"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





sexta-feira, 25 de abril de 2014

Quercus coccifera L. subsp. coccifera

Nomes comuns:
Carrasco; carvalho-dos-quermes; carrasco-galego;
carrasqueiro; carrasquinha; verdadeiro-carrasco

Quercus coccifera é um arbusto de folhas persistentes originário do sul da Europa e que cresce de forma espontânea em toda a região mediterrânica. É uma espécie de crescimento lento que pode atingir os 3 metros de altura, ou mesmo mais. 
Apesar da sua envergadura é considerada um arbusto pois não tem apenas um tronco principal como acontece com as árvores, antes apresenta vários troncos semelhantes que nascem à altura do solo. Estes são numerosos, ascendentes, muito ramificados e tortuosos, curvando-se numa e noutra direção. 
Cobertos de folhas, os ramos formam uma massa densa e intrincada que serve de refúgio a pequenos mamíferos tais como coelhos e lebres e até aves, nomeadamente perdizes, que aproveitam para aí fazerem os seus ninhos, com toda a privacidade. É, pois, uma espécie importante para a conservação da biodiversidade.
Quercus coccifera pertence à família Fagaceae que inclui cerca de 1000 espécies entre arbustos e arvores, distribuídas pelas zonas temperadas do hemisfério norte e agrupadas em 8 géneros, entre os quais o género Quercus no qual se enquadra esta espécie. O género Quercus (carvalhos) inclui cerca de 600 espécies das quais 9 são de crescimento espontâneo em Portugal Continental, nomeadamente o sobreiro, a azinheira, o carvalho-cerquinho, carvalho-negral e carvalho-roble, entre outras.
Sendo uma espécie arbustiva a Quercus coccifera está melhor adaptada à contingência de fogos do que as espécies arbóreas. Logo após a extinção dos fogos, novos ramos rebentam vigorosamente, graças ao seu enraizamento profundo. O mesmo acontece em casos de fogos sucessivos, tornando-se, nos primeiros anos após um fogo, numa espécie dominante nas regiões onde está instalada,  aproveitando o espaço deixado livre por outras espécies mais sensíveis.
Cresce em todos os tipos de solo mas adapta-se especialmente bem aos terrenos calcários, secos e pedregosos, em locais expostos ao sol. É uma espécie muito resistente cujas características morfológicas lhe permitem suportar os verões secos e por vezes escaldantes tão característicos do clima mediterrânico. Também a podemos ver em arribas expostas aos ventos do litoral os quais, no entanto, lhe restringem o crescimento. 
Distribuição em Portugal Continental
 Fonte: Jardim Botânico UTAD
É comum no centro e sul de Portugal crescendo em baldios e encostas sendo a sua expansão favorecida pela degradação de azinhais e sobreirais e outras quercíneas. 
As folhas, de pecíolo curto, apresentam forma oblonga ou obovada e as margens são dentadas e espinhosas; são muito lustrosas e brilhantes, de aspeto coriáceo e de cor verde-escuro na página superior e amareladas na inferior.
Esta é uma espécie monoica, ou seja, na mesma planta coexistem flores masculinas e flores femininas, separadas. As flores masculinas, muito abundantes, dispõem-se em espigas alongadas e pendentes enquanto as femininas, em menor numero, são solitárias ou se reúnem aos pares nas axilas das folhas.
Este arbusto floresce durante os meses de abril e maio mas só frutifica em agosto do ano seguinte. Os 18 meses que medeiam entre a polinização e a maturação do fruto são de “trabalho” e esforço energético pois há que processar a transformação de flores diminutas em frutos comparativamente grandes.
Os frutos são glandes, vulgarmente chamados bolotas, comestíveis e bem característicos das espécies do género Quercus. A bolota, de forma oval e de cor castanha quando madura, é globosa e termina em ponta rígida; está inserida numa cúpula hemisférica de cor castanho-claro que cobre pelo menos metade da parte carnuda. Esta cúpula liga-se ao ramo por meio de um pedúnculo curto e está eriçada de escamas imbricadas, salientes e quase espinhosas. As bolotas de Querqus coccifera são mais globosas que as das outras quercíneas mas são também as mais amargas pelo que poucas vezes terão sido consumidas pelas populações ou utilizadas na alimentação de animais domésticos. Ainda assim serão certamente apreciadas pela fauna silvestre que, pouco habituada a luxos, se contenta com o que a natureza põe ao seu alcance.
Característico do género Quercus e muito especialmente da Quercus coccifera é o aparecimento de galhas (também designadas por bugalhos) nas folhas ou nos ramos. As galhas apresentam-se como pequenas excrescências de forma mais ou menos esférica e que à primeira vista parecem frutos. As galhas resultam das picadas de certo tipo de insetos que ocasionam uma reação que leva ao espessamento dos tecidos criando assim, um espaço que funciona como casulo. É nesse espaço que o inseto deposita os seus ovos e as larvas se desenvolvem, parasitando a planta e aproveitando-se dos nutrientes que retiram da galha.
No caso do Quercus coccifera as galhas são provocadas pelo inseto do género Kermes, Kermococcus vermilio. As galhas são vermelhas e desenvolvem-se durante o inverno, principalmente em anos mais húmidos; inicialmente parecem flores, depois vão tomando a forma arredondada, ficando esponjosas por dentro e duras por fora. Estas galhas foram, em tempos idos, muito utilizadas para obter tinta de cor escarlate ou carmim usada para muitos fins, desde as artes ao tingimento de têxteis. Pela dificuldade em obter esta cor de outra forma o corante de Kermes, também chamado grã-de-carrasco, teve no passado grande valor comercial em Portugal e noutros países do Mediterrâneo ocidental que o exportavam para o norte da Europa. O inseto em causa pertence à família Coccidae de onde deriva o nome científico Coccifera que identifica a espécie Quercus coccifera.

