"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





terça-feira, 24 de maio de 2016

Cymbalaria muralis P. Gaertn. , B. Mey. & Scherb. subsp. muralis

Nomes comuns:
Cimbalária-dos-muros; ruínas; violetas-de-sala
Cada planta ou flor silvestre, por mais modesta que seja, tem o poder de surpreender e encantar. Entre tantas características possíveis, seja a diferente textura ou formato das folhas, a cor brilhante das pétalas ou o engenho das estratégias de sobrevivência e reprodução, tudo é motivo de fascínio e encantamento, sejam as espécies grandes e vistosas ou pequenas e humildes. Devo confessar que tenho grande predileção pelas flores pequeninas e deleito-me com a perfeição miniatural das suas peças florais, de cores só possíveis na natureza. Também nunca deixa de me surpreender a forma ordenada como as diferentes espécies de ervas se sucedem de forma breve, aproveitando o mesmo pedaço de terra como se fizessem turnos, esperando pacientemente a sua vez de cumprir o objetivo de perpetuar a espécie. Outras há, que procuram habitats difíceis e só nas dificuldades que enfrentam se revelam em todo o seu esplendor miniatural, regalando os sentidos dos mais atentos. É o caso de Cymbalaria muralis, uma belíssima e delicada erva, uma das minhas favoritas.
Cymbalaria muralis é uma espécie rupícola, ou seja, vive quase exclusivamente em paredes e muros, como aliás o seu nome específico indica. Outras plantas rupícolas vivem em rochedos e afloramentos rochosos em campo aberto, mas tal não é o caso desta nossa plantinha. 
Ela prefere, sem sombra de dúvida a proximidade dos humanos pelo que a podemos encontrar sobretudo em decrépitos muros de pedra construídos em redor de campos agrícolas, velhas paredes de tijolo e cimento e até em antigos monumentos históricos (de onde deriva o nome vernáculo “ruína”). 
As raízes desta planta desenvolvem-se nas estreitas, escuras e profundas fissuras das paredes de argamassa, tijolo e cimento ou entre as pedras dos muros e muralhas. Nesses espaços mínimos acumulam-se partículas trazidas pelo vento, as quais vão formando pequenos núcleos de solo com alguns nutrientes e humidade que parecem suficientes às suas parcas necessidades. Em vista das condições de escassez do seu habitat, Cymbalaria muralis evita as áreas mais quentes e secas e locais onde se registem grandes amplitudes térmicas. É por isso que muitas vezes ocorre de forma fragmentada, aproveitando nichos de microclima húmido e suave. Desenvolve-se tanto na meia-sombra como em situações soalheiras, desde que as raízes beneficiem de alguma humidade.
Cymbalaria muralis é uma erva perene, de aspecto algo carnudo e suculento. O seu porte é rasteiro e o crescimento rápido, depressa formando uma massa compacta de folhas sobrepostas. Os longos caules estendem-se horizontalmente e em todas as direções; são finos e frágeis, glabros e lustrosos, frequentemente de cor avermelhada. Nos nós formam-se raízes adventícias que podem enraizar e servir de apoio.
As folhas, no topo de longos pecíolos, são muito bonitas e delicadas, apresentando-se lustrosas e de aspeto carnudo e encerado; dispõem-se nos caules de forma alternada, exceto as inferiores que são opostas; são planas e arredondadas ou em forma de coração, com recortes irregulares formando de 3 a 9 lóbulos desiguais. 
A página superior é verde, mas a inferior toma, frequentemente, tons avermelhados.
As flores surgem solitárias ou aos pares, a partir da axila das folhas.
As 5 pétalas estão unidas formando um tubo cuja base se prolonga de forma cónica e algo arqueada (denominado esporão) e dentro do qual se encontra o néctar. A outra extremidade do tubo abre-se para o exterior formando dois lábios. 
O lábio superior tem 2 pequenos lóbulos de cor violeta. O lábio inferior é mais amplo, tem 3 lóbulos de cor violeta e branca, a meio dos quais surgem duas saliências semelhantes a almofadas as quais se encostam ao lábio superior encerrando a entrada que conduz ao interior da flor, interditando o acesso a polinizadores não autorizados. Estas almofadas, muito vistosas na sua cor amarela e branca constituem uma provável pista de aterragem para os insetos polinizadores, maioritariamente constituídos por abelhas. Os veios mais escuros que se veem no interior dos lábios são guias de néctar que, mais uma vez, facilitam a vida das abelhas, indicando-lhes o caminho direto para o néctar e o pólen.
