"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





sábado, 7 de junho de 2014

Elymus farctus (Viv.) Runemark ex Melderis + Ammophila arenaria Link

Elymus farctus e Ammophila arenaria: 
espécies pioneiras dos sistemas dunares

As dunas são parte integrante de algumas regiões do nosso litoral, onde uma maior acumulação de areias levou à sua formação. São muralhas que impedem o galgamento das águas do mar, proporcionando uma rápida transição entre o mundo marinho e o continental. Nelas podemos encontrar ambientes complexos formados por uma ampla variedade de ecossistemas.
Elymus farctus e Ammophila arenaria são duas espécies pioneiras na formação das dunas e as suas características tornam-nas imprescindíveis na estabilização e equilíbrio dos sistemas dunares do litoral. Cada uma destas espécies assume funções diferentes mas complementares. Não há outras espécies que as substituam pelo que a sua ausência pode levar à degradação de todo o sistema dunar.

Elymus farctus (Viv.) Runemark ex Melderis
subsp. boreali-atlanticus (Simonet & Guinochet) Melderis
Nomes comuns:
Feno-das-areias; grama-canina-das-areias; grama-francesa-das-areias

Elymus farctus é uma espécie autóctone que podemos encontrar nas areias de praticamente toda a zona arenosa litoral de Portugal continental e arquipélago da Madeira. É, sobretudo, inevitável como espécie pioneira das dunas litorais mostrando grande tolerância a submersões temporárias pela água do mar, quer durante os temporais de inverno quer na época das marés-vivas. De forma geral, distribui-se por todo a costa atlântica europeia desde Portugal até à Escandinávia.

É na parte mais recuada da praia que surgem as primeiras acumulações de areia que vão dar origem às dunas embrionárias, as mais expostas aos ventos fortes e ocasionalmente atingidas pelos salpicos das ondas. Nestas acumulações de areia surgem as primeiras plantas perenes que vão desencadear o processo de evolução do sistema dunar.

A primeira entre todas é a Elymus farctus, gramínea perene de crescimento relativamente rápido que desempenha um papel fundamental durante a acumulação de sedimentos, favorecendo a colonização do espaço adjacente por outras espécies. Para tal, Elymus farctus forma tufos pouco densos junto aos quais se vão acumulando as areias trazidas pelo vento. Estas acumulações de areia vão crescendo e aos poucos vão cobrindo parcialmente a planta. Mas ela não se dá por vencida e para compensar, também ela cresce em altura, evitando sempre o soterramento. As suas raízes nascem a partir dos caules rizomatosos os quais estão implantados a grande profundidade e formam uma massa intrincada de ramificações que dão origem a novos rebentos. 
Os caules são colmos, isto é, são ocos e apresentam nós e entrenós bem visíveis; podem atingir 60 cm acima do nível de areia e são rígidos, delgados e sem pelos.

As folhas, de cor glauca (verde-azulado) e com nervuras proeminentes e paralelas, colocam-se alternadamente nos colmos; têm forma linear, podendo apresentar-se planas ou enroladas longitudinalmente; a página superior da folha é lisa mas toda a face inferior (ou interior, quando enrolada) está provida de estomas, pequeníssimas aberturas que permitem as trocas gasosas entre a planta e o meio ambiente. Os estomas controlam a quantidade de água perdida diariamente, fechando-se ou abrindo conforme as necessidades da planta.

As flores, de tamanho muito reduzido, são polinizadas por ação do vento e cada uma delas está provida de órgãos reprodutores masculinos e femininos (3 estames e 1 estilo com 2 estigmas). São flores muito simplificadas pois uma vez que não necessitam de atrair insetos polinizadores não desperdiçam energias em pétalas ou sépalas, estando estas reduzidas a 2 escamas elípticas e membranosas, as lodículas. 
Os órgãos reprodutores estão protegidos por brácteas as quais também têm papel importante na dispersão da semente: a pálea e a lema rodeiam cada uma das flores e as duas glumas envolvem todo o conjunto da espigueta.
As flores agrupam-se numa espiga direita ou ligeiramente curva formada por espiguetas (espigas secundarias) diretamente implantadas num eixo central (raquis) e comprimidas lateralmente. Cada uma das espiguetas tem 3 a 8 flores dispostas alternadamente em lados opostos da ráquila (eixo da espigueta).


A floração dá-se no início do verão.

Os frutos, tecnicamente denominados cariopses, são pequenos grãos semelhantes ao arroz ou ao trigo.

