"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





domingo, 1 de novembro de 2015

Em defesa da biodiversidade – Parte 2

Arribas de Paimogo - Lourinhã
No “post" anterior demos especial destaque às plantas autóctones (nativas) e realçámos a sua importância na preservação dos habitats, ecossistemas e da biodiversidade.
Nunca é de mais reforçar que, de modo geral, as espécies exóticas, ao competirem com as espécies nativas, causam impactos no equilíbrio dos habitats e ecossistemas, reduzindo a biodiversidade. É, sobretudo, quando se tornam invasoras que põem em causa o equilíbrio natural do ambiente, ao aumentarem as suas populações de forma descontrolada, competindo agressivamente com as espécies nativas, por espaço, água e nutrientes. Quando tal acontece elas representam uma das maiores ameaças à biodiversidade, causando danos que se refletem na economia e bem-estar de todos, uma vez que aproximadamente 40% da economia mundial e 80% das necessidades dos povos dependem dos recursos biológicos.

As alterações climáticas e ambientais que se registam na Terra estão relacionadas com a diminuição da biodiversidade. Se por um lado todos apreciamos a natureza e gostamos de ver plantas e animais no seu estado selvagem, também devemos ter em conta as consequências económicas. 
A exploração desenfreada de recursos naturais e a introdução de plantas exóticas levam à diminuição ou desaparecimento de espécies nativas prejudicando atividades comerciais como a pesca (todos temos presentes as recentes restrições à pesca da sardinha, já para não falar do bacalhau e de outras espécies) ou à produção de medicamentos. 
Se se mantiver o atual ritmo de extinção das espécies, a Humanidade perde um medicamento importante em cada dois anos… Só nos Estados Unidos, por exemplo, 56 por cento dos 150 mais importantes medicamentos, com um valor económico de cerca de 80 mil milhões de euros, são fruto de descobertas feitas na natureza e não no laboratório” . In Jornal Publico.
Graças aos produtos naturais, incluindo as toxinas extraídas de animais, de bactérias, de fungos ou de plantas, os cientistas puderam compreender fenómenos complexos relacionados à biologia celular e molecular e à eletrofisiologia, permitindo que enzimas, recetores, canais iónicos e outras estruturas biológicas fossem identificados, isolados e clonados. Isso possibilitou à indústria farmacêutica desenhar drogas dotadas de maior seletividade e também mais eficazes contra várias patologias de maior complexidade. Além disso, os produtos naturais são usados como matéria-prima na síntese de moléculas complexas de interesse farmacológico. Atualmente, as maiores indústrias farmacêuticas mundiais possuem programas de pesquisa na área de produtos naturais”(João B. Calixto).

As inevitáveis plantas exóticas:
A verdade é que nem todas as espécies exóticas se tornam invasoras, como atestam tantas espécies vegetais que foram sendo trazidas de terras distantes, ao longo de milhares de anos, e que fazem parte da nossa dieta alimentar. 
No seu ensaio sobre a história da alimentação “Viagem dos Sabores”, Rui Rocha comenta "Um certo purismo cultural europeu leva a criticar o hamburger e a cola, como sinais de uma (indesejada) invasão americana. Mas o português que come a sua sardinha em cima da broa, acompanhada das consabidas batatas cozidas e da salada de tomate e pimentos, enquanto verbera as novas modas alimentares, testemunha, distraído, uma outra invasão americana, que nem quinhentos anos tem: aquela que lhe trouxe o milho para a broa, a batata, o tomate e o pimento. De autóctone, afinal, só a sardinha, o azeite e o vinho."
Na realidade, o intercâmbio de plantas entre as várias partes do globo faz parte da história da humanidade e realiza-se desde os tempos da pré-história, tendo tido o seu ponto alto com os descobrimentos, altura em que se trocaram inúmeras espécies de plantas.

Um facto indiscutível é que todas as plantas são autóctones de algum habitat específico na Terra ou seja, o lugar onde ocorrem espontaneamente e fizeram a sua evolução de forma natural durante milhares de anos. Porém, as que são transportadas para fora da sua área natural, por ação do homem - de forma intencional ou acidental - são denominadas alóctones, introduzidas, exóticas, não-nativas, não-indígenas ou alienígenas (do inglês “alien”). 
A introdução de plantas exóticas ocorre de forma consciente ou acidental. De forma geral são introduzidas propositadamente com fins agrícolas, industriais ou ornamentais, mas as sementes também podem viajar acidentalmente misturadas com mercadorias ou outras sementes.
As plantas exóticas dividem-se em várias categorias. De forma muito simplificada, temos:
a)       Plantas não-naturalizadas:
Muitas das espécies exóticas não chegam a naturalizar-se. Isto é, muitas das plantas que são levadas do seu habitat natural e são introduzidas num ecossistema diferente não se adaptam às condições existentes e como tal, não se reproduzem sem ajuda humana e têm de ser substituídas ou acabam por desaparecer.
b)       Plantas naturalizadas ou estabelecidas:
São as plantas que, quando introduzidas em habitats diferentes encontram as condições adequadas à sua sobrevivência. Neste caso, após um espaço de tempo mais ou menos longo de aclimatação, as plantas adaptam-se; não só sobrevivem, como dão flor e fruto, conseguindo reproduzir-se sem ajuda do Homem e comportando-se como nativas, em suma, naturalizando-se. Podem ser espécies restringidas ao cultivo ou, se “escapadas” e vivendo em estado selvagem (assilvestradas), são denominadas subespontâneas (para as distinguir das nativas, as quais são designadas por espontâneas). Espécies “escapadas” são aquelas que, tendo sido introduzidas com fins agrícolas ou ornamentais conseguem “escapar” dos campos de cultivo ou dos jardins; as suas sementes são levadas pelo vento, pelas aves ou agarram-se aos nossos sapatos e acabam por se expandir para fora do espaço em que estavam restringidas).
As subespontâneas formam populações consistentes, de forma autossuficiente, reproduzindo-se e difundindo-se, de forma equilibrada e em harmonia com a comunidade nativa. Mas, quando este equilíbrio se perde, é geralmente a planta exótica naturalizada que tem a ganhar, tornando agressivamente dominante ou seja, invasora.
As espécies naturalizadas distinguem-se entre arqueótipos e neófitos:
- Os arqueófitos são as espécies que foram introduzidas em tempos muito recuados, desde a pré-história até à época dos descobrimentos, tendo-se convencionado como limite o ano de 1500. Muitas delas foram introduzidas em tempos tão recuados que são consideradas autóctones.
- Os neófitos são as espécies introduzidas a partir do ano 1500.
c)       Plantas invasoras:
São plantas introduzidas e naturalizadas que, devido a certos fatores de desequilíbrio ecológico, se reproduzem em grandes quantidades, vindo a ocupar vastas áreas e ameaçando a sobrevivência das espécies nativas que nelas habitam.