O cálice consta de 5 sépalas unidas até meio, separando-se depois em 5 segmentos semelhantes, glabros e com margens escariosas.
Cada flor apresenta órgãos reprodutores masculinos e femininos funcionais, podendo autopolinizar-se na falta de insetos adequados à anatomia da flor. Os estames, assim como o estigma, estão escondidos dentro da flor.
De forma geral, a planta floresce desde o inicio da primavera até final do verão.
O fruto é uma cápsula globosa que na maturação fica maior que o cálice. As sementes são pequenas, de cor escura e de forma oval ou redondas; são rugosas, com saliências longitudinais bastante evidentes. A sua superfície rugosa evita que rolem para fora das saliências onde são depositadas.
O aspeto mais interessante desta espécie é o seu comportamento e a estratégia de proteção das sementes. Refiro-me ao facto de esta planta demonstrar fototropismo, não só positivo mas também negativo. “Foto” é luz e “tropismo” é movimento. Fototropismo positivo é o movimento para a luz, que é o que todas as plantas fazem, crescendo em direção ao sol, de modo a deixarem as suas flores mais visíveis aos polinizadores ou vulneráveis ao vento que lhes leva as sementes. Mais raro nas plantas é o fototropismo negativo, isto é, o crescimento para longe da luz. 
Cymbalaria muralis cresce para a luz enquanto está em crescimento e em processo de polinização, mas uma vez completado o processo de fertilização, as sementes em formação tornam-se fototrópicas negativas, evitando a luz, encurvando os pedúnculos e procurando locais escuros, ao seu alcance, onde têm mais hipóteses de encontrar um nicho confortavelmente húmido onde possam germinar. A verdade é que dependendo apenas de um pequeno número disponível de locais seguros para largar as sementes, esta estratégia limita o número de novas plantas. Se por um lado permite a rápida substituição dos indivíduos que chegam ao seu fim de vida, a verdade é que também limita o estabelecimento de novas colónias. 
Contudo, surpreendentemente, estudos revelam que poucas são as sementes encontradas nos nichos, em comparação com o número de cápsulas aí depositadas. Muitas sementes poderão ser levadas pelas formigas ou escaravelhos, mas nunca para muito longe do seu local de origem. Resta saber que estratégias são utilizadas pela planta para enviar as sementes para longe. É de supor que a planta aproveite uma variedade de fatores que de alguma forma potenciem meios secundários de dispersão de longo alcance, embora ainda estejam por identificar.
Ao que se julga, Cymbalaria muralis é originária da Itália, nomeadamente da cordilheira dos Apeninos e região da Ístria (península do mar Adriático que hoje pertence a 3 países: Itália, Croácia e Eslovénia)). Presentemente encontra-se amplamente naturalizada por toda região mediterrânica e pela maioria dos países da Europa central. A forma como se expandiu para tão longe da sua área de diversificação ancestral permanece obscura embora algumas investigações levem a crer que possa ter sido, numa primeira fase, introduzida pelos romanos que a apreciavam muito e cultivavam como planta ornamental e medicinal, tendo-se aclimatado de forma discreta nuns lugares e extinguido noutros. Muitos séculos passados, a planta voltou a estar na moda e também por motivos decorativos foi introduzida ou reintroduzida, conforme o caso, a partir do século XVI, sobretudo nos países do norte europeu. Nesta conformidade, Cymbalaria muralis é considerada um arqueófito no sul da Europa, no pressuposto de que tenha sido introduzida na Antiguidade, enquanto na maioria dos países europeus do norte esteja classificada como neófito por ter sido introduzida depois da data limite ou seja, após o ano de 1500. De notar que as datas de introdução são frequentemente problemáticas em estudos deste tipo devido à falta de registos históricos detalhados. A distinção entre arqueófitos e neófitos é particularmente importante pois está amplamente comprovado que os dois grupos diferem nas relações entre si e o meio ambiente, em resultado dos regimes de seleção e cultivo contrastantes das sociedades antigas e as mais modernas. 
Distribuição de Cymbalaria muralis em Portugal continental.
Fonte: Flora Digital de Portugal UTAD
No que diz respeito a Portugal,  tudo leva a crer que Cymbalaria muralis é um arqueófito no continente e um neófito nos arquipélagos de Açores e Madeira.

