto na medicina chinesa, era usada sobretudo para tratar queixas do foro hepático, atuando como estimulante do fígado e da vesicula biliar. Estudos recentes demonstram e confirmam a ação do ácido rosmarinico presente na composição quimica da planta, na redução de radicais livres ao nível das células hepáticas, preservando a integridade estrutural e funcional do figado.
Todas as partes da planta são medicinais e são usadas principalmente pela sua ação analgésica, antissética, adstringente, antibiótica, antiespasmódica, anti-inflamatória, antitumural, cicatrizante, carminativa, depurativa, diurética, hemostática, febrífuga, hipotensiva, sedativa, vermífuga, vulneraria e tónica. Entretanto, estudos recentes referentes ao uso da planta no tratamento de herpes, cancro, sida, problemas de alergias e diabetes, parecem prometedores. Assim, muitos dos benefícios lendários desta planta parecem estar a ser cientificamente suportados. 
Os constituintes químicos principais incluem taninos, ácido betulinico, acido canfórico, delfinidina, hiperoside, ácido oleanólico, ácido rosmarinico, ácido mirístico, ácido ursolico, ácido laurico, manganês,  beta-sitosterol e lupeol.
Além dos usos medicinais, Prunella vulgaris pode ser bastante interessante como planta ornamental atapetante, sobretudo em jardins de pedra ou do tipo silvestre, os quais podem mimetizar a natureza e valorizar a paisagem natural. As cores vibrantes das suas inflorescências em tons de roxo, violeta e verde tornam-na muito atraente, além de ser muito melífera. 
Prunella vulgaris
Esta planta requer climas temperados e dá-se bem em pleno sol mas é em situações de sombra parcial que melhor se desenvolve. Cresce em qualquer tipo de substrato e as suas necessidades de humidade são muito variáveis. Embora preferindo o pé bem húmido, uma vez bem estabelecida tolera situações ocasionais de alguma escassez de água, como acontece no fim do verão nas regiões mediterrânicas. De forma geral, encontramo-la em ambientes antropogénicos, em lugares húmidos como a beira de ribeiros, prados, lameiros, clareiras das florestas e pastagens. Nestes lugares cresce até aos 40 ou 60 cm de altura. Também pode aparecer em relvados onde, devido aos constantes cortes poderá não exceder os 5 cm de altura. Em certos locais esta planta é tão comum que mal damos por ela, sobretudo porque a determinada altura os caules vergam com o seu próprio peso e se misturam com as outras plantas.
Prunella vulgaris - Caule subterrâneo, raízes e gemas em fase de abrolhamento

Prunella vulgaris é uma erva perene, ereta ou rastejante, cuja altura varia entre os 5 e os 60 cm. Frequentemente os caules não aguentam o seu próprio peso e descaiem atingindo o solo onde enraízam nos nos pontos onde os nós tocam no substrato, dando origem a novas plantas.
A parte subterrânea desta planta caracteriza-se pela existência de um estreito rizoma, ou seja um ligeiro engrossamento de caules subterrâneos cuja missão é fazer reserva de nutrientes. Estes rizomas formam raízes finas que não só fixam a planta ao solo como também servem para absorver água e sais minerais entre outros compostos necessários ao desenvolvimento da planta. Estes rizomas têm a faculdade de se expandir, crescendo paralelamente em relação ao solo, produzindo, a determinados espaços, nós com gemas. A partir destas gemas surgem novas raízes e folhas, dando origem a novas plantas. Os caules aéreos têm seção quadrangular e a sua cor é avermelhada, apresentando alguns pelos dispersos que vão desaparecendo à medida que a planta envelhece. 
Prunella vulgaris - caules de secção quadrangular com folhas opostas
Os caules são relativamente pouco ramificados e as folhas, também pouco abundantes. As folhas dispõem-se de forma oposta nos caules e possuem pecíolos que podem ser longos ou curtos; o limbo é de cor verde-escura com a página inferior mais clara; a sua forma é ovada ou ovada-lanceolada, com margens inteiras ou com recortes arredondados.
Prunella vulgaris - folhas

