"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





terça-feira, 23 de setembro de 2014

SISTEMAS DUNARES DO LITORAL - Parte II

"As dunas litorais portuguesas possuem uma notável riqueza florística no contexto europeu"

A vegetação litoral mediterrânica, em especial a vegetação dunar portuguesa, detém uma elevada importância visto ser muito antiga (Costa, 1984 in Silva, 2006). 
As glaciações do Quaternário, menos severas em Portugal do que noutros locais da Europa, permitiram a sobrevivência de um grande número de espécies do Cenozóico que se extinguiram no resto do continente europeu" (Jansen, 2002).
Vista panorâmica do sistema dunar do Areal Sul, desde o topo da duna secundária até à foz do rio Grande, na Praia da Areia Branca.
Muitos dos sistemas dunares do litoral português formaram-se junto à desembocadura dos rios. Os sedimentos transportados pelas águas fluviais, as correntes marítimas e o vento, associados a certas características geológicas fluviais, nomeadamente vales largos e plataformas em forma de rampa, contribuíram para a deposição de grandes quantidades de areia. Foi assim que o sistema dunar do Areal sul, na Areia Branca/Lourinhã, se formou no amplo espaço proporcionado pelo declive acentuado, junto à foz do chamado rio Grande.

Como se formam as dunas
As dunas do litoral começam a formar-se quando a areia, empurrada pelo vento, encontra um pequeno obstáculo, uma pedra ou uma planta, numa zona perto da orla do mar mas suficientemente longe da rebentação.
A duna cresce de barlavento (de onde sopra o vento) para sotavento (para onde sopra o vento) e avança na direção do vento predominante.
Por ação contínua do vento dominante e havendo suprimento suficiente de partículas arenosas, aquilo que começa por ser um montinho de areia vai aumentando de tamanho e movimentando-se no sentido do vento, podendo alcançar vários metros de altura. Pelo mesmo processo de formação e evolução vão surgindo novas dunas, ou seja, atrás de uma duna frontal existem outras cristas dunares, formadas em períodos anteriores, progressivamente mais antigas à medida que nos afastamos do mar. É assim que se formam os sistemas dunares, alguns simples, outros bastantes complexos.

Para que se mantenha o equilíbrio no desenvolvimento dos sistemas dunares costeiros é necessário que se mantenham as deposições regulares de partículas arenosas. É também fundamental que se estabeleça uma relação de complementaridade entre as praias e as dunas mais próximas do mar. Isto é, durante o verão é expectável que se registe uma acumulação regular de areia nas dunas frontais. Esta é uma reserva necessária tendo em conta que muita areia é arrastada para o mar durante as tempestades de inverno. Caso o sistema dunar esteja em equilíbrio essas partículas arenosas serão novamente lançadas na praia durante a época do bom tempo e em seguida, transportadas pelo vento até às dunas.

Tipologia dunar
Esquema de um sistema dunar simples tendo por base as dunas do Areal Sul.
Quando as dunas se multiplicam formam-se sistemas dunares que podem ser muito complexos e extensos, como é o caso da Costa da Caparica.
As dunas tomam formas e disposição diversas em função da intensidade e orientação dos ventos dominantes. Na costa oeste de Portugal o vento sopra predominantemente de Noroeste, pelo que geralmente as dunas crescem do litoral para o interior, formando dunas secundárias paralelas entre si mas transversais ao sentido do vento dominante.
“As dunas transversais são representadas por corpos arenosos de cristas rectas ou ligeiramente curvas, alinhadas perpendicularmente à direcção dominante do vento. Apresentam uma forma simples decorrente de um regime de vento unidireccional, possuindo uma única face de deslizamento, a qual é direccionada para sotavento” (Branco et al., 2003).
As dunas que estão mais perto do mar são móveis e instáveis devido à contínua movimentação de partículas arenosas por ação  do vento; as que se situam atrás das dunas móveis, numa posição mais recuada em relação ao mar e portanto mais protegidas do vento, vão-se tornando mais fixas na medida em que forem sendo estabilizadas pela vegetação; as dunas fósseis são as mais recuadas de todas, tendo sido consolidadas pela aglutinação progressiva dos grãos de areia, num processo que demorou milhares de anos.
À duna situada mais perto do mar geralmente chama-se duna primária; as seguintes chamam-se respectivamente dunas secundáriasterciárias segundo a sua maior ou menor proximidade do mar; o espaço interdunar corresponde à depressão existente entre elas, provocada pelos turbilhões criados pela circulação de ar a sotavento de uma duna.

