"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





segunda-feira, 11 de abril de 2016

Erica cinerea L.

Nomes comuns:
Urze-roxa; queiró; queiroga; negrela

Conforme o seu nome científico indica, Erica cinerea é uma espécie do género Erica, (família Ericaceae), uma das 10 espécies que representam este género em território português. Estas espécies pertencem ao grupo que vulgarmente designamos por urzes.
As urzes formam arbustos rústicos de folhas finas e flores miúdas e abalonadas que florescem de forma abundante e generosa. Apesar de modestas, ou talvez mesmo por isso, as urzes parecem exercer forte fascínio sobre a maioria de nós. Elas não só nos favorecem com a fragrância e beleza das suas pequenas flores, como também, sendo exemplos de resistência às adversidades, elas evocam, de modo especial, o lado primevo da vida e a estreita comunhão do Homem com a natureza.
Em Portugal as urzes distribuem-se um pouco por todo o território, desde as dunas do litoral até aos 1400 m de altitude, colonizando montes e vales. Associadas a outras comunidades vegetais que partilham os mesmos gostos (estevas, rosmaninhos, tojos, carquejas e sargaços), as urzes surgem em matagais resultantes da degradação da floresta original de carvalhais, nas orlas dos pinhais ou dos eucaliptais. Também aparecem em solos empobrecidos por práticas agrícolas intensivas ou de pastoreio. Geralmente são regiões cujo substrato pobre em nutrientes já não permite o desenvolvimento de outras plantas, mas onde a humidade atmosférica e edáfica se conjugam com os solos ácido-siliciosos, resultantes da erosão de granitos, quartzitos, xistos e gnaisses. De facto, as urzes não medram em solos calcários, necessitando de solos mais ou menos ácidos, consoante a espécie.
Existem diversos tipos de urzes que se distinguem, entre outras características, pela altura que podem atingir, pelo tamanho ou tom mais ou menos rosa das flores (são mais raras as brancas) e ainda pela época do ano em que florescem. Contudo, face à heterogeneidade dos nomes comuns dados às urzes, a única forma segura de as identificar é a nomenclatura científica. Os nomes comuns com que as populações as batizaram geram muita confusão, pois variam de região para região. Não só o mesmo nome comum pode corresponder a espécies diferentes, como dar-se o caso de plantas da mesma espécie terem nomes comuns diferentes, tudo dependendo da localização. Por exemplo, no caso das urzes, nomes comuns como torga, moita, queiró, margariça e outros, tanto se referem à mesma espécie como a espécies diferentes. É por isso que todas as espécies têm nomes científicos e esses, sim, são fiáveis pois são exclusivos e válidos em qualquer parte do mundo.

Em tempos idos, as urzes eram utilizadas para fazer a cama dos animais, encher colchoes, fazer cordas, escovas, vassouras, corantes e medicamentos caseiros. Hoje em dia consome-se o mel de urze, de consistência densa e sabor adstringente e marcante. Algumas espécies possuem propriedades medicinais diuréticas e antisséticas urinárias, como acontece com a presente espécie em estudo.
Distribuição de Erica cinerea em Portugal continental
Fonte: Flora Digital de Portugal - UTAD
Erica cinerea distribui-se pelo oeste e centro da Europa. É nativa de Portugal continental, foi introduzida na Madeira mas é inexistente nos Açores.
Esta é uma espécie perene. Forma um arbusto baixo, ereto e bem proporcionado, podendo crescer até aos 60 cm de altura. 

Os caules jovens são herbáceos e de cor avermelhada enquanto os mais velhos são lenhosos e de cor castanha. Os caules estão cobertos por um indumento de pelos curtos, não glandulares cuja cor clara lhes dá um aspeto acinzentado, significando literalmente “coberto de cinza “e de onde deriva o nome específico “cinerea”.
As folhas são eretas e têm forma linear ou linear-lanceolada com margens que se enrolam sobre si mesmas, curvando-se fortemente para a página inferior. 
As folhas são verdes ou verde-azuladas e são glabras mas as margens estão providas de cílios muito curtos. 
De forma característica as folhas dispõem-se em grupos de 3 em redor dos caules e por vezes, são complementadas por feixes de folhas axilares.
As flores reúnem-se em grupos de número variável na extremidade dos ramos. 
O cálice tem 4 sépalas livres, verdes ou avermelhadas e de forma lanceolada, semelhantes às folhas. A corola é constituída por 4 pétalas de cor rosa ou purpura, as quais se unem para formar uma espécie de sino, ou seja, uma forma globosa subitamente contraída na extremidade.
As flores possuem órgãos reprodutores de ambos os sexos. O androceu é formado por 8 estames que não se veem porque são mais curtos que a corola e na base dos quais se insere o disco nectarífero. Do ovário surge um estigma capitado que emerge pela abertura da corola durante a antese (período de expansão da flor).
A planta floresce durante a primavera e verão.
O fruto é uma cápsula deiscente que se abre por meio de fendas longitudinais libertando as sementes ovóides.
Erica cinerea é rica em néctar e pólen, sendo por isso muito visitada por insetos, embora apenas os insetos equipados com probóscide longo, como é o caso das abelhas meliferas, consigam chegar ao néctar e ao pólen, tendo em conta a forma da corola, dentro da qual estão localizados o disco nectarífero e as anteras.

