"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





domingo, 20 de outubro de 2013

Arum italicum (Miller)

Nomes comuns:
Alho-dos-campos; Arrebenta-boi; Bigalhó; Candeias;
Erva-da-novidade; Sapintina; Serpentina; Serpentinola; Jairo;
Jaro; Jarreiro; Jarro; Jarro-bravo; Jarro-comum; Jarros-dos-campos


Arum italicum é uma magnífica espécie de origem europeia que cresce de forma espontânea em bosques e sebes por toda a região mediterrânica ocidental (mais concretamente sul da Europa, incluindo Ilhas Britânicas, até ao norte de África), particularmente em locais húmidos ou sombrios.
Distribuição em Portugal
Fonte: Flora Digital de Portugal/UTAD
Aparentado com o famoso jarro (Zantedeschia aethiopica), planta exótica importada da Africa do sul e que é bastante comum em muitos jardins do nosso país, o Arum italicum não goza, entre nós, da mesma popularidade.
Zantedeschia aethiopica
Será talvez por desconhecimento porque em certos países do norte da Europa, como é o caso do Reino Unido, apreciam-no a ponto de comercializarem os seus rizomas cultivando-o amorosamente em canteiros de jardim e em vasos.
O interesse por esta espécie reside na forma e coloração das suas luxuriantes folhas (as quais se mantêm verdes durante todo o inverno), na forma bizarra das suas inflorescências e na cor avermelhada dos seus frutos. Esta espécie cresce particularmente bem e uma vez estabelecida dá origem, em poucos anos, a colonias alargadas.
A planta reproduz-se quer por divisão dos rizomas quer por sementes e pode tornar-se invasiva se as condições lhe forem propícias, sendo difícil de erradicar pois qualquer pedacinho de rizoma que fique na terra dá inevitavelmente origem a uma nova planta (o mesmo acontece com o jarro Zantedeschia aethiopica, típico dos nossos jardins). É também uma espécie muito variável podendo apresentar folhas de aspeto marmoreado, principalmente na falta de luminosidade.
Quando chega o outono o Arum italicum produz, diretamente de um rizoma, um pequeno grupo de grandes folhas sagitadas (em forma de ponta de seta), verdes e lustrosas as quais estão providas de longos pecíolos de cor verde claro. As folhas permanecem na planta durante todo o inverno e parte da primavera após o que ficam meladas e acabam por apodrecer, o que muitas vezes acontece ainda durante a floração.
As flores de Arum italicum, reunidas numa inflorescência racemosa (dispostas em torno de um único eixo), surgem em finais de março ou inícios de abril. Esta é uma espécie monoica em que coexistem flores masculinas e flores femininas, as quais são desprovidas de perianto (pétalas ou sépalas).
À primeira vista, a inflorescência de Arum italicum, apesar do seu aspeto peculiar, parece banal. No entanto a sua estrutura é muito complexa e extremamente especializada. É essencialmente composta por duas partes: o espadice e a espata.
O espadice é uma estrutura de eixo cilíndrico, de cor amarelada, espessa e carnuda em cuja parte inferior se apinham as pequeníssimas flores, dispondo-se em anéis onde flores férteis e flores estéreis se intercalam. As flores femininas férteis estão inseridas na parte mais inferior do espadice seguidas de um espaço preenchido com flores femininas estéreis que se reconhecem por terminarem num apêndice filiforme. Por cima dispõem-se as flores masculinas férteis e acima destas existe um novo anel desta vez composto por flores estéreis masculinas, igualmente providas de apêndices filiformes. A partir daqui o espadice alarga formando uma espécie de bastão ou clava, de ápice arredondado o qual serve de chamariz aos polinizadores devido ao odor fétido que exala durante a floração.
A espata é uma bráctea de grande limbo de forma lanceolada, com a extremidade aguda e ligeiramente curva, de cor branco-esverdeada ou verde-amarelada; a sua parede interna é muito lisa e também oleosa devido a secreções das glândulas existentes na epiderme.
