"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





quinta-feira, 16 de março de 2017

Género Ulex

Os tojos

Ulex densus
Ano após ano, com uma constância inexorável que é garantia de continuidade, quando o inverno ainda vai a meio e a primavera não passa de um desejo, já inúmeras espécies vegetais se apressam a florescer, coincidindo com a emergência de variadas espécies de insetos. Na realidade, não se trata de uma coincidência, pois muitas são as espécies de angiospermas que dependem dos insetos para que se realize a polinização, fecundação e a consequente produção de sementes. Em contrapartida, são também muitos os insetos que dependem das plantas, quer os que se alimentam das folhas (fitófagos, ex: besouros, escaravelhos, larvas de borboletas), quer os que buscam néctar e pólen (polinizadores, ex: abelhas, vespas, moscas, borboletas e traças adultas). De forma geral, plantas e insetos evoluíram em conjunto, interagindo de forma reciproca ao longo de gerações e gerações, o que levou a mudanças adaptativas conjugadas, nuns e noutros.
Agora, que a primavera está em vésperas de fazer a sua entrada formal, os campos cobrem-se de branco e amarelo, graças aos pequenos malmequeres, às giestas e principalmente, aos tojos.
Nesta época do ano, os tojos abrilhantam as viagens no norte e centro do nosso país.

Tojo é o nome popular que é dado às espécies do género Ulex, o qual se inclui na família das leguminosas, cujo nome cientifico é Fabaceae ou Leguminosae.
Esta é uma das maiores famílias botânicas e as suas espécies estão largamente distribuídas por todos os continentes, com exceção da Antártida.
Atualmente, o conceito que subdivide a família das leguminosas em 3 subfamílias Caesalpinioideae, Mimosoideae e Faboideae (esta ultima também designada por Papilionoideae) parece ser mais consensual do que já foi em tempos. As subfamílias Mimosoideae e Caesalpinioideae ocorrem principalmente nas regiões tropicais e subtropicais ao passo que a subfamília Faboideae, que inclui a maioria dos membros da família Fabaceae, se distribui de forma mais ampla, ocorrendo desde os desertos secos até às florestas húmidas.
Ulex densus
A subfamília Faboideae ou Papilionoideae,  na qual se situa o género Ulex, é a que tem maior importância económica a nível mundial, pois inclui espécies fundamentais na alimentação humana, tais como, a soja, o feijão, o amendoim, o grão-de-bico, o tremoço, as ervilhas ou as favas, apenas para mencionar algumas. 
Na generalidade, são plantas de hábitos variados podendo ser herbáceas, trepadeiras, arbustos e árvores. Muitas espécies são também utilizadas como ornamentais, outras têm grande valor comercial ou industrial devido aos produtos que delas podem ser extraídos, nomeadamente o tanino, substância usada na indústria do couro, já para não falar dos corantes, tinturas, colas, vernizes etc.
Nódulos fixadores de nitrogénio em raízes de uma leguminosa.
Fonte e credito da foto: MORNING EARTH 
Uma característica muito importante das leguminosas em geral e das espécies da subfamília Papilionoideae/Faboideae em particular, é o facto de serem capazes de converter o nitrogénio atmosférico (azoto) em moléculas proteicas, as quais são aproveitadas para o seu próprio desenvolvimento e o das plantas em seu redor. Isto acontece devido a uma relação simbiótica com bactérias dos géneros Bradirhizobium e Rhizobium que se fixam nas raízes das leguminosas, através de nodosidades visíveis a olho nu. Em contrapartida, as bactérias recebem das plantas os açúcares produzidos durante a fotossíntese. Esta simbiose permite não só a sobrevivência das referidas bactérias mas também que espécies de leguminosas possam desenvolver-se sem problemas em solos pobres em azoto e matéria orgânica.
As flores de Faboideae e consequentemente dos tojos, caracterizam-se pela corola papilionácea (do francês "papillon"=borboleta), formada por 5 pétalas desiguais, dispostas de modo característico e altamente especializado em atrair os insetos polinizadores: a pétala maior chamada estandarte, situada em posição superior é, pelo seu tamanho e forma, o foco de atração para os polinizadores; as duas pétalas laterais denominadas asas funcionam como pista de aterragem; e as duas inferiores, unidas apenas no ápice, formam a chamada quilha. A flor possui órgãos de reprodução femininos (carpelo = ovário, estilete e estigma) e masculinos (estames) os quais, com os filetes todos unidos num só,  estão encobertos pelas pétalas que formam a quilha. Quando os insetos pousam nas asas a quilha baixa, favorecendo o contacto destes com os estames e o estigma.Quando vão embora, os insetos levam o pólen colado ao corpo.
Esquema de corola papilionácea
Os tojos estão estreitamente relacionados com as giestas e tal como elas têm folhas muito pequenas e adaptadas a condições de secura ambiental. Contudo, diferem delas por serem extremamente espinhosos, com folhas que nas plantas maduras estão reduzidas a filódios espiniformes que resultam da modificação do pecíolo.
Todas as espécies de tojos possuem flores amarelas, muito vistosas no seu conjunto. Os frutos são vagens. Quer em flor, quer em frutificação, formam belos exemplares para plantar no jardim!
Matos baixos de tojos em sobreirais - Ponte de Sôr
As espécies do género Ulex são nativas de partes da Europa ocidental e noroeste de África. Contudo, a maior diversidade de espécies encontra-se na Península Ibérica. Formam um grupo muito homogéneo, de características morfológicas muito semelhantes, o que dificulta a sua identificação. As características primarias para identificar as espécies são  o tamanho das peças florais (especialmente a forma, indumento e dimensões do cálice, pois é a parte da flor que menos se modifica no decorrer das varias fases de crescimento e permanecem durante a frutificação), indumento dos caules e dos espinhos, frutos e a configuração da planta em geral.
Mato baixo quase exclusivamente constituído por tojos, em Cardigos/Mação
Numa região onde ainda domina o pinheiro, os fogos têm levado à modificação progressiva de alguns trechos da paisagem  com a plantação de eucaliptos. Estes são mais rentáveis a breve prazo mas limitam a biodiversidade. Nos pinhais existe grande diversidade de espécies (ex rosmaninhos, carquejas, urzes, estevas, tojos) mas debaixo dos eucaliptos pouca coisa consegue crescer.  
O processo de evolução do género Ulex parece ter-se processado através de mecanismos genéticos, tais como certas formas de hibridação, seguidas de poliploidia.  Ou seja, algumas espécies e subespécies resultaram de cruzamentos genéticos repetidos e complexos entre espécies diferentes deste mesmo género (hibridação introgressiva) do que resultaram duplicações no numero de cromossomas, em que cada célula apresenta múltiplos do conjunto básico de cromossomas (poliploidia).
As células da maioria dos organismos, assim como as plantas, contêm dois conjuntos de cromossomas denominados haplóides [um haplóide recebido da mãe (n) e outro haplóide recebido do pai (n), os quais formam um conjunto diplóide (2n)].
No caso do género Ulex algumas espécies são diplóides  mas outras são tetraplóides (com 4 conjuntos diplóides) ou hexaplóides (com 6 conjuntos diplóides). Uma vez que, de forma geral, o numero de cromossomas é constante em todos os indivíduos de uma determinada espécie, esta “regra” ou a sua alteração é de grande importância na determinação da filogenia e taxonomia das espécies.
A especiação (processo evolutivo pelo qual as espécies vivas se formam) do tipo poliplóide é um dos processos naturais mais importantes na evolução das plantas silvestres, nomeadamente das angiospermas e é mais comum em plantas perenes do que em anuais. Qualquer aumento no número de cromossomas provoca um aumento no tamanho de cada célula resultando no melhor desempenho de muitas espécies poliploides. Geralmente, os poliplóides tendem a produzir maior massa verde de folhas e com cor mais escura, flores e sementes maiores ou mais abundantes. De facto os tojos são espécies muito vigorosas que resistem aos fogos e tendem a tomar o lugar de outras plantações que se vão degradando como, por exemplo, pinhais e medronhais.

