As avoadinhas e o género Conyza
![]() |
| Conyza sumatrensis |
![]() |
| Conyza sumatrensis |
Em Portugal regista-se a ocorrência de 4 espécies do género Conyza, nomeadamente Conyza bonariensis, Conyza canadiensis, Conyza sumatrensis e Conyza bilbaoana. (listadas como invasoras no anexo I do Decreto-Lein° 565/99, de 21 dezembro). Todas elas florescem praticamente durante todo o ano, com especial incidência durante os meses de primavera e verão, dando-se bem em lugares áridos e ensolarados.
Conyza é um género bastante complicado, tendo sido durante muito tempo considerado uma seção do género Erigeron, com o qual partilha algumas semelhanças. A situação assim se manteve até que, em 1943, o botânico americano Arthur Cronquist (especialista em tudo o que se refere à família Asteraceae/Compositae e mentor de um novo sistema de classificação botânica das angiospermas - Sistema Cronquist) redefiniu os limites entre os dois géneros e deu honras de género autónomo a Conyza. Este distingue-se de Erigeron primordialmente pelo seu maior número de flores pistiladas (só com órgãos femininos) as quais, devido à ausência de estames se tornaram filiformes. Adicionalmente, em Conyza as flores do interior do disco são menos numerosas, com corolas mais curtas ou inexistentes e os papilhos são acrescentes (continuam a crescer depois da fecundação até o fruto atingir a maturação). As inflorescências densas com capítulos cilíndricos de algumas espécies de Conyza, também não são características de Erigeron. Contudo, estudos recentes que sustentam a origem americana do género Erigeron consideram que o Conyza evoluiu a partir deste (Noyes, 2000). Pelo contrário, Nesom (2008) considera que Conyza é um género completamente separado de Erigeron…
De
onde se conclui, que a sistemática das espécies incluídas em Conyza ainda não é suficientemente
compreendida. Faltam muitos estudos até que se possa chegar a um consenso, se é
que tal alguma vez possa acontecer. É que, os tratamentos usados do outro lado
do Atlântico diferem dos usados na Europa, levando a conclusões diferentes,
pelo que fica tudo um bocado confuso, com múltiplas reclassificações e
numerosos sinónimos no historial das espécies.
As espécies do género Conyza que chegaram à Europa são difíceis de distinguir, uma vez que apresentam características morfológicas muito semelhantes. Além de que, sendo compatíveis e podendo ocorrer ao mesmo tempo nos mesmos habitats, elas facilmente hibridizam entre si, apresentando características intermédias, o que torna a identificação ainda mais difícil.
Vejamos algumas das características das espécies que podemos ver em
território português:
Conyza bonariensis (L.) Cronquist
Sinónimos: Erigeron bonariensis L., Erigeron linifolius Willd., Leptilon
bonariense (L.)
Small, Leptilon linifolium (Willd.) Small
Nomes comuns:
Aboadeira; avoadinha; avoadinha-peluda; erva-pau; raposa; erva-da-esforrica
![]() |
| Conyza bonariensis |
Em Portugal ocorre com frequência em todo o território continental, assim como em todas as ilhas do arquipélago dos Açores e ilhas da Madeira e Porto Santo, apesar do que é pouco conhecida. Consulte o mapa de ocorrências em Portugal continental AQUI.
![]() |
| À semelhança do que acontece com as outras espécies do género Conyza, as primeiras folhas de Conyza bonariensis dispõem-se em roseta. |
![]() |
| Caule de Conysa bonariensis do qual foram retiradas algumas folhas, para melhor observação. |
![]() |
| Conyza bonariensis mostrando as ramificações laterais sobrepassando o eixo. |
![]() |
| Conyza bonariensis - folhas |
![]() |
| Capítulos de Conyza bonariensis, revelando as florinhas aconchegadas dentro dos invólucros. |
![]() |
| Capítulos de Conyza bonariensis |
![]() |
| Capítulos de Conyza bonariensis |
![]() |
| Capítulos de Conyza bonariensis |
![]() |
| Florinhas em vários estágios de desenvolvimento dentro dos invólucros de Conyza bonariensis. |
![]() |
| Conyza bonariensis - os frutos, agarrados ao papilho, soltam-se do recetáculo. Na foto notam-se ainda as brácteas que formavam o invólucro reviradas para trás, permitindo a libertação dos frutos. |
Ligadas às cerdas do papilho estão as sementes, muito pequenas, oblongas, comprimidas, estriadas em ambas as faces, com pelos poucos densos.
![]() |
| Conyza bonariensis - Fruto com uma única semente e papilho |
Conyza bonariensis parece
possuir propriedades terapêuticas, sendo utilizada em medicina alternativa, sobretudo
nos seus países de origem, como diurética, hemostática e antidiarreica.
