"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





sexta-feira, 28 de junho de 2013

Misopates calycinum (Lam.) Rothm


Misopates calycinum é mais uma pequena herbácea da família Plantaginaceae e do género Misopates. É muito semelhante à espécie Misopates orontium (veja AQUI), no entanto é muito fácil distingui-las uma vez que as flores são rosa na Misopates orontium e brancas na Misopates calycinum. Acresce ainda o facto de as flores de Misopates calycinum estarem providas de sépalas que não excedem o tamanho da corola, ao passo que na Misopates orontium a excedem largamente. A Misopates calycinum é também, das duas espécies, a menos peluda, quase glabra.
Distribuição assinalada em Portugal por FLORA-ON
O habitat de ambas as espécies é praticamente o mesmo embora a Misopates calycinum seja mais difícil de encontrar. Na generalidade esta espécie cresce em bermas de caminhos, campos de cultivo em pousio ou abandonados, em taludes e nos terrenos remexidos em geral, por serem mais nitrificados. Prefere os solos com algum teor calcário e gosta de um pouco de humidade. Distribui-se pelo sul da Europa (Portugal e Espanha), bacia do mediterrâneo e norte de África.
A Misopates calycinum é uma espécie de ciclo de vida anual que pode chegar aos 80 cm de altura, glabra (sem pelos) na parte inferior e com alguns pelos na inflorescência. O caule principal é ereto, geralmente simples, podendo no entanto apresentar-se ramificado.
As folhas, todas caulinares e de pecíolo curto, são inteiras, lineares, de forma elíptica ou lanceolada, com o ápice aguçado e com margens ligeiramente enroladas para baixo.
As brácteas, alternadas, são semelhantes a folhas, mas de menor dimensão.
As flores, com simetria bilateral, nascem solitárias ou em grupos de 6 a 12 na axila das brácteas, formando cachos pouco densos.
O cálice é formado por 5 sépalas com pelos menos densos e mais compridos que na espécie Misopates orontium. As sépalas são estreitas e profundamente divididas e com tamanhos desiguais, sendo ligeiramente mais curtas que as pétalas.
As cinco pétalas que constituem a corola são brancas com alguns veios arroxeados e estão unidas na base, formando um tubo cilíndrico e longo que se abre para o exterior por dois lábios: o superior com 2 lóbulos correspondentes a 2 pétalas fundidas e o inferior com 3 lóbulos correspondentes a igual número de pétalas fundidas. Os órgãos reprodutivos femininos e masculinos encontram-se no interior da flor, estigma, estilete e ovário e 4 estames com as respetivas anteras.
O fruto é uma capsula ovoide mais curta que o cálice, com alguns pelos, corcunda na base e formada por dois lóculos. As numerosas sementes acastanhadas saem do lóculo inferior através de dois orifícios.
Floresce de maio a setembro.
A polinização é feita por insetos. No entanto, e à semelhança do que acontece com a Misopates orontium, esta é uma espécie com clara tendência para a autofertilização a qual se dá no início da floração quando, devido a atraso de um dia ou dois no desenvolvimento pleno das pétalas, os sacos de pólen abrem enquanto a flor ainda está fechada.

Misopates ou Antirrhinum ?

Durante seculos as espécies do atual género Misopates estiveram integradas no género Antirrhinum (Besler 1613; Tournefort 1700; Linné 1753; Miller 1768; Chavannes 1833). Contudo, Misopates foi promovido a género por direito próprio, em 1840, por Rafinesque. Esta revisão foi de certo modo ignorada por alguns especialistas, uma vez que ainda hoje continuam a incluir as espécies Misopates no género Antirrhinum (classificação original de Lineu). Contudo parecem inegáveis as diferenças físicas e morfológicas entre os dois géneros, nomeadamente no tamanho das flores, muito maiores no Antirrhinum e no tamanho das sépalas (iguais ou maiores que a corola, no Misopates e bastante mais curtas no Antirrhinum); as folhas são mais estreitas no Misopates e as sementes também diferem na sua forma; além disso a tendência para a autofertilização registada no Misopates não se estende ao Antirrhinum que apenas faz polinização cruzada. Esperemos que haja consenso, a breve prazo!