O Instituto Nacional de Recursos Biológicos publicou um boletim com algumas informações interessantes sobre este assunto o qual começa assim: “Kermes vermilio Planchon, conhecido como grã-dos-tintureiros ou grã-de-carrasco, é um inseto do grupo das cochonilhas, que foi utilizado em tinturaria, para dar a cor carmesim a tecidos valiosos, fabricados desde a antiguidade clássica em toda a Europa, principalmente na zona mediterrânica. Em Portugal era vulgar na Arrábida e no Barrocal algarvio, com grandes populações, que permitiram a sua exploração comercial, tendo sido exportado, como matéria corante preciosa, para muitos centros têxteis europeus. Hoje é raríssimo, não só em Portugal, sendo uma espécie em extinção, mas também noutras zonas onde antes era abundante.” … Para ler mais, clique AQUI

Em certas regiões de Portugal a produção do corante kermes poderá ter contribuído para a manutenção de algumas florestas de quercíneas, nomeadamente no Parque Natural da Arrábida. Na realidade muitas foram as florestas mediterrânicas que com as suas populações de carvalhos desapareceram para sempre devido à desflorestação desenfreada não só para aproveitamento das madeiras mas também para obter novos campos agrícolas. 


NOTA À MARGEM:
O corante quermes caiu em desuso com a introdução na Europa do corante de cochonilha ou corante carmim, importado do México durante o período colonial e que era dez vezes mais rentável. O corante de cochonilha era transacionado pelos Maias, tal como tinha sido feito pelos Aztecas e possuía grande valor comercial na América do Sul. Teve muito sucesso na Europa onde passou a ser consumido em larga escala. Este corante natural perdeu a sua importância com a descoberta dos corantes sintéticos, no seculo XIX. Contudo mais recentemente o corante de cochonilha voltou a ser comercialmente viável, por ser natural ao contrário dos corantes artificiais que poderão ser tóxicos ou cancerígenos. Este corante, denominado E-120, é usado para dar cor vermelha ou rosa a grande variedade de alimentos, doces ou salgados, nomeadamente gelados, iogurtes, gelatinas, salsichas entre outros. É também usado em produtos farmacêuticos e de cosmética. O corante cochonilha obtém-se a partir do inseto cochonilha (Dactylopius coccus), criado em catos do género Opuntia, no México, Peru, Bolivia, Chile e ilhas Canárias. Para mais detalhes veja AQUI.