NOTA:
A poliploidia é um mecanismo que pode levar rapidamente à especiação. Assim, este processo é amplamente induzido artificialmente, em laboratório, em plantas cultivadas, pois permite o melhoramento das plantas dando-lhes características mais interessantes do ponto de vista comercial, tais como flores maiores, com florações mais prolongadas ou no caso das frutíferas, variedades com frutos maiores e/ou sem sementes. No melhoramento tradicional a troca de genes está limitada a espécies que são sexualmente compatíveis. Contudo, no chamado “melhoramento das espécies” têm vindo a ser utilizadas técnicas de engenharia genética mais agressivas que incluem a transferência de genes de plantas sexualmente incompatíveis ou mesmo de animais e micro-organismos. Muitos dos alimentos que hoje em dia consumimos (soja. milho, trigo, arroz, tomate etc) são geneticamente modificados (transgénicos), situação muito controversa mas que não está no âmbito deste blogue desenvolver. Pode encontrar informação sintetizada AQUI  ou mais detalhada NESTE ESTUDO

A taxonomia do género Ulex tem suscitado diferentes interpretações, havendo oscilações no numero de espécies e subespécies. Nomeadamente, Guinea & Webb (1968 Flora Europaea Volume 2 pag. 102 e 103) optaram por uma abordagem fortemente sintética, reconhecendo apenas 7 espécies, reduzindo as restantes à categoria de subespécies. No entanto, foram efetuadas pesquisas (Cubas, 1984 ; Rivas Martínez e Cubas, 1987; Cubas e Pardo, 1992, 1997, Pardo et al., 1994, Espíritu Santo et al., 1997) em resultado das quais, o grau de espécie foi restituído à maioria destes "taxons", estabelecendo-se um total de 15 espécies + 6 subespécies, classificação que é reconhecida pela Flora Iberica. Estas pesquisas foram baseadas na morfologia, numero de cromossomas, micromorfologia do pólen, habitat e distribuição geográfica.
Segundo o portal interativo Flora-on (Sociedade portuguesa de Botânica) são 10 as espécies do género Ulex nativas de Portugal continental, sendo que 7 dessas espécies são endémicas de regiões restritas do nosso país. Para este texto foram selecionadas duas destas espécies, Ulex europaeus porque é a espécie com maior distribuição geográfica e Ulex densus por ser uma espécie endémica da região onde se situa a Lourinhã (objeto de estudo neste blogue). No entanto, para fotos e informação sobre as restantes espécies clique AQUI

