"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





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quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Scorpiurus L.

Scorpiurus muricatus L.
Nomes Comuns:
Cornilhão; cornilhão-fino; cornilhão-liso; cornilhão-pequeno; cabreira
Fruto imaturo de Scorpiurus muricatus
Scorpiurus muricatus é uma pequena leguminosa, nativa da região mediterrânica.
Encontra-se em matagais, pastagens e terras não cultivadas ou em pousio de cultivo de cereais, até 1200 mt acima do nível do mar. Também aparece na beira dos caminhos, dunas e arribas costeiras. Embora não seja esquisita com o tipo de substrato, nota-se uma preferência por solos com baixo teor de calcário e alta em teores de sódio e de magnésio. Pertence à família Fabaceae, tradicionalmente denominada Leguminosae.
O seu ciclo de vida é anual e o crescimento prostrado. Os múltiplos caules são herbáceos, sólidos, cilíndricos e ligeiramente pubescentes. Os caules principais, a partir dos quais se desenvolvem os secundários, despontam diretamente do entrenó situado entre os cotilédones (primeiras partes que se veem quando a semente germina, semelhantes a folhas e que contêm reservas nutritivas) dispondo-se de forma radial para formar uma moitinha baixa e arredondada.
Geralmente as folhas das leguminosas são compostas ou seja, o limbo está subdividido em vários folíolos. Contudo, a espécie Scorpiurus muricatus - assim como todas as espécies do mesmo género - têm folhas inteiras, o que pode ser também interpretado como sendo folhas unifoliadas ou seja, reduzidas a um único folíolo. Estas folhas apresentam forma muito variável, podendo ser elípticas, espatuladas ou oval-lanceoladas, ligeiramente pubescentes no limbo de ambas as páginas e também nas margens. As características estipulas, sempre presentes nas leguminosas, são longas, de forma triangular e membranáceas. Os pecíolos que ligam as folhas ao caule são bem desenvolvidos e assemelham-se a caules devido à sua forma alongada.
As flores, de 8 a 12 mm, podem ser solitárias mas geralmente dispõem-se em grupos de 2 a 5, sobre pedúnculos de seção quadrangular, duas vezes mais compridos que a folha axilante.
De forma característica, a corola é papilionácea, sendo constituída por 5 pétalas, uma maior e situada na parte superior (o estandarte), duas laterais (as asas) e duas situadas na parte inferior e que estão unidas (a quilha).  A base das pétalas das asas e da quilha estão envoltas entre si formando um tubo onde se encontram encerrados os órgãos reprodutores masculinos e femininos. Os estames são 10, 9 dos quais estão unidos pelos filetes e o restante é livre e mais comprido.
Na generalidade das leguminosas, a diferente morfologia das pétalas corresponde a funções diferenciadas e complementares que resultam numa estratégia altamente especializada no que diz respeito à polinização por insetos, facilitando a polinização cruzada. O estandarte, sendo maior, é o fator de atração visual para os insetos e as asas funcionam como plataforma de aterragem. Quando os polinizadores pousam nas asas, a quilha baixa e em consequência, os estames e estigma ficam expostos ao corpo do inseto, permitindo que se faça a troca de pólenes.
Contudo, no caso desta espécie e outras do mesmo género, estudos realizados por Dominguez & Galiano e publicados pelo Dept.Botânica da Faculdade de Ciências da  Universidade de Sevilha comprovaram que a fecundação se realiza por autogamia (a flor é fecundada pelo seu próprio pólen). Uma vez que a autofecundação é levada a cabo em fases muito precoces do desenvolvimento do botão, antes da abertura da flor, as possibilidades de haver polinização cruzada são muito reduzidas. Esta situação é comum a todas as espécies, subespécies e variedades incluídas no género Scorpiurus.
As peças que formam a corola nascem a partir da base do cálice e estão envolvidas pelas suas 5 sépalas cuja superfície apresenta alguns pelos esparsos. As sépalas estão unidas na parte inferior, formando uma estrutura acampanulada, encimada por 5 dentes desiguais.
Esta espécie floresce e frutifica de abril a junho.
O cálice permanece durante a transformação da flor em fruto
Os frutos característicos das leguminosas são, como sabemos, as vagens e assim acontece também com Scorpiurus muricatus. Contudo, as vagens desta espécie são bastante diferentes das que estamos habituados a ver noutras da mesma família. São longas e cilíndricas, apresentando-se enroladas em espirais irregulares mais ou menos concêntricas e em planos diferentes.