Ammophila arenaria Link 
subsp. arundinacea H. Lindb.
Nome vulgar: estorno

Uma vez iniciado o processo de retenção das areias arrastadas pelo vento, ação em que Elymus farctus tem papel fundamental, outras espécies surgem nas areias, ainda móveis. A mais importante é sem dúvida a Ammophila arenaria, muitas vezes chamada construtora das dunas devido à sua enorme capacidade de retenção e fixação de areia. Esta espécie desponta quando a duna chega mais ou menos a um metro de altura, protegendo-se assim de possíveis submersões pela água do mar, cujo sal não tolera. É maior que a Elymus farctus e forma tufos mais fortes e densos cuja função principal é fixar as areias, permitindo que a duna, em formação, possa ter estabilidade suficiente para que outras espécies nela possam viver. Enquanto os seus densos tufos cortam a força do vento e dão abrigo e sombra, o seu raizame profundo e intrincado funciona como ancora.

A Ammophila arenaria é uma gramínea perene que pode ir dos 60 aos 120 cm de altura. Os tufos herbáceos formam-se a partir de um sistema de raízes rizomatosas rastejantes e profundas, que podem chegar aos 5 metros de profundidade. O contínuo soterramento parcial da planta não só estimula o crescimento vertical das folhas e caules, com formação de novas raízes adventícias, como é mesmo necessário para evitar o envelhecimento prematuro das folhas.
As raízes desenvolvem-se também paralelamente à superfície, dando origem a novas plantas. Recentemente, alguns estudos demonstraram que as raízes da Ammophila arenaria estabelecem associações com fungos microrrizas, colaboração que lhes permite tirar o máximo proveito dos escassos nutrientes existentes na areia.

Os caules, resistentes e direitos, designam-se por colmos. São os caules característicos das gramíneas, cilíndricos e ocos, formando nós e entrenós os quais passam despercebidos por estarem envolvidos pelas bainhas das folhas.
As folhas são alternas, lineares e rígidas mas com margens suaves, exceto na ponta.
Por vezes, as folhas parecem cilíndricas porque se enrolam longitudinalmente  sobre a página superior, de forma que, tecnicamente, a face exposta é a página inferior (lisa e de cor verde-azulado) enquanto a página superior (com alguns pelos e nervação paralela) fica escondida. Este enrolamento acontece quando é necessário controlar a transpiração e a consequente perda de água.

A Ammophila arenaria floresce de maio a julho. As flores, diminutas, reúnem-se numa inflorescência compacta, ereta e cilíndrica, formada por muitas espiguetas. Estas apresentam uma só flor, fortemente comprimidas lateralmente. 

As pequenas flores estão reduzidas aos órgãos reprodutores masculinos e femininos (3 estames + 1 pistilo com 2 estigmas) e são polinizadas pelo vento. 
Cada uma das flores está protegida por brácteas coriáceas e de forma lanceolada: 2 glumas + 1 pálea + 1 lema.
O fruto é uma cariopse, semelhante a um grão de cereal.


Segunda a Naturdata, a Ammophila arenaria tem duas subespécies: a A. arenaria subsp. arundinacea (sinónimo subsp. australis) que se distribui desde o norte de Portugal até ao Mediterrâneo e a A. arenaria subsp. arenaria que vai do norte de Espanha até ao mar Báltico.
Em tempos idos, as populações costeiras utilizavam as espiguetas dos colmos floridos da Ammophila arenaria e também as suas folhas, para fazer cestos e vassouras, enquanto que dos caules subterrâneos se fabricavam cordas e tapetes. Hoje em dia existem maneiras mais económicas e menos trabalhosas de conseguir os mesmos produtos pelo que a colheita excessiva desta espécie para estes efeitos não vai atrapalhar, por certo, a sua sobrevivência. Ainda assim, os cortes de Ammophila arenaria são passíveis de acontecer além de que outras ameaças podem por em perigo esta espécie insubstituível. O emagrecimento das zonas de praia que se regista na atualidade e a subida do nível do mar colocam a Ammophila arenaria à mercê da água salgada que a pode matar ou debilitar, irremediavelmente. 
Por outro lado regista-se uma sobreutilização das dunas embrionárias pelos banhistas e o pisoteio é excessivo, na tentativa de criar acessos diretos às praias. As obras efetuadas nas zonas costeiras nomeadamente paredões, molhes e pontões, também são responsáveis pelas alterações na dinâmica sedimentar, assim como a circulação de viaturas e a extração de areias.

