"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





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terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Anethum graveolens L. syn. Peucedanum graveolens (L.) C.B.Clarke.

Nomes comuns: 
Endro; aneto; funcho-bastardo; anega

Anethum graveolens é uma planta aromática muito apreciada e amplamente consumida no mundo inteiro mas principalmente na India, Egito e outros países mediterrânicos e também na Europa central e Escandinávia. Em Portugal é mais conhecida pelo nome vulgar de endro e em muitos países do mundo por dill. É uma espécie de origem asiática (Asia ocidental e India) que se assilvestrou e naturalizou em diversas regiões da Europa, presumivelmente introduzida durante a ocupação dos romanos.
Como consequência da colheita indiscriminada repetida ao longo de séculos, esta espécie está praticamente extinta como planta silvestre. No entanto é extensamente cultivada, quer em jardins e pequenas hortas, quer em grandes plantações cujo objetivo é a comercialização. Felizmente pode ainda ser encontrada, na sua forma espontânea, em alguns locais da Itália e da Península Ibérica. Em Portugal encontra-se por aqui e por ali, crescendo em campos cultivados, vinhas, milharais e beira dos caminhos.
À primeira vista a espécie Anethum graveolens pode ser confundida com o funcho, Foeniculum officinale, espécie mais conhecida entre nós, no entanto a semelhança é apenas aparente. Pertencem ambas à mesma família botânica mas o aroma e sabor são inteiramente diversos e, para além de outras características morfológicas que as diferenciam, o endro é uma espécie de ciclo anual enquanto que o funcho é perene, podendo durar 10 anos ou mais.
Anethum graveolens forma um pequeno arbusto que pode chegar a 1 metro ou mais de altura, dependendo das condições que encontra. É bastante atrativo e fica lindíssimo em qualquer jardim tendo a vantagem, para si próprio e para as outras espécies vizinhas, de atrair muitos insetos que chegam em busca de pólen e néctar. 
Alguns deles são polinizadores, abelhas, vespas, borboletas, visitantes de vai e vem. Outros, moscas-das-flores (sirfídeos) e besouros (coleópteros), nem sempre polinizam mas em contrapartida são agentes de controlo biológico natural de pragas pois são espécies predadoras (geralmente na fase larvar) de afídeos, pulgões, tripes e outras pragas que parasitam e sugam a seiva das plantas. 
Sirfídeos e coleópteros parecem encontrar na Anethum graveolens um sítio de abrigo com boas condições para o acasalamento, com recursos alimentares quer para adultos (pólen e néctar) quer para as larvas. 
Os caules finos, de seção cilíndrica, são ramificados na parte superior; são eretos mas, com o peso das umbelas, acabam por descair em direção ao solo; a superfície é de coloração verde azulada, sem pelos, e apresenta-se coberta de estrias longitudinais. 
No seu interior os caules são ocos, porém preenchidos com uma abundante medula branca.
As folhas inserem-se nas axilas dos nós, de forma alternada mostrando bainhas abertas e de forma cónica  que abraçam os caules.

O contorno do limbo das folhas é triangular ou em forma de losango mas é muitissimo recortado, subdividindo-se 3 ou 4 vezes,  resultando em múltiplos segmentos filiformes.

As minúsculas flores, de cor amarela, são muito numerosas e reúnem-se em grandes inflorescências arredondadas semelhantes a um conjunto de pequenos guarda chuvas abertos. Esta é a característica mais evidente da família botânica Apiaceae (também designada Umbelliferae) a que pertence a espécie Anethum graveolens. A estas inflorescências dá-se o nome de umbelas, origem do nome  Umbelliferae originalmente dado a esta família. As flores têm pedicelos de comprimentos diferentes o que lhes permite ficarem todas à mesma altura. Nesta espécie a inflorescência é composta por varias umbélulas, ou seja umbelas mais pequenas.