Os frutos são constituídos por segmentos cujas costas exteriores estão cobertas de excrescências geralmente espiniformes e os quais se separam na maturação, cada um deles correspondendo a uma semente em forma de meia-lua. Na maturação estas saliências endurecem,e ficam rijas e espinhosas, o que facilita a dispersão dos frutos pois os espinhos facilmente se agarram ao pelo dos animais, conseguindo ser transportadas para outros locais.
Contudo a morfologia destes frutos é muito variável, podendo ser encontradas variedades que apresentam excrescências arredondadas (veja AQUI) em vez de serem cónicas e delgadas como os espinhos. 
Scorpiurus muricatus pode ser usada como planta de jardim pois faz uma original e bela cobertura de solo, com bonitas flores amarelas e frutos engraçados, embora com o inconveniente de ser temporária, pois se trata de uma planta anual. Os frutos jovens são comestíveis, podendo ser adicionados a saladas. Há quem os frite e sirva como aperitivos em cocktails. Apenas os frutos muito jovens e tenros devem ser usados, caso contrário apenas servem de enfeite.
Scorpiurus muricatus é autóctone de Portugal Continental e arquipélago da Madeira. É inexistente nas ilhas dos Açores.
Distribuição de Scorpiurus muricatus em Portugal Continental
Fonte: Jardim Botânico da UTAD
Scorpiurus muricatus pertence ao género Scorpiurus, o qual é caracterizado pelos seus engraçados frutos enrolados que nem lagartas eriçadas de picos, alegremente ocupadas em exercícios de contorção.Todas elas são espécies mediterrânicas e estendem-se desde o sul da Europa até ao norte de África. As representantes deste pequeno género apresentam um grande polimorfismo, o que tem dado origem a grande controvérsia no que toca à separação e respetiva classificação em espécies, subespécies e variedades. Dependendo dos autores e das interpretações que fizeram dos estudos por eles efetuados, este género pode incluir 4 espécies* (S. vermiculatus, S. muricatus, S. subvillosus, S. sulcatus) ou apenas 2 (S. vermiculatus e S. muricatus), sendo as restantes subespécies ou variedades de S.muricatus.
Embora a classificação de S. vermiculatus não ofereça dúvidas pois está claramente definida e o seu fruto bem identificado, não tem sido possível delimitar, de forma satisfatória, as outras 3 espécies . De notar que estes 3 taxa (Scorpiurus muricatus, Scorpiurus sulcatus e Scorpiurus subvillosus) partilham o mesmo número de cromossomas (2n= 28) enquanto  Scorpiurus vermiculatus tem um número diferente de cromossomas, ou seja 2n =14.
Tournefort (1719) foi o primeiro a organizar este género no qual incluiu 6 espécies sob o nome Scorpioides devido à semelhança da vagem contorcida e segmentada com a cauda de um escorpião (e também porque se julgava que esta planta funcionava como antidoto para a mordedura do referido animal). 
Lineu (1753) ajustou o nome para Scorpiurus (do grego “Skorpios” = escorpiao e “ourá” = cauda) e reduziu o número de espécies para 4*. Contudo, Lineu não estava completamente satisfeito com esta classificação, vindo a demonstrar alguma indecisão numa nota apensa à descrição de Scorpiurus, em que declarou que as dificuldades em delimitar estas espécies tinham a ver com o fator evolutivo e que na sua opinião as espécies Scorpiurus tinham evoluído a partir de uma única e por conseguinte deveriam ser consideradas como uma única espécie.
No pós-Lineu originou-se uma grande confusão, com muitos autores a descreverem novas espécies sobretudo com base na diversa morfologia dos frutos. Posteriormente a situação estabilizou, com outros autores (Brotero, 1804; Fiori, 1900; Thellung, 1912) a considerarem apenas duas espécies Scorpiurus muricatus e Scorpiurus vermiculatus nas quais estariam incluídas as restantes taxa, em categorias infraespecificas, nomeadamente subespécies e variedades.
Desde então têm sido feitos diversos estudos na tentativa de acertar com a taxonomia deste género. Dominguez & Galiano (1974) e (Talavera & Dominguez, 2000) in Flora Iberica, reconhecem como válidas as 4 espécies estabelecidas por Lineu.
Contudo, estudos mais recentes (Mabberley 2008, Sell & Murrell 2009) apenas reconhecem duas espécies: S. muricatus e S. vermiculatus. Todos os outros taxa são agora incluidos por varias entidades, como é o caso da Flora Europaea (Tutin et al., 1968), numa categoria infraespecífica, a maior parte delas classificadas como subespécies ou variedades de S. muricatus. 