Saiba mais sobre as urzes AQUI.

Fotos: Serra do Calvo (Lourinhã) e Vila de Rei.



terça-feira, 22 de março de 2016

Anthemis cotula L. e as "camomilas"

Nomes comuns:
Macela-fétida; margaça; erva-mijona; 
fedegosa, funcho-de-burro.

Anthemis cotula
Anthemis cotula é mais uma espécie emblemática da família Asteraceae/Compositae. Este pequeno malmequer floresce na primavera e verão. É semelhante a várias outras espécies que florescem na mesma altura do ano e que são designadas, na generalidade, por “camomilas”. As flores das chamadas “camomilas” são usadas sob a forma de infusão sendo, por vezes, o remédio caseiro para uma incipiente dor de cabeça ou como calmante destinado a proporcionar uma boa noite de sono. Também gozam de boa reputação no tratamento de variadas patologias, nomeadamente alergias, inflamações, espasmos musculares, ulceras, problemas digestivos, entre outras.
Anthemis cotula
Anthemis cotula está presente em Portugal continental onde é considerada nativa, tendo sido introduzida nos Açores e Madeira. Na realidade, esta espécie é um arqueófito que foi trazida do médio oriente pelos romanos, tendo-se propagado por todo o Mediterrâneo. Como sabemos, os arqueófitos são as espécies que foram introduzidas em tempos muito recuados (desde a pré-história até à época dos descobrimentos), tendo-se convencionado como limite o ano de 1500. Muitas delas foram introduzidas em tempos tão recuados que são consideradas autóctones, como é o caso da presente espécie.
Anthemis cotula
Anthemis cotula distribui-se pela maioria dos países europeus, sudoeste asiático e norte de África. Foi introduzida na América do norte, América do sul, Austrália e Nova Zelândia onde é considerada planta invasora. É uma planta ruderal, vivendo em meios sujeitos a atividades humanas (beira dos caminhos, escombros, entulhos, estrumeiras, etc.) os quais se caracterizam por elevada percentagem de azoto no solo. É também uma espécie arvense, ou seja, tem apetência por invadir as culturas e os prados semeados, especialmente campos de cereais.
Anthemis cotula
Anthemis cotula é uma herbácea de ciclo de vida anual, germinando na primavera ou no outono. As plantas que germinam no fim do verão ou no outono passam o período invernal sob a forma de roseta e quando chega a primavera desenvolvem-se rapidamente, iniciando a floração em abril ou maio. As plantas que germinam na primavera começam a florescer cerca de um mês mais tarde. A floração continua por todo o verão, prolongando-se até chegada dos primeiros frios.
Anthemis cotula
Toda a planta emana um odor forte, picante e ácido que é considerado desagradável, sendo esta a principal característica que, à primeira vista, a distingue de outras semelhantes.
Os caules são eretos ou ascendentes, glabros ou pouco pubescentes e ramificados na sua metade superior. A sua altura é muito variável, entre 3 a 75 cm e a planta pode assumir um porte ereto ou algo esparramado.
Anthemis cotula
As folhas posicionam-se nos caules de forma alternada, estão cobertas de pelos finos mas esparsos e abraçam os caules com o curto pecíolo de que dispõem. O limbo é fino e profundamente recortado, estando dividido em segmentos estreitos e irregulares.
Anthemis cotula
As flores organizam-se em inflorescências do tipo capítulo, característica comum entre os malmequeres e que nesta espécie surgem solitários no topo de pedúnculos longos e eretos, despidos de folhas. 
Anthemis cotula - invólucro
invólucro em forma de taça que envolve as peças florais é formado por duas ou três camadas de brácteas verdes, com margens franjadas e translucidas e dispostas de forma imbricada. Dentro deste invólucro existe um recetáculo sobre o qual se inserem as flores. 
Anthemis cotula
De início arredondado e em forma de botão, o recetáculo desta espécie toma a forma cónica com a maturação. 
Anthemis cotula
Esta foto de Herbarium-Plantas y hongos mostra o recetáculo seccionado, visivelmente sólido.
O recetáculo cónico é sólido no seu interior, ao contrário do que acontece com algumas espécies semelhantes. As flores centrais são tubulosas, de cor amarela e estão separadas por pequeníssimas brácteas lineares, as quais protegem os órgãos reprodutores de ambos os sexos presentes em cada florzinha. 
Anthemis cotula
Nesta foto podem ver-se as brácteas interflorais lineares que protegem apenas as flores que se vão transformar em fruto e que se situam na parte central do recetáculo.
Fonte da foto.
Estas brácteas são persistentes na frutificação, segurando os frutos até ao limite. Ao contrário das flores centrais, as flores periféricas não apresentam estas brácteas pois não necessitam delas, uma vez que são estéreis e a sua única missão é atrair os polinizadores através da produção das hemilígulas brancas cujo ápice termina com 3 dentes. 
Frutos de Anthemis cotula.
Foto de Bruce Ackley, The Ohio State University, Bugwood.org
Os frutos, do tipo aquénio ou cipsela, são pouco comprimidos, de forma cónico-cilíndrica, estriados e tuberculados, ou seja, cobertos de pequenas saliências espessas e arredondadas. Não têm papilho. Cada fruto contém uma única semente. 
Cada planta produz centenas de milhares de frutos numa única estação, os quais permanecem viáveis no solo durante 4 a 6 anos. 
Apesar do odor desagradável que lhe granjeou o epíteto de fétida (ex. em inglês “stinking chamomile”) esta planta apresenta propriedades terapêuticas apreciáveis. As flores contêm flavonoides, ou seja, metabólitos secundários da classe dos polifenóis os quais apresentam atividade antibiótica e óleos essenciais. Embora um pouco amarga de gosto a Anthemis cotula possui reconhecidas propriedades terapêuticas como antiespasmódica, adstringente, diaforética, diurética, sedativa e tónica, entre outras.