Resta acrescentar que o nome cochonilha se aplica a diversos insetos que se alimentam da seiva das plantas, podendo mata-las se não forem eliminados. Quase todos nós já a tivemos nas nossas plantas ornamentais, numa altura ou outra. As cochonilhas assumem diversos aspetos, desde a aparência de pequenas lapas acastanhadas ou pequenas ostras brancas até aos pequenos farrapos semelhantes a algodão. Uma coisa têm em comum: quando esmagadas todas libertam um líquido vermelho, o acido carmínico, o qual é produzido como defesa contra os predadores.  

A Floresta mediterrânica em Portugal
FONTE:  SPEA = Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves

“Mais de metade da floresta original do nosso planeta já foi destruída. As causas são diversas, mas destacam-se as que se devem a ações diretas do Homem como os incêndios, a desflorestação para plantações e construção de cidades, as pragas e doenças e também a introdução de espécies provenientes de diferentes habitats, as chamadas espécies invasoras. A poluição atmosférica e as alterações climáticas têm também impacto no desaparecimento das florestas, causando secas, e contribuindo para o aumento dos incêndios. Os cenários futuros não são animadores e prevê-se que simultaneamente aos períodos de seca e aumento das temperaturas, haja um aumento das tempestades e períodos de chuva intensa.
As florestas são uma fonte de riqueza que, quando bem gerida, pode tornar-se inesgotável. Das florestas o homem pode retirar a madeira para fazer mobiliário e papel, carvão, cortiça, resina, cogumelos, frutos silvestres, mel, entre outros. As florestas protegem ainda os solos da erosão, armazenam carbono e purificam o ar e água e regulam os sistemas hidrológicos através do controlo dos caudais.
O ecoturismo é também uma atividade económica em franco crescimento. Atividades como a observação de aves ou mesmo as caminhadas, são sinónimo de bons momentos passados em harmonia com a natureza, que demonstram bem que conservação e turismo podem andar de mãos dadas.
Montados e florestas de sobreiro, azinheira e carvalhos (quercíneas) de Portugal Continental são fontes de biodiversidade. São habitats que sofrem um grau variável de intervenção humana, que vai desde a extração da cortiça até ao uso múltiplo silvícola, agropecuário, apícola, cinegético e turístico. São um exemplo paradigmático de uma exploração florestal múltipla, sustentável, de grande importância socioeconómica, cultural e ecológica. A importância ecológica reside no facto destas florestas de sobro e carvalhos funcionarem como barreiras contra a desertificação do solo e contra os incêndios florestais.
Nas florestas de quercíneas foram catalogadas mais de 700 espécies de plantas, incluindo endemismos ibéricos, como a Peónia (Paeonia broteroi)  e o Rosmaninho (Lavandula stoechas luisieri)  . Ocorrem 24 espécies de répteis e anfíbios e 160 espécies de aves, das quais mais de 100 nidificam. Ocorrem também 37 espécies de mamíferos, de onde podemos destacar o Gato-bravo (Felix sylvestris), ameaçado de extinção em toda a Europa, o Ratinho-de-Cabrera (Microtus cabrerae) e o Lince-ibérico (Lynx pardina), ambos endemismos ibéricos. Esta última espécie é mesmo o felídeo mais ameaçado do mundo, existindo atualmente menos de 120 indivíduos em Portugal e Espanha.
As aves são indicadores precisos do estado do ambiente nos habitats e ecossistemas, porque estão posicionadas no topo das cadeias alimentares, porque são muito conspícuas e ocorrem em vastas áreas. Nestes habitats florestais ocorrem espécies ameaçadas de extinção, como a Cegonha-preta (Ciconia nigra), a Águia-imperial-ibérica (Aquila adalberti)  e a Águia-perdigueira (Hieraaetus fasciatus). Podemos encontrar também espécies raras, como a Águia-cobreira (Circaetus gallicus), o Bútio-vespeiro (Pernis apivorus), o Peneireiro-cinzento (Elanus caeruleus)  ou a Toutinegra-real (Sylvia hortensis). Mas acima de tudo podemos observar um fervilhar de dezenas de espécies comuns (aves de rapina diurnas e noturnas, perdizes, poupas e abelharucos, pica-paus, cotovias, picanços, estorninhos, gaios e pegas, piscos, rouxinóis e tordos, felosas e toutinegras, chapins, trepadeiras, pardais, tentilhões e escrevedeiras), que são o indicador da saúde ambiental dos montados e florestas de Sobro.”

