"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





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sábado, 6 de junho de 2015

Melilotus indicus (L.) All.

Nomes comuns:
Anafe-menor; coroa-de-rei;  meliloto-da-índia;
trevo-de-cheiro; trevo-de-namorado; meliloto

Melilotus indicus é uma planta aparentada com os trevos, nativa da região mediterrânica, norte de África, Ásia temperada (Península arábica, Médio Oriente, Cáucaso, Ásia central e China) e Ásia tropical (Índia, Nepal e Paquistão). 
No que diz respeito a Portugal, é nativa de Portugal continental e Madeira e naturalizada nos Açores.
Mapa de distribuição em Portugal continental
Fonte: Flora Digital de Portugal-Jardim Botânico da UTAD
Foi introduzida no norte da Europa e logo se espalhou por quase todas as regiões do mundo de clima temperado quente. Embora prefira substratos alcalinos com boa drenagem, dá-se bem em quase todos os tipos de solo, conseguindo mesmo conviver com alguma salinidade. 
É uma espécie pioneira, arvense ou ruderal que ocorre em jardins, beira das estradas e caminhos, estrumeiras, locais perturbados, dunas marítimas, campos cultivados e habitats ripários (margens de cursos de água). 
Apesar de naturalizada, a sua condição de espécie exótica tem-lhe facilitado o desenvolvimento de hábitos invasores em alguns locais, rapidamente formando densas colónias que abafam as espécies autóctones. No entanto, é também muito útil em várias vertentes: é uma planta muito melífera, uma das preferidas das abelhas; as suas raízes profundas penetram nos solos favorecendo o arejamento dos mesmos, além de que têm a capacidade de fixar o nitrogénio atmosférico transformando-o em nutrientes. Esta planta tem ainda a vantagem de crescer bem em solos moderadamente salinos, onde outras espécies forrageiras não proliferam. 
Melilotus indicus é cultivada como fonte de alimento para o gado, sendo uma espécie apropriada às características climáticas de certos locais, resultando economicamente rentável. Apesar do agradável aroma que liberta, o seu sabor é algo amargo pelo que não é muito apreciada. Por essa razão é geralmente cultivada em mistura com cevada, aveia, centeio ou ervilhaca, não devendo ser colhida antes da floração para minimizar os efeitos do aparecimento de bolor a que é propensa durante o armazenamento. De qualquer modo, Melilotus indicus apresenta um certo grau de toxicidade pelo que se for usada em excesso na alimentação do gado poderá causar problemas de saúde, tais como falta de apetite, distensão abdominal, letargia, paralisia e contaminação do leite. A substância culpada é um metabólito secundário, a cumarina. No entanto, já existem híbridos com baixa concentração deste componente químico. 
O ciclo de vida de Melilotus indicus é geralmente anual mas em alguns casos é bienal, dependendo das condições ambientais. Dos mesmos fatores depende o crescimento da planta cuja altura pode ir dos 10 aos 50 cm.
Os caules, ramificados e algo angulosos, são delgados, eretos ou ascendentes, glabros ou esparsamente pubescentes, sobretudo os mais jovens.
As folhas são alternas e compostas por 3 folíolos de forma oblonga ou obovada, com margens serradas. 
Na base do pecíolo existem duas estípulas, ou seja, dois pequenos apêndices foliares de margem membranosa, alongados e estreitos. Nem todas as plantas possuem estípulas e a sua função primitiva permanece algo obscura. Contudo, tanto a sua presença como a sua ausência são, muitas vezes, um fator fundamental para a identificação das espécies. Veja mais AQUI. 
De notar que os folíolos que compõem as folhas de Melilotus indicus apresentam nastias, ou seja, movimentos que ocorrem em resposta a estímulos ambientais, nomeadamente a luz do sol ou a sua falta. Durante o dia, em resposta à luz solar, os folíolos ficam bem distendidos (fotonastia) para captar o máximo de luz e à noite fecham-se sobre si mesmos (nictinastia) diminuindo a superfície exposta. Estes movimentos resultam da alteração rápida na turgidez das células que se encontram na base dos pecíolos e dos peciólulos, em estruturas mais espessas denominadas pulvinos. O estímulo sobre as células dos pulvinos provoca a libertação dos iões de potássio com a consequente perda de água nas células vizinhas devido ao decréscimo da capacidade de osmose. Desta forma os pulvinos contraem-se e esta reação, ao propagar-se rapidamente, faz com que todas as folhas se dobrem. As folhas abrem-se através do processo inverso. As alterações na turgidez das células são determinadas por agentes químicos cujo equilíbrio controla a contração ou expansão dos pulvinos, num processo ainda não completamente entendido e que tem sido objeto de vários estudos. Esta é uma das características das espécies da família Fabaceae (Leguminosae) a que pertence Melilotus indicus.
As folhas frescas são comestíveis depois de cozinhadas mas quando secas podem ser tóxicas devido à presença da cumarina, substancia química que dá às plantas secas a fragância - que muitos apreciam – do feno acabado de cortar.
As folhas são também repelentes de insetos. Em tempos, quando ainda se usavam colchões de palha, as folhas eram usadas para repelir os percevejos.

