"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Anethum graveolens L. syn. Peucedanum graveolens (L.) C.B.Clarke.

Nomes comuns: 
Endro; aneto; funcho-bastardo; anega

Anethum graveolens é uma planta aromática muito apreciada e amplamente consumida no mundo inteiro mas principalmente na India, Egito e outros países mediterrânicos e também na Europa central e Escandinávia. Em Portugal é mais conhecida pelo nome vulgar de endro e em muitos países do mundo por dill. É uma espécie de origem asiática (Asia ocidental e India) que se assilvestrou e naturalizou em diversas regiões da Europa, presumivelmente introduzida durante a ocupação dos romanos.
Como consequência da colheita indiscriminada repetida ao longo de séculos, esta espécie está praticamente extinta como planta silvestre. No entanto é extensamente cultivada, quer em jardins e pequenas hortas, quer em grandes plantações cujo objetivo é a comercialização. Felizmente pode ainda ser encontrada, na sua forma espontânea, em alguns locais da Itália e da Península Ibérica. Em Portugal encontra-se por aqui e por ali, crescendo em campos cultivados, vinhas, milharais e beira dos caminhos.
À primeira vista a espécie Anethum graveolens pode ser confundida com o funcho, Foeniculum officinale, espécie mais conhecida entre nós, no entanto a semelhança é apenas aparente. Pertencem ambas à mesma família botânica mas o aroma e sabor são inteiramente diversos e, para além de outras características morfológicas que as diferenciam, o endro é uma espécie de ciclo anual enquanto que o funcho é perene, podendo durar 10 anos ou mais.
Anethum graveolens forma um pequeno arbusto que pode chegar a 1 metro ou mais de altura, dependendo das condições que encontra. É bastante atrativo e fica lindíssimo em qualquer jardim tendo a vantagem, para si próprio e para as outras espécies vizinhas, de atrair muitos insetos que chegam em busca de pólen e néctar. 
Alguns deles são polinizadores, abelhas, vespas, borboletas, visitantes de vai e vem. Outros, moscas-das-flores (sirfídeos) e besouros (coleópteros), nem sempre polinizam mas em contrapartida são agentes de controlo biológico natural de pragas pois são espécies predadoras (geralmente na fase larvar) de afídeos, pulgões, tripes e outras pragas que parasitam e sugam a seiva das plantas. 
Sirfídeos e coleópteros parecem encontrar na Anethum graveolens um sítio de abrigo com boas condições para o acasalamento, com recursos alimentares quer para adultos (pólen e néctar) quer para as larvas. 
Os caules finos, de seção cilíndrica, são ramificados na parte superior; são eretos mas, com o peso das umbelas, acabam por descair em direção ao solo; a superfície é de coloração verde azulada, sem pelos, e apresenta-se coberta de estrias longitudinais. 
No seu interior os caules são ocos, porém preenchidos com uma abundante medula branca.
As folhas inserem-se nas axilas dos nós, de forma alternada mostrando bainhas abertas e de forma cónica  que abraçam os caules.

O contorno do limbo das folhas é triangular ou em forma de losango mas é muitissimo recortado, subdividindo-se 3 ou 4 vezes,  resultando em múltiplos segmentos filiformes.

As minúsculas flores, de cor amarela, são muito numerosas e reúnem-se em grandes inflorescências arredondadas semelhantes a um conjunto de pequenos guarda chuvas abertos. Esta é a característica mais evidente da família botânica Apiaceae (também designada Umbelliferae) a que pertence a espécie Anethum graveolens. A estas inflorescências dá-se o nome de umbelas, origem do nome  Umbelliferae originalmente dado a esta família. As flores têm pedicelos de comprimentos diferentes o que lhes permite ficarem todas à mesma altura. Nesta espécie a inflorescência é composta por varias umbélulas, ou seja umbelas mais pequenas.

