"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Scorpiurus L.

Scorpiurus muricatus L.
Nomes Comuns:
Cornilhão; cornilhão-fino; cornilhão-liso; cornilhão-pequeno; cabreira
Fruto imaturo de Scorpiurus muricatus
Scorpiurus muricatus é uma pequena leguminosa, nativa da região mediterrânica.
Encontra-se em matagais, pastagens e terras não cultivadas ou em pousio de cultivo de cereais, até 1200 mt acima do nível do mar. Também aparece na beira dos caminhos, dunas e arribas costeiras. Embora não seja esquisita com o tipo de substrato, nota-se uma preferência por solos com baixo teor de calcário e alta em teores de sódio e de magnésio. Pertence à família Fabaceae, tradicionalmente denominada Leguminosae.
O seu ciclo de vida é anual e o crescimento prostrado. Os múltiplos caules são herbáceos, sólidos, cilíndricos e ligeiramente pubescentes. Os caules principais, a partir dos quais se desenvolvem os secundários, despontam diretamente do entrenó situado entre os cotilédones (primeiras partes que se veem quando a semente germina, semelhantes a folhas e que contêm reservas nutritivas) dispondo-se de forma radial para formar uma moitinha baixa e arredondada.
Geralmente as folhas das leguminosas são compostas ou seja, o limbo está subdividido em vários folíolos. Contudo, a espécie Scorpiurus muricatus - assim como todas as espécies do mesmo género - têm folhas inteiras, o que pode ser também interpretado como sendo folhas unifoliadas ou seja, reduzidas a um único folíolo. Estas folhas apresentam forma muito variável, podendo ser elípticas, espatuladas ou oval-lanceoladas, ligeiramente pubescentes no limbo de ambas as páginas e também nas margens. As características estipulas, sempre presentes nas leguminosas, são longas, de forma triangular e membranáceas. Os pecíolos que ligam as folhas ao caule são bem desenvolvidos e assemelham-se a caules devido à sua forma alongada.
As flores, de 8 a 12 mm, podem ser solitárias mas geralmente dispõem-se em grupos de 2 a 5, sobre pedúnculos de seção quadrangular, duas vezes mais compridos que a folha axilante.
De forma característica, a corola é papilionácea, sendo constituída por 5 pétalas, uma maior e situada na parte superior (o estandarte), duas laterais (as asas) e duas situadas na parte inferior e que estão unidas (a quilha).  A base das pétalas das asas e da quilha estão envoltas entre si formando um tubo onde se encontram encerrados os órgãos reprodutores masculinos e femininos. Os estames são 10, 9 dos quais estão unidos pelos filetes e o restante é livre e mais comprido.
Na generalidade das leguminosas, a diferente morfologia das pétalas corresponde a funções diferenciadas e complementares que resultam numa estratégia altamente especializada no que diz respeito à polinização por insetos, facilitando a polinização cruzada. O estandarte, sendo maior, é o fator de atração visual para os insetos e as asas funcionam como plataforma de aterragem. Quando os polinizadores pousam nas asas, a quilha baixa e em consequência, os estames e estigma ficam expostos ao corpo do inseto, permitindo que se faça a troca de pólenes.
Contudo, no caso desta espécie e outras do mesmo género, estudos realizados por Dominguez & Galiano e publicados pelo Dept.Botânica da Faculdade de Ciências da  Universidade de Sevilha comprovaram que a fecundação se realiza por autogamia (a flor é fecundada pelo seu próprio pólen). Uma vez que a autofecundação é levada a cabo em fases muito precoces do desenvolvimento do botão, antes da abertura da flor, as possibilidades de haver polinização cruzada são muito reduzidas. Esta situação é comum a todas as espécies, subespécies e variedades incluídas no género Scorpiurus.
As peças que formam a corola nascem a partir da base do cálice e estão envolvidas pelas suas 5 sépalas cuja superfície apresenta alguns pelos esparsos. As sépalas estão unidas na parte inferior, formando uma estrutura acampanulada, encimada por 5 dentes desiguais.
Esta espécie floresce e frutifica de abril a junho.
O cálice permanece durante a transformação da flor em fruto
Os frutos característicos das leguminosas são, como sabemos, as vagens e assim acontece também com Scorpiurus muricatus. Contudo, as vagens desta espécie são bastante diferentes das que estamos habituados a ver noutras da mesma família. São longas e cilíndricas, apresentando-se enroladas em espirais irregulares mais ou menos concêntricas e em planos diferentes.