Numa umbela o extremo do pedúnculo dilata-se formando um recetáculo no qual se insere um número variável de pedicelos, chamados raios, geralmente de tamanhos aproximados. No caso particular da Anethum graveolens o tamanho dos raios é algo desigual.
As pequenas flores são hermafroditas pois possuem órgãos de reprodução de ambos os sexos. Fenecem rapidamente, começando por perder as pequenas corolas assim como os estames, pois nesta espécie a maturação das estruturas masculinas (estames) precede a maturação das estruturas femininas (estigmas e estiletes). A corola é constituída por 5 pétalas minúsculas, arredondadas, entalhadas no topo e dobradas para trás. As brácteas e as bractéolas estão ausentes nesta espécie. As sépalas estão reduzidas a 5 pequenos dentes situados no topo do ovário. Os estames são 5, de cor amarela. A parte superior do pistilo é formada por dois estilos livres com ápices divergentes os quais engrossam na base formando uma protuberância cónica onde se deposita o néctar e a qual persiste durante a frutificação.
A planta floresce e frutifica de junho a setembro.
Os frutos, produzidos em grande quantidade, são compostos por duas partes as quais se abrem durante a maturidade deixando sair as sementes. 
Os frutos são ovais, achatados e apresentam três nervuras longitudinais proeminentes e duas expansões laterais semelhantes a asas que ajudam na dispersão pelo vento
Anethum graveolens pertence à família Apiaceae ou Umbelliferae (ambos os nomes são admitidos), uma importante família botânica que engloba entre 2500 a 3700 espécies divididas entre 300 a 450 géneros, alguns deles de classificação duvidosa e seguramente sujeitos a revisão. Anethum graveolens está incluída no género Anethum, um pequeníssimo género de apenas 4 espécies mas esteve, durante algum tempo, incluída no género Peucedanum.

O sabor do endro é diferente do funcho ou de qualquer outra aromática, algo entre o amargo e o agradavelmente picante, com um travo muito ténue de anis. O aroma é muito intenso e característico. Folhas e sementes têm sabores ligeiramente diferentes mas são igualmente apreciadas.
As folhas devem ser utilizadas frescas, acabadas de colher ou congeladas pois perdem muito do seu sabor quando secas. Pela mesma razão devem ser adicionadas no final da cozedura ou ser usadas em cru. Pelo contrário as sementes inteiras devem ser incorporadas no início da cozedura pois levam algum tempo a libertar o seu sabor.
O endro é usado para dar sabor a sopas, guisados, massas, ovos, molhos, carnes grelhadas e pratos de peixe. Por exemplo, na Escandinávia o endro é ingrediente essencial no tempero do salmão.
Podem juntar-se as sementes a bolos e ao pão e são também muito usadas na aromatização de pickles aos quais dão um sabor muito característico. As próprias folhas e flores podem ser usadas como pickles. 
As sementes podem ser reduzidas a pó ou ser consumidas inteiras.
O óleo essencial que se obtém através da compressão das folhas é de qualidade inferior ao que se retira das sementes, sendo este de qualidade excelente, de odor muito característico mas agradável. O óleo essencial das folhas é utilizado na indústria dos licores enquanto que o óleo das sementes é utilizado como matéria-prima na confeção de sabonetes, detergentes, cremes, perfumes e loções. 
O endro é um repelente natural das traças pelo que se podem aproveitar as flores secas colocando-as dentro de saquinhos para perfumar e desinfetar armários e gavetas. Moscas e melgas também não gostam do seu cheiro.
Mas as qualidades do endro/Anethum graveolens não ficam por aqui, pois são muitas as propriedades terapêuticas que o levam a ser utilizado como remédio caseiro, para debelar uma quase interminável variedade de afeções. É especialmente eficaz para acalmar cólicas intestinais em bebés, estimula a digestão, cura enjoos, flatulência, azia, insónia, dispepsia, dores de dentes, infeções dos rins, infeções uterinas, problemas oculares, etc.
O endro é também ótimo para clarear a pele e fortalecer as unhas mas uma das qualidades que a tornaram mais preciosa nos tempos da Antiguidade era o de eliminar o mau hálito, uma patologia com implicações afetivas, sociais e até religiosas. Em certas culturas o mau hálito era considerado motivo valido para dissolução do casamento, daí a importância do endro e outras aromáticas em épocas tão remotas. As sementes do endro eram mastigadas ou misturadas com vinho e murta.