Fotos: Serra do Calvo/Lourinhã


quinta-feira, 20 de junho de 2013

Misopates orontium ( L. ) Raf.


NOMES VULGARES:
Focinho de rato; focinho-de-burro; focinho-de-coelho; bocas-de-lobo;
samacalo;  samacalo-de-duas-folhas; olho-de-gato

Misopates orontium é uma pequena planta herbácea anual, de caules eretos cuja altura pode ir dos 5 aos 50 cm de altura. Na generalidade é uma planta muito pequena que, antes de começar a florir, facilmente pode passar despercebida ao incauto caminhante. O próprio nome do género, Misopates, a que pertence esta espécie nos alerta para este facto: misopates deriva do grego, da contração de duas palavras, “misos” = odiar e “patein” = pisar. 
 As espécies do pequeno género Misopates estavam incluídas na família Scrophulariaceae mas, foram recentemente transferidas para a família Plantaginaceae pelo APG (Angiosperm Phylogeny Group) cujas investigações, baseadas em pesquisas genéticas, têm levado a muitas alterações não só na classificação das angiospermas mas também nos conceitos tradicionalmente aceites.
Distribuição em Portugal
Fonte: Jardim Botânico UTAD
A Misopates orontium floresce e frutifica de março a agosto e é muito comum em quase todo o nosso país, crescendo tanto em solos alcalinos como ácidos desde que tenham riqueza de nutrientes.
Não se incomoda com alguma sombra mas prefere os locais soalheiros e abrigados. Podemos encontra-la em campos de solo removido quer cultivados ou incultos e na berma de caminhos rurais. De forma geral distribui-se pelo sul da Europa, norte de África, oeste asiático e Macaronésia tendo sido naturalizada por outras paragens, nomeadamente continente americano e Austrália.
Misopates orontium apresenta caules simples ou caules ramificados a partir da parte inferior da planta. Os caules podem ser glabros ou apresentar alguns pelos sendo que os que revestem a parte inferior são um tanto compridos, rígidos mas flexíveis enquanto que os da parte superior, glandulares, são fracos e densos.
As folhas são lineares, de forma estreita e comprida, apresentando apenas uma nervura bem marcada; a margem é lisa e sem recortes e o pecíolo que as liga ao caule é curto. As folhas posicionam-se nos caules de forma oposta na parte inferior da planta e alternada na superior.
As flores são muito pequenas e suavemente aromáticas. Reunem-se em cachos pouco densos estando cada flor protegida por uma bráctea linear semelhante a uma folha e por um cálice formado por 5 sépalas lineares, todas de tamanhos desiguais. As sépalas são mais curtas que a bráctea mas mais compridas que o tubo da corola. No seu conjunto a estrutura aparenta ser um cálice formado por 6 sépalas.
As 5 pétalas que formam a corola são ligeiramente pubescentes e de cor rosa mostrando alguns veios de um tom mais escuro.
As pétalas estão unidas desde a base, formando um tubo que se abre para o exterior por dois lábios: o superior com 2 lóbulos, correspondentes a 2 pétalas fundidas e o inferior com 3 lóbulos correspondentes a igual número de pétalas fundidas. Os órgãos reprodutivos femininos e masculinos encontram-se no interior da flor, estigma, estilete e ovário e 4 estames com as respetivas anteras, sendo que 1 par de estames é mais comprido que o outro. Os pedicelos das flores são curtos mas continuam a crescer durante a frutificação.
O fruto é uma capsula dividida em dois lóculos desiguais densamente cobertos por um indumento de pelos glandulares fracos e densos e que deixa sair as sementes, negras, por 2 poros.




Fotos: Serra do Calvo/Lourinhã



terça-feira, 11 de junho de 2013

Cistus monspeliensis L.

Nomes comuns:
Sargação; Sargaço-escuro

Cistus monspeliensis é mais uma espécie da família Cistaceae e do género Cistus. Este género inclui plantas que ocorrem de forma espontânea no centro e sul da Península Ibérica, todo o litoral mediterrânico, noroeste de África, sudoeste asiático e Macaronésia (Açores, Madeira, Canárias).