Com base no acima exposto parece que este assunto é quase como a “pescadinha de rabo na boca” ou mais apropriadamente dizendo, de cauda retorcidada de escorpião. É que, a questão levantada por Lineu em 1753 continua por resolver e por mais voltas que os autores lhe deem, não há forma de sair do mesmo sitio. Isto é, “no grupo muricatus existem diferenças que, dependendo do peso que lhes é atribuído, levam a que seja considerado um agrupamento de um tipo único ou uma diferenciação em vários tipos”.

Embora a distinção e diferenciação dos diversos taxa só possa ser realizado com algum sucesso a partir de chaves de identificação, deixo aqui algumas das caracteristicas mais óbvias das restantes 3 que estão na base desta controvérsia, em complemento da acima descrita Scorpiurus muricatus, .

Scorpiurus vermiculatus L.
Nomes comuns:
Cornilhão-esponjoso; cornilhão-grosso
Distribuição de Scorpiurus vermiculatus em Portugal Continental
Fonte: Jardim Botânico da UTAD


Scorpiurus vermiculatus é autóctone de Portugal Continental e Madeira mas não está presente no arquipélago dos Açores.
Comparada com as outras espécies do género Scorpiurus, S. vermiculatus é morfologicamente bastante uniforme. Pedúnculos e cálices são muito pubescentes e as flores são geralmente solitárias, de 11 a 14 mm. Os frutos, facilmente identificáveis, são grossos e enrolados em várias espirais concêntricas de forma muito apertada num só plano; estão densamente cobertos de excrescências tuberculadas que são estreitas na base e se dilatam bruscamente no topo, ficando semelhantes a pequenos cogumelos. Na maturação os frutos fragmentam-se em 5 a 8 sementes amareladas ou de forma retangular com arestas arredondadas. 

Veja mais fotos desta espécie  AQUI e fotos das sementes AQUI.

Scorpiurus sulcatus L.

Scorpiurus sulcatus é muito semelhante a S.muricatus, embora com folhas e flores mais pequenas (5 a 8,5 mm) e pedúnculos mais compridos. Os dentes do cálice são geralmente mais curtos que o tubo, ao contrário do que acontece com S. muricatus. A vagem tem enrolamento muito solto, num único plano ou em espiral com 2 voltas, com as costas exteriores sulcadas de espinhos no sentido longitudinal. Sementes são em forma de meia-lua.
Veja fotos desta espécie AQUI.

Scorpiurus subvillosus L.

Scorpiurus subvillosus distingue-se principalmente pelas vagens densamente cobertas de espinhos, enrolando-se de forma irregular formando bolas espinhosas e de aspeto caótico e tridimensional. as vagens fragmentam-se em sementes de cor escura, em forma de meia lua.
Veja fotos do fruto AQUI.

Das 4 espécies acima descritas apenas Scorpiurus subvillosus não se encontra presente no nosso território.