A importância da vegetação nas dunas
A formação e estabilização de um sistema dunar do litoral é um processo constante e dinâmico no qual a vegetação desempenha um papel extremamente importante, contribuindo para capturar os grãos de areia e prevenindo a erosão provocada pelos ventos e pela chuva. 
A vegetação dos ecossistemas dunares é constituída por plantas especialmente adaptadas a um meio precário que possui características micro-climáticas e edáficas especiais e onde sobreviver não é tarefa nada fácil. O substrato de que dispõem é pobre em nutrientes e instável, podendo ocorrer soterramento. Estão ainda sujeitas à pouca disponibilidade de água doce, a ventos fortes carregados de partículas de sal, luminosidade excessiva e calor no verão e frio no inverno. 
A colonização destes habitats pelas comunidades vegetais não acontece de forma aleatória. De facto, as espécies distribuem-se por zonas conforme a sua especialização. Algumas tornaram-se mais aptas a viver nas areias móveis e instáveis da beira-mar enquanto outras, mais numerosas, preferem colonizar terrenos mais recuados, menos fustigadas pelos ventos fortes e salgados e beneficiando de um solo mais rico em nutrientes.
Para ultrapassarem todas estas limitações e sobreviver num ambiente tão adverso, as plantas tiveram de desenvolver diversas estratégias, através de adaptações de natureza morfológica, anatómica, fenológica e fisiológica (veja mais AQUI).

Interação das espécies vegetais com as dunas
O processo de formação do sistema dunar inicia-se na parte mais recuada da praia, muitas vezes chamada de pré-duna e onde se acumulam os detritos trazidos pela maré. 
Apesar de ser uma zona muito instável e sujeita a frequentes inundações pela água do mar, é colonizada por plantas anuais pioneiras como é o caso da Cakile marítima, espécie tolerante ao sal que, durante o verão, atua como obstáculo à passagem das areias transportadas pelo vento.
É para lá do limite das marés, numa  zona de suave declive e ocasionalmente atingida pelos salpicos das ondas, que surgem as primeiras plantas perenes que vão desencadear o processo de evolução do sistema dunar. A primeira entre todas é a Elymus farctus, gramínea perene de crescimento relativamente rápido, que desempenha um papel fundamental durante a acumulação de sedimentos, favorecendo a colonização do espaço adjacente por outras espécies. 
Para tal, Elymus farctus forma tufos pouco densos junto aos quais se vão acumulando as areias trazidas pelo vento. Estas acumulações de areia vão crescendo e aos poucos vão cobrindo parcialmente a planta. Mas ela não se dá por vencida e para compensar, também ela cresce em altura, evitando sempre o soterramento. Assim, o crescimento em altura da duna depende do desenvolvimento desta planta, o qual é estimulado pelo soterramento.
Neste declive são ainda visíveis outras espécies, nomeadamente Calystegia soldanella e Eryngium maritimum.
Seguem-se as dunas embrionárias as quais constituem a primeira defesa activa da costa e apenas ocorrem em praias onde o fornecimento de areia é constante, como acontece na Praia da Areia Branca. Começam por ser montes de areia originados pela acumulação de areia nos tufos da vegetação e que a dado momento se unem (por vezes não se unem de todo e nesse caso denominam-se nebkas). Formam uma espécie de parede e dão altura à duna, estabelecendo a transição para a duna primária. Esta é a zona mais frágil do sistema dunar devido à sua localização face ao vento que movimenta facilmente os grãos de areia, arrastando-os para o interior. Por esta razão o número de espécies vegetais na duna embrionária é escasso o que facilita o acesso dos veraneantes que procuram abrigo contra o vento, o que geralmente resulta em estragos nestas frágeis estruturas, retardando o processo.
A duna primária é também chamada duna branca por haver bastantes espaços de areia não cobertos por vegetação. Apesar de tudo, a duna primária corresponde a uma etapa já mais evoluída. Embora  caracterizada pela mesma instabilidade do solo arenoso, escassez de nutrientes e água, a vegetação é mais variada. Uma vez iniciado o processo de retenção das areias arrastadas pelo vento, ação em que Elymus farctus tem papel fundamental, outras espécies surgem nas areias, ainda móveis. A mais importante da duna primária é sem dúvida a Ammophila arenaria, muitas vezes chamada construtora das dunas devido à sua enorme capacidade de retenção e fixação de areia.
Esta espécie desponta quando a duna chega mais ou menos a um metro de altura, protegendo-se assim de possíveis submersões pela água do mar, cujo sal não tolera. É maior que a Elymus farctus e forma tufos mais fortes e densos cuja função principal é fixar as areias, permitindo que a duna, em formação, possa ter estabilidade suficiente para que outras espécies nela possam viver. Enquanto os seus densos tufos cortam a força do vento e dão abrigo e sombra, o seu raizame profundo e intrincado funciona como âncora. 
Entre as especies que se podem encontrar na duna primária incluem-se a Euphorbia paralias, Otanthus maritimus, Medicago marina, Pancratium maritimum, Polygonum maritimum e Eryngium maritimum.
As dunas secundárias são também denominadas dunas cinzentas devido ao tom acinzentado que lhes confere a vegetação, quando avistadas de longe. As dunas secundárias diferenciam-se das dunas primárias pela sua situação mais afastada do mar e também porque ocupam uma superfície maior, numa sucessão de cristas e corredores interdunares. As comunidades florísticas são mais densas e desenvolvidas pois o ambiente é mais favorável ao seu crescimento e reprodução. Além da diminuição da intensidade do vento e das partículas de sal, existe maior acumulação de água e matéria orgânica no solo. Pequenas comunidades de espécies subarbustivas alternam com coberto de herbáceas de pequeno tamanho, havendo ainda algumas áreas despidas de vegetação nos locais menos abrigados.
Nas dunas secundárias do Areal Sul podem encontrar-se variadas espécies, entre elas Artemisia marítimaHelichrysum italicum, Sedum sediformeMalcolmia littoreaOnonis ramosissimaCrucianella maritima,  Anagallis monellie alguns endemismos como Iberis procumbens e  Armeria welwitschii .
A duna terciária, também chamada duna castanha, caracteriza-se pelos solos ricos em húmus. As espécies são maioritariamente arbustivas e arbóreas, de que se destaca Juniperus phoenicea.