O impacto das plantas exóticas na dieta alimentar:
A agricultura teve o seu início há cerca de 10 ou 12 mil anos na região denominada Crescente Fértil, que se situa entre os rios Tigre, Eufrates e Nilo, mas só chegou à Península Ibérica há cerca de 4 mil anos. Era uma agricultura ainda pouco desenvolvida e baseada principalmente no cultivo dos cereais.
Antes das migrações que trouxeram os primeiros povos à Península Ibérica os recursos da região eram pouco diversificados e pobres, sendo a dieta alimentar das comunidades primitivas à base de farinha de bolota e de algumas gramíneas de grãos pequenos, complementada com frutos silvestres, raízes, cogumelos, tubérculos e raízes.
Avena fatua (aveia-doida), gramínea de grãos pequenos usada na alimentação dos povos primitivos da Península Ibérica
Fonte Wikipedia / Foto de Eggmoon
Entretanto, muitas foram as espécies vegetais alimentares originárias do oriente (a maior parte das plantas alimentares cultivadas na Europa são de origem asiática) que foram trazidas pelos povos colonizadores que sucessivamente se estabeleceram na Península Ibérica desde a Antiguidade, mais propriamente a partir da Idade do Ferro (1100 a.C.). 
Os Iberos, vindos do norte África, foram os primeiros a chegar à Península Ibérica. De incursões anteriores ao Egito, trouxeram sementes de cereais e leguminosas resistentes aos verões quentes e secos, nomeadamente o milho-painço, milho-miúdo e o grão-de-bico.
Seguiram-se os Celtas, vindos do norte e leste europeu. Foram eles que introduziram na Península Ibérica as couves e outras crucíferas.
Os Fenícios vieram do Mediterrâneo e é-lhes atribuída a introdução de certas castas de videira diferentes das já aqui existentes, assim como a oliveira “melhorada” (já existia na Península a oliveira-brava, também popularmente designada por zambujeiro).
Também os gregos habitaram as regiões litorais da Península, tendo introduzido aqui muitas espécies vegetais mediterrânicas como a amendoeira, a figueira e o marmeleiro.
Os cartagineses contribuíram, introduzindo o alho, a cebola e o aipo.
Os romanos não só desenvolveram a agricultura de subsistência mas também o cultivo intensivo dos cereais em geral e do trigo em particular, com o objetivo de os exportar para Roma. Durante a sua ocupação também se registou um grande desenvolvimento da cultura da vinha e da elaboração do vinho, assim como do cultivo de árvores de fruto, macieiras, pereiras, cerejeiras, ginjeiras, pessegueiros, citrinos e ameixieiras. Foram introduzidas espécies alimentares tais como o feijão-frade, diversos tipos de cucurbitáceas (abóbora-menina, abóbora-porqueira), o melão, o pepino, a cenoura, o rabanete, a salsa, o coentro, a segurelha, a manjerona, os cominhos, o açafrão, o espargo, o alho-francês, as alfaces, a acelga e a alcachofra.
Deve-se igualmente aos Romanos a expansão do cultivo de árvores como o plátano, o castanheiro e a nogueira e assim como de espécies arbustivas decorativas como a murta, o buxo, o teixo e o loureiro (espécies autóctones mas pouco valorizadas pelas populações da época).
Os Árabes chegaram mais tarde e a eles devemos, para além de novas técnicas de rega, a introdução do trigo-rijo que ainda hoje é cultivado e é a base de muitas massas alimentícias disponíveis no mercado, do arroz, da beringela, a abóbora-chila e a melancia. Também desenvolveram a fruticultura e introduziram o salgueiro-chorão e a olaia.
Não se sabe exatamente quando chegaram os citrinos ao continente europeu, mas é quase certo que são originários da China. Pensa-se que romanos e árabes já os conheciam mas parece que não eram muito populares, até que no século XV ficaram conhecidas as qualidades antiescorbúticas do limão. 
Foram os portugueses que trouxeram da China variedades melhoradas de laranjas mais doces e que difundiram o seu cultivo. Parece ser essa a razão pela qual o nome Portugal é sinónimo de laranja em vários países e idiomas (Pourtegalié em Nice, Portugaletto no Piemonte, Portukale na Albânia, Portogales na Grécia, Portoghal no Kurdistão) (Amaral, 1977).