As flores são muito pequenas mas numerosas e reúnem-se em elegantes cachos, densos e alongados. Cada pequena flor liga-se a um eixo central por meio de pedicelos curtos. As flores viram-se para baixo após a ântese (período de expansão da flor). 
O cálice, penugento e de cor verde-pálido, forma um tubo campanulado que termina em 5 dentes triangulares, tão compridos quanto o tubo. O comprimento total do cálice corresponde a cerca de metade do comprimento da corola.
A corola, de cor amarela, é formada por cinco pétalas, uma maior e mais comprida e situada na parte superior (o estandarte), duas laterais (as asas) e duas situadas na parte inferior e que estão parcialmente unidas (a quilha). 
Esquema de uma flor papilionácea
Este é um tipo de flor a que se chama papilionácea por ser semelhante a uma borboleta e que é característico de algumas espécies da família a que pertence a Melilotus indicus. As flores são perfeitas, assim classificadas porque dispõem de órgãos reprodutores masculinos e femininos. O androceu é formado por 10 estames com anteras de cor amarela ou alaranjada. Um dos estames é livre mas os restantes nove estão soldados, formando um tubo através do qual passa o estilete que surge a partir do ovário e que é persistente na maturação do fruto. O estigma é diminuto e de cor esverdeada.
Debaixo do ovário existe um recetáculo onde se forma o néctar, o qual é posto à disposição dos polinizadores entre os estames. Apesar deste incentivo aos insetos polinizadores Melilotus indicus geralmente recorre à autopolinização. Contudo é uma planta muito procurada pelas abelhas e com importância económica na produção de mel.
O fruto é uma vagem arredondada e de cor esverdeada que na maturação continua parcialmente envolvida pelo cálice que entretanto se torna rosado. 
Frutos de Melilotus indicus em amadurecimento (pormenor)
Fonte: Wikimedia Commons 
Autor: Forest & Kim Starr
O fruto tem forma ovóide ou quase globosa e a sua superfície apresenta-se ornamentada com vários sulcos que formam um desenho bastante intrincado. No seu interior existe 1 única semente, raramente 2.
Inicialmente as sementes são macias mas acabam por perder a humidade, tornando-se castanhas e duras, temporariamente impermeáveis. Podem manter-se viáveis no solo durante 11 a 50 anos, embora tenham sido encontradas sementes viáveis com 183 anos em San Fernando, no México. As plantas Melilotus indicus produzem uma media de 14,000 sementes por individuo, havendo no entanto plantas grandes que chegam a produzir de 200,000 a 350,000.
Quando maduros os frutos caiem no chão e as sementes acabam por se libertar, dispersando-se por ação do vento ou por animais, muitas vezes sendo ingeridas por pequenas aves.