Distribuição em Portugal
Fonte: Jardim Botânico UTAD
São espécies perfeitamente adaptadas ao clima mediterrânico, de invernos chuvosos e verões quentes e secos. Crescem em vários tipos de solo, quer sejam arenosos, graníticos ou xistosos e ocasionalmente em solos calcários; umas preferem os solos ácidos, outras vivem melhor em solos alcalinos; dão-se bem em lugares sombreados pelas árvores fazendo parte de matagais e matos baixos e densos que crescem sob coberto de pinhais.
Na generalidade, gostam de lugares solarengos e áridos, crescendo como vegetação de nível básico em clareiras abertas pelos fogos ou como resultado da degradação de bosques de carvalhos e montados.
Podemos ainda admirá-las em certas zonas do litoral onde crescem com evidente “prazer” em encostas rochosas inclinadas para o mar onde o solo pouco profundo não permite espécies de maior porte e onde desempenham um papel fundamental na preservação dos ecossistemas, evitando maior erosão dos terrenos. Ao mesmo tempo, são fonte de alimento e propiciam refúgio a pequenos mamíferos, insetos, aves e répteis, constituindo nichos ecológicos.
Cistus monspeliensis é um arbusto aromático de ramos muito ramificados, primeiro eretos e depois prostrados, formando moitas densas e arredondadas.
As folhas, rugosas e com pecíolo muito curto, são estreitas e lanceoladas, apresentando 3 nervuras longitudinais; colocam-se de forma oposta nos caules e as margens são frequentemente recurvadas para a página inferior. A textura das folhas é algo resinosa e áspera, o que resulta da cobertura de pelos glandulares que tem como função principal evitar a perda de água. Na pagina superior das folhas os pelos são simples e escassos, estando deitados; na pagina inferior os pelos são diminutos mas mais abundantes e estrelados, formando um padrão reticulado (como uma rede).

As flores, embora semelhantes às de outras espécies de Cistus, são um pouco mais pequenas. A corola é constituída por 5 pétalas livres de cor branca com a unha (base) amarela. 
As flores têm vida curta pois as pétalas caiem poucas horas após a abertura, porém tal contingência é suficientemente compensada pela floração, que é muito abundante.
As flores estão dispostas em inflorescências do tipo cimeira, posicionando-se ao longo de um eixo principal de crescimento definido (limitado) terminando numa flor; as primeiras a abrir são as flores que se encontram no topo da inflorescência. No caso da Cistus monspeliensis as flores estão todas posicionadas do mesmo lado do eixo, havendo de 2 a 8 flores por cimeira.
Cada flor está ligada ao eixo por um pedicelo de tamanho igual ao das 5 sépalas que formam o cálice; as sépalas, com nervação avermelhada e densamente cobertas por pelos compridos algo rígidos mas flexíveis, têm formato ovado, terminando em bico e com base em forma de coração. Curiosamente o crescimento das sépalas do cálice continua mesmo depois da fecundação e até o fruto atingir a maturação.
As flores, bissexuais, são polinizadas por insetos, sendo especialmente muito procuradas pelas abelhas melíferas. Os estames, amarelos, numerosos e de tamanho desigual, estão posicionados no centro da corola e são mais compridos que o pistilo.
O ovário tem 5 carpelos; o estilete é muito curto e o estigma é grande e está dividido em 5 lóbulos.

Cistus monspeliensis floresce de abril a junho e os frutos completam a maturação em julho ou agosto.
O fruto é uma cápsula de cor castanha e globosa que se abre para deixar sair as sementes através de fendas longitudinais. As sementes são muito pequenas, de forma poliédrica e muito resistentes ao calor. As sementes germinam facilmente em áreas recentemente consumidas pelo fogo pois a germinação é estimulada pelo fogo.
Os frutos secos são muito abundantes e persistem na planta durante muitos meses mesmo depois de abertos.