Os frutos são constituídos por segmentos cujas costas exteriores estão cobertas de excrescências geralmente espiniformes e os quais se separam na maturação, cada um deles correspondendo a uma semente em forma de meia-lua. Na maturação estas saliências endurecem,e ficam rijas e espinhosas, o que facilita a dispersão dos frutos pois os espinhos facilmente se agarram ao pelo dos animais, conseguindo ser transportadas para outros locais.
Contudo a morfologia destes frutos é muito variável, podendo ser encontradas variedades que apresentam excrescências arredondadas (veja AQUI) em vez de serem cónicas e delgadas como os espinhos. 
Scorpiurus muricatus pode ser usada como planta de jardim pois faz uma original e bela cobertura de solo, com bonitas flores amarelas e frutos engraçados, embora com o inconveniente de ser temporária, pois se trata de uma planta anual. Os frutos jovens são comestíveis, podendo ser adicionados a saladas. Há quem os frite e sirva como aperitivos em cocktails. Apenas os frutos muito jovens e tenros devem ser usados, caso contrário apenas servem de enfeite.
Scorpiurus muricatus é autóctone de Portugal Continental e arquipélago da Madeira. É inexistente nas ilhas dos Açores.
Distribuição de Scorpiurus muricatus em Portugal Continental
Fonte: Jardim Botânico da UTAD
Scorpiurus muricatus pertence ao género Scorpiurus, o qual é caracterizado pelos seus engraçados frutos enrolados que nem lagartas eriçadas de picos, alegremente ocupadas em exercícios de contorção.Todas elas são espécies mediterrânicas e estendem-se desde o sul da Europa até ao norte de África. As representantes deste pequeno género apresentam um grande polimorfismo, o que tem dado origem a grande controvérsia no que toca à separação e respetiva classificação em espécies, subespécies e variedades. Dependendo dos autores e das interpretações que fizeram dos estudos por eles efetuados, este género pode incluir 4 espécies* (S. vermiculatus, S. muricatus, S. subvillosus, S. sulcatus) ou apenas 2 (S. vermiculatus e S. muricatus), sendo as restantes subespécies ou variedades de S.muricatus.
Embora a classificação de S. vermiculatus não ofereça dúvidas pois está claramente definida e o seu fruto bem identificado, não tem sido possível delimitar, de forma satisfatória, as outras 3 espécies . De notar que estes 3 taxa (Scorpiurus muricatus, Scorpiurus sulcatus e Scorpiurus subvillosus) partilham o mesmo número de cromossomas (2n= 28) enquanto  Scorpiurus vermiculatus tem um número diferente de cromossomas, ou seja 2n =14.
Tournefort (1719) foi o primeiro a organizar este género no qual incluiu 6 espécies sob o nome Scorpioides devido à semelhança da vagem contorcida e segmentada com a cauda de um escorpião (e também porque se julgava que esta planta funcionava como antidoto para a mordedura do referido animal). 
Lineu (1753) ajustou o nome para Scorpiurus (do grego “Skorpios” = escorpiao e “ourá” = cauda) e reduziu o número de espécies para 4*. Contudo, Lineu não estava completamente satisfeito com esta classificação, vindo a demonstrar alguma indecisão numa nota apensa à descrição de Scorpiurus, em que declarou que as dificuldades em delimitar estas espécies tinham a ver com o fator evolutivo e que na sua opinião as espécies Scorpiurus tinham evoluído a partir de uma única e por conseguinte deveriam ser consideradas como uma única espécie.
No pós-Lineu originou-se uma grande confusão, com muitos autores a descreverem novas espécies sobretudo com base na diversa morfologia dos frutos. Posteriormente a situação estabilizou, com outros autores (Brotero, 1804; Fiori, 1900; Thellung, 1912) a considerarem apenas duas espécies Scorpiurus muricatus e Scorpiurus vermiculatus nas quais estariam incluídas as restantes taxa, em categorias infraespecificas, nomeadamente subespécies e variedades.
Desde então têm sido feitos diversos estudos na tentativa de acertar com a taxonomia deste género. Dominguez & Galiano (1974) e (Talavera & Dominguez, 2000) in Flora Iberica, reconhecem como válidas as 4 espécies estabelecidas por Lineu.
Contudo, estudos mais recentes (Mabberley 2008, Sell & Murrell 2009) apenas reconhecem duas espécies: S. muricatus e S. vermiculatus. Todos os outros taxa são agora incluidos por varias entidades, como é o caso da Flora Europaea (Tutin et al., 1968), numa categoria infraespecífica, a maior parte delas classificadas como subespécies ou variedades de S. muricatus

Com base no acima exposto parece que este assunto é quase como a “pescadinha de rabo na boca” ou mais apropriadamente dizendo, de cauda retorcidada de escorpião. É que, a questão levantada por Lineu em 1753 continua por resolver e por mais voltas que os autores lhe deem, não há forma de sair do mesmo sitio. Isto é, “no grupo muricatus existem diferenças que, dependendo do peso que lhes é atribuído, levam a que seja considerado um agrupamento de um tipo único ou uma diferenciação em vários tipos”.

Embora a distinção e diferenciação dos diversos taxa só possa ser realizado com algum sucesso a partir de chaves de identificação, deixo aqui algumas das caracteristicas mais óbvias das restantes 3 que estão na base desta controvérsia, em complemento da acima descrita Scorpiurus muricatus, .

Scorpiurus vermiculatus L.
Nomes comuns:
Cornilhão-esponjoso; cornilhão-grosso
Distribuição de Scorpiurus vermiculatus em Portugal Continental
Fonte: Jardim Botânico da UTAD


Scorpiurus vermiculatus é autóctone de Portugal Continental e Madeira mas não está presente no arquipélago dos Açores.
Comparada com as outras espécies do género Scorpiurus, S. vermiculatus é morfologicamente bastante uniforme. Pedúnculos e cálices são muito pubescentes e as flores são geralmente solitárias, de 11 a 14 mm. Os frutos, facilmente identificáveis, são grossos e enrolados em várias espirais concêntricas de forma muito apertada num só plano; estão densamente cobertos de excrescências tuberculadas que são estreitas na base e se dilatam bruscamente no topo, ficando semelhantes a pequenos cogumelos. Na maturação os frutos fragmentam-se em 5 a 8 sementes amareladas ou de forma retangular com arestas arredondadas. 

Veja mais fotos desta espécie  AQUI e fotos das sementes AQUI.

Scorpiurus sulcatus L.