Fotos: Serra do Calvo e Caniçal / Lourinhã



domingo, 30 de março de 2014

Cytisus grandiflorus (Brot.) DC.subsp. grandiflorus

Nome comum: Giesta-das-sebes

Por esta altura do ano os campos são um festival de amarelo e dourado. Às pequenas florinhas rasteiras juntam-se as giestas e os tojos, este ano particularmente viçosos e floridos. Agrupando-se em manchas de tons dourados, enriquecem a paisagem com uma beleza todos os anos repetida mas sempre surpreendente. E apesar da chuva e do frio que voltaram para nos lembrar que o verão ainda vem longe, essa beleza vai permanecer por mais algum tempo fazendo as delícias de abelhas, borboletas e outros insetos polinizadores.
A espécie Cytisus grandiflorus subsp. grandiflorus foi a escolhida para o “post” de hoje. Esta é uma espécie autóctone, nativa da Península Ibérica, bastante comum em muitas regiões do norte e centro de Portugal Continental. Cresce de forma espontânea em situações de sol ou meia sombra em terrenos rochosos e abandonados mas sobretudo fazendo parte do coberto vegetal constituído por espécies arbustivas que ocorrem em pinhais, carrascais ou montados, tais como urzes, carquejas, sargaços e estevas. Também é muito usada na recuperação paisagística sendo comum em taludes e à beira das autoestradas.
Cytisus grandiflorus subsp. grandiflorus forma um arbusto muito vistoso e de aspeto delicado. A floração não é tão densa como a de algumas outras espécies da mesma subfamília mas as flores são maiores (daí o nome da espécie, grandiflorus). Enquanto a floração se prolonga e novas flores vão surgindo, as mais velhas dão lugar aos frutos.

Os seus vários ramos crescem eretos e longos, formando ângulos separados por nós. A superfície dos ramos de 2º ano é esquinada, no sentido longitudinal, apresentando 5 arestas salientes e bastante pronunciadas. Quando envelhecem os ramos tornam-se roliços, perdem a cor verde e tornam-se cinzento-acastanhados e de aspeto rugoso, deixando de produzir folhas e flores as quais nascem em ramos mais jovens, geralmente do ano anterior.
As folhas, caducas, são simples, apenas com alguns pelos nas margens e quase não têm pecíolo. Nos ramos de entrenós mais compridos as folhas estão solitárias mas nos raminhos laterais cujos entrenós são mais curtos, as folhas encavalitam-se formando grupos de três a cinco.
As flores, providas de um pequeno pedicelo, nascem nas axilas das folhas e surgem solitárias ou aos pares. A corola, de cor amarela, é formada por cinco pétalas, uma maior e situada na parte superior (o estandarte), duas laterais (as asas) e duas situadas na parte inferior e que estão unidas (a quilha). 
Esquema de uma flor papilionácea
Este é um tipo de flor a que se chama papilionácea por ser semelhante a uma borboleta e é característico da família a que pertence a Cytisus grandiflorus. A diferente morfologia das pétalas corresponde a funções diferenciadas e complementares que resultam numa estratégia altamente especializada no que diz respeito à polinização por insetos, facilitando a polinização cruzada. 
Os órgãos reprodutivos femininos e masculinos da flor encontram-se encerrados na quilha.
O estandarte, sendo maior, é o fator de atração visual para os insetos e as asas funcionam como plataforma de aterragem. Ora, quando os polinizadores pousam nas asas, a quilha baixa e em consequência, os estames e estigma ficam expostos ao corpo do inseto, permitindo que se faça a troca de pólenes.
A base das pétalas que formam as asas e a quilha estão envoltas entre si formando um tubo do qual emergem 10 estames (5 curtos, 1 mediano e 4 compridos) e um estilo tão comprido que se enrola sobre si mesmo, em espiral.
Esta espécie floresce e frutifica de março a julho.
O fruto de Cytisus grandiflorus subsp. grandiflorus  é uma vagem linear-oblonga, toda ela muito peluda, ligeiramente curvada, fortemente comprimida. Começa por ser verde mas com a maturação a vagem torna-se negra, com pelos brancos. Cada vagem pode conter de 2 a 9 sementes, ovóides e pardacentas.