No local onde foram tiradas as fotos que acompanham este texto, o Cistus monspeliensis cresce associado a outras plantas xerófilas, ou seja, plantas especificamente adaptadas à escassez de água, nomeadamente: Smilax áspera, Ruscus aculeatus, Pistacia lentiscus, Lavatera creticaCistus ladanifer, Cistus salvifolius, Cistus crispus, Daphne gnidium, Myrtus communis, Lonicera implexa, juniperus phoenicia, entre outras.

Fotos - Arribas do Caniçal/Lourinhã

Espécie relacionada: Veja Halimium halimifolium



quarta-feira, 29 de maio de 2013

Rosa sempervirens L.

Nome vulgar: Roseira-brava

Rosa sempervirens é uma espécie nativa da Europa mediterrânica e do norte de África e que ocorre em zonas de clima temperado. Em Portugal é frequente nas regiões mais próximas do litoral.
Embora cresça bem em qualquer tipo de solo, mostra no entanto, preferência pelos terrenos húmidos, profundos e frescos e com elevada percentagem de azoto. Pode encontrar-se na margem de riachos e ribeiras, bermas dos caminhos e orla dos matagais. Gosta de se entrelaçar em árvores, procurando apoio e alivio na sombra. É uma espécie muito vigorosa cujos ramos podem formar matagais muito densos e espinhosos ao ponto de, à primeira vista, poderem ser confundidos com silvados, com os quais, alias, por vezes se entrelaçam.
Rosa sempervirens é um arbusto vigoroso, de caules compridos, trepadores ou rastejantes, podendo chegar aos 6 metros de comprimento ou mais; são verdes ou avermelhados, não têm revestimento de pelos e estão providos de acúleos curvos em forma de foice e cujo ápice está virado para trás ou seja, para o caule onde estão inseridos.
Os acúleos não são espinhos: também são rígidos e aguçados mas enquanto que os espinhos estão ligados aos caules por feixes vasculares, os acúleos são uma estrutura independente sendo, por isso, facilmente destacáveis dos caules. Assim, ao contrário do que diz o ditado popular não há rosa com espinhos…
Nesta espécie as folhas são persistentes, coriáceas e muito brilhantes; dispõem-se de forma alternada nos ramos; são compostas por 2 ou 3 pares de folíolos, sem pelos. Os folíolos têm forma ovada ou lanceolada e terminam em ponta aguda e mais estreita que a restante parte do limbo, sendo as margens finamente dentadas.
Inflorescência corimbiforme de Rosa sempervirens
As flores, docemente perfumadas, são solitárias ou agrupadas em inflorescências corimbiformes,  inserindo-se no mesmo eixo a alturas diferentes mas abrindo ao mesmo nível. São hermafroditas pois estão equipadas com órgãos reprodutores femininos e masculinos funcionais.
O androceu inclui numerosos estames dispostos de forma circular.
No centro da flor o gineceu é composto por vários carpelos os quais estão encerrados dentro de um recetáculo de forma cónica, mais ou menos tapado por um disco no qual há um orifício por onde saem os estiletes.
Nesta espécie, os estiletes (tubos estreitos e ocos que ligam o estigma ao ovário) estão cobertos de pelos fracos e densos e estão ligados entre si, formando uma coluna em cuja parte superior estão os estigmas.
As bases das pétalas, sépalas e estames inserem-se neste recetáculo o qual aloja nectários na sua superfície interior tornando-se num pequeno reservatório de néctar que atrai uma variedade imensa de insetos polinizadores.
A corola, com 3 a 5 cm de diâmetro, é composta por 5 pétalas brancas com um ligeiro entalhe na extremidade.
As 5 sépalas, caducas, são ovadas mas estreitam-se perto da extremidade terminando em bico e encurvando-se em direção à base da flor quando as pétalas murcham; têm glândulas na face exterior e nas margens e caiem antes que o fruto amadureça.