Scorpiurus sulcatus é muito semelhante a S.muricatus, embora com folhas e flores mais pequenas (5 a 8,5 mm) e pedúnculos mais compridos. Os dentes do cálice são geralmente mais curtos que o tubo, ao contrário do que acontece com S. muricatus. A vagem tem enrolamento muito solto, num único plano ou em espiral com 2 voltas, com as costas exteriores sulcadas de espinhos no sentido longitudinal. Sementes são em forma de meia-lua.
Veja fotos desta espécie AQUI.

Scorpiurus subvillosus L.

Scorpiurus subvillosus distingue-se principalmente pelas vagens densamente cobertas de espinhos, enrolando-se de forma irregular formando bolas espinhosas e de aspeto caótico e tridimensional. as vagens fragmentam-se em sementes de cor escura, em forma de meia lua.
Veja fotos do fruto AQUI.

Das 4 espécies acima descritas apenas Scorpiurus subvillosus não se encontra presente no nosso território.

As espécies Scorpiurus são interessantes leguminosas forrageiras. São uma fonte de alimento de grande importância no crescimento e reprodução de animais ruminantes, nomeadamente gado bovino, ovino e caprino, devido à sua riqueza em hidratos de carbono e proteínas.
O alto teor de proteínas das leguminosas deriva da sua capacidade de fixação de nitrogénio da atmosfera, convertendo-o em moléculas proteicas as quais são aproveitadas pela própria planta para seu desenvolvimento e o das plantas em seu redor. Isto acontece devido a uma relação simbiótica com bactérias Rhizobium que se fixam nas raízes das leguminosas através de nodosidades, visíveis a olho nu. Em contrapartida, estas bactérias recebem das plantas os açúcares produzidos durante a fotossíntese. Esta simbiose permite não só a sobrevivência das referidas bactérias mas também que certas espécies possam desenvolver-se, sem problemas, em solos pobres em azoto e matéria orgânica.

Fotos: Caniçal e dunas do Areal Sul/Lourinhã



quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Portulaca oleracea L.

Nomes comuns:
Beldroega; baldroaga; baldroega


Dependendo do ponto de vista, as beldroegas - de nome científico Portulaca oleracea - podem ser apreciadas ou detestadas. É que, apesar de incomodas infestantes são também ervas absolutamente extraordinárias, possuidoras de propriedades medicinais e nutritivas relevantes e que prosperam praticamente em qualquer clima e tipo de solo.
Tal como acontece com muitas plantas silvestres que, em tempos de escassez, já foram alimento complementar das populações rurais - e hoje em dia, tantas vezes desprezadas - as beldroegas têm uma longa história na alimentação humana e no tratamento de diversas enfermidades. Têm sido usadas desde tempos remotos pelas suas propriedades antibacterianas, antiescorbúticas, depurativas, diuréticas e febrífugas, entre outras. Ressurgem na gastronomia contemporânea - ávida de novas texturas e sabores - com o merecido rótulo de alimento muito saudável e de sabor agradável. 

Caules, folhas e sementes são utilizados como ingrediente cru ou cozinhado, em saladas, sopas, pizzas e estufados ou conservadas sob a forma de picles. Têm a vantagem de não ter sabor amargo, ao contrário de muitas ervas silvestres tradicionalmente comestíveis e que vão sendo moda da “nouvelle cuisine” por esse mundo fora. 
As beldroegas caíram em desuso na nossa cozinha tradicional, com algumas exceções, como é o caso do Alentejo ou mais propriamente da região de Évora, onde as beldroegas são confecionadas em ensopado com batatas, pedaços de queijo e ovos, colocados no prato sobre uma bela fatia de pão caseiro. 
Quando cruas as beldroegas têm uma textura firme e o sabor é leve mas com um ligeiro travo a limão com sal e pimenta.

As folhas são mais ricas em ácidos gordos omega 3 do que qualquer outro vegetal verde. Em particular, refiram-se os altos níveis de ácido eicosapentaenóico, habitualmente apenas obtido através da ingestão de peixes como o salmão, a sardinha, ou o arenque, entre outros. Como sabemos, os omega 3 têm efeitos benéficos sobre o sistema imunitário, tensão arterial, níveis de colesterol e até sobre certos distúrbios psicológicos. Para além disso, folhas, caules e sementes contêm diversos minerais, nomeadamente magnésio, cálcio, potássio e ferro e são uma excelente fonte de vitaminas A e C e complexo B, para falar apenas das principais. Os pigmentos vermelhos dos caules e amarelos das flores são também potentes antioxidantes.
Convém, no entanto, saber que apesar de todas as qualidades não convém abusar desta planta na alimentação, na mesma medida em que não é saudável abusar de nenhuma outra. As beldroegas contêm ácido oxálico, uma substância natural que ocorre em variados vegetais, nomeadamente espinafres, morango, uvas, tomate, cacau, chá preto, etc. Quando ingerido em excesso, o ácido oxálico impede a absorção de alguns minerais, como é o caso do cálcio. Aliás, pelo que me é dado verificar, todos os vegetais têm algum elemento antinutricional, razão principal pela qual só temos a ganhar se a nossa dieta for diversificada.

As beldroegas são usadas em todos os continentes pois esta espantosa planta prospera em praticamente todos os tipos de clima e solo. A origem desta planta, hoje em dia presente a nível global, é, de facto, desconhecida. Porém, algumas fontes consideram-na natural do sul da Europa, Norte de África, Índia, Malásia e Australásia, tendo-se naturalizado, na era pré-colombiana, no continente americano. Existem evidências que colocam esta espécie em sedimentos datados de 1430-89, em Crawford Lake, Ontário/Canada, o que sugere a presença da planta no continente americano antes da chegada dos europeus.
Em Portugal está presente praticamente em todo o território, quer no continente, quer nos arquipélagos de Açores e Madeira.

