"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





sábado, 28 de setembro de 2013

Ruta chalepensis L.


Nomes comuns:
Arruda; arruda-dos-calcários; erva-da-inveja;
erva-da-graça.


Ruta chalepensis é a planta a que dedico o meu “post” de hoje. Porém, antes de entrar em detalhes, convém recordar que são várias as espécies vulgarmente conhecidas, em Portugal, pelo nome vernáculo de arruda. Espontâneas ou cultivadas em hortas e jardins, são todas elas reputadas como plantas medicinais, desde tempos remotos. As raízes, folhas e inflorescências de Ruta graveolens, Ruta angustifolia, Ruta chalepensis e Ruta montana são ricas em óleos essenciais, alcaloides e múltiplos compostos químicos indicados no tratamento de variadíssimas doenças, graças às suas propriedades antihistamínicas, antiinflamatorias, antibacterianas, antimicóticas e ainda tonificantes do sistema nervoso.
As arrudas também são usadas em perfumaria pois são fortemente aromáticas; de facto, o seu odor é tão intenso que pode tornar-se desagradável para certas pessoas, embora haja quem o aprecie e o ache estimulante.
As folhas das arrudas são usadas como condimento em culinária e também para perfumar vinhos e licores, como atestam os nomes de algumas povoações, nomeadamente Arruda dos Vinhos. Também se usam as arrudas como repelentes de moscas e outros insetos.


As arrudas pertencem à família Rutaceae, a qual integra cerca de 2.100 espécies maioritariamente originárias de regiões tropicais e subtropicais. Esta família está organizada em cerca de 154 géneros, entre eles o género Ruta no qual se incluem as arrudas. Espécies como a laranja, o limão, a lima, a tangerina, a clementina ou a toranja fazem parte também da família Rutaceae, estando incluídas no género Citrus, género de grande importância económica a nível mundial. De referir ainda o género Pilocarpus de cujas espécies se extrai o alcaloide pilocarpina utilizado em oftalmologia e que funciona como antidoto nos envenenamentos por ingestão excessiva de atropina (Agatha Christie faz referencia a este alcaloide no seu livro de contos “The thirteen problems” ou Os treze problemas, protagonizados pela excelente Miss Marple).




Ruta chalepensis distribui-se por toda a Europa do sul principalmente nas regiões do mediterrâneo, desde a Península Ibérica até à Ásia e ilhas da Macaronésia (Açores, Madeira e Canarias) encontrando-se naturalizada também noutros continentes. Devido à sua popularidade é frequentemente cultivada como ornamental, muitas vezes assilvestrando-se fora dos seus locais naturais de crescimento espontâneo. Assim, não há dados concludentes acerca da sua origem e naturalização.

Esta espécie encontra-se principalmente em solos calcários pedregosos e nitrificados (ricos em nutrientes devido ao deposito de entulhos) e também em aterros, berma de caminhos sendo frequente nas regiões do litoral. Hoje em dia é também a espécie de arruda mais frequente em hortas e jardins, talvez pelo seu aroma menos agressivo. Dá-se bem em todos os tipos de solo e não só suporta alguma falta de água no verão como resiste a temperaturas negativas de -5 a -10 graus.


É uma planta perene e glabra (sem pelos), lenhosa na base e que pode crescer até aos 100 cm de altura, formando um pequeno arbusto de cor azulada. Os ramos são geralmente ascendentes podendo apresentar-se também prostrados.
As folhas estão dispostas de forma alternada nos caules; são compostas, tomando morfologias variáveis uma vez que o limbo de cada uma das folhas está dividido em vários segmentos os quais por sua vez se dividem em segmentos mais pequenos, uma ou mais vezes. Estes segmentos têm forma obovada, as margens são inteiras e o ápice arredondado.
A face superior das folhas é de um verde azulado, com glândulas que exalam os óleos aromáticos responsáveis pelo seu odor característico; a face inferior apresenta uma coloração mais clara. As folhas caulinares são menos divididas que as basais as quais apresentam por vezes segmentos muito pequenos.

