"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Oenothera rosea L´Hér. ex Aiton

Nome comum: Onagra rosa


Oenothera rosea é uma planta herbácea, perene de vida curta, que forma um pequeno arbusto cuja altura pode ir dos 10 aos 50 cm de altura. É nativa do continente americano (Norte, centro e sul) mas foi introduzida noutras partes do mundo, possivelmente como ornamental, tendo-se assilvestrado e naturalizado. Na Península Ibérica encontra-se distribuída de forma bastante dispersa podendo apresentar, em algumas regiões, comportamento invasor. Além de possuir uma elevada percentagem de sucesso na germinação das suas sementes também tem raízes rizomatosas que se subdividem rapidamente, dando origem a novas plantas. Cresce em terrenos incultos e bermas de caminhos mostrando preferência por solos alterados os quais são ricos em nutrientes. Gosta de crescer em pleno sol e é bastante resistente às amplitudes térmicas.


Os caules, de cor verde ou avermelhada, são simples ou ramificados e estão cobertos de pelos finos e rígidos; podem ser eretos ou prostrados.
As folhas, verdes, de nervuras bem marcadas, colocam-se nos caules de forma alternada; têm forma oblanceolada, algo onduladas e são inteiras ou ligeiramente dentadas.
As folhas vão diminuindo gradualmente de tamanho da base para o topo até assumir a forma de brácteas estreitas, logo abaixo das inflorescências.
As flores agrupam-se ou nascem solitárias na axila das folhas superiores. As pétalas, de cor rosa e embelezadas por veias mais escuras, são 4 e estão protegidas por 4 sépalas esverdeadas geralmente unidas na base mas bifurcadas na extremidade. 
As flores abrem ao anoitecer e fecham ao início da tarde, dai o nome de “evening primrose” que é dado em inglês à Oenothera rosea. Curiosamente as pétalas desta espécie abrem muito rapidamente, num momento estão fechadas, no minuto seguinte estão abertas, movimentos que têm desde há muito fascinado os biólogos.
As flores apresentam órgãos sexuais femininos e masculinos. O androceu tem 8 estames com filamentos longos e o gineceu tem um ovário densamente peludo dividido em 4 partes cujo estilo termina num estigma dividido mais ao menos até meio em 4 braços lineares os quais estão rodeados pelas anteras durante a floração.
Quando envelhecem as pétalas tornam-se mais escuras e caiem. Segue-se o fruto, uma estrutura capsular alongada e circular bastante mais dilatada no ápice o qual é arredondado. Esta cápsula apresenta 4 asas estreitas que alternam com 4 nervos engrossados; no seu interior há varias sementes castanhas de contorno elíptico ou arredondado.
Oenothera rosea floresce e frutifica de abril a outubro.
Nesta espécie, o ponto de inserção das bases das pétalas, sépalas e estames é muito desenvolvido formando um tubo estreito longamente prolongado acima do ovário. Esta estrutura denomina-se hipanto e é na sua base que se deposita o néctar, precioso líquido rico em hidratos de carbono que serve de chamariz aos insetos polinizadores. O hipanto é caduco, caindo juntamente com a flor, na frutificação.
Entre os insetos que polinizam a Oenothera rosea contam-se várias espécies de traças e borboletas noturnas mas nem todas as espécies europeias estão morfologicamente adaptadas para recolher o pólen e polinizar as flores desta planta exótica, a qual surgiu na Europa muito recentemente. Até 1987 foi considerada casual mas a partir dessa data espalhou-se rapidamente. Entretanto tem sido uma armadilha para muitos insetos nomeadamente a Macroglossum stellatarum, conhecida vulgarmente como borboleta-colibri; esta borboleta vai parando sobre cada flor, fazendo um barulho audível que é semelhante ao da ave beija-flor, enquanto se alimenta de pólen e néctar através da sua longa probóscide (armadura bucal longa e em forma de tubo, adaptada à aspiração de líquidos). 
Foto de Clive Crosby gentilmente cedida por Brian Cave de La Borie du Fourquet, Courdon, Lot/France
Na foto acima podemos ver uma Macroglossum stellatarum que ficou com a probóscide presa no longo tubo do hipanto de uma Oenothera rosea ao tentar recolher o néctar e acabou por morrer. Como é possível que tal tenha acontecido? O inseto ter-se-à posicionado, pairando, face a face com a flor aberta e introduzido a sua longa tromba no estreito tubo do perianto, empurrando-a para se alimentar. Ora, nesta e noutras espécies da mesma família os grãos de pólen estão ligados por fios viscosos que apesar de ténues e delicados poderão ter impedido que o inseto retirasse a probóscide. Pode ainda acontecer que o tubo do hipanto seja demasiado estreito para a morfologia do inseto…Outra explicação que me ocorre é que os pelos que forram o hipanto sejam virados para baixo, facilitando assim a entrada mas dificultando a saída. O certo é que na sua luta para se libertar a Macroglossum stellatarum se ensarilhou nas peças florais da Oenothera rosea acabando por morrer. Problemas idênticos acontecem com outras flores exóticas as quais são autênticas armadilhas para insetos providos de probóscides.