No mercado de Évora as beldroegas são vendidas por bom preço mas atrevo-me a dizer que poucos serão aqueles que, possuindo um pedaço de terra e tendo hábitos regulares de jardinagem ou horticultura, não se tenha já deparado com a Portulaca oleracea. É uma planta rasteira e suculenta de caules avermelhados e pequenas folhas gordas e verdes. A partir de pequeníssimas flores amarelas cada planta produz milhares de sementes desde logo prontinhas a germinar e a produzir mais sementes. O ciclo desta plantinha completa-se em poucas semanas, por isso, se não estiver interessado em a usar na cozinha ou até como cobertura de solo, sugiro que comece a arrancar logo que surjam as pequenas plântulas! As sementes mantém-se viáveis durante cerca de 30 anos.

Portulaca oleracea é muitas vezes cultivada como legume e comercializada como tal. Embora resistente à seca, não se conseguem boas folhas e caules turgidos a não ser que se providencie um solo relativamente húmido e situação soalheira ou de meia sombra.
Na sua forma espontânea Portulaca oleracea cresce preferencialmente nos solos remexidos de hortas, jardins e viveiros; encontramo-la também em ambientes urbanos, medrando corajosamente entre as rachas dos pavimentos e na generalidade dos locais degradados por ação da natureza ou das atividades humanas. É, pois, uma planta essencialmente ruderal, indicadora de solos ricos ridos em nitrogénio. 

Portulaca oleracea é uma espécie anual, herbácea, suculenta e sem pelos. Os talos, com 5 a 30 cm de comprimento são prostrados e crescem, ramificando-se, em redor da raiz formando um tapete arredondado; são carnudos, cilíndricos e a sua coloração varia entre o verde e o vermelho acastanhado.

As folhas são simples, verdes e lustrosas e posicionam-se nos caules de forma alternada ou quase oposta; não tem pecíolo e tal como os caules são bastante carnudas e mostram tendência para se aglomerar em roseta no ápice dos caules.

As pequenas flores, com cerca de 6 mm de diâmetro, são amarelas, sésseis e geralmente solitárias. 

O perianto é constituído por 5 pétalas e 2 sépalas mais curtas e de cor verde. 

As flores estão providas de órgãos de reprodução masculinos e femininos. os numerosos estames amarelos assim como os pistilos, agrupam-se no centro da flor. As flores só abrem em pleno sol e ainda assim, apenas durante algumas horas. Algumas das flores nem sequer abrem pois não chegam a formar pétalas, limitando-se a gerar os órgãos reprodutores. Embora possam ser polinizadas por insetos elas geralmente apressam-se a proceder a autopolinização, a qual lhes permite maior rentabilidade e rapidez na formação das sementes, com um minimo de gasto de energia. Na realidade, as pétalas, cuja função é atrair os polinizadores, representam um grande investimento por parte da planta.
As flores de Portulaca oleracea atraem moscas-das-flores, pequenas abelhas e besouros. Alguns insetos herbívoros predadores usam as suas folhas para alimentar as suas larvas, umas minando o seu interior, outras preferindo a parte exterior (Schizocerella pilicornis e Schizocerella lineata).
Os frutos abrem transversalmente libertando numerosas sementes.
Depois de fecundadas, as flores transformam-se em pequenos frutos do tipo pixídio. São pequenas cápsulas que se abrem ao meio no sentido transversal, libertando as sementes. A parte superior do fruto, semelhante a uma tampa, desprende-se totalmente.

As numerosas sementes são minúsculas e arredondadas, de cor escura e brilhante. São tão leves que facilmente são arrastadas e disseminadas pelo vento. São uma fonte de comida para pardais e outras pequenas aves, as quais também ajudam na dispersão uma vez que as sementes passam pelo trato intestinal sem perderem a viabilidade.

Portulaca oleracea inclui numerosas subespécies distintas as quais se diferenciam pela morfologia das sementes (tamanho, ornamentação e textura). Varias destas subespécies coexistem sem que haja polinização cruzada entre elas, pois são cleistógamas ou seja, possuem um mecanismo de reprodução pelo qual as flores se autopolinizam e se autofecundam antes de abrir, por vezes nem chegando a abrir.
Nesta imagem pode comparar-se o tamanho das sementes de diversas subespécies e respetiva ornamentação da superficie:
1a - Portulaca subspécie oleracea - diâmetro superior a 0,85 mm
  1e - Portulaca subsp. nitida - diâmetro máximo inferior a 0,85 mm
                         1d - Portulaca subsp. granulatostellulata - diâmetro máximo inferior a 0,85 mm
       1b - Portulaca subsp. stellata - diâmetro máximo superior a 0,85 mm
          1c - Portulaca subsp. papillatostellulata - diâmetro superior a 0,85 mm
Fonte: Flora Iberica 
Portulaca oleracea pertence a Portulacaceae, família pequena mas algo complicada e a qual está em processo de reorganização ou mais propriamente “desintegração”, conforme designação de alguns autores. Tradicionalmente esta família inclui cerca de 500 espécies distribuídas por um número de géneros muito variável, consoante o sistema de classificação. Contudo, análises filogenéticas moleculares recentes levadas a cabo por diversos investigadores e as quais foram associadas à observação morfológica das sementes, parecem indicar que a reclassificação se impõe. O sistema de classificação APG (APG IIIdá já como certa uma nova classificação em que Portulaca se torna no único género desta família, com 116 espécies, ficando os outros géneros da classificação tradicional alocados noutras famílias, nomeadamente Montiaceae, Didiereaceae, Anacampserotaceae e Talinaceae.
O género Portulaca inclui plantas herbáceas, suculentas, anuais ou perenes. A maioria das espécies está concentrada em regiões semiáridas das regiões tropicais e subtropicais de África, Ásia e Américas, com alguns poucos representantes nas regiões temperadas da Europa e da Ásia.
Segundo algumas fontes o nome do género Portulaca deriva do latim “portula” que significa pequena porta e se refere ao fruto, o qual se abre através de uma espécie de tampa ou porta.
Portulaca umbraticola
Foto de Forest & Kim Starr - Fonte Wikimedia commons
Algumas espécies de Portulaca têm grande importância no mercado de flores ornamentais. Existem cultivares e híbridos para todos os gostos, preparados para exibirem flores maiores, com maior número de pétalas e floração mais prolongada. As espécies que geralmente vemos à venda em floristas e viveiros do nosso país são, na generalidade, híbridos ou cultivares de Portulaca umbraticola, cujas folhas são semelhantes as da P.oleracea e Portulaca grandiflora com folhas cilíndricas. 
Portulaca grandifloraFoto de Andrew Butko / Wikimedia commons
Tanto P. umbraticola como P.grandiflora são muito vistosas e apresentam flores de diferentes e brilhantes cores no mesmo pé. São plantas anuais, muito versáteis e com ampla aplicação paisagística. São especialmente adequadas para cobertura de solo em jardins de pedra e cestos suspensos, acrescentando cor aos jardins, embora as flores só abram quando o sol está descoberto.