Ulex europaeus L.
Nomes comuns:
Tojo-arnal;  tojo; tojo-bravo; leiva; pica-rato

Ulex europaeus - Fonte Wikimedia commons
Foto de Lluca Lorenzi
Esta é a espécie mais comum do género Ulex. É a única espécie nativa da maior parte da faixa litoral da Europa ocidental, nomeadamente litoral norte e centro de Portugal continental, Espanha, França, Itália, Reino Unido, Irlanda, Suiça, Holanda e Alemanha. Durante o século XIX e inícios do século XX foi introduzida noutros países do norte da Europa (Polónia, Noruega e Suécia), e também nos arquipélagos da Madeira e Açores, Ilhas Canárias, África do Sul, China, Turquia, Índia e Sri Lanka, Estados Unidos e Hawaii, América do sul e Caraíbas, Indonésia, Austrália e Nova Zelândia, regiões onde se naturalizou rapidamente. 
A razão pela qual foi tão ampla e intencionalmente propagada  teve a ver não só com fins ornamentais mas também com a sua utilização como forragem e para cama dos animais. Tal como aconteceu com outras espécies, sementes de Ulex europaeus poderão ter sido introduzidas em terras mais distantes de forma acidental quando os colonos europeus importaram gado, como contaminantes do feno. Por outro lado as sementes também poderão ter sido levadas intencionalmente, com a ideia de usar o tojo como pasto para os rebanhos ou até como forma de mitigar as saudades da pátria. Entretanto, nos territórios onde foi introduzida, esta espécie revelou comportamento invasivo, sobretudo em habitats perturbados e em regiões onde o clima seco e quente lhe é favorável. É uma espécie difícil de erradicar devido ao seu porte compacto, duro e espinhoso, alem de que a enorme quantidade de sementes que produz constitui um banco de sementes de longa duração. 
Em alguns países têm sido utilizados meios de controle biológico através de insetos específicos, tais como o artrópode herbívoro conhecido como ácaro-do-tojo Tetranychus lintearius e coleóptero Exapion ulicis  que se alimenta das suas sementes. Estes são alguns dos seus inimigos naturais nos habitats naturais. Quando as plantas são introduzidos em terras alheias, os pequenos predadores e pragas específicas que as mantêm em equilíbrio no seu habitat nativo, são deixados para trás. Geralmente, tal contribui para o descontrole na sua reprodução.
Ulex europaeus - Fonte Wikimedia commons
Foto de Andy Rogers
Ulex europaeus cresce em locais ensolarados e em solos não calcários e habitualmente secos e arenosos, em charnecas, orlas dos bosques, pinhais e taludes da beira das estradas, ate 100 metros de altitude.
Ulex europaeus é a maior espécie do seu género, chegando a alcançar 2 ou 3 metros de altura. Começa timidamente a florescer no outono, continua a florescer de forma esparsa durante o inverno e o apogeu da sua floração acontece durante a primavera.  Distingue-se facilmente de outras espécies pois é a única que apresenta bractéolas, que envolvem a base do cálice, maiores que 2 mm geralmente, entre os 2 e 7 mm de largura.

As flores deste tojo têm sido popularmente usadas em fitoterapia, sob a forma de infusão para resolução de determinados problemas hepáticos e ainda em casos de baixa imunidade, apatia e falta de vitalidade anímica.  As sementes são tóxicas.
Ulex europaeus - a seta assinala as bractéolas 
Esta espécie subdivide-se em duas subespécies, ambas presentes em Portugal e as quais se diferenciam pelo tamanho e forma das bractéolas.
a) subespécie europaeus
Em Portugal continental ocorre no norte e litoral centro, "registando-se expansão da espécie em direção ao interior do país ao longo dos taludes das grandes rodovias" (Carlos Aguiar 20/11/20015).
Esta espécie ocorre nos Açores e Madeira como espécie introduzida e onde se comporta como invasora.
Caracteriza-se pela presença de bractéolas com 2 a 4 mm de largura e forma ovada
b) subespecie latebracteatus (Mariz) Rothm
Esta espécie é endémica de Portugal e Espanha.
Ocorre apenas em Portugal (norte e centro ) e Espanha (noroeste), principalmente na orla litoral.
As bractéolas têm 4 a 7 mm largura e a forma é suborbicular.
No seguimento do acima mencionado sobre a poliploidia nas espécies de Ulex, vem a propósito mencionar que a espécie Ulex europaeus tem um número de cromossomas base haplóide de n=16. A subespécie europaeus é hexaplóide (2n=96 ou n=48) ou seja, possui 3 conjuntos de células diplóides e a subespécie latebracteatus é tetraplóide (2n=64 ou n=32), com 2 conjuntos diplóides.

Ulex densus Welw. ex Webb
Nomes comuns:
Tojo-gatunho; tojo-gatunha; tojo-da-charneca

Ulex densus
Esta espécie  é endémica de Portugal e apenas ocorre na região litoral centro-oeste, entre o Cabo Mondego e o Cabo Espichel
Estende-se pelas arribas e plataformas litorais ou perto do litoral, geralmente em solos calcários, podendo alastrar para o interior até 20 km do mar.
Nas arribas costeiras os ramos densos tendem a cerrar fileiras para se protegerem dos ventos marítimos carregados de sal, pelo que os arbustos de Ulex densus assumem forma pulviniforme, ficando semelhantes a grandes almofadas. Em situações mais distantes da orla marítima os ramos dispõem-se de forma mais desordenada.

Plataforma rochosa da Serra do Calvo (a cerca de 3 km do mar) 
que serve de habitat a numerosas espécies, entre elas Ulex densus.

Ulex densus

Ulex densus
Ulex densus forma arbustos relativamente baixos de cerca de 50 cm de altura, com ramos eretos ou decumbentes, muito ramificados e cobertos de espinhos de cor verde vibrante que substituem as folhas. Na realidade, são prolongamentos do pecíolo, uma adaptação às condições de seca, registando-se assim um menor gasto de água por haver menos transpiração. Os espinhos novos são moles e de consistência flexível.
Ulex densus - espinhos novos e flexiveis
Ulex densus - espinhos maduros
Quando amadurecem, os espinhos tornam-se rígidos e muito afiados. Os ramos mais velhos tendem a secar, deixando a base da planta despida.

Ulex densus - ramos velhos e secos
Ulex densus. Flor aberta: cálice, corola, estames e estigma
Ulex densus floresce desde janeiro até maio ou junho. Protegidas por um cálice formado por duas sépalas de cor amarela e alguns pelos, as corolas são tipicamente papilionáceas, com 5 pétalas glabras e desiguais, do mesmo tamanho do cálice ou um pouco maiores: estandarte, asas e quilha. Os estames são monadelfos, isto é, com os filetes unidos desde a base e em quase todo o seu comprimento. Do ovário emerge um estilete que termina num estigma filiforme. As bractéolas passam despercebidas por serem muito pequenas, praticamente da mesma largura que o pedicelo.
Ulex densus - flor em botão
Ulex densus em fase de frutificação

Ulex densus: o fruto é uma vagem
As sépalas permanecem na flor durante a frutificação
O fruto é uma vagem do mesmo tamanho ou mais curto que as sépalas do cálice, com uma ou duas sementes. 
Quanto ao número de cromossomas Ulex densus é tetraploide, com 2n=64; n 32.
É uma espécie protegida pela Diretiva 92/43/CEE – anexo V de 21 de maio de 1992, (conhecida como Diretiva habitats) "relativa à preservação dos habitats naturais e da fauna e da flora selvagens".

