"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





sábado, 28 de fevereiro de 2015

Calluna vulgaris (L.) Hull

Nomes comuns:
Urze; Urze-roxa; Torga; Torga-ordinária; Queiró;
Queiró-das-ilhas; Queiroga; Leiva; Mongariça; Rapa

“…urze campestre, cor de vinho, com as raízes muito agarradas e duras, metidas entre as rochas. Assim como eu sou duro e tenho raízes em rochas duras, rígidas…”
                                                                          Miguel Torga 
                                                          (pseudónimo de Adolfo Correia Rocha)

Calluna vulgaris é o nome botânico da espécie que muitos consideram a urze por excelência, tendo em conta as suas particularidades. O nome específico vulgaris, indica que é bastante mais frequente e amplamente distribuída do que outras espécies com ela aparentadas, nomeadamente as do género Erica. Pertence ao género Calluna - família Ericaceae - do qual é a única representante, não havendo mais nenhuma espécie neste género. Foi originalmente descrita por Linnaeus (1753), como fazendo parte do género Erica, com o nome Erica vulgaris L. Contudo, a constatação de caraterísticas únicas e distintas levou à sua inclusão num género monoespecífico, por Hull, em 1808. 
Folhas de Calluna vulgaris , estreitamente imbricadas
Calluna diferencia-se das espécies do género Erica, com as quais é muitas vezes confundida, principalmente pelas suas folhas que são muito pequenas, decussadas (cada par cruza–se com o par seguinte, formando um X) e que se dispõem umas sobre as outras de forma densamente imbricada. 
Folhas de Erica scoparia, mais compridas do que em Calluna vulgaris
Por seu lado as folhas de Erica são mais compridas – variando entre mais estreitas ou mais largas, dependendo da espécie - e dispõem-se em verticilos de 3 ou 4 folhas, dirigidas para fora. 
Flor de Calluna vulgaris
A - sépalas do cálice (maiores que a corola)
B - pétalas da corola (mais curtas que o 
cálice)
Também existem diferenças a nível do tamanho do cálice que em Calluna é maior que a corola, escondendo os estames, ao contrário do que acontece com Erica sp (veja AQUI).

Calluna vulgaris distribui-se amplamente por toda a Europa desde as Ilhas Britânicas e Península Ibérica até aos Montes Urais na Rússia, e desde a Escandinávia até ao Mediterrâneo e Marrocos. 
Urzes e tojos andam muitas vezes a par...
Fonte: Wikipedia
Em charnecas e brejos, regiões áridas e batidas pelo vento, é muitas vezes a espécie dominante cobrindo extensas áreas, como por exemplo acontece na Irlanda, Escócia, Pais de Gales e Inglaterra, onde esta espécie é especialmente acarinhada. A escritora Emily Brontë descreveu, de forma memorável, a beleza rude das charnecas do Yorkshire onde predominam as urzes, em Wuthering Heights (em português: Monte dos Vendavais), obra clássica da literatura inglesa. Contudo, os mais entusiastas são os escoceses, de tal forma que, “puxando a brasa à sua sardinha”, deram a Calluna vulgaris o nome vernáculo de Scotch Heather (urze escocesa). Também a cerveja local denominada Fraoch (palavra em idioma gaélico escocês, de origem celta, que significa cerveja de urze) e que é produzida há mais de 4 mil anos, é aromatizada com folhas e flores de Calluna vulgaris.
Calluna vulgaris foi introduzida noutras partes do mundo incluindo o Canada, EUA, Austrália e Nova Zelândia. Em algumas regiões destes dois últimos países tornou-se um caso problemático como invasora, situação comum entre muitas plantas exóticas, as quais geralmente não causam problemas nos seus habitats nativos.
Mapa de distribuição em Portugal continental
Dados disponibilizados por:
P.V.Araújo, J.Lourenço, A.Carapeto, M.Porto, J.D.Almeida, A.J.Pereira, F.Clamote, A.Silva, et al. (2015).
Em território português Calluna vulgaris é autóctone do continente e Açores, onde ocorre de forma espontânea. Também se pode encontrar na Madeira onde foi introduzida pelos colonizadores e se naturalizou.
Calluna vulgaris no meio das roselhas (cistus crispus) e dos tojos (Ulex europaeus)
Calluna vulgaris vive em terras pobres em nutrientes e de pH ácido, em matagais, em clareiras de bosques ou sob coberto de pinhais e sobreirais, fazendo parte de matos baixos, geralmente associada a outras comunidades vegetais que partilham os mesmos requisitos, nomeadamente giestas, estevas, rosmaninhos, tojos, carquejas e sargaços. Em muitas das nossas encostas serranas, estas e outras espécies foram tomando o lugar dos antigos bosques, os quais se foram degradando pelos fogos ou por práticas agro-pastoris, muitas vezes improprias.
Em tempos idos, embora não mais distantes que meia dúzia de décadas, a urze era utilizada pelas populações mais pobres do interior do país para fazer vassouras, escovas para esfregar o soalho das habitações e para encher colchões. A madeira das velhas raízes era utilizada nas lareiras ou para fazer carvão. Chegou a ser utilizada para produzir tinta com a qual se tingiam cabedal e lã em tons de amarelo.

