"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





sábado, 17 de agosto de 2013

Thapsia villosa L.

Nomes comuns:
Tápsia, Turbit-da-terra

Thapsia villosa é uma planta elegante e vistosa. Bastante comum na região mediterrânica ocidental pode ser encontrada no sul de França, Península Ibérica e norte de África. Coloniza bosques, matagais, taludes, orlas dos campos de cultivo e beira dos caminhos. É característica de solos pobres em nitrogénio e cresce em terrenos expostos ao sol; embora seja indicadora de secura moderada a verdade é que se desenvolve com maior exuberância em solos com um razoável teor de humidade; prefere os solos ácidos mas não desdenha os solos alcalinos.
Thapsia villosa é uma espécie perene cujas partes aéreas secam e morrem após a frutificação, para rebrotar na estação seguinte.
O caule praticamente sem folhas (geralmente reduzidas às bainhas), é ereto, robusto e finamente estriado, chegando a atingir quase 2 metros de altura sempre que se reúnam as condições ideais.
O caule é muito engrossado na base emergindo a partir de uma raiz grossa e alongada, de cor esbranquiçada, a qual se encontra profundamente enterrada no solo. Da raiz brotam também duas ou três grandes folhas, de cor verde escuro que formam uma roseta basal. Estas folhas estão cobertas de pelos em ambas as paginas, tal como sugere o nome da espécie (villosa).


As folhas têm contorno triangular e o limbo é tão profundamente recortado em segmentos de forma oblonga, que estes ficam apenas ligados pela nervura central.
Os segmentos, que podem ser simples ou subdividirem-se 2 ou mesmo 3 vezes, têm margens com pequenos recortes com a ponta curta e aguda mas sem ser rígida; quase sempre as margens dos segmentos são revolutas, ou seja, estão reviradas para a página inferior da folha. A nervura central de cada folha (ráquis), está densamente coberta de pelos sendo a pagina superior de cor verde enquanto a pagina inferior é de um tom acinzentado ou glauco (azulado).
As bainhas das folhas basais são largas e bem desenvolvidas, mostrando o seu interior esbranquiçado, por vezes com laivos de purpura.

 As flores, muito pequenas, são monoclínicas (=hermafroditas) pois possuem órgãos reprodutores femininos (gineceu) e masculinos (androceu), ambos funcionais; do androceu constam 5 estames e o gineceu apresenta estigma com dois estilos. O cálice é constituído por 5 sépalas incipientes e as corolas, com simetria radial, são formadas por igual número de pétalas, de um amarelo intenso.


As flores reúnem-se em inflorescências do tipo umbela em que os pedicelos das várias flores (denominados raios) são longos e aproximadamente do mesmo tamanho; como estão todos inseridos no mesmo ponto do pedúnculo, formam uma estrutura hemisférica semelhante a um chapéu de chuva aberto. De notar que as inflorescências da Thapsia villosa são compostas por pequenas umbelas (umbélulas) que se reúnem para formar umbelas maiores. Graças a esta estratégia, o impacto visual das pequenas flores perante os insetos polinizadores fica muito potenciado.

Geralmente a umbela que floresce na extremidade do caule principal é a maior. Por vezes as umbelas que crescem em ramificações laterais do caule podem gerar apenas flores masculinas, as quais, caso tal aconteça, são estéreis e secam prematuramente. Na Thapsia villosa as umbelas raramente apresentam brácteas e as umbélulas também poucas vezes têm bractéolas. O número dos raios é muito variável podendo ir de 6 a 29 por cada umbela.
A Thapsia villosa floresce a partir de março, sendo visitada por numerosos tipos de insetos atraídos pelas suas grandes inflorescências de cor amarelo brilhante. Em meados de junho já está em plena frutificação, caracteristicamente muito mais cedo que outras espécies da mesma família as quais continuam em flor até muito mais tarde.
Os frutos, maduros em agosto, tomam a forma oblonga sendo formados por duas partes perfeitamente ligadas entre si e que se separam na maturação; cada uma delas está provida de expansões laterais membranosas que ajudam na dispersão pelo vento.

A Thapsia villosa é altamente variável na sua morfologia. Registam-se duas variedades, a T. villosa var. villosa e a T. villosa var. dissecta. A diferença entre as duas variedades está basicamente no tamanho dos segmentos das folhas que, na variedade T.villosa dissecta são mais estreitos e também mais subdivididos. No entanto registam-se formas intermedias pelo que distinguir as duas variedades pode ser bastante complicado.