Fotos de Ulex densus: Serra do Calvo/Lourinhã



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Parietaria judaica L.

Nomes comuns:
Alfavaca; alfavaca-da-cobra; alfavaca-de-cova; amarras; cobrinha; columbrina; erva-das-muralhas; erva-das-paredes; erva-de-Nossa-Senhora; erva-de-Santa-Ana; erva-de-Santana; erva-do-amorra; erva-dos-muros; erva-fura-paredes; fava-da-cova; helxina; parietária; pulitaina; pulitária; urtiga-mansa.


Faz agora precisamente um ano que partilhei com vocês alguns factos sobre as nossas amigas urtigas, com especial enfoque na espécie Urtica membranacea. Agora, é a vez de darmos especial atenção a outra espécie da mesma família (Urticacaeae), a Parietaria judaica. A principal e óbvia diferença entre estas duas espécies que, embora da mesma família pertencem a géneros diferentes, reside no facto de Parietaria judaica não ser agressiva ao toque por falta de pelos urticantes.
Parietaria judaica é uma daquelas plantas que fazem parte da minha memória de infância. Entre outras, esta era uma das espécies que a minha mãe procurava e recolhia para secar e fazer chá, sempre que passávamos férias na Beira Baixa. Não que esta seja uma planta especialmente bonita ou tenha alguma característica fora do vulgar. No entanto, ficou-me na memória o nome engraçado de alfavaca-de-cobra pelo qual é conhecida na região. Até hoje, não consegui entender a razão de tal epíteto, ou seja, em que sentido é que a cobra é para aqui chamada. Sabemos que a palavra alfavaca vem do árabe “al-habōqâ”, nome que os árabes davam às plantas aromáticas usadas em culinária ou como medicamento. Em português a palavra alfavaca é dado a certas espécies aromáticas, nomeadamente o manjericão, planta inteiramente diferente da incrível alfavaca-de-cobra. Terá esta servido de mezinha contra os efeitos da mordidela de cobra? Há quem assim o afirme mas é impossível agora confirma-lo. Os nomes vulgares que o povo usou para batizar as plantas foram verbalmente transmitidas de geração em geração, por vezes ao longo de séculos, sujeitas a diferentes interpretações causadas por deturpação da língua. O mesmo já não acontece com os nomes em latim ou latinizados usados na classificação científica, pois são usados e reconhecidos em qualquer parte do mundo.
Como erva medicinal Parietaria judaica já teve o seu momento de glória. As suas folhas eram usadas em chá para problemas de estômago e intestinos, inflamações da bexiga, patologias hepáticas e renais entre outras. Também tem efeito diurético. O seu uso mais conhecido tem a ver com o tratamento de hemorróidas, em banhos de assento, usando a água do cozimento das folhas. Há quem ainda a use, muitas vezes associada com as malvas e outras ervas. 

Alerta:
Os tratamentos continuados com ervas medicinais sejam elas quais forem, não devem ser conjugados com a toma de medicamentos pois podem interferir com a ação destes. Podem duplicar a ação dos medicamentos, impedir a sua absorção ou até impossibilitar a eliminação dos mesmos pelo organismo no tempo programado. Os acidentes mais graves têm sido registados em casos de intervenção cirúrgica pois podem bloquear a ação dos anestésicos ou o tempo de coagulação do sangue. Veja mais AQUI