Fatores de ameaça
As dunas são importantes muralhas naturais contra o avanço do mar, defendendo pessoas e bens, pelo que é nossa obrigação tomarmos consciência da importância da sua preservação, antes que seja tarde demais. Mesmo quando parecem estabilizadas as dunas são zonas sensíveis cujo equilíbrio pode ser perturbado por vários fatores. À parte a erosão costeira provocada por fenómenos naturais, a intervenção humana é a grande responsável pela degradação da maior parte dos sistemas dunares europeus.
A circulação descuidada é um dos principais fatores de perturbação das dunas, originando redes de caminhos e clareiras no meio da vegetação. Quando as plantas são pisadas e destruídas podem demorar dezenas de anos para se recompor - podendo nem chegar a fazê-lo - deixando entretanto a areia nua, incapaz de oferecer resistência ao vento e pondo todo o sistema dunar em risco de colapso.
Certas plantas exóticas foram introduzidas nos ecossistemas costeiros. Devido ao seu comportamento invasor essas espécies têm vindo a ameaçar a sobrevivência das espécies nativas das nossas dunas. O caso mais grave é o do Carpobrotus edulis, espécie importada da África do Sul e vulgarmente conhecido por chorão, que se propaga com rapidez, cobrindo extensas áreas e sufocando as outras plantas até à morte.