Esta espécie está incluída no género Melilotus cujas espécies apresentam, por vezes, características morfológicas muito semelhantes. De facto, Melilotus indicus pode facilmente ser confundida com outras espécies do mesmo género e que vivem nos mesmos habitats, especialmente com Melilotus officinalis mas também com Melilotus  sulcatus. Na generalidade as flores deste género são amarelas com exceção de Melilotus albus que tem flores brancas. Existem pequenas diferenças na densidade das inflorescências ou no tamanho das flores mas a melhor forma de distinguir as espécies é através da observação dos frutos maduros.
Esquemas dos frutos maduros, da esquerda para a direita: M. indicus, M. Officinalis, M.sulcatus
Fonte: Flora Iberica
Inicialmente Melilotus indicus foi incluída no grande género Trifolium por Linnaeus em 1753 (Species plantarum) mas foi posteriormente transferida para o género Melilotus pelo botânico italiano Carlo Allioni (Flora Pedemontana 1: 308. 1785)
O nome do género Melilotus vem do grego e quer dizer literalmente “planta leguminosa com mel” referindo-se ao facto de as suas espécies serem muito melíferas – “meli”= mel + “lotos” = planta leguminosa (Munz, Flora So. Calif. 464). O nome da espécie indicus vem do também do grego “indikos” e refere-se à Índia (Jaeger 127)- país onde sempre foi muito cultivada como forrageira.
Este género inclui 21 espécies largamente distribuídas e das quais 10 estão presentes em Portugal continental como autóctones. A maioria destas espécies também estão presentes nos arquipélagos de Açores e Madeira, algumas tendo sido introduzidas, outras sendo nativas (pode conferir os detalhes específicos em Flora-on). 
Melilotus indicus é uma leguminosa, pertencendo à família Fabaceae também denominada Leguminosae, uma das maiores famílias de plantas de flor, incluindo mais de 18,000 espécies agrupadas em cerca de 463 géneros, distribuídas praticamente pelo mundo inteiro. É grande a sua importância económica pois inclui espécies fundamentais na alimentação humana como sejam a soja, o feijão, o amendoim, o grão-de-bico, o tremoço, as ervilhas ou as favas, apenas para mencionar algumas.
Na generalidade, são plantas de hábitos variados podendo ser herbáceas, trepadeiras, arbustos ou árvores. Muitas espécies são também utilizadas como ornamentais, outras têm grande valor comercial ou industrial devido aos produtos que delas podem ser extraídos, nomeadamente o tanino, substância usada na indústria do couro, já para não falar dos corantes, tinturas, colas, vernizes etc.
Uma das características desta família é a faculdade de converter o nitrogénio atmosférico (azoto) em moléculas proteicas as quais são aproveitadas pela própria planta para seu desenvolvimento e o das plantas em seu redor. Isto acontece devido a uma relação simbiótica com bactérias Rhizobium que se fixam nas raízes das leguminosas através de nodosidades, visíveis a olho nu. Em contrapartida, as bactérias recebem das plantas os açúcares produzidos durante a fotossíntese. Esta simbiose permite não só a sobrevivência das referidas bactérias mas também que certas espécies possam desenvolver-se sem problemas em solos pobres em azoto e matéria orgânica.
Tirando partido desta capacidade Melilotus indicus é também usada como adubo verde, processo que consiste  em cultivar leguminosas de crescimento rápido, as quais são cortadas e enterradas no mesmo local antes de florescerem e criarem sementes. Esta prática promove o enriquecimento do solo com azoto e outros nutrientes, além de melhorar a estrutura dos terrenos, protegendo-os da seca e limitando o desenvolvimento das ervas daninhas.

Usos medicinais:
Todas as plantas sintetizam químicos variados, nomeadamente os chamados metabólitos secundários, muitos deles responsáveis por propriedades terapêuticas (veja mais AQUI ).
Melilotus indicus contém cumarina, que é um anticoagulante. A planta também é usada como emoliente, adstringente, laxante e narcótica. 
Entretanto aqui deixamos, mais uma vez, um conselho: qualquer tratamento que leve ao consumo interno das plantas deve ser precedido de aconselhamento apropriado, 

Fotos de Melilotus indicus: Caniçal/Lourinhã.


sexta-feira, 1 de maio de 2015

Cerastium glomeratum Thuill.