As folhas são comestíveis, quer cruas, quer cozinhadas e não só são uma boa fonte de fibras como são também ricas em minerais (fosforo, ferro e cálcio) e vitaminas A, B1, B2, B3 e C. O sabor das folhas cruas lembra o do pepino mas se cozinhadas tornam-se mais suaves, permitindo que haja uma boa ligação com o sabor de outros alimentos. Apesar de fibrosos, os caules também são comestíveis.
Parietaria judaica é também uma planta bastante apreciada por certos tipos de borboletas cujas larvas se alimentam das suas folhas, como é o caso da Vanessa atalanta.
Vanessa atalanta: vulgarmente conhecida como red admiral ou Almirante vermelho europeu é bastante frequente em Portugal podendo ser observada em todo o país. Veja mais informações AQUI.
Foto de Didier Descouens / Fonte: Wikimedia Commons
Apesar das suas qualidades como erva medicinal, alguns de nós precisamos de ter cuidado com a Parietaria judaica. Os seus pequeníssimos grãos de pólen são muito abundantes e voláteis, além de persistirem longamente no ar que respiramos, provocando agravamento nos sintomas de asma e rinites alérgicas de quem é mais sensível ao pólen desta planta. 
A planta floresce de março a outubro e por vezes durante o ano inteiro, se o inverno for suave. Este longo período de florescimento e a alta produção de flores são atributos associados às plantas de habitats perturbados e portanto são características esperadas numa espécie ruderal como é o caso de Parietaria judaica.
No âmbito das chamadas ervas “daninhas” as Parietaria (género com 10 espécies das quais 3 existem Portugal) parecem ser as que motivam mais alergias. Contudo, são as gramíneas a principal fonte deste mal que atinge quase um terço da população. Também existem árvores cujo pólen nos pode causar alergia como é o caso da oliveira, dos eucaliptos ou dos carvalhos, apesar das suas flores serem tão pequenas que mal damos por elas. São precisamente os grãos de pólen mais pequenos que causam as maiores alergias; eles andam em suspensão no ar mas não os vemos. O seu efeito maléfico é potenciado nas cidades devido às partículas da poluição que alteram a sua configuração e os tornam mais agressivos.
Parietaria judaica encontra-se um pouco por todo o território nacional, sendo nativa de Portugal continental e Arquipélago da Madeira e introduzida nos Açores. Esta espécie é autóctone de toda a bacia mediterrânica (sul da Europa e norte de África) incluindo a Ásia menor. A planta foi introduzida noutros países podendo agora também ser encontrada em países do norte da Europa, na costa ocidental dos Estados Unidos e na Austrália. Cresce principalmente em terrenos pedregosos, rachas dos pavimentos, em paredes e muros antigos em cujas fendas se vai acumulando terra e lixo que tornam o solo rico em nitrogénio e onde as raízes encontram a frescura de que a planta necessita. É muito frequente aparecer em hortas e jardins cujo solo regado e nitrogenado muito aprecia. No entanto, é nas grandes cidades cujos ambientes estão altamente perturbados devido às contínuas movimentações do solo e à poluição que o seu efeito alergénico mais se faz sentir. Na verdade, alguns estudos sugerem que a poluição de metais pesados aumenta a capacidade reprodutiva desta espécie o que demonstra uma alta plasticidade fenotípica, capacidade que lhe permite alterar a sua morfologia de acordo com as condições ambientais. Esta característica é considerada como promotora do sucesso de espécies expansivas e invasoras (Rejmánek 1996).
O nome genérico Parietaria (que derivou da palavra latina paries = muro, parede) refere precisamente as suas preferências em termos de habitat. O epíteto judaica que designa a espécie foi-lhe dado por Lineu, autoridade que primeiro publicou a descrição da espécie em 1756 em Flora Palaestina, com base em espécies trazidas da antiga região da Judeia. Esta obra foi realizada em colaboração com Bengt Johan Strand (naturalista sueco 1738-1790) e é basicamente uma compilação das espécies coletadas por Frederic Hasselquist. Em resposta aos lamentos de Lineu quanto à falta de informação sobre a história natural da Palestina, este naturalista sueco (1722-1752) que tinha sido colega de Lineu na Universidade de Uppsala e era seu seguidor, empreendeu uma expedição à Palestina, Chipre, Egito e Asia Menor onde recolheu bastantes espécies. Esta expedição durou cerca de 3 anos. No regresso Hasselquist faleceu mas a sua coleção de plantas chegou a casa em segurança permitindo o seu estudo e classificação científica.
Os caules estão cobertos de pelos densos
Parietaria judaica é uma erva perene cujos caules formam pequenas moitas de 20 a 60 cm de altura e muito ramificadas. Os caules, de cor verde acastanhada ou avermelhados, são eretos ou prostrados. Estes tornam-se ligeiramente lenhosos na base e estão cobertos de pelos densos.
As folhas não apresentam estipulas. São alternas, com pecíolos de 3 a 12 cm, inteiras, ovais ou lanceoladas, de cor verde-escuro, quase glabras ou pubescentes. 
A página superior das folhas está coberta de pelos
Os pelos curtos e irregulares que cobrem as folhas, sobretudo na página inferior e ao longo das nervuras fazem com que se agarrem à roupa. 
Pagina inferior das folhas
Lembro-me que em criança eu e os meus companheiros quase nos “vestíamos” destas folhas, cobrindo a nossa roupa com elas. Esta característica deve-se à presença de cistólitos. Estes são pequenas estruturas (que no caso desta planta são puntiformes) existentes nas paredes das células epidérmicas das folhas e que são formados por carbonato de cálcio.
As flores são minúsculas e reúnem-se em inflorescências que se formam na axila das folhas, desde a base até ao topo dos ramos. Cada inflorescência consiste numa flor central que é feminina, rodeada por 3 ou mais flores que são hermafroditas (com órgãos masculinos e femininos). Este conjunto está protegido por brácteas pubescentes, as quais formam um invólucro em volta das flores. De início as flores apresentam-se de cor esverdeada, tornando-se avermelhadas com a maturação.
Nenhuma destas flores possui pétalas. 
As pétalas e sépalas coloridas ou perfumadas que vemos nas flores de tantas outras espécies não são produzidas em benefício da beleza mas sim porque precisam de atrair insetos polinizadores. Esses “artifícios” de que se socorrem para completar o seu ciclo reprodutivo com sucesso custam caro e são um encargo enorme em termos de energia. Ora, a Parietaria judaica prescindiu dos atavios e evoluiu no sentido de não ficar dependente dos insetos, adaptando-se à polinização pelo vento.
Assim, vejamos como se organiza esta espécie em termos de reprodução: o perianto (conjunto das peças florais que rodeiam os órgãos sexuais da flor) é formado por 4 lóbulos que formam um tubo coberto de alguns pelos finos, tubo este que é acrescente, ou seja, continua a crescer mesmo depois da fecundação. 

Estames de Parietaria judaica com as anteras brancas em evidência.
Foto de Hectonichus. Fonte Wikimedia Commons.
O androceu, ou seja a parte masculina das flores hermafroditas consiste em 4 estames que, enquanto a flor permanece fechada não têm altura suficiente pelo que são obrigados a ficar curvados dentro dela, em tensão. A emissão de pólen para a atmosfera ocorre quando a flor abre e os elásticos filamentos dos estames se endireitam bruscamente. 
Diagrama 1
O diagrama 1 mostra os estados de desenvolvimento de uma flor bissexual de Parietaria judaica.
      a) Fase de recetividade feminina com o estilete e o estigma prontos para receber o pólen lançado por outras flores para que se efetive a fecundação.
      b)  Início da fase de crescimento do perianto em que o estilete e o estigma murcham e caiem.
      c) Fase de crescimento está completa.
     d) Aliviada a tensão, os estames desenrolam-se de forma súbita libertando o pólen de forma explosiva. 

O ovário, quer nas flores hermafroditas quer nas femininas, é superior e consiste num único carpelo do qual emerge um estilete com um estigma cujo ápice é formado por vários pelos, ficando semelhante a um pincel.
As flores femininas são as primeiras a amadurecer e só depois amadurecem as flores hermafroditas. No entanto as flores hermafroditas desta espécie são protogínicas, ou seja, os seus órgãos masculinos só amadurecem depois dos femininos terem cumprido a sua parte e deixarem de estar recetivos. Desta forma a planta consegue evitar a autopolinização, apesar de que existem indícios de que tal é possível, uma vez que parece existir autocompatibilidade.
Diagrama 2

O diagrama 2 representa a sequência dos estados de desenvolvimento sexual numa inflorescência de Parietaria judaica. A recetividade dos órgãos femininos está representado a cinzento escuro e a dos masculinos está assinalado com pontilhado cinzento mais claro.
     a) Estrutura da inflorescência: uma flor feminina no centro, rodeada de 6 a 7 flores bissexuais (hermafroditas).
      b) A flor central feminina fica recetiva 3 dias antes das flores bissexuais.
   c) Quando a recetividade feminina das flores bissexuais da periferia se inicia o estigma da flor central unissexual já murchou; este processo desenrola-se em serie, de forma escalonada; a recetividade feminina de uma inflorescência dura até 6 dias.
    d) Após a fase feminina inicia-se a libertação do pólen. Esta também se processa de forma escalonada, passando de uma flor bissexual para a seguinte; o processo completa-se em 1-5 dias, dependendo das condições ambientais.

