"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





domingo, 30 de março de 2014

Cytisus grandiflorus (Brot.) DC.subsp. grandiflorus

Nome comum: Giesta-das-sebes

Por esta altura do ano os campos são um festival de amarelo e dourado. Às pequenas florinhas rasteiras juntam-se as giestas e os tojos, este ano particularmente viçosos e floridos. Agrupando-se em manchas de tons dourados, enriquecem a paisagem com uma beleza todos os anos repetida mas sempre surpreendente. E apesar da chuva e do frio que voltaram para nos lembrar que o verão ainda vem longe, essa beleza vai permanecer por mais algum tempo fazendo as delícias de abelhas, borboletas e outros insetos polinizadores.
A espécie Cytisus grandiflorus subsp. grandiflorus foi a escolhida para o “post” de hoje. Esta é uma espécie autóctone, nativa da Península Ibérica, bastante comum em muitas regiões do norte e centro de Portugal Continental. Cresce de forma espontânea em situações de sol ou meia sombra em terrenos rochosos e abandonados mas sobretudo fazendo parte do coberto vegetal constituído por espécies arbustivas que ocorrem em pinhais, carrascais ou montados, tais como urzes, carquejas, sargaços e estevas. Também é muito usada na recuperação paisagística sendo comum em taludes e à beira das autoestradas.
Cytisus grandiflorus subsp. grandiflorus forma um arbusto muito vistoso e de aspeto delicado. A floração não é tão densa como a de algumas outras espécies da mesma subfamília mas as flores são maiores (daí o nome da espécie, grandiflorus). Enquanto a floração se prolonga e novas flores vão surgindo, as mais velhas dão lugar aos frutos.

Os seus vários ramos crescem eretos e longos, formando ângulos separados por nós. A superfície dos ramos de 2º ano é esquinada, no sentido longitudinal, apresentando 5 arestas salientes e bastante pronunciadas. Quando envelhecem os ramos tornam-se roliços, perdem a cor verde e tornam-se cinzento-acastanhados e de aspeto rugoso, deixando de produzir folhas e flores as quais nascem em ramos mais jovens, geralmente do ano anterior.
As folhas, caducas, são simples, apenas com alguns pelos nas margens e quase não têm pecíolo. Nos ramos de entrenós mais compridos as folhas estão solitárias mas nos raminhos laterais cujos entrenós são mais curtos, as folhas encavalitam-se formando grupos de três a cinco.
As flores, providas de um pequeno pedicelo, nascem nas axilas das folhas e surgem solitárias ou aos pares. A corola, de cor amarela, é formada por cinco pétalas, uma maior e situada na parte superior (o estandarte), duas laterais (as asas) e duas situadas na parte inferior e que estão unidas (a quilha). 
Esquema de uma flor papilionácea
Este é um tipo de flor a que se chama papilionácea por ser semelhante a uma borboleta e é característico da família a que pertence a Cytisus grandiflorus. A diferente morfologia das pétalas corresponde a funções diferenciadas e complementares que resultam numa estratégia altamente especializada no que diz respeito à polinização por insetos, facilitando a polinização cruzada. 
Os órgãos reprodutivos femininos e masculinos da flor encontram-se encerrados na quilha.
O estandarte, sendo maior, é o fator de atração visual para os insetos e as asas funcionam como plataforma de aterragem. Ora, quando os polinizadores pousam nas asas, a quilha baixa e em consequência, os estames e estigma ficam expostos ao corpo do inseto, permitindo que se faça a troca de pólenes.
A base das pétalas que formam as asas e a quilha estão envoltas entre si formando um tubo do qual emergem 10 estames (5 curtos, 1 mediano e 4 compridos) e um estilo tão comprido que se enrola sobre si mesmo, em espiral.
Esta espécie floresce e frutifica de março a julho.
O fruto de Cytisus grandiflorus subsp. grandiflorus  é uma vagem linear-oblonga, toda ela muito peluda, ligeiramente curvada, fortemente comprimida. Começa por ser verde mas com a maturação a vagem torna-se negra, com pelos brancos. Cada vagem pode conter de 2 a 9 sementes, ovóides e pardacentas.

Cytisus grandiflorus é nativa do oeste e sul da Península Ibérica e noroeste de Marrocos e divide-se em duas subespécies, as quais nem sempre são de fácil identificação. No entanto existem algumas diferenças mais óbvias:
Cytisus grandiflorus subsp. grandiflorus  (Brot.) DC. (acima descrita):
- Em Portugal distribui-se pelo norte e centro de Portugal.
- A superfície dos ramos de 2º ano é esquinada, no sentido longitudinal, apresentando 5 arestas salientes e bastante pronunciadas.
- As vagens estão densamente cobertas por pelos brancos e compridos, em ambas as faces.
Cytisus grandiflorus subsp. cabezudoi Talavera
- Esta subespécie é endémica das regiões costeiras do sul da Península Ibérica. Em Portugal foi assinalada no Algarve e no Alentejo litoral, em solos arenosos e dunares.
- Os ramos de 2º ano são quase arredondados, estando as arestas pouco marcadas.
- Ambas as faces das vagens são glabras apresentando pelos apenas nas margens.