Chegada a Idade Média, as diversas plantas alimentares introduzidas que tinham logrado adaptar-se às diferentes regiões e climas do nosso país, estavam confortavelmente naturalizadas e em equilíbrio ecológico. Contudo, a base da alimentação dos povos continuavam a ser as farinhas obtidas a partir dos cereais (cevada, centeio, aveia, milho e trigo) os quais ocupavam a maior parte das áreas cultivadas. Apesar disso o reino não conseguia produzir cereais suficientes pelo que havia grande descontentamento e protestos das populações. A procura de novos territórios que suprissem as necessidades de cereais foi um dos fatores que conduziram às campanhas do norte de África e posteriormente aos descobrimentos. 
Canas-do-açúcar (Saccharum  officinarum) prontas para a safra.
Fonte Wikiedia. Foto de Mariordo  
Encontrar novos territórios onde cultivar a cana-de-açúcar foi também um objetivo importante pois naquela época o açúcar era um produto muitíssimo raro e valioso na Europa e que poderia ajudar a financiar as viagens marítimas para chegar às rotas da seda e das especiarias.
Durante as viagens exploratórias que levariam à descoberta do caminho marítimo para a Índia os portugueses, que tinham levado sementes e propágulos, foram deixando plantações de trigo e outras espécies alimentares existentes no reino (vinha, frutas e legumes) nos territórios que iam conquistando ao longo da costa de África e também na Madeira e Açores. Esta era não só uma forma de tentar incrementar a produção de alimentos mas também de criar pontos que servissem de apoio em viagens futuras. Foi assim que muitas espécies originárias da Ásia foram introduzidas em África, vindas da Europa. Contudo, nem todas as espécies sujeitas a este intercâmbio tiveram o sucesso esperado, devido, sobretudo, às diferenças climáticas.
A descoberta da via marítima para a índia era o grande objetivo, na tentativa de monopolizar o comércio das especiarias através da redução dos custos nas trocas comerciais. Mas foi a chegada à América central e ao Brasil que revolucionou a Europa. As espécies do oriente já não eram novidade para as gentes da Europa mas as espécies do Novo Mundo eram raridades que aparentavam grande plasticidade ecológica e prometiam grandes proventos. Muitas sementes e propágulos foram trazidos para a Europa, para experimentar aqui o seu cultivo ou simplesmente para testemunhar a descoberta das novas terras. Entre a Europa e o Novo Mundo estabeleceram-se muitos contactos durante os quais se trocaram múltiplas espécies: espécies americanas foram introduzidas na Europa, na África e na Ásia e espécies de origem africana foram levadas para a América, já para não falar das plantas que inicialmente foram levadas da Europa para a América. Contudo, no âmbito deste intercâmbio, é de notar que a contribuição africana foi muito pobre em comparação com a riqueza oferecida pelo continente americano.
Foi enorme o número de plantas americanas que foram introduzidas não só em Portugal e restante Europa mas que também foram levadas para a Ásia e África, nomeadamente tomate, batata, batata-doce, amendoim, maracujá, anona, caju, papaia, ananás, milho-americano (de grão mais grosso do que o europeu e em consequência mais produtivo), tabaco, baunilha, girassol, malaguetas e pimentos doces, entre outras.
A mandioca, também de origem americana, adaptou-se e foi muitíssimo bem aceite pelas populações africanas, ao contrário do que aconteceu na Ásia.
O cacau, a partir do qual se confeciona o tão apreciado chocolate é também originário do continente americano (vales dos rios Orinoco e Amazonas). Era uma das plantas americanas mais valiosas e até servia de moeda de troca.
Da Índia vieram as afamadas especiarias orientais as quais, não só foram introduzidas nos territórios europeus do reino, mas também no Brasil e em África: gengibre, canela, pimentas, cardamomo, noz-moscada, cravinho, mostarda, entre outras
Do oriente veio também o chá que se tornou muito apreciado em todo o mundo. Para tal muito contribuiu D. Catarina de Bragança, filha do nosso D. João IV, que casou com Carlos II de Inglaterra, onde institui o ritual do chá das 5.
O café, cuja planta é originária da Península Arábica, foi durante muitos anos exclusivo dos árabes e segredo bem guardado, tendo-se generalizado o seu cultivo apenas no século XVIII, apesar dos esforços dos europeus para conseguir as plantinhas.

Para o Brasil os portugueses levaram praticamente todas as espécies hortícolas ou frutícolas cultivadas em Portugal incluindo o arroz, as bananas, a cana-de-açúcar e os citrinos.
Todos estes intercâmbios provocaram profundos impactos na economia, nos hábitos alimentares e nas técnicas agrícolas a nível global, já para não falar do equilíbrio dos ecossistemas.

Os jardins botânicos de espécies exóticas:
Depois da época dos descobrimentos surgiu na Europa um forte e renovado interesse sobre o mundo da botânica. Foi grande a euforia e o fascínio perante a exuberância das florestas tropicais e a beleza e raridade das espécies encontradas, não só no continente americano mas também na África do sul, China, Japão e Austrália. Nos séculos XVIII e XIX as potências coloniais europeias impulsionaram enormemente as suas viagens de exploração em que uma multidão de naturalistas e biólogos procuraram espécies exóticas e as trouxeram para a Europa. Elaboraram-se coleções de plantas exóticas reunidas em herbários e as classes mais privilegiadas colecionavam plantas vivas nos seus jardins privados. O próprio Lineu dedicou grandes esforços a promover expedições que tiveram como objetivo a recolha de plantas exóticas e o desenvolvimento de técnicas de aclimatação.
Camellia japonica

Brincos-de-princesa (Fuchsia sp.)