Conyza sumatrensis (Retz.) E. Walker
Sinónimos: Conyza albida Sprengel, Conyza albida Willd. Ex. Spreng. , Erigeron floribundus (Kunth)
Sch.Bip«ufxy, Erigeron sumatrensis Retz
Nomes comuns:
Avoadinha-marfim, avoadeira, avoadinha-branca-de-pelos-compridos
![]() |
| Conyza sumatrensis |
Foi trazida para França na segunda metade do seculo XIX, havendo registos desta planta no Jardim Botânico de Collioure que datam de 1878, de onde as suas sementes leves e argutas escaparam, expandindo-se através da França para Espanha, Portugal e Norte de África, nos inícios do século XX. Os primeiros registos fiáveis da sua presença em Itália datam de meados do século passado e mais recentemente a planta foi registada em países do leste mediterrânico como a Croácia, Grécia, Albânia e ainda na Áustria. Assim, a sua expansão continua de "vento em popa", literalmente.
![]() |
| Conyza sumatrensis (à esquerda) e Conyza bonariensis (à direita) |
![]() |
| Conyza sumatrensis apenas ramifica na metade superior e os ramos laterais são mais curtos que o eixo . |
![]() |
| Conyza sumatrensis - folhas |
![]() |
| Comparação: capítulos de C.sumatrensis (à esq.) e de C.bonariensis (à dta.) |
Outra diferença
entre as duas espécies referidas tem a ver com as florinhas dos capítulos. Na
espécie C.sumatrensis as corolas das
flores femininas periféricas são zigomórficas (com simetria bilateral) enquanto
em C.bonariensis todas as florinhas
têm corolas actinomórficas (com simetria radial).
![]() |
| Papilhos de Conyza sumatrensis |
Conyza sumatrensis é também uma erva
medicinal, sendo tradicionalmente usada no tratamento das mais diversas
maleitas, dependendo da região da Terra, nomeadamente acne, micoses, asma,
tuberculose, distúrbios digestivos, paralisia, epilepsia, espasmos e
convulsões. Estudos recentes ainda em fase inicial, detetaram nesta espécie, atividades
antimicrobianas e também antimalária.
Conyza
canadensis (L.) Cronq.
Sinónimos: Erigeron canadensis L., Erigeron pusillus Nutt., Trimorpha
canadensis (L.)
Lindm.
Nomes vulgares:
Avoadinha, avoadinha-do-Canadá,
avoadeira
![]() |
| Conyza canadensis Foto Wikimedia commons |
As plantas
desta espécie podem atingir os 150 cm de altura. Distinguem-se facilmente das
suas congéneres pois a flores do capítulo são mais vistosas. Embora peluda
quando jovem, a Conyza canadensis vai
perdendo os pelos com a maturação. As folhas ficam com pelos apenas nas margens
e na nervura central inferior, ao passo que as brácteas que formam o involucro
se tornam glabras ou quase.
Mas, a principal característica que a distingue das
outras, são as flores periféricas dos capítulos as quais apresentam lígulas bem
visíveis, de cor branca. As flores tubulosas do interior são amarelas e apresentam
corolas com 4 lóbulos.
![]() |
| Conyza canadensis Foto de Rasbak. Fonte Wikimedia commons |
![]() |
| Conyza canadensis Foto de Rasbak. Fonte Wikimedia commons |
As suas propriedades terapêuticas são reputadas em alguns meios. Veja AQUI o seu perfil farmacológico
Conyza bilbaoana J.Rémy
Sinónimos: Conyza floribunda Kunth, Conyza bonariensis var. (S.F.Blake)
Cuatrec.
![]() |
| Conyza bilbaoana Foto de Gordon Leppig & Andrea J. Pickart Fonte Wikimedia commons |
(Já vimos que
que C. sumatrensis tem brácteas
involucrais peludas e aspeto geral acinzentado devido à elevada densidade de
pelos que cobrem tanto o caule como as hastes florais e que C.canadensis é geralmente mais graciosa
devido ao seu menor tamanho, moderadamente pubescente, com folhas caulinares
inteiras ou ligeiramente dentadas e com capítulos com flores periféricas
nitidamente liguladas).
![]() |
| Conyza bilbaoana Foto de Malcolm Storey licensed under Creative Commons |
As inflorescências
são densas e em forma piramidal, em geral com capítulos rômbicos, com florinhas
internas com 5 lóbulos e florinhas periféricas sem lígulas ou com lígulas
inferiores a 0,5 mm.
As brácteas do invólucro são glabras, embora com alguns
pelos esparsos.
| Conyza bilbaoana. Roseta basal Foto de Saxifraga-Rutger Barendse |
![]() |
| Conyza bilbaoana Foto de Foto de Malcolm Storey licensed under Creative Commons |
Existem poucos
registos sobre esta espécie, de provável origem sul-americana. Surpreendentemente
esta espécie tem sido negligenciada, possivelmente devido aos problemas
taxonómicos resultantes da confusão com outras espécies e possíveis híbridos.
Sabe-se, no entanto, que já se encontra dispersa pelo sudoeste de França e
norte da península Ibérica, incluindo noroeste de Portugal, espectando-se que
se dirija rapidamente para os territórios do sul. É, pois, uma espécie em vias
de expansão e poder invasivo que pode vir a suplantar as restantes espécies do
género.
Fotos de Conyza bonariensis e Conyza sumatrensis:
Fotos de Conyza bonariensis e Conyza sumatrensis:





















