As flores da Ruta chalepensis reúnem-se em inflorescências totalmente glabras e pouco densas, do tipo cimeira, ou seja: o pedúnculo principal termina numa flor e logo abaixo da primeira flor, junto à axila das brácteas que a protegem, emergem novos eixos em cujo ápice surgem mais flores, repetindo-se este processo 2 ou mais vezes.
Sob o ponto de vista reprodutor, as flores são monoclínicas (também chamadas hermafroditas) pois reúnem os dois sexos: gineceu com 4 carpelos e androceu com 8 estames livres, ligados ao disco nectarífero.

O cálice é constituído por 4 sépalas e a corola é formada por 4 pétalas de cor amarela, as quais são franjadas nas bordas. Contudo, acontece frequentemente que a flor central, ou seja a primeira a abrir, tenha 5 pétalas (neste caso existirão 5 carpelos no gineceu e os estames serão 10 pois nesta espécie existem tantos estames quantas pétalas + sépalas). Devido à sua localização os estames amadurecem em duas etapas. Isto é, metade dos estames estão inseridos em frente às sépalas e são estes os primeiros a abrir; só depois abrem os restantes estames que se situam na curva das pétalas.

Esta espécie floresce e frutifica de abril a agosto.
Os frutos são cápsulas secas e ovóides de aspeto rugoso cujo ápice se fende em 4 ou 5 partes, cada uma das quais contém várias sementes acinzentadas.

As várias espécies de arrudas podem confundir-se pois a folhagem é bastante semelhante (diferindo apenas no tamanho) e o azulado das folhas é característico. Contudo não é difícil diferenciar a Ruta chalepensis das restantes espécies de arruda. Por exemplo, tanto as flores da Ruta chalepensis como as da Ruta angustifolia apresentam pétalas franjadas mas as inflorescências da R. chalepensis são completamente glabras (sem pelos) enquanto as da R. angustifolia têm pelos na parte superior. Compare AQUI.
Os frutos da Ruta chalepensis abrem em lóbulos cujos ângulos são pontiagudos enquanto os da Ruta graveolens são arredondados, além de que esta ultima tem flores de pétalas arredondadas e inteiras. Veja AQUI.
Os segmentos das folhas da Ruta montana são muito mais estreitos, praticamente lineares. Veja AQUI.  

Ao longo dos seculos, não só as arrudas têm curado as doenças do corpo como também têm servido de lenitivo aos males do espirito, através da crença em propriedades catalisadoras de energias positivas.
Nos primórdios do catolicismo, raminhos de arruda eram utilizados para aspergir os fiéis com água-benta. Durante a Idade Média, a arruda consolidou a sua fama e os raminhos de arruda eram utilizados como coadjuvantes nos rituais católicos de exorcismo que geralmente se realizavam ao domingo, pelo que chamavam à arruda, erva-da-graça. As arrudas ainda hoje continuam muito ligadas à cultura popular e são usadas, de diferentes formas, para atrair a felicidade afastando as invejas e o mau-olhado.
As arrudas também foram fonte de inspiração para poetas e pintores de arte clássica. William Shakespeare refere-se à arruda em “Ricardo III” e também em “Hamlet” no 4º ato, cena 5 através da voz de Ophelia:
…”
There’s fennel for you, and columbines.
There’s rue for you, and here’s some for me.
We may call it “herb of grace” o' Sundays
…”
(Para vós, funcho e aquilégia, arruda para vós, e um pouco para mim, também. Poderemos chamar-lhe erva da graça dos domingos...)