Agapanthus africanus

Estrelícia (Strelizia reginae
Foi a partir dessa altura que numerosas espécies ornamentais foram introduzidas no nosso país, nomeadamente fetos arbóreos, cycas, araucárias, camélias, buganvílias, glicínias, begónias, hortênsias, antúrios, jarros, estrelícias, açucenas, sardinheiras, agaves e tantas outras. 
Jacaranda mimosifolia em flor
Fonte Wikipedia 
Algumas espécies arbóreas foram plantadas nas ruas de Lisboa sendo as mais conhecidas o Jacarandá - cuja floração é absolutamente espetacular e incontornável no mês de junho, no centro da cidade – a tipuana, a paineira, a grevilea e a palmeira-das-Canárias (hoje em dia dizimadas às centenas por um escravelho que veio do norte de África).
Palmeira-das-Canárias (Phoenix canariensis)
Fonte: Jardim Botânico Tropical de Belém
Da necessidade de recolher e aclimatar as espécies ornamentais exóticas vivas para conhecimento científico, foram criados jardins botânicos por toda a Europa. O Jardim Botânico da Ajuda foi o primeiro jardim botânico português, plantado durante o reinado de D. José. Seguiram-se outros, nomeadamente a Tapada das Necessidades, o Jardim Botânico de Lisboa, o Jardim da Estrela e o Jardim tropical de Belém, particularmente ricos em espécies tropicais. No mesmo âmbito foram criados o Jardim Botânico da Universidade de Coimbra e o Jardim Botânico do Porto.
Magnolia grandiflora
Fonte Wikipedia - Foto de Davethemage

Atestando a suavidade do clima do litoral português muitas são as espécies arbóreas que tendo sido adquiridas para os jardins botânicos foram também plantadas nas nossas cidades. De algumas espécies só restam uns quantos exemplares que se podem ver aqui e ali; outras são mais comuns e quase nos passam despercebidas na lufa-lufa do quotidiano, mas ainda assim, fazendo parte integrante da nossa vida. Alguns exemplos: acácia-do-japão (Styphnolobium japonicum), Magnolia grandiflora, cipreste-comum (Cupressus sempervirens), Tipuana tipu, bôrdo (Acer negundo), castanheiro-da-Índia (Aesculus hippocastanum), tília-argentea (Tilia tomentosa), espinheiro-da-virgínia (Gleditsia triacanthus), Jacarandá (Jacaranda mimosifolia), palmeira-das-canárias (Phoenix canariensis) e outras mais.

Infelizmente, muitas espécies que foram introduzidas no pressuposto de que trariam vantagens (madeira, reflorestação, prevenção da erosão dos solos, ornamentais), demonstraram comportamentos invasores que estão a causar tremendos prejuízos. Embalados pela ingenuidade, cupidez ou falta de consciência, deixamo-nos enganar pela sua beleza e pretensa utilidade. Assim aconteceu no passado e assim continua no presente pois nem todos aprendem com os erros. Como corrigir os erros do passado e preveni-los no futuro? Aqui está o mote para o "post" que se segue, AS PLANTAS EXÓTICAS INVASORAS.



sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Em defesa da biodiversidade - Parte 1

Sobre a biodiversidade:

Habitat = conceito que define o espaço físico em que vive uma determinada espécie, onde encontra as condições determinantes para a sua sobrevivência.
Ecossistema = formado por comunidades de seres vivos (flora, fauna, micróbios e outros pequenos organismos) que interagem entre si e com os fatores do meio ambiente (luz solar, chuva, água, ar, solo).
Bioma = Conjunto de ecossistemas.
Relações bióticas = relações de cooperação ou competição que se estabelecem entre os seres vivos de uma comunidade.

“A biodiversidade assume um papel crucial para a espécie humana, uma vez que aproximadamente 40% da economia mundial e 80% das necessidades dos povos dependem dos recursos biológicos” (MAOT, 2000, 2001).
“O desaparecimento ou empobrecimento de ecossistemas acarreta a extinção de outras espécies que deles dependem, originando um ciclo de destruição” (Carapeto 1998).


O conceito de biodiversidade tem a ver com a variedade de organismos e seres vivos que habitam o globo terrestre (como um todo ou numa região particular) e as relações que existem entre eles e o meio ambiente. Estas relações podem ser muito complexas. Encontrei AQUI uma definição que me parece suficientemente elucidativa e tomo a liberdade de a reproduzir “Os seres vivos agem indiretamente sobre os outros, atuando no ambiente físico-químico que os envolve. As relações bióticas desenvolvidas em equilíbrio natural, sem a intervenção humana, permitem que numa comunidade alguns seres de cada espécie sobrevivam, cresçam e se reproduzam, para assim garantirem a continuidade da sua espécie. Mesmo as relações desfavoráveis são essenciais, pois têm como objetivo manter ou restabelecer o equilíbrio das populações nos ecossistemas. É claro que o Homem constitui a exceção. Além de voluntariamente infringir as leis da natureza, pode alterá-las por diversos motivos, nomeadamente económicos”. Fonte
E também AQUI, “As populações da mesma espécie e de espécies diferentes interagem entre si formando comunidades; essas comunidades interagem com o ambiente formando ecossistemas, que interagem entre si formando paisagens, que formam os biomas. Desertos, florestas, oceanos, são tipos de biomas. Cada um deles possui vários tipos de ecossistemas, os quais possuem espécies únicas. Quando um ecossistema é ameaçado todas as suas espécies também são ameaçadas”. Fonte
Estrago nas dunas da Areia Branca provocado pela descarga de toneladas de terra barrenta provenientes de um desaterro destinado à construção de um condomínio nas proximidades. Antes, os trilhos que desciam a encosta eram todos de areia e absorviam bem as águas da chuva, mesmo em dias de tempestade. Agora, mal chove formam-se impetuosos rios de lama que arrastam toda a areia que podem, escalavrando a encosta barbaramente, levando a lama até à praia.
Calcula-se que uma duna pode demorar 50 anos a recuperar de uma só passagem de mota ou jipe. Imagine-se, pois, o tempo que demorará esta encosta a escoar a terra barrenta, a preencher os espaços com areia e finalmente a repor a vegetação que lhe pertence.
Infelizmente, fruto das mais variadas atividades humanas, tem-se registado, nas últimas décadas, uma rápida destruição dos ecossistemas, associada a uma crescente extinção de espécies. A principal causa desta galopante perda de biodiversidade, tem a ver com a destruição ou alteração dos habitats. Para tal, contribuem, entre outros fatores, a expansão urbana e de lazer, a extração desenfreada de recursos naturais - em que se inclui o abate de árvores indiscriminado - os fogos e a construção de barragens e parques eólicos. Outra das formas de degradação dos habitats naturais prende-se com a introdução de espécies exóticas muitas das quais se tornam invasoras. Conforme o nome indica, as espécies exóticas invasoras são levadas do seu ambiente natural e introduzidas noutros habitats onde, livres dos seus naturais inimigos, se reproduzem livremente em grandes quantidades, vindo a ocupar vastas áreas e ameaçando a sobrevivência das espécies nativas que nelas habitam.