Nome Comum:
Orelha-de-rato; cerástio-enovelado

Cerastium glomeratum é uma das numerosas espécies de flores brancas que fazem parte de Cerastium L., género quase cosmopolita com cerca de 100 espécies, algumas perenes, outras anuais, mais abundantes em zonas temperadas e frias, sendo a Eurásia o seu principal centro de diversidade. Cerastium fontanum e Cerastium glomeratum são as espécies mais comuns a nível global porquanto a maioria das espécies deste género tem distribuição restrita.
Muitas das espécies do género Cerastium são usadas por alguns tipos de borboletas que aí depositam os seus ovos, servindo posteriormente de alimento às larvas. Entre os vertebrados, algumas pequenas aves comem as sementes, enquanto os coelhos bravos petiscam as folhas. Aparentemente também as galinhas caseiras adoram esta herbácea, pelo menos as galinhas anglo-saxónicas, a constatar pelo nome popular que em inglês se dá ao género Cerastium: “chickweeds”, ou seja ervas-das-galinhas. No que diz respeito a este cantinho de Portugal e outros por onde tenho andado, não encontrei nenhum indício de que se colha esta erva (ou qualquer outra, já agora) para alimentar galinhas, o que não quer dizer que não aconteça noutros locais. O que é mesmo certo, é que já são poucas as pessoas da aldeia que reconhecem as ervas que crescem pelos caminhos ou incomodam a sua plantação de couves.
As galinhas adoram comer Cerastium (ervas-das-galinhas)
Fonte http://www.eatthatweed.com/chickens-love-chickweed/
(Se este assunto lhe interessa, veja também AQUI). 

Segundo o portal Flora-on, são 6 as espécies deste género que se encontram presentes em Portugal. Veja AQUI.
Todas estas espécies apresentam flores de pequeno tamanho, de aspeto modesto e discreto, quando isoladas. Mas, em conjunto, formam alegres tapetes rasteiros ou franjas altas e espevitadas. A espécie mais comum no nosso país é a Cerastium glomeratum, planta grácil e com flores de uma brancura imaculada. Contudo não nos deixemos enganar pelo seu pretenso aspeto angelical pois é uma infestante bastante rápida e eficaz. No jardim é fácil de erradicar, bastando para tal arrancá-la à mão antes que produza frutos e sementes. Mais difícil é controlá-la nos terrenos cultivados de grande extensão pois é resistente aos produtos químicos, infelizmente tão utilizados hoje em dia; por outro lado, a ação de sachar a terra com enxadas ou lavrar mecanicamente só ajuda a espalhar as sementes.
Mapa actual de distribuição de Cerastium glomeratum em Portugal continental
Fonte:  Flora-on    
Dados disponibilizados por J.Lourenço, J.D.Almeida, F.Clamote, P.V.Araújo, M.Porto, A.J.Pereira, A.Silva, P.Silveira, et al. (2015).