Fotos de Portulaca oleracea: Serra do Calvo/Lourinhã




terça-feira, 11 de agosto de 2015

Tamarix L.

As tamargueiras

Tamarix africana
Tamaricaceae é uma pequena família botânica constituída por um reduzido número de géneros que podem ser 3, 4 ou 5, consoante o critério das diferentes bases de dados; do que não restam dúvidas, é que o maior género desta família, e único presente em Portugal, é o Tamarix.
Este género compreende um pouco mais de 50 espécies, autóctones da bacia do mediterrâneo, incluindo Portugal, Espanha, Itália, sul de França, norte de África (de Marrocos ao Mar Morto), nordeste da China e Índia. No nosso país estas espécies são, na generalidade, denominadas tamargueiras. 
Tamarix africana
São árvores ou arbustos de médio porte e muito ornamentais — alguns de folha perene, outros parcialmente de folha caduca — cujo principal atrativo reside nas longas inflorescências que agrupam centenas de pequenas flores brancas ou rosadas. São espécies de crescimento lento e vida relativamente longa, capazes de viver em habitats de condições ambientais muito diversas, resistindo a múltiplos fatores de stress, tais como altas temperaturas, sal e escassez de água. 
Tamarix africana
Ocorrem quer em climas temperados e subtropicais, quer em regiões áridas e semidesérticas, seja nas areias do litoral marítimo ou no interior. Encontramo-las em depressões húmidas, nas margens de lagos ou lagoas ou perto de cursos de água permanentes, sazonais ou intermitentes. No entanto, elas não vivem mergulhadas na água. Apesar de sujeitas a inundações ocasionais, elas procuram substratos bem drenados; em locais áridos é condição essencial que exista alguma humidade edáfica, quer superficial ou profunda.
Estas espécies estão ecologicamente adaptadas a ambientes áridos ou salinos. Para tal, dispõem de certo tipo de características, incluindo redução do tamanho das folhas para uma consequente diminuição da transpiração e um sistema radicular muito profundo e ramificado. As raízes podem descer aos 30 metros de profundidade na procura de água que pode ser doce, salobra ou mesmo salgada, dependendo das espécies. O excesso de sal é eliminado através das folhas por intermédio de glândulas secretoras de sal, mais ou menos desenvolvidas consoante as espécies (algumas espécies gostam mais do sal do que outras). 
Tamargal de Tamarix africana em Areia Branca/Lourinhã
Muitas vezes encontram-se exemplares isolados ou agrupados em pequenos núcleos, contudo, em certos locais tornam-se dominantes. Tal deve-se, sobretudo, ao sal que cai no chão através das folhas, criando condições para a proliferação das tamargueiras mas inviabilizando a proliferação de outras espécies. Nesta circunstância, formam galerias ao longo dos cursos de água ou na retaguarda das dunas do litoral, os chamados tamargais, os quais constituem um excelente refúgio para diversas espécies de fauna silvestre, vertebrados e invertebrados. Acresce ainda o facto de as flores das tamargueiras serem muito melíferas, atraindo muitos insetos, entre os quais as abelhas; certas borboletas procuram as tamargueiras para depositar os seus ovos e alimentar as suas larvas, por vezes delas dependendo como alimento exclusivo, como acontece com a Coleophora asthenella, uma pequena borboleta que se alimenta exclusivamente das folhas de Tamarix africana.
Tamarix africana
As tamargueiras são espécies muito resistentes ao vento graças ao seu sistema radicular muito ramificado, razão pela qual têm vindo a ser utilizadas na fixação das margens dos rios, prevenindo inundações de campos agrícolas. Também se têm utilizado para fixar os solos arenosos das dunas marítimas ou do deserto, embora possam não ser aconselháveis em climas demasiado secos. A falta de humidade edáfica de superfície poderá estimular o crescimento vertical das raízes, as quais podem chegar aos lençóis freáticos.
As tamargueiras são também resistentes ao fogo, conseguindo rebrotar a partir do sistema radicular, após a destruição das partes áreas.
Em regiões com poucos recursos florestais a sua madeira densa tem sido utilizada como combustível, nomeadamente no norte de África. Testemunhos arqueológicos da Antiguidade atestam a utilização da madeira de tamargueira na Síria e Palestina.
Tamarix parviflora - Fonte: Oregon State University
As tamargueiras são muito utilizadas em jardins não só pela sua beleza durante a floração mas também porque são resistentes a pragas e doenças, requerendo pouca manutenção para além de podas de formação que as tornem mais tufosas e densas, corrigindo a postura algo despenteada dos novos ramos. Devido à sua resistência ao vento são ideais para jardins do litoral.
Algumas espécies de tamargueiras possuem propriedades medicinais, nomeadamente diuréticas, sudoríferas e adstringentes. Em tempos remotos a casca e a raiz eram colocados em água fervente e utilizadas para tratar constipações, anginas e gengivites. Também as galhas, excrescências esponjosas que crescem nos ramos e que resultam da colonização de certos insetos ou fungos, eram utilizadas para tratar, tópicamente, problemas de pele.
Tamarix africana