A espata protege o espadice envolvendo-o completamente até a floração. Nessa altura a espata abre-se revelando apenas a parte superior do espadice; as flores ficam escondidas na sua base, numa zona tubular que forma uma espécie de camara armadilhada para “benefício“ dos polinizadores.
O sistema de polinização é bastante interessante e sofisticado, contudo dele resulta um elevado gasto de energias e que tem como consequência a degenerescência precoce de algumas partes da planta, nomeadamente folhas, espata e parte superior do espadice. É, no entanto, extremamente eficaz na promoção da polinização cruzada, preservando a variabilidade genética da espécie e daí o seu sucesso na reprodução de novos indivíduos saudáveis.
Foto cedida por JARDIN MUNDANI - Veja AQUI
Quando as flores femininas ficam maduras a temperatura do espadice aumenta sensivelmente em relação à temperatura ambiente, podendo chegar a uma diferença de cerca de 6 graus C ou mais, o que representa um gasto tremendo de energia. Este aumento de temperatura ajuda a volatilizar os compostos químicos produzidos pelo espadice acentuando o odor fedorento por ele produzido. Atraídos pelo seu cheiro favorito (gostos não se discutem…) os insetos polinizadores, geralmente moscas, tentam poisar nas paredes escorregadias da espata mas acabam por cair inadvertidamente no interior da camara onde se encontram as flores. Os apêndices filiformes das flores estéreis deixam passar os insetos mas impedem-nos de sair pelo que estes permanecem prisioneiros no fundo da camara onde estão as flores femininas. Debatendo-se para sair os insetos acabam por espalhar sobre elas o pólen obtido numa outra inflorescência, fecundando-as. Para reforçar o processo as flores segregam néctar o que persuade os insetos a deslocarem-se de flor em flor, procurando alimento. Quando as flores femininas estão fecundadas deixam de produzir o precioso líquido pelo que os insetos se atropelam procurando a saída, a qual é agora possível pois entretanto os apêndices filiformes das flores estéreis murcharam. Porém, é a altura de as flores masculinas férteis ficarem maduras e uma vez que o caminho de saída inclui passagem obrigatória pelos estames, os insetos saem carregados de pólen que irão deixar noutra flor, recomeçando o processo de polinização.
Terminada a polinização, a espata e a parte superior do espadice apodrecem e caiem ficando apenas as flores femininas que se transformam em frutos, primeiro de cor verde e depois vermelha, geralmente por alturas de junho.
Todas as partes de Arum italicum contêm compostos químicos que o tornam potencialmente tóxico, nomeadamente cristais de oxalato de cálcio (curiosamente os mesmos que formam os cálculos renais); estes componentes tóxicos podem ser neutralizados se cozinharmos a planta. Se ingerida em cru causa uma sensação de queimadura na boca e garganta com inchaço e asfixia, podendo causar a morte. No entanto os casos de intoxicação são raros pois o gosto amargo dos frutos e outras partes da planta são bastante dissuasores. Aparentemente até os roedores as acham intragáveis.
O Arum italicum pertence ao género Arum o qual se inclui na família botânica Araceae constituída por cerca de 4000 espécies, muitas delas de grande impacto no comércio mundial sobretudo nos setores de floricultura e alimentar. Muitas espécies são cultivadas e usadas em decoração de interiores e em espaços ajardinados em locais de meia sombra, nomeadamente cultivares dos géneros Dieffenbachia, Philodendron,  Anthurium,  Alocasia, apenas para referir alguns dos mais conhecidos entre nós.

Fotos: Serra do Calvo/Lourinhã (exceto as gentilmente cedidas por Jardin Mundani)



terça-feira, 15 de outubro de 2013

Scilla autumnalis L.