Fotos: Sistema dunar do Areal Sul / Lourinhã


quinta-feira, 11 de setembro de 2014

SISTEMAS DUNARES DO LITORAL - Parte I

O sistema dunar do Areal Sul - Lourinhã


A orla costeira do concelho da Lourinhã é uma faixa muito recortada de cerca de 12 km de extensão, de onde se avistam as ilhas Berlengas e o Cabo Carvoeiro. 
As praias, estreitas mas extensas, desenvolveram-se na base de arribas rochosas, elevadas e abruptas, hoje em dia muito desgastadas pela ação abrasiva dos ventos e das marés.
A foz do rio Grande é uma zona de exceção pois a morfologia desta parte da costa apresenta maior largura, proporcionando a formação não só de praias largas, nomeadamente Areia Branca e Areal Sul, mas também de um sistema dunar típico.
Foram os ventos fortes, que nesta zona sopram quase sempre com intensidade, que levaram à acumulação de areias com a consequente formação de um complexo dunar de pequenas dimensões mas de grande interesse natural, tanto mais que é o único neste concelho. 
Nunca é demais frisar a importância dos sistemas dunares do litoral. Para além de serem espaços de grande diversidade biológica, as dunas estabelecem a transição entre o meio marinho e o ambiente terrestre agindo como barreira natural, impedindo a progressão do mar para o interior.

As dunas costeiras são essencialmente uma acumulação de materiais arenosos de consistência muito precária e cuja estabilidade depende da manutenção do coberto vegetal. A vegetação desempenha um papel de primordial importância na sua formação e manutenção pois são as plantas que ajudam a fixar as areias prevenindo a erosão provocada pelos ventos, pela chuva e ondas do mar. 
Da esquerda para a direita:
Calystegia soldanella, Achillea ageratum, Anagallis monelli
Muitas das espécies que vivem no ambiente difícil das dunas foram já descritas neste blog, outras aguardam ainda a sua vez. São todas plantas especificamente adaptadas ao ambiente hostil em que vivem (ar carregado de partículas de sal, intensa luminosidade, falta de agua e nutrientes) e que conseguem, apesar de tudo, apresentar lindas flores e agradáveis aromas.

O equilíbrio nos sistemas dunares é muito sensível não só aos desastres naturais mas também às alterações provocadas pelo Homem, nomeadamente os passeios a pé, a cavalo ou a passagem de viaturas todo-o-terreno. Quando as plantas são pisadas e destruídas, dificilmente se regeneram e assim, abrem-se clareiras e a areia fica solta, deixando de oferecer resistência ao vento, colocando em risco todo o sistema dunar. 
As dunas do Areal Sul apresentam inevitável degradação. Necessitam urgentemente de trabalhos de recuperação, a exemplo do que já tem sido feito noutras regiões litorais.
Alguns esforços foram feitos no sentido de evitar a circulação de veículos mas pouco mais. Contudo, no passado mês de junho, numa iniciativa do concessionário Areal Beach Bar, a qual recebeu o apoio da Junta de Freguesia da Lourinhã e da Lourambi (Associação Defesa Ambiente), foi colocado o primeiro painel informativo com o objetivo de sensibilizar as populações para a riqueza que representam as dunas no âmbito do património ambiental da região. 
Deste painel constam dois pequenos textos informativos e três dezenas de fotografias que permitem ao visitante identificar algumas das espécies locais. Felizmente, o elenco florístico das dunas do Areal Sul mantém-se razoavelmente variado, apresentando mesmo alguns endemismos, para o que, seguramente, tem contribuido o clima caracteristicamente ameno que aqui se regista o ano inteiro.

Pormenores do Painel
A três meses de distância podemos atestar o sucesso desta iniciativa, a qual foi tão bem recebida pela população local como pelos muitos estrangeiros que nos visitam. Entre outros, chegaram até nós ecos de Espanha, que muito nos orgulham e aos quais se pode aceder através deste link:
Fotos: Areal sul e Paimogo - Lourinhã



domingo, 31 de agosto de 2014

Oenanthe crocata L.

Nomes comuns:
Embude; arrabaça; rabaça; enanto-de-cor-de-açafrão; 
prego-do-diabo; salsa-dos-rios; canafreicha

Oenanthe crocata é uma espécie perene, herbácea e bastante alta, podendo chegar aos 150 cm de altura. É nativa da Europa ocidental e também do Mediterrâneo ocidental, nomeadamente Marrocos, Irlanda, Reino Unido, Bélgica, Itália (apenas na ilha da Sardenha), França, Espanha e Portugal. 

No nosso país ocorre um pouco por todas as regiões (exceto Açores e Madeira), bordejando as margens de cursos de água com pouca corrente ou em situações de águas paradas, como acontece em pequenos lagos ou charcos. É, pois, uma espécie ripícola, vivendo na zona de transição entre o ambiente terrestre e o ambiente aquático de água doce. As suas raízes nem sempre estão mergulhadas na água mas o certo é que não lhes falta humidade durante a estiagem; também se sentem confortáveis  com as inundações periódicas de inverno, quando as chuvas engrossam as correntes.