Elymus farctus e Ammophila arenaria pertencem à família Poaceae (também denominada Gramineae) que compreende mais de 10.000 espécies (agrupadas em 650 géneros) e que estão espalhadas por todos os continentes. No que diz respeito à economia mundial esta família botânica é uma das mais importantes pois inclui muitas espécies de cereais que são a base da alimentação humana, quer por via direta quer através de forragens. Inclui também muitas espécies ornamentais.

Fotos: Dunas da Praia da Areia Branca/Lourinhã



domingo, 25 de maio de 2014

Armeria welwitschii Boiss.

Nomes comuns: 
Erva-divina; raiz-divina; erva-do-curvo

Armeria welwitschii é uma espécie perene que pertence ao género Armeria, um dos 25 géneros que formam a família Plumbaginaceae.

A maioria das espécies deste género é nativa da região mediterrânica havendo algumas espécies que se estendem pelo litoral europeu, mais a norte. É um género de grande dificuldade taxonómica, rico em espécies e subespécies, o que parece dever-se à facilidade com que algumas destas espécies hibridam naturalmente entre si. As Armeria colonizam as areias das dunas e as arribas rochosas onde as condições climáticas são bastante adversas, sujeitas aos ventos marítimos carregados de sal. Para tal desenvolveram características morfológicas e fisiológicas que as tornam resistentes ao sol intenso, à escassez de água, à falta de nutrientes, às tempestades de inverno, e aos ventos dissecantes de verão.

Para diminuir a transpiração estas espécies possuem raízes profundas para captar água em grande profundidade e as suas folhas, de reduzidas dimensões (para minimizar as perdas de agua através da transpiração), estão dispostas em forma de bola, o que as ajuda a resistir aos ventos fortes.
Segundo a Sociedade Portuguesa de Botânica, através do portal Flora-on, em Portugal existem 22 espécies autóctones, sendo que 9 espécies são endémicas de regiões específicas do nosso pais e muitas das restantes endémicas da Península Ibérica. Veja AQUI
De notar a espécie Armeria berlengensis que é endémica das ilhas Berlengas, bem perto da Lourinhã.
A espécie Armeria welwitschii é um endemismo da faixa litoral que vai do Cabo Mondego até Cascais. Segundo a Flora Ibérica esta espécie foi provavelmente originada por hibridação da Armeria pungens com Armeria berlengensis (espécie acima referida).
Depois de secas as flores assumem uma textura semelhante ao do papel e permanecem na flor durante muito tempo, protegendo os pequenos frutos enquanto se formam e amadurecem.
Armeria welwitshii forma um pequeno arbusto que pode chegar aos 40 cm de altura. Tem base lenhosa e ramificada, produzindo novos caules todos os anos, junto ao colo da raiz.
As folhas são todas basilares, simples, eretas e rígidas, lineares, escavadas longitudinalmente em forma de canal estreito e recurvadas para fora.

As inflorescências formam-se no ápice de longos escapos florais, eretos e avermelhados, constituindo capítulos densos em que múltiplas pequenas flores se apertam. 

O conjunto das flores de cada inflorescência é rodeado e protegido por um invólucro formado por 10 a 14 brácteas, longas e de cor acastanhada, em que as exteriores se sobrepõem às internas. De notar que nas espécies do género Armeria a morfologia das brácteas é muito importante para a diferenciação e identificação das espécies.

Cada uma das pequenas flores que formam o capítulo tem cinco pétalas afuniladas que exibem uma coloração rosada. São flores perfeitas, ou seja, estão providas de órgãos reprodutores masculinos e femininos. São polinizadas por insetos e florescem desde o fim do inverno até ao verão.

Fotos - Dunas do Areal Sul / Areia Branca - Lourinhã




terça-feira, 20 de maio de 2014

Ranunculus muricatus L.

Nomes comuns:
Bugalhó; Ranúnculo-de-pontas; Botões-de-ouro 

Ranunculus muricatus é uma planta silvestre cientificamente designada por terófito, o que quer dizer que tem um ciclo de vida anual pois nasce a partir de uma semente, floresce e frutifica, tudo no espaço de alguns meses. 

É nativa do sul da Europa, oeste asiático e norte de África mas foi introduzida noutros continentes, estando agora naturalizada em regiões de clima suave e temperado da América do norte e Austrália. É frequente em quase todo o nosso país, sendo uma espécie espontânea em Portugal Continental e Madeira e introduzida nos Açores. É uma espécie característica de terrenos húmidos ou mesmo encharcados pelo que podemos procura-la nas margens dos rios e ribeiras, em lameiros, locais pantanosos e na generalidade dos locais húmidos, cultivados ou de pousio.