Embora a exata procedência de Cerastium glomeratum permaneça algo obscura, presume-se que seja de origem euroasiática mas é conhecida em quase todos os continentes como espécie introduzida e naturalizada. Em Portugal é autóctone do continente e arquipélago da Madeira e naturalizada nos Açores.
Cresce em muitos tipos de habitats quer naturais, quer antropizados, desde o nível do mar até 2000m de altitude: dunas, campos cultivados ou incultos, jardins, margens de caminhos, de preferência em áreas de solos perturbados e enriquecidos em nutrientes, demonstrando a sua natureza ruderal. O tipo de solo é-lhe indiferente mas precisa de alguma humidade e prefere exposição sombreada embora também cresça em pleno sol.
Cerastium glomeratum é uma planta anual de um tom de verde-claro e revestida de numerosos pelos compridos, densos e flexíveis que podem ser glandulares ou não. 
Os pelos glandulares residem essencialmente na parte superior da planta o que a torna algo pegajosa ao toque. A riqueza em nutrientes, a humidade do solo e o grau de exposição solar são três elementos que em conjunto ou cada um por si só, determinam o tamanho que as plantas de Cerastium glomeratum podem atingir na idade adulta. Algumas permanecem rasteiras com pouco mais de 5 cm, outras podem chegar aos 40 ou 45 cm de altura. Os caules, ramificados, são eretos ou ascendentes.
As folhas dispõem-se ao longo dos caules, a espaços regulares e em pares opostos. São folhas inteiras e simples, de forma oval ou elíptica com cerca de 2 ou 3 cm de comprimento. Não têm pecíolo e ambas as páginas estão cobertas de pelos.
A característica distintiva desta espécie é a forma como as flores se aglomeram em cimeiras compactas ou seja, em cachos densos, os quais se repetem sucessivamente. É um tipo de ramificação em que cada ápice se bifurca originando dois pedúnculos situados à mesma altura, de tal forma que os eixos florais se sucedem. Os pedicelos são do mesmo comprimento ou mais curtos que as sépalas.
Traduzido em termos técnicos dir-se-á que a inflorescência de Cerastium glomeratum é na realidade um dicásio (cimeira bípara) mas que aparece como uma cimeira multiflora muito contraída, também denominada glomérulo - de onde deriva o epiteto glomeratum que identifica a espécie.
Na base dos pedúnculos florais existem duas brácteas herbáceas e foliáceas.
As flores tem pedicelos que são mais curtos que as sépalas ou do mesmo comprimento (5 mm ou menos), os quais estão cobertos de pelos glandulares.
A corola, com diâmetro de 5 a 8 mm, é formada por 5 pétalas iguais, livres e cuja extremidade apresenta um entalhe no ápice. As flores raramente abrem por completo, por vezes nem chegam a abrir ou faltam algumas pétalas. Embora possam ser fecundadas por insetos estas flores estão vocacionadas para a autopolinização, caraterística assumida das plantas ruderais e que agiliza o processo de formação de sementes. Apesar disso estas pequeníssimas flores estão apetrechadas com nectários onde armazenam o delicioso e nutritivo néctar destinado a atrair insetos, especialmente abelhas, moscas e traças ou pequenas borboletas, o que acaba por ser um desperdício de energia (alguns géneros mais evoluídos dentro da família a que pertence Cerastium L. – Caryophyllaceae – já desenvolveram dispositivos que impedem o acesso aos nectários).
O cálice é constituído por 5 sépalas livres e lanceoladas, de cor verde as quais são mais curtas que as pétalas. As sépalas desta espécie têm margens membranosas e os pelos que as cobrem, na sua maioria glandulares, têm a particularidade de serem longos e compridos, ultrapassando o ápice das mesmas. As sépalas são persistentes, mantendo-se durante a frutificação.
As flores estão providas de órgãos reprodutores masculinos e femininos funcionais. Os estames são 10, com filetes esbranquiçados e anteras de cor amarelo-pálido. O ovário tem 5 carpelos e os correspondentes 5 estiletes de cor branca os quais são visíveis, juntinhos no centro da flor, entre os estames.
O período de floração prolonga-se desde o fim do inverno até meados do verão e cada planta completa o seu ciclo de vida em 3 ou 4 semanas. 
O fruto de Cerastium glomeratum é uma pequena cápsula alongada, de consistência algo semelhante a papel fino e mais comprida que as sépalas - mas com pouco mais de 1 cm de comprimento - que resulta da fusão dos 5 carpelos. 
Fonte: CalPhotos
Photographer: Jean Pawek

Dentro desta cápsula formam-se minúsculas sementes de cor castanha ou alaranjada, as quais são libertadas pela parte superior. A abertura apresenta 10 pequenos dentes (múltiplos do número dos carpelos), os quais podem ser eretos ou ligeiramente curvados para fora.
O formato tubular e ligeiramente curvo desta cápsula está na origem do nome que designa o género: Cerastium deriva do grego “Kerastes” que uns dizem que se traduz por corno e outros por trombeta.