Durante a floração, que acontece de abril a julho, Oenanthe crocata forma um arbusto vistoso e suavemente aromático. A massa verde escura da sua folhagem tem um aspeto refrescante e contrasta com as cabeças florais brancas que balouçam suavemente na brisa, embalando os insetos que nelas procuram alimento. 

O impacto visual é acentuado pela existência de vários exemplares da mesma espécie crescendo ao longo dos corredores ripícolas. 
Linda, elegante e aromática, quem havia de dizer que esta é uma das espécies mais venenosas da flora portuguesa? A sua toxicidade deve-se à oenantotoxina, uma substância do grupo dos álcoois poliacetilenos, presente em todas as partes da planta, mas muito particularmente nas raízes. A oenantotoxina é um dos metabólitos secundários produzidos pela planta. Os metabólitos secundários são substâncias químicas sintetizadas por certas espécies e que contribuem para a sua adaptação aos ecossistemas, protegendo-as contra a herbivoria, contra a infeção por agentes patogénicos e atraindo polinizadores e dispersores de sementes, tudo em prol da propagação da espécie. Esta estratégia tem sido aperfeiçoada ao longo dos processos evolutivos de cada planta, tendo em conta as suas necessidades específicas.
“Desprovidas de mobilidade para defesa e de sistema imunitário contra infeções virais, bacterianas ou fúngicas, as plantas desenvolveram uma complexidade de metabólitos secundários que funcionam como estratégias e armas químicas de resistência e combate, ao longo de mais de 300 milhões de anos de coevolução com estes microrganismos” (Harborne, 1990; Wink, 2003; Simões et al., 2009). 
Nesta conformidade a oenantotoxina atua na Oenanthe crocata como mecanismo de defesa contra a herbivoria por parte de insetos e vertebrados. 

Uma vez que a evolução das plantas está fortemente associada à evolução dos insetos herbívoros estes reconhecem os "avisos" emitidos pela Oenanthe crocata e passam de largo, mas para nós, humanos, e para o gado incauto, a planta é demasiado subtil.
Nós deixamo-nos enganar pela semelhança que flores, folhas e raízes apresentam com outras espécies comestíveis da mesma família; os animais que pastam nos campos comem o que lhes aparece ao alcance sobretudo no fim do verão quando percorrem as zonas húmidas à procura das primeiras ervas, não desdenhando as raízes de Oenanthe crocata que por vezes aparecem desenterradas pelas primeiras chuvadas. Como medida de prevenção deve fazer-se a limpeza regular dos ribeiros tendo o cuidado de recolher os tubérculos desenterrados.
A oenantotoxina é uma neurotoxina de grande potencial e que, mesmo em doses muito pequenas, ataca de forma muito agressiva não só o sistema nervoso central mas também outras partes do organismo. Provoca delírio, dores intensas, náuseas, vómitos contínuos, rictus facial com paralisia dos órgãos da fala, convulsões e finalmente a morte. Algumas substâncias extraídas da planta foram utilizadas no passado, como um remédio homeopático para o tratamento de epilepsia, em soluções aquosas muito diluídas, mas sem grande resultado pratico.
As raízes da Oenanthe crocata são tuberosas, cilíndricas, grossas e compridas, com sabor adocicado e agradável, podendo ser confundidas com a pastinaca (Pastinaca sativa), espécie da mesma família, também conhecida como cherivia ou cherovia, semelhante à cenoura mas de cor bastante mais clara. 
Pastinaca (Pastinaca sativa)
Foto de Quadell/Wikimedia commons
A pastinaca foi, em tempos idos, alimento fundamental na dieta dos povos da Europa, tendo perdido a sua importância com a introdução da batata, no séc. XVI. No entanto é ainda cultivada no nosso país, principalmente na Beira interior e Trás-os-Montes, sendo muito apreciada. 

Os caules são cilíndricos, grossos e resistentes mas ocos, libertando um líquido de cor amarelada, quando seccionados. A superfície exterior apresenta sulcos longitudinais.

As folhas lembram folhas de salsa de tamanho gigante e até podem ser confundidas com o aipo; a sua forma é triangular mas apresentam-se profundamente divididas até à nervura mediana, formando 2 a 4 folíolos. As folhas superiores são mais pequenas e constituídas por segmentos mais estreitos do que as folhas basais.