Thapsia villosa é uma espécie do género Thapsia o qual se inclui na família Apiaceae também denominada Umbelliferae. Esta é uma importante família botânica que engloba entre 2500 a 3700 espécies divididas entre 300 a 450 géneros, alguns deles de classificação duvidosa e seguramente sujeitos a revisão. É uma família de grande importância económica cujas espécies estão amplamente difundidas por todo o mundo com especial destaque para as regiões temperadas do hemisfério norte. Os óleos essenciais libertados por muitas das suas espécies têm especial interesse na medicina. Contudo a grande importância desta família vem do facto de incluir muitas espécies agrícolas, muitas das quais utilizamos na nossa dieta do dia a dia, nomeadamente a salsa Petroselinum crispum, a cenoura Daucus carota, o aipo Apium graveolens, o anis Pimpinella anisum, o endro Anethum graveolens, o funcho Foeniculum vulgare, os coentros Coriandrum sativum e os cominhos Cuminum cyminum, entre tantas outras. Ao mesmo tempo inclui plantas muito venenosas como sejam a cicuta Conium maculatum e o embude Oenanthe crocata.

A Thapsia villosa é uma espécie muito toxica, o que não impediu, em tempos idos, a sua utilização em medicina tradicional, aproveitando as suas propriedades e efeitos muito violentos como purgante e emético, através do ingestão do exsudado da raiz. Na realidade não se sabe muito sobre as propriedades terapêuticas desta planta mas parece que a sua raiz foi muito comercializada beneficiando do facto de ser confundida com a raiz da Ipomoea turpethum, espécie endémica da Índia e que era muito apreciada pelos seus suaves efeitos laxantes. O nome comum da Ipomea turpethum era "turbit", nome pelo qual a Thapsia villosa também ficou conhecida em Portugal.
Entretanto a Thapsia villosa var. villosa está a ser objeto, juntamente com outras espécies do mesmo género, de pesquisa e investigação medica pois, devido as suas características, poderá ser vir a ser útil no tratamento de doenças neurodegenerativas como a doença de Alzheimer e Parkinson.

Fotos: Serra do Calvo/Lourinhã



quinta-feira, 25 de julho de 2013

Ornithogalum narbonense L.

Cebolinho-de-flor-branca

Ornithogalum narbonense é uma das espécies perenes chamadas bolbosas, as quais se caraterizam por perderem as partes aéreas durante a época desfavorável, permanecendo em estado latente debaixo do solo, sob a forma de um bolbo. 
Conforme a espécie os órgãos subterrâneos de reserva assumem estruturas morfologicamente diferentes e podem derivar quer do engrossamento do caule (bolbos, cormos, rizomas e tubérculos) quer da raiz (raízes tuberosas). Contudo, na globalidade, são muitas vezes denominados de “bolbos” por uma questão de comodidade.
Ornithogalum narbonense cresce a partir de um bolbo propriamente dito. Os bolbos são porções de caule que engrossaram e se transformaram em órgãos subterrâneos de armazenamento de nutrientes fornecendo agua e alimento nos primeiros tempos de vida da planta, permitindo-lhe o seu normal desenvolvimento mesmo em condições adversas.
Bolbo de Ornithogalum narbonense
Os bolbos têm uma estrutura interior muito complexa. No seu interior encontram-se, já diferenciadas, as peças rudimentares de uma flor assim como as partes vegetativas da planta, as quais estão prontas a emergir através da gema apical logo que ocorram as condições ambientais e de cultivo ideais e específicas para cada género.

A estrutura exterior de um bolbo, grossa e de aspeto carnudo, é formada pelas folhas dispostas em camadas, geralmente com a forma de escamas desprovidas de clorofila e em cujos tecidos se acumula a reserva de nutrientes. Estas folhas inserem-se na sua parte inferior, numa zona rígida denominada prato ou disco basal, de cujas margens surgem as raízes. As peças florais encontram-se bem protegidas no interior do bolbo e todo o conjunto está coberto, na maioria dos casos, por uma túnica formada pelas escamas da camada exterior, a qual previne a desidratação da estrutura (certas plantas têm um bolbo de aspeto escamoso pois não têm túnica, como é o caso dos lírios).  
Além da gema apical podem existir gemas laterais que, durante o período de crescimento, darão origem aos bolbilhos os quais acabam por se desprender gerando novas plantas em redor da planta-mãe. Contudo, estes são bolbos de pequeno tamanho que necessitam de engrossar durante alguns anos antes que possam florescer. De qualquer forma, após passar pelas diversas fases do seu ciclo, nomeadamente rebentação, crescimento, floração e emurchecimento, o bolbo principal não só recupera a energia eventualmente gasta como também aumenta de volume.