O vendedor de arruda

Jean-Baptiste DeBret – Litografia / Viagem Pitoresca e Histórica do Brasil
Também o pintor francês do seculo XIX Jean Baptiste DeBret, publicou uma serie de litografias denominadas “Viagem Pitoresca e Histórica do Brasil” em que documentou aspetos da sociedade brasileira da época, colocando em especial evidencia a vida dos escravos negros trazidos de África. Numa dessas litografias DeBret retrata o comércio da arruda realizado pelos escravos africanos. Os raminhos de arruda eram usados como amuleto da sorte e como anticoncecional e abortivo, não só pelas escravas negras mas também pelas mulheres brancas.
É IMPORTANTE SABER:
Nenhum tratamento com arrudas deve ser feito sem supervisão adequada pois certos componentes são tóxicos e cumulativos podendo causar lesões irreversíveis, levando mesmo à morte. O próprio manuseamento das plantas deve ser feito com cuidado pois pode causar inflamações cutâneas, sobretudo em presença da luz solar.


Fotos de Ruta chalepensis: Serra do Calvo/Lourinhã



sábado, 17 de agosto de 2013

Thapsia villosa L.

Nomes comuns:
Tápsia, Turbit-da-terra

Thapsia villosa é uma planta elegante e vistosa. Bastante comum na região mediterrânica ocidental pode ser encontrada no sul de França, Península Ibérica e norte de África. Coloniza bosques, matagais, taludes, orlas dos campos de cultivo e beira dos caminhos. É característica de solos pobres em nitrogénio e cresce em terrenos expostos ao sol; embora seja indicadora de secura moderada a verdade é que se desenvolve com maior exuberância em solos com um razoável teor de humidade; prefere os solos ácidos mas não desdenha os solos alcalinos.
Thapsia villosa é uma espécie perene cujas partes aéreas secam e morrem após a frutificação, para rebrotar na estação seguinte.
O caule praticamente sem folhas (geralmente reduzidas às bainhas), é ereto, robusto e finamente estriado, chegando a atingir quase 2 metros de altura sempre que se reúnam as condições ideais.
O caule é muito engrossado na base emergindo a partir de uma raiz grossa e alongada, de cor esbranquiçada, a qual se encontra profundamente enterrada no solo. Da raiz brotam também duas ou três grandes folhas, de cor verde escuro que formam uma roseta basal. Estas folhas estão cobertas de pelos em ambas as paginas, tal como sugere o nome da espécie (villosa).


As folhas têm contorno triangular e o limbo é tão profundamente recortado em segmentos de forma oblonga, que estes ficam apenas ligados pela nervura central.
Os segmentos, que podem ser simples ou subdividirem-se 2 ou mesmo 3 vezes, têm margens com pequenos recortes com a ponta curta e aguda mas sem ser rígida; quase sempre as margens dos segmentos são revolutas, ou seja, estão reviradas para a página inferior da folha. A nervura central de cada folha (ráquis), está densamente coberta de pelos sendo a pagina superior de cor verde enquanto a pagina inferior é de um tom acinzentado ou glauco (azulado).
As bainhas das folhas basais são largas e bem desenvolvidas, mostrando o seu interior esbranquiçado, por vezes com laivos de purpura.

 As flores, muito pequenas, são monoclínicas (=hermafroditas) pois possuem órgãos reprodutores femininos (gineceu) e masculinos (androceu), ambos funcionais; do androceu constam 5 estames e o gineceu apresenta estigma com dois estilos. O cálice é constituído por 5 sépalas incipientes e as corolas, com simetria radial, são formadas por igual número de pétalas, de um amarelo intenso.


As flores reúnem-se em inflorescências do tipo umbela em que os pedicelos das várias flores (denominados raios) são longos e aproximadamente do mesmo tamanho; como estão todos inseridos no mesmo ponto do pedúnculo, formam uma estrutura hemisférica semelhante a um chapéu de chuva aberto. De notar que as inflorescências da Thapsia villosa são compostas por pequenas umbelas (umbélulas) que se reúnem para formar umbelas maiores. Graças a esta estratégia, o impacto visual das pequenas flores perante os insetos polinizadores fica muito potenciado.