As plantas autóctones:
Nem todas as espécies exóticas são invasoras. Na realidade, grande parte das plantas ornamentais cultivadas nos grandes centros europeus produtores de flores não é nativa dessas regiões, o que faz sentido apenas se considerarmos que o objetivo é o sucesso comercial com base na exportação. Estes grandes centros distribuidores escolhem as plantas pelo seu potencial valor comercial, independentemente da região de onde são oriundas. Estas plantas são multiplicadas e hibridizadas, acabando, ironicamente, por serem importadas pelo seu país de origem onde são incorporadas no comércio florístico e rapidamente aceites como novidades. É o que acontece com diversas espécies nativas do nosso país, tantas vezes por nós menosprezadas mas que são muito apreciadas em países com grande tradição na jardinagem, como é o caso do Reino Unido. O ser humano, tendo em conta a sua natureza, tende a ser atraído pelo que é diferente e a deixar-se fascinar pela aparente raridade do que lhe é desconhecido, esquecendo-se que o verdadeiro tesouro poderá estar em “casa”.
Rosmaninho (Lavandula stoechas) em maio
Felizmente, os amantes da jardinagem em Portugal começam a aperceber-se do grande potencial ornamental e económico das nossas espécies e estão cada vez mais a utilizá-las nos jardins privados. Aliás, a tendência do moderno paisagismo passa pela substituição das espécies exóticas por espécies autóctones também nos espaços verdes públicos. Neste caso, as boas ideias estão a surgir, assim as autarquias e outras entidades responsáveis as ponham em prática e corrijam o desleixo decorrente em tantos espaços de lazer.
As espécies autóctones são espécies nativas de determinada região, ou seja, ocorrem dentro da área que ocupam e onde evoluíram de forma natural, sem que tenha havido introdução artificial direta ou indireta. O uso de plantas autóctones, nomeadamente árvores, arbustos, herbáceas ou gramíneas tem muitas vantagens. Para além de fomentarem o equilíbrio ecológico, reforçam as identidades regionais, criando fatores característicos e uma identidade própria, em harmonia com a paisagem. São de fácil manutenção e como estão adaptadas ao clima e às condições do solo, são mais resistentes a pragas e doenças, além de requerem menos regas que as plantas exóticas, permitindo grande poupança em água, recurso cada vez mais escasso. Muitas delas são aromáticas ou medicinais e todas, em maior ou menor grau, atraem borboletas e outros insetos, os quais são indispensáveis para que as plantas gerem frutos e sementes.
Assim, aqui lhe deixamos a sugestão: abrilhante os vasos da sua varanda, o seu quintal, o seu jardim ou um cantinho na sua horta com plantas autóctones do nosso país. Ao mesmo tempo que contribui para a biodiversidade e o equilíbrio ecológico usufrua da harmonia e beleza que as flores transmitem, sem esquecer que muitas são aromáticas e/ou comestíveis.  
Cebolinho (Allium schoenoprasum) e alecrim (Rosmarinus officinalis)
Relembro que se inicia agora a época do ano ideal para fazer as sementeiras. E como conseguir as sementes? Para lhe dar uma ajuda na escolha das espécies do seu agrado, o projeto Sementes de Portugal - especializado em sementes de espécies autóctones - já divulgou o seu catálogo detalhado e atualizado, em que se disponibilizam sementes de 309 espécies entre árvores, arbustos, trepadeiras, herbáceas, gramíneas e bolbosas. Consulte o blog em http://sementesdeportugal.blogspot.pt/ e o catálogo em https://drive.google.com/file/d/0B9sKCKBDDsItOVZscEtTeXRmX1k/view?usp=sharing

“As espécies autóctones estão mais adaptadas às condições edafo-climáticas do território, sendo mais resistentes a pragas, doenças e a períodos longos de estio e chuvas intensas, em comparação com as espécies introduzidas”.
(Confragi, 2006)
“Esperamos que todos saibam reconhecer o valor das florestas naturais de Portugal para que as futuras gerações ainda as possam conhecer e usufruir delas” (Quercus, 2004).