A ântese (período em que a flor está aberta) começa nas inflorescências basais e processa-se de forma gradual até chegar às flores na parte superior dos caules o que permite que os caules continuem a crescer e a formar mais inflorescências. Este padrão de crescimento possibilita, simultaneamente, o crescimento vegetativo e reprodutivo. Esta é mais uma estratégia que permite o alastramento da espécie.
Após a maturação os periantos das flores bissexuais secam e caiem, ficando debaixo da planta-mãe o que pode resultar num grande banco de sementes naquele pedaço de solo. No entanto, em solos duros e impermeáveis, estes periantos secos, ainda envolvendo as sementes, podem ser arrastados pelas chuvas e ventos fortes.
Por sua vez, os periantos secos das flores femininas e respetivas sementes ficam agarrados às brácteas do invólucro, formando uma estrutura que pode ajudar na dispersão pelo vento ou a flutuar na água.
Os pelos que cobrem os periantos e o invólucro de brácteas são uma ajuda extra na dispersão das sementes ao agarrarem-se ao pelo dos animais ou à roupa e calçado dos passeantes.
Os frutos são pequenos, ovais e brilhantes, de cor escura.
Fruto de Parietaria judaica ao centro, à esquerda brácteas do invólucro e à direita o perianto da flor.
Foto de Leo Michels (Usage:Public Domain).
Muitas vezes Parietaria judaica é confundida com a sua congénere Parietaria officinalis que é muito semelhante mas que não cresce na Península Ibérica. 
Parietaria officinalis
Foto de Franz Xaver. Fonte: Wikimedia Commons
Segundo a Flora Iberica a P. judaica distingue-se de P. officinalis por ser uma erva prostrada ou ascendente com folhas até 5 a 7 cm de comprimento e com perianto tubular até 3 ou 3,5 mm na frutificação. Por seu lado, P. officinalis é uma planta ereta,com folhas até 12 cm de comprimento e com perianto acampanulado até 2,75 ou 3 mm na frutificação.

Parietaria judaica pertence ao género Parietaria um dos cerca de 50 da família Urticaceae, uma das grandes famílias botânicas englobando com mais de 2000 espécies largamente distribuídas pelas regiões tropicais, menos comum nas zonas temperadas, registando-se a maior concentração de géneros e espécies na Ásia tropical. As espécies desta família apresentam uma notável variedade morfológica. Sob o ponto de vista taxonómico é uma família difícil, parcialmente devido ao facto de muitos dos carateres de diagnóstico necessitarem de ser observadas ao microscópio para que haja uma identificação precisa, devido ao seu tamanho diminuto. Por outro lado, muitas espécies foram originalmente classificadas com base apenas em semelhanças morfológicas o que nem sempre comprova a relação entre as espécies tendo-se registado alguns casos de homoplasias, ou seja, as características morfológicas semelhantes são coincidência, tendo surgido independentemente, não representando proximidade genética. Assim, à semelhança do que acontece com tantas outras famílias, Urticaceae tem sofrido bastantes alterações  em resultado de análises filogenéticas as quais permitem estabelecer a relação evolutiva das espécies e determinar a importância relativa dos traços morfológicos para a classificação cientifica.


Local das fotos de Parietaria Judaica da autoria deste blogue: Serra do Calvo/Lourinhã



quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Prunella vulgaris L.