Calluna vulgaris forma um arbusto denso que pode chegar a 1 m de altura ou até mais, exceto em zonas muito ventosas ou rochosas onde tende a formar uma moita baixa. As raízes ramificam-se profundamente para melhor se segurarem na terra e com o decorrer dos anos tornam-se grossas, lenhosas e por vezes retorcidas.

A planta é muito ramificada desde a base. Os ramos são finos, eretos e ascendentes, pubescentes quando jovens. A maioria dos ramos fica verde durante todo o ano mas no inverno alguns podem apresentar lindas tonalidades castanhas, vermelhas ou amarelas que resultam dos restos de folhas envelhecidas que permanecem agarradas.

As folhas são muito pequenas, algo pubescentes, oposto-cruzadas, sem pecíolo e ligeiramente carnosas; nos ramos estéreis as folhas estão muito juntas, estreitamente imbricadas, mas nos ramos de flor estão mais espaçadas.
As flores, de cor rosada ou lilás, algumas vezes rosa mais escuro e raramente brancas, reúnem-se em cachos muito alongados; aparecem solitárias na axila das folhas e são numerosas. 

Os pedúnculos são curtos e curvos pelo que as flores se apresentam pendentes. 

Na base de cada flor, fazendo ligação com o pedúnculo, existem 4 brácteas verdes, semelhantes a folhas mas com as margens avermelhadas e penugentas. 

O cálice é formado por 4 sépalas rosadas de forma lanceolada mas com o ápice arredondado. A corola é constituída por 4 pétalas soldadas apenas na base, também de cor rosada e que têm a particularidade de serem mais curtas que as sépalas do cálice, ficando envolvidas por ele. 
O cálice é persistente, permanecendo na planta mesmo depois da maturação dos frutos, dando a ideia de uma floração bastante mais prolongada.

As flores são perfeitas, ou seja, estão providas de órgãos de reprodução masculinos e femininos funcionais. Os estames são 8, com filetes rosados e anteras acastanhadas e são inclusos, não ultrapassando o nível do cálice. Em contrapartida o estigma, que tem por missão recolher o pólen e encaminha-lo para o ovário, é bem visível pois é grosso e ultrapassa o nível das sépalas do cálice.

Por baixo do ovário existe um disco nectarífero destinado a atrair os polinizadores. Calluna vulgaris é muito visitada por vários tipos de insetos entre os quais se contam vários tipos de borboletas e abelhas melíferas que aí recolhem néctar em abundância, com o qual produzem o precioso mel (nas áreas onde uma determinada espécie é dominante, o mel produzido pelas abelhas reflete o seu sabor. Assim podemos ter mel de urze, mel de rosmaninho, mel de castanheiro, etc. Da mesma forma, a consistência e a cor de cada tipo de mel variam de acordo com as espécies que entraram na sua composição).

Nesta Calluna vulgaris os frutos já amadureceram há muito mas as sépalas das flores continuam na planta dando a ideia de que ela continua em flor
Na generalidade Calluna vulgaris floresce e frutifica de maio a dezembro mas aparenta estar em flor durante a maior parte do ano porque as sépalas, depois de secas, persistem na planta durante muito tempo, mesmo depois da maturação dos frutos. 
Os frutos são cápsulas de forma esférica densamente cobertas de pelos. No seu interior existem 4 compartimentos contendo numerosas sementes as quais se soltam por uma pequena abertura.
As sementes são disseminadas pelo vento, animais ou passeantes que ao passar roçam nas plantas.
Calluna vulgaris é fácil de propagar:
- Por sementes, as quais devem ser colocadas em pequenos vasos no início da primavera, de preferência numa pequena estufa ou em local abrigado e deixadas à superfície ou apenas ligeiramente cobertas por terra. Geralmente germinam dentro de 1 a 2 meses a uma temperatura de 20ºC. As pequenas plantas devem ser protegidas do frio e do vento durante o seu primeiro inverno mas estão prontas para ser plantadas no exterior na primavera seguinte.
- Por estacas semilenhosas em julho ou agosto ou estacas lenhificadas em outubro ou novembro.
- Por mergulhia. Este é o melhor método de obter novas urzes desde que se disponha de uma planta já estabelecida. Pode realizar-se em qualquer altura do ano embora os resultados mais rápidos se obtenham na primavera. Escolhe-se um ramo baixo e, sem o partir, dobra-se até ao solo. Retiram-se as folhas da parte do ramo que vai ficar em contacto com o solo e cobre-se com um bom punhado de terra ou turfa, sobre a qual se coloca uma pedra pesada. As mergulhias feitas na primavera terão criado raízes no outono; as que forem feitas no outono geralmente enraízam um ano depois. Finalmente, é só desenterrar os ramos com as novas raízes, separá-los da planta-mãe e plantá-los no novo local.