O sabor amargo deriva dos princípios amargos presentes na composição química desta e de muitas plantas medicinais. São eles os responsáveis pelas propriedades terapêuticas digestivas dessas espécies, pois excitam as células gustativas e aumentam os sucos gástricos.

Há que ter cuidado com o manuseamento desta planta pois o seu suco pode causar alergia em algumas pessoas (eritema bolhoso). Curiosamente, os extratos da planta têm utilização no tratamento de ulceras e feridas da pele.

Perfil farmacológico de Anthemis cotula 
(Fonte: Universidade de Tras-os-Montes e Alto Douro UTAD)
- Antiespasmódico e Indutor da menstruação
- Adstringente, Sudorífero, Diurético, Emético, Emenagogo e Tónica.
- Tratamento de sintomas do reumatismo, epilepsia, asma, rinites e febres (infusão das flores);
- Picadas de insetos (uso externo: folhas).
- Antibacteriano contra bactérias Gram positivas e Gram negativas (flavonóides do extrato das flores).
- Pode causar dermatite alérgica (uso interno, soro ácido).
- Pode causar erupções cutâneas.
- Contraindicada a grávidas e lactantes.
- Pode interagir com medicamentos com ação similar.

Alguns sinónimos científicos de Anthemis cotula:
Anthemis foetida Lam.; 
Anthemis psorosperma Ten.; 
Anthemis ramosa Link ex Spreng.;   
Chamaemelum cotula (L.) All.
Maruta cotula (L.) DC.; 
Maruta foetida Cass.