Cymbalaria muralis foi também levada para fora da Europa estando naturalizada em muitos dos climas temperados da Terra nomeadamente na Austrália, Nova Zelândia, Américas e África do Sul.
Embora seja uma bela planta, especialmente adequada a jardins de rocha  e a cestos suspensos, não podemos dizer que seja muito conhecida ou utilizada em jardinagem nos dias que correm. Contudo, não só é uma erva muito atrativa como é comestível, sendo rica em vitamina C. As flores e as folhas podem ser incluídas em saladas, embora com moderação. O sabor é ligeiramente acre e picante com algumas semelhanças com os agriões. Ingerida em excesso pode ser prejudicial à saúde, como aliás acontece com muitos alimentos comuns.
No passado, Cymbalaria muralis foi usada como erva medicinal. A infusão das folhas e flores era utilizada como tónica, diurética e antiescorbútica. As folhas frescas eram também colocadas sobre as feridas para promover a rápida cicatrização.

Cymbalaria muralis é uma das 10 espécies que constituem o género Cymbalaria, agora incluído na família Plantaginaceae (após ter sido recentemente transferido da família Scrophulariaceae em resultado de testes filogenéticos). Também o nome do género foi alterado, pois até meados dos anos 60 do século passado as espécies deste género pertenciam ao género Linaria - seção Cymbalaria
O nome Cymbalaria deriva do latim “Cymbalum” ou do grego “Kymbalon” numa referência à semelhança das folhas com os pratos do címbalo, instrumento musical de percurssão.

Fotos de Cymbalaria muralis - Serra do Calvo/Lourinhã


segunda-feira, 25 de abril de 2016

Erica scoparia L.

Erica scoparia e subespécies:
Erica scoparia subsp. scoparia
Erica scoparia - da família Ericaceae e do género Erica - é uma das urzes europeias de maior envergadura. Frequentemente, quando pensamos em urzes, logo as relacionamos com arbustos de pequeno porte, o que de facto acontece com a Calluna vulgaris ou  a Erica cinerea (já anteriormente descritas neste blog), ou ainda com outras espécies também existentes no nosso país nomeadamente do género Erica, como E. tetralix, E. ciliaris, E. umbellata ou E. andevalensis.
Porém, existem outras espécies de urzes que assumem um porte bastante mais avantajado, podendo atingir entre 3 a 7 m de altura, consoante a espécie. Estão neste caso Erica arborea, Erica lusitanica, Erica australis e Erica Scoparia.
Entre as acima mencionadas, Erica scoparia foi a espécie escolhida como tema da entrada de hoje.
Erica scoparia subsp. scoparia
Esta urze forma arbustos eretos e frondosos, de porte generoso e com ramos aprumados e glabros os quais foram, em épocas passadas, muito usados para fazer vassouras. Vem daí o nome específico scoparia que deriva do termo em latim “scopae” que significa escova ou vassoura. A madeira dos troncos mais velhos é muito densa, pelo que constitui um excelente combustível. Foi muito usada para fazer carvão e a sua madeira utilizada para alimentar os fogões de lenha e para aquecer os fornos de cozer o pão. Também dela se fazem pequenos objetos como cachimbos. Na arte do mobiliário decorativo é utilizada na execução de paneis marchetados ou em embutidos.