Floresce no final do inverno e início da primavera, formando colónias, por vezes extensas. Quando germinam nos pastos podem tornar-se perigosas para o gado pois são toxicas podendo provocar doenças irreversíveis e até a morte. Contudo esta planta tem um sabor amargo, o que é uma espécie de aviso, pelo que o gado a evita sempre que tem outras plantas para comer.
A raiz é fasciculada
Os caules ramificam-se de forma desordenada a partir de uma roseta de folhas rentes ao solo; podem apresentar habito prostrado ou ascendente, neste caso desenvolvendo uma pequena extensão no sentido horizontal e só depois assumindo posição vertical; são de cor verde podendo apresentar alguns pelos esparsos e são cilíndricos, vigorosos e de aspeto rígido apesar de serem ocos; dividem-se em segmentos alongados muitas vezes desprovidos de folhas e com raízes adventícias.

As folhas são semicirculares ou em forma de rim mas dividem-se em três segmentos, os quais apresentam margens com recortes irregulares arredondados e convexos; as folhas caulinares são mais profundamente divididas e mais pequenas do que as folhas basais; geralmente têm longos pecíolos, os quais as ligam aos caules; dispõem-se de forma alternada nos caules.

As flores, com diâmetro entre 1 e 2 cm, são solitárias e colocam-se no topo dos caules.

Possuem cinco pétalas de forma obovada ou elíptica, amarelas e de aspeto encerado e excecionalmente lustroso. Isto deve-se a uma camada de células refletoras existentes por baixo das células superficiais das pétalas. Esta parece ser uma estratégia para tornar as pequenas flores mais visíveis e atraentes para os insetos.
Cada pétala está provida de uma pequeníssima bolsa situada na sua base que funciona como reservatório de néctar o qual é produzido com o intuito de atrair os insetos polinizadores. Abelhas, vespas e moscas são agentes indispensáveis para que se concretize a polinização cruzada: cada inseto que pousa no centro da flor para se alimentar leva no seu corpo o pólen que será depositado numa outra flor, pelo mesmo processo.

Por baixo das pétalas, coloca-se o cálice, formado por cinco sépalas cuja função primordial é a proteção do botão floral, cobrindo-o enquanto este está em desenvolvimento. As sépalas são verdes, algo peludas e abrem ao mesmo tempo que as pétalas, ficando o seu ápice curvado para baixo, num ângulo superior a 90º. Nesta espécie as sépalas caem, uma vez terminada a sua função.
No centro da flor encontramos os órgãos reprodutivos, rodeados pelas pétalas: bem no centro os pistilos verdes e à sua volta um anel de estames amarelos. Os estames (órgãos masculinos) e os pistilos ou carpelos (órgãos femininos) são muito numerosos e bem visíveis. Cada um dos estames é formado por um filamento coroado pela antera, pequeno saco onde está depositado o pólen. Cada pistilo é constituído por uma estrutura basal dilatada (ovário) e uma outra alongada (estilo) cujo ápice (estigma) é coberto por uma substancia pegajosa ao qual aderem os grãos de pólen; o estigma recolhe o pólen, o qual é conduzido através do estilo até ao ovário. Por sua vez o ovário tem como tarefa o desenvolvimento e maturação do fruto, após a fecundação dos óvulos. 

Os pistilos/carpelos do Ranunculus muricatus transformam-se em fruto sem mudar de forma ou aparência, apenas aumentando de tamanho. Assim, os pequenos frutos, tecnicamente designados por aquénios, permanecem apertados uns contra os outros formando um fruto esférico e espinhoso. Estes aquénios são achatados e têm pontas rígidas e curvas, aguçadas e compridas. Cada um deles comporta uma semente grudada à sua parede. São estes espinhos que dão o nome à espécie pois muricatus significa “com espinhos”.

Enquanto fresca, esta planta é tóxica também para nós humanos mas perde alguma da sua toxicidade quando é seca ou sujeita a cozedura. Em medicina popular tem fama de ter propriedades febrífugas e diuréticas. Utiliza-se sob a forma de infusões. Há que ter cuidado com manipulação de plantas frescas pois o seu suco causa bolhas na pele.

