"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





quinta-feira, 25 de julho de 2013

Ornithogalum narbonense L.

Cebolinho-de-flor-branca

Ornithogalum narbonense é uma das espécies perenes chamadas bolbosas, as quais se caraterizam por perderem as partes aéreas durante a época desfavorável, permanecendo em estado latente debaixo do solo, sob a forma de um bolbo. 
Conforme a espécie os órgãos subterrâneos de reserva assumem estruturas morfologicamente diferentes e podem derivar quer do engrossamento do caule (bolbos, cormos, rizomas e tubérculos) quer da raiz (raízes tuberosas). Contudo, na globalidade, são muitas vezes denominados de “bolbos” por uma questão de comodidade.
Ornithogalum narbonense cresce a partir de um bolbo propriamente dito. Os bolbos são porções de caule que engrossaram e se transformaram em órgãos subterrâneos de armazenamento de nutrientes fornecendo agua e alimento nos primeiros tempos de vida da planta, permitindo-lhe o seu normal desenvolvimento mesmo em condições adversas.
Bolbo de Ornithogalum narbonense
Os bolbos têm uma estrutura interior muito complexa. No seu interior encontram-se, já diferenciadas, as peças rudimentares de uma flor assim como as partes vegetativas da planta, as quais estão prontas a emergir através da gema apical logo que ocorram as condições ambientais e de cultivo ideais e específicas para cada género.

A estrutura exterior de um bolbo, grossa e de aspeto carnudo, é formada pelas folhas dispostas em camadas, geralmente com a forma de escamas desprovidas de clorofila e em cujos tecidos se acumula a reserva de nutrientes. Estas folhas inserem-se na sua parte inferior, numa zona rígida denominada prato ou disco basal, de cujas margens surgem as raízes. As peças florais encontram-se bem protegidas no interior do bolbo e todo o conjunto está coberto, na maioria dos casos, por uma túnica formada pelas escamas da camada exterior, a qual previne a desidratação da estrutura (certas plantas têm um bolbo de aspeto escamoso pois não têm túnica, como é o caso dos lírios).  
Além da gema apical podem existir gemas laterais que, durante o período de crescimento, darão origem aos bolbilhos os quais acabam por se desprender gerando novas plantas em redor da planta-mãe. Contudo, estes são bolbos de pequeno tamanho que necessitam de engrossar durante alguns anos antes que possam florescer. De qualquer forma, após passar pelas diversas fases do seu ciclo, nomeadamente rebentação, crescimento, floração e emurchecimento, o bolbo principal não só recupera a energia eventualmente gasta como também aumenta de volume.

Os bolbos de Ornithogalum narbonense são geralmente solitários, de forma ovoide ou esférica e estão envolvidos por túnicas de cor castanho claro ou esbranquiçadas.
Não se regista a produção de bolbilhos, pelo menos de forma regular (há espécies que têm produção abundante de bolbilhos, outras só os produzem de forma excecional). Sendo uma planta de aspeto frágil o Ornithogalum narbonense é, contudo, uma espécie bem adaptada para sobreviver às transformações produzidas pelo homem no meio ambiente. Assim, o rebento que sai da gema apical é muitas vezes curvo na zona de união com o escapo floral, o que faz com que se quebre ao tentar-se extrai-lo, dificultando a sua colheita; por outro lado, o bolbo encontra-se geralmente a uma profundidade considerável o que resulta da emissão de raízes contráteis as quais possuem a capacidade de puxar o bolbo para baixo, aprofundando-o no solo à medida que vai crescendo. Desta forma o bolbo fica a salvo de colheitas exageradas, de fogos e secas e também das cavas que os agricultores efetuam à superfície.

As folhas, em roseta basal são eretas e firmes, sem pelos, de forma linear e com nervuras fortemente marcadas. O escapo floral, ereto e comprido, pode ultrapassar os 50 cm de altura; não tem folhas e é também glabro (sem pelos). Tanto as folhas como o escapo floral são de um verde azulado, tom este que lhe é dado por um revestimento ceroso constituída por um pó muito fino.
Dependendo das condições de secura as folhas podem ou não ser caducas durante a floração.
A inflorescência situa-se no topo do escapo floral e é constituída por numerosas flores pedunculadas que se inserem no eixo principal, a vários níveis. As flores vão abrindo sucessivamente a partir da extremidade inferior do ramo ficando as flores mais velhas mais afastadas do ápice. Os diferentes ângulos em que os pedicelos se dispõem em relação ao ramo central e o comprimento variável dos mesmos (dependendo da maturidade da inflorescência), dão ao conjunto um aspeto piramidal.
Cada flor nasce na axila de uma bráctea a qual pode ter o mesmo tamanho dos pedicelos ou até ser mais curta ou mais comprida que os mesmos.
As flores, ligeiramente fragrantes, mostram 6 tépalas (3 pétalas + 3 sépalas indiferenciadas) de cor branca, com uma faixa longitudinal verde que apenas é visível na face dorsal.
As flores possuem órgãos de reprodução masculinos e femininos funcionais. Os 6 estames têm filetes brancos que alargam bruscamente na sua metade inferior e as anteras são um tom amarelo pálido ou esbranquiçado.
O ovário está dividido em 3 lóculos separados por membranas denominadas septos e em cujas suturas existem nectários que segregam a solução açucarada que atrai os insetos polinizadores, o néctar, o qual se acumula na cavidade existente entre o ovário e os filamentos dos estames.
 Ornithogalum narbonense reproduz-se sobretudo através de sementes. O fruto é uma capsula com a forma de uma bolota que se abre em três valvas para deixar sair a abundante produção de sementes, angulosas e de forma irregular.
A floração inicia-se em princípios de abril e estende-se até meados de junho.
Esta espécie cresce na beira dos caminhos, campos de cultivo de cereais, terrenos nitrificados, vinhas, olivais. Distribui-se de forma dispersa pelo sul da Europa, Macaronésia, norte de africa e sudoeste asiático. Embora cresça indiferentemente em qualquer tipo de solo prefere os substratos argilosos e algo pedregosos.
Distribuição em Portugal
Fonte: Flora Digital de Portugal - UTAD