Erica scoparia vegeta nos mesmos ambientes que Erica arborea com a qual é muitas vezes confundida e da qual se diferencia, sobretudo pelo seu tamanho mais modesto. Em E.scoparia os ramos jovens são glabros mas em E.arborea estão cobertos com densos pelos ramificados ou denticulados. A diferença mais visível reside na floração branca, densa e vistosa de E. arborea, ao contrário de Erica scoparia cuja floração é mais modesta.
Erica arborea - Fonte Wikipedia/ Foto de Xemenendura
De forma geral, Erica scoparia ocorre na zona ocidental do Mediterrâneo (sul da Europa e norte de África) e algumas ilhas da Macaronésia (Açores, Madeira e Canárias). No entanto, esta espécie evoluiu em 4 direções diferentes, formando 4 subespécies, tantas quantos os habitats específicos onde ocorre:
- Subespécie scoparia, ocorre na zona ocidental do Mediterrâneo (sul da Europa e norte de África).
- Subespécie azorica, endémica dos Açores.
- Subespécie maderincola, endémica da Madeira.
- Subespécie platycodon, endémica das Canárias.
Morfologicamente, as subespécies de Erica scoparia são muito semelhantes. As diferenças refletem-se no tamanho das folhas, tamanho e cor das flores, mas sobretudo, no tamanho e forma dos frutos e das sementes.

NOTA:
Na generalidade, subespécies são populações de uma mesma espécie que diferem entre si quanto a determinadas características mas não, ainda, as suficientes para serem consideradas espécies diferentes.
A formação das subespécies ocorre quando acontece um isolamento geográfico de populações de uma mesma espécie, deixando de haver trocas de genes entre elas. Obrigadas a adaptarem-se a diferentes condições ambientais, as populações adquirem características próprias, mais adequadas ao novo habitat, ao mesmo tempo que sofrem mutações que as vão tornando geneticamente diferentes. As subespécies continuam a ter a capacidade de se cruzarem, produzindo descendentes férteis. Este processo demora milhões de anos e a evolução é permanente. Se, e quando, essas alterações genéticas tornarem as subespécies reprodutivamente incompatíveis, ter-se-ão transformado em novas espécies. Ou seja, as subespécies representam uma etapa de transição na formação de novas espécies.

Foi há milhões de anos que as sementes de Erica scoparia chegaram às ilhas da Macaronésia, vindas da bacia mediterrânica. A forma como lá chegaram é ainda pouco conhecida. Contudo, conhecem-se certas rotas ou trilhos, entretanto desaparecidos, e que podem ter permitido que tantas espécies tenham chegado aos arquipélagos de Açores, Madeira e Canárias. Há muito que esses trilhos desapareceram, em virtude das alterações registadas na disposição dos mares e continentes, nomeadamente, a separação da África do norte do sul da Europa, a abertura do Mediterrâneo ao Atlântico através do estreito de Gibraltar, a submersão progressiva de várias ilhas atlânticas que serviam de escala e ainda a desertificação do Sahara, que antes era uma região de florestas. Foram, assim, criadas barreiras geográficas que levaram ao desaparecimento de rotas que durante milhões de anos tinham funcionado como passagem e através das quais, importantes grupos de espécies se vieram a estabelecer nas ilhas atlânticas, não só a partir do Mediterrâneo mas também da África do sul.
Mapa dos territórios incluídos na chamada Macaronésia.
Macaronésia é o nome que designa uma região biogeográfica de particular riqueza botânica que inclui os arquipélagos dos Açores, Madeira, Canárias, Cabo Verde e ainda uma faixa costeira do noroeste de África. Estas regiões apresentam ecossistemas únicos e uma elevada diversidade de espécies e endemismos. A Macaronésia não foi seriamente afetada pelas sucessivas alternâncias climatéricas de grande impacto do período quaternário, pelo que muitas espécies extintas na Europa continental conseguiram sobreviver nos territórios da Macaronésia. Muitas dessas espécies fazem parte do que resta das florestas Laurissilva, recheadas de verdadeiras relíquias.
Uma vez instaladas nos Açores, Madeira e Canárias, as Erica scoparia deixaram de ter contacto com as populações suas ancestrais do sul da Europa. Tão-pouco houve intercâmbio com as populações dos outros arquipélagos. Desta forma, deixou de haver troca de genes pelo que, ao longo de milhares de anos, evoluíram de 4 formas ligeiramente diferentes, tendo dado origem a 4 subespécies. Esta evolução foi condicionada pela necessária adaptação a condições climáticas e recursos nutricionais bastante diferentes. Como diria Darwin a propósito do seu conceito de seleção natural, não são os mais fortes que sobrevivem, mas sim aqueles que melhor sabem adaptar-se.