Anthemis cotula
Anthemis cotula pertence ao género Anthemis, composto por cerca de uma centena e meia de espécies das quais 6 fazem parte da flora espontânea portuguesa, segundo o portal Flora-on 
Sob o ponto de vista taxonómico é um género difícil. As espécies apresentam mais semelhanças que diferenças entre si e estão muito próximas de outros géneros pelo que tem havido dificuldade por parte dos investigadores botânicos em chegarem a acordo quanto à sua classificação. Este género foi descrito por Lineu e publicado em Species Plantarum 2: 893–896. 1753, embora tenha sido o botânico italiano PierAntonio Micheli(1679-1737) quem originalmente propôs o nome Anthemis para este género, na sua publicação Nova plantarum genera: iuxtaTournefortii methodum disposita(1729).
O termo Anthemis deriva da palavra grega “ánthemon” (= floração abundante), depois transformado em “anthemis” (= flores pequenas), fazendo referencia às pequenas mas numerosas flores do capítulo.
O epiteto “cotula” que designa a espécie, deriva da palavra grega “kotule”. Este termo significa pequena taça e tanto se pode interpretar como fazendo referencia à cavidade que se forma na base das folhas amplexicaules como à forma da inflorescência.
Anthemis cotula. A seta indica a cavidade que se forma na base das folhas amplexicaules. 
Algumas espécies deste género geram consideráveis receitas não só na indústria farmacêutica mas também na áreas alimentar e de cosméticos. Há séculos que as propriedades curativas das suas espécies são apreciadas e reconhecidas, inclusive fazendo parte de algumas farmacopeias. Contudo, este género foi bastante negligenciado pelos bioquímicos, situação que se alterou significativamente nos últimos tempos, de tal forma que Anthemis é já um dos géneros mais estudados dentro da família Asteraceae. Estes estudos vieram comprovar a eficácia destas espécies como antisséticas e medicinais, sendo os seus principais componentes flavonoides naturais e óleos essenciais.
As espécies deste género distinguem-se pela morfologia dos frutos e das brácteas que envolvem as flores centrais do capítulo.

As camomilas:
Camomila é o termo popular que engloba, de forma algo confusa e indefinida, algumas espécies da família Asteraceae, cujas características morfológicas e terapêuticas são muito semelhantes. Trata-se de pequenos malmequeres cujas flores são utilizadas para fazer infusões que geralmente designamos por chás de camomila. A ideia de reunir tais plantas num mesmo grupo é muito antiga, pois remonta ao tempo dos gregos, conceito que foi adotado pelos romanos e civilizações que lhes sucederam. Já na Antiguidade Clássica eram atribuídas às camomilas vastas propriedades terapêuticas, nomeadamente adstringentes, antialérgicas, digestivas, fortificantes, laxantes, sedativas, sudoríficas, anti-inflamatórias, cicatrizantes e antibacterianas, apenas para mencionar algumas. A ideia geral é que estas plantas podiam tratar qualquer doença. Ainda hoje as camomilas gozam de excelente reputação e são uma das ervas medicinais mais consumidas.

O termo camomila vem do latim “chamamemelum” que por sua vez se inspirou no grego “chamaimélon”, contração de duas palavras “chamai”= no chão e “melon”=maçã (maçã da terra?). Dizem que o nome se refere ao hábito de baixo crescimento das plantas, assim como ao seu aroma distintivo a maçãs. Apesar de tanto o nome português macela, como o espanhol “manzanilla” (que significam pequena maçã e que correspondem ao termo camomila) parecerem comprovar esta tese, a verdade é que eu não consigo distinguir nenhum vestígio de cheiro a maçã em qualquer das chamadas camomilas. Ou o defeito é meu ou as maçãs já não são o que eram?!

As plantas medicinais em geral, e as camomilas em particular são um negócio que gera confusões e milhões. No caso das camomilas as confusões advêm do número indistinto e flutuante de espécies confundidas com camomilas e que apesar de serem medicinais podem ter apenas alguns pontos de convergência com este grupo. Também não ajuda nada o facto de quase todas espécies envolvidas terem uma longa lista de nomes científicos (sinónimos) devido a sucessivas reclassificações e algumas duplicações. Há ainda o caso dos nomes vulgares ou comuns de muitas espécies que pouco ou nada têm a ver com as camomilas mas dos quais consta o termo camomila, levando ao engano pela semelhança com um epíteto cientifico.