Nome comum: Cila-de-outono

Scilla autumnalis é uma pequena e belíssima planta que vive em colonias mais ou menos extensas, geralmente florindo ao mesmo tempo que outra preciosidade, a Acis autumnale. Veja AQUI.
Scilla autumnalis floresce em finais de setembro ou inícios de outubro, sendo condição que o solo receba as primeiras chuvas prenunciadoras do outono.
É interessante notar que esta espécie desponta de um dia para o outro, de forma súbita e inesperada, dando a ideia de estar prontinha debaixo da camada de terra, na linha de partida, apenas aguardando pelos primeiros pingos.
Podemos encontra-la em pastos secos, áreas desmatadas, terrenos rochosos ou arenosos, distribuindo-se por quase toda a Europa, Noroeste de África e sudoeste asiático.
Distribuição em Portugal - Flora Digital de Portugal - UTAD
Scilla autumnalis cresce a partir de um pequeníssimo bolbo de forma ovoide ou esférica. Após o verão, terminado o tempo de dormência habitual nos bolbos, surge um único escapo floral, ereto, glabro e robusto, de 10 a 15 cm de altura.
As folhas, lineares e em número variável, são todas basais; só surgem após a floração e podem permanecer na planta até à primavera, enquanto o bolbo repõe energias.
Cada escapo floral produz de 3 a 15 flores providas de um pedúnculo e agrupadas num cacho simples e alongado cujo ápice termina numa flor. As primeiras flores a abrir são as da parte de baixo do cacho, progredindo gradualmente para o ápice.
As flores são muito pequenas não excedendo os 6 ou 7 mm de diâmetro.
Cada flor tem 6 tépalas (3 sépalas + 3 pétalas indiferenciadas) de cor azul ou violeta, oblongas ou quase elípticas, com uma nervura longitudinal de um tom ligeiramente mais escuro; estes segmentos dispõem-se de forma simétrica, em forma de estrela. As flores têm órgãos reprodutores masculinos e femininos. Os 6 estames são eretos, com filamentos grossos de cor clara e vistosas anteras de um tom de azul muito escuro.
Os frutos são pequenas cápsulas globosas que na maturação ficam cor de palha e se abrem longitudinalmente em 3 lóculos, cada um deles contendo de 1 a 2 sementes, pretas e semelhantes a pequenos cones.


Durante décadas esta planta foi conhecida como Scilla autumnalis L. mas recentemente for rebatizada com o nome Prospero autumnale (L.) Specta. Apesar de tudo, conforme as regras, o nome anterior é absolutamente valido e continua a ser usado pela maioria.
No que diz respeito à classificação científica da Scilla autumnalis, a situação é extremamente confusa. Apesar das modernas técnicas que providenciam dados morfológicos, quimiotaxonomicos, citológicos e moleculares os especialistas estão indecisos quanto à família e género, tantas são as características a ter em conta; em consequência muitas divisões foram feitas, géneros viajaram de uma situação para outra, muitas vezes o dito foi dado por não dito e assim nada está ainda totalmente resolvido no que diz respeito a esta espécie. Não só falta consenso mas, mais complicado que isso, as entidades de referência parecem não conseguir decidir-se com convicção.
De forma muitíssimo simplificada, a situação é a seguinte: Scilla autumnalis pertenceu em tempos à família Liliaceae, foi posteriormente incluída na família Hyacinthaceae a qual se tornou numa subfamília também chamada Scilloideae e que está de momento incluída na família Asparagaceae. (APG III, 2009).

Fotos: Serra do Calvo/Lourinhã


domingo, 6 de outubro de 2013

Acis autumnalis (L.) Sweet, syn. Leucojum autumnale

Nome comum: Campainhas-do-outono

O alívio da chuva, abundante e prolongada, coincidiu com a chegada deste outono. O que significou transtorno para muitos foi novo alento para as plantas que a custo resistiram a um verão totalmente seco, permitindo também que as espécies próprias desta estação possam florescer e produzir frutos e sementes, atempadamente. As temperaturas continuam muito agradáveis e os insetos polinizadores que ainda permanecem em atividade aproveitam para se abastecer, antes da chegada dos frios.