Cerastium glomeratum pode ser facilmente confundida com outras espécies do mesmo género, nomeadamente com Cerastium fontanum, espécie perene, mas com flores maiores embora menos compactadas. Mas a principal diferença reside na morfologia das sépalas que em Cerastium glomeratum estão revestidas de pelos bastante mais compridos e que ultrapassam o ápice; os pelos das sépalas de Cerastium fontanum são definitivamente mais curtos. Veja fotos de Cerastium fontanum AQUI.

Cerastium glomeratum pode ser também confundida com Stellaria media, do género irmão Stellaria, ambos da família Caryophyllaceae. Contudo, não é difícil diferenciá-las se tomarmos em consideração os seguintes pontos principais: enquanto as folhas de Stellaria media têm peciolos, as de Cerastium glomeratum são sésseis; a forma das folhas é diferente entre estas duas espécies; as pétalas de Stellaria media são bipartidas e as de Cerastium glomeratum só são fendidas até um terço do seu comprimento; Stellaria media tem 3 estiletes e Cerastium glomeratum tem 5. Veja fotos de Stellaria media AQUI.

A família Caryophyllaceae, à qual pertencem todas as espécies acima referenciadas, inclui 86 géneros, com mais de 2200 espécies, que ocorrem praticamente no mundo inteiro mas com maior incidência em regiões temperadas e quentes do Hemisfério norte. Embora muitas espécies sejam de pequeníssimas dimensões, anuais e infestantes das culturas, outras têm interesse económico pois são cultivadas como ornamentais, sendo as mais conhecidas os cravos (Dianthus L.) e a Gypsophila L.

Fotos de Cerastium glomeratum: Serra do Calvo.


sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Abutilon theophrasti Medikus

Nomes comuns:
Folhas-de-veludo, malvão, juta-da-china

Foi no recanto do jardim reservado ao cultivo de frutos e legumes que vi pela primeira vez esta linda herbácea de folhas aveludadas. Quase escondida pela produção exuberante dos tomateiros, só em finais do verão dei por ela. Pelo seu pequeno tamanho  - considerando os padrões de exigência de uma planta anual - é possível que tenha germinado tardiamente. 
Apesar das flores incipientes era óbvio que já tinha florido anteriormente pois foram os frutos que primeiro chamaram a minha atenção. Era um exemplar solitário e completamente diferente das outras ervas que costumam invadir os canteiros da pequena horta. Certamente foi trazida de longe por alguma pequena ave, talvez, quem sabe, uma oferenda ou proposta de amizade... 
Deixei passar algumas semanas enquanto observava o seu desenvolvimento e tentava identifica-la. Entretanto, abriram as flores de tom amarelo e amadureceram os frutos mas Infelizmente as chuvas que este ano chegaram precocemente e de forma persistente deterioraram o que restava dos tomates e foi necessário arranca-los rapidamente, o mesmo acontecendo com as infestantes habituais que este ano atacaram com força redobrada. 
Quando dei por isso, da bela planta nem rasto, devidamente despejada juntamente com as suas “comadres” no contentor apropriado aos lixos biológicos. Mas, mais ano menos ano, ela voltará seguramente a germinar no mesmo local, pois algumas sementes terão ficado no solo. Quando tal acontecer, se eu desejar deixa-la crescer terei de ter o cuidado de recolher os frutos antes que as sementes amadureçam, evitando assim a sua proliferação. É que, identificada a espécie, Abutilon theophrasti, fiquei a saber que é uma infestante exótica e altamente invasora, habitual em grandes plantações de milho e soja. No nosso país a sua presença está assinalada principalmente no Douro litoral e Ribatejo.