As espécies Scorpiurus são interessantes leguminosas forrageiras. São uma fonte de alimento de grande importância no crescimento e reprodução de animais ruminantes, nomeadamente gado bovino, ovino e caprino, devido à sua riqueza em hidratos de carbono e proteínas.
O alto teor de proteínas das leguminosas deriva da sua capacidade de fixação de nitrogénio da atmosfera, convertendo-o em moléculas proteicas as quais são aproveitadas pela própria planta para seu desenvolvimento e o das plantas em seu redor. Isto acontece devido a uma relação simbiótica com bactérias Rhizobium que se fixam nas raízes das leguminosas através de nodosidades, visíveis a olho nu. Em contrapartida, estas bactérias recebem das plantas os açúcares produzidos durante a fotossíntese. Esta simbiose permite não só a sobrevivência das referidas bactérias mas também que certas espécies possam desenvolver-se, sem problemas, em solos pobres em azoto e matéria orgânica.

Fotos: Caniçal e dunas do Areal Sul/Lourinhã



sábado, 6 de junho de 2015

Melilotus indicus (L.) All.

Nomes comuns:
Anafe-menor; coroa-de-rei;  meliloto-da-índia;
trevo-de-cheiro; trevo-de-namorado; meliloto

Melilotus indicus é uma planta aparentada com os trevos, nativa da região mediterrânica, norte de África, Ásia temperada (Península arábica, Médio Oriente, Cáucaso, Ásia central e China) e Ásia tropical (Índia, Nepal e Paquistão). 
No que diz respeito a Portugal, é nativa de Portugal continental e Madeira e naturalizada nos Açores.
Mapa de distribuição em Portugal continental
Fonte: Flora Digital de Portugal-Jardim Botânico da UTAD
Foi introduzida no norte da Europa e logo se espalhou por quase todas as regiões do mundo de clima temperado quente. Embora prefira substratos alcalinos com boa drenagem, dá-se bem em quase todos os tipos de solo, conseguindo mesmo conviver com alguma salinidade. 
É uma espécie pioneira, arvense ou ruderal que ocorre em jardins, beira das estradas e caminhos, estrumeiras, locais perturbados, dunas marítimas, campos cultivados e habitats ripários (margens de cursos de água). 
Apesar de naturalizada, a sua condição de espécie exótica tem-lhe facilitado o desenvolvimento de hábitos invasores em alguns locais, rapidamente formando densas colónias que abafam as espécies autóctones. No entanto, é também muito útil em várias vertentes: é uma planta muito melífera, uma das preferidas das abelhas; as suas raízes profundas penetram nos solos favorecendo o arejamento dos mesmos, além de que têm a capacidade de fixar o nitrogénio atmosférico transformando-o em nutrientes. Esta planta tem ainda a vantagem de crescer bem em solos moderadamente salinos, onde outras espécies forrageiras não proliferam. 
Melilotus indicus é cultivada como fonte de alimento para o gado, sendo uma espécie apropriada às características climáticas de certos locais, resultando economicamente rentável. Apesar do agradável aroma que liberta, o seu sabor é algo amargo pelo que não é muito apreciada. Por essa razão é geralmente cultivada em mistura com cevada, aveia, centeio ou ervilhaca, não devendo ser colhida antes da floração para minimizar os efeitos do aparecimento de bolor a que é propensa durante o armazenamento. De qualquer modo, Melilotus indicus apresenta um certo grau de toxicidade pelo que se for usada em excesso na alimentação do gado poderá causar problemas de saúde, tais como falta de apetite, distensão abdominal, letargia, paralisia e contaminação do leite. A substância culpada é um metabólito secundário, a cumarina. No entanto, já existem híbridos com baixa concentração deste componente químico. 
O ciclo de vida de Melilotus indicus é geralmente anual mas em alguns casos é bienal, dependendo das condições ambientais. Dos mesmos fatores depende o crescimento da planta cuja altura pode ir dos 10 aos 50 cm.
Os caules, ramificados e algo angulosos, são delgados, eretos ou ascendentes, glabros ou esparsamente pubescentes, sobretudo os mais jovens.
As folhas são alternas e compostas por 3 folíolos de forma oblonga ou obovada, com margens serradas. 
Na base do pecíolo existem duas estípulas, ou seja, dois pequenos apêndices foliares de margem membranosa, alongados e estreitos. Nem todas as plantas possuem estípulas e a sua função primitiva permanece algo obscura. Contudo, tanto a sua presença como a sua ausência são, muitas vezes, um fator fundamental para a identificação das espécies. Veja mais AQUI. 
De notar que os folíolos que compõem as folhas de Melilotus indicus apresentam nastias, ou seja, movimentos que ocorrem em resposta a estímulos ambientais, nomeadamente a luz do sol ou a sua falta. Durante o dia, em resposta à luz solar, os folíolos ficam bem distendidos (fotonastia) para captar o máximo de luz e à noite fecham-se sobre si mesmos (nictinastia) diminuindo a superfície exposta. Estes movimentos resultam da alteração rápida na turgidez das células que se encontram na base dos pecíolos e dos peciólulos, em estruturas mais espessas denominadas pulvinos. O estímulo sobre as células dos pulvinos provoca a libertação dos iões de potássio com a consequente perda de água nas células vizinhas devido ao decréscimo da capacidade de osmose. Desta forma os pulvinos contraem-se e esta reação, ao propagar-se rapidamente, faz com que todas as folhas se dobrem. As folhas abrem-se através do processo inverso. As alterações na turgidez das células são determinadas por agentes químicos cujo equilíbrio controla a contração ou expansão dos pulvinos, num processo ainda não completamente entendido e que tem sido objeto de vários estudos. Esta é uma das características das espécies da família Fabaceae (Leguminosae) a que pertence Melilotus indicus.
As folhas frescas são comestíveis depois de cozinhadas mas quando secas podem ser tóxicas devido à presença da cumarina, substancia química que dá às plantas secas a fragância - que muitos apreciam – do feno acabado de cortar.
As folhas são também repelentes de insetos. Em tempos, quando ainda se usavam colchões de palha, as folhas eram usadas para repelir os percevejos.