Rosa sempervirens floresce e frutifica de maio a julho ou agosto. O fruto, de forma ovoide, é carnudo e torna-se vermelho na maturação, sendo resultante da fusão do recetáculo com a parte inferior do cálice, corola e ovário. Estes frutos, popularmente conhecidos por escaramujos, são alimento precioso para aves e mamíferos os quais são também agentes dispersores das sementes.
A Rosa sempervirens pertence à família das Rosaceae que inclui cerca de 3000 a 3500 espécies organizadas em cerca de 115 géneros, os quais se distribuem por todas as regiões do mundo, sendo mais frequentes nas regiões temperadas e subtropicais do hemisfério norte.
A família botânica Rosaceae é uma das mais importantes do ponto de vista económico pelo facto de incluírem muitas plantas cultivadas não só pelos seus frutos comestíveis (ex: morangueiro, marmeleiro, macieira, ameixeiras, cerejeiras, pessegueiro, damasqueiros, amendoeiras etc.), mas também pelo seu valor ornamental. Das plantas desta família que são cultivadas pelas suas flores, as rosas são as mais conhecidas.

O género Rosa inclui mais de 100 espécies e ainda milhares de variedades, híbridos e cultivares sendo que Rosa sempervirens é uma das 15 roseiras silvestres cuja ocorrência é assinalada em Portugal pela Flora-on.
Este é um género que apresenta grandes dificuldades na identificação das espécies. Do seu sistema de reprodução resulta numa grande plasticidade morfológica, existindo múltiplas variedades e subespécies o que dificulta o seu reconhecimento e caraterização. Em colonias de uma determinada espécie é possível encontrarem-se indivíduos que mostram polimorfismos indicadores de prováveis hibridações com espécies próximas, as quais resultam de falhas do mecanismo de isolamento reprodutivo. Essas hibridações podem advir de um cruzamento simples de gametas (células sexuais) masculinos com femininos; ou podem ser hibridações introgressivas, nas quais ocorre uma infiltração de genes de uma espécie para a outra devido a cruzamentos específicos e sucessivos. A complexidade taxonómica do género Rosa também se deve, em parte à poliploidia e à apoximia.
A maioria dos híbridos das rosas silvestres não têm valor taxonómico pois são indivíduos cuja morfologia é ambígua sendo por isso impossível, senão imprudente, tentar carateriza-los. Muitos deles florescem e frutificam pouco ou esporadicamente.

Generalidades:
Os numerosos cultivares de Rosa que se usam em jardinagem procedem de hibridizações muito diversas feitas a partir de rosas silvestres nomeadamente Rosa moschata, Rosa gallica, Rosa damascena, Rosa wichuraiana, Rosa californica e Rosa rugosa. As rosas silvestres existem há mais de 12 ou 15 milhões de anos e são as flores cultivadas mais antigas em todo o mundo, provavelmente trabalhadas desde há cerca de 4500 anos. Ao longo da história as rosas têm sido submetidas a uma seleção intensa no sentido de conseguir novas variedades mais atrativas, com flores maiores e novas cores. Contudo as rosas não têm apenas valor ornamental pois são também utilizadas na culinária, além de libertarem óleos e essências utilizados na perfumaria e cosmética (não esquecendo a famosa água de rosas), faltando ainda mencionar as suas qualidades fitoterápicas.

As rosas estão entre as flores mais populares, havendo em vários países do mundo jardins especializados em exibir exclusivamente espécies e variedades de rosas, os chamados rosarium.
As roseiras dividem-se em três grupos:
- As espécies silvestres, que crescem espontâneas na natureza.
- As rosas antigas, variedades que existiam até 1867, ano em que foi criado o primeiro hibrido de rosa-chá “La France”.
São pouco conhecidas do grande público pois a oferta de novos cultivares é tão grande que entretanto estas espécies deram lugar a outras e ficaram fora de moda. Aos poucos vão ressurgindo, sobretudo através de colecionadores. São espécies muito robustas e resistentes, não requerem tantos cuidados e têm menos problemas com pragas e doenças.