Na generalidade, as tamargueiras são árvores de porte arbustivo. Os troncos são delgados, de cor acinzentada e tornam-se fissurados com a idade. Os ramos são longos e muito flexíveis podendo apresentar-se avermelhados. 
Tamarix africana
As folhas, muito pequenas e simples, têm forma triangular e estão dispostas de forma alternada e por vezes quase imbricada, abraçando o caule de forma parcial. A copa é bastante irregular e de aspeto plumoso.
Tamarix africana var. fluminensis
As flores dispõem-se em inflorescências compridas e cilíndricas e são brancas ou rosadas, cada uma acompanhada de uma bráctea solitária (espécie de pequena folha, na axila de cada flor). 
Tamarix africana var. fluminensis
As flores podem ter 4 ou 5 pétalas, dependendo da espécie e são completas, isto é, dispõem de órgãos reprodutores masculinos e femininos. Os estames inserem-se num disco nectarífero de consistência mais ou menos carnosa, o qual se localiza por baixo do ovário.
Os frutos são pequenas cápsulas triangulares cujas lados se abrem na maturação, soltando numerosas sementes, cada uma com um tufo de pelos na ponta.
Segundo o portal da Sociedade Portuguesa de Botanica Flora-onsão 4 as espécies do género Tamarix autóctones de Portugal continental: Tamarix canariensis, Tamarix gallica, Tamarix mascatensis e Tamarix africana, sendo esta ultima a espécie mais comum em Portugal.
Outras espécies, como por exemplo Tamarix parviflora, foram introduzidas com objetivos ornamentais, podendo ser observadas essencialmente em jardins, públicos ou privados. As espécies Tamarix conseguem naturalizar-se com facilidade.
Pelo que me foi dado constatar as espécies ibéricas do género Tamarix têm sido algo negligenciadas pelos botânicos, havendo muito poucos estudos sobre o assunto (com exceção da Flora Iberica). A situação é quase dramática no caso particular das espécies portuguesas, não havendo informações ou registos para além de Tamarix africana, a espécie mais comum. 
Este género é muito complexo devido à proximidade entre as espécies e a características morfologicamente muito semelhantes entre elas, o que torna complicada a sua identificação de forma rápida e segura. Acresce ainda o facto de haver várias espécies introduzidas com fins ornamentais do que resultam posteriores hibridações, o que complica ainda mais a situação. 
A diferenciação entre as espécies está, de uma forma ou de outra, relacionada com as inflorescências e certas características específicas das peças florais. A largura das inflorescências, o tamanho e o número de pétalas, o comprimento das brácteas em relação ao das sépalas, a configuração do disco estaminal ou nectarífero e a inserção dos estames são fatores essenciais para podermos distinguir com fiabilidade as diferentes espécies. Ora, vejamos:
Inflorescências, pétalas e brácteas:
- Em certas espécies, como no caso da Tamarix africana, as inflorescências nascem nos ramos lenhosos dos anos anteriores, os quais geralmente têm um diâmetro igual ou superior a 8 mm; noutras espécies, as inflorescências nascem nos ramos jovens do ano, os quais são tenros e mais estreitos, com diâmetro igual ou inferior a 5 mm, como parece ser o caso de T.gallica, T.canariensis e T. mascatensis.
- Embora as espécies autóctones de Portugal todas tenham 5 pétalas, o género Tamarix engloba também espécies com 4 pétalas, como por exemplo a espécie introduzida T.parviflora.
- Também certas espécies têm flores maiores pelo que apresentam inflorescências mais largas (entre 5 a 8 mm de largura), como é o caso de T. africana, a espécie mais comum em Portugal.
- T.canariensis, T.gallica e T. mascatensis são espécies de flores mais pequenas e em consequência, apresentam inflorescências mais estreitas, com menos de 5 mm.
- A bráctea que acompanha as flores também é taxonomicamente importante, não só quanto à forma mas também quanto ao tamanho, podendo exceder ou não o comprimento das sépalas do cálice.
Inserção dos estames no disco nectarífero
Esta característica é fundamental para a correta e rigorosa identificação das espécies Tamarix.
Cada uma das pequenas flores está provida de um disco nectarífero que se posiciona por baixo do ovário, formando uma excrescência carnosa e glandular, de forma anular e dividida em 4 ou cinco lóbulos, nos quais estão inseridos os estames. Esta inserção processa-se de formas diferentes pelo que se distinguem 3 tipos essenciais de discos:  
(os híbridos geralmente apresentam formas intermédias)
- Holólofo: os estames inserem-se por baixo do disco ao qual podem estar soldados. Encontra-se por exemplo em T. ramosíssima (espécie ornamental)
Esquema de disco estaminal ou nectarífero holólofo. Fonte: Flora Iberica
- Parálofo: o disco divide-se em 4 ou 5 lóbulos cujo ápice é truncado. Os estames nascem no centro do ápice de cada lóbulo, estando as duas estruturas bem diferenciadas.  Presente em T. mascatensis.
Esquema de diversos tipos de discos parálofos. Fonte: Flora Iberica
- Sínlofo: o disco esta profundamente dividido em 4 ou 5 lóbulos de cujo ápice atenuado saem os estames. Neste caso não há uma clara diferenciação entre estames e disco, parecendo que os estames são a continuação dos lóbulos. Presente em T. canariensis, T. gallica, T. parviflora e T.africana.
Esquema de diversos tipos de discos sínlofos. Fonte: Flora Iberica