Cada folha apresenta uma nervura central com 3 a 7 nervuras secundárias. Podem ter alguns pelos nas margens ou no veio mais proeminente na pagina inferior ou apresentarem-se glabras.
Esta planta é facilmente identificável pelas suas inflorescências as quais formam uma estrutura semelhante a uma espiga grossa e circular denominada verticilastro. Este tipo de estrutura floral, em que as flores se acomodam em camadas em redor de um eixo floral como se fossem anéis, é muito comum entre as espécies da família Lamiaceae/Labiate.
De notar que durante a época de floração o eixo floral da inflorescência continua a crescer pelo que novos anéis de flores vão sendo acrescentados. No entanto, as flores, cálices e brácteas vão diminuindo de tamanho da base para o ápice da inflorescência, pelo que o diâmetro da “espiga” é menor no ápice do que na base.
As flores de Prunella vulgaris, protegidas pelos respetivos cálices e brácteas, posicionam-se em redor do eixo em grupos de 3 a 6 conjuntos bastante compactados e coloridos em que predominam as cores verde, purpura e violeta. 
Cada flor está protegida por duas brácteas de cor verde semelhantes a folhas, mas diferentes das folhas caulinares pois têm forma largamente ovada e margens providas de longos cílios brancos; entre a flor e as brácteas situam-se as sépalas, de cor purpura, com forma algo achatada e bordos com 5 dentes rígidos, 3 na parte superior e 2 na inferior. É de dentro das sépalas que surgem os botões florais, de cor violeta que são bem visíveis pois, embora de tamanho diminuto, ultrapassam o cálice em comprimento.
Flores  de Prunella vulgaris - Foto (detalhe) de Michael Gasperl (Migas)
Fonte Wikimedia Commons
As pétalas das flores são zigomorfas ou seja, só são simétricas bilateralmente. Elas estão divididas em dois lobos, formando um lábio superior que é inteiro e côncavo e um lábio inferior subdividido em 3 lóbulos sendo 2 deles estreitos, ladeando o lóbulo central de maior tamanho e que apresenta os bordos dentados. Logo abaixo dos lábios, as pétalas unem-se, formando o tubo da corola que tem a forma de um cone invertido e apresenta um anel de pelos no seu interior.

Prunella vulgaris- detalhes da flor
Foto de Jim Conrad. Fonte Wikimedia Commons
Estas flores possuem órgãos de reprodução masculinos e femininos os quais se formam dentro do tubo da corola. Os 4 estames, organizados em dois pares didínamos (dois grandes e dois pequenos), abrigam-se debaixo do lábio superior. 
Nesta ilustração podemos observar a morfologia particular dos estames que na foto acima é pouco percetivel. Cada um dos filetes se divide em dois braços, um deles com antera e o outro sem antera e com forma pontiaguda.
Fonte Illustrations of the British Flora 1924
O ovário, situado sobre o nectário, divide-se em 4 partes. A partir do ovário desenvolve-se o estilete que cresce por entre os dois estames mais compridos, dividindo-se em dois braços estigmáticos na parte terminal, prontos a receber o pólen trazido de outras flores.
Embora sendo atraída por múltiplos insetos devido ao néctar que produz, esta planta parece estar adaptada para ser fertilizada por abelhas, sendo estes os únicos insetos capazes de chegar ao néctar que está reservado no fundo da corola. O anel de pelos espessos que se encontra na garganta do tubo da corola impede a entrada a outro tipo de insetos mas permite a entrada dos longos probóscides das abelhas que assim conseguem sugar o precioso alimento, enquanto poisam no lábio inferior da flor. Ao fazê-lo as abelhas entram em contacto com o pólen das anteras posicionadas debaixo do lábio superior da flor.
Prunella vulgaris
Após a polinização as pétalas deixam de ser úteis e murcham, deixando os cálices com aspeto de envelopes abertos. Estes permanecem em função enquanto os frutos se vão formando e amadurecem.

Prunella vulgaris - sementes
Cada flor produz 4 sementes de forma ovóide, lisas e algo brilhantes.
A floração de Prunella vulgaris ocorre durante a primavera e o verão.