Erica scoparia subsp. scoparia L.
Nomes comuns:
Urze-das-vassouras; vassoura; urze-durázia; moita-alvarinha.
De forma geral, Erica scoparia subsp.scoparia distribui-se como autóctone pelo sul da Europa (Portugal, Espanha, sul de França e Itália) e África do norte. 
Distribuição de Erica scoparia subsp.scoparia em Portugal continental.
Fonte: Flora Digital de Portugal UTAD
No nosso país, Erica scoparia subespécie scoparia ocorre apenas no território continental. É inexistente nos Açores e Madeira onde está representada pelas subespécies endémicas. 
Esta subespécie pode encontrar-se desde as areias costeiras até 900 m de altitude. Medra em matagais, clareiras e orlas dos bosques onde rivaliza com outras espécies amantes de solos siliciosos mas não excessivamente ácidos, nomeadamente outros tipos de urzes, tojos, estevas, roselhas, giestas e rosmaninhos. Embora suportem alguma seca, desenvolvem-se melhor em substratos com alguma humidade. 
Erica scoparia subsp. scoparia
Os ramos e troncos são eretos e aprumados, de cor castanho-clara com laivos cinzentos, podendo atingir 2 metros de altura, ou mais, nos exemplares mais antigos.
Erica scoparia subsp. scoparia

Erica scoparia subsp. scoparia 

As folhas, por vezes de um verde luminoso, são muito estreitas, com as margens muito recurvadas para a página inferior; são glabras e algo lustrosas, dispondo-se de forma circular nos ramos, em verticilos de 3 ou 4.
Erica scoparia subsp. scoparia 
As flores, de tamanho diminuto, formam cachos longos e densos, ligando-se aos ramos através de pequenos pedúnculos grossos. 
Erica scoparia subsp. scoparia 
As corolas, de cor esverdeada ou amarelada, estão unidas tomando uma forma acampanulada, com bordos profundamente fendidos.
O cálice é formado por 4 sépalas ovadas e glabras.
Erica scoparia subsp. scoparia 
As flores estão equipadas com órgãos reprodutores masculinos e femininos. Os estames e as anteras são 8, mas são mais curtos que as pétalas pelo que estão inclusos dentro da corola. Do ovário emerge um estigma relativamente grande e em forma de disco, o qual toma cor rosada com a maturação.
Erica scoparia subsp. scoparia 
Dependendo das condições atmosféricas esta planta floresce durante a primavera e o verão. Contudo, o período de floração é muito breve e por vezes, nem se dá por ela, pois as flores, por serem de cor esverdeada passam despercebidas por entre as folhas.
Os frutos são cápsulas que se abrem através de 4 valvas.