Geralmente a umbela que floresce na extremidade do caule principal é a maior. Por vezes as umbelas que crescem em ramificações laterais do caule podem gerar apenas flores masculinas, as quais, caso tal aconteça, são estéreis e secam prematuramente. Na Thapsia villosa as umbelas raramente apresentam brácteas e as umbélulas também poucas vezes têm bractéolas. O número dos raios é muito variável podendo ir de 6 a 29 por cada umbela.
A Thapsia villosa floresce a partir de março, sendo visitada por numerosos tipos de insetos atraídos pelas suas grandes inflorescências de cor amarelo brilhante. Em meados de junho já está em plena frutificação, caracteristicamente muito mais cedo que outras espécies da mesma família as quais continuam em flor até muito mais tarde.
Os frutos, maduros em agosto, tomam a forma oblonga sendo formados por duas partes perfeitamente ligadas entre si e que se separam na maturação; cada uma delas está provida de expansões laterais membranosas que ajudam na dispersão pelo vento.

A Thapsia villosa é altamente variável na sua morfologia. Registam-se duas variedades, a T. villosa var. villosa e a T. villosa var. dissecta. A diferença entre as duas variedades está basicamente no tamanho dos segmentos das folhas que, na variedade T.villosa dissecta são mais estreitos e também mais subdivididos. No entanto registam-se formas intermedias pelo que distinguir as duas variedades pode ser bastante complicado.

Thapsia villosa é uma espécie do género Thapsia o qual se inclui na família Apiaceae também denominada Umbelliferae. Esta é uma importante família botânica que engloba entre 2500 a 3700 espécies divididas entre 300 a 450 géneros, alguns deles de classificação duvidosa e seguramente sujeitos a revisão. É uma família de grande importância económica cujas espécies estão amplamente difundidas por todo o mundo com especial destaque para as regiões temperadas do hemisfério norte. Os óleos essenciais libertados por muitas das suas espécies têm especial interesse na medicina. Contudo a grande importância desta família vem do facto de incluir muitas espécies agrícolas, muitas das quais utilizamos na nossa dieta do dia a dia, nomeadamente a salsa Petroselinum crispum, a cenoura Daucus carota, o aipo Apium graveolens, o anis Pimpinella anisum, o endro Anethum graveolens, o funcho Foeniculum vulgare, os coentros Coriandrum sativum e os cominhos Cuminum cyminum, entre tantas outras. Ao mesmo tempo inclui plantas muito venenosas como sejam a cicuta Conium maculatum e o embude Oenanthe crocata.

A Thapsia villosa é uma espécie muito toxica, o que não impediu, em tempos idos, a sua utilização em medicina tradicional, aproveitando as suas propriedades e efeitos muito violentos como purgante e emético, através do ingestão do exsudado da raiz. Na realidade não se sabe muito sobre as propriedades terapêuticas desta planta mas parece que a sua raiz foi muito comercializada beneficiando do facto de ser confundida com a raiz da Ipomoea turpethum, espécie endémica da Índia e que era muito apreciada pelos seus suaves efeitos laxantes. O nome comum da Ipomea turpethum era "turbit", nome pelo qual a Thapsia villosa também ficou conhecida em Portugal.
Entretanto a Thapsia villosa var. villosa está a ser objeto, juntamente com outras espécies do mesmo género, de pesquisa e investigação medica pois, devido as suas características, poderá ser vir a ser útil no tratamento de doenças neurodegenerativas como a doença de Alzheimer e Parkinson.

Fotos: Serra do Calvo/Lourinhã



quinta-feira, 25 de julho de 2013

Ornithogalum narbonense L.