O género Prunella a que pertence esta planta inclui 8 espécies nativas do hemisfério norte, das quais 3 estão presentes em território português. Para além de Prunella vulgaris, acima descrita e que está presente tanto no continente como nas ilhas, existem mais duas espécies nativas e presentes apenas no território continental nomeadamente Prunella grandiflora, que difere de P.vulgaris por ter folhas e flores maiores e Prunella laciniata que tem flores brancas.

Este género pertence à família Lamiaceae = Labiatae, comumente conhecida como família das mentas que inclui mais de 3000 espécies distribuídas por uns 200 géneros, dos quais 29 estão presentes em Portugal. É considerada uma das famílias mais evoluídas entre as dicotiledóneas.

Nota:
As angiospermas dividem-se em dois grandes grupos, monocotiledóneas e dicotiledóneas, assim denominadas, entre outras diferenças, consoante o embrião da semente contenha, respetivamente um ou dois cotilédones. Assim sendo, quando uma semente germina as primeiras “folhas” que aparecem são os cotilédones, um no caso de planta monocotiledónea ou dois no caso de dicotiledóneas. Na realidade, os cotilédones são folhas modificadas que servem de reserva alimentar que ajudam a planta a subsistir durante a fase de germinação, geralmente caindo quando surgem as primeiras folhas verdadeiras.

Os membros desta família são espécies arbustivas ou herbáceas e, caso único entre as famílias botânicas, têm a particularidade de todas elas serem aromáticas e apresentarem propriedades medicinais. Ou seja, muitas outras famílias incluem algumas espécies aromáticas e/ou medicinais mas no caso da família das mentas todas as espécies incluem essas características. São especialmente abundantes na região Mediterrânica e uma parte da Ásia de onde são originárias, mas gradualmente foram sendo introduzidas noutras regiões do globo, encontrando-se, hoje em dia, amplamente distribuídas. Entre os exemplares mais conhecidos desta família podemos nomear as hortelãs, as alfazemas, os orégãos, os tomilhos, as salvias, os rosmaninhos, os alecrins e os manjericões, entre muitas outras.
A importância económica das Lamiaceae/Labiatae é, como se calcula, enorme. À parte o uso caseiro e artesanal, as diversas industrias têm tirado bom partido das qualidades ornamentais, aromáticas e medicinais destas espécies. Assim, são vendidas nos viveiros e utilizadas em paisagismo; depois de secas e devidamente empacotadas são vendidas nos supermercados como condimentos ou chás; através de processos sofisticados são retirados os óleos essenciais os quais são utilizados em aromaterapia e na indústria cosmética e farmacêutica.
Apesar de serem cultivadas em muitos lugares do mundo de clima temperado é na região mediterrânica que estas espécies se sentem em casa e onde medram com mais vigor e concentram os melhores aromas. São espécies que gostam de habitats livres, em encostas de solos tantas vezes pedregosos, vivendo entre outras plantas de baixo porte, que não lhes encobrem o pleno sol e tal como elas estão adaptadas à secura dos verões e às chuvas invernais e primaveris tão características do clima mediterrânico. De forma geral, florescem no verão, altura em que se faz a colheita. Curiosamente, a colheita deve ser realizada ao fim da manhã, momento em que apresentam maior quantidade de óleos essenciais.

A família Lamiaceae/Labiatae é uma das maiores famílias de plantas melíferas. A floração é geralmente abundante e as flores, generosas, não regateiam o néctar, parecendo haver tanto mais deste suco açucarado quanto mais visitantes houver. Aliás, parece haver uma especial relação entre estas flores e as abelhas. A morfologia das corolas, que apresentam um lábio superior e um inferior diferenciados, aparenta ser especialmente adaptada ao corpo destes insetos.


Localização das fotos de Prunella vulgaris da autoria deste blogue: Zambujeira/Lourinhã



sábado, 16 de janeiro de 2016

Cyperus longus L.