No meio das urzes...
As espécies autóctones portuguesas destacam-se pela sua elevada riqueza florística. Graças às condições favoráveis do nosso clima há espécies de plantas silvestres autóctones em flor, praticamente o ano inteiro. Na orla das florestas enchem de cor a beira das estradas, alegrando as nossas viagens. Até nas grandes cidades nos ajudam a acalmar o stress dos engarrafamentos, ocupando espaços esquecidos pelos jardineiros camarários. Assim, muitas são as plantas autóctones que nos ajudam a enriquecer certos momentos de tédio, se os soubermos aproveitar. E, de tal maneira são uma constante que as damos por garantidas ou, preocupados com a labuta diária, nem lhes damos apreço. Mas estão lá e no momento em que desaparecerem, certo é, que daremos pela diferença.
Murta (Myrtus communis)
Mas é nas florestas que as espécies autóctones, árvores, coberto de arbustos e subarbustos e herbáceas, assumem a sua maior densidade e enorme importância, contribuindo com matéria orgânica para a fertilidade dos solos, regulando o clima através da humidade ambiente e proporcionando abrigo e alimento à fauna (animais, insetos e micro-organismos). 
Em março florescem os tojos 
A relação que se estabelece entre fauna e flora – uns providenciando alimento, outros ajudando na dispersão de sementes e polinização - assegura a sobrevivência de ambos e contribui para manter a biodiversidade.
Ao longo da história da Terra, as sucessivas alterações climáticas foram determinantes na evolução dos ecossistemas e responsáveis pelas mudanças provocadas nas florestas portuguesas. Há 20 milhões de anos Portugal, toda a área hoje ocupada pelo Mediterrâneo e o norte de África tinham um clima subtropical húmido e apresentavam-se cobertos de florestas de lenhosas sempre-verdes, maioritariamente constituídas por espécies da família do loureiro (florestas Laurissilva). Com a chegada das glaciações e o consequente arrefecimento do clima, despoletados pela formação do Mediterrâneo, este tipo de floresta foi praticamente extinto, tendo, contudo, conseguido sobreviver em alguns locais da Macaronésia. O que resta das florestas Laurissilva assume a sua maior expressão nas terras altas da ilha da Madeira, ocupando aí uma área de cerca de 15.000 hectares e classificado pela UNESCO como Património da Humanidade.
Após as glaciações o clima voltou a aquecer e Portugal foi colonizado por espécies da família Fagaceae, ou seja carvalhos, castanheiros e outras lenhosas de folha caduca.
Tamarix africana
Infelizmente ao longo dos últimos 500 anos a maior parte das florestas de carvalhais portugueses foi sendo destruída sobretudo devido à desflorestação desenfreada na ânsia de obter mais terrenos de cultivo e também para aproveitar a madeira para a construção das naus dos descobrimentos. Muitos carvalhais foram também destruídos por incêndios e outras atividades humanas, nomeadamente pela expansão das cidades. Aos poucos e em muitos locais, os carvalhos foram sendo substituídos por pinheiros (pinus pinaster) - espécie autóctone típica do litoral - e também pela introdução de espécies exóticas.
Atualmente no território continental de Portugal predominam dois tipos de influências climáticas: atlântica e mediterrânica. De forma geral o litoral norte apresenta um tipo de “Floresta temperada caducifólia” constituída por bosques de folha caduca dominados pelo Quercus robur (carvalho-roble) e o resto do país pela “Floresta e matagal de esclerófilas mediterrânicas” formada por espécies de folha persistente como o Quercus suber (sobreiro) e Quercus rotundifolia (azinheira) e outras espécies tolerantes ao stress (nomeadamente a seca) como Arbutus unedo (medronheiro), Myrtus communis (murta), Phillyrea latifolia (aderno), Pistacia lentiscus (aroeira), Cistus  ladanifer (esteva), Cistus crispus (roselha), Cistus albidus (roselha-grande), Cistus salvifolius (sargaço), Rosmarinus officinalis (alecrim), entre muitas outras. Em climas mais rigorosos e de maior altitude aparece Prunus avium (cerejeira-brava), Taxus baccata (teixo) e Betula celtiberica (bétula).
Cistus crispus (Roselha)

Neste ponto, caro leitor, já se perguntou quantas espécies de plantas autóctones há em Portugal?
Tenho a resposta para si. Em 2010, num artigo do Jornal Público surgiu a seguinte noticia:
Botânicos apresentam lista com as 4000 espécies de plantas de Portugal:
Uma equipa de 18 botânicos trabalhou três anos para criar a primeira lista de referência das plantas de Portugal. O inventário “limpou” repetições e nomes que vão mudando com o tempo e chegou ao número total de 3995 espécies…
… A equipa, de várias universidades, definiu um conjunto de critérios e deitou mãos à obra, criando a primeira lista que tem todas as plantas vasculares - autóctones, endémicas e introduzidas - e que inclui todo o território nacional. Agora, pode dizer-se com segurança que estão listadas no Continente 3314 espécies, 1006 no Arquipélago dos Açores e 1233 na Madeira. É esta região que alberga o maior número de endemismos (espécie que não existe em mais nenhum lugar), com 157. Nos Açores esse número chega aos 78 e no Continente aos 150.
E se existem espécies “comprovadamente extintas por território” – nomeadamente três endemismos na Madeira e um nos Açores - e outras de que não se conhece o paradeiro há cem anos, também é verdade que nas últimas décadas a galeria de plantas de Portugal tem sido aumentada por espécies exóticas. De acordo com esta lista, existem 412 espécies introduzidas no Continente, 710 nos Açores e 435 na Madeira.”… ler mais 
Agora, é só fazer as contas!



quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Scorpiurus L.