Numa umbela o extremo do pedúnculo dilata-se formando um recetáculo no qual se insere um número variável de pedicelos, chamados raios, geralmente de tamanhos aproximados. No caso particular da Anethum graveolens o tamanho dos raios é algo desigual.
As pequenas flores são hermafroditas pois possuem órgãos de reprodução de ambos os sexos. Fenecem rapidamente, começando por perder as pequenas corolas assim como os estames, pois nesta espécie a maturação das estruturas masculinas (estames) precede a maturação das estruturas femininas (estigmas e estiletes). A corola é constituída por 5 pétalas minúsculas, arredondadas, entalhadas no topo e dobradas para trás. As brácteas e as bractéolas estão ausentes nesta espécie. As sépalas estão reduzidas a 5 pequenos dentes situados no topo do ovário. Os estames são 5, de cor amarela. A parte superior do pistilo é formada por dois estilos livres com ápices divergentes os quais engrossam na base formando uma protuberância cónica onde se deposita o néctar e a qual persiste durante a frutificação.
A planta floresce e frutifica de junho a setembro.
Os frutos, produzidos em grande quantidade, são compostos por duas partes as quais se abrem durante a maturidade deixando sair as sementes. 
Os frutos são ovais, achatados e apresentam três nervuras longitudinais proeminentes e duas expansões laterais semelhantes a asas que ajudam na dispersão pelo vento
Anethum graveolens pertence à família Apiaceae ou Umbelliferae (ambos os nomes são admitidos), uma importante família botânica que engloba entre 2500 a 3700 espécies divididas entre 300 a 450 géneros, alguns deles de classificação duvidosa e seguramente sujeitos a revisão. Anethum graveolens está incluída no género Anethum, um pequeníssimo género de apenas 4 espécies mas esteve, durante algum tempo, incluída no género Peucedanum.

O sabor do endro é diferente do funcho ou de qualquer outra aromática, algo entre o amargo e o agradavelmente picante, com um travo muito ténue de anis. O aroma é muito intenso e característico. Folhas e sementes têm sabores ligeiramente diferentes mas são igualmente apreciadas.
As folhas devem ser utilizadas frescas, acabadas de colher ou congeladas pois perdem muito do seu sabor quando secas. Pela mesma razão devem ser adicionadas no final da cozedura ou ser usadas em cru. Pelo contrário as sementes inteiras devem ser incorporadas no início da cozedura pois levam algum tempo a libertar o seu sabor.
O endro é usado para dar sabor a sopas, guisados, massas, ovos, molhos, carnes grelhadas e pratos de peixe. Por exemplo, na Escandinávia o endro é ingrediente essencial no tempero do salmão.
Podem juntar-se as sementes a bolos e ao pão e são também muito usadas na aromatização de pickles aos quais dão um sabor muito característico. As próprias folhas e flores podem ser usadas como pickles. 
As sementes podem ser reduzidas a pó ou ser consumidas inteiras.
O óleo essencial que se obtém através da compressão das folhas é de qualidade inferior ao que se retira das sementes, sendo este de qualidade excelente, de odor muito característico mas agradável. O óleo essencial das folhas é utilizado na indústria dos licores enquanto que o óleo das sementes é utilizado como matéria-prima na confeção de sabonetes, detergentes, cremes, perfumes e loções. 
O endro é um repelente natural das traças pelo que se podem aproveitar as flores secas colocando-as dentro de saquinhos para perfumar e desinfetar armários e gavetas. Moscas e melgas também não gostam do seu cheiro.
Mas as qualidades do endro/Anethum graveolens não ficam por aqui, pois são muitas as propriedades terapêuticas que o levam a ser utilizado como remédio caseiro, para debelar uma quase interminável variedade de afeções. É especialmente eficaz para acalmar cólicas intestinais em bebés, estimula a digestão, cura enjoos, flatulência, azia, insónia, dispepsia, dores de dentes, infeções dos rins, infeções uterinas, problemas oculares, etc.
O endro é também ótimo para clarear a pele e fortalecer as unhas mas uma das qualidades que a tornaram mais preciosa nos tempos da Antiguidade era o de eliminar o mau hálito, uma patologia com implicações afetivas, sociais e até religiosas. Em certas culturas o mau hálito era considerado motivo valido para dissolução do casamento, daí a importância do endro e outras aromáticas em épocas tão remotas. As sementes do endro eram mastigadas ou misturadas com vinho e murta.

Os tratamentos passam pelas infusões das folhas ou das sementes e, desde que não haja exagero na sua ingestão não parece haver problemas de toxicidade. Contudo, convém não iniciar qualquer tratamento sem o conselho adequado para prevenir alguma possível contraindicação. O manuseamento persistente da planta pode causar dermatites e aumentar a sensibilidade da pele às radiações solares.

Anethum graveolens é uma espécie fácil de cultivar, quer no solo ou num vaso, de preferência num local abrigado mas não muito quente. Não suporta transplantes pelo que deve ser semeada no local definitivo. As sementes devem ser colocadas à superfície, (apenas cobertas com uma fina camada de terra) pois necessitam de claridade para germinar. A planta cresce rapidamente pois é de ciclo anual, podendo as sementes ser colhidas cerca de 3 ou 4 meses após a sementeira.