Nomes comuns:
Consolda-menor; brunela; prunela; erva-férrea; erva-das-fridas

Prunella vulgaris. Fonte: Wikiwel
A protagonista de hoje é Prunella vulgaris, uma espécie da família Lamiaceae = Labiatae, popularmente denominada família das mentas. Esta erva é comestível e medicinal, podendo ser encontrada em diversas regiões do território português como espécie nativa, seja no continente ou nos arquipélagos de Madeira e Açores. Já foi famosa em tempos e indispensável no alívio de qualquer tipo de maleita, gozando de enorme protagonismo entre a grande variedade de mezinhas que fazem parte da medicina popular. Com a chegada dos produtos farmacêuticos de ação instantânea foi caindo no esquecimento popular e a fama das suas virtudes diluiu-se no tempo, como aconteceu a tantas outras plantas que tão úteis foram aos nossos antepassados. Na dieta das populações também se usavam as folhas, cruas ou cozidas, em saladas, sopas, estufados ou segundo a imaginação e criatividade de cada um. O seu sabor é amargo devido aos taninos presentes na composição dos seus tecidos, mas este travo pode ser suavizado através do truque de escaldar previamente as folhas.
Prunella vulgaris
O seu uso em medicina tradicional é antiquíssimo, tendo sido mencionado pela primeira vez na literatura médica chinesa durante a dinastia “Hanocidental” (206 a.C.-22 d.C.). A fama das suas qualidades terapêuticas chegou, entretanto, a todas as partes do globo e durante séculos foi remédio aconselhado para praticamente todas as maleitas conhecidas do Homem. Os anglo-saxões, com o espírito prático que os caracteriza foram diretos ao assunto, chamando-lhe “heal-all” e "self-heal" o que se traduz, respetivamente por “tudo-cura” e "cura-te a ti próprio", numa clara alusão à facilidade em encontrar o que achavam ser a cura para todos os males, sem necessidade de conselho médico.
Tendo-se tornado uma panaceia quase universal, em medicina ocidental esta erva era principalmente usada externamente para tratar lesões menores como feridas, queimaduras, contusões e ulceras da boca, dores de garganta, inflamação dos olhos e sangramentos, enquanto na medicina chinesa, era usada sobretudo para tratar queixas do foro hepático, atuando como estimulante do fígado e da vesicula biliar. Estudos recentes demonstram e confirmam a ação do ácido rosmarinico presente na composição quimica da planta, na redução de radicais livres ao nível das células hepáticas, preservando a integridade estrutural e funcional do figado.
Todas as partes da planta são medicinais e são usadas principalmente pela sua ação analgésica, antissética, adstringente, antibiótica, antiespasmódica, anti-inflamatória, antitumural, cicatrizante, carminativa, depurativa, diurética, hemostática, febrífuga, hipotensiva, sedativa, vermífuga, vulneraria e tónica. Entretanto, estudos recentes referentes ao uso da planta no tratamento de herpes, cancro, sida, problemas de alergias e diabetes, parecem prometedores. Assim, muitos dos benefícios lendários desta planta parecem estar a ser cientificamente suportados. 
Os constituintes químicos principais incluem taninos, ácido betulinico, acido canfórico, delfinidina, hiperoside, ácido oleanólico, ácido rosmarinico, ácido mirístico, ácido ursolico, ácido laurico, manganês,  beta-sitosterol e lupeol.
Além dos usos medicinais, Prunella vulgaris pode ser bastante interessante como planta ornamental atapetante, sobretudo em jardins de pedra ou do tipo silvestre, os quais podem mimetizar a natureza e valorizar a paisagem natural. As cores vibrantes das suas inflorescências em tons de roxo, violeta e verde tornam-na muito atraente, além de ser muito melífera. 
Prunella vulgaris
Esta planta requer climas temperados e dá-se bem em pleno sol mas é em situações de sombra parcial que melhor se desenvolve. Cresce em qualquer tipo de substrato e as suas necessidades de humidade são muito variáveis. Embora preferindo o pé bem húmido, uma vez bem estabelecida tolera situações ocasionais de alguma escassez de água, como acontece no fim do verão nas regiões mediterrânicas. De forma geral, encontramo-la em ambientes antropogénicos, em lugares húmidos como a beira de ribeiros, prados, lameiros, clareiras das florestas e pastagens. Nestes lugares cresce até aos 40 ou 60 cm de altura. Também pode aparecer em relvados onde, devido aos constantes cortes poderá não exceder os 5 cm de altura. Em certos locais esta planta é tão comum que mal damos por ela, sobretudo porque a determinada altura os caules vergam com o seu próprio peso e se misturam com as outras plantas.
Prunella vulgaris - Caule subterrâneo, raízes e gemas em fase de abrolhamento

Prunella vulgaris é uma erva perene, ereta ou rastejante, cuja altura varia entre os 5 e os 60 cm. Frequentemente os caules não aguentam o seu próprio peso e descaiem atingindo o solo onde enraízam nos nos pontos onde os nós tocam no substrato, dando origem a novas plantas.
A parte subterrânea desta planta caracteriza-se pela existência de um estreito rizoma, ou seja um ligeiro engrossamento de caules subterrâneos cuja missão é fazer reserva de nutrientes. Estes rizomas formam raízes finas que não só fixam a planta ao solo como também servem para absorver água e sais minerais entre outros compostos necessários ao desenvolvimento da planta. Estes rizomas têm a faculdade de se expandir, crescendo paralelamente em relação ao solo, produzindo, a determinados espaços, nós com gemas. A partir destas gemas surgem novas raízes e folhas, dando origem a novas plantas. Os caules aéreos têm seção quadrangular e a sua cor é avermelhada, apresentando alguns pelos dispersos que vão desaparecendo à medida que a planta envelhece. 
Prunella vulgaris - caules de secção quadrangular com folhas opostas
Os caules são relativamente pouco ramificados e as folhas, também pouco abundantes. As folhas dispõem-se de forma oposta nos caules e possuem pecíolos que podem ser longos ou curtos; o limbo é de cor verde-escura com a página inferior mais clara; a sua forma é ovada ou ovada-lanceolada, com margens inteiras ou com recortes arredondados.
Prunella vulgaris - folhas

Cada folha apresenta uma nervura central com 3 a 7 nervuras secundárias. Podem ter alguns pelos nas margens ou no veio mais proeminente na pagina inferior ou apresentarem-se glabras.
Esta planta é facilmente identificável pelas suas inflorescências as quais formam uma estrutura semelhante a uma espiga grossa e circular denominada verticilastro. Este tipo de estrutura floral, em que as flores se acomodam em camadas em redor de um eixo floral como se fossem anéis, é muito comum entre as espécies da família Lamiaceae/Labiate.
De notar que durante a época de floração o eixo floral da inflorescência continua a crescer pelo que novos anéis de flores vão sendo acrescentados. No entanto, as flores, cálices e brácteas vão diminuindo de tamanho da base para o ápice da inflorescência, pelo que o diâmetro da “espiga” é menor no ápice do que na base.
As flores de Prunella vulgaris, protegidas pelos respetivos cálices e brácteas, posicionam-se em redor do eixo em grupos de 3 a 6 conjuntos bastante compactados e coloridos em que predominam as cores verde, purpura e violeta. 
Cada flor está protegida por duas brácteas de cor verde semelhantes a folhas, mas diferentes das folhas caulinares pois têm forma largamente ovada e margens providas de longos cílios brancos; entre a flor e as brácteas situam-se as sépalas, de cor purpura, com forma algo achatada e bordos com 5 dentes rígidos, 3 na parte superior e 2 na inferior. É de dentro das sépalas que surgem os botões florais, de cor violeta que são bem visíveis pois, embora de tamanho diminuto, ultrapassam o cálice em comprimento.
Flores  de Prunella vulgaris - Foto (detalhe) de Michael Gasperl (Migas)
Fonte Wikimedia Commons
As pétalas das flores são zigomorfas ou seja, só são simétricas bilateralmente. Elas estão divididas em dois lobos, formando um lábio superior que é inteiro e côncavo e um lábio inferior subdividido em 3 lóbulos sendo 2 deles estreitos, ladeando o lóbulo central de maior tamanho e que apresenta os bordos dentados. Logo abaixo dos lábios, as pétalas unem-se, formando o tubo da corola que tem a forma de um cone invertido e apresenta um anel de pelos no seu interior.