Os bolbos de Ornithogalum narbonense são geralmente solitários, de forma ovoide ou esférica e estão envolvidos por túnicas de cor castanho claro ou esbranquiçadas.
Não se regista a produção de bolbilhos, pelo menos de forma regular (há espécies que têm produção abundante de bolbilhos, outras só os produzem de forma excecional). Sendo uma planta de aspeto frágil o Ornithogalum narbonense é, contudo, uma espécie bem adaptada para sobreviver às transformações produzidas pelo homem no meio ambiente. Assim, o rebento que sai da gema apical é muitas vezes curvo na zona de união com o escapo floral, o que faz com que se quebre ao tentar-se extrai-lo, dificultando a sua colheita; por outro lado, o bolbo encontra-se geralmente a uma profundidade considerável o que resulta da emissão de raízes contráteis as quais possuem a capacidade de puxar o bolbo para baixo, aprofundando-o no solo à medida que vai crescendo. Desta forma o bolbo fica a salvo de colheitas exageradas, de fogos e secas e também das cavas que os agricultores efetuam à superfície.

As folhas, em roseta basal são eretas e firmes, sem pelos, de forma linear e com nervuras fortemente marcadas. O escapo floral, ereto e comprido, pode ultrapassar os 50 cm de altura; não tem folhas e é também glabro (sem pelos). Tanto as folhas como o escapo floral são de um verde azulado, tom este que lhe é dado por um revestimento ceroso constituída por um pó muito fino.
Dependendo das condições de secura as folhas podem ou não ser caducas durante a floração.
A inflorescência situa-se no topo do escapo floral e é constituída por numerosas flores pedunculadas que se inserem no eixo principal, a vários níveis. As flores vão abrindo sucessivamente a partir da extremidade inferior do ramo ficando as flores mais velhas mais afastadas do ápice. Os diferentes ângulos em que os pedicelos se dispõem em relação ao ramo central e o comprimento variável dos mesmos (dependendo da maturidade da inflorescência), dão ao conjunto um aspeto piramidal.
Cada flor nasce na axila de uma bráctea a qual pode ter o mesmo tamanho dos pedicelos ou até ser mais curta ou mais comprida que os mesmos.
As flores, ligeiramente fragrantes, mostram 6 tépalas (3 pétalas + 3 sépalas indiferenciadas) de cor branca, com uma faixa longitudinal verde que apenas é visível na face dorsal.
As flores possuem órgãos de reprodução masculinos e femininos funcionais. Os 6 estames têm filetes brancos que alargam bruscamente na sua metade inferior e as anteras são um tom amarelo pálido ou esbranquiçado.
O ovário está dividido em 3 lóculos separados por membranas denominadas septos e em cujas suturas existem nectários que segregam a solução açucarada que atrai os insetos polinizadores, o néctar, o qual se acumula na cavidade existente entre o ovário e os filamentos dos estames.
 Ornithogalum narbonense reproduz-se sobretudo através de sementes. O fruto é uma capsula com a forma de uma bolota que se abre em três valvas para deixar sair a abundante produção de sementes, angulosas e de forma irregular.
A floração inicia-se em princípios de abril e estende-se até meados de junho.
Esta espécie cresce na beira dos caminhos, campos de cultivo de cereais, terrenos nitrificados, vinhas, olivais. Distribui-se de forma dispersa pelo sul da Europa, Macaronésia, norte de africa e sudoeste asiático. Embora cresça indiferentemente em qualquer tipo de solo prefere os substratos argilosos e algo pedregosos.
Distribuição em Portugal
Fonte: Flora Digital de Portugal - UTAD