A Acis autumnalis é uma das poucas espécies que florescem no outono. Embora de pequeníssimo tamanho e de aspeto delicado, quase frágil, é no entanto bastante resistente. Não se incomoda muito com o vento, gosta do tempo seco do verão e até suporta algum frio. Também não parece ter dificuldades em reproduzir-se pois é capaz de formar colonias que cobrem vastas áreas, propiciando um espetáculo inolvidável de pequenas “lampadinhas” brancas baloiçando ao menor sopro.
As flores, em forma de campainha, são de cor branca e parecem brilhar ao sol, dando a ideia de estarem salpicadas de pequenos cristais. A época de floração inicia-se no final do verão e prolonga-se para lá de outubro.
Geralmente cresce associada a outra espécie de tamanho semelhante e que também floresce no mesmo período, a Scilla autumnalis, de cor azul.
Podemos encontrar a Acis autumnalis em locais não sombreados como as clareiras de matos xerofílicos (secos, tipicamente mediterrânicos), montados, pinhais, em terrenos rochosos e até arenosos. Não tem preferência pelo tipo de solo mas desenvolve-se melhor em terrenos ácidos.
Distribuição em Portugal - Flora digital de Portugal/UTAD
A Acis autumnalis é nativa da Península Ibérica mas pode ser encontrada também na Sardenha e na Sicília assim como em Marrocos e na Argélia, sendo considerada um endemismo da região Mediterrânica ocidental.
A Acis autumnalis cresce a partir de um pequeníssimo bolbo, de forma ovoide. Primeiro surgem os escapos florais os quais são lisos, muito delgados embora sólidos, de cor avermelhada, geralmente não excedendo os 15/20 cm de altura. Cada bolbo pode produzir 2 a 4 escapos.
As folhas, todas elas basais, só surgem durante ou depois da floração e mantêm-se até à primavera, após o que desaparecem para que o bolbo entre em período de merecido descanso. As folhas, mais curtas que o escapo, são fininhas, maciças e semicilíndricas.
As flores, de hábito pendente, podem ser solitárias ou reunirem-se em inflorescências de 2 ou 3 flores. Logo abaixo do pedúnculo arqueado que sustenta a flor existe uma bráctea grande e membranosa, inteira ou com o ápice dividido em duas pontas.
Rodeando os órgãos sexuais da flor, sépalas e pétalas reúnem-se, indiferenciadas, em 6 tépalas denticuladas, de cor branca, rosadas na base.
As flores estão providas de órgãos reprodutores femininos e masculinos. Os 6 estames têm filetes curtos e grandes anteras amarelas.

Os frutos de Acis autumnalis são capsulas globosas e as sementes nelas contidas são negras e brilhantes.
A Acis autumnalis pode ser confundida com uma espécie muito semelhante, a Acis trichophylla (syn. Leucojum trychophyllum), podendo ambas as espécies coincidir nos seus habitats. É no entanto muito fácil distingui-las pois a Acis trichophylla floresce na primavera e A. autumnalis floresce no outono; A. trichophylla tem as tépalas mais compridas que a A. autumnalis; a bráctea de A. trichophylla está dividida em dois segmentos desde a base ao contrário de A. autumnalis que é inteira ou apenas dividida na ponta; a capsula das sementes é alongada na A. trichophylla e globosa na A. autumnalis.
Acis autumnalis pertence a um dos géneros da família Amaryllidaceae, tendo sofrido algumas alterações que tornam o seu percurso taxonómico bastante confuso. Em 1807 esta espécie foi classificada no recém-criado género Acis mas em 1880 foi transferida para o género Leucojum. No entanto, em 2004 estudos genéticos e morfológicos determinaram que as espécies antes incluídas no género Acis deveriam sair de Leucojum e regressar ao Acis. Receando nova reviravolta muitos autores continuam a usar a classificação anterior.