Os tratamentos passam pelas infusões das folhas ou das sementes e, desde que não haja exagero na sua ingestão não parece haver problemas de toxicidade. Contudo, convém não iniciar qualquer tratamento sem o conselho adequado para prevenir alguma possível contraindicação. O manuseamento persistente da planta pode causar dermatites e aumentar a sensibilidade da pele às radiações solares.

Anethum graveolens é uma espécie fácil de cultivar, quer no solo ou num vaso, de preferência num local abrigado mas não muito quente. Não suporta transplantes pelo que deve ser semeada no local definitivo. As sementes devem ser colocadas à superfície, (apenas cobertas com uma fina camada de terra) pois necessitam de claridade para germinar. A planta cresce rapidamente pois é de ciclo anual, podendo as sementes ser colhidas cerca de 3 ou 4 meses após a sementeira.

Usos e costumes:

Há milhares de anos que o endro (Anethum graveolens) é utilizado em culinária e em medicina popular. Já era usado pelos antigos egípcios há cerca de 5.000 anos, em xaropes para a tosse e alívio das dores de cabeça. Usavam-na também nos processos de mumificação e na preparação de unguentos e perfumes. 
Foi muito popular entre os gregos que queimavam o óleo extraído das sementes para perfumar o ambiente das suas casas, o que era considerado a maior das extravagâncias mesmo para os mais ricos, tendo em conta o alto preço desta planta. Os gregos também misturavam as folhas do endro no vinho para lhe incrementar o sabor e curavam as feridas dos soldados colocando as sementes sobre elas. 
Esta pratica foi seguida pelos romanos que também juntavam a planta à alimentação dos gladiadores na crença de que isso aumentaria a sua força física. 
Para o povo hebreu o valor comercial desta planta era enorme. O seu consumo foi sujeito a um imposto cobrado pelos romanos, durante a ocupação da Palestina e o dízimo, imposto religioso, era pago com uma porção de endro, entre outras especiarias. Atestando a sua importância existem referências a esta planta no Talmude e também na Bíblia, mais concretamente no Evangelho segundo São Mateus 23, 23:
"Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Vocês dão o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, mas têm negligenciado os preceitos mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Vocês devem praticar estas coisas, sem omitir aquelas.”
Reza ainda a Historia que Carlos Magno servia as sementes nos banquetes aos seus convidados como meio de sanar os soluços resultantes dos excessos no consumo de vinho e comida. 
Na Idade Média a planta foi muito usada, sendo uma das plantas favoritas tanto para fazer feitiços de cariz amoroso como na proteção contra a bruxaria. 
Durante o século XVII era usada com o objetivo de conservar uma boa saúde física e mental e também tinha fama de afrodisíaca. 
Durante os séculos XVII e XVIII, em Inglaterra, as sementes eram consumidas durante os longos serviços religiosos proporcionando algum conforto a adultos e crianças. 
No século seguinte as sementes chegaram a ser usadas como coadjuvantes nas dietas de emagrecimento. 
Hoje em dia o endro é um dos ingredientes característicos da cozinha tradicional de muitos países europeus especificamente em toda a Escandinávia, Rússia, Holanda, Polónia, Bulgária, Alemanha, Grécia e Turquia. Na India e Paquistão as sementes são especialmente valorizadas como digestivas e geralmente servidas no final das refeições, embora a espécie mais cultivada seja a Anethum sowa, cujas sementes são maiores.
Em Portugal o endro é pouco conhecido, não sendo muito utilizado na nossa cozinha tradicional, talvez porque são tantas as aromáticas que temos à disposição. A única exceção que conheço é a Sopa do Espírito Santo, prato típico da ilha de Santa Maria, nos Açores.