Erica scoparia subsp. azorica (Hochst. ex Seub.) D. A. Webb
Nomes comuns:
Urze; vassoura; mato; barba-do-mato


Erica scoparia subsp. azorica. Fonte: Portal SIARAM

Esta subespécie de E.scoparia é endémica dos Açores, estando presente em todas as ilhas, ocorrendo desde o nível do mar até aos 2000 m de altitude.
É um arbusto de porte arbóreo que no seu apogeu pode atingir mais de 5 m de altura, embora seja difícil encontrar colónias de espécimes antigos por ser muito utilizada como combustível e para fazer carvão. Encontra-se predominantemente nas encostas rochosas costeiras. A sua presença é de suma importância como reconstrutora florestal, sendo uma das primeiras espécies arbóreas a recolonizar áreas sem vegetação, principalmente acima dos 500 m de altitude.
Esta subespécie está protegida pela Convenção de Berna e pela Directiva Habitats.
Erica scoparia subsp. azorica. Fonte:Portal SIARAM
“Normalmente desenvolvem-se em substrato lávico basáltico pouco evoluído e com forte exposição aos ventos. É um substrato pobre de fraca capacidade de retenção hídrica. A capacidade de colonização de solos lávicos desta Erica levam à possibilidade de se formarem bosques em substratos jovens, provavelmente originando a primeira colonização. A distribuição mundial de ericáceas é designada por "heathlands". Estes geralmente apresentam solos pobres e ácidos. Atualmente, a sua distribuição é restrita, o que se deve à procura da madeira da Erica azorica para obtenção de lenha e carvão. Apesar desta ser uma espécie protegida, ainda se encontram braçadas e pilhas de troncos de Erica em muros junto aos fornos, nas ilhas do Pico e São Jorge”. Fonte (Centro de Ciência de Angra do Heroísmo)
Comunidade pioneira de Erica scoparia subsp. azorica. Fonte: Centro de Ciência de Angra do Heroísmo
Erica scoparia subsp. maderincola D. McClintock
[(sinonimo: Erica platycodon subsp. maderincola (D.C.McClint.) Rivas Mart. & al.] 
Nomes comuns: 
Urze-das-vassouras; urze durázia
Esta subespécie é endémica da ilha da Madeira (rara em Porto Santo), muito comum nas comunidades de substituição nas florestas Laurissilva, sendo uma das espécies mais utilizadas no restauro de áreas ardidas onde aparece associada a Erica arborea, entre muitas outras espécies. É uma planta de altitude, crescendo principalmente acima dos 1000 m nos solos pedregosos das encostas rochosas, resistente ao vento e às amplitudes térmicas.

Erica scoparia subsp. platycodon (Webb & Berthel.) A.Hansen & G.Kunkel
Nome comum : Tejo
Esta subespécie é endémica das Canárias onde cresce em altitude, entre os 800 e os 1100 m, nas encostas mais escarpadas e batidas pelos ventos húmidos dominantes em La Gomera e Tenerife.

Fotos de Erica scoparia subsp. scoparia: Serra do Calvo/Lourinhã


segunda-feira, 11 de abril de 2016

Erica cinerea L.

Nomes comuns:
Urze-roxa; queiró; queiroga; negrela

Conforme o seu nome científico indica, Erica cinerea é uma espécie do género Erica, (família Ericaceae), uma das 10 espécies que representam este género em território português. Estas espécies pertencem ao grupo que vulgarmente designamos por urzes.
As urzes formam arbustos rústicos de folhas finas e flores miúdas e abalonadas que florescem de forma abundante e generosa. Apesar de modestas, ou talvez mesmo por isso, as urzes parecem exercer forte fascínio sobre a maioria de nós. Elas não só nos favorecem com a fragrância e beleza das suas pequenas flores, como também, sendo exemplos de resistência às adversidades, elas evocam, de modo especial, o lado primevo da vida e a estreita comunhão do Homem com a natureza.
Em Portugal as urzes distribuem-se um pouco por todo o território, desde as dunas do litoral até aos 1400 m de altitude, colonizando montes e vales. Associadas a outras comunidades vegetais que partilham os mesmos gostos (estevas, rosmaninhos, tojos, carquejas e sargaços), as urzes surgem em matagais resultantes da degradação da floresta original de carvalhais, nas orlas dos pinhais ou dos eucaliptais. Também aparecem em solos empobrecidos por práticas agrícolas intensivas ou de pastoreio. Geralmente são regiões cujo substrato pobre em nutrientes já não permite o desenvolvimento de outras plantas, mas onde a humidade atmosférica e edáfica se conjugam com os solos ácido-siliciosos, resultantes da erosão de granitos, quartzitos, xistos e gnaisses. De facto, as urzes não medram em solos calcários, necessitando de solos mais ou menos ácidos, consoante a espécie.
Existem diversos tipos de urzes que se distinguem, entre outras características, pela altura que podem atingir, pelo tamanho ou tom mais ou menos rosa das flores (são mais raras as brancas) e ainda pela época do ano em que florescem. Contudo, face à heterogeneidade dos nomes comuns dados às urzes, a única forma segura de as identificar é a nomenclatura científica. Os nomes comuns com que as populações as batizaram geram muita confusão, pois variam de região para região. Não só o mesmo nome comum pode corresponder a espécies diferentes, como dar-se o caso de plantas da mesma espécie terem nomes comuns diferentes, tudo dependendo da localização. Por exemplo, no caso das urzes, nomes comuns como torga, moita, queiró, margariça e outros, tanto se referem à mesma espécie como a espécies diferentes. É por isso que todas as espécies têm nomes científicos e esses, sim, são fiáveis pois são exclusivos e válidos em qualquer parte do mundo.