Fotos: Serra do Calvo/Lourinhã


sábado, 28 de setembro de 2013

Ruta chalepensis L.


Nomes comuns:
Arruda; arruda-dos-calcários; erva-da-inveja;
erva-da-graça.


Ruta chalepensis é a planta a que dedico o meu “post” de hoje. Porém, antes de entrar em detalhes, convém recordar que são várias as espécies vulgarmente conhecidas, em Portugal, pelo nome vernáculo de arruda. Espontâneas ou cultivadas em hortas e jardins, são todas elas reputadas como plantas medicinais, desde tempos remotos. As raízes, folhas e inflorescências de Ruta graveolens, Ruta angustifolia, Ruta chalepensis e Ruta montana são ricas em óleos essenciais, alcaloides e múltiplos compostos químicos indicados no tratamento de variadíssimas doenças, graças às suas propriedades antihistamínicas, antiinflamatorias, antibacterianas, antimicóticas e ainda tonificantes do sistema nervoso.
As arrudas também são usadas em perfumaria pois são fortemente aromáticas; de facto, o seu odor é tão intenso que pode tornar-se desagradável para certas pessoas, embora haja quem o aprecie e o ache estimulante.
As folhas das arrudas são usadas como condimento em culinária e também para perfumar vinhos e licores, como atestam os nomes de algumas povoações, nomeadamente Arruda dos Vinhos. Também se usam as arrudas como repelentes de moscas e outros insetos.


As arrudas pertencem à família Rutaceae, a qual integra cerca de 2.100 espécies maioritariamente originárias de regiões tropicais e subtropicais. Esta família está organizada em cerca de 154 géneros, entre eles o género Ruta no qual se incluem as arrudas. Espécies como a laranja, o limão, a lima, a tangerina, a clementina ou a toranja fazem parte também da família Rutaceae, estando incluídas no género Citrus, género de grande importância económica a nível mundial. De referir ainda o género Pilocarpus de cujas espécies se extrai o alcaloide pilocarpina utilizado em oftalmologia e que funciona como antidoto nos envenenamentos por ingestão excessiva de atropina (Agatha Christie faz referencia a este alcaloide no seu livro de contos “The thirteen problems” ou Os treze problemas, protagonizados pela excelente Miss Marple).




Ruta chalepensis distribui-se por toda a Europa do sul principalmente nas regiões do mediterrâneo, desde a Península Ibérica até à Ásia e ilhas da Macaronésia (Açores, Madeira e Canarias) encontrando-se naturalizada também noutros continentes. Devido à sua popularidade é frequentemente cultivada como ornamental, muitas vezes assilvestrando-se fora dos seus locais naturais de crescimento espontâneo. Assim, não há dados concludentes acerca da sua origem e naturalização.

Esta espécie encontra-se principalmente em solos calcários pedregosos e nitrificados (ricos em nutrientes devido ao deposito de entulhos) e também em aterros, berma de caminhos sendo frequente nas regiões do litoral. Hoje em dia é também a espécie de arruda mais frequente em hortas e jardins, talvez pelo seu aroma menos agressivo. Dá-se bem em todos os tipos de solo e não só suporta alguma falta de água no verão como resiste a temperaturas negativas de -5 a -10 graus.


É uma planta perene e glabra (sem pelos), lenhosa na base e que pode crescer até aos 100 cm de altura, formando um pequeno arbusto de cor azulada. Os ramos são geralmente ascendentes podendo apresentar-se também prostrados.
As folhas estão dispostas de forma alternada nos caules; são compostas, tomando morfologias variáveis uma vez que o limbo de cada uma das folhas está dividido em vários segmentos os quais por sua vez se dividem em segmentos mais pequenos, uma ou mais vezes. Estes segmentos têm forma obovada, as margens são inteiras e o ápice arredondado.
A face superior das folhas é de um verde azulado, com glândulas que exalam os óleos aromáticos responsáveis pelo seu odor característico; a face inferior apresenta uma coloração mais clara. As folhas caulinares são menos divididas que as basais as quais apresentam por vezes segmentos muito pequenos.