Nomes comuns:
Albafor; junça; junça-de-cheiro; junça-longa; junça-ordinária

Cyperus longus
A faixa litoral do concelho da Lourinhã é uma zona de clima particularmente suave, de verões frescos e invernos temperados. Apesar de condicionada pela presença do oceano esta região apresenta fracos níveis de pluviosidade, possivelmente devido à relativa proximidade da serra de Montejunto para onde são desviadas as chuvas pelos ventos de noroeste. Em contrapartida, a humidade atmosférica é elevada. Ao condensar-se ao nível do solo o orvalho é, muitas vezes, o único refresco que, durante meses seguidos, recebem as pequenas ervas que bordejam os caminhos rurais. Sem água suficiente as plantas entram em regime de serviços mínimos, restringindo-se ao essencial, isto é, concentrando-se no seu único objetivo, a reprodução. Assim sendo, após um verão sem uma gota de chuva e um outono excecionalmente estival, as chuvas insistentes das últimas semanas foram um alívio para muitas espécies. De repente, nos solos encharcados, as pequenas plantas da época reverdecem e mostram-se exuberantes, viçosas e sem dúvida, saciadas. Agora que a água já corre em cachão nos ribeiros há muito secos, e até as valas de escoamento que ladeiam os campos agrícolas mais parecem afluentes, estão criadas as condições propícias à proliferação das espécies ripícolas.
Cyperus longus
Tomemos como exemplo a espécie Cyperus longus que já se apresenta alta e graciosa, com elegantes folhas arqueadas de um bonito verde e contrastantes espiguetas de flores acastanhadas. Esta é uma espécie perene que prospera em campos agrícolas de regadio, margens de cursos de água, charcos e na generalidade dos locais húmidos. Esta planta tolera locais mais secos, mas nesse caso nota-se que o seu crescimento vegetativo é afetado, ficando de menor tamanho.
É uma espécie docemente fragrante e a sua folhagem e flores estilizadas dão-lhe um aspeto algo exótico pelo que há quem utilize esta planta em lagos ou charcos de jardim onde fazem um belo efeito. Ora, veja AQUI.
Caso não se disponha de muito espaço, convém colocar os rizomas de Cyperus longus dentro de um cesto para evitar que se expanda demasiado pois pode tornar-se vigorosa, densa e invasiva. A profundidade aconselhada para fixar os rizomas vai dos 0 aos 30 cm. O crescimento denso de Cyperus longus encoraja, de forma excelente, a fauna selvagem ao proporcionar alimento e local de nidificação a espécies próprias de locais húmidos, mamíferos, anfíbios e insetos. Além do mais, contribuem para a purificação e oxigenação das águas e para o controle da erosão em zonas ribeirinhas.
Espiguetas de Cyperus longus antes da expansão das flores.
Nesta fase os órgãos das flores estão inteiramente cobertas pela gluma.
Cyperus longus pode ser encontrada um pouco por todo o pais sendo presumivelmente autóctone de Portugal continental e arquipélago da Madeira e tendo sido introduzida nos Açores.
De forma geral Cyperus longus distribui-se pelo centro e sul da Europa, norte de África, Ásia e África tropical.
Cyperus longus é uma espécie rizomatosa, isto é, cresce e multiplica-se vegetativamente a partir de um caule subterrâneo que se assemelha a uma raiz mas que na realidade é um rizoma engrossado, com 5 a 10 mm de diâmetro; por debaixo do rizoma formam-se as raízes e na parte superior existem gemas de renovo - ou seja, rebentos que dão origem a novos caules - as quais estão protegidas por folhas modificadas que são de cor castanha por não terem clorofila. Ao contrário de outras espécies, o rizoma de Cyperus longus não forma tubérculos (semelhantes a batatinhas) na extremidade das raízes. 