O género botânico Ranunculus:
Ranunculus muricatus pertence ao género Ranunculus o qual engloba cerca de 250 espécies. Segundo a Sociedade Portuguesa de Botânica através do portal Flora-on, 34 dessas espécies silvestres crescem de forma espontânea em Portugal. Veja AQUI.
Os ranúnculos silvestres têm pequenas flores delicadas e muito vistosas, amarelas ou brancas com o centro amarelo. Os ingleses optaram por lhe darem o nome comum de buttercup (copo-de-manteiga) e nos países anglo-saxónicos as crianças ainda seguem o jogo ancestral de, em dias de sol, colocar as flores amarelas dos ranúnculos debaixo do queixo do parceiro e aí observarem o seu reflexo.
O extraordinário brilho que apresentam as flores amarelas dos ranúnculos tem sido alvo de estudos desde há mais de um século. Os cientistas demonstraram que a cor refletida é amarela devido à absorção das cores na região azul-verde do espetro devido ao pigmento carotenoide existente nas pétalas. À medida que a luz azul-verde é absorvida, a luz nas outras regiões espetrais (neste caso, em primeiro lugar o amarelo) é refletida. Por outro lado também se sabe que a camada epidérmica das pétalas é composta por células muito planas e uma almofada de ar, proporcionando uma reflexão intensa semelhante à de um espelho.
Também foi comprovado que os ranúnculos amarelos refletem uma quantidade significativa de luz ultravioleta. Como muitos polinizadores têm olhos sensíveis ao UV esta situação proporciona-lhes uma visão única sobre estas flores. Muitos fatores influenciam a relação entre as flores e os polinizadores como por exemplo o odor e a temperatura mas o aspeto visual das flores é um dos fatores mais importantes. Por isso elas investem no aspeto atraente das suas pétalas desenvolvendo cores vibrantes e guias de néctar (linhas em cor mais clara ou mais escura existentes em certas flores que indicam aos insetos o caminho para o centro da flor onde se localizam o néctar e os órgãos reprodutivos). O próprio brilho é uma pista adicional pois pode imitar gotas de néctar nas pétalas, tornando a flor mais apetecível.
O nome do género Ranunculus deriva do latim, da contração da palavra “rana”(rã) com “ulus”(pequena), numa manifesta alusão ao gosto pela humidade característico destas plantas. Ranunculus distribui-se por todo o mundo mas principalmente em zonas húmidas no hemisfério norte de clima temperado.
Os ranúnculos silvestres podem perfeitamente ser cultivados como ornamentais, o mesmo acontecendo com qualquer planta de crescimento espontâneo, as chamadas ervas daninhas. Na realidade se se gostar de uma planta e a levarmos para o jardim ela deixa de ser daninha pois está no lugar certo. Do mesmo modo, uma planta-cultivar comprada no viveiro pode tornar-se inconveniente. É tudo uma questão de gosto pessoal e algumas experiências. Na realidade um jardim é um conjunto de seres vivos aos quais devemos dispensar respeito dando-lhes atenção e cuidados. Um jardim bonito nunca é um acaso, é sempre o resultado de muito amor e trabalho mas quanta satisfação nos traz !!!

Ranunculus asiaticus - ornamentais
Existem alguns cultivares ornamentais os quais apresentam flores de bom tamanho, dobradas (com varias filas de pétalas), em varias tonalidades de roxo, vermelho, rosa, laranja, amarelo e branco. São perenes, criadas a partir de um rizoma geralmente à venda no comércio especializado, em meados de setembro. Podem ser cultivados em canteiros ou vasos e florescem no início da primavera.

A família botânica Ranunculaceae:
Ranunculus é um dos 50 géneros incluídos na família Ranunculaceae, englobando cerca de 2000 espécies.
Esta família carateriza-se pela sua simplicidade do ponto de vista evolutivo pois as espécies nela incluídas mantiveram as suas características ancestrais. As flores das plantas desta família apresentam numerosos estames e pistilos os quais ainda estão implantados em espiral no recetaculo e as flores são simples, isto é, todas as partes florais são independentes umas das outras: pétalas, sépalas e os numerosos estames e pistilos estão separados uns dos outros. Plantas mais evoluídas, incluídas noutras famílias, há muito que reduziram o número de peças florais, algumas delas apresentando-se fundidas.
As espécies desta família distribuem-se pelo mundo inteiro especialmente pelas zonas temperadas e também nos trópicos, em zonas de maior altitude. Algumas espécies são cultivadas como ornamentais, como é o caso das Aconitum, Aquilegia, Caltha, Clematis, Delphinium, Helleborus e Nigella, entre outras. Na generalidade são plantas com concentrações apreciáveis de alcaloides tóxicos, sendo que as plantas do género Aconitum são consideradas as mais venenosas da Europa.
Seguem-se algumas fotos exemplificativas dos géneros atrás mencionados:

Foto de Rudiger Kratz, St.Ingebert.
 Fonte: Wikimedia Commons
Foto de Arne Nordmann. Fonte: Wikimedia commons
Planta aquática, no meu jardim. Foto de Flores do Areal.
Foto de Kenpei - Fonte Wikimedia commons
Planta trepadeira, no meu jardim. Foto de Flores do Areal
Fotos de Ranunculus muricatus: Serra do Calvo e Caniçal / Lourinhã


sexta-feira, 25 de abril de 2014

Quercus coccifera L. subsp. coccifera

Nomes comuns:
Carrasco; carvalho-dos-quermes; carrasco-galego;
carrasqueiro; carrasquinha; verdadeiro-carrasco

Quercus coccifera é um arbusto de folhas persistentes originário do sul da Europa e que cresce de forma espontânea em toda a região mediterrânica. É uma espécie de crescimento lento que pode atingir os 3 metros de altura, ou mesmo mais. 
Apesar da sua envergadura é considerada um arbusto pois não tem apenas um tronco principal como acontece com as árvores, antes apresenta vários troncos semelhantes que nascem à altura do solo. Estes são numerosos, ascendentes, muito ramificados e tortuosos, curvando-se numa e noutra direção. 
Cobertos de folhas, os ramos formam uma massa densa e intrincada que serve de refúgio a pequenos mamíferos tais como coelhos e lebres e até aves, nomeadamente perdizes, que aproveitam para aí fazerem os seus ninhos, com toda a privacidade. É, pois, uma espécie importante para a conservação da biodiversidade.
Quercus coccifera pertence à família Fagaceae que inclui cerca de 1000 espécies entre arbustos e arvores, distribuídas pelas zonas temperadas do hemisfério norte e agrupadas em 8 géneros, entre os quais o género Quercus no qual se enquadra esta espécie. O género Quercus (carvalhos) inclui cerca de 600 espécies das quais 9 são de crescimento espontâneo em Portugal Continental, nomeadamente o sobreiro, a azinheira, o carvalho-cerquinho, carvalho-negral e carvalho-roble, entre outras.
Sendo uma espécie arbustiva a Quercus coccifera está melhor adaptada à contingência de fogos do que as espécies arbóreas. Logo após a extinção dos fogos, novos ramos rebentam vigorosamente, graças ao seu enraizamento profundo. O mesmo acontece em casos de fogos sucessivos, tornando-se, nos primeiros anos após um fogo, numa espécie dominante nas regiões onde está instalada,  aproveitando o espaço deixado livre por outras espécies mais sensíveis.
Cresce em todos os tipos de solo mas adapta-se especialmente bem aos terrenos calcários, secos e pedregosos, em locais expostos ao sol. É uma espécie muito resistente cujas características morfológicas lhe permitem suportar os verões secos e por vezes escaldantes tão característicos do clima mediterrânico. Também a podemos ver em arribas expostas aos ventos do litoral os quais, no entanto, lhe restringem o crescimento. 
Distribuição em Portugal Continental
 Fonte: Jardim Botânico UTAD
É comum no centro e sul de Portugal crescendo em baldios e encostas sendo a sua expansão favorecida pela degradação de azinhais e sobreirais e outras quercíneas. 
As folhas, de pecíolo curto, apresentam forma oblonga ou obovada e as margens são dentadas e espinhosas; são muito lustrosas e brilhantes, de aspeto coriáceo e de cor verde-escuro na página superior e amareladas na inferior.
Esta é uma espécie monoica, ou seja, na mesma planta coexistem flores masculinas e flores femininas, separadas. As flores masculinas, muito abundantes, dispõem-se em espigas alongadas e pendentes enquanto as femininas, em menor numero, são solitárias ou se reúnem aos pares nas axilas das folhas.
Este arbusto floresce durante os meses de abril e maio mas só frutifica em agosto do ano seguinte. Os 18 meses que medeiam entre a polinização e a maturação do fruto são de “trabalho” e esforço energético pois há que processar a transformação de flores diminutas em frutos comparativamente grandes.
Os frutos são glandes, vulgarmente chamados bolotas, comestíveis e bem característicos das espécies do género Quercus. A bolota, de forma oval e de cor castanha quando madura, é globosa e termina em ponta rígida; está inserida numa cúpula hemisférica de cor castanho-claro que cobre pelo menos metade da parte carnuda. Esta cúpula liga-se ao ramo por meio de um pedúnculo curto e está eriçada de escamas imbricadas, salientes e quase espinhosas. As bolotas de Querqus coccifera são mais globosas que as das outras quercíneas mas são também as mais amargas pelo que poucas vezes terão sido consumidas pelas populações ou utilizadas na alimentação de animais domésticos. Ainda assim serão certamente apreciadas pela fauna silvestre que, pouco habituada a luxos, se contenta com o que a natureza põe ao seu alcance.
Característico do género Quercus e muito especialmente da Quercus coccifera é o aparecimento de galhas (também designadas por bugalhos) nas folhas ou nos ramos. As galhas apresentam-se como pequenas excrescências de forma mais ou menos esférica e que à primeira vista parecem frutos. As galhas resultam das picadas de certo tipo de insetos que ocasionam uma reação que leva ao espessamento dos tecidos criando assim, um espaço que funciona como casulo. É nesse espaço que o inseto deposita os seus ovos e as larvas se desenvolvem, parasitando a planta e aproveitando-se dos nutrientes que retiram da galha.
No caso do Quercus coccifera as galhas são provocadas pelo inseto do género Kermes, Kermococcus vermilio. As galhas são vermelhas e desenvolvem-se durante o inverno, principalmente em anos mais húmidos; inicialmente parecem flores, depois vão tomando a forma arredondada, ficando esponjosas por dentro e duras por fora. Estas galhas foram, em tempos idos, muito utilizadas para obter tinta de cor escarlate ou carmim usada para muitos fins, desde as artes ao tingimento de têxteis. Pela dificuldade em obter esta cor de outra forma o corante de Kermes, também chamado grã-de-carrasco, teve no passado grande valor comercial em Portugal e noutros países do Mediterrâneo ocidental que o exportavam para o norte da Europa. O inseto em causa pertence à família Coccidae de onde deriva o nome científico Coccifera que identifica a espécie Quercus coccifera.