Chamaemelum nobile (nome comum: camomila romana) e Matricaria recutita (nome comum: camomila alemã) são as espécies mais reputadas e há séculos que disputam entre si o reconhecimento de camomila verdadeira. A diferença mais evidente entre elas reside no gosto, sendo que Chamaemelum nobile propicia um chá mais amargo que Matricaria recutita. Apesar disso, elas têm sido confundidas desde sempre e usadas indistintamente.
Apesar da popularidade de que, há séculos gozam estas espécies, existem poucos estudos sobre os seus usos terapêuticos. Finalmente, nas últimas décadas foram levadas a cabo pesquisas cientificas alargadas que confirmaram muitos dos seus usos tradicionais e estabeleceram os mecanismos de ação terapêutica destas plantas, incluindo atividade antiespasmódica, antipirética, antibacteriana, antifúngica e antialérgica. Além do uso medicinal as camomilas desfrutam de ampla utilização como bebida refrescante, não estimulante.
Tradicionalmente ambas as espécies são usadas para fins semelhantes pois partilham qualidades terapêuticas e cosméticas que se equivalem. Também são muito parecidas sob o ponto de vista morfológico, contudo os seus componentes químicos e óleos essenciais são bastante diferentes pelo que é importante frisar que Chamaemelum nobile e Matricaria recutita são plantas distintas. Para além das diferenças genéticas, há que considerar que a qualidade e quantidade de óleo essencial e de outros componentes da planta estão dependentes de uma ampla gama de variantes que têm a ver com os fatores ambientais, práticas de cultivo e colheita, entre outros.

Existem outras espécies de malmequeres que se incluem neste grupo das camomilas e que são tão semelhantes a C.nobile e M.recutita sob o ponto de vista morfológico que com elas facilmente são confundidas. Também elas possuem propriedades terapêuticas semelhantes, embora os compostos químicos possam ser distintos.

A partir de textos botânicos antigos ficamos a saber que em certos países europeus a fé nas propriedades curativas das camomilas chegou a tal ponto que, muitas espécies morfologicamente semelhantes mas funcionalmente duvidosas, foram largamente transacionadas, em regiões onde não existiam as originais, por recolectores e comerciantes pouco escrupulosos. 
Algumas plantas adquiriram fama mas outras não passaram de fraudes, como sempre é passível de acontecer quando a procura excede a oferta.

O número de espécies incluídas nas camomilas foi, entretanto, bastante reduzido, situação que, apesar de tudo, ainda não está bem definida. O que também não está claro é o que estamos a comprar quando vamos à loja e adquirimos o chá de camomila. As embalagens não especificam a espécie limitando-se a mencionar que o conteúdo é camomila, o que é muito vago. Qual é a espécie? Incluirá uma só espécie ou será uma mistura preparada de modo a satisfazer o gosto médio do consumidor? 
O aumento da procura de camomila levou ao seu cultivo há já muitas centenas de anos, atividade que agora está florescente no leste europeu. Porém, nos dias de hoje abrem-se novas perspetivas e possibilidades para o desenvolvimento de novos cultivares havendo a possibilidade de as plantas serem modificadas geneticamente para tornar os chás mais ao gosto da maioria dos consumidores, quiçá perdendo muitas das suas qualidades naturais pois o que é “preciso” é rentabilizar e vender mais.

Ainda há quem se desloque às regiões rurais e aí recolha as espécies para consumo próprio o que nem sempre é fácil tendo em conta diversas condicionantes, a começar por ter a certeza de que se está a colher a espécie certa.
As características morfológicas partilhadas pelas camomilas são os capítulos de “olho amarelo” e “pétalas” brancas, além das folhas finamente recortadas, pormenor este que é característico. À primeira vista, todas parecem iguais mas na realidade as semelhanças entre elas são apenas superficiais. Os detalhes que as identificam podem ser detetados com auxílio de uma lupa, uma vez que é necessário examinar os pormenores do interior das inflorescências, podendo ser preciso desmancha-las. O exame dos diminutos frutos também é muito importante.
De entre as várias espécies de camomilas que se distribuem por quase toda a Europa, África do norte e Ásia temperada, destaco 4 que crescem de forma espontânea em algumas regiões do território português:
Anthemis cotula (já acima descrita), Anthemis arvensis, Chamaemelum nobile e Matricaria recutita.

Anthemis arvensis L.
Alguns sinónimos:
Anthemis arvensis L.
Anthemis arvensis L. subsp. arvensis
Anthemis arvensis L. var. genuina Gren. et Godr.
Anthemis arvensis. Foto de U.Schmidt/Wikipedia
Anthemis arvensis. Fonte da foto.
Recetáculo parcialmente desfolhado de modo a mostrar as flores tubulosas e as brácteas interflorais que as envolvem
Esta espécie assemelha-se à sua congénere A.cotula, distinguindo-se dela pelo odor que não é tão forte nem é desagradável. Ao contrário de A.cotula, em que as flores periféricas liguladas são estéreis, em A.arvensis estas são femininas e férteis. Em A.cotula apenas as flores centrais do recetáculo têm brácteas interflorais as quais são lineares e do mesmo tamanho das flores, ao passo que todas as flores de A. arvensis as possuem, sendo mais pequenas que as flores e de forma lanceolada. Os frutos destas duas espécies também são diferentes, tuberculados na A.cotula e com estruturas longitudinais salientes e pronunciadas em A.arvensis.