Os caules são do tipo colmo sendo constituídos por porções (entrenós) limitadas por nós; são rígidos, eretos e solitários podendo alcançar mais de 1,5 m de altura, embora se encontrem exemplares com caules bastante mais curtos. São sólidos no interior e de secção triangular.
Cada colmo que desponta do rizoma tem 3 folhas as quais alternam entre 3 pontos diferentes, perto da base. 
Rizoma e colmos de Cyperus longus. Nesta foto estão bem identificadas as escamas castanhas que protegem as gemas e também a inserção alternada das 3 folhas em redor de cada colmo.
Fonte: Herbari Virtual del Mediterrani Occidental
As folhas não têm pecíolo e no ponto de inserção apresentam uma bainha que envolve por completo a haste, crescendo com ela até certo ponto, dando-lhe consistência e formando o que se chama uma bainha fechada. As folhas são longas, embora bastante mais curtas que o caule e são planas, com nervação paralela; as margens do limbo da folha são rígidas, ásperas e cortantes devido ao elevado conteúdo em sílica existente nas células.
Cyperus longus. As flores estão na fase de expansão.
Notam-se os estames e os braços estigmáticos que ficam a descoberto nesta fase.
As flores reúnem-se em inflorescências no topo dos caules, estando rodeadas por 3 a 6 brácteas verdes e lineares as quais são muito desiguais, semelhantes a folhas e mais compridas que as inflorescências. 
Cyperus longus. Inflorescência e brácteas envolventes.
As inflorescências são compostas por umbelas de espiguetas cujos raios são muito desiguais entre si, de tal forma que os eixos secundários ultrapassam em altura o eixo principal. As espiguetas são formadas por um conjunto de 6 a 22 flores, estruturalmente muito simples e funcionais. Uma vez que são polinizadas pelo vento, as flores das espiguetas deixaram de precisar de pétalas, sépalas e outros órgãos destinados a atrair os insetos. Assim, durante o seu processo evolutivo perderam essas estruturas, pouco mais restando que os órgãos reprodutores masculinos e femininos. Desta forma, as flores de Cyperus longus são compostas pelo androceu, com 3 estames salientes durante o período de expansão da flor e pelo gineceu cujo estilete se divide em 3 braços estigmáticos também salientes. Estes órgãos são protegidos por uma única bráctea (gluma) que é semelhante a uma escama e tem cor avermelhada. As flores inserem-se em lados opostos de um eixo, cada uma em seu nó, formando uma espiga algo espalmada.
Cyperus longus
A- Espigueta  B- Parte da inflorescência em que se reunem as espiguetas
C- Flor da espigueta: bráctea e órgãos reprodutores (estames, ovário, estilete e estigma)
Os frutos de Cyperus longus são frutos secos indeiscentes, de cor escura, obovoides e trígonos, dentro dos quais existe uma única semente. Quando se completa a maturação as espiguetas desintegram-se e os frutos dispersam-se, podendo viajar a longas distâncias quer através da água, do vento, quer nas patinhas de aves migradoras. Contudo parecem ser poucas as novas plantas geradas pela germinação das sementes. Na maioria dos casos Cyperus longus reproduz-se vegetativamente, através de pedaços do rizoma que se desprendem, muitas vezes desenterrados pelos animais que os comem e transportados por eles ou pela corrente de água, até encalhar noutro lugar. Qualquer pedaço de rizoma que tenha pelo menos uma gema dá origem a uma nova planta.