Resistente obstinada às inclemências do clima mas delicada na aparência e na fragrância, Calluna vulgaris não só consegue transformar as charnecas mais áridas ou as encostas mais rochosas em locais de grande beleza cénica, como contribui para a manutenção da biodiversidade: serve de alimento a borboletas e besouros, providencia abrigo a aves, pequenos mamíferos e lagartos. 

Tal como acontece com outras espécies de urzes, há muito que Calluna vulgaris é reconhecida pelas suas potencialidades decorativas e ornamentais. Só a partir desta espécie já foram criados mais de oitocentos cultivares que rendem milhões à indústria de horticultura na Europa e Estados Unidos. 
Fonte
Existem nos mercados internacionais, - especialmente em países onde a jardinagem é um passatempo muito difundido e praticado com verdadeiro entusiasmo – variedades de Calluna que vão desde os 10 cm aos 60 cm de altura ou mais, com folhagem que inclui tons dourados, bronze, cinzento-azulado e verde-vivo e flores em tons de púrpura, rosa, vermelho e branco-puro. Contudo, é de notar que muitos destes cultivares não são interessantes para os insetos pois foram feitas consideráveis alterações na morfologia das flores para impedir que os botões abram, aumentando assim o tempo de floração. 
Fonte
As Callunas são plantas fáceis de cuidar desde que lhes sejam providenciadas as condições adequadas, a começar por um substrato leve com pH ácido e situação em pleno sol ou meia sombra, especialmente em climas mais quentes.
Estas plantas são geralmente usadas em monocultura, como cobertura de solo formando tapetes multicoloridos, ficando muito bem quando conjugadas com coníferas anãs. Mas o efeito pode também ser espetacular se cultivadas em grupos, entre outras perenes como azáleas, camélias, bolbos e gramíneas. São ainda apropriadas para sebes, jardins de rocha, terrenos inclinados e vasos, além de que são flores de corte formidáveis e excelentes para fazer arranjos de flores secas.

Calluna vulgaris tem uma longa tradição em medicina popular, particularmente no tratamento dos problemas das vias urinárias, atuando como diurético e antisséptico. É também eficaz nos casos de tosse e constipação, ajudando a reduzir a produção de secreções devido ao seu efeito adstringente. Calluna vulgaris contém taninos e triterpenos, compostos químicos que promovem ação anticancerígena e anti-inflamatória. Os taninos são também poderosos antioxidantes. Tem sido também utilizada com sucesso no tratamento de dores reumáticas sobretudo no que respeita à denominada gota, causada pelo excesso de ácido úrico, o qual parece ser removido pelos componentes químicos de Calluna vulgaris.

Veja mais informações sobre as diversas espécies de urzes  AQUI.

Texto e fotos de:
Fernanda Delgado do Nascimento  http://floresdoareal.blogspot.pt/
(exceto quando mencionada outra fonte).

Fotos de Calluna vulgaris: Serra do Calvo/Lourinhã.

2 comentários:

  1. Cara Fernanda Nascimento, devido ao meu crescente interesse apícola e no conhecimento das Urzes, gostava que me esclarecesse sobre a Calluna Vulgaris. Pois refere Queiró e Mongariça no mesmo texto, quando ambas são diferentes, assim como a Torga :) Fico a aguardar esclarecimento... Obrigado.

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    1. Caro Cristóvão Oliveira,
      Compreendo a sua confusão mas acontece que os nomes que as populações dão as espécies, os chamados nomes comuns, vernáculos ou vulgares, não são fiáveis. Um determinado nome comum pode abarcar diversas espécies, dependendo da região, o que na realidade torna tudo muito confuso no momento de fazer uma identificação correta. É por isso que as espécies têm nomes científicos e esses, sim, são fiáveis pois são exclusivos.
      Ora bem, a Calluna vulgaris distingue-se das outras urzes pois tem folhas diferentes. Apenas a Calluna vulgaris tem folhas decussadas (cada par cruza–se com o par seguinte, formando um X) e que se dispõem umas sobre as outras de forma densamente imbricada, como se fossem as telhas de de um telhado. A forma das flores também é importante. A Calluna vulgaris está em flor nesta época do ano e prolonga-se pelo outono. Alias, a Calluna vulgaris é a única do seu género, que é o género Calluna. Verifique nas fotos acima ou vá a http://www.flora-on.pt/#/1calluna
      As outras urzes pertencem a outro género, o género Erica. Elas são um pouco diferentes de Calluna, nas folhas, no tamanho e sobretudo na forma como se dispõem as folhas. Vá ao site http://www.flora-on.pt/#/1erica onde tem opção para as diversas espécies do género Erica de Portugal. Clicando em cima da foto de cada espécie tem acesso a fotos mais detalhadas e informações sobre a época de floração, as quais certamente lhe permitirão esclarecer-se.
      Espero que tenha ajudado.
      Um abraço
      Fernanda

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