Fotos: Serra do Calvo/Lourinhã



sábado, 17 de agosto de 2013

Thapsia villosa L.

Nomes comuns:
Tápsia, Turbit-da-terra

Thapsia villosa é uma planta elegante e vistosa. Bastante comum na região mediterrânica ocidental pode ser encontrada no sul de França, Península Ibérica e norte de África. Coloniza bosques, matagais, taludes, orlas dos campos de cultivo e beira dos caminhos. É característica de solos pobres em nitrogénio e cresce em terrenos expostos ao sol; embora seja indicadora de secura moderada a verdade é que se desenvolve com maior exuberância em solos com um razoável teor de humidade; prefere os solos ácidos mas não desdenha os solos alcalinos.
Thapsia villosa é uma espécie perene cujas partes aéreas secam e morrem após a frutificação, para rebrotar na estação seguinte.
O caule praticamente sem folhas (geralmente reduzidas às bainhas), é ereto, robusto e finamente estriado, chegando a atingir quase 2 metros de altura sempre que se reúnam as condições ideais.
O caule é muito engrossado na base emergindo a partir de uma raiz grossa e alongada, de cor esbranquiçada, a qual se encontra profundamente enterrada no solo. Da raiz brotam também duas ou três grandes folhas, de cor verde escuro que formam uma roseta basal. Estas folhas estão cobertas de pelos em ambas as paginas, tal como sugere o nome da espécie (villosa).


As folhas têm contorno triangular e o limbo é tão profundamente recortado em segmentos de forma oblonga, que estes ficam apenas ligados pela nervura central.
Os segmentos, que podem ser simples ou subdividirem-se 2 ou mesmo 3 vezes, têm margens com pequenos recortes com a ponta curta e aguda mas sem ser rígida; quase sempre as margens dos segmentos são revolutas, ou seja, estão reviradas para a página inferior da folha. A nervura central de cada folha (ráquis), está densamente coberta de pelos sendo a pagina superior de cor verde enquanto a pagina inferior é de um tom acinzentado ou glauco (azulado).
As bainhas das folhas basais são largas e bem desenvolvidas, mostrando o seu interior esbranquiçado, por vezes com laivos de purpura.

 As flores, muito pequenas, são monoclínicas (=hermafroditas) pois possuem órgãos reprodutores femininos (gineceu) e masculinos (androceu), ambos funcionais; do androceu constam 5 estames e o gineceu apresenta estigma com dois estilos. O cálice é constituído por 5 sépalas incipientes e as corolas, com simetria radial, são formadas por igual número de pétalas, de um amarelo intenso.


As flores reúnem-se em inflorescências do tipo umbela em que os pedicelos das várias flores (denominados raios) são longos e aproximadamente do mesmo tamanho; como estão todos inseridos no mesmo ponto do pedúnculo, formam uma estrutura hemisférica semelhante a um chapéu de chuva aberto. De notar que as inflorescências da Thapsia villosa são compostas por pequenas umbelas (umbélulas) que se reúnem para formar umbelas maiores. Graças a esta estratégia, o impacto visual das pequenas flores perante os insetos polinizadores fica muito potenciado.

Geralmente a umbela que floresce na extremidade do caule principal é a maior. Por vezes as umbelas que crescem em ramificações laterais do caule podem gerar apenas flores masculinas, as quais, caso tal aconteça, são estéreis e secam prematuramente. Na Thapsia villosa as umbelas raramente apresentam brácteas e as umbélulas também poucas vezes têm bractéolas. O número dos raios é muito variável podendo ir de 6 a 29 por cada umbela.
A Thapsia villosa floresce a partir de março, sendo visitada por numerosos tipos de insetos atraídos pelas suas grandes inflorescências de cor amarelo brilhante. Em meados de junho já está em plena frutificação, caracteristicamente muito mais cedo que outras espécies da mesma família as quais continuam em flor até muito mais tarde.
Os frutos, maduros em agosto, tomam a forma oblonga sendo formados por duas partes perfeitamente ligadas entre si e que se separam na maturação; cada uma delas está provida de expansões laterais membranosas que ajudam na dispersão pelo vento.