As várias espécies Ornithogalum são na generalidade conhecidas pelo nome vernáculo “leite de galinha”, o que poderia ser logico (tendo em conta que a maioria das espécies têm flores brancas) se as galinhas produzissem leite.
É que a palavra Ornithogalum é o resultado da contração dos vocábulos gregos “ornitho” (pássaro) e “gallum” (leite).
Nem sempre é possível perceber a origem dos nomes científicos dados às espécies ou a razão pela qual foram batizadas com este ou aquele nome sobretudo quando tal aconteceu há milhares de anos. É o caso das espécies Ornithogalum cujos bolbos são referidos com este mesmo nome no Antigo Testamento (Livro dos Reis II, capitulo 6, versículo 25) e os quais eram vendidos nos mercados e usados na alimentação humana (tal como ainda hoje acontece na Palestina, com a espécie O. Umbellatum).
Há varias explicações para a origem do nome Ornithogallum mas a que eu prefiro é a referência feita por Anna Amelia Obermeyer, botânica sul-africana, à existência do proverbio grego “tão inacessível como leite de pomba” o qual era empregue para classificar algo de maravilhoso ou extraordinário. Em Portugal a dita ave deixou de ser pomba e passou a galinha, aparentemente ave da nossa preferência. Afinal não é ela que põe os ovos de ouro?
De facto, sendo verdade que algumas espécies do género Ornithogallum são bastante inconspícuas outras há que são muito vistosas e algumas até se cultivam pelo seu valor ornamental, estando neste caso a Ornithogalum  Nutans e a Ornithogalum longibracteatum.
E agora, a sistemática:
Ornithogalum narbonense pertence ao género Ornithogalum o qual, no conceito tradicional, engloba um grupo extenso e morfologicamente bastante heterogéneo dividido num número de subgéneros variável, conforme as correntes de opinião de quem de direito. Apesar dos recentes estudos taxonómicos a confusão mantem-se. É que os resultados obtidos foram muito díspares o que não admira tendo em conta que as características apresentadas por cada autor foram distintas.
Do ponto de vista biogeográfico o género Ornithogalum distribui-se por dois centros principais: um na africa do sul tropical e outro que engloba a região mediterrânica, norte de África e sudoeste asiático.
No que diz respeito à Península Ibérica a posição de alguns autores incluindo a Flora Ibérica, é a de adotar uma posição intermedia entre os vários conceitos, dividindo o género Ornithogalum em 4 subgéneros, todos de espécies presentes na flora peninsular e com características fáceis de reconhecer. São eles, os subgéneros Ornithogalum, Beryllis (no qual se inclui a espécie Ornithogalum narbonense), Cathissa e Caruelia.
Ornithogalum narbonense pertenceu em tempos à família Liliaceae, depois passou para a família Hyacinthaceae e recentemente foi reclassificada na família Asparagaceae pelo sistema APG, tendo Hyacinthaceae sido eliminada, situação que tem causado enorme controvérsia… Veja mais informações AQUI.
Fotos: Serra do Calvo/Lourinhã