Cebolinho-de-flor-branca

Ornithogalum narbonense é uma das espécies perenes chamadas bolbosas, as quais se caraterizam por perderem as partes aéreas durante a época desfavorável, permanecendo em estado latente debaixo do solo, sob a forma de um bolbo. 
Conforme a espécie os órgãos subterrâneos de reserva assumem estruturas morfologicamente diferentes e podem derivar quer do engrossamento do caule (bolbos, cormos, rizomas e tubérculos) quer da raiz (raízes tuberosas). Contudo, na globalidade, são muitas vezes denominados de “bolbos” por uma questão de comodidade.
Ornithogalum narbonense cresce a partir de um bolbo propriamente dito. Os bolbos são porções de caule que engrossaram e se transformaram em órgãos subterrâneos de armazenamento de nutrientes fornecendo agua e alimento nos primeiros tempos de vida da planta, permitindo-lhe o seu normal desenvolvimento mesmo em condições adversas.
Bolbo de Ornithogalum narbonense
Os bolbos têm uma estrutura interior muito complexa. No seu interior encontram-se, já diferenciadas, as peças rudimentares de uma flor assim como as partes vegetativas da planta, as quais estão prontas a emergir através da gema apical logo que ocorram as condições ambientais e de cultivo ideais e específicas para cada género.

A estrutura exterior de um bolbo, grossa e de aspeto carnudo, é formada pelas folhas dispostas em camadas, geralmente com a forma de escamas desprovidas de clorofila e em cujos tecidos se acumula a reserva de nutrientes. Estas folhas inserem-se na sua parte inferior, numa zona rígida denominada prato ou disco basal, de cujas margens surgem as raízes. As peças florais encontram-se bem protegidas no interior do bolbo e todo o conjunto está coberto, na maioria dos casos, por uma túnica formada pelas escamas da camada exterior, a qual previne a desidratação da estrutura (certas plantas têm um bolbo de aspeto escamoso pois não têm túnica, como é o caso dos lírios).  
Além da gema apical podem existir gemas laterais que, durante o período de crescimento, darão origem aos bolbilhos os quais acabam por se desprender gerando novas plantas em redor da planta-mãe. Contudo, estes são bolbos de pequeno tamanho que necessitam de engrossar durante alguns anos antes que possam florescer. De qualquer forma, após passar pelas diversas fases do seu ciclo, nomeadamente rebentação, crescimento, floração e emurchecimento, o bolbo principal não só recupera a energia eventualmente gasta como também aumenta de volume.

Os bolbos de Ornithogalum narbonense são geralmente solitários, de forma ovoide ou esférica e estão envolvidos por túnicas de cor castanho claro ou esbranquiçadas.
Não se regista a produção de bolbilhos, pelo menos de forma regular (há espécies que têm produção abundante de bolbilhos, outras só os produzem de forma excecional). Sendo uma planta de aspeto frágil o Ornithogalum narbonense é, contudo, uma espécie bem adaptada para sobreviver às transformações produzidas pelo homem no meio ambiente. Assim, o rebento que sai da gema apical é muitas vezes curvo na zona de união com o escapo floral, o que faz com que se quebre ao tentar-se extrai-lo, dificultando a sua colheita; por outro lado, o bolbo encontra-se geralmente a uma profundidade considerável o que resulta da emissão de raízes contráteis as quais possuem a capacidade de puxar o bolbo para baixo, aprofundando-o no solo à medida que vai crescendo. Desta forma o bolbo fica a salvo de colheitas exageradas, de fogos e secas e também das cavas que os agricultores efetuam à superfície.