O Instituto Nacional de Recursos Biológicos publicou um boletim com algumas informações interessantes sobre este assunto o qual começa assim: “Kermes vermilio Planchon, conhecido como grã-dos-tintureiros ou grã-de-carrasco, é um inseto do grupo das cochonilhas, que foi utilizado em tinturaria, para dar a cor carmesim a tecidos valiosos, fabricados desde a antiguidade clássica em toda a Europa, principalmente na zona mediterrânica. Em Portugal era vulgar na Arrábida e no Barrocal algarvio, com grandes populações, que permitiram a sua exploração comercial, tendo sido exportado, como matéria corante preciosa, para muitos centros têxteis europeus. Hoje é raríssimo, não só em Portugal, sendo uma espécie em extinção, mas também noutras zonas onde antes era abundante.” … Para ler mais, clique AQUI

Em certas regiões de Portugal a produção do corante kermes poderá ter contribuído para a manutenção de algumas florestas de quercíneas, nomeadamente no Parque Natural da Arrábida. Na realidade muitas foram as florestas mediterrânicas que com as suas populações de carvalhos desapareceram para sempre devido à desflorestação desenfreada não só para aproveitamento das madeiras mas também para obter novos campos agrícolas. 


NOTA À MARGEM:
O corante quermes caiu em desuso com a introdução na Europa do corante de cochonilha ou corante carmim, importado do México durante o período colonial e que era dez vezes mais rentável. O corante de cochonilha era transacionado pelos Maias, tal como tinha sido feito pelos Aztecas e possuía grande valor comercial na América do Sul. Teve muito sucesso na Europa onde passou a ser consumido em larga escala. Este corante natural perdeu a sua importância com a descoberta dos corantes sintéticos, no seculo XIX. Contudo mais recentemente o corante de cochonilha voltou a ser comercialmente viável, por ser natural ao contrário dos corantes artificiais que poderão ser tóxicos ou cancerígenos. Este corante, denominado E-120, é usado para dar cor vermelha ou rosa a grande variedade de alimentos, doces ou salgados, nomeadamente gelados, iogurtes, gelatinas, salsichas entre outros. É também usado em produtos farmacêuticos e de cosmética. O corante cochonilha obtém-se a partir do inseto cochonilha (Dactylopius coccus), criado em catos do género Opuntia, no México, Peru, Bolivia, Chile e ilhas Canárias. Para mais detalhes veja AQUI.