Usos e costumes:

Há milhares de anos que o endro (Anethum graveolens) é utilizado em culinária e em medicina popular. Já era usado pelos antigos egípcios há cerca de 5.000 anos, em xaropes para a tosse e alívio das dores de cabeça. Usavam-na também nos processos de mumificação e na preparação de unguentos e perfumes. 
Foi muito popular entre os gregos que queimavam o óleo extraído das sementes para perfumar o ambiente das suas casas, o que era considerado a maior das extravagâncias mesmo para os mais ricos, tendo em conta o alto preço desta planta. Os gregos também misturavam as folhas do endro no vinho para lhe incrementar o sabor e curavam as feridas dos soldados colocando as sementes sobre elas. 
Esta pratica foi seguida pelos romanos que também juntavam a planta à alimentação dos gladiadores na crença de que isso aumentaria a sua força física. 
Para o povo hebreu o valor comercial desta planta era enorme. O seu consumo foi sujeito a um imposto cobrado pelos romanos, durante a ocupação da Palestina e o dízimo, imposto religioso, era pago com uma porção de endro, entre outras especiarias. Atestando a sua importância existem referências a esta planta no Talmude e também na Bíblia, mais concretamente no Evangelho segundo São Mateus 23, 23:
"Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Vocês dão o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, mas têm negligenciado os preceitos mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Vocês devem praticar estas coisas, sem omitir aquelas.”
Reza ainda a Historia que Carlos Magno servia as sementes nos banquetes aos seus convidados como meio de sanar os soluços resultantes dos excessos no consumo de vinho e comida. 
Na Idade Média a planta foi muito usada, sendo uma das plantas favoritas tanto para fazer feitiços de cariz amoroso como na proteção contra a bruxaria. 
Durante o século XVII era usada com o objetivo de conservar uma boa saúde física e mental e também tinha fama de afrodisíaca. 
Durante os séculos XVII e XVIII, em Inglaterra, as sementes eram consumidas durante os longos serviços religiosos proporcionando algum conforto a adultos e crianças. 
No século seguinte as sementes chegaram a ser usadas como coadjuvantes nas dietas de emagrecimento. 
Hoje em dia o endro é um dos ingredientes característicos da cozinha tradicional de muitos países europeus especificamente em toda a Escandinávia, Rússia, Holanda, Polónia, Bulgária, Alemanha, Grécia e Turquia. Na India e Paquistão as sementes são especialmente valorizadas como digestivas e geralmente servidas no final das refeições, embora a espécie mais cultivada seja a Anethum sowa, cujas sementes são maiores.
Em Portugal o endro é pouco conhecido, não sendo muito utilizado na nossa cozinha tradicional, talvez porque são tantas as aromáticas que temos à disposição. A única exceção que conheço é a Sopa do Espírito Santo, prato típico da ilha de Santa Maria, nos Açores.

Fotos: Serra do Calvo/Lourinhã



segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Silene gallica L.

Nomes comuns:
Cabacinha; erva-cabaceira; erva-de-leite;
erva-mel; erva-ovelha; gorga; nariz-de-zorra

Silene gallica é uma espécie nativa das Ilhas Britânicas, Europa central, Península Ibérica, região mediterrânica e Oeste asiático, tendo-se naturalizado em muitas outras regiões de clima temperado. Em Portugal floresce e frutifica durante a primavera e o verão, um pouco por todo o território. A sua presença é indicadora de solos moderadamente secos e desenvolve-se muito bem em campos baldios, cultivados ou de pousio, pastos, jardins abandonados, beira dos caminhos, dunas e arribas do litoral. 
Na generalidade gosta de solos azotados embora não muito fertilizados. É uma espécie invasora de algumas culturas como a aveia e o trigo, pelo que é muitas vezes ferozmente combatida. 
No nosso país, por enquanto, ainda se encontra com frequência mas há que ter em conta o que tem acontecido noutros países da Europa, nomeadamente na Irlanda e Grã-Bretanha onde esta espécie se tornou dramaticamente muito escassa, passando a ser espécie protegida. A redução drástica nas populações de Silene gallica nestes países deveu-se principalmente ao incremento das práticas agrícolas com o respectivo aumento das áreas cultivadas e à intensificação do uso de herbicidas e adubos.
Silene gallica é uma pequena planta herbácea de ciclo de vida anual cuja altura varia entre os 8 e os 45 cm e cujas características morfológicas podem ser muito variáveis.

Podem aparecer exemplares glabros mas é muito raro pois geralmente toda a planta está coberta por pelos, pouco densos mas bem visíveis; os da metade superior são pelos glandulares e pegajosos que protegem a planta dos insetos herbívoros, muitos dos quais nela ficam presos, acabando por morrer. Muito apropriadamente um dos nomes comuns em inglês é Catch fly, ou seja, apanha moscas.