Chamaemelum nobile (L.) All.
Alguns sinónimos:
Anthemis nobilis L.
Ormenis nobilis J.Gay.
Ormenis nobilis (L.) J.Gay.
Ormenis nobilis (L.) J.Gay. ex. Coss.et Germ.
Ormenis nobilis J.Gay. var. discodeia Boiss.in Willk.et Lange
Ormenis nobilis (L.) J.Gay. var.discodeia (Boiss.) Willk.
Chamaemelum nobile. Foto Wikipedia
Chamaemelum nobile, a chamada camomila romana, é uma espécie perene e com caules decumbentes que determinam o seu crescimento baixo e rastejante. É muitas vezes usada em jardins como substituto da relva, graças ao seu hábito de formar tapetes compactos e resistentes, alastrando através das raízes. Para tal, devem as plantas ser podadas drasticamente a uma altura de 5 cm após a floração, para manter o baixo crescimento. É apropriada para solos moderadamente ácidos, em climas secos e quentes. Adoram a exposição solar. Têm efeito benéfico sobre as plantas vizinhas, protegendo-as de pragas e doenças. A folhagem e as flores são agradavelmente fragrantes mas de gosto amargo. As folhas e as flores são idênticas às espécies já acima mencionadas. O recetáculo é hemisférico ou cónico, com interior sólido e com brácteas interflorais. As flores do disco são hermafroditas e as periféricas liguladas são femininas ou estéreis. Os frutos são levemente comprimidos e estriados na face interna.

Matricaria recutita L.

Alguns sinónimos:
Chamomilla recutita (L.) Rauschert;
Matricaria chamomilla L.;
Chamomilla recutita (L.) Rauschert;
Matricaria chamomilla L; 
Chamomilla vulgaris Gray;
Chrysanthemum chamomilla (L.) Bernh.;
Matricaria courrantiana DC.;
Matricaria kochiana Sch. Bip.;
Matricaria recutita L.;
Matricaria recutita var. kochiana (Sch. Bip.) Greuter
Matricaria recutita - Foto de Karelj Wikipedia
Matricaria recutita. Foto de Fornax Wikipedia
Aqui pode ver-se que o recetáculo é oco e que não existem brácteas interflorais.
Matricaria recutita, a popularmente chamada camomila alemã, pode chegar a atingir 1 m de altura. É mais ereta que a camomila romana. Os segmentos das folhas são menos achatados e espessos e as suas inflorescências não são solitárias e terminais, antes surgem em cachos (corimbos). 
De notar que, ao contrário das restantes espécies acima mencionadas, as flores de Matricaria recutita não têm brácteas interflorais e que o recetáculo das inflorescências é oco.

Notas: 
1) As camomilas podem ter algumas contraindicações. Por exemplo, podem ser problemáticas para quem apresente sintomas de alergias às AsteraceaeComo sempre, alertamos para o facto de que o uso intensivo de plantas medicinais, sob qualquer forma, deve ser acompanhado por especialistas na matéria.

2) Parece não ser aconselhável dar chá de camomila, assim como outros chás medicinais e mel, a crianças de idade inferior a 2 anos. Confira AQUI a noticia. 

Para terminar, veja AQUI algumas ideias sobre a utilização cosmética e alimentar das camomilas.

Fotos de Anthemis cotula: Serra do Calvo/Lourinhã



sábado, 27 de fevereiro de 2016

Anacyclus radiatus Loisel.