Cytisus grandiflorus é nativa do oeste e sul da Península Ibérica e noroeste de Marrocos e divide-se em duas subespécies, as quais nem sempre são de fácil identificação. No entanto existem algumas diferenças mais óbvias:
Cytisus grandiflorus subsp. grandiflorus  (Brot.) DC. (acima descrita):
- Em Portugal distribui-se pelo norte e centro de Portugal.
- A superfície dos ramos de 2º ano é esquinada, no sentido longitudinal, apresentando 5 arestas salientes e bastante pronunciadas.
- As vagens estão densamente cobertas por pelos brancos e compridos, em ambas as faces.
Cytisus grandiflorus subsp. cabezudoi Talavera
- Esta subespécie é endémica das regiões costeiras do sul da Península Ibérica. Em Portugal foi assinalada no Algarve e no Alentejo litoral, em solos arenosos e dunares.
- Os ramos de 2º ano são quase arredondados, estando as arestas pouco marcadas.
- Ambas as faces das vagens são glabras apresentando pelos apenas nas margens.

A Cytisus grandiflorus pertence ao género Cytisus, um dos 700 géneros em que se divide a família das Fabaceae, também denominada Leguminosae, cujas espécies estão largamente distribuídas por todos os continentes, com exceção da Antártida. Compreendendo 18.000 espécies, esta é uma das maiores famílias botânicas, pelo que foi dividida em três subfamílias (Faboideae ou Papilionoideae, Mimosoideae e Caesalpinioideae). A Cytisus grandiflorus está colocada na subfamília Faboideae ou Papilionoideae.
São plantas de hábitos variados podendo ser herbáceas, trepadeiras, arbustos e árvores. Muitas delas são utilizadas como ornamentais, outras têm grande valor comercial ou industrial devido aos produtos que deles podem ser extraídos, nomeadamente o tanino, substância usada na indústria do couro, já para não falar dos corantes, tinturas, colas, vernizes etc. Mas, é sobretudo como alimentos básicos e essenciais na dieta de todos os povos que as leguminosas são mais conhecidas pois desta família fazem parte feijões, favas, ervilhas, soja, amendoim, apenas para citar algumas espécies.
Conforme já aqui referido em “posts” anteriores, as espécies da família Fabaceae são fixadoras do nitrogénio presente na atmosfera, tornando os solos mais férteis. Tal acontece através da formação de nódulos nas raízes resultantes da simbiose com bactérias do género Rhizobium as quais absorvem o azoto, também chamado nitrogénio, diretamente da atmosfera transformando-o em amoníaco, permitindo que este seja, de imediato, absorvido pela planta. Mas, nem todo o azoto é utilizado pela própria planta pelo que algum é libertado para o solo, para ser aproveitado por outras. O azoto é essencial ao crescimento das plantas pelo que esta característica é de extrema importância.