Os ramos, eretos, podem ser simples ou ramificados desde a base e estão providos de folhas cobertas com alguns pelos; são opostas, inteiras e terminam numa ponta curta, aguda e rígida.
A forma das folhas é bastante variável: as inferiores podem ser de espatuladas a oblanceoladas e as superiores de ovado-lanceoladas a elípticas.
As flores são pequenas mas lindas e de aspeto delicado; agrupam-se em inflorescências em que, providas de pedicelos curtos e de tamanho semelhante, se colocam ao longo de um eixo comum que se forma no prolongamento do pedúnculo. 
As flores nascem na axila das brácteas as quais são mais compridas que os pedicelos e têm formato linear ou elíptico.
O cálice, coberto de pelos multicelulares (para absorção de água e sais minerais) e glandulares (para proteção contra insetos herbívoros), é constituído por 5 sépalas unidas que formam um tubo o qual se apresenta fortemente contraído na parte superior e se abre para o exterior por 5 dentes triangulares. As linhas de união entre as sépalas formam 10 nervuras longitudinais de cor verde ou vermelha.
A corola é formada por 5 pétalas brancas ou rosadas, desiguais entre si, podendo o limbo ser inteiro ou dentado na margem. Alem disso, apresenta um apêndice chanfrado na base de cada pétala, entre a unha e o limbo.
Nesta espécie as flores são hermafroditas, dispondo de órgãos reprodutores dos dois sexos. Do androceu emergem 10 estames com a base peluda e o gineceu tem um ovário que apresenta geralmente 3 estilos.
O fruto é uma cápsula de formato cónico que se abre espontaneamente na maturação pelos dentes da parte superior. As sementes são muito enrugadas, de cor cinzento escuro e em forma de rim.

Esta espécie pertence ao género Silene, o maior da família Caryophyllaceae. Este género reúne cerca de 600 a 700 espécies divididas em 44 secções. São muito diversificadas, anuais ou perenes. Estão amplamente distribuídas pelas zonas temperadas do Hemisfério Norte sendo a região mediterrânica e a Ásia central as duas áreas geográficas com maior concentração. Contudo, podem encontrar-se espécies nativas em todos os continentes exceto na Austrália. Este género inclui plantas muito bonitas e de aspeto delicado, muitas delas cultivadas como ornamentais.

Um caso curioso é o da espécie Silene stenophylla que cresce nas tundras da Sibéria. Sementes desta espécie que há 32.000 anos permaneciam congeladas a 38 metros de profundidade, foram regeneradas por cientistas russos que a partir delas conseguiram fazer crescer, em laboratório, réplicas da planta. Veja mais detalhes AQUI.

No que diz respeito a Portugal, o Portal da Flora-on apresenta registo de 41 espécies espontâneas do género Silene. Veja AQUI.

A IMPORTÂNCIA DO GÉNERO SILENE

O género Silene, estudado por Darwin, Mendel e outros cientistas pioneiros, ressurge nos nossos dias como um excelente modelo para estudar questões interrelacionadas no âmbito da ecologia, evolução e biologia do desenvolvimento. Há muitas questões sobre a evolução dos cromossomas sexuais, controle epigenético da expressão sexual, conflitos genómicos e especiação (evolução dos mecanismos de isolamento reprodutivo) que carecem de resposta e espera-se que os estudos com as espécies Silene possam dar alguns esclarecimentos.
Ao longo da sua evolução as plantas desenvolveram diferentes estratégias reprodutivas, em contraste com os animais e o género Silene é um exemplo marcante dessa situação. A maioria das suas espécies são ginodioicas (em que se combinam flores hermafroditas com flores unissexuais femininas no mesmo individuo), mas também existem espécies hermafroditas (todas as flores são bissexuais, apresentando órgãos reprodutivos femininos e masculinos) e dioicas (as flores femininas e as flores masculinas aparecem em indivíduos separados).
No género Silene as espécies ginodioicas são as prováveis ancestrais a partir das quais umas quantas evoluíram para o hermafroditismo e outras para a dioicia. Por sua vez as espécies dioicas evoluíram em sentidos diferentes, tendo algumas delas desenvolvido cromossomas sexuais especializados, análogos aos do sistema reprodutivo dos seres humanos e outros mamíferos.
De notar que na natureza existem alguns milhares de espécies dioicas mas apenas algumas desenvolveram cromossomas sexuais. Apesar de tudo as espécies dioicas do género Silene são o alvo preferencial dos cientistas para fazer estudos comparativos, entre plantas e mamíferos, no que diz respeito à evolução dos cromossomas sexuais. Estas plantas, muitas vezes anuais, têm a vantagem de se desenvolverem rapidamente apresentando ciclos de vida curtos em comparação com os mamíferos.
Nas espécies ginodioicas o sexo é determinado pela presença de genes de esterilidade masculina citoplasmática (esterilidade parcial ou total numa planta que resulta numa falha na produção de anteras e pólen). Esta característica nas plantas é controlada por genes citoplasmáticos que existem na célula do gameta materno e é por isso herdada maternalmente.
A primeira documentação sobre a esterilidade masculina citoplasmática data do final do seculo XVIII, por Kölreuter, botânico alemão que foi o pioneiro no estudo das plantas hibridas. A esterilidade masculina citoplasmática está, hoje em dia, registada em mais de 150 espécies.
Esta anormalidade hereditária inicialmente considerada um fenómeno indesejável foi entretanto convertida numa vantagem de importância económica. É um dos métodos utilizados para o melhoramento genético das produções através da criação de híbridos.
A esterilidade masculina citoplasmática apresenta vantagens no cultivo de certas espécies ornamentais. As flores dessas plantas não produzem frutos razão pela qual apresentam maior longevidade (floração mais alargada no tempo e flores maiores) que as flores das plantas produtoras de sementes da mesma espécie, característica muito vantajosa em plantas de jardim.
Este tipo de esterilidade masculina também é útil na produção de sementes hibridas de arroz, soja, girassol, milho e outras, mas principalmente de espécies comestíveis cuja parte comercial são folhas, caule ou raiz.