As várias espécies Ornithogalum são na generalidade conhecidas pelo nome vernáculo “leite de galinha”, o que poderia ser logico (tendo em conta que a maioria das espécies têm flores brancas) se as galinhas produzissem leite.
É que a palavra Ornithogalum é o resultado da contração dos vocábulos gregos “ornitho” (pássaro) e “gallum” (leite).
Nem sempre é possível perceber a origem dos nomes científicos dados às espécies ou a razão pela qual foram batizadas com este ou aquele nome sobretudo quando tal aconteceu há milhares de anos. É o caso das espécies Ornithogalum cujos bolbos são referidos com este mesmo nome no Antigo Testamento (Livro dos Reis II, capitulo 6, versículo 25) e os quais eram vendidos nos mercados e usados na alimentação humana (tal como ainda hoje acontece na Palestina, com a espécie O. Umbellatum).
Há varias explicações para a origem do nome Ornithogallum mas a que eu prefiro é a referência feita por Anna Amelia Obermeyer, botânica sul-africana, à existência do proverbio grego “tão inacessível como leite de pomba” o qual era empregue para classificar algo de maravilhoso ou extraordinário. Em Portugal a dita ave deixou de ser pomba e passou a galinha, aparentemente ave da nossa preferência. Afinal não é ela que põe os ovos de ouro?
De facto, sendo verdade que algumas espécies do género Ornithogallum são bastante inconspícuas outras há que são muito vistosas e algumas até se cultivam pelo seu valor ornamental, estando neste caso a Ornithogalum  Nutans e a Ornithogalum longibracteatum.
E agora, a sistemática:
Ornithogalum narbonense pertence ao género Ornithogalum o qual, no conceito tradicional, engloba um grupo extenso e morfologicamente bastante heterogéneo dividido num número de subgéneros variável, conforme as correntes de opinião de quem de direito. Apesar dos recentes estudos taxonómicos a confusão mantem-se. É que os resultados obtidos foram muito díspares o que não admira tendo em conta que as características apresentadas por cada autor foram distintas.
Do ponto de vista biogeográfico o género Ornithogalum distribui-se por dois centros principais: um na africa do sul tropical e outro que engloba a região mediterrânica, norte de África e sudoeste asiático.
No que diz respeito à Península Ibérica a posição de alguns autores incluindo a Flora Ibérica, é a de adotar uma posição intermedia entre os vários conceitos, dividindo o género Ornithogalum em 4 subgéneros, todos de espécies presentes na flora peninsular e com características fáceis de reconhecer. São eles, os subgéneros Ornithogalum, Beryllis (no qual se inclui a espécie Ornithogalum narbonense), Cathissa e Caruelia.
Ornithogalum narbonense pertenceu em tempos à família Liliaceae, depois passou para a família Hyacinthaceae e recentemente foi reclassificada na família Asparagaceae pelo sistema APG, tendo Hyacinthaceae sido eliminada, situação que tem causado enorme controvérsia… Veja mais informações AQUI.

Texto e fotos de:
Fernanda Delgado do Nascimento  http://floresdoareal.blogspot.pt/

(exceto quando especificado).

Fotos: Serra do Calvo/Lourinhã

2 comentários:

  1. Consultar tu blog ha sido todo un descubrimiento para mi, muy interesante y detallado, me ha encantado.
    Mi felicitación por tan buen trabajo, y desde este momento tienes un nuevo seguidor.
    Saludos.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Hola Manuel,
      Muchas gracias por tu visita y comentario tan amable. Mi estudio sobre las plantas silvestres me ayuda a entender la naturaleza y lo hago con mucho gusto.
      Saludos y hasta la próxima.
      Fernanda

      Eliminar