O efeito benéfico que advém do plantio de plantas leguminosas é conhecido desde há muitos séculos mas foi só em 1889 que foi identificada a primeira bactéria Rhizobium leguminosarum, comprovando o papel dos microrganismos na fixação do azoto atmosférico consociados com as leguminosas.
A quantidade de azoto fixado pelas bactérias que com elas vivem associadas depende, entre outros fatores, da espécie de leguminosa e das condições do solo.
Na agricultura dos nossos dias há quem prefira utilizar os chamados “adubos verdes” para enriquecer o solo, em detrimento de produtos químicos. Isto consiste em cultivar espécies de crescimento rápido, geralmente da família das leguminosas, as quais são colhidas e enterradas no mesmo local antes de florescerem e criarem sementes. Esta prática promove o enriquecimento do solo com azoto e outros nutrientes, além de melhorar a estrutura dos terrenos, protegendo-os da seca e limitando o desenvolvimento das ervas daninhas.
A Cytisus grandiflorus é uma espécie apreciada em jardins, destacando-se como exemplar isolado ou em maciços. Multiplica-se por semente podendo tornar-se invasora em algumas situações pois as sementes germinam facilmente. Aprecia os solos leves e arenosos com boa exposição solar. É uma espécie rústica e tem a vantagem de não se incomodar muito com os ventos marítimos. Apesar de resistente à seca deve ser regada periodicamente (sem encharcar) e para manter uma forma compacta e evitar que a planta fique demasiado nua nos ramos mais velhos, deve ser podada no inverno para estimular o desenvolvimento de ramos novos. Contudo há que ter em conta que é uma espécie tóxica, o que aliás acontece com muitas plantas de jardim.

Entretanto, muitas são as espécies arbustivas, aparentemente semelhantes entre si, que florescem nesta época do ano. As suas flores são muito idênticas, do tipo papilionáceo e quase sempre amarelas. As espécies são muitas e nem sempre é fácil distingui-las pelo que popularmente costumamos separa-las em dois grupos: as que têm picos e as que os não têm. Às espinhosas, geralmente mais baixas e compactas habituamo-nos a chamar tojos e as outras, altas e de ramos finos conhecemo-las por giestas. Tal "classificação" nem sempre corresponde à realidade. São todas da família Fabaceae, subfamília Faboideae mas pertencem a géneros diferentes, não só Cytisus mas também, Ulex, Genista e mais alguns, menos representativos. Veja as fotos que lhe poderão mostrar as diferenças e semelhanças entre várias destas espécies, no portal da Flora-on, clicando AQUI, AQUI e AQUI.

Fotos de Cytisus grandiflorus: Serra do Calvo/Lourinhã



terça-feira, 11 de março de 2014

Phillyrea angustifolia L.

Nomes comuns:
Aderno-de-folhas-estreitas; cardono; lentisco; 
lentisco-bastardo


Phillyrea angustifolia é um arbusto nativo do noroeste africano (Argélia, Marrocos, Tunísia) e do sul da Europa (Itália, França, Espanha e Portugal). Distribui-se pela orla mediterrânica, onde predominam os invernos frios e húmidos e os verões quentes e secos. Cresce em matagais e matos constituídos por arbustos de pequeno porte característicos de locais secos e pedregosos, com grande exposição solar.
Distribuição em Portugal
Fonte: Jardim Botânico UTAD
Phillyrea angustifolia desenvolve-se a baixa altitude em qualquer tipo de solo pelo que em Portugal Continental (não existe nos arquipélagos da Madeira e dos Açores) tanto podemos encontra-la no interior do país como nas dunas do litoral. 
Nas arribas do Caniçal/Lourinhã a Phillyrea angustifolia cresce associada a outras espécies tipicamente mediterrânicas em que predominam os Cistus, os Juniperus Pistacia lentiscus, Daphne gnidium e Lonicera implexa, entre outras.
Estas espécies, chamadas xerófitas, caracterizam-se por terem desenvolvido mecanismos de adaptação que lhes permitem viver, de forma aparentemente confortável, em ambientes secos e quentes ou ventosos. Veja mais detalhes AQUI.
A Phillyrea angustifolia forma um arbusto densamente ramificado que na sua plenitude pode atingir os 4 metros de altura. 
Os ramos são longos e flexíveis, com casca lisa e acinzentada a qual apresenta numerosas saliências esponjosas de forma elíptica. Estas pequenas estruturas formam-se nas raízes, nos troncos, ramos e por vezes até nos frutos (Ex: pera) de muitas espécies de plantas vasculares que desenvolvem cascas grossas e têm como função fazerem as trocas gasosas entre o interior e o exterior da planta.