Oenothera rosea pretence ao género Oenothera um dos 20 géneros em que se divide a família Onagraceae. Esta família botânica distribui-se por todas as regiões tropicais, subtropicais e temperadas do globo mas com maior diversidade no continente americano. Muitas espécies são cultivadas como ornamentais como acontece com as espécies dos géneros Oenothera, Clarkia e também Fuchsia, estas ultimas especialmente apreciadas e vulgarmente conhecidas por brincos-de-princesa.

Oenothera rosea é uma espécie “splash-cup”!
A dispersão das sementes pelas gotas de chuva:

Um dos momentos decisivos no ciclo de vida de uma planta é a dispersão das suas sementes a qual tem de ser sobretudo eficiente pois dela depende a capacidade de sobrevivência da espécie.
Para qualquer planta com ambições o mais vantajoso é fazer germinar as suas sementes a uma distância razoável das suas progenitoras evitando a sobrelotação e a inevitável competição por água, luz e espaço que pode comprometer as hipóteses da semente chegar ao estado adulto. Por outro lado tem também o objetivo de se expandir criando colónias noutros lugares. 
Certas plantas possuem mecanismos particulares de dispersão que lhes permitem projetar as suas sementes a uma certa distancia mas na generalidade as plantas deixam simplesmente cair as sementes em seu redor e a dispersão é conseguida através de uma variedade de adaptações e mecanismos que envolvem praticamente todas as forças e agentes da natureza. O vento, a água dos locais alagados ou próximos de rios e os animais, são os agentes de dispersão mais falados.
As gotas da chuva representam também uma importante estratégia na disseminação de sementes, no entanto, tal facto tem sido negligenciado ou minimizado. Mesmo quando a chuva é escassa representa, ainda assim, uma poderosa força da natureza como agente dispersor de sementes, esporos e até de pólen. A adaptação à dispersão pelas gotas da chuva é tão perfeita e variada que já são reconhecidos mais de trinta mecanismos diferentes de dispersão “splash-cup” utilizados por espécies encontradas em quase todos os grupos de plantas.
As espécies denominadas “splash-cup” podem encontrar-se entre fungos, líquenes, hepáticas, musgos e algumas plantas de semente de pequena estatura, nomeadamente algumas espécies dentro dos géneros Oenothera (Oenothera rosea), Chrysosplenium, Gentiana, Gratiola, Mazus, Mitella, Ophiorrhiza, Sagina,Sedum, Trigonotis e Veronica. Contudo nem todas as espécies destes géneros são “splash-cup”.