As folhas, em roseta basal são eretas e firmes, sem pelos, de forma linear e com nervuras fortemente marcadas. O escapo floral, ereto e comprido, pode ultrapassar os 50 cm de altura; não tem folhas e é também glabro (sem pelos). Tanto as folhas como o escapo floral são de um verde azulado, tom este que lhe é dado por um revestimento ceroso constituída por um pó muito fino.
Dependendo das condições de secura as folhas podem ou não ser caducas durante a floração.
A inflorescência situa-se no topo do escapo floral e é constituída por numerosas flores pedunculadas que se inserem no eixo principal, a vários níveis. As flores vão abrindo sucessivamente a partir da extremidade inferior do ramo ficando as flores mais velhas mais afastadas do ápice. Os diferentes ângulos em que os pedicelos se dispõem em relação ao ramo central e o comprimento variável dos mesmos (dependendo da maturidade da inflorescência), dão ao conjunto um aspeto piramidal.
Cada flor nasce na axila de uma bráctea a qual pode ter o mesmo tamanho dos pedicelos ou até ser mais curta ou mais comprida que os mesmos.
As flores, ligeiramente fragrantes, mostram 6 tépalas (3 pétalas + 3 sépalas indiferenciadas) de cor branca, com uma faixa longitudinal verde que apenas é visível na face dorsal.
As flores possuem órgãos de reprodução masculinos e femininos funcionais. Os 6 estames têm filetes brancos que alargam bruscamente na sua metade inferior e as anteras são um tom amarelo pálido ou esbranquiçado.
O ovário está dividido em 3 lóculos separados por membranas denominadas septos e em cujas suturas existem nectários que segregam a solução açucarada que atrai os insetos polinizadores, o néctar, o qual se acumula na cavidade existente entre o ovário e os filamentos dos estames.
 Ornithogalum narbonense reproduz-se sobretudo através de sementes. O fruto é uma capsula com a forma de uma bolota que se abre em três valvas para deixar sair a abundante produção de sementes, angulosas e de forma irregular.
A floração inicia-se em princípios de abril e estende-se até meados de junho.
Esta espécie cresce na beira dos caminhos, campos de cultivo de cereais, terrenos nitrificados, vinhas, olivais. Distribui-se de forma dispersa pelo sul da Europa, Macaronésia, norte de africa e sudoeste asiático. Embora cresça indiferentemente em qualquer tipo de solo prefere os substratos argilosos e algo pedregosos.
Distribuição em Portugal
Fonte: Flora Digital de Portugal - UTAD

As várias espécies Ornithogalum são na generalidade conhecidas pelo nome vernáculo “leite de galinha”, o que poderia ser logico (tendo em conta que a maioria das espécies têm flores brancas) se as galinhas produzissem leite.
É que a palavra Ornithogalum é o resultado da contração dos vocábulos gregos “ornitho” (pássaro) e “gallum” (leite).
Nem sempre é possível perceber a origem dos nomes científicos dados às espécies ou a razão pela qual foram batizadas com este ou aquele nome sobretudo quando tal aconteceu há milhares de anos. É o caso das espécies Ornithogalum cujos bolbos são referidos com este mesmo nome no Antigo Testamento (Livro dos Reis II, capitulo 6, versículo 25) e os quais eram vendidos nos mercados e usados na alimentação humana (tal como ainda hoje acontece na Palestina, com a espécie O. Umbellatum).
Há varias explicações para a origem do nome Ornithogallum mas a que eu prefiro é a referência feita por Anna Amelia Obermeyer, botânica sul-africana, à existência do proverbio grego “tão inacessível como leite de pomba” o qual era empregue para classificar algo de maravilhoso ou extraordinário. Em Portugal a dita ave deixou de ser pomba e passou a galinha, aparentemente ave da nossa preferência. Afinal não é ela que põe os ovos de ouro?
De facto, sendo verdade que algumas espécies do género Ornithogallum são bastante inconspícuas outras há que são muito vistosas e algumas até se cultivam pelo seu valor ornamental, estando neste caso a Ornithogalum  Nutans e a Ornithogalum longibracteatum.
E agora, a sistemática:
Ornithogalum narbonense pertence ao género Ornithogalum o qual, no conceito tradicional, engloba um grupo extenso e morfologicamente bastante heterogéneo dividido num número de subgéneros variável, conforme as correntes de opinião de quem de direito. Apesar dos recentes estudos taxonómicos a confusão mantem-se. É que os resultados obtidos foram muito díspares o que não admira tendo em conta que as características apresentadas por cada autor foram distintas.
Do ponto de vista biogeográfico o género Ornithogalum distribui-se por dois centros principais: um na africa do sul tropical e outro que engloba a região mediterrânica, norte de África e sudoeste asiático.
No que diz respeito à Península Ibérica a posição de alguns autores incluindo a Flora Ibérica, é a de adotar uma posição intermedia entre os vários conceitos, dividindo o género Ornithogalum em 4 subgéneros, todos de espécies presentes na flora peninsular e com características fáceis de reconhecer. São eles, os subgéneros Ornithogalum, Beryllis (no qual se inclui a espécie Ornithogalum narbonense), Cathissa e Caruelia.
Ornithogalum narbonense pertenceu em tempos à família Liliaceae, depois passou para a família Hyacinthaceae e recentemente foi reclassificada na família Asparagaceae pelo sistema APG, tendo Hyacinthaceae sido eliminada, situação que tem causado enorme controvérsia… Veja mais informações AQUI.
Fotos: Serra do Calvo/Lourinhã