As interacções com o fungo parasita Microbotryum também fizeram do género Silene um modelo para o estudo da evolução e dinâmica das moléstias em sistemas naturais. Também as investigações sobre as suas interacções com os insetos herbívoros poderão aumentar os conhecimentos sobre os processos ecológicos multitróficos e a evolução das plantas infestantes. As ferramentas da genética molecular (DNA) vão permitir novas abordagens a muitos destes problemas, ao mesmo tempo que novos progressos poderão ser feitos através da combinação de estudos da filogenética evolutiva e evolução genética e molecular.

Fotos - Serra do Calvo / Lourinhã



sábado, 21 de dezembro de 2013

Sugestão de NATAL...

21 dezembro 2013
Começa hoje o inverno e assim se regista, em mais um solstício, o dia mais pequeno do ano. Mas alegremo-nos porque a partir de amanhã, cada dia será maior que o anterior e teremos mais tempo de sol. Nos meses que faltam até à esperada explosão de vida da primavera, aproveitemos para apreciar a beleza das espécies que florescem no inverno pois na sua sábia gestão e sentido de equilíbrio, a natureza também se enfeita durante a época fria.
Seguindo este exemplo dotemos o nosso jardim com algumas espécies de floração invernal e se forem autóctones, melhor ainda! Que tal o alecrim, que além de florescer nesta altura do ano até à primavera, também lhe poderá oferecer uma nova floração no final do verão?

No meu jardim tenho alguns e variados cultivares de Rosmarinus officinalis, vulgo alecrim. Alguns têm porte ereto, outros são semiprostrados e outros ainda prostrados, espalhando-se e enraizando-se pelo solo, com ramos em arco. Os meus alecrins têm flores que vão do azul claro até ao azul quase violeta mas também existem cultivares de flores brancas.

Os Rosmarinus officinalis são plantas bastante tolerantes à seca e formam arbustos muito atrativos do ponto de vista estético e sensorial, sendo muito utilizados em arquitetura paisagista. São também resistentes às pragas e muito fáceis de cuidar. Dão-se bem ao sol, tanto na terra como restringidos em vasos grandes, mas devem ser aparados para evitar o crescimento excessivo e a perda de folhas nos ramos inferiores.

Característica dos climas mediterrânicos, Rosmarinus officinalis é uma espécie espontânea em algumas regiões de Portugal, sendo utilizada desde longa data como planta medicinal e condimento. Nada como uma chávena de chá de folhas de alecrim de vez em quando, para aumentar a sensação de bem-estar!

E assim, um pouco à margem da orientação deste blog aqui fica esta sugestão e algumas fotos de Rosmarinus officinalis do meu jardim, quebrando a ordem autoestabelecida, o que também sabe bem!
Feliz Natal e Bom Ano para todos, que as festas tragam o brilho e o imaginário de que todos necessitamos para nos reciclarmos e recomeçarmos com energias redobradas.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Eruca vesicaria (L.) Cav.