- As rosas modernas, variedades posteriores a 1867

Este é o grupo mais popular nos dias que correm e o que oferece maior número de variedades. Mais de 95% das roseiras comercializadas pertencem a este grupo.
Ouvi falar de algumas variedades de origem portuguesa mas ao que parece estão completamente, ou quase, esquecidas. A variedade Bela Portuguesa ou “Belle Portugaise” (flores gigantes, de cor rosa) criada pelo botânico Francês Henri Cayeux, responsável pelo Jardim Botânico de Lisboa no final do séc. XIX não existe à venda no nosso país, podendo, no entanto ser importada de viveiros ingleses. Doutras variedades como Lusitânia, Estrela de Portugal e Palmira Feijão restaram os nomes para a posteridade.
Muita gente já ouviu falar das rosas de Santa Teresinha (trepadeira com rosinhas de cor rosa, minúsculas mas bem formadas e perfeitas, segundo lembro dos meus tempos da escola primaria) mas essas também não se conseguem encontrar à venda.

Fotos: Serra do Calvo/Lourinhã


terça-feira, 21 de maio de 2013

Lithodora prostrata (Loisel.) Griseb. subsp. prostrata SYN Glandora prostrata (Loisel.) D.C. Thomas


Nomes comuns:
Erva-das-sete-sangrias; sargacinha; sargacinho

Lithodora prostrata é uma planta perene que forma um pequeno arbusto de ramos flexíveis, prostrados ou ascendentes, os quais são ramificados desde a base e se dispõem irregularmente em ângulos bastante abertos; geralmente atingem os 50 ou 60 cm de comprimento.
Distribuição em Portugal
Fonte: Jardim Botânico UTAD
Pode encontrar-se em todo o sudoeste europeu beneficiando do clima atlântico-mediterrânico. Cresce em taludes, matagais, pinhais e sobreirais e especialmente em charnecas de solos ácidos onde predominam as urzes, os tojos e outros pequenos arbustos adaptados aos climas secos.
Muitas vezes procura o amparo de plantas mais lenhosas como é o caso do exemplar que aqui trago hoje, o qual se encontra enredado numa Cistus crispus. Crescendo em matos cerrados onde o espaço livre está todo ocupado, não lhe resta outra alternativa que não seja espreitar por entre os ramos das mais lenhosas, para poder aproveitar o sol.
A Lithodora prostrata pertence à Boraginaceae, família que inclui cerca de 2700 espécies entre ervas, arbustos e trepadeiras, algumas de valor ornamental. Podem ser encontradas espécies desta família em quase todo o mundo, distribuindo-se principalmente pelas regiões temperadas e tropicais.
As folhas da Lithodora  prostrata são oblongas ou elípticas, não tem pecíolo e apresentam o nervo medio muito marcado; estão cobertas de pelos os quais são mais compridos na parte da frente e mais curtos e em maior numero na parte inferior da folha. Estes pelos, comuns a muitas plantas mas cujas características variam consoante as espécies, contribuem para o controle da transpiração, constituindo também um polo de atração dos insetos polinizadores.
As flores são muito pequenas mas bem visíveis devido à cor, geralmente de um azul intenso (por vezes com flores também em tons rosados, na mesma planta).
As flores agrupam-se em inflorescências definidas de 6 a 14 flores em que o eixo principal tem crescimento limitado, terminando numa flor. Esta espécie tem uma floração muito prolongada, as flores vão abrindo aos poucos, permanecendo florida durante largos meses embora de forma relativamente esparsa.
Esta planta é por vezes utilizada como cobertura de solo em jardins onde, com boa exposição solar e água à disposição, assume uma forma compacta e com floração profusa e prolongada.
A corola é formada por 5 pétalas arredondadas, acetinadas na face exterior devido à camada de pelos finos, curtos e superficiais que a cobrem; são soldadas na base formando um tubo peludo e também de aspeto acetinado no qual se inserem, a diferentes níveis os 5 estames do androceu. Na garganta deste tubo forma-se um anel de pelos muito densos e brancos. O cálice, constituído por 5 sépalas mais ou menos soldadas na base, continuam a crescer até o fruto atingir a maturação.
As flores têm brácteas providas de pelos densos e de formato oval ou elíptico, por vezes lineares, as quais são mais largas que o cálice.
O gineceu é constituído por 4 carpelos arredondados de onde sai um estilete que termina no estigma.
Os frutos, característicos das famílias Boraginaceae, são clusas, ou seja, frutos indeiscentes do tipo esquizocarpo o qual se separa em quatro partes na maturação, formando quatro frutos parciais, quase ovoides; a casca, algo coriácea está ligada às sementes, protegendo-as e fornecendo-lhes nutrientes durante a germinação.
Esta espécie floresce e frutifica de dezembro a abril ou maio.