As flores de Oenanthe crocata são muito pequenas pelo que, para se tornarem mais visíveis e atraentes aos insetos polinizadores, se reúnem em inflorescências muito particulares, denominadas umbelas porque se assemelham a um conjunto de pequenos guarda-chuvas. 
Cada umbela principal consta de um número variável de raios que nascem no mesmo ponto do caule; na extremidade de cada um deles formam-se umbelas mais pequenas também constituídas por vários raios porém, mais curtos, os quais terminam numa flor. 


Desta forma, funcionando em equipa, as flores de uma umbela montam uma estratégia muito eficaz, ficando semelhantes a uma única flor com tamanho suficiente para sobressair na paisagem. Além disso, estas flores são muito generosas, fornecendo néctar como recompensa aos muitos insetos que as visitam pelo que cada umbela parece, por si só, constituir um pequeno habitat. Estas flores são geralmente polinizadas por moscas-das-flores, vespas, abelhas, formigas, besouros, escaravelhos e joaninhas.

Cada pequena flor, provida de órgãos sexuais femininos e masculinos, apresenta um cálice constituído por 5 sépalas com dentes muito curtos e de formato triangular, persistentes na frutificação. A corola é formada por 5 pétalas de cor branca ou ligeiramente rosada, curvadas para dentro sendo que as pétalas externas das flores marginais são geralmente maiores. Os 5 estames produtores de pólen, alternam com as pétalas. 

O ovário apresenta duas cavidades, cada uma delas com um óvulo e os 2 estiletes estão espessados na base formando um disco nectarífero, o qual persiste sobre os frutos até à maturação.

Os frutos são mericarpos de forma cilíndrica e cor castanha constituídos por duas metades, cada uma delas com a sua semente. Cada planta pode produzir anualmente uma grande quantidade de mericarpos que conseguem flutuar na água durante vários meses ate encontrarem sítio adequado à sua germinação. Estas condições favorecem a propagação da espécie por meio das sementes tanto na proximidade da planta-mãe como a alguma distância. Contudo a espécie também se propaga a partir de pedaços das raízes tuberosas, muitas vezes separados do caule pela força da água e arrastados na corrente.

Oenanthe crocata pertence ao género Oenanthe um dos muitos géneros da família das Apiaceae em que se inclui esta espécie. O termo genérico Oenanthe significa literalmente vinho-flor, derivado da contração das palavras gregas “oinos” (vinho) e “anthos” (flor). Tal termo tem a ver com o estado mental alterado que se assemelha à condição de embriaguez e que é o primeiro sintoma após ingestão da planta. Quanto ao termo específico da espécie, crocata vem do latim “crocum” ( =açafrão, cor-de-laranja) referindo-se à cor do exsudado existente dentro dos caules.
Esta planta pertence à família Apiaceae a qual também é conhecida por Umbelliferae. Este é o nome antigo o qual deriva do tipo de inflorescência em umbela presente na maior parte dos membros desta família. O nome Umbelliferae continua válido apesar das novas regras de  ICBN que estabelecem que os nomes das famílias botânicas devem ser construídos a partir do nome do género com maior representatividade, substituindo a declinação final pelo sufixo –aceae. Por exemplo Apiaceae foi construído a partir do género Api(um) + aceae.
São 8 as famílias botânicas que beneficiam de dupla nomenclatura pois os seus nomes antigos foram aceites tendo em conta a sua expressividade e consagração pelo uso. São elas:
Compositae=Asteraceae
Cruciferae=Brassicaceae; 
Gramineae=Poaceae
Guttiferae=Clusiaceae
Labiatae=Lamiaceae
Leguminosae=Fabaceae
Palmae=Arecaceae;  
Umbelliferae=Apiaceae