Nomes comuns:
Rúcula; agrião-da-terra; arucula; mostarda-persa; pinchão; rugula

Eruca vesicaria é uma espécie originária da região mediterrânica e oeste asiático, tendo-se propagado a outros continentes. Pode ser encontrada ocasionalmente como espécie espontânea também na Europa central, Ásia central, América do norte e Austrália. É uma das muitas plantas silvestres comestíveis cujo valor nutritivo é inestimável. Votada ao esquecimento durante seculos a Eruca vesicaria voltou a estar em destaque, tendo sido sendo reintroduzida com sucesso na alimentação humana e fazendo parte daquilo a que se convencionou chamar cozinha modernista, ávida de novas técnicas e sabores. Claro que já não é preciso ir busca-la ao campo pois é largamente cultivada e comercializada juntamente com outras espécies semelhantes, todas elas batizadas de rúcula. O seu cultivo faz-se em diferentes países mediterrânicos como a Itália, Grécia, Turquia, Egito, Sudão, Espanha e agora também Portugal.
Como planta silvestre, a Eruca vesicaria é bastante resistente e cresce geralmente em locais soalheiros, bem adaptada a climas temperados de verões quentes e secos. Desenvolve-se em qualquer tipo de solo podendo tornar-se invasiva pois ressemeia-se facilmente.
Podemos encontra-la em jardins ou hortas abandonadas, campos de pousio, orla dos caminhos e de uma forma geral em locais de solo remexido, ricos em azoto.
A Eruca vesicaria é uma planta de ciclo anual que pode crescer dos 20 aos 80 cm dependendo das condições de humidade do solo. É muito aromática, ereta, algo ramificada e coberta com alguns pelos.
As primeiras folhas formam uma roseta basal. As folhas caulinares dispõem-se de forma alternada e o seu limbo apresenta-se profundamente dividido em segmentos (lóbulos) de margens dentadas de forma irregular, terminando num lóbulo maior (folhas lirado-penatissetas).
Em Portugal a Eruca vesicaria floresce na primavera e mantem-se em floração até ao verão. As flores brotam no topo de um longo pedicelo, reunidas em inflorescências do tipo racimo: as flores inserem-se em diversos níveis no eixo comum e vão abrindo na extremidade do ramo conforme este vai crescendo. Desta forma as flores mais velhas e mais afastadas do ápice vão formando frutos ao mesmo tempo que no topo da planta as flores mais jovens mostram todo o seu esplendor.
As flores, de pedicelos ascendentes, apresentam a estrutura característica das Brassicaceae/Cruciferae, família a que pertence esta espécie. A corola é formada por 4 pétalas estreitas, livres e dispostas em cruz.
Intercaladas entre elas estão as 4 sépalas, persistentes durante a frutificação, as quais formam uma espécie de tubo, chamado unha. A unha protege a parte debaixo das pétalas, onde elas são mais estreitas, no ponto de inserção. As pétalas são de cor amarelo tão pálido que parecem quase brancas e são raiadas de finas nervuras de cor purpura ou violeta.
Apesar do seu pequeno tamanho são pétalas muito bonitas e tão delicadas que parecem borboletas. Os estames, de anteras amarelas, são 6 dos quais 4 são mais longos.
As flores são completas, isto é, estão providas de órgãos de reprodução femininos e masculinos, funcionais. A polinização é feita por abelhas e outros insetos.
Devido ao seu sabor intenso, ovelhas, cabras ou outro tipo de gado não são apreciadores da Eruca vesicaria e só a comem quando não há mais nada no pasto.
Phyllotreta cruciferae e Phyllotreta striolata - Wikimedia Commons
Contudo há insetos que não são tão esquisitos como é o caso de Phyllotreta cruciferae e Phyllotreta striolata que podem produzir grandes estragos na sua folhagem, caules e pétalas.
Xanthorhoe fluctuata - Wikimedia Commons
Eruca vesicaria é também alimento para as larvas de algumas espécies de borboletas noturnas nomeadamente a Xanthorhoe fluctuata.