quinta-feira, 11 de julho de 2013

Gladiolus illyricus Koch. subsp. illyricus

Espadana-dos-montes

Gladiolus illyricus é o mais pequeno dos gladíolos silvestres e distribui-se pelo sul e oeste europeu, norte de África e oeste asiático. Habita matos, terrenos incultos e terrenos de cereais, com clara preferência por solos ácidos, florescendo de forma breve entre março e junho.
Distribuição em Portugal
Fonte: UTAD Flora Digital de Portugal
O Gladiolus illyricus é uma planta perene cujas partes aéreas secam após a floração. A espécie é considerada uma bolbosa porque se propaga de forma vegetativa através de um órgão subterrâneo especializado, o qual resulta do engrossamento de um segmento do caule, por acumulação de reservas. No caso dos Gladiolus, a esse órgão de reservas chama-se cormo.
Baseado em Flora Iberica
O cormo tem uma estrutura diferente dos bolbos, apesar de ser muitas vezes chamado “bolbo solido”. Na realidade, o cormo não é formado por folhas sobrepostas como acontece com os bolbos, sendo antes uma estrutura solida e carnuda, de forma ovoide e coberta com uma túnica de fibras grossas. As finas raízes crescem a partir da base do cormo e as folhas e escapos florais inserem-se no seu ápice.
Bolbos e cormos têm função idêntica e as suas reservas de nutrientes e água constituem uma forma de adaptação às condições ambientais: em climas mais secos, como é o caso dos mediterrânicos, criam condições para que as plantas se reproduzam mesmo em caso de seca prolongada; por outro lado também lhes permite, quando conveniente, desenvolverem-se cedo no ano, antecipando-se às suas concorrentes que com ela competem por água e nutrientes.
Ao contrário dos bolbos, os cormos mirram e secam no fim da estação para darem lugar a um novo cormo o qual, por sua vez, assume a tarefa de alimentar a planta na estação seguinte. Juntamente com o novo cormo formam-se cormos mais pequenos, os chamados bolbilhos, que produzirão novas plantas no futuro.
No final do inverno, as folhas do Gladiolus illyricus emergem do ápice do cormo. São folhas estreitas e de cor verde, em forma de sabre e com várias nervuras longitudinais paralelas sendo a nervura central mais proeminente que as restantes.
Logo depois, surge um único escapo floral, longo e robusto, onde se forma a inflorescência, num conjunto de 3 a 8 flores (geralmente não mais de 5), dispostas em espiga.
As flores estão todas viradas para o mesmo lado mas saem de ambos os lados do escapo, de forma alternada.
As flores, de cor rosa forte, são compostas por 6 tépalas (3 pétalas e 3 sépalas indiferenciadas) desiguais entre si, sendo soldadas na parte inferior, formando um tubo curto.
O conjunto das tépalas de cada flor está envolvido na base por 2 brácteas de tamanho diferente e cuja margem é membranosa.
Foto Wikipedia Commons
As flores são hermafroditas, os estames em forma de seta são 3 e o estilo divide-se em 3 estigmas.
Os frutos são capsulas ovoides que ao ficarem secas se abrem em 3 valvas, por meio de fendas longitudinais. As sementes contidas na capsula são achatadas e aladas pois têm uma expansão lateral membranácea que as ajuda na dispersão pelo vento.