Scorpiurus muricatus L.
Nomes Comuns:
Cornilhão; cornilhão-fino; cornilhão-liso; cornilhão-pequeno; cabreira
Fruto imaturo de Scorpiurus muricatus
Scorpiurus muricatus é uma pequena leguminosa, nativa da região mediterrânica.
Encontra-se em matagais, pastagens e terras não cultivadas ou em pousio de cultivo de cereais, até 1200 mt acima do nível do mar. Também aparece na beira dos caminhos, dunas e arribas costeiras. Embora não seja esquisita com o tipo de substrato, nota-se uma preferência por solos com baixo teor de calcário e alta em teores de sódio e de magnésio. Pertence à família Fabaceae, tradicionalmente denominada Leguminosae.
O seu ciclo de vida é anual e o crescimento prostrado. Os múltiplos caules são herbáceos, sólidos, cilíndricos e ligeiramente pubescentes. Os caules principais, a partir dos quais se desenvolvem os secundários, despontam diretamente do entrenó situado entre os cotilédones (primeiras partes que se veem quando a semente germina, semelhantes a folhas e que contêm reservas nutritivas) dispondo-se de forma radial para formar uma moitinha baixa e arredondada.
Geralmente as folhas das leguminosas são compostas ou seja, o limbo está subdividido em vários folíolos. Contudo, a espécie Scorpiurus muricatus - assim como todas as espécies do mesmo género - têm folhas inteiras, o que pode ser também interpretado como sendo folhas unifoliadas ou seja, reduzidas a um único folíolo. Estas folhas apresentam forma muito variável, podendo ser elípticas, espatuladas ou oval-lanceoladas, ligeiramente pubescentes no limbo de ambas as páginas e também nas margens. As características estipulas, sempre presentes nas leguminosas, são longas, de forma triangular e membranáceas. Os pecíolos que ligam as folhas ao caule são bem desenvolvidos e assemelham-se a caules devido à sua forma alongada.
As flores, de 8 a 12 mm, podem ser solitárias mas geralmente dispõem-se em grupos de 2 a 5, sobre pedúnculos de seção quadrangular, duas vezes mais compridos que a folha axilante.
De forma característica, a corola é papilionácea, sendo constituída por 5 pétalas, uma maior e situada na parte superior (o estandarte), duas laterais (as asas) e duas situadas na parte inferior e que estão unidas (a quilha).  A base das pétalas das asas e da quilha estão envoltas entre si formando um tubo onde se encontram encerrados os órgãos reprodutores masculinos e femininos. Os estames são 10, 9 dos quais estão unidos pelos filetes e o restante é livre e mais comprido.
Na generalidade das leguminosas, a diferente morfologia das pétalas corresponde a funções diferenciadas e complementares que resultam numa estratégia altamente especializada no que diz respeito à polinização por insetos, facilitando a polinização cruzada. O estandarte, sendo maior, é o fator de atração visual para os insetos e as asas funcionam como plataforma de aterragem. Quando os polinizadores pousam nas asas, a quilha baixa e em consequência, os estames e estigma ficam expostos ao corpo do inseto, permitindo que se faça a troca de pólenes.
Contudo, no caso desta espécie e outras do mesmo género, estudos realizados por Dominguez & Galiano e publicados pelo Dept.Botânica da Faculdade de Ciências da  Universidade de Sevilha comprovaram que a fecundação se realiza por autogamia (a flor é fecundada pelo seu próprio pólen). Uma vez que a autofecundação é levada a cabo em fases muito precoces do desenvolvimento do botão, antes da abertura da flor, as possibilidades de haver polinização cruzada são muito reduzidas. Esta situação é comum a todas as espécies, subespécies e variedades incluídas no género Scorpiurus.
As peças que formam a corola nascem a partir da base do cálice e estão envolvidas pelas suas 5 sépalas cuja superfície apresenta alguns pelos esparsos. As sépalas estão unidas na parte inferior, formando uma estrutura acampanulada, encimada por 5 dentes desiguais.
Esta espécie floresce e frutifica de abril a junho.
O cálice permanece durante a transformação da flor em fruto
Os frutos característicos das leguminosas são, como sabemos, as vagens e assim acontece também com Scorpiurus muricatus. Contudo, as vagens desta espécie são bastante diferentes das que estamos habituados a ver noutras da mesma família. São longas e cilíndricas, apresentando-se enroladas em espirais irregulares mais ou menos concêntricas e em planos diferentes.

Os frutos são constituídos por segmentos cujas costas exteriores estão cobertas de excrescências geralmente espiniformes e os quais se separam na maturação, cada um deles correspondendo a uma semente em forma de meia-lua. Na maturação estas saliências endurecem,e ficam rijas e espinhosas, o que facilita a dispersão dos frutos pois os espinhos facilmente se agarram ao pelo dos animais, conseguindo ser transportadas para outros locais.
Contudo a morfologia destes frutos é muito variável, podendo ser encontradas variedades que apresentam excrescências arredondadas (veja AQUI) em vez de serem cónicas e delgadas como os espinhos. 
Scorpiurus muricatus pode ser usada como planta de jardim pois faz uma original e bela cobertura de solo, com bonitas flores amarelas e frutos engraçados, embora com o inconveniente de ser temporária, pois se trata de uma planta anual. Os frutos jovens são comestíveis, podendo ser adicionados a saladas. Há quem os frite e sirva como aperitivos em cocktails. Apenas os frutos muito jovens e tenros devem ser usados, caso contrário apenas servem de enfeite.
Scorpiurus muricatus é autóctone de Portugal Continental e arquipélago da Madeira. É inexistente nas ilhas dos Açores.
Distribuição de Scorpiurus muricatus em Portugal Continental
Fonte: Jardim Botânico da UTAD
Scorpiurus muricatus pertence ao género Scorpiurus, o qual é caracterizado pelos seus engraçados frutos enrolados que nem lagartas eriçadas de picos, alegremente ocupadas em exercícios de contorção.Todas elas são espécies mediterrânicas e estendem-se desde o sul da Europa até ao norte de África. As representantes deste pequeno género apresentam um grande polimorfismo, o que tem dado origem a grande controvérsia no que toca à separação e respetiva classificação em espécies, subespécies e variedades. Dependendo dos autores e das interpretações que fizeram dos estudos por eles efetuados, este género pode incluir 4 espécies* (S. vermiculatus, S. muricatus, S. subvillosus, S. sulcatus) ou apenas 2 (S. vermiculatus e S. muricatus), sendo as restantes subespécies ou variedades de S.muricatus.
Embora a classificação de S. vermiculatus não ofereça dúvidas pois está claramente definida e o seu fruto bem identificado, não tem sido possível delimitar, de forma satisfatória, as outras 3 espécies . De notar que estes 3 taxa (Scorpiurus muricatus, Scorpiurus sulcatus e Scorpiurus subvillosus) partilham o mesmo número de cromossomas (2n= 28) enquanto  Scorpiurus vermiculatus tem um número diferente de cromossomas, ou seja 2n =14.
Tournefort (1719) foi o primeiro a organizar este género no qual incluiu 6 espécies sob o nome Scorpioides devido à semelhança da vagem contorcida e segmentada com a cauda de um escorpião (e também porque se julgava que esta planta funcionava como antidoto para a mordedura do referido animal). 
Lineu (1753) ajustou o nome para Scorpiurus (do grego “Skorpios” = escorpiao e “ourá” = cauda) e reduziu o número de espécies para 4*. Contudo, Lineu não estava completamente satisfeito com esta classificação, vindo a demonstrar alguma indecisão numa nota apensa à descrição de Scorpiurus, em que declarou que as dificuldades em delimitar estas espécies tinham a ver com o fator evolutivo e que na sua opinião as espécies Scorpiurus tinham evoluído a partir de uma única e por conseguinte deveriam ser consideradas como uma única espécie.
No pós-Lineu originou-se uma grande confusão, com muitos autores a descreverem novas espécies sobretudo com base na diversa morfologia dos frutos. Posteriormente a situação estabilizou, com outros autores (Brotero, 1804; Fiori, 1900; Thellung, 1912) a considerarem apenas duas espécies Scorpiurus muricatus e Scorpiurus vermiculatus nas quais estariam incluídas as restantes taxa, em categorias infraespecificas, nomeadamente subespécies e variedades.
Desde então têm sido feitos diversos estudos na tentativa de acertar com a taxonomia deste género. Dominguez & Galiano (1974) e (Talavera & Dominguez, 2000) in Flora Iberica, reconhecem como válidas as 4 espécies estabelecidas por Lineu.
Contudo, estudos mais recentes (Mabberley 2008, Sell & Murrell 2009) apenas reconhecem duas espécies: S. muricatus e S. vermiculatus. Todos os outros taxa são agora incluidos por varias entidades, como é o caso da Flora Europaea (Tutin et al., 1968), numa categoria infraespecífica, a maior parte delas classificadas como subespécies ou variedades de S. muricatus