As flores da Ruta chalepensis reúnem-se em inflorescências totalmente glabras e pouco densas, do tipo cimeira, ou seja: o pedúnculo principal termina numa flor e logo abaixo da primeira flor, junto à axila das brácteas que a protegem, emergem novos eixos em cujo ápice surgem mais flores, repetindo-se este processo 2 ou mais vezes.
Sob o ponto de vista reprodutor, as flores são monoclínicas (também chamadas hermafroditas) pois reúnem os dois sexos: gineceu com 4 carpelos e androceu com 8 estames livres, ligados ao disco nectarífero.

O cálice é constituído por 4 sépalas e a corola é formada por 4 pétalas de cor amarela, as quais são franjadas nas bordas. Contudo, acontece frequentemente que a flor central, ou seja a primeira a abrir, tenha 5 pétalas (neste caso existirão 5 carpelos no gineceu e os estames serão 10 pois nesta espécie existem tantos estames quantas pétalas + sépalas). Devido à sua localização os estames amadurecem em duas etapas. Isto é, metade dos estames estão inseridos em frente às sépalas e são estes os primeiros a abrir; só depois abrem os restantes estames que se situam na curva das pétalas.

Esta espécie floresce e frutifica de abril a agosto.
Os frutos são cápsulas secas e ovóides de aspeto rugoso cujo ápice se fende em 4 ou 5 partes, cada uma das quais contém várias sementes acinzentadas.

As várias espécies de arrudas podem confundir-se pois a folhagem é bastante semelhante (diferindo apenas no tamanho) e o azulado das folhas é característico. Contudo não é difícil diferenciar a Ruta chalepensis das restantes espécies de arruda. Por exemplo, tanto as flores da Ruta chalepensis como as da Ruta angustifolia apresentam pétalas franjadas mas as inflorescências da R. chalepensis são completamente glabras (sem pelos) enquanto as da R. angustifolia têm pelos na parte superior. Compare AQUI.
Os frutos da Ruta chalepensis abrem em lóbulos cujos ângulos são pontiagudos enquanto os da Ruta graveolens são arredondados, além de que esta ultima tem flores de pétalas arredondadas e inteiras. Veja AQUI.
Os segmentos das folhas da Ruta montana são muito mais estreitos, praticamente lineares. Veja AQUI.  

Ao longo dos seculos, não só as arrudas têm curado as doenças do corpo como também têm servido de lenitivo aos males do espirito, através da crença em propriedades catalisadoras de energias positivas.
Nos primórdios do catolicismo, raminhos de arruda eram utilizados para aspergir os fiéis com água-benta. Durante a Idade Média, a arruda consolidou a sua fama e os raminhos de arruda eram utilizados como coadjuvantes nos rituais católicos de exorcismo que geralmente se realizavam ao domingo, pelo que chamavam à arruda, erva-da-graça. As arrudas ainda hoje continuam muito ligadas à cultura popular e são usadas, de diferentes formas, para atrair a felicidade afastando as invejas e o mau-olhado.
As arrudas também foram fonte de inspiração para poetas e pintores de arte clássica. William Shakespeare refere-se à arruda em “Ricardo III” e também em “Hamlet” no 4º ato, cena 5 através da voz de Ophelia:
…”
There’s fennel for you, and columbines.
There’s rue for you, and here’s some for me.
We may call it “herb of grace” o' Sundays
…”
(Para vós, funcho e aquilégia, arruda para vós, e um pouco para mim, também. Poderemos chamar-lhe erva da graça dos domingos...)