Em tempos idos, as urzes eram utilizadas para fazer a cama dos animais, encher colchoes, fazer cordas, escovas, vassouras, corantes e medicamentos caseiros. Hoje em dia consome-se o mel de urze, de consistência densa e sabor adstringente e marcante. Algumas espécies possuem propriedades medicinais diuréticas e antisséticas urinárias, como acontece com a presente espécie em estudo.
Distribuição de Erica cinerea em Portugal continental
Fonte: Flora Digital de Portugal - UTAD
Erica cinerea distribui-se pelo oeste e centro da Europa. É nativa de Portugal continental, foi introduzida na Madeira mas é inexistente nos Açores.
Esta é uma espécie perene. Forma um arbusto baixo, ereto e bem proporcionado, podendo crescer até aos 60 cm de altura. 

Os caules jovens são herbáceos e de cor avermelhada enquanto os mais velhos são lenhosos e de cor castanha. Os caules estão cobertos por um indumento de pelos curtos, não glandulares cuja cor clara lhes dá um aspeto acinzentado, significando literalmente “coberto de cinza “e de onde deriva o nome específico “cinerea”.
As folhas são eretas e têm forma linear ou linear-lanceolada com margens que se enrolam sobre si mesmas, curvando-se fortemente para a página inferior. 
As folhas são verdes ou verde-azuladas e são glabras mas as margens estão providas de cílios muito curtos. 
De forma característica as folhas dispõem-se em grupos de 3 em redor dos caules e por vezes, são complementadas por feixes de folhas axilares.
As flores reúnem-se em grupos de número variável na extremidade dos ramos. 
O cálice tem 4 sépalas livres, verdes ou avermelhadas e de forma lanceolada, semelhantes às folhas. A corola é constituída por 4 pétalas de cor rosa ou purpura, as quais se unem para formar uma espécie de sino, ou seja, uma forma globosa subitamente contraída na extremidade.
As flores possuem órgãos reprodutores de ambos os sexos. O androceu é formado por 8 estames que não se veem porque são mais curtos que a corola e na base dos quais se insere o disco nectarífero. Do ovário surge um estigma capitado que emerge pela abertura da corola durante a antese (período de expansão da flor).
A planta floresce durante a primavera e verão.
O fruto é uma cápsula deiscente que se abre por meio de fendas longitudinais libertando as sementes ovóides.
Erica cinerea é rica em néctar e pólen, sendo por isso muito visitada por insetos, embora apenas os insetos equipados com probóscide longo, como é o caso das abelhas meliferas, consigam chegar ao néctar e ao pólen, tendo em conta a forma da corola, dentro da qual estão localizados o disco nectarífero e as anteras.

Saiba mais sobre as urzes AQUI.

Fotos: Serra do Calvo (Lourinhã) e Vila de Rei.