As flores são muito pequenas mas numerosas e reúnem-se em elegantes cachos, densos e alongados. Cada pequena flor liga-se a um eixo central por meio de pedicelos curtos. As flores viram-se para baixo após a ântese (período de expansão da flor). 
O cálice, penugento e de cor verde-pálido, forma um tubo campanulado que termina em 5 dentes triangulares, tão compridos quanto o tubo. O comprimento total do cálice corresponde a cerca de metade do comprimento da corola.
A corola, de cor amarela, é formada por cinco pétalas, uma maior e mais comprida e situada na parte superior (o estandarte), duas laterais (as asas) e duas situadas na parte inferior e que estão parcialmente unidas (a quilha). 
Esquema de uma flor papilionácea
Este é um tipo de flor a que se chama papilionácea por ser semelhante a uma borboleta e que é característico de algumas espécies da família a que pertence a Melilotus indicus. As flores são perfeitas, assim classificadas porque dispõem de órgãos reprodutores masculinos e femininos. O androceu é formado por 10 estames com anteras de cor amarela ou alaranjada. Um dos estames é livre mas os restantes nove estão soldados, formando um tubo através do qual passa o estilete que surge a partir do ovário e que é persistente na maturação do fruto. O estigma é diminuto e de cor esverdeada.
Debaixo do ovário existe um recetáculo onde se forma o néctar, o qual é posto à disposição dos polinizadores entre os estames. Apesar deste incentivo aos insetos polinizadores Melilotus indicus geralmente recorre à autopolinização. Contudo é uma planta muito procurada pelas abelhas e com importância económica na produção de mel.
O fruto é uma vagem arredondada e de cor esverdeada que na maturação continua parcialmente envolvida pelo cálice que entretanto se torna rosado. 
Frutos de Melilotus indicus em amadurecimento (pormenor)
Fonte: Wikimedia Commons 
Autor: Forest & Kim Starr
O fruto tem forma ovóide ou quase globosa e a sua superfície apresenta-se ornamentada com vários sulcos que formam um desenho bastante intrincado. No seu interior existe 1 única semente, raramente 2.
Inicialmente as sementes são macias mas acabam por perder a humidade, tornando-se castanhas e duras, temporariamente impermeáveis. Podem manter-se viáveis no solo durante 11 a 50 anos, embora tenham sido encontradas sementes viáveis com 183 anos em San Fernando, no México. As plantas Melilotus indicus produzem uma media de 14,000 sementes por individuo, havendo no entanto plantas grandes que chegam a produzir de 200,000 a 350,000.
Quando maduros os frutos caiem no chão e as sementes acabam por se libertar, dispersando-se por ação do vento ou por animais, muitas vezes sendo ingeridas por pequenas aves.