A Cytisus grandiflorus pertence ao género Cytisus, um dos 700 géneros em que se divide a família das Fabaceae, também denominada Leguminosae, cujas espécies estão largamente distribuídas por todos os continentes, com exceção da Antártida. Compreendendo 18.000 espécies, esta é uma das maiores famílias botânicas, pelo que foi dividida em três subfamílias (Faboideae ou Papilionoideae, Mimosoideae e Caesalpinioideae). A Cytisus grandiflorus está colocada na subfamília Faboideae ou Papilionoideae.
São plantas de hábitos variados podendo ser herbáceas, trepadeiras, arbustos e árvores. Muitas delas são utilizadas como ornamentais, outras têm grande valor comercial ou industrial devido aos produtos que deles podem ser extraídos, nomeadamente o tanino, substância usada na indústria do couro, já para não falar dos corantes, tinturas, colas, vernizes etc. Mas, é sobretudo como alimentos básicos e essenciais na dieta de todos os povos que as leguminosas são mais conhecidas pois desta família fazem parte feijões, favas, ervilhas, soja, amendoim, apenas para citar algumas espécies.
Conforme já aqui referido em “posts” anteriores, as espécies da família Fabaceae são fixadoras do nitrogénio presente na atmosfera, tornando os solos mais férteis. Tal acontece através da formação de nódulos nas raízes resultantes da simbiose com bactérias do género Rhizobium as quais absorvem o azoto, também chamado nitrogénio, diretamente da atmosfera transformando-o em amoníaco, permitindo que este seja, de imediato, absorvido pela planta. Mas, nem todo o azoto é utilizado pela própria planta pelo que algum é libertado para o solo, para ser aproveitado por outras. O azoto é essencial ao crescimento das plantas pelo que esta característica é de extrema importância.
O efeito benéfico que advém do plantio de plantas leguminosas é conhecido desde há muitos séculos mas foi só em 1889 que foi identificada a primeira bactéria Rhizobium leguminosarum, comprovando o papel dos microrganismos na fixação do azoto atmosférico consociados com as leguminosas.
A quantidade de azoto fixado pelas bactérias que com elas vivem associadas depende, entre outros fatores, da espécie de leguminosa e das condições do solo.
Na agricultura dos nossos dias há quem prefira utilizar os chamados “adubos verdes” para enriquecer o solo, em detrimento de produtos químicos. Isto consiste em cultivar espécies de crescimento rápido, geralmente da família das leguminosas, as quais são colhidas e enterradas no mesmo local antes de florescerem e criarem sementes. Esta prática promove o enriquecimento do solo com azoto e outros nutrientes, além de melhorar a estrutura dos terrenos, protegendo-os da seca e limitando o desenvolvimento das ervas daninhas.
A Cytisus grandiflorus é uma espécie apreciada em jardins, destacando-se como exemplar isolado ou em maciços. Multiplica-se por semente podendo tornar-se invasora em algumas situações pois as sementes germinam facilmente. Aprecia os solos leves e arenosos com boa exposição solar. É uma espécie rústica e tem a vantagem de não se incomodar muito com os ventos marítimos. Apesar de resistente à seca deve ser regada periodicamente (sem encharcar) e para manter uma forma compacta e evitar que a planta fique demasiado nua nos ramos mais velhos, deve ser podada no inverno para estimular o desenvolvimento de ramos novos. Contudo há que ter em conta que é uma espécie tóxica, o que aliás acontece com muitas plantas de jardim.

Entretanto, muitas são as espécies arbustivas, aparentemente semelhantes entre si, que florescem nesta época do ano. As suas flores são muito idênticas, do tipo papilionáceo e quase sempre amarelas. As espécies são muitas e nem sempre é fácil distingui-las pelo que popularmente costumamos separa-las em dois grupos: as que têm picos e as que os não têm. Às espinhosas, geralmente mais baixas e compactas habituamo-nos a chamar tojos e as outras, altas e de ramos finos conhecemo-las por giestas. Tal "classificação" nem sempre corresponde à realidade. São todas da família Fabaceae, subfamília Faboideae mas pertencem a géneros diferentes, não só Cytisus mas também, Ulex, Genista e mais alguns, menos representativos. Veja as fotos que lhe poderão mostrar as diferenças e semelhanças entre várias destas espécies, no portal da Flora-on, clicando AQUI, AQUI e AQUI.

Fotos de Cytisus grandiflorus: Serra do Calvo/Lourinhã



7 comentários:

  1. Respostas
    1. Olá Helena,
      Dizem que aprender é a capacidade de permanecer jovem...
      Obrigada pelo comentário e um abraço.

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  2. Tenho duas destas no meu jardim!
    Cumprimentos.

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    1. Ola Rafael,
      Devem estar lindas, dignas "filhas" de um "pai" extremoso. Peço desculpa pelo exagero mas a verdade é que as plantamos, vemo-las crescer, preocupamo-nos com o seu bem-estar...e sentimo-nos orgulhosos delas, como qualquer pai ou mae, com a sua prole.
      Cumprimentos

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  3. Olá Fernanda, consigo lhe arranjar sementes já germinadas da Pulsatilla, as pequenas plantulas respondem bem à transplantação... Envie-me um mail, podemos trocar...

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