Os frutos de Eruca vesicaria são síliquas, isto é, frutos secos, longos, e estreitos semelhantes a vagens cilíndricas, terminando num bico achatado e proeminente. Na maturação os frutos abrem-se longitudinalmente separando-se em duas valvas em cujo interior existem várias sementes de cor ocre, algo achatadas e dispostas em duas fiadas.
Rúcula, rúcula e rúcula:
Eruca vesicaria, Eruca sativa e Diplotaxis tenuifolia
Praticamente todas as espécies botânicas são conhecidas popularmente por um ou vários nomes os quais podem até variar dentro do mesmo país, conforme as regiões. Ao contrário dos nomes científicos que são universais, individuais e intransmissíveis, os nomes comuns não são fiáveis pois podem coincidir em espécies diferentes, originando confusão. É o que acontece no caso da rúcula. Na realidade, rúcula é um termo vernáculo utilizado para identificar espécies diferentes, mas idênticas na sua morfologia e sabor. Pertencem à mesma família (Brassicaceae) mas são de géneros diferentes. As folhas jovens e tenras das rúculas são muito consumidas hoje em dia, principalmente fazendo parte de saladas cruas, como guarnição principalmente em pizzas e também como condimento. Entre as espécies denominadas rúcula contam-se espécies pertencentes aos géneros Eruca e Diplotaxis, nomeadamente Eruca vesicaria, Eruca sativa e Diplotaxis tenuifolia. As folhas destas espécies têm morfologia semelhante e são caraterizadas por terem um sabor ligeiramente amargo, intenso e algo picante o qual se pode comparar ao do agrião mas mais acentuado.
Existe alguma controvérsia na classificação das espécies Eruca vesicaria e Eruca sativa. Embora classificada como espécie de direito próprio, alguns botânicos defendem que Eruca sativa não passa de uma subespécie de Eruca vesicaria. Outros consideram que a Eruca sativa é apenas a forma cultivada (do Latim 'sativus', significando 'cultivado' ou 'plantado') pois não encontram diferenças relevantes entre as duas. Nessa conformidade, a Flora Iberica confirma que algumas características assinaladas na Eruca sativa são consistentes com as formas cultivadas, podendo ser interpretadas como uma seleção artificial, tal como frutos mais longos e folhas maiores e comparativamente menos divididas.
Tradicionalmente distinguem-se as duas formas através das sépalas do cálice que tendem a ser persistentes na Eruca vesicaria e caducas na Eruca sativa mas ainda segundo a Flora Iberica as situações de persistência do cálice manifestam-se de forma esporádica em algumas populações silvestres e sobretudo a nível regional.
Embora estas três espécies possam à primeira vista ser confundidas existem algumas diferenças que justificam estarem classificadas em dois géneros diferentes:
- Género Eruca: Eruca vesiscaria e Eruca sativa, de flores brancas, são plantas de ciclo anual: nascem, florescem e frutificam, fenecendo no final da estação ou após a colheita das folhas a qual deve ser feita antes da floração, quando ainda são jovens e tenras. As folhas são mais largas e o sabor menos apimentado que na espécie Diplotaxis tenuifolia.
- Género Diplotaxis: Diplotaxis tenuifolia apresenta flores amarelas e é perene pelo que novas folhas crescem, na estação seguinte, a partir da mesma raiz. Em comparação com as espécies Eruca, a Diplotaxis tenuifolia apresenta folhas mais estreitas e o seu sabor é bastante mais picante/amargo e o aroma mais pungente.