A Thapsia villosa é altamente variável na sua morfologia. Registam-se duas variedades, a T. villosa var. villosa e a T. villosa var. dissecta. A diferença entre as duas variedades está basicamente no tamanho dos segmentos das folhas que, na variedade T.villosa dissecta são mais estreitos e também mais subdivididos. No entanto registam-se formas intermedias pelo que distinguir as duas variedades pode ser bastante complicado.

Thapsia villosa é uma espécie do género Thapsia o qual se inclui na família Apiaceae também denominada Umbelliferae. Esta é uma importante família botânica que engloba entre 2500 a 3700 espécies divididas entre 300 a 450 géneros, alguns deles de classificação duvidosa e seguramente sujeitos a revisão. É uma família de grande importância económica cujas espécies estão amplamente difundidas por todo o mundo com especial destaque para as regiões temperadas do hemisfério norte. Os óleos essenciais libertados por muitas das suas espécies têm especial interesse na medicina. Contudo a grande importância desta família vem do facto de incluir muitas espécies agrícolas, muitas das quais utilizamos na nossa dieta do dia a dia, nomeadamente a salsa Petroselinum crispum, a cenoura Daucus carota, o aipo Apium graveolens, o anis Pimpinella anisum, o endro Anethum graveolens, o funcho Foeniculum vulgare, os coentros Coriandrum sativum e os cominhos Cuminum cyminum, entre tantas outras. Ao mesmo tempo inclui plantas muito venenosas como sejam a cicuta Conium maculatum e o embude Oenanthe crocata.

A Thapsia villosa é uma espécie muito toxica, o que não impediu, em tempos idos, a sua utilização em medicina tradicional, aproveitando as suas propriedades e efeitos muito violentos como purgante e emético, através do ingestão do exsudado da raiz. Na realidade não se sabe muito sobre as propriedades terapêuticas desta planta mas parece que a sua raiz foi muito comercializada beneficiando do facto de ser confundida com a raiz da Ipomoea turpethum, espécie endémica da Índia e que era muito apreciada pelos seus suaves efeitos laxantes. O nome comum da Ipomea turpethum era "turbit", nome pelo qual a Thapsia villosa também ficou conhecida em Portugal.
Entretanto a Thapsia villosa var. villosa está a ser objeto, juntamente com outras espécies do mesmo género, de pesquisa e investigação medica pois, devido as suas características, poderá ser vir a ser útil no tratamento de doenças neurodegenerativas como a doença de Alzheimer e Parkinson.

Fotos: Serra do Calvo/Lourinhã



terça-feira, 23 de agosto de 2011

Eryngium maritimum L

Cardo-marítimo


Eryngium maritimum é uma espécie nativa do continente europeu. É relativamente abundante nas zonas costeiras de Portugal, vivendo na primeira linha dos sistemas dunares, onde as areias são mais instáveis. Pode, no entanto, ser também observada em locais mais recuados, onde as areias estão mais estabilizadas.

Esta planta, com características semelhantes aos cardos (ver aqui), desenvolveu inúmeras adaptações às condições agrestes do seu habitat, em que a proximidade do mar origina amplitudes térmicas que vão do sol escaldante ao frio cortante, luminosidade excessiva, ventos fortes carregados de partículas de sal, escassez de nutrientes e reduzida disponibilidade de água.