O tempo de floração desta planta parece ser bastante alargado. Os manuais da especialidade informam que a floração acontece durante o verão, nomeadamente de abril a setembro ou outubro, contudo algumas das fotos aqui inseridas foram registadas bastante mais cedo, em dezembro. Afinal, as plantas não ligam ao calendário e aproveitam-se das condições favoráveis.
O rizoma de Cyperus longus é comestível, tendo sido bastante apreciado pelas antigas populações rurais nos tempos em que a escassez de recursos os obrigava a procurar alimento entre as ervas do campo. Este rizoma exala uma fragrância muito agradável semelhante ao das violetas pelo que o seu óleo essencial tem utilização em perfumaria.
Os caules também são aproveitados para entretecer esteiras, cestos e assentos de cadeiras em palhinha.
Cyperus longus pertence à família Cyperaceae (a qual inclui cerca de 4500 espécies) e inclui-se no género Cyperus, um dos 122 géneros em que esta família está organizada.
A maior importância da família Cyperaceae reside no facto de as suas espécies constituírem a base da vegetação natural de pântanos e zonas ribeirinhas onde os seus rizomas densamente emaranhados contribuem para o controle da erosão e purificação da água. Nas zonas pantanosas fornecem abrigo e alimento a aves, anfíbios, insetos e outros animais de vida aquática pelo que as consequências da destruição destes habitats podem ter consequências desastrosas.
Os géneros mais representativos desta família em Portugal são Carex com 43 espécies e Cyperus com 10. As Cyperus são especialmente apreciadas em jardinagem devido às suas formas arquitetónicas, permitindo um certo efeito dramático, criativo e vibrante, dando uma ambiente exótico aos locais mais húmidos do jardim. Uma das mais apreciadas é a Cyperus papirus.
Cyperus papirus em Kew Gardens/Londres. Foto de Adrien Pingstone/Wikipedia.
Os caules de Cyperus papirus podem atingir os 6 m de altura proporcionando um grande efeito ornamental. Esta é uma espécie tropical natural do continente africano e a sua fama remonta à Antiguidade Egípcia. Estas plantas cresciam de forma abundante no delta do rio Nilo e era a partir da medula retirada dos seus colmos que os egípcios fabricavam o papiro, uma das primeiras formas de papel.
Dentro do género Cyperus podemos assinalar algumas espécies invasoras, como é o caso de Cyperus rotundus que vive nos mesmos habitats de Cyperus longus e com a qual é muitas vezes confundida. Cyperus rotundus é uma das piores espécies invasoras em todo o mundo afetando economicamente culturas como a cana-de-açúcar, milho, algodão, feijão. Esta autêntica praga desenvolve-se rapidamente competindo agressivamente com outras espécies em regiões temperadas, subtropicais e mesmo áridas, beneficiando das suas capacidades de adaptação a condições adversas. Cyperus rotundus diferencia-se de Cyperus longus por ter as espiguetas mais compridas e largas, alem de que o rizoma produz tubérculos globosos na extremidade das raízes, os quais dão origem a novas plantas e produzem substâncias químicas que inibem a germinação ou desenvolvimento de outras espécies.
Comparação entre sistema radicular de Cyperus longus, à esquerda e
Cyperus rotundus e Cyperus esculentus à direita
Fonte: University of California Agriculture & natural resources
Outra invasora é a Cyperus esculentus cujo rizoma também produz tubérculos mas que se diferencia de C. rotundus por ter espiguetas amareladas. Em certos países C. esculentus é uma espécie cultivada e os seus tubérculos com sabor a nozes são utilizados na alimentação. Em Espanha, na região de Valência, os tubérculos são usados na confeção de um refresco não alcoólico denominado horchata de chufa ou orxata de xufes.