O vendedor de arruda

Jean-Baptiste DeBret – Litografia / Viagem Pitoresca e Histórica do Brasil
Também o pintor francês do seculo XIX Jean Baptiste DeBret, publicou uma serie de litografias denominadas “Viagem Pitoresca e Histórica do Brasil” em que documentou aspetos da sociedade brasileira da época, colocando em especial evidencia a vida dos escravos negros trazidos de África. Numa dessas litografias DeBret retrata o comércio da arruda realizado pelos escravos africanos. Os raminhos de arruda eram usados como amuleto da sorte e como anticoncecional e abortivo, não só pelas escravas negras mas também pelas mulheres brancas.
É IMPORTANTE SABER:
Nenhum tratamento com arrudas deve ser feito sem supervisão adequada pois certos componentes são tóxicos e cumulativos podendo causar lesões irreversíveis, levando mesmo à morte. O próprio manuseamento das plantas deve ser feito com cuidado pois pode causar inflamações cutâneas, sobretudo em presença da luz solar.


Fotos de Ruta chalepensis: Serra do Calvo/Lourinhã



sábado, 17 de agosto de 2013

Thapsia villosa L.

Nomes comuns:
Tápsia, Turbit-da-terra

Thapsia villosa é uma planta elegante e vistosa. Bastante comum na região mediterrânica ocidental pode ser encontrada no sul de França, Península Ibérica e norte de África. Coloniza bosques, matagais, taludes, orlas dos campos de cultivo e beira dos caminhos. É característica de solos pobres em nitrogénio e cresce em terrenos expostos ao sol; embora seja indicadora de secura moderada a verdade é que se desenvolve com maior exuberância em solos com um razoável teor de humidade; prefere os solos ácidos mas não desdenha os solos alcalinos.
Thapsia villosa é uma espécie perene cujas partes aéreas secam e morrem após a frutificação, para rebrotar na estação seguinte.
O caule praticamente sem folhas (geralmente reduzidas às bainhas), é ereto, robusto e finamente estriado, chegando a atingir quase 2 metros de altura sempre que se reúnam as condições ideais.
O caule é muito engrossado na base emergindo a partir de uma raiz grossa e alongada, de cor esbranquiçada, a qual se encontra profundamente enterrada no solo. Da raiz brotam também duas ou três grandes folhas, de cor verde escuro que formam uma roseta basal. Estas folhas estão cobertas de pelos em ambas as paginas, tal como sugere o nome da espécie (villosa).


As folhas têm contorno triangular e o limbo é tão profundamente recortado em segmentos de forma oblonga, que estes ficam apenas ligados pela nervura central.
Os segmentos, que podem ser simples ou subdividirem-se 2 ou mesmo 3 vezes, têm margens com pequenos recortes com a ponta curta e aguda mas sem ser rígida; quase sempre as margens dos segmentos são revolutas, ou seja, estão reviradas para a página inferior da folha. A nervura central de cada folha (ráquis), está densamente coberta de pelos sendo a pagina superior de cor verde enquanto a pagina inferior é de um tom acinzentado ou glauco (azulado).
As bainhas das folhas basais são largas e bem desenvolvidas, mostrando o seu interior esbranquiçado, por vezes com laivos de purpura.

 As flores, muito pequenas, são monoclínicas (=hermafroditas) pois possuem órgãos reprodutores femininos (gineceu) e masculinos (androceu), ambos funcionais; do androceu constam 5 estames e o gineceu apresenta estigma com dois estilos. O cálice é constituído por 5 sépalas incipientes e as corolas, com simetria radial, são formadas por igual número de pétalas, de um amarelo intenso.