Nesta conformidade, o profundo e forte sistema radicular do Erygium maritimum permite-lhe sobreviver soterrado na areia enquanto as suas folhas espinhosas e coriáceas, cobertas por uma camada cerosa, evitam as perdas de água.
O Eryngium maritimum é uma planta herbácea, perene, de aspeto robusto mas relativamente baixa, desenvolvendo-se a partir de uma roseta basal. Os caules, estriados e por vezes com algumas manchas avermelhadas, são ascendentes e ramificados. As folhas, de margens denteado-espinhosas como as do azevinho, estão cobertas por uma cobertura cerosa que lhe dá a característica cor verde-água ou cinzento-azulado e as protege da desidratação e dos efeitos erosivos da areia.

As folhas basais, em forma de leque, têm pecíolo enquanto as caulinares são sésseis (sem pecíolo) e envolvem parcialmente o caule. As nervuras das folhas são bastante nítidas e têm cor esbranquiçada, tal como as margens.


As flores, de cor azul-vivo, são minúsculas e encontram-se agrupadas em capítulos, formando cabeças florais compactas e globosas, muito atrativas para as abelhas e outros insetos.


Cada pequena flor.  que constitui uma cabeça floral, é rodeada por um cálice composto por 5 sépalas estreitas e eretas, maiores que as pétalas.

As cabeças florais estão rodeadas de brácteas largas e espinhosas que se assemelham às folhas.



 Eryngium maritimum floresce e frutifica de maio a setembro. Os frutos são escamosos, oblongos e estão providos de pelos em forma de gancho.

O Eryngium maritimum pertence à família botânica das Umbeliferae/ Apiaceae e ao género Eryngyum o qual inclui cerca de 230 espécies, nativas de prados ou áreas rochosas e costeiras. Muitas das espécies são usadas como plantas ornamentais em jardins, tirando partido da sua folhagem e inflorescências, de cores muito decorativas. É de notar que as plantas deste género não apresentam as inflorescências carateristicas da família das Umbeliferae/ Apiaceae (ver aqui). Isto é, em vez de inflorescências do tipo umbela, semelhantes a um guarda-chuva, as espécies Eryngium apresentam as flores reunidas em capítulos oblongos ou semi-esféricos.
Muitas espécies do género Eryngium são comestíveis além de que, pelas suas reconhecidas propriedades medicinais, têm sido utilizadas desde tempos imemoriais como diurético e anti-inflamatório. Em qualquer dos casos devem ser consumidas com muita precaução e em doses moderadas pois algumas espécies são tóxicas.
Especificamente, o Eryngium maritimum é utilizado na composição de cremes e tratamento de rejuvenescimento da pele o que pode vir a ter como consequência um aumento na procura e recolha de exemplares desta espécie. A planta pode ser cultivada mas parece que perde qualidades, daí a preferência pelas espécies silvestres.
Em alguns países europeus, nomeadamente Reino Unido, Escócia, Espanha e Alemanha esta espécie passou a ter o estatuto de espécie protegida pois já se nota um preocupante enfraquecimento das colónias em certas zonas costeiras e por vezes o seu total desaparecimento. Outra das razões para que tal aconteça prende-se com o facto de as plantas crescerem relativamente perto do mar, justamente no lugar que muitos banhistas preferem para tomar banhos de sol e consequentemente poderem ser danificadas pelas máquinas que limpam as areias das praias. Nesta competição por um pedaço de areia, temo que o Eryngium maritimum não saia a ganhar...

Em Portugal, o Eryngium maritimum continua a ser uma espécie relativamente abundante, não se encontrando ameaçada, pelo que não usufrui de qualquer estatuto de conservação. Apesar disso esta espécie deve ser valorizada e protegida tendo em conta a sua importância na estabilização das dunas frontais ao mar.

Fotos: Praia da Areia Branca - Areal Sul/Lourinhã



quarta-feira, 22 de junho de 2011

Daucus carota L.