Fruto de Oenothera rosea: o fruto abre no topo quando molhado, formando a taça/ Harold Brodie, Indiana University

Nas espécies “splash-cup” as sementes ou esporos amadurecem dentro de estruturas abertas de forma cónica, como uma taça (“cup”, em inglês). As paredes destas estruturas têm uma inclinação de 60º a 70 º. Ora, quando a gota de chuva cai e faz “splash” na taça dá origem a um jacto de saída que arrasta as sementes para longe da planta-mãe. A curvatura da taça ajuda a aumentar em cerca de 5 vezes a velocidade deste jacto, em relação à velocidade da gota de chuva. Levadas pelo jacto de saída, muitas sementes cairão relativamente perto da mãe mas outras chegam a ser lançadas até cerca de 1 metro de distância o que equivale a cerca de 10 vezes a altura da planta.
Diversos cientistas estão a levar a cabo estudos aprofundados no sentido de entender melhor o funcionamento do "splash". Através destas investigações espera-se poder, num futuro próximo, vir a aproveitar este exemplo da natureza em causas praticas como por exemplo, entre outras, na produção de energia.

Veja AQUI como funciona, numa simulação com um modelo construído para o efeito.

Fotos: Serra do Calvo/Lourinhã



terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Anethum graveolens L. syn. Peucedanum graveolens (L.) C.B.Clarke.

Nomes comuns: 
Endro; aneto; funcho-bastardo; anega

Anethum graveolens é uma planta aromática muito apreciada e amplamente consumida no mundo inteiro mas principalmente na India, Egito e outros países mediterrânicos e também na Europa central e Escandinávia. Em Portugal é mais conhecida pelo nome vulgar de endro e em muitos países do mundo por dill. É uma espécie de origem asiática (Asia ocidental e India) que se assilvestrou e naturalizou em diversas regiões da Europa, presumivelmente introduzida durante a ocupação dos romanos.
Como consequência da colheita indiscriminada repetida ao longo de séculos, esta espécie está praticamente extinta como planta silvestre. No entanto é extensamente cultivada, quer em jardins e pequenas hortas, quer em grandes plantações cujo objetivo é a comercialização. Felizmente pode ainda ser encontrada, na sua forma espontânea, em alguns locais da Itália e da Península Ibérica. Em Portugal encontra-se por aqui e por ali, crescendo em campos cultivados, vinhas, milharais e beira dos caminhos.
À primeira vista a espécie Anethum graveolens pode ser confundida com o funcho, Foeniculum officinale, espécie mais conhecida entre nós, no entanto a semelhança é apenas aparente. Pertencem ambas à mesma família botânica mas o aroma e sabor são inteiramente diversos e, para além de outras características morfológicas que as diferenciam, o endro é uma espécie de ciclo anual enquanto que o funcho é perene, podendo durar 10 anos ou mais.
Anethum graveolens forma um pequeno arbusto que pode chegar a 1 metro ou mais de altura, dependendo das condições que encontra. É bastante atrativo e fica lindíssimo em qualquer jardim tendo a vantagem, para si próprio e para as outras espécies vizinhas, de atrair muitos insetos que chegam em busca de pólen e néctar. 
Alguns deles são polinizadores, abelhas, vespas, borboletas, visitantes de vai e vem. Outros, moscas-das-flores (sirfídeos) e besouros (coleópteros), nem sempre polinizam mas em contrapartida são agentes de controlo biológico natural de pragas pois são espécies predadoras (geralmente na fase larvar) de afídeos, pulgões, tripes e outras pragas que parasitam e sugam a seiva das plantas. 
Sirfídeos e coleópteros parecem encontrar na Anethum graveolens um sítio de abrigo com boas condições para o acasalamento, com recursos alimentares quer para adultos (pólen e néctar) quer para as larvas. 
Os caules finos, de seção cilíndrica, são ramificados na parte superior; são eretos mas, com o peso das umbelas, acabam por descair em direção ao solo; a superfície é de coloração verde azulada, sem pelos, e apresenta-se coberta de estrias longitudinais. 
No seu interior os caules são ocos, porém preenchidos com uma abundante medula branca.
As folhas inserem-se nas axilas dos nós, de forma alternada mostrando bainhas abertas e de forma cónica  que abraçam os caules.