As graminóides: 
Cyperaceae, Poaceae e Juncaceae

O termo "graminóide" tem por base a família das gramíneas, cientificamente designadas Poaceae  (ou Gramineae). Esta é uma das maiores famílias entre as angiospérmicas (plantas com flor). A sua importância económico/ecológica é enorme. São fundamentais na vida humana e encontram-se nos maiores variados habitats, desde os exemplares de maior envergadura até à mais humilde relva do jardim. Contudo, existem espécies que, pertencendo a outras famílias apresentam, à primeira vista, semelhanças com as gramíneas a ponto de poderem ser confundidas. São elas a família Cyperaceae (junças) e a família Juncaceae (juncos).
Para maior facilidade os botânicos englobaram estas 3 famílias num grupo a que chamaram “graminóides”. 
Sob o ponto de vista taxonómico as graminóides são monocotiledóneas, caracterizando-se pelas suas longas folhas de forma linear e de venação paralela. 
[(Nota: As angiospermas (plantas de flor) subdividem-se em monocotiledóneas (de cuja semente brota uma única folha quando germinam, como acontece com o milho) e dicotiledóneas (de cuja semente brotam duas folhas durante a germinação, como no feijão)]. 
A grande semelhança entre estas 3 famílias monocotiledóneas reside no aspeto graminiforme, caracterizado por folhas lineares alongadas e com nervação paralela, flores de estrutura muito simplificada e caules do tipo colmo. Os colmos são eretos, ocos ou preenchidos por uma medula esponjosa; não são ramificados e são formados por porções (entrenós) ligadas umas às outras por nós que, consoante as espécies, são mais ou menos evidentes. Ao contrário da maioria das herbáceas que crescem apenas a partir de células meristemáticas existentes na parte superior dos caules ou nas gemas de ramificação, os colmos também crescem por baixo e por cima dos nós, o que lhes permite continuar a crescer quando são cortadas (como acontece com a relva).
Assim sendo, o reconhecimento e identificação das graminóides é um grande desafio. Apesar das diferenças a nível vegetativo, a melhor forma de distinguir as espécies consiste na observação das flores e dos frutos. Porém, por vezes estes órgãos são tão pequenos que o uso de uma lupa poderá facilitar o trabalho. 
Aqui deixo algumas das características que permitem a identificação das famílias. No que diz respeito ao reconhecimento das espécies, as dificuldades são maiores, sendo necessária a ajuda de uma chave de identificação.
Flor de Juncaceae 
Destas 3 famílias a inflorescência dos juncos (familia Juncaceae, em Portugal com 2 géneros, Juncus e Luzula) é a mais semelhante a uma flor "normal". As flores são tipicamente bissexuais, estando os órgãos reprodutores envolvidos por 6 tépalas (3 sépalas+3 pétalas, todas muito semelhantes). 
Flor do género Cyperus /Cyperaceae
Dependendo do género, as espiguetas das junças (Cyperaceae) podem ser formadas por flores bissexuais (género Cyperus) ou unixsexuais (género Carex), cada uma envolvida por uma única bráctea.
Flor de Poaceae
As inflorescências das gramíneas (Poaceae) têm a estrutura mais complexa das 3 famílias produzindo flores bissexuais envolvidas por brácteas especializadas, ou seja, cada flor está envolvida por duas brácteas, a lema no exterior e a pálea no interior. Estas flores formam espigas, elas próprias protegidas por duas brácteas denominadas glumas. Saiba mais AQUI e AQUI.
Também podemos diferenciar as graminóides a partir dos colmos e da forma como se inserem as folhas. 
Nas Poaceae os colmos são cilíndricos, ocos e os entrenós são bem visíveis. As folhas apresentam lígulas na base, são opostas e as bainhas são abertas, envolvendo parcialmente os nós.
Nas Cyperaceae os colmos são triangulares e cada um deles tem apenas 3 folhas que nascem perto da base da planta, alternadas em três pontos diferentes. As folhas não são liguladas e as bainhas são fechadas, envolvendo a haste por completo.
As Juncaceae apresentam colmos cilíndricos e sólidos preenchidos com uma medula esponjosa. As folhas formam tufos basais e têm bainhas fechadas. 

Apesar de partilharem características semelhantes as graminóides são, sem dúvida, um grupo muito diversificado, estimando-se que ocupem 20% do solo da terra, dominando tanto nos climas temperados como nos subtropicais. Encontramo-las nos habitats mais variados desde os húmidos e pantanosos aos mais secos; são plantas muito, muito antigas, havendo registos de plantas que datam de há 200 mil anos (a estrutura simplificada das flores mostra que sao muito evoluidas, ao contrário do que se poderia pensar); são essenciais para alimento do gado e indispensáveis na nossa alimentação (milho, trigo, arroz etc) estando também presentes em muitas bebidas que consumimos desde a cerveja ao whiskey; providenciam fibras utilizadas na construção de diversos materiais e até em construção civil; os relvados, constituídos por misturas de 6 ou mais tipos de graminóides são utilizados em milhões de jardins e parques já para não falar dos campos de golfe, ténis, rugby e futebol, entre outros.
A generalidade das graminóides contribui ainda para restaurar o arejamento dos solos, protegem-nos da erosão provocada pela chuva e pelos ventos e providenciam alimento e abrigo à fauna selvagem.

Fotos: Serra do Calvo e Zambujeira/Lourinhã