As flores reúnem-se em inflorescências do tipo umbela em que os pedicelos das várias flores (denominados raios) são longos e aproximadamente do mesmo tamanho; como estão todos inseridos no mesmo ponto do pedúnculo, formam uma estrutura hemisférica semelhante a um chapéu de chuva aberto. De notar que as inflorescências da Thapsia villosa são compostas por pequenas umbelas (umbélulas) que se reúnem para formar umbelas maiores. Graças a esta estratégia, o impacto visual das pequenas flores perante os insetos polinizadores fica muito potenciado.

Geralmente a umbela que floresce na extremidade do caule principal é a maior. Por vezes as umbelas que crescem em ramificações laterais do caule podem gerar apenas flores masculinas, as quais, caso tal aconteça, são estéreis e secam prematuramente. Na Thapsia villosa as umbelas raramente apresentam brácteas e as umbélulas também poucas vezes têm bractéolas. O número dos raios é muito variável podendo ir de 6 a 29 por cada umbela.
A Thapsia villosa floresce a partir de março, sendo visitada por numerosos tipos de insetos atraídos pelas suas grandes inflorescências de cor amarelo brilhante. Em meados de junho já está em plena frutificação, caracteristicamente muito mais cedo que outras espécies da mesma família as quais continuam em flor até muito mais tarde.
Os frutos, maduros em agosto, tomam a forma oblonga sendo formados por duas partes perfeitamente ligadas entre si e que se separam na maturação; cada uma delas está provida de expansões laterais membranosas que ajudam na dispersão pelo vento.

A Thapsia villosa é altamente variável na sua morfologia. Registam-se duas variedades, a T. villosa var. villosa e a T. villosa var. dissecta. A diferença entre as duas variedades está basicamente no tamanho dos segmentos das folhas que, na variedade T.villosa dissecta são mais estreitos e também mais subdivididos. No entanto registam-se formas intermedias pelo que distinguir as duas variedades pode ser bastante complicado.

Thapsia villosa é uma espécie do género Thapsia o qual se inclui na família Apiaceae também denominada Umbelliferae. Esta é uma importante família botânica que engloba entre 2500 a 3700 espécies divididas entre 300 a 450 géneros, alguns deles de classificação duvidosa e seguramente sujeitos a revisão. É uma família de grande importância económica cujas espécies estão amplamente difundidas por todo o mundo com especial destaque para as regiões temperadas do hemisfério norte. Os óleos essenciais libertados por muitas das suas espécies têm especial interesse na medicina. Contudo a grande importância desta família vem do facto de incluir muitas espécies agrícolas, muitas das quais utilizamos na nossa dieta do dia a dia, nomeadamente a salsa Petroselinum crispum, a cenoura Daucus carota, o aipo Apium graveolens, o anis Pimpinella anisum, o endro Anethum graveolens, o funcho Foeniculum vulgare, os coentros Coriandrum sativum e os cominhos Cuminum cyminum, entre tantas outras. Ao mesmo tempo inclui plantas muito venenosas como sejam a cicuta Conium maculatum e o embude Oenanthe crocata.

A Thapsia villosa é uma espécie muito toxica, o que não impediu, em tempos idos, a sua utilização em medicina tradicional, aproveitando as suas propriedades e efeitos muito violentos como purgante e emético, através do ingestão do exsudado da raiz. Na realidade não se sabe muito sobre as propriedades terapêuticas desta planta mas parece que a sua raiz foi muito comercializada beneficiando do facto de ser confundida com a raiz da Ipomoea turpethum, espécie endémica da Índia e que era muito apreciada pelos seus suaves efeitos laxantes. O nome comum da Ipomea turpethum era "turbit", nome pelo qual a Thapsia villosa também ficou conhecida em Portugal.
Entretanto a Thapsia villosa var. villosa está a ser objeto, juntamente com outras espécies do mesmo género, de pesquisa e investigação medica pois, devido as suas características, poderá ser vir a ser útil no tratamento de doenças neurodegenerativas como a doença de Alzheimer e Parkinson.

Fotos: Serra do Calvo/Lourinhã