A espécie Gladiolus illyricus pertence ao género Gladiolus o qual se inclui na família Iridaceae cuja maior importância económica se prende com a produção de espécies ornamentais, muito apreciadas tanto em paisagismo como para o comércio de flores de corte. As cerca de 2000 espécies reunidas na família Iridaceae estão repartidas em cerca de 70 géneros e caraterizam-se por serem plantas perenes que formam órgãos de reserva de nutrientes subterrâneos (rizomas, bolbos ou cormos, dependendo do género) e dos quais brotam as novas plantas no ano seguinte. As espécies da família Iridaceae distribuem-se pelo mundo inteiro e estão adaptadas a grande variedade de habitats, solos e tipos de climas, desde os temperados aos tropicais. Contudo, a maior parte das espécies são originárias das regiões centro e sul americanas, Africa do sul e como não podia deixar de ser, da Europa, nomeadamente da região mediterrânica.
O género Gladiolus engloba 255 espécies entre as quais, o Gladiolus illyricus.
A denominação “gladiolus” provém do termo “gladius” que, em latim, significa espada, numa referência à morfologia das folhas da planta.
Os gladíolos estão entre as plantas bolbosas mais apreciadas pelas suas flores magníficas que proporcionam uma brilhante profusão de cores durante o verão e fornecem flores de corte de longa duração. As cores dos gladíolos variam entre o amarelo-claro e o escarlate. As flores podem ser todas da mesma cor mas é mais frequente serem bicolores ou tricolores, com manchas vistosas na base. Utilizados especialmente como flores de corte, os gladíolos cultivados também fazem um belo canteiro sendo que o seu cultivo não é complicado. A plantação dos cormos deve ser realizada no início da primavera a cerca de 10 cm de profundidade (tendo atenção para que toda a superfície do cormo fique em contacto com o solo). A plantação deve ser feita em local exposto ao sol e abrigado do vento forte. O terreno deve ser ligeiro e fértil, podendo incorporar-se algum adubo orgânico. A rega deve ser adequada às condições climáticas.
Caso se deseje cortar as flores para decoração de jarras, o melhor momento para o fazer é quando abre a flor inferior da espiga sendo essa a primeira a abrir. Depois de cortadas as flores, deve continuar a regar-se a planta para que se desenvolva o novo cormo. Para ter a certeza de que não irá apodrecer durante a estação chuvosa este novo cromo deve ser extraído do terreno quando todas as folhas murcharem e guardado em local seco até à primavera seguinte (o cormo antigo fica mumificado e deve deitar-se fora). Agarrados ao novo cormo vêm alguns mais pequenos que podemos utilizar para obter novos exemplares. Estes devem ser plantados para que cresçam e engrossem pois requerem um tamanho mínimo para que floresçam. Assim, e porque não se pode apressar a natureza, devemos esperar alguns anos até que os vejamos florescer.
Os géneros mais representativos da família Iridaceae são Iris e Gladiolus mas existem outros que são também muito populares pois propiciam espécies muito atrativas nomeadamente Freesia, Sparaxis, Tigridia, Ixia, Crocosmis, Crocus, entre outros.

Fotos: Caniçal/Lourinhã