Esta espécie está incluída no género Melilotus cujas espécies apresentam, por vezes, características morfológicas muito semelhantes. De facto, Melilotus indicus pode facilmente ser confundida com outras espécies do mesmo género e que vivem nos mesmos habitats, especialmente com Melilotus officinalis mas também com Melilotus  sulcatus. Na generalidade as flores deste género são amarelas com exceção de Melilotus albus que tem flores brancas. Existem pequenas diferenças na densidade das inflorescências ou no tamanho das flores mas a melhor forma de distinguir as espécies é através da observação dos frutos maduros.
Esquemas dos frutos maduros, da esquerda para a direita: M. indicus, M. Officinalis, M.sulcatus
Fonte: Flora Iberica
Inicialmente Melilotus indicus foi incluída no grande género Trifolium por Linnaeus em 1753 (Species plantarum) mas foi posteriormente transferida para o género Melilotus pelo botânico italiano Carlo Allioni (Flora Pedemontana 1: 308. 1785)
O nome do género Melilotus vem do grego e quer dizer literalmente “planta leguminosa com mel” referindo-se ao facto de as suas espécies serem muito melíferas – “meli”= mel + “lotos” = planta leguminosa (Munz, Flora So. Calif. 464). O nome da espécie indicus vem do também do grego “indikos” e refere-se à Índia (Jaeger 127)- país onde sempre foi muito cultivada como forrageira.
Este género inclui 21 espécies largamente distribuídas e das quais 10 estão presentes em Portugal continental como autóctones. A maioria destas espécies também estão presentes nos arquipélagos de Açores e Madeira, algumas tendo sido introduzidas, outras sendo nativas (pode conferir os detalhes específicos em Flora-on). 
Melilotus indicus é uma leguminosa, pertencendo à família Fabaceae também denominada Leguminosae, uma das maiores famílias de plantas de flor, incluindo mais de 18,000 espécies agrupadas em cerca de 463 géneros, distribuídas praticamente pelo mundo inteiro. É grande a sua importância económica pois inclui espécies fundamentais na alimentação humana como sejam a soja, o feijão, o amendoim, o grão-de-bico, o tremoço, as ervilhas ou as favas, apenas para mencionar algumas.
Na generalidade, são plantas de hábitos variados podendo ser herbáceas, trepadeiras, arbustos ou árvores. Muitas espécies são também utilizadas como ornamentais, outras têm grande valor comercial ou industrial devido aos produtos que delas podem ser extraídos, nomeadamente o tanino, substância usada na indústria do couro, já para não falar dos corantes, tinturas, colas, vernizes etc.
Uma das características desta família é a faculdade de converter o nitrogénio atmosférico (azoto) em moléculas proteicas as quais são aproveitadas pela própria planta para seu desenvolvimento e o das plantas em seu redor. Isto acontece devido a uma relação simbiótica com bactérias Rhizobium que se fixam nas raízes das leguminosas através de nodosidades, visíveis a olho nu. Em contrapartida, as bactérias recebem das plantas os açúcares produzidos durante a fotossíntese. Esta simbiose permite não só a sobrevivência das referidas bactérias mas também que certas espécies possam desenvolver-se sem problemas em solos pobres em azoto e matéria orgânica.
Tirando partido desta capacidade Melilotus indicus é também usada como adubo verde, processo que consiste  em cultivar leguminosas de crescimento rápido, as quais são cortadas e enterradas no mesmo local antes de florescerem e criarem sementes. Esta prática promove o enriquecimento do solo com azoto e outros nutrientes, além de melhorar a estrutura dos terrenos, protegendo-os da seca e limitando o desenvolvimento das ervas daninhas.