Com base no acima exposto parece que este assunto é quase como a “pescadinha de rabo na boca” ou mais apropriadamente dizendo, de cauda retorcidada de escorpião. É que, a questão levantada por Lineu em 1753 continua por resolver e por mais voltas que os autores lhe deem, não há forma de sair do mesmo sitio. Isto é, “no grupo muricatus existem diferenças que, dependendo do peso que lhes é atribuído, levam a que seja considerado um agrupamento de um tipo único ou uma diferenciação em vários tipos”.

Embora a distinção e diferenciação dos diversos taxa só possa ser realizado com algum sucesso a partir de chaves de identificação, deixo aqui algumas das caracteristicas mais óbvias das restantes 3 que estão na base desta controvérsia, em complemento da acima descrita Scorpiurus muricatus, .

Scorpiurus vermiculatus L.
Nomes comuns:
Cornilhão-esponjoso; cornilhão-grosso
Distribuição de Scorpiurus vermiculatus em Portugal Continental
Fonte: Jardim Botânico da UTAD


Scorpiurus vermiculatus é autóctone de Portugal Continental e Madeira mas não está presente no arquipélago dos Açores.
Comparada com as outras espécies do género Scorpiurus, S. vermiculatus é morfologicamente bastante uniforme. Pedúnculos e cálices são muito pubescentes e as flores são geralmente solitárias, de 11 a 14 mm. Os frutos, facilmente identificáveis, são grossos e enrolados em várias espirais concêntricas de forma muito apertada num só plano; estão densamente cobertos de excrescências tuberculadas que são estreitas na base e se dilatam bruscamente no topo, ficando semelhantes a pequenos cogumelos. Na maturação os frutos fragmentam-se em 5 a 8 sementes amareladas ou de forma retangular com arestas arredondadas. 

Veja mais fotos desta espécie  AQUI e fotos das sementes AQUI.

Scorpiurus sulcatus L.

Scorpiurus sulcatus é muito semelhante a S.muricatus, embora com folhas e flores mais pequenas (5 a 8,5 mm) e pedúnculos mais compridos. Os dentes do cálice são geralmente mais curtos que o tubo, ao contrário do que acontece com S. muricatus. A vagem tem enrolamento muito solto, num único plano ou em espiral com 2 voltas, com as costas exteriores sulcadas de espinhos no sentido longitudinal. Sementes são em forma de meia-lua.
Veja fotos desta espécie AQUI.

Scorpiurus subvillosus L.

Scorpiurus subvillosus distingue-se principalmente pelas vagens densamente cobertas de espinhos, enrolando-se de forma irregular formando bolas espinhosas e de aspeto caótico e tridimensional. as vagens fragmentam-se em sementes de cor escura, em forma de meia lua.
Veja fotos do fruto AQUI.

Das 4 espécies acima descritas apenas Scorpiurus subvillosus não se encontra presente no nosso território.

As espécies Scorpiurus são interessantes leguminosas forrageiras. São uma fonte de alimento de grande importância no crescimento e reprodução de animais ruminantes, nomeadamente gado bovino, ovino e caprino, devido à sua riqueza em hidratos de carbono e proteínas.
O alto teor de proteínas das leguminosas deriva da sua capacidade de fixação de nitrogénio da atmosfera, convertendo-o em moléculas proteicas as quais são aproveitadas pela própria planta para seu desenvolvimento e o das plantas em seu redor. Isto acontece devido a uma relação simbiótica com bactérias Rhizobium que se fixam nas raízes das leguminosas através de nodosidades, visíveis a olho nu. Em contrapartida, estas bactérias recebem das plantas os açúcares produzidos durante a fotossíntese. Esta simbiose permite não só a sobrevivência das referidas bactérias mas também que certas espécies possam desenvolver-se, sem problemas, em solos pobres em azoto e matéria orgânica.

Fotos: Caniçal e dunas do Areal Sul/Lourinhã