O contorno do limbo das folhas é triangular ou em forma de losango mas é muitissimo recortado, subdividindo-se 3 ou 4 vezes,  resultando em múltiplos segmentos filiformes.

As minúsculas flores, de cor amarela, são muito numerosas e reúnem-se em grandes inflorescências arredondadas semelhantes a um conjunto de pequenos guarda chuvas abertos. Esta é a característica mais evidente da família botânica Apiaceae (também designada Umbelliferae) a que pertence a espécie Anethum graveolens. A estas inflorescências dá-se o nome de umbelas, origem do nome  Umbelliferae originalmente dado a esta família. As flores têm pedicelos de comprimentos diferentes o que lhes permite ficarem todas à mesma altura. Nesta espécie a inflorescência é composta por varias umbélulas, ou seja umbelas mais pequenas.

Numa umbela o extremo do pedúnculo dilata-se formando um recetáculo no qual se insere um número variável de pedicelos, chamados raios, geralmente de tamanhos aproximados. No caso particular da Anethum graveolens o tamanho dos raios é algo desigual.
As pequenas flores são hermafroditas pois possuem órgãos de reprodução de ambos os sexos. Fenecem rapidamente, começando por perder as pequenas corolas assim como os estames, pois nesta espécie a maturação das estruturas masculinas (estames) precede a maturação das estruturas femininas (estigmas e estiletes). A corola é constituída por 5 pétalas minúsculas, arredondadas, entalhadas no topo e dobradas para trás. As brácteas e as bractéolas estão ausentes nesta espécie. As sépalas estão reduzidas a 5 pequenos dentes situados no topo do ovário. Os estames são 5, de cor amarela. A parte superior do pistilo é formada por dois estilos livres com ápices divergentes os quais engrossam na base formando uma protuberância cónica onde se deposita o néctar e a qual persiste durante a frutificação.
A planta floresce e frutifica de junho a setembro.
Os frutos, produzidos em grande quantidade, são compostos por duas partes as quais se abrem durante a maturidade deixando sair as sementes. 
Os frutos são ovais, achatados e apresentam três nervuras longitudinais proeminentes e duas expansões laterais semelhantes a asas que ajudam na dispersão pelo vento
Anethum graveolens pertence à família Apiaceae ou Umbelliferae (ambos os nomes são admitidos), uma importante família botânica que engloba entre 2500 a 3700 espécies divididas entre 300 a 450 géneros, alguns deles de classificação duvidosa e seguramente sujeitos a revisão. Anethum graveolens está incluída no género Anethum, um pequeníssimo género de apenas 4 espécies mas esteve, durante algum tempo, incluída no género Peucedanum.

O sabor do endro é diferente do funcho ou de qualquer outra aromática, algo entre o amargo e o agradavelmente picante, com um travo muito ténue de anis. O aroma é muito intenso e característico. Folhas e sementes têm sabores ligeiramente diferentes mas são igualmente apreciadas.
As folhas devem ser utilizadas frescas, acabadas de colher ou congeladas pois perdem muito do seu sabor quando secas. Pela mesma razão devem ser adicionadas no final da cozedura ou ser usadas em cru. Pelo contrário as sementes inteiras devem ser incorporadas no início da cozedura pois levam algum tempo a libertar o seu sabor.
O endro é usado para dar sabor a sopas, guisados, massas, ovos, molhos, carnes grelhadas e pratos de peixe. Por exemplo, na Escandinávia o endro é ingrediente essencial no tempero do salmão.
Podem juntar-se as sementes a bolos e ao pão e são também muito usadas na aromatização de pickles aos quais dão um sabor muito característico. As próprias folhas e flores podem ser usadas como pickles. 
As sementes podem ser reduzidas a pó ou ser consumidas inteiras.
O óleo essencial que se obtém através da compressão das folhas é de qualidade inferior ao que se retira das sementes, sendo este de qualidade excelente, de odor muito característico mas agradável. O óleo essencial das folhas é utilizado na indústria dos licores enquanto que o óleo das sementes é utilizado como matéria-prima na confeção de sabonetes, detergentes, cremes, perfumes e loções. 
O endro é um repelente natural das traças pelo que se podem aproveitar as flores secas colocando-as dentro de saquinhos para perfumar e desinfetar armários e gavetas. Moscas e melgas também não gostam do seu cheiro.
Mas as qualidades do endro/Anethum graveolens não ficam por aqui, pois são muitas as propriedades terapêuticas que o levam a ser utilizado como remédio caseiro, para debelar uma quase interminável variedade de afeções. É especialmente eficaz para acalmar cólicas intestinais em bebés, estimula a digestão, cura enjoos, flatulência, azia, insónia, dispepsia, dores de dentes, infeções dos rins, infeções uterinas, problemas oculares, etc.
O endro é também ótimo para clarear a pele e fortalecer as unhas mas uma das qualidades que a tornaram mais preciosa nos tempos da Antiguidade era o de eliminar o mau hálito, uma patologia com implicações afetivas, sociais e até religiosas. Em certas culturas o mau hálito era considerado motivo valido para dissolução do casamento, daí a importância do endro e outras aromáticas em épocas tão remotas. As sementes do endro eram mastigadas ou misturadas com vinho e murta.