Nomes comuns:
Pão-posto; pão-bem-posto; pimposo; pimposto

Anacyclus radiatus
“Malmequer” é a designação genérica e popular pela qual são conhecidas múltiplas espécies muito semelhantes e por vezes, difíceis de distinguir. Pertencem à família Asteraceae ou Compositae, a maior família de plantas de flor e talvez a mais bem sucedida, pois estamos constantemente a cruzar-nos com exemplares que a ela pertencem, tanto nas cidades como nos campos, em praticamente todas as regiões do planeta (margaridas, crisântemos, cardos etc.). No seu todo, a família das Asteraceae/Compositae compreende cerca de 23000 espécies, as quais estão organizadas em cerca de 1500 géneros. Quase todas exibem uma certa exuberância que não as deixa passar despercebidas, desde as espécies ornamentais às silvestres, sejam elas grandes e vistosas ou tão pequenas que poderiam passar despercebidas. A sua rusticidade e a aparente simplicidade do seu esquema floral são muito cativantes, conseguindo transmitir-nos agradaveis sensações, em que se misturam a energia e o sentido do equilíbrio.
No nosso país, sucedem-se diferentes espécies de malmequeres silvestres, durante o ano inteiro. Por estes dias, estimuladas pelas copiosas chuvas de inverno, florescem diversas espécies, numa breve promessa de primavera:
Em cima: Chamaemelum fuscatum  e Bellis sylvestris
Em baixo: Chrysanthemum coronarium e Calendula arvensis 
Outras, mais friorentas, virão um pouco mais tarde, como é o caso de Anacyclus radiatus, espécie que se sente mais à vontade com o calorzinho do verão.
Anacyclus radiatus

Anacyclus radiatus é uma herbácea de índole mediterrânica e que se distribui pelo sul da Europa, norte de África e sudoeste asiático. É autóctone de Portugal continental, sendo frequente em quase o todo o territorio. Foi introduzida nos Açores onde se assilvestrou mas no arquipelago da Madeira a sua presença é recente e casual.

Mapa de distribuição de Anacyclus radiatus em Portugal continental
Fonte: Flora Digital de Portugal - Jardim Botânico da UTAD
É uma planta ruderal, associada a ambientes antropizados cujos solos apresentam concentrações elevadas de nitratos. Geralmente, é encontrada em campos cultivados ou incultos, berma dos caminhos, baldios, montes de entulho e até em locais degradados das grandes cidades.

A altura desta herbácea de ciclo de vida anual varia entre os 7 e os 50 cm, consoante as condições mais ou menos propicias ao seu desenvolvimento.

Anacyclus radiatus - caules e folhas

Os caules, densamente cobertos por um tomento constituído por pelos curtos e enrolados sobre si próprios, são eretos, simples ou ramificados desde a base e ainda com ramos laterais ascendentes.

As folhas, também tomentosas e de tom verde-azulado, dispõem-se nos caules de forma alternada; o limbo de cada folha é profundamente recortado, formando segmentos lineares.

Anacyclus radiatus - flores tubulosas e periféricas
As flores e a forma como se dispõem em inflorescências do tipo capítulo constituem a característica comum entre os malmequeres. Este tipo de inflorescência é formado por muitas flores de tamanho diminuto que se agrupam de forma compacta num só pedúnculo, aninhando-se diretamente sobre um recetáculo em forma de disco. As flores periféricas desse disco apresentam prolongamentos unilaterais chamados lígulas, os quais são semelhantes a pétalas (flores liguladas) ao passo que as flores do centro são simples, sem prolongamentos (flores tubulosas). O conjunto parece constituir uma única flor, sistema que resulta bastante atrativo para os insetos. Esta estratégia é um verdadeiro trabalho de equipa que se traduz numa significativa poupança de esforços e redução no dispêndio de energia para a planta. Enquanto apenas uma pequena porção das flores investe na produção de “pétalas”, a grande maioria concentra a sua energia na produção de sementes.
Anacyclus radiatus - pedúnculo aclavado e invólucro de bráteas
Em Anacyclus radiatus os capítulos surgem solitários sobre pedúnculos aclavados, ou seja, estreitos na base e alargando de forma arredondada em direção à base da inflorescência. Todas as flores são amarelas e o disco onde se inserem está protegido por um invólucro de brácteas dispostas em duas ou 3 filas. 
Anacyclus radiatus - invólucro de brácteas
As brácteas interiores do invólucro são triangulares com ápice em ângulo agudo; as brácteas externas são mais curtas que as interiores e tem forma lanceolada, sendo a sua margem membranácea, translucida e franjada de escuro. 
Anacyclus radiatus - capitulo
As flores centrais tubulosas estão agrupadas e inseridas num recetáculo em forma de disco, o qual pode ser plano ou ligeiramente cónico; as flores periféricas estão providas de lígulas dispostas em 1 ou 2 filas cujo ápice é dentado (especificamente, são hemiligulas, por terem menos de 5 dentes).
Anacyclus radiatus - pormenor das flores

Quanto à forma de reprodução, as flores centrais tubulosas são hermafroditas enquanto as periféricas hemiliguladas, são femininas.