Usos medicinais:
Todas as plantas sintetizam químicos variados, nomeadamente os chamados metabólitos secundários, muitos deles responsáveis por propriedades terapêuticas (veja mais AQUI ).
Melilotus indicus contém cumarina, que é um anticoagulante. A planta também é usada como emoliente, adstringente, laxante e narcótica. 
Entretanto aqui deixamos, mais uma vez, um conselho: qualquer tratamento que leve ao consumo interno das plantas deve ser precedido de aconselhamento apropriado, 

Fotos de Melilotus indicus: Caniçal/Lourinhã.


sexta-feira, 23 de março de 2012

Lathyrus clymenum L.

Nomes vulgares:
Cezirão-das-torres; Chicharão; Chicharão-das-torres; Chicharão-trepador; Cizirão-das-torres; Cisirão-de-torres



A Lathyrus clymenum é uma planta herbácea, do tipo trepadeira e de ciclo anual. Os caules ramificam-se na base e são alados, sem pelos, podendo crescer até aos 90 cm.



As folhas basais são lineares e não tem folíolos; as medias e superiores com 2 a 4 pares de
folíolos estreitos de forma elíptica ou lanceolada, terminam numa gavinha ramificada.

As duas estipulas que se podem ver na base das folhas são lineares ou ovadas.



A estrutura das flores assemelha-se, na forma, a uma borboleta e é característica das Papilionaceae, subfamilia das Fabaceae, à qual pertence a Lathyrus clymenum.


Assim, a corola é formada por 5 pétalas desiguais, dispostas de modo característico e altamente especializado para atrair os insetos polinizadores: a pétala maior chamada estandarte, de cor vermelha, situada em posição superior é, pelo seu tamanho e forma, o foco de atração para os polinizadores; as duas pétalas laterais denominadas asas, de cor lilás, funcionam como pista de aterragem; e as duas inferiores, unidas apenas no ápice, formam a chamada quilha.

A flor possui órgãos de reprodução femininos (carpelo = ovário, estilete e estigma) e masculinos (estames) os quais estão encobertos pelas pétalas que formam a quilha. Quando os insetos pousam nas asas, a quilha baixa e dessa forma é favorecido o contacto do insecto com os estames e o estigma, levando o pólen colado ao corpo.


A planta floresce e frutifica de Março a Julho. Os frutos são vagens com 4 a 7 sementes arredondadas as quais são tóxicas se ingeridas em grande quantidade.


A Lathyrus clymenum distribui-se pelo sul da Europa, Turquia e também pelos territórios da Macaronésia com excepção de Cabo Verde. Em Portugal é muito comum em terrenos baldios, margens de caminhos e pequenos bosques, muitas vezes apoiando-se noutras plantas para melhor trepar.



A espécie Lathyrus clymenum está incluída no género Lathyrus que por sua vez pertence à família das Fabaceae (também denominada Leguminosae), uma das maiores famílias botânicas e cujas espécies estão largamente distribuídas por todos os continentes, com exceção da Antártida. Esta família, que inclui cerca de 730 géneros e mais de 19000 espécies tem como característica comum o fruto em forma de vagem, particularidade que é exclusiva deste grupo.



As Fabaceae/Leguminosae subdividem-se em três subfamílias com características morfológicas muito distintas (geralmente identificáveis através do tipo de flor), sendo que a Faboideae ou Papilionoideae, à qual pertence a Lathyrus clymenum é a que tem maior importância económica a nível mundial pois inclui espécies fundamentais na alimentação humana como sejam a soja, o feijão, o amendoim, o grão-de-bico, o tremoço, as ervilhas ou as favas, apenas para mencionar as mais conhecidas.