quinta-feira, 11 de julho de 2013

Gladiolus illyricus Koch. subsp. illyricus

Espadana-dos-montes

Gladiolus illyricus é o mais pequeno dos gladíolos silvestres e distribui-se pelo sul e oeste europeu, norte de África e oeste asiático. Habita matos, terrenos incultos e terrenos de cereais, com clara preferência por solos ácidos, florescendo de forma breve entre março e junho.
Distribuição em Portugal
Fonte: UTAD Flora Digital de Portugal
O Gladiolus illyricus é uma planta perene cujas partes aéreas secam após a floração. A espécie é considerada uma bolbosa porque se propaga de forma vegetativa através de um órgão subterrâneo especializado, o qual resulta do engrossamento de um segmento do caule, por acumulação de reservas. No caso dos Gladiolus, a esse órgão de reservas chama-se cormo.
Baseado em Flora Iberica
O cormo tem uma estrutura diferente dos bolbos, apesar de ser muitas vezes chamado “bolbo solido”. Na realidade, o cormo não é formado por folhas sobrepostas como acontece com os bolbos, sendo antes uma estrutura solida e carnuda, de forma ovoide e coberta com uma túnica de fibras grossas. As finas raízes crescem a partir da base do cormo e as folhas e escapos florais inserem-se no seu ápice.
Bolbos e cormos têm função idêntica e as suas reservas de nutrientes e água constituem uma forma de adaptação às condições ambientais: em climas mais secos, como é o caso dos mediterrânicos, criam condições para que as plantas se reproduzam mesmo em caso de seca prolongada; por outro lado também lhes permite, quando conveniente, desenvolverem-se cedo no ano, antecipando-se às suas concorrentes que com ela competem por água e nutrientes.
Ao contrário dos bolbos, os cormos mirram e secam no fim da estação para darem lugar a um novo cormo o qual, por sua vez, assume a tarefa de alimentar a planta na estação seguinte. Juntamente com o novo cormo formam-se cormos mais pequenos, os chamados bolbilhos, que produzirão novas plantas no futuro.
No final do inverno, as folhas do Gladiolus illyricus emergem do ápice do cormo. São folhas estreitas e de cor verde, em forma de sabre e com várias nervuras longitudinais paralelas sendo a nervura central mais proeminente que as restantes.
Logo depois, surge um único escapo floral, longo e robusto, onde se forma a inflorescência, num conjunto de 3 a 8 flores (geralmente não mais de 5), dispostas em espiga.
As flores estão todas viradas para o mesmo lado mas saem de ambos os lados do escapo, de forma alternada.
As flores, de cor rosa forte, são compostas por 6 tépalas (3 pétalas e 3 sépalas indiferenciadas) desiguais entre si, sendo soldadas na parte inferior, formando um tubo curto.
O conjunto das tépalas de cada flor está envolvido na base por 2 brácteas de tamanho diferente e cuja margem é membranosa.
Foto Wikipedia Commons
As flores são hermafroditas, os estames em forma de seta são 3 e o estilo divide-se em 3 estigmas.
Os frutos são capsulas ovoides que ao ficarem secas se abrem em 3 valvas, por meio de fendas longitudinais. As sementes contidas na capsula são achatadas e aladas pois têm uma expansão lateral membranácea que as ajuda na dispersão pelo vento.
A espécie Gladiolus illyricus pertence ao género Gladiolus o qual se inclui na família Iridaceae cuja maior importância económica se prende com a produção de espécies ornamentais, muito apreciadas tanto em paisagismo como para o comércio de flores de corte. As cerca de 2000 espécies reunidas na família Iridaceae estão repartidas em cerca de 70 géneros e caraterizam-se por serem plantas perenes que formam órgãos de reserva de nutrientes subterrâneos (rizomas, bolbos ou cormos, dependendo do género) e dos quais brotam as novas plantas no ano seguinte. As espécies da família Iridaceae distribuem-se pelo mundo inteiro e estão adaptadas a grande variedade de habitats, solos e tipos de climas, desde os temperados aos tropicais. Contudo, a maior parte das espécies são originárias das regiões centro e sul americanas, Africa do sul e como não podia deixar de ser, da Europa, nomeadamente da região mediterrânica.
O género Gladiolus engloba 255 espécies entre as quais, o Gladiolus illyricus.
A denominação “gladiolus” provém do termo “gladius” que, em latim, significa espada, numa referência à morfologia das folhas da planta.
Os gladíolos estão entre as plantas bolbosas mais apreciadas pelas suas flores magníficas que proporcionam uma brilhante profusão de cores durante o verão e fornecem flores de corte de longa duração. As cores dos gladíolos variam entre o amarelo-claro e o escarlate. As flores podem ser todas da mesma cor mas é mais frequente serem bicolores ou tricolores, com manchas vistosas na base. Utilizados especialmente como flores de corte, os gladíolos cultivados também fazem um belo canteiro sendo que o seu cultivo não é complicado. A plantação dos cormos deve ser realizada no início da primavera a cerca de 10 cm de profundidade (tendo atenção para que toda a superfície do cormo fique em contacto com o solo). A plantação deve ser feita em local exposto ao sol e abrigado do vento forte. O terreno deve ser ligeiro e fértil, podendo incorporar-se algum adubo orgânico. A rega deve ser adequada às condições climáticas.
Caso se deseje cortar as flores para decoração de jarras, o melhor momento para o fazer é quando abre a flor inferior da espiga sendo essa a primeira a abrir. Depois de cortadas as flores, deve continuar a regar-se a planta para que se desenvolva o novo cormo. Para ter a certeza de que não irá apodrecer durante a estação chuvosa este novo cromo deve ser extraído do terreno quando todas as folhas murcharem e guardado em local seco até à primavera seguinte (o cormo antigo fica mumificado e deve deitar-se fora). Agarrados ao novo cormo vêm alguns mais pequenos que podemos utilizar para obter novos exemplares. Estes devem ser plantados para que cresçam e engrossem pois requerem um tamanho mínimo para que floresçam. Assim, e porque não se pode apressar a natureza, devemos esperar alguns anos até que os vejamos florescer.
Os géneros mais representativos da família Iridaceae são Iris e Gladiolus mas existem outros que são também muito populares pois propiciam espécies muito atrativas nomeadamente Freesia, Sparaxis, Tigridia, Ixia, Crocosmis, Crocus, entre outros.