Resta acrescentar que o nome cochonilha se aplica a diversos insetos que se alimentam da seiva das plantas, podendo mata-las se não forem eliminados. Quase todos nós já a tivemos nas nossas plantas ornamentais, numa altura ou outra. As cochonilhas assumem diversos aspetos, desde a aparência de pequenas lapas acastanhadas ou pequenas ostras brancas até aos pequenos farrapos semelhantes a algodão. Uma coisa têm em comum: quando esmagadas todas libertam um líquido vermelho, o acido carmínico, o qual é produzido como defesa contra os predadores.  

A Floresta mediterrânica em Portugal
FONTE:  SPEA = Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves

“Mais de metade da floresta original do nosso planeta já foi destruída. As causas são diversas, mas destacam-se as que se devem a ações diretas do Homem como os incêndios, a desflorestação para plantações e construção de cidades, as pragas e doenças e também a introdução de espécies provenientes de diferentes habitats, as chamadas espécies invasoras. A poluição atmosférica e as alterações climáticas têm também impacto no desaparecimento das florestas, causando secas, e contribuindo para o aumento dos incêndios. Os cenários futuros não são animadores e prevê-se que simultaneamente aos períodos de seca e aumento das temperaturas, haja um aumento das tempestades e períodos de chuva intensa.
As florestas são uma fonte de riqueza que, quando bem gerida, pode tornar-se inesgotável. Das florestas o homem pode retirar a madeira para fazer mobiliário e papel, carvão, cortiça, resina, cogumelos, frutos silvestres, mel, entre outros. As florestas protegem ainda os solos da erosão, armazenam carbono e purificam o ar e água e regulam os sistemas hidrológicos através do controlo dos caudais.
O ecoturismo é também uma atividade económica em franco crescimento. Atividades como a observação de aves ou mesmo as caminhadas, são sinónimo de bons momentos passados em harmonia com a natureza, que demonstram bem que conservação e turismo podem andar de mãos dadas.
Montados e florestas de sobreiro, azinheira e carvalhos (quercíneas) de Portugal Continental são fontes de biodiversidade. São habitats que sofrem um grau variável de intervenção humana, que vai desde a extração da cortiça até ao uso múltiplo silvícola, agropecuário, apícola, cinegético e turístico. São um exemplo paradigmático de uma exploração florestal múltipla, sustentável, de grande importância socioeconómica, cultural e ecológica. A importância ecológica reside no facto destas florestas de sobro e carvalhos funcionarem como barreiras contra a desertificação do solo e contra os incêndios florestais.
Nas florestas de quercíneas foram catalogadas mais de 700 espécies de plantas, incluindo endemismos ibéricos, como a Peónia (Paeonia broteroi)  e o Rosmaninho (Lavandula stoechas luisieri)  . Ocorrem 24 espécies de répteis e anfíbios e 160 espécies de aves, das quais mais de 100 nidificam. Ocorrem também 37 espécies de mamíferos, de onde podemos destacar o Gato-bravo (Felix sylvestris), ameaçado de extinção em toda a Europa, o Ratinho-de-Cabrera (Microtus cabrerae) e o Lince-ibérico (Lynx pardina), ambos endemismos ibéricos. Esta última espécie é mesmo o felídeo mais ameaçado do mundo, existindo atualmente menos de 120 indivíduos em Portugal e Espanha.
As aves são indicadores precisos do estado do ambiente nos habitats e ecossistemas, porque estão posicionadas no topo das cadeias alimentares, porque são muito conspícuas e ocorrem em vastas áreas. Nestes habitats florestais ocorrem espécies ameaçadas de extinção, como a Cegonha-preta (Ciconia nigra), a Águia-imperial-ibérica (Aquila adalberti)  e a Águia-perdigueira (Hieraaetus fasciatus). Podemos encontrar também espécies raras, como a Águia-cobreira (Circaetus gallicus), o Bútio-vespeiro (Pernis apivorus), o Peneireiro-cinzento (Elanus caeruleus)  ou a Toutinegra-real (Sylvia hortensis). Mas acima de tudo podemos observar um fervilhar de dezenas de espécies comuns (aves de rapina diurnas e noturnas, perdizes, poupas e abelharucos, pica-paus, cotovias, picanços, estorninhos, gaios e pegas, piscos, rouxinóis e tordos, felosas e toutinegras, chapins, trepadeiras, pardais, tentilhões e escrevedeiras), que são o indicador da saúde ambiental dos montados e florestas de Sobro.”

Fotos: Serra do Calvo e Caniçal / Lourinhã