Apiaceae/Umbelliferae é uma importante família botânica que abrange entre 2500 a 3000 espécies, agrupadas em 300 a 450 géneros. A característica quase uniforme das inflorescências em umbelas, torna as diversas espécies desta família  muito semelhantes à primeira vista e por vezes muito difíceis de distinguir, mas por outro lado, também fez desta uma das primeiras famílias naturais a ser claramente reconhecida.
A classificação taxonómica desta família sofreu várias alterações nos últimos anos contudo ainda não se chegou ao consenso necessário para efetivar divisões ou junções que continuam em suspenso. Acontece que os vários autores envolvidos ainda não se puseram de acordo quanto às características fenotípicas a considerar como descritores morfológicos prevalentes. Um dos casos mais exemplificativos prende-se com a relação estreita que parece existir entre as Apiaceae e as Araliaceae: alguns autores pretendem englobar esta última nas Apiaceae enquanto outros sustentam a sua separação.
família das Apiaceae encontra-se distribuída sobretudo pelas zonas de clima temperado do hemisfério norte. A sua importância económica é incontestável, sobretudo devido ao interesse alimentício ou condimentar de grande número de espécies, muitas delas presentes no dia a dia das nossas cozinhas. Entre as mais consumidas podemos salientar a cenoura (Daucus carota), a salsa (Petroselinum crispum), o aipo (Apium graveolens), o coentro (Coriandrum sativum), o funcho (Foeniculum vulgare), a alcaravia (Carum carvi), o anis (Pimpinella anisum), o cominho (Cuminum cyminum) e o endro (Anethum graveolens).
Além da Oenanthe crocata, existem em Portugal outras espécies venenosas na família das Apiaceae/Umbelliferae. Temos, por exemplo o caso da espécie Conium maculatum, do género Conium, da qual é extraído o veneno vulgarmente conhecido por cicuta, que provoca a morte por paralisia muscular e respiratória. Este veneno é especialmente conhecido por estar associado ao grande filósofo grego Sócrates, que foi condenado à morte por ingestão de chá de cicuta, no ano 469 a.C.. 
Cicuta é também o nome cientifico de um género de plantas desta mesma família que compreende espécies muito venenosas, nativas especialmente das regiões temperadas da América do Norte.
Muitas das espécies da família Apiaceae/Umbelliferae são apreciadas pelos seus constituintes aromáticos, em resultado da produção de grande número de metabólitos secundários, ao nível dos terpenos, fenóis e alcaloides.
Muitos destes compostos têm sido utilizados desde os primórdios da humanidade como fármacos, aromatizantes, narcóticos e venenos e mais recentemente como nutraceuticos.

O riso sardónico:

Mascara sardónica, fenicia, feita em terracota - Séc.IV a.C.
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O nosso vocabulário é tão rico que nunca nos faltarão adjetivos para caracterizar a multiplicidade de sorrisos que o ser humano é capaz de produzir. Dependendo do estado de espírito, físico ou emocional de cada um, o sorriso pode ser espontâneo, simples, aberto, tímido, doce, amável, brincalhão, sincero… Ou, porque os sorrisos nem sempre estão associados a momentos de boa disposição, também podem ser amargos, sarcásticos, mordazes, zombeteiros, contrafeitos, maldosos, antagónicos, desconfiados, e por aí adiante. Um sorriso até pode ser sardónico, termo que parece ter caído em desuso e que se traduz por um arreganhar de dentes que denota ironia, zombaria e sarcasmo. Tanto quanto se sabe, a expressão “sorriso sardónico”, em termos literários, surge pela primeira vez na Odisseia (XX, 302), cunhada por Homero (poeta épico da Grécia Antiga, presumível autor dos poemas épicos Iliada e Odisseia) para designar “um riso com sarcasmo amargo e mal-intencionado, um escárnio desdenhoso, ofensivo e provocador”.
O termo sorriso sardónico (do grego sardonikós) tem as suas raízes na ilha da Sardenha, (Itália) onde, há mais de 2.800 anos os colonizadores fenícios realizavam rituais de morte durante os quais eram executados não só os criminosos mas também as pessoas idosas que não dispunham de meios de sobrevivência. Em primeiro lugar faziam-nos ingerir um preparado de cuja composição fazia parte a planta Oenanthe crocata (conforme confirmado recentemente) e a seguir, atiravam-nos para o mar, do alto das falésias. Os constituintes químicos desta planta provocavam nas vítimas contrações espasmódicas dos músculos da boca que davam à face uma expressão de amargo sarcasmo, a tal que ficou conhecida como sorriso sardónico, ou seja, da Sardenha. 
Veja mais em National Geographic News 

Fotos de Oenanthe crocata: Zambujeira/Lourinhã.