Fotos: Caniçal/Lourinhã


sexta-feira, 28 de junho de 2013

Misopates calycinum (Lam.) Rothm


Misopates calycinum é mais uma pequena herbácea da família Plantaginaceae e do género Misopates. É muito semelhante à espécie Misopates orontium (veja AQUI), no entanto é muito fácil distingui-las uma vez que as flores são rosa na Misopates orontium e brancas na Misopates calycinum. Acresce ainda o facto de as flores de Misopates calycinum estarem providas de sépalas que não excedem o tamanho da corola, ao passo que na Misopates orontium a excedem largamente. A Misopates calycinum é também, das duas espécies, a menos peluda, quase glabra.
Distribuição assinalada em Portugal por FLORA-ON
O habitat de ambas as espécies é praticamente o mesmo embora a Misopates calycinum seja mais difícil de encontrar. Na generalidade esta espécie cresce em bermas de caminhos, campos de cultivo em pousio ou abandonados, em taludes e nos terrenos remexidos em geral, por serem mais nitrificados. Prefere os solos com algum teor calcário e gosta de um pouco de humidade. Distribui-se pelo sul da Europa (Portugal e Espanha), bacia do mediterrâneo e norte de África.
A Misopates calycinum é uma espécie de ciclo de vida anual que pode chegar aos 80 cm de altura, glabra (sem pelos) na parte inferior e com alguns pelos na inflorescência. O caule principal é ereto, geralmente simples, podendo no entanto apresentar-se ramificado.
As folhas, todas caulinares e de pecíolo curto, são inteiras, lineares, de forma elíptica ou lanceolada, com o ápice aguçado e com margens ligeiramente enroladas para baixo.
As brácteas, alternadas, são semelhantes a folhas, mas de menor dimensão.
As flores, com simetria bilateral, nascem solitárias ou em grupos de 6 a 12 na axila das brácteas, formando cachos pouco densos.
O cálice é formado por 5 sépalas com pelos menos densos e mais compridos que na espécie Misopates orontium. As sépalas são estreitas e profundamente divididas e com tamanhos desiguais, sendo ligeiramente mais curtas que as pétalas.
As cinco pétalas que constituem a corola são brancas com alguns veios arroxeados e estão unidas na base, formando um tubo cilíndrico e longo que se abre para o exterior por dois lábios: o superior com 2 lóbulos correspondentes a 2 pétalas fundidas e o inferior com 3 lóbulos correspondentes a igual número de pétalas fundidas. Os órgãos reprodutivos femininos e masculinos encontram-se no interior da flor, estigma, estilete e ovário e 4 estames com as respetivas anteras.
O fruto é uma capsula ovoide mais curta que o cálice, com alguns pelos, corcunda na base e formada por dois lóculos. As numerosas sementes acastanhadas saem do lóculo inferior através de dois orifícios.
Floresce de maio a setembro.
A polinização é feita por insetos. No entanto, e à semelhança do que acontece com a Misopates orontium, esta é uma espécie com clara tendência para a autofertilização a qual se dá no início da floração quando, devido a atraso de um dia ou dois no desenvolvimento pleno das pétalas, os sacos de pólen abrem enquanto a flor ainda está fechada.

Misopates ou Antirrhinum ?