Seguem-se algumas informações sobre as espécies portuguesas:

Tamarix mascatensis Bunge

Esta espécie distribui-se pela Península Ibérica, Mediterrâneo ocidental e Médio Oriente. É inexistente nos arquipélagos da Madeira e Açores mas em Portugal continental - segundo a Flora Ibérica – pode encontrar-se em Trás-os-Montes,  Alto e Baixo Alentejo.
Forma uma árvore que pode chegar aos 3 ou 4 metros de altura. Os troncos e ramos são cinzentos ou avermelhados. As inflorescências são estreitas, com 10 a 30 cm de comprimento e 3 a 5 mm de diâmetro e nascem em ramos verdes do ano (mais raramente em ramos lenhosos dos anos anteriores). As brácteas, iguais ou mais curtas que o cálice, são triangulares ou lanceoladas, com a extremidade aguda e ligeiramente curva. As sépalas são denticuladas.
As flores têm 5 pétalas e 5 estames. O disco nectarífero é parálofo.

Tamarix canariensis Willd.
Tamarix canariensis
Fonte Wikipedia
Foto de  Xemenendura - Trabajo propio. 
Esta espécie distribui-se em redor do Mediterrâneo ocidental, Península Ibérica e ilhas Canárias. Autóctone de Portugal continental, pode ser encontrada em Trás-os-Montes, Estremadura, Beira Litoral, Baixo Alentejo e Algarve (segundo a Flora Ibérica). Não está presente nem na Madeira nem nos Açores. De todas as espécies ibéricas esta é a mais resistente à salinidade.
É uma árvore de pequeno porte. Geralmente, a margem das brácteas e a superfície dos eixos das inflorescências estão providas de papilas. Estas são saliências da epiderme cuja função ainda é controversa, mas que neste caso se acredita possam ser eficazes contra o aquecimento excessivo, refletindo a luz solar quando é demasiado intensa.
 Os troncos e ramos são acinzentados ou avermelhados. As folhas apresentam abundantes glândulas secretoras de sal. As inflorescências nascem nos jovens ramos do ano e são estreitas, com cerca de 3 ou 4 mm de diâmetro.
As brácteas igualam ou ultrapassam o comprimento das sépalas, as quais são muito denticuladas. As flores têm 5 pétalas e 5 estames. O disco nectarífero é sinlofo.

Tamarix gallica L.
Tamarix gallica 
Fonte Wikipedia
Foto de TeunSpaans
Esta é uma espécie europeia que se distribui pelo sul do continente, nomeadamente Itália (incluindo a Sicília), França (incluindo a Córsega), Portugal e Espanha (incluindo as Baleares). No que diz respeito ao nosso país é autóctone de Portugal continental onde se pode encontrar- ainda segundo a Flora Iberica - na Beira Litoral e Estremadura; quanto às ilhas, foi introduzida na Madeira onde se naturalizou, mas não existe nos Açores.
Tamarix gallica forma uma árvore que pode ir dos 2 aos 10 metros de altura e cujos ramos apresentam a habitual coloração acinzentada ou vermelha. Esta é mais uma espécie de inflorescências estreitas, com 3 a 5 mm de diâmetro, as quais se formam principalmente nos jovens ramos do ano. As brácteas, de forma triangular, são menores que o cálice (muito mais curtas que nas outras espécies). As flores têm 5 pétalas e 5 estames e o disco é sinlofo.

Tamarix africana Poiret
var. fluminensis e var. africana

Esta espécie possui duas variedades que se distinguem pelo comprimento das brácteas: a fluminensis tem brácteas longas que ultrapassam amplamente o cálice, e a africana tem brácteas mais curtas.


Esta espécie forma uma pequena árvore, geralmente de 1 a 5 m de altura, glabra, exceto o eixo das inflorescências e as margens das brácteas florais que podem apresentar papilas. 
O tronco pode ser delgado ou grosso, às vezes retorcido, podendo ramificar-se a pouca distância do solo. O córtex é acinzentado, apresentando fissuras e sulcos. 
A copa é larga, irregular e pouco espessa, sendo formada por numerosos ramos longos e flexíveis, com tendência para se vergarem em direção ao chão e caducos na parte terminal.
As folhas são verdes mas muito pequenas o que limita a transpiração e a perda de agua; são alternas, lanceoladas, de margens escariosas e sem pecíolo, alargando-se na base e abraçando parcialmente o ramo.
A Tamarix africana floresce de março a maio. As flores aparecem antes ou ao mesmo tempo que as novas folhas e são de cor branca. Reúnem-se em inflorescências grandes e densas, com cerca de 3 a 6 cm de comprimento e com diâmetro de 0,5 a 0,8 cm, as quais são relativamente maiores que as do resto das tamargueiras. As inflorescências dispõem-se em ramos lenhosos dos anos anteriores.
Flores em botão da variedade fluminensis, em que se notam as brácteas interflorais mais longas que o cálice.