As folhas, persistentes durante o ano inteiro, são estreitas e inteiras, colocando-se de forma oposta nos caules; de pecíolo curto e exibindo um tom verde-escuro, o seu aspeto é coriáceo devido às ceras que protegem o limbo limitando a transpiração e evitando assim que haja perda inútil de água.
As flores, de tamanho diminuto, são aromáticas e geralmente são polinizadas pelo vento. Reúnem-se em cachos curtos que crescem bem apertados nas axilas das folhas do ano anterior. 
As pétalas são 4 e estão protegidas por 4 sépalas, estas ligeiramente pubescentes. Pétalas e sépalas, de tom branco rosado, estão unidas parcialmente na base formando um tubo curto. Os 2 estames têm filetes curtos mas são salientes em relação à corola devido às grandes anteras amarelas. Na parte superior do ovário, o estilo é curto e na sua parte superior aparece o estigma, bilobado.
O fruto é carnudo tal como uma azeitona mas de formato esférico. Quando está madura toma a cor preta ou azul escura. No seu interior encontra-se um caroço e dentro dele, uma única semente.
A Phillyrea angustifolia floresce no início da primavera mas os frutos só amadurecem no outono. As fotos das flores foram tiradas em finais de março e as dos frutos nos inícios de outubro. 
É um lindo arbusto que pode ser utilizado em jardins com muito sucesso, quer como exemplar solitário quer em conjunto, formando sebe. Prefere ser plantada em pleno sol, mas também não se incomoda com uma situação de meia sombra. Gosta de solos férteis mas não tem requisitos especiais no que diz respeito ao pH do solo. 
Tolera os ventos marítimos o que a torna muito útil em jardins da orla marítima. Não requer rega a não ser no primeiro ano, após a plantação (sem encharcar) ou até estar bem estabelecida. Para além de uma pequena poda todos os anos para lhe restringir o tamanho ou manter a forma, não requer cuidados especiais. É ainda muito atrativa para as aves que procuram os seus frutos no outono.
A Phillyrea angustifolia pode ser confundida com uma espécie semelhante, a Phillyrea latifolia, também nativa da região mediterrânica e que ocorre por vezes nos mesmos habitats. Podem no entanto distinguir-se facilmente sobretudo através das folhas que são mais largas na P. latifolia, como aliás os próprios nomes científicos das espécies indicam (angustifolia = folhas estreitas e latifolia = folhas largas). Veja a diferença AQUI.

Estas duas espécies são as representantes do pequeno género Phillyrea o qual se inclui na família Oleaceae. Esta família agrupa cerca de 25 géneros e 600 espécies, distribuídas por quase todos cantos do mundo com exceção das regiões frias do hemisfério norte e do hemisfério sul. Algumas espécies são de grande importância económica como são os casos da oliveira (Olea europaea), importante oleaginosa e também o freixo (Fraxinus) muito usado na indústria da madeira. Há ainda muitas espécies cultivadas como ornamentais nomeadamente os jasmins (Jasminum), os lilases (Syringa) , os ligustros (Ligustrum) e as Forsythia.

Phillyrea angustifolia é uma espécie androdioica !