Abutilon theophrasti é por vezes cultivada em jardins mas aparece principalmente em áreas de resíduos, bermas dos caminhos, terrenos baldios, na proximidade de currais e em campos cultivados ou incultos. Na realidade é uma espécie tipicamente ruderal e infestante que coloniza os habitats modificados pelo Homem e enriquecidos com os fertilizantes das práticas agrícolas. 
A área de distribuição nativa de Abutilon theophrasti vai do sudeste asiático até ao centro da região mediterrânica. Na China já era cultivada intensamente há 3000 anos. Era utilizada principalmente para obter fibras usadas na confeção de fios, cordas, tapetes, sacos, pano grosso, sapatos, redes de pesca, papel e na calafetagem de barcos; em medicina alternativa usavam-na para tratar febres, disenteria e problemas estomacais; como alimento, as sementes, de sabor semelhante às do girassol, eram consumidas cruas (depois de tratadas para perderem o gosto amargo) ou usadas para fazer farinha depois de secas. Hoje em dia, contudo, existem alternativas mais rentáveis e saborosas pelo que se pode dizer que a planta deixou de ser apelativa.
Entretanto, através do Mediterrâneo, Abutilon theophrasti foi abrindo caminho para a Europa e o resto do mundo.
Abutilon theophrasti foi introduzida na América do Norte pelos ingleses antes de 1750, como uma potencial produtora de fibras. A ideia dos investidores era conseguir uma fonte de fibras que os tornasse autossuficientes nesse campo, em vez de estarem dependentes das fibras importadas.
No mundo de hoje, em que dispomos de uma variedade imensa de materiais sintéticos, é difícil imaginar como as fibras vegetais eram importantes para a sociedade de há centenas de anos. Todos os setores da vida doméstica ou comercial estavam delas dependentes, de uma forma ou outra. As fibras eram usadas não só na confeção de têxteis, cestaria, manufactura do papel mas também na construção civil, pesca e navegação marítima. Por exemplo, as correntes metálicas só foram introduzidas nos navios em meados do século XIX, sendo até então utilizadas grande quantidade de cordas, compridas e grossas, manufaturadas a partir de fibras vegetais.
Convento de Cristo - Tomar
Um belo exemplo do estilo Manuelino, em que as cordas se salientam como elemento decorativo
Podemos fazer apenas uma pálida ideia dos quilómetros de cordame que foram necessários durante a campanha dos descobrimentos, da dificuldade em conseguir tamanha quantidade de fibras e de quantas plantas foram sacrificadas para que novos mundos fossem alcançados. As cordas eram de tal forma importantes que constituíram um dos elementos decorativos mais repetidos pelos artistas do estilo Manuelino.
No Novo Mundo o projeto de uma indústria própria para a produção de fibras através de Abutilon theophrasti foi alvo dos esforços dos agricultores americanos durante mais de um século, mas nunca foi um sucesso comercial. Em vez disso, o plantio persistente desta planta tornou-a numa praga agrícola causando prejuízos avultados, chegando atualmente a reduzir as colheitas de milho e soja em cerca de 34%, só nos Estados Unidos e Canadá, apesar do uso intensivo de herbicidas. O mesmo se passa em alguns países do sudeste europeu, nomeadamente Alemanha, Republica Checa e Hungria.
De notar que cada planta de Abutilon theophrasti produz entre 800 a 17000 sementes as quais se mantêm viáveis no solo durante 4 a 5 décadas estabelecendo um banco de sementes tão abundante e resistente que torna praticamente impossível o controlo da espécie. Uma vez germinada, a planta torna-se altamente competitiva, concorrendo com as espécies agrícolas pela luz do sol, espaço no solo, por água e nutrientes. Além disso segrega substâncias alelopáticas cuja composição química impede que outras plantas se desenvolvam em seu redor.
Abutilon theophrasti é uma espécie anual que se desenvolve a partir de um caule ereto e vigoroso o qual se ramifica na parte superior formando um pequeno arbusto que pode alcançar mais de 1,5 m de altura.
O caule e os ramos estão densamente cobertos por curtos pelos estrelados e simples que lhe dão um toque aveludado.
As folhas têm peciolos longos e dispõem-se nos ramos de forma alternada; a venação é palminérvea; quanto à forma, as folhas são cordiformes (em forma de coração) ou arredondadas, com a extremidade aguda e ligeiramente curva; as margens apresentam pequenos dentes; são discolores porque a face superior tem um tom de verde diferente da página inferior; ambas as faces estão cobertas por pelos que as tornam macias e aveludadas ao toque.
As flores, providas de órgãos reprodutores masculinos e femininos, surgem na axila das folhas superiores e agrupam-se em inflorescências do tipo cimeira ou são solitárias. A corola é formada por 5 pétalas de um tom amarelo intenso, de forma obovada e com um pequeno entalhe na extremidade. O cálice é constituído por 5 sépalas cobertas por pelos e unidas na metade inferior e que continuam a crescer até à maturação dos frutos. Não existe epicálice. O androceu é formado por numerosos estames fundidos até certa altura, formando um tubo ao redor do ovário e depois livres entre si. A fecundação faz-se principalmente por autopolinização embora também possa ocorrer polinização cruzada com auxílio de insetos.
O fruto de Abutilon theophrasis é um esquizocarpo, densamente coberto por pelos, primeiro de cor verde, tornando-se quase preto ao atingir a maturação. 
O esquizocarpo é semelhante a uma cápsula circular, maior que o cálice e constituída por 12 a 15 mericarpos presos a uma coluna central e que permanecem intactos até à maturação. Os mericarpos estão dispostos como os gomos de uma laranja, e têm 3 faces: a dorsal ligeiramente côncava e estreita e as laterais planas, lisas e glabras.
Parte superior do esquizocarpo com sementes maduras
Foto de Invasive.org