Eruca vesicaria sativa
Diplotaxis tenuifolia - Wikimedia Commons
Através das diversas abordagens que foram realizadas para diferenciar os géneros Eruca e Diplotaxis foram observadas importantes diferenças nos seus compostos químicos, o que justifica a diferença nos respetivos sabores. Eruca vesicaria contém como principal componente derivados de kaempferol enquanto Diplotaxis tenuifolia contem derivados de quercetin. Embora diferentes, os fitoquímicos encontrados nestas espécies têm em comum potenciais propriedades farmacológicas o que faz das rúculas vegetais muito saudáveis e importantes para a nutrição humana tendo reconquistado um lugar de destaque à nossa mesa, pelo seu sabor, valor nutricional e baixas calorias. São também ricas em antioxidantes, vitaminas (A,B,C,K) e minerais (potássio, fosforo, ferro e enxofre). Os compostos dos flavonoides contidos nas suas folhas previnem certos tipos de cancro. Contudo, para que a alimentação seja equilibrada, não deve ser ingerida em excesso, pois em grandes quantidades inibe a absorção de iodo, prejudicando as funções da tiroide e levando ao hipotiroidismo.
A rúcula não é uma ideia nova, antes pelo contrário. Foi muito utilizada desde a Antiguidade, pelos povos do mediterrânico que já nessa altura conheciam as suas virtudes e a consideravam uma planta medicinal; não só extraiam óleo das suas sementes como consumiam as suas folhas cruas ou incluídas em sopas. Por ter propriedades estimulantes foi considerada uma espécie afrodisíaca e acredita-se que foi por esta razão que o seu consumo foi, em épocas mais obscuras, considerado moralmente reprovável e consequentemente marginalizado. Assim, por esta ou outras razões, o certo é que caiu em desuso tal como aconteceu com tantas outras plantas colhidas da natureza ou cultivadas em pequenas hortas para consumo próprio e que providenciaram alimento em tempos de carência.
Hoje em dia parece haver muita abundancia pois encontramos à venda, em qualquer altura do ano, muitas espécies de frutas e legumes que antes eram sazonais ou porventura exóticas. Criadas em estufas ou importadas, dão-nos uma sensação ilusória de variedade mas o certo é que com o êxodo rural muitas espécies deixaram de ser cultivadas e se perderam.
Pouco a pouco as espécies cultivadas e disponíveis para consumo vão-se reduzindo à uniformidade que as leis da procura impõem ao comércio, daí que o ressurgimento da rúcula tenha sido uma “lufada de ar fresco”, com consequente sucesso imediato.
Aparentemente as folhas de rúcula começaram por ser comercializadas na Austrália no início dos anos 90 do século passado, tendo sido desde logo um tremendo êxito que se espalhou ao resto do mundo civilizado. A novidade de um sabor diferente coincidiu com uma maior consciencialização da importância de consumir maior quantidade e variedade de produtos frescos e baixos em calorias. Também ajudou o facto de as folhas de rúcula terem sido lançadas no mercado em embalagens de produto lavado e escolhido, pronto a ser utilizado. Passou a ser o legume da moda, qual história de “Cinderela” no mundo da botânica, em que a modesta e rasteira planta silvestre subiu aos restaurantes “gourmet”. Mas infelizmente a popularidade tem um preço. Perante a escalada no consumo deste legume, pesquisas científicas têm sido realizadas no sentido de caraterizar as espécies comercializadas sob o nome de rúcula e perceber não só quais são as que apresentam colheitas mais rentáveis mas também as que têm melhor aceitação por parte dos consumidores. As espécies de sabor mais suave, menos ricas em glicosinolatos, parecem ser as mais procuradas. Em consequência é admissível que certas espécies venham a ser melhoradas em laboratório para lhes suavizar o sabor o que vai certamente reduzir as opções disponíveis no comércio. Os glicosinolatos, compostos encontrados nas espécies da família Brassicaceae/Cruciferae, e responsáveis pelo característico sabor mais ou menos picante destas plantas são importantes promotores da saúde, como antioxidantes e desintoxicantes. Por serem solúveis na água muito se perde com a cozedura, estando muito mais ativos nos vegetais comidos crus, em saladas, como é o caso da rúcula.

Ainda sobre a família Brassicaceae/Cruciferae:
As rúculas são espécies da família botânica Brassicaceae, também conhecida por Cruciferae. Cruciferae é o nome antigo mas este é ainda reconhecido como valido pelas autoridades competentes (ICBN Código Internacional de Nomenclatura Botânica) e faz referência às 4 pétalas dispostas em cruz que são características das flores desta família. A Brassicaceae/Cruciferae inclui cerca de 3700 espécies as quais estão agrupadas em 330 géneros. É uma família de grande importância económica. Cultiva-se um pouco por todo o mundo embora com maior prevalência nas zonas temperadas e atingindo maior diversidade na região mediterrânica. Algumas das espécies com valor comercial são ornamentais, outras são produtoras de óleos e gorduras vegetais obtidos através das suas sementes. De reconhecido valor nutricional, certas espécies são legumes imprescindíveis na alimentação humana, nomeadamente os brócolos, as couves, os rabanetes, os nabos, a mostarda e o agrião, entre outras. Muitas das espécies da família Brassicaceae foram, ao longo de milhares de anos, extensivamente alteradas e domesticadas não só levando à criação de novas espécies (por Ex: couve, repolho, brócolos, couve-flor e couve-de-bruxelas, apesar do seu aspeto distinto, provêm do mesmo ancestral silvestre comum e pertencem todas à mesma espécie, Brassica Oleracea), como também suavizando-lhes o característico sabor áspero e amargo.
O sabor característico das espécies desta família deve-se à alta concentração de compostos químicos nomeadamente os glicosinolatos, os quais exercem diversas funções nas plantas quer na regulação do seu próprio metabolismo e crescimento quer como defesa contra infeções por bactérias ou serem comidas por herbívoros. Na alimentação humana os glicosinolatos demonstraram ter potente ação preventiva em vários tipos de cancro. No entanto, a concentração de glucosinolatos é grandemente reduzida pela cozedura prolongada a temperaturas elevadas, tornando-se assim ineficaz como medida preventiva e curativa. Recomenda-se a ingestão em cru ou após cozedura a vapor e por um curto período de tempo, exceto no caso das pessoas que sofram de hipotiroidismo e metabolismo lento pois os glucosinolatos têm efeito inibidor sobre a função da tiroide, impedindo a absorção do iodo.

Fotos : Serra do Calvo / Lourinhã