A Lithodora prostrata é utilizada em medicina alternativa devido às suas alegadas propriedades antisséticas, hipotensora e redutora dos níveis de colesterol, sendo geralmente utilizada sob a forma de infusões.

Esta espécie, foi recentemente reclassificada, passando do género Lithodora para o género Glandora, tendo-lhe sido atribuído o nome de Glandora prostrata. Contudonome anterior permanece valido como sinónimo pois, uma vez atribuídos e aceites pelas autoridades competentes, os nomes científicos são validos para sempre. 
Era no género Lithodora, um dos 150 géneros que fazem parte da família Boraginaceae, que se incluíam até há bem pouco tempo, as 5 espécies que se podem encontrar na Península Ibérica, nomeadamente Lithodora prostrata, Lithodora fruticosa, Lithodora diffusa, Lithodora nitida e Lithodora oleifolia, sendo que as três últimas são endemismos ibéricos. Segundo a Flora Iberica apenas uma destas espécies, a Lithodora fruticosa, está ainda no género Lithodora. Contudo, as restantes espécies foram parar ao género Glandora, pequeno género com apenas 6 espécies. Esta divisão deve-se a diferenças nos carateres morfológicos da estrutura da semente e da flor. No género Lithodora as pétalas são glabras (sem pelos) na sua face externa ou com apenas alguns pelos nos lóbulos enquanto que no género Glandora as pétalas são acetinadas devido à camada de pelos finos, curtos e superficiais na sua face externa. Por outro lado as espécies incluídas no género Glandora apresentam flores longistilas e brevistilas, resultantes de dimorfismo no comprimento dos estiletes e dos estames e também no tamanho dos grãos de pólen. No caso específico da Lithodora prostrata syn Glandora prostrata acresce ainda o facto de os estames estarem inseridos a vários níveis no tubo da corola.
Estes dimorfismos genéticos do sistema reprodutivo têm como objetivo evitar a autopolinização e potenciar a fecundação cruzada.
Ainda segundo a Flora Iberica, estudos recentes de filogenia molecular demonstram que o novo género Glandora tem tudo a ver com os géneros Buglossoides, Aegonychon, Lithospermum, Macromeria e Onosmodium . Pelo contrário, Lithodora relaciona-se com os géneros Paramoltkia, Mairetis, Halacsya e Neatostema

O que é a Heterostilia – flores longistilas, medistilas e brevistilas
Heterostilia é uma forma de polimorfismo morfológico em que flores hermafroditas da mesma planta apresentam estiletes e estames de tamanhos diferentes. Esta situação está geralmente associada a um sistema genético de auto incompatibilidade tornando as espécies hermafroditas incapazes de se reproduzirem sexualmente por autopolinização, favorecendo assim a polinização cruzada. Uma vez que a autopolinização pode levar ao enfraquecimento na eficácia reprodutiva das sementes, a heterostilia funciona como mecanismo de segurança.
Nas espécies heterostilicas  coexistem 2 tipos de flores (distilia) ou 3 tipos de flores (tristilia), na mesma planta. 
A forma mais comum é a distilia, partilhada por cerca de 25 famílias de Angiospermas e na qual se insere a espécie acima descrita. Nas espécies com distilia existem plantas com flores longistilas (estiletes compridos e estames curtos, ficando o estigma acima dos estames) e indivíduos com flores brevistilas (estiletes curtos e estames longos, ficando o estigma abaixo das anteras).
A tristilia é uma situação mais rara na qual, para além de flores longistilas e brevistilas, existem flores medistilas (estiletes medios). Veja mais detalhes AQUI.

Fotos - Serra do Calvo/Lourinhã