Na generalidade, são plantas de hábitos variados podendo ser herbáceas, trepadeiras, arbustos ou árvores. Muitas espécies são também utilizadas como ornamentais, outras têm grande valor comercial ou industrial devido aos produtos que delas podem ser extraídos, nomeadamente o tanino, substância usada na indústria do couro, já para não falar dos corantes, tinturas, colas, vernizes etc.
Uma característica muito importante das leguminosas em geral e das espécies da subfamília Papilionoideae/Faboideae em particular, é o facto de serem capazes de converter o nitrogénio atmosférico (azoto) em moléculas proteicas as quais são aproveitadas pela própria planta para seu desenvolvimento e o das plantas em seu redor. Isto acontece devido a uma relação simbiótica com bactérias dos géneros Bradirhizobium e Rhizobium que se fixam nas raízes das leguminosas através de nodosidades, visíveis a olho nu. Em contrapartida, as bactérias recebem das plantas os açúcares produzidos durante a fotossíntese. Esta simbiose permite não só a sobrevivência das referidas bactérias mas também que espécies de leguminosas possam desenvolver-se sem problemas em solos pobres em azoto e matéria orgânica.

Aconselham as boas práticas ecológicas que se aproveitem os benefícios oferecidos pela natureza pelo que quando as leguminosas são colhidas convém deixar as suas raízes (ricas em nitrogénio) no solo pois vão contribuir para o enriquecer. Aliás, na agricultura moderna há quem prefira utilizar adubos verdes para enriquecer o solo, em detrimento dos adubos químicos. Este processo consiste em cultivar leguminosas de crescimento rápido, as quais são cortadas e enterradas no mesmo local, antes de florescerem e criarem sementes. Esta prática promove o enriquecimento do solo com azoto e outros nutrientes, além de melhorar a estrutura dos terrenos, protegendo-os da seca e limitando o desenvolvimento das ervas daninhas.

Sobre o género Lathyrus e o chícharo:
Ao género Lathyrus, no qual está incluída a espécie Lathyrus clymenum, pertencem cerca de 160 espécies nativas de zonas temperadas das quais 52 são espécies europeias. Algumas são espécies espontâneas mas outras são cultivadas quer para uso ornamental tal como a Lathyrus odoratus (ervilha-de-cheiro) quer para alimentação humana como é o caso da Lathyrus sativus (vulgarmente chamada chícharo), leguminosa muito semelhante ao tremoço, saborosa e muito nutritiva.

A Lathyrus sativus tem sido consumida quer por humanos quer por animais em várias regiões do globo desde tempos imemoriais e continua a ser muito importante em áreas onde impera a seca e a fome pois é uma espécie de fácil propagação e cultivo, podendo tornar-se quase infestante.


O chícharo foi muito consumido em Portugal até meados do século passado, quando a fome grassava no país, principalmente por ser uma fonte de proteínas obtida por bom preço. Embora muito apreciado o chícharo estava relacionado com a pobreza das gentes e à medida que o nível de vida foi melhorando, foi sendo substituído por outros alimentos, numa tentativa para esquecer os tempos de escassez. Entretanto, parece que voltou a saudade do sabor dos chícharos e assim registam-se algumas louváveis tentativas no sentido de recuperar o lugar que lhe pertence no nosso património gastronómico.

Todas as espécies do género Lathyrus são tóxicas. As sementes do chícharo, Lathyrus sativus, contêm toxinas que podem ser as causadoras de uma doença neurodegenerativa que causa paralisia dos membros inferiores, o latirismo, a qual foi detectada em países onde no século passado ocorreu a fome, como por exemplo França, Alemanha e Espanha. Hoje em dia esta doença ainda é registada em países do terceiro mundo onde a fome leva a que as sementes de Lathyrus sativus sejam praticamente a única fonte de proteínas e assim sendo, consumida por longos períodos.

Fotos: Arribas da Praia do Caniçal / Lourinhã