Após a polinização, cada flor fertilizada dará origem a um fruto constituído por uma fina casca, envolvendo uma única semente. Tecnicamente designados por aquénios ou cipselas, estes frutos são muito comprimidos, com ambas as faces lisas e ladeadas por umas abas ou asas laterais que resultam de expansões membranosas do pericarpo e são muito finas e quase transparentes. Estas asas são órgãos essenciais na dispersão dos frutos de Anacyclus radiatus e podemos dizer que têm a mesma finalidade do tufo de pelos (papilho ou pappus) que vemos em tantas outras espécies da mesma família (nesta espécie está reduzido a um mero apêndice mais ou menos circular); o objectivo é o mesmo, havendo apenas uma maior adequação às necessidades da cada espécie. Aliás, é notável a variedade de formas de dispersão das sementes adotadas pelas Asteraceae.

Curiosamente, em Anacyclus radiatus as asas dos frutos originados pelas flores periféricas são maiores que as dos frutos das flores centrais, que são bastante mais estreitas. Este fenómeno, denominado heterocarpia, é bastante comum entre as Asteraceae e caracteriza-se pela produção de 2 ou mais tipos de frutos distintos (em morfologia e tamanho) numa mesma planta.

A heterocarpia é considerada uma estratégia de dispersão mista, na medida em que a diferente morfologia dos frutos pode determinar comportamentos diferentes no que diz respeito à dispersão, capacidade de germinação e sobrevivência das sementes. Frutos de diferentes tipos morfológicos têm maiores possibilidades de sucesso germinativo, em tempo e espaço. Enquanto o tipo morfológico de alguns frutos determina que caiam ao pé da planta-mãe e por ali fiquem, outros desenvolveram características que lhes permitem ser levados para outros locais onde, livres da concorrência das suas irmãs, podem formar novas colónias.

Por outro lado, o tipo morfológico dos frutos também é determinante na germinação. No caso de Anacyclus radiatus os frutos que germinam mais rapidamente são os periféricos por terem asas significantemente maiores, em comparação com os centrais. Uma das razões para que tal aconteça reside no facto de as asas aumentarem a superfície através da qual a água e o ar entram no embrião, condição essencial para que se inicie a germinação.

Anacyclus radiatus

Cada uma das pequenas flores de Anacyclus radiatus está rodeada por pequenas brácteas que são persistentes na maturação e que seguram os frutos durante longo tempo mesmo depois de a planta ter secado. Desta forma, os capitulos tornam-se estruturas resistentes que funcionam como bancos de sementes aéreos.

Os frutos são retidos nos capítulos até ao início das chuvas do fim do verão e vão sendo libertados sequencialmente durante diferentes períodos de chuva, começando pelos aquénios exteriores, que são mais pesados e só depois os do centro do disco, por vezes, meses mais tarde. Este sistema pode ser vantajoso nos ambientes de clima mediterrânico onde os invernos são chuvosos, aumentando as probabilidades de estabelecimento das plantas em zonas afastadas do seu local de origem ao serem arrastadas durante os períodos de chuva, tanto mais que estes aquénios demonstram grande capacidade para flutuar em correntes temporárias, ajudados pelas expansão das asas. Perante este cenário, podemos ser levados a pensar que são as chuvas o principal vetor de dispersão das sementes de Anacyclus radiatus. O vento poderá ser um factor secundário tendo em conta a baixa altura desta planta.

Anacyclus radiatus - hábito

Finalmente, no inicio do inverno ainda se podem observar alguns velhos capítulos em que persistem alguns aquénios, os quais podem atuar como unidades de dispersão, agarrando-se ao pelo de cabras e ovelhas ou através da atividade humana.

Anacyclus radiatus pertence ao género Anacyclus, um dos muitos géneros da família Asteraceae/Compositae e cujo nome deriva do termo grego “anakuklôsis” que faz alusão às asas que circundam os aquénios das suas espécies.

Regista-se mais uma espécie deste género em Portugal continental, Anacyclus clavatus, de lígulas brancas, embora menos frequente que A.radiatus.

 

Anacyclus clavatus Fonte Wikipedia . Foto de Pablo Alberto Salguero Quiles

Fotos de Anacyclus radiatus - Serra do Calvo/Lourinhã