Cenoura-brava
Durante os meses de verão esta elegante planta pode ser vista alegrando a paisagem ao longo dos caminhos e em campos não cultivados, não só nas terras do interior mas também perto do mar.
A Daucus carota teve origem na Eurásia e é antepassado da cenoura cultivada, a Daucus carota ssp.sativa, hoje em dia um dos legumes mais populares e consumida no mundo inteiro. Contudo, ao contrário da espécie cultivada, a raiz da cenoura-brava é acastanhada e não é comestível.

A sua raiz é aprumada, fina e exala um odor pouco agradável.
A Daucus carota vulgarmente conhecida como Cenoura-brava, é uma planta herbácea pertencente às Apiaceae, família botânica também chamada Umbelliferae, composta por cerca de 3000 espécies, maioritariamente plantas aromáticas como por exemplo a salsa, o funcho e os coentros.
A Daucus carota é uma planta de envergadura média mas vigorosa podendo atingir de 30 cm a 100cm de altura, crescendo solitária ou em grupos.
 
No nosso país pode encontrar-se na maior parte do território.
A Daucus carota sofre uma serie de mudanças estruturais muito interessantes enquanto cresce, amadurece e forma sementes. Enquanto jovem a planta apresenta caules tubulares e ocos, estriados e cobertos de pelos rijos, eretos ou desenvolvendo-se sobre o solo apenas com a extremidade ascendente, ramificados desde a base ou apenas na sua metade superior.

As folhas, profundamente recortadas, são delgadas e moles, sendo as inferiores de maior tamanho e ligadas ao caule por um pecíolo enquanto que as superiores estão inseridas diretamente no caule. Quando esmagadas as folhas exalam um caraterístico aroma a cenouras frescas.


Esquema de uma umbela simples ou umbélula
As flores, muito pequenas, estão reunidas em pequenas umbelas ou umbélulas, em cuja base se encontram pequenas brácteas ou bractéolas, estreitas e inteiras.


Estas pequenas umbélulas que são numerosas juntam-se numa umbela maior de cerca de 8 cm de largura apresentando uma estrutura semelhante a um chapéu de chuva aberto.

Esquema de uma umbela composta
Esta umbela tem muitos pedúnculos secundários podendo ter até 130 raios nem sempre iguais e que ficam arqueados durante a frutificação. Esta umbela pode ter uma superfície relativamente plana ou ser ligeiramente abaulada no centro. As brácteas que formam o invólucro principal e de cuja axila saem os raios ou ramificações são finamente divididas e muito elegantes, contribuindo largamente para o efeito arquitetural da inflorescência.
As umbelas laterais são geralmente menores, com menor número de raios.
As flores individuais, inicialmente de cor rosada, tornam-se brancas à medida que vão abrindo, com exceção de uma flor central que é de cor púrpura e se destaca perfeitamente entre as outras.
Esta flor central, de cor púrpura, é uma importante característica que ajuda a reconhecer a planta Daucus carota pois está quase sempre presente em todas as plantas desta espécie.
A corola é composta por 5 pétalas muito discretas que apresentam simetria radial excepto as mais externas que desenvolveram lóbulos laterais de maior tamanho, com o fim de se tornarem mais apelativas para os insetos polinizadores. O cálice é formado por 5 sépalas com dentes muito curtos e de formato triangular. O androceu tem 5 estames.

As flores da Daucus carota possuem nectarios pelo que são uma refeição muito apetitosa para muitos insetos, podendo ver-se sempre dezenas deles ocupados a extrair o néctar.

Depois da polinização as umbelas em frutificação e os pedúnculos curvam-se para o interior tomando a forma e o aspeto de um ninho de ave, o qual parece ser muito do agrado dos insetos que o escolhem para aí repousar.
Os frutos são de forma elíptica ou ovoides, de bordos com espinhos em forma de gancho que se prendem a plumagem das aves ou ao pelo dos animais. Numa primeira fase os frutos tomam a cor verde pálido depois gradualmente vão ficando mais escuros. No final do verão a inflorescência começa a secar e os frutos separam-se da planta-mãe.
 Fotos-Caniçal/Lourinhã