Durante seculos as espécies do atual género Misopates estiveram integradas no género Antirrhinum (Besler 1613; Tournefort 1700; Linné 1753; Miller 1768; Chavannes 1833). Contudo, Misopates foi promovido a género por direito próprio, em 1840, por Rafinesque. Esta revisão foi de certo modo ignorada por alguns especialistas, uma vez que ainda hoje continuam a incluir as espécies Misopates no género Antirrhinum (classificação original de Lineu). Contudo parecem inegáveis as diferenças físicas e morfológicas entre os dois géneros, nomeadamente no tamanho das flores, muito maiores no Antirrhinum e no tamanho das sépalas (iguais ou maiores que a corola, no Misopates e bastante mais curtas no Antirrhinum); as folhas são mais estreitas no Misopates e as sementes também diferem na sua forma; além disso a tendência para a autofertilização registada no Misopates não se estende ao Antirrhinum que apenas faz polinização cruzada. Esperemos que haja consenso, a breve prazo!

Fotos: Serra do Calvo/Lourinhã


quinta-feira, 20 de junho de 2013

Misopates orontium ( L. ) Raf.


NOMES VULGARES:
Focinho de rato; focinho-de-burro; focinho-de-coelho; bocas-de-lobo;
samacalo;  samacalo-de-duas-folhas; olho-de-gato

Misopates orontium é uma pequena planta herbácea anual, de caules eretos cuja altura pode ir dos 5 aos 50 cm de altura. Na generalidade é uma planta muito pequena que, antes de começar a florir, facilmente pode passar despercebida ao incauto caminhante. O próprio nome do género, Misopates, a que pertence esta espécie nos alerta para este facto: misopates deriva do grego, da contração de duas palavras, “misos” = odiar e “patein” = pisar. 
 As espécies do pequeno género Misopates estavam incluídas na família Scrophulariaceae mas, foram recentemente transferidas para a família Plantaginaceae pelo APG (Angiosperm Phylogeny Group) cujas investigações, baseadas em pesquisas genéticas, têm levado a muitas alterações não só na classificação das angiospermas mas também nos conceitos tradicionalmente aceites.
Distribuição em Portugal
Fonte: Jardim Botânico UTAD
A Misopates orontium floresce e frutifica de março a agosto e é muito comum em quase todo o nosso país, crescendo tanto em solos alcalinos como ácidos desde que tenham riqueza de nutrientes.
Não se incomoda com alguma sombra mas prefere os locais soalheiros e abrigados. Podemos encontra-la em campos de solo removido quer cultivados ou incultos e na berma de caminhos rurais. De forma geral distribui-se pelo sul da Europa, norte de África, oeste asiático e Macaronésia tendo sido naturalizada por outras paragens, nomeadamente continente americano e Austrália.
Misopates orontium apresenta caules simples ou caules ramificados a partir da parte inferior da planta. Os caules podem ser glabros ou apresentar alguns pelos sendo que os que revestem a parte inferior são um tanto compridos, rígidos mas flexíveis enquanto que os da parte superior, glandulares, são fracos e densos.
As folhas são lineares, de forma estreita e comprida, apresentando apenas uma nervura bem marcada; a margem é lisa e sem recortes e o pecíolo que as liga ao caule é curto. As folhas posicionam-se nos caules de forma oposta na parte inferior da planta e alternada na superior.
As flores são muito pequenas e suavemente aromáticas. Reunem-se em cachos pouco densos estando cada flor protegida por uma bráctea linear semelhante a uma folha e por um cálice formado por 5 sépalas lineares, todas de tamanhos desiguais. As sépalas são mais curtas que a bráctea mas mais compridas que o tubo da corola. No seu conjunto a estrutura aparenta ser um cálice formado por 6 sépalas.
As 5 pétalas que formam a corola são ligeiramente pubescentes e de cor rosa mostrando alguns veios de um tom mais escuro.
As pétalas estão unidas desde a base, formando um tubo que se abre para o exterior por dois lábios: o superior com 2 lóbulos, correspondentes a 2 pétalas fundidas e o inferior com 3 lóbulos correspondentes a igual número de pétalas fundidas. Os órgãos reprodutivos femininos e masculinos encontram-se no interior da flor, estigma, estilete e ovário e 4 estames com as respetivas anteras, sendo que 1 par de estames é mais comprido que o outro. Os pedicelos das flores são curtos mas continuam a crescer durante a frutificação.
O fruto é uma capsula dividida em dois lóculos desiguais densamente cobertos por um indumento de pelos glandulares fracos e densos e que deixa sair as sementes, negras, por 2 poros.




Fotos: Serra do Calvo/Lourinhã