Os tratamentos passam pelas infusões das folhas ou das sementes e, desde que não haja exagero na sua ingestão não parece haver problemas de toxicidade. Contudo, convém não iniciar qualquer tratamento sem o conselho adequado para prevenir alguma possível contraindicação. O manuseamento persistente da planta pode causar dermatites e aumentar a sensibilidade da pele às radiações solares.

Anethum graveolens é uma espécie fácil de cultivar, quer no solo ou num vaso, de preferência num local abrigado mas não muito quente. Não suporta transplantes pelo que deve ser semeada no local definitivo. As sementes devem ser colocadas à superfície, (apenas cobertas com uma fina camada de terra) pois necessitam de claridade para germinar. A planta cresce rapidamente pois é de ciclo anual, podendo as sementes ser colhidas cerca de 3 ou 4 meses após a sementeira.

Usos e costumes:

Há milhares de anos que o endro (Anethum graveolens) é utilizado em culinária e em medicina popular. Já era usado pelos antigos egípcios há cerca de 5.000 anos, em xaropes para a tosse e alívio das dores de cabeça. Usavam-na também nos processos de mumificação e na preparação de unguentos e perfumes. 
Foi muito popular entre os gregos que queimavam o óleo extraído das sementes para perfumar o ambiente das suas casas, o que era considerado a maior das extravagâncias mesmo para os mais ricos, tendo em conta o alto preço desta planta. Os gregos também misturavam as folhas do endro no vinho para lhe incrementar o sabor e curavam as feridas dos soldados colocando as sementes sobre elas. 
Esta pratica foi seguida pelos romanos que também juntavam a planta à alimentação dos gladiadores na crença de que isso aumentaria a sua força física. 
Para o povo hebreu o valor comercial desta planta era enorme. O seu consumo foi sujeito a um imposto cobrado pelos romanos, durante a ocupação da Palestina e o dízimo, imposto religioso, era pago com uma porção de endro, entre outras especiarias. Atestando a sua importância existem referências a esta planta no Talmude e também na Bíblia, mais concretamente no Evangelho segundo São Mateus 23, 23:
"Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Vocês dão o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, mas têm negligenciado os preceitos mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Vocês devem praticar estas coisas, sem omitir aquelas.”
Reza ainda a Historia que Carlos Magno servia as sementes nos banquetes aos seus convidados como meio de sanar os soluços resultantes dos excessos no consumo de vinho e comida. 
Na Idade Média a planta foi muito usada, sendo uma das plantas favoritas tanto para fazer feitiços de cariz amoroso como na proteção contra a bruxaria. 
Durante o século XVII era usada com o objetivo de conservar uma boa saúde física e mental e também tinha fama de afrodisíaca. 
Durante os séculos XVII e XVIII, em Inglaterra, as sementes eram consumidas durante os longos serviços religiosos proporcionando algum conforto a adultos e crianças. 
No século seguinte as sementes chegaram a ser usadas como coadjuvantes nas dietas de emagrecimento. 
Hoje em dia o endro é um dos ingredientes característicos da cozinha tradicional de muitos países europeus especificamente em toda a Escandinávia, Rússia, Holanda, Polónia, Bulgária, Alemanha, Grécia e Turquia. Na India e Paquistão as sementes são especialmente valorizadas como digestivas e geralmente servidas no final das refeições, embora a espécie mais cultivada seja a Anethum sowa, cujas sementes são maiores.
Em Portugal o endro é pouco conhecido, não sendo muito utilizado na nossa cozinha tradicional, talvez porque são tantas as aromáticas que temos à disposição. A única exceção que conheço é a Sopa do Espírito Santo, prato típico da ilha de Santa Maria, nos Açores.