As flores dispõem de órgãos reprodutores masculinos e femininos férteis. 
A corola é composta por 5 pétalas simétricas que alternam com 5 sépalas desiguais, de cor branca ou rosa-pálido, por vezes persistentes na frutificação. Os 5 estames inserem-se num disco nectarífero do tipo sínlofo.

Cada semente tem um tufo de pelos na ponta. Quando os frutos abrem e as sementes ainda não foram dispersas pelo vento, formam grandes flocos que parecem de algodão.

Tamarix africana distribui-se pelo sul da Europa e norte de África: Portugal, Espanha (incl. lhas Canárias e Baleares), Argélia, Marrocos, Tunísia, Itália (incl. Sardenha e Sicília) e França (incl. Córsega).
Esta espécie é autóctone de Portugal continental e está naturalizada nos Açores onde foi introduzida. Não se regista na Madeira.
Mapa de distribuição em Portugal continental.
Fonte: Flora Digital de Portugal, Jardim Botânico da UTAD

Tamarix parviflora DC.
Tamarix parviflora
Fonte Wikipedia
Foto de Javier Martin
Esta espécie é autóctone do sudeste europeu (Albânia, Croácia, Grécia, Macedónia e Eslovénia) e também do oeste asiático (Israel e Turquia). Foi introduzida em Portugal continental onde se naturalizou e é cultivada com fins ornamentais. Não ocorre nos arquipélagos de Madeira e Açores.
Mapa de distribuição em Portugal
Fonte: Flora Digital, Jardim Botânico da UTAD
Forma uma pequena árvore com inflorescências que nascem nos ramos lenhosos de anos anteriores. É a espécie com inflorescências mais estreitas entre as mencionadas neste texto (1 a 4 cm de comprimento e 0,4 a 0,6 cm de diâmetro). Esta espécie é tetrâmera, ou seja, ao contrário das outras espécies aqui mencionadas, as corolas só têm 4 pétalas. As flores são também mais pequenas.
As brácteas são mais curtas que o cálice. Tanto as brácteas como as sépalas apresentam ápices de cor purpura.
Os estames são 4 e estão inseridos num disco nectarífero sínlofo.

O maná:
A identificação das plantas mencionadas na Bíblia tem sido uma árdua tarefa que há séculos tem ocupado muitos cientistas. A origem do maná, substância enviada por Deus e que alimentou as tribos de Israel durante os 40 anos de travessia do deserto, é um dos mistérios mais intrigantes.
Originalmente considerado de origem vegetal, alguns terão chegado à conclusão que poderá ser uma substância segregada pelos insetos Coccus manniparus que sugam a seiva rica em açucares da árvore Tamarix mannífera ou Tamarix gallica. Esta substância é um líquido doce que solidifica com os ventos secos e frios da noite e derrete com o sol da manhã. 
Outros investigadores garantem que o maná é uma secreção das larvas e fêmeas imaturas de cochonilhas Trabutina mannipara e Naiacoccus sepentinus, libertada após a digestão da seiva destas árvores, eliminando assim o excesso de açucares. Esta secreção é ainda hoje em dia recolhida pelos habitantes do Sinai e usada como substituto do açucar.
Através dos séculos, muitas e variadas têm sido as explicações e teorias sugeridas pelos investigadores, entre elas, o exsudado da árvore Fraxinus ornus ou do arbusto Hedyssarum alhagi que segrega uma substância açucarada sob a forma de grânulos de cor amarelada ou os líquenes Lecanora esculenta e Sphaerothalhia esculenta que crescem sobre rochas calcarias e que, arrastadas pelos ventos fortes, podem cair como chuva. Até a alga Nostoc commune tem sido aventada como hipótese
Existem outras teorias mas parece estarmos longe da solução devido a imponderáveis da natureza, a começar pela impossibilidade de alimentar tantos milhares de pessoas, durante tanto tempo, simplesmente à base de açucares. E assim o mistério está para durar.
A palavra maná poderá ter origem no vocábulo egípcio “mennu” que significa alimento. Contudo, alguns estudiosos contrapõem que vem do aramaico ou do hebraico e expressa a surpresa do povo judeu quando lhes foi enviado o alimento, até então desconhecido: “MAN HÛ” que quer dizer: O que é isto?

O maná é mencionado no Livro do Êxodo 16, versículos 1 a 36:
"E quando o orvalho se levantou, eis que sobre a face do deserto estava uma coisa miúda, redonda, miúda como a geada sobre a terra.
E, vendo-a os filhos de Israel, disseram uns aos outros: Que é isto? Porque não sabiam o que era. Disse-lhes pois Moisés: Este é o pão que o Senhor vos deu para comer". Exodus 14,15.
“O maná era mais ou menos do tamanho de uma semente de coentro, e parecia­-se com as gotas de resina que escorrem pelo tronco de uma árvore. O povo recolhia-­o do chão, moía-­o em moinhos para o transformar em farinha, ou pisava­-o num almofariz, cozia-­o e fazia bolos; sabia como qualquer bolo frito em azeite. O maná caía com o orvalho, durante a noite”.
Numeri 7/9

Fotos de Tamarix africana: Caniçal, Areia Branca, Zambujeira e Serra do Calvo/Lourinhã