O que sabemos sobre o sistema reprodutivo da Phillyrea angustifolia foi reformulado recentemente após estudos efetuados em várias localidades de França. Os testes revelaram que esta espécie, numa mesma população, tem uma taxa elevada de plantas com flores masculinas (só produzem pólen), a par de plantas com flores hermafroditas (produzem óvulos e pólen através de órgãos reprodutores férteis de ambos os sexos). Nesta espécie as flores masculinas apresentam vestígios de um gineceu (órgão feminino) o qual não é funcional pois está atrofiado.
Esta espécie tem mecanismos que impedem a autopolinização. Assim, tendo em conta os fatores de incompatibilidade (mecanismo fisiológico de base genética que se manifesta pela incapacidade de uma planta fértil formar sementes quando fertilizada pelo seu próprio pólen) o pólen das flores masculinas hermafroditas tem o seu campo de ação limitado pois só consegue fertilizar uma em cada duas flores. É nesta situação que as flores das plantas masculinas mostram a sua importância e eficácia pois elas podem polinizar todas as flores hermafroditas, sem restrições familiares. Só assim se compreende que as flores masculinas não só não tenham desaparecido através da seleção natural, como se mantenham em tão grande número. A esta forma de reprodução, muito rara na natureza entre as angiospermas (plantas com flor), chama-se androdioicia
A androdioicia estável e bem definida é um dimorfismo que pressupõe a presença de indivíduos masculinos e hermafroditas separados, existentes numa população que se reproduza por via sexuada.
Durante muito tempo este sistema foi considerado apenas no plano teórico por muitos cientistas que acreditavam que nunca seria encontrado na natureza pois as condições necessárias para o surgimento e sustentação da androdioicia eram improváveis. Pensavam que as situações assinaladas não passavam de formas bizarras de dioicia
Entretanto, estudos realizados nas duas últimas décadas (Pannell 2002), vieram confirmar a androdioicia funcional em várias espécies vegetais. Apesar disso, este sistema de reprodução não deixa de ser raríssimo e os cientistas estão a ser muito cautelosos quando se trata de classificar uma planta como androdioica uma vez que na euforia da descoberta alguns testes poderão ser apressados e certos indicadores mal interpretados.

Há várias situações que podem ser confundidas com androdioicia, havendo nestes casos semelhanças que são apenas aparentes. Apresento alguns casos interessantes:

- Em certas espécies a determinação do sexo das flores depende do tamanho da planta, como acontece com Arisaema dracontium, Panax trifolium ou Apodanthera undulate.
Nestas espécies as plantas de pequeno tamanho têm geralmente função masculina e quando crescem são hermafroditas. Assim nestes casos particulares podem encontrar-se na mesma população plantas masculinas e plantas hermafroditas mas funcionalmente não são androdioicas. Este dimorfismo não é determinado geneticamente, o que acontece é que estas espécies têm a faculdade de escolher o fenótipo que possa vir a maximizar o seu desempenho num dado ano. Plantas pequenas ou sujeitas a condições ambientais “stressantes” geralmente escolhem o fenótipo masculino enquanto as mais fortes escolhem o morfo hermafrodita. Talvez isto aconteça porque a produção de sementes, para ser bem-sucedida, exige mais recursos do que a produção de pólen e assim as plantas pequenas optam pela função mais fácil de cumprir.

- Outra situação presumível tem a ver com o tremendo esforço que representa para certas espécies hermafroditas a produção de frutos. O desgaste em termos energéticos é tão grande que as flores hermafroditas que frutificaram num ano poderão estar incapazes de produzir frutos no seguinte. Desta forma apenas os órgãos masculinas dessas flores produzirão durante uma estação, enquanto as funções femininas “cansadas” se recompõem. Entretanto as restantes flores que não tinham produzido na época anterior estarão teoricamente aptas na seguinte em ambas as funções, masculina e feminina. Em tais populações se as flores forem examinadas apenas uma vez poderão dar a ideia errónea de que são androdioicas.

- Há ainda o caso de certas plantas que se suspeitava serem androdioicas, como por exemplo a perene alpina Lloydia serotina, cujos estudos subsequentes vieram revelar que afinal elas possuem a estratégia de mudar de sexo de ano para ano, ora masculinas, ora hermafroditas, conforme seja mais conveniente ao seu melhor desempenho na produção de sementes.

Resumindo, as populações só devem ser consideradas funcionalmente androdioicas se revelarem um dimorfismo sexual claro com a existência de duas classes distintas de plantas: masculinas que não tenham função feminina e hermafroditas que contribuam geneticamente de forma substancial através de ambas as suas funções sexuais. Ou seja, uma população androdioica equilibrada deve incluir plantas masculinas e hermafroditas que façam, em média, igual contribuição genética para as gerações seguintes.

Pode ver mais detalhes em Functional ecology by J.R. Pannell

Fotos: Arribas do Caniçal/Lourinhã