Fotos: Serra do Calvo/Lourinhã



segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Silene gallica L.

Nomes comuns:
Cabacinha; erva-cabaceira; erva-de-leite;
erva-mel; erva-ovelha; gorga; nariz-de-zorra

Silene gallica é uma espécie nativa das Ilhas Britânicas, Europa central, Península Ibérica, região mediterrânica e Oeste asiático, tendo-se naturalizado em muitas outras regiões de clima temperado. Em Portugal floresce e frutifica durante a primavera e o verão, um pouco por todo o território. A sua presença é indicadora de solos moderadamente secos e desenvolve-se muito bem em campos baldios, cultivados ou de pousio, pastos, jardins abandonados, beira dos caminhos, dunas e arribas do litoral. 
Na generalidade gosta de solos azotados embora não muito fertilizados. É uma espécie invasora de algumas culturas como a aveia e o trigo, pelo que é muitas vezes ferozmente combatida. 
No nosso país, por enquanto, ainda se encontra com frequência mas há que ter em conta o que tem acontecido noutros países da Europa, nomeadamente na Irlanda e Grã-Bretanha onde esta espécie se tornou dramaticamente muito escassa, passando a ser espécie protegida. A redução drástica nas populações de Silene gallica nestes países deveu-se principalmente ao incremento das práticas agrícolas com o respectivo aumento das áreas cultivadas e à intensificação do uso de herbicidas e adubos.
Silene gallica é uma pequena planta herbácea de ciclo de vida anual cuja altura varia entre os 8 e os 45 cm e cujas características morfológicas podem ser muito variáveis.

Podem aparecer exemplares glabros mas é muito raro pois geralmente toda a planta está coberta por pelos, pouco densos mas bem visíveis; os da metade superior são pelos glandulares e pegajosos que protegem a planta dos insetos herbívoros, muitos dos quais nela ficam presos, acabando por morrer. Muito apropriadamente um dos nomes comuns em inglês é Catch fly, ou seja, apanha moscas.

Os ramos, eretos, podem ser simples ou ramificados desde a base e estão providos de folhas cobertas com alguns pelos; são opostas, inteiras e terminam numa ponta curta, aguda e rígida.
A forma das folhas é bastante variável: as inferiores podem ser de espatuladas a oblanceoladas e as superiores de ovado-lanceoladas a elípticas.
As flores são pequenas mas lindas e de aspeto delicado; agrupam-se em inflorescências em que, providas de pedicelos curtos e de tamanho semelhante, se colocam ao longo de um eixo comum que se forma no prolongamento do pedúnculo. 
As flores nascem na axila das brácteas as quais são mais compridas que os pedicelos e têm formato linear ou elíptico.
O cálice, coberto de pelos multicelulares (para absorção de água e sais minerais) e glandulares (para proteção contra insetos herbívoros), é constituído por 5 sépalas unidas que formam um tubo o qual se apresenta fortemente contraído na parte superior e se abre para o exterior por 5 dentes triangulares. As linhas de união entre as sépalas formam 10 nervuras longitudinais de cor verde ou vermelha.
A corola é formada por 5 pétalas brancas ou rosadas, desiguais entre si, podendo o limbo ser inteiro ou dentado na margem. Alem disso, apresenta um apêndice chanfrado na base de cada pétala, entre a unha e o limbo.
Nesta espécie as flores são hermafroditas, dispondo de órgãos reprodutores dos dois sexos. Do androceu emergem 10 estames com a base peluda e o gineceu tem um ovário que apresenta geralmente 3 estilos.
O fruto é uma cápsula de formato cónico que se abre espontaneamente na maturação pelos dentes da parte superior. As sementes são muito enrugadas, de cor cinzento escuro e em forma de rim.