Prunella vulgaris- detalhes da flor
Foto de Jim Conrad. Fonte Wikimedia Commons
Estas flores possuem órgãos de reprodução masculinos e femininos os quais se formam dentro do tubo da corola. Os 4 estames, organizados em dois pares didínamos (dois grandes e dois pequenos), abrigam-se debaixo do lábio superior. 
Nesta ilustração podemos observar a morfologia particular dos estames que na foto acima é pouco percetivel. Cada um dos filetes se divide em dois braços, um deles com antera e o outro sem antera e com forma pontiaguda.
Fonte Illustrations of the British Flora 1924
O ovário, situado sobre o nectário, divide-se em 4 partes. A partir do ovário desenvolve-se o estilete que cresce por entre os dois estames mais compridos, dividindo-se em dois braços estigmáticos na parte terminal, prontos a receber o pólen trazido de outras flores.
Embora sendo atraída por múltiplos insetos devido ao néctar que produz, esta planta parece estar adaptada para ser fertilizada por abelhas, sendo estes os únicos insetos capazes de chegar ao néctar que está reservado no fundo da corola. O anel de pelos espessos que se encontra na garganta do tubo da corola impede a entrada a outro tipo de insetos mas permite a entrada dos longos probóscides das abelhas que assim conseguem sugar o precioso alimento, enquanto poisam no lábio inferior da flor. Ao fazê-lo as abelhas entram em contacto com o pólen das anteras posicionadas debaixo do lábio superior da flor.
Prunella vulgaris
Após a polinização as pétalas deixam de ser úteis e murcham, deixando os cálices com aspeto de envelopes abertos. Estes permanecem em função enquanto os frutos se vão formando e amadurecem.

Prunella vulgaris - sementes
Cada flor produz 4 sementes de forma ovóide, lisas e algo brilhantes.
A floração de Prunella vulgaris ocorre durante a primavera e o verão.

O género Prunella a que pertence esta planta inclui 8 espécies nativas do hemisfério norte, das quais 3 estão presentes em território português. Para além de Prunella vulgaris, acima descrita e que está presente tanto no continente como nas ilhas, existem mais duas espécies nativas e presentes apenas no território continental nomeadamente Prunella grandiflora, que difere de P.vulgaris por ter folhas e flores maiores e Prunella laciniata que tem flores brancas.

Este género pertence à família Lamiaceae = Labiatae, comumente conhecida como família das mentas que inclui mais de 3000 espécies distribuídas por uns 200 géneros, dos quais 29 estão presentes em Portugal. É considerada uma das famílias mais evoluídas entre as dicotiledóneas.

Nota:
As angiospermas dividem-se em dois grandes grupos, monocotiledóneas e dicotiledóneas, assim denominadas, entre outras diferenças, consoante o embrião da semente contenha, respetivamente um ou dois cotilédones. Assim sendo, quando uma semente germina as primeiras “folhas” que aparecem são os cotilédones, um no caso de planta monocotiledónea ou dois no caso de dicotiledóneas. Na realidade, os cotilédones são folhas modificadas que servem de reserva alimentar que ajudam a planta a subsistir durante a fase de germinação, geralmente caindo quando surgem as primeiras folhas verdadeiras.

Os membros desta família são espécies arbustivas ou herbáceas e, caso único entre as famílias botânicas, têm a particularidade de todas elas serem aromáticas e apresentarem propriedades medicinais. Ou seja, muitas outras famílias incluem algumas espécies aromáticas e/ou medicinais mas no caso da família das mentas todas as espécies incluem essas características. São especialmente abundantes na região Mediterrânica e uma parte da Ásia de onde são originárias, mas gradualmente foram sendo introduzidas noutras regiões do globo, encontrando-se, hoje em dia, amplamente distribuídas. Entre os exemplares mais conhecidos desta família podemos nomear as hortelãs, as alfazemas, os orégãos, os tomilhos, as salvias, os rosmaninhos, os alecrins e os manjericões, entre muitas outras.
A importância económica das Lamiaceae/Labiatae é, como se calcula, enorme. À parte o uso caseiro e artesanal, as diversas industrias têm tirado bom partido das qualidades ornamentais, aromáticas e medicinais destas espécies. Assim, são vendidas nos viveiros e utilizadas em paisagismo; depois de secas e devidamente empacotadas são vendidas nos supermercados como condimentos ou chás; através de processos sofisticados são retirados os óleos essenciais os quais são utilizados em aromaterapia e na indústria cosmética e farmacêutica.
Apesar de serem cultivadas em muitos lugares do mundo de clima temperado é na região mediterrânica que estas espécies se sentem em casa e onde medram com mais vigor e concentram os melhores aromas. São espécies que gostam de habitats livres, em encostas de solos tantas vezes pedregosos, vivendo entre outras plantas de baixo porte, que não lhes encobrem o pleno sol e tal como elas estão adaptadas à secura dos verões e às chuvas invernais e primaveris tão características do clima mediterrânico. De forma geral, florescem no verão, altura em que se faz a colheita. Curiosamente, a colheita deve ser realizada ao fim da manhã, momento em que apresentam maior quantidade de óleos essenciais.

A família Lamiaceae/Labiatae é uma das maiores famílias de plantas melíferas. A floração é geralmente abundante e as flores, generosas, não regateiam o néctar, parecendo haver tanto mais deste suco açucarado quanto mais visitantes houver. Aliás, parece haver uma especial relação entre estas flores e as abelhas. A morfologia das corolas, que apresentam um lábio superior e um inferior diferenciados, aparenta ser especialmente adaptada ao corpo destes insetos.


Localização das fotos de Prunella vulgaris da autoria deste blogue: Zambujeira/Lourinhã