Cada mericarpo contém 2 ou 3 sementes que são libertadas através de uma abertura situada no ápice. As sementes, achatadas e glabras, apresentam coloração escura e forma de rim.
A floração ocorre principalmente durante os meses de julho e agosto.
Uma vez iniciada a floração cada planta produz sementes de forma contínua até à chegada dos primeiros frios. As sementes amadurecem cerca de 20 dias após a abertura das flores. Cada esquizocarpo produz entre 25 a 45 sementes pelo que uma planta grande pode produzir varias centenas de mericarpos e milhares de sementes. As sementes maduras sao rapidamente disseminadas pelo vento, agarradas ao pelo de algum animal ou misturadas com as colheitas. De notar que passam incolumes pelo trato digestivo dos animais, se deglutidas.
Abutilon theophrasti pertence à familia Malvaceae que constitui uma das grandes famílias botânicas, abarcando atualmente mais de 4225 espécies, agrupadas em cerca de 243 géneros. Até há pouco tempo esta família era bem mais pequena mas após estudos filogenéticos, passou a englobar outras famílias.
Esta família reúne espécies que se distribuem por todos os continentes (exceto as regiões mais frias), havendo uma maior representatividade nos trópicos. É constituída principalmente por trepadeiras, herbáceas, arbustos e árvores estando o cacaueiro (Theobroma cacao)  e os algodoeiros (Gossypium spp) entre os seus representantes mais conhecidos. Muitas espécies desta família têm importância relevante em paisagismo. As espécies arbóreas de grande porte são indicadas para arborização de grandes parques e jardins enquanto certas espécies arbustivas, como os Hibiscus spp ou Abutilon spp também podem ser usadas em jardins familiares, em maciços ou como exemplares isolados. Estas espécies têm grande potencial ornamental. Desenvolvem-se bem na terra ou em vaso e têm a vantagem de ter uma floração muito abundante e prolongada.
Abutilon theophrasti está hoje em dia incluída no género Abutilon mas já esteve incluída no género Sida com o nome de Sida abutilon L. (basónimo de Abutilon theophrasti Medikus).

- Para ver um pequeno filme sobre a planta Abutilon theophrasti e a forma de recolher as fibras, clique AQUI.
- Clicando AQUI pode aceder a uma galeria de fotos de híbridos de Abutilon, especialmente preparados para fins ornamentais. 

Fotos de Abutilon theophrasti: Serra do Calvo/Lourinhã.