Esta espécie pertence ao género Silene, o maior da família Caryophyllaceae. Este género reúne cerca de 600 a 700 espécies divididas em 44 secções. São muito diversificadas, anuais ou perenes. Estão amplamente distribuídas pelas zonas temperadas do Hemisfério Norte sendo a região mediterrânica e a Ásia central as duas áreas geográficas com maior concentração. Contudo, podem encontrar-se espécies nativas em todos os continentes exceto na Austrália. Este género inclui plantas muito bonitas e de aspeto delicado, muitas delas cultivadas como ornamentais.

Um caso curioso é o da espécie Silene stenophylla que cresce nas tundras da Sibéria. Sementes desta espécie que há 32.000 anos permaneciam congeladas a 38 metros de profundidade, foram regeneradas por cientistas russos que a partir delas conseguiram fazer crescer, em laboratório, réplicas da planta. Veja mais detalhes AQUI.

No que diz respeito a Portugal, o Portal da Flora-on apresenta registo de 41 espécies espontâneas do género Silene. Veja AQUI.

A IMPORTÂNCIA DO GÉNERO SILENE

O género Silene, estudado por Darwin, Mendel e outros cientistas pioneiros, ressurge nos nossos dias como um excelente modelo para estudar questões interrelacionadas no âmbito da ecologia, evolução e biologia do desenvolvimento. Há muitas questões sobre a evolução dos cromossomas sexuais, controle epigenético da expressão sexual, conflitos genómicos e especiação (evolução dos mecanismos de isolamento reprodutivo) que carecem de resposta e espera-se que os estudos com as espécies Silene possam dar alguns esclarecimentos.
Ao longo da sua evolução as plantas desenvolveram diferentes estratégias reprodutivas, em contraste com os animais e o género Silene é um exemplo marcante dessa situação. A maioria das suas espécies são ginodioicas (em que se combinam flores hermafroditas com flores unissexuais femininas no mesmo individuo), mas também existem espécies hermafroditas (todas as flores são bissexuais, apresentando órgãos reprodutivos femininos e masculinos) e dioicas (as flores femininas e as flores masculinas aparecem em indivíduos separados).
No género Silene as espécies ginodioicas são as prováveis ancestrais a partir das quais umas quantas evoluíram para o hermafroditismo e outras para a dioicia. Por sua vez as espécies dioicas evoluíram em sentidos diferentes, tendo algumas delas desenvolvido cromossomas sexuais especializados, análogos aos do sistema reprodutivo dos seres humanos e outros mamíferos.
De notar que na natureza existem alguns milhares de espécies dioicas mas apenas algumas desenvolveram cromossomas sexuais. Apesar de tudo as espécies dioicas do género Silene são o alvo preferencial dos cientistas para fazer estudos comparativos, entre plantas e mamíferos, no que diz respeito à evolução dos cromossomas sexuais. Estas plantas, muitas vezes anuais, têm a vantagem de se desenvolverem rapidamente apresentando ciclos de vida curtos em comparação com os mamíferos.
Nas espécies ginodioicas o sexo é determinado pela presença de genes de esterilidade masculina citoplasmática (esterilidade parcial ou total numa planta que resulta numa falha na produção de anteras e pólen). Esta característica nas plantas é controlada por genes citoplasmáticos que existem na célula do gameta materno e é por isso herdada maternalmente.
A primeira documentação sobre a esterilidade masculina citoplasmática data do final do seculo XVIII, por Kölreuter, botânico alemão que foi o pioneiro no estudo das plantas hibridas. A esterilidade masculina citoplasmática está, hoje em dia, registada em mais de 150 espécies.
Esta anormalidade hereditária inicialmente considerada um fenómeno indesejável foi entretanto convertida numa vantagem de importância económica. É um dos métodos utilizados para o melhoramento genético das produções através da criação de híbridos.
A esterilidade masculina citoplasmática apresenta vantagens no cultivo de certas espécies ornamentais. As flores dessas plantas não produzem frutos razão pela qual apresentam maior longevidade (floração mais alargada no tempo e flores maiores) que as flores das plantas produtoras de sementes da mesma espécie, característica muito vantajosa em plantas de jardim.
Este tipo de esterilidade masculina também é útil na produção de sementes hibridas de arroz, soja, girassol, milho e outras, mas principalmente de espécies comestíveis cuja parte comercial são folhas, caule ou raiz.

As interacções com o fungo parasita Microbotryum também fizeram do género Silene um modelo para o estudo da evolução e dinâmica das moléstias em sistemas naturais. Também as investigações sobre as suas interacções com os insetos herbívoros poderão aumentar os conhecimentos sobre os processos ecológicos multitróficos e a evolução das plantas infestantes. As ferramentas da genética molecular (DNA) vão permitir novas abordagens a muitos destes problemas, ao mesmo tempo que novos progressos poderão ser feitos através da combinação de estudos da filogenética evolutiva e evolução genética e molecular.

Fotos - Serra do Calvo / Lourinhã



sábado, 21 de dezembro de 2013

Sugestão de NATAL...

21 dezembro 2013
Começa hoje o inverno e assim se regista, em mais um solstício, o dia mais pequeno do ano. Mas alegremo-nos porque a partir de amanhã, cada dia será maior que o anterior e teremos mais tempo de sol. Nos meses que faltam até à esperada explosão de vida da primavera, aproveitemos para apreciar a beleza das espécies que florescem no inverno pois na sua sábia gestão e sentido de equilíbrio, a natureza também se enfeita durante a época fria.
Seguindo este exemplo dotemos o nosso jardim com algumas espécies de floração invernal e se forem autóctones, melhor ainda! Que tal o alecrim, que além de florescer nesta altura do ano até à primavera, também lhe poderá oferecer uma nova floração no final do verão?

No meu jardim tenho alguns e variados cultivares de Rosmarinus officinalis, vulgo alecrim. Alguns têm porte ereto, outros são semiprostrados e outros ainda prostrados, espalhando-se e enraizando-se pelo solo, com ramos em arco. Os meus alecrins têm flores que vão do azul claro até ao azul quase violeta mas também existem cultivares de flores brancas.

Os Rosmarinus officinalis são plantas bastante tolerantes à seca e formam arbustos muito atrativos do ponto de vista estético e sensorial, sendo muito utilizados em arquitetura paisagista. São também resistentes às pragas e muito fáceis de cuidar. Dão-se bem ao sol, tanto na terra como restringidos em vasos grandes, mas devem ser aparados para evitar o crescimento excessivo e a perda de folhas nos ramos inferiores.

Característica dos climas mediterrânicos, Rosmarinus officinalis é uma espécie espontânea em algumas regiões de Portugal, sendo utilizada desde longa data como planta medicinal e condimento. Nada como uma chávena de chá de folhas de alecrim de vez em quando, para aumentar a sensação de bem-estar!

E assim, um pouco à margem da orientação deste blog aqui fica esta sugestão e algumas fotos de Rosmarinus officinalis do meu jardim, quebrando a ordem autoestabelecida, o que também sabe bem!
Feliz Natal e Bom Ano para todos, que as festas tragam o brilho e o imaginário de que todos necessitamos para nos reciclarmos e recomeçarmos com energias redobradas.