"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





sexta-feira, 1 de maio de 2015

Cerastium glomeratum Thuill.

Nome Comum:
Orelha-de-rato; cerástio-enovelado

Cerastium glomeratum é uma das numerosas espécies de flores brancas que fazem parte de Cerastium L., género quase cosmopolita com cerca de 100 espécies, algumas perenes, outras anuais, mais abundantes em zonas temperadas e frias, sendo a Eurásia o seu principal centro de diversidade. Cerastium fontanum e Cerastium glomeratum são as espécies mais comuns a nível global porquanto a maioria das espécies deste género tem distribuição restrita.
Muitas das espécies do género Cerastium são usadas por alguns tipos de borboletas que aí depositam os seus ovos, servindo posteriormente de alimento às larvas. Entre os vertebrados, algumas pequenas aves comem as sementes, enquanto os coelhos bravos petiscam as folhas. Aparentemente também as galinhas caseiras adoram esta herbácea, pelo menos as galinhas anglo-saxónicas, a constatar pelo nome popular que em inglês se dá ao género Cerastium: “chickweeds”, ou seja ervas-das-galinhas. No que diz respeito a este cantinho de Portugal e outros por onde tenho andado, não encontrei nenhum indício de que se colha esta erva (ou qualquer outra, já agora) para alimentar galinhas, o que não quer dizer que não aconteça noutros locais. O que é mesmo certo, é que já são poucas as pessoas da aldeia que reconhecem as ervas que crescem pelos caminhos ou incomodam a sua plantação de couves.
As galinhas adoram comer Cerastium (ervas-das-galinhas)
Fonte http://www.eatthatweed.com/chickens-love-chickweed/
(Se este assunto lhe interessa, veja também AQUI). 

Segundo o portal Flora-on, são 6 as espécies deste género que se encontram presentes em Portugal. Veja AQUI.
Todas estas espécies apresentam flores de pequeno tamanho, de aspeto modesto e discreto, quando isoladas. Mas, em conjunto, formam alegres tapetes rasteiros ou franjas altas e espevitadas. A espécie mais comum no nosso país é a Cerastium glomeratum, planta grácil e com flores de uma brancura imaculada. Contudo não nos deixemos enganar pelo seu pretenso aspeto angelical pois é uma infestante bastante rápida e eficaz. No jardim é fácil de erradicar, bastando para tal arrancá-la à mão antes que produza frutos e sementes. Mais difícil é controlá-la nos terrenos cultivados de grande extensão pois é resistente aos produtos químicos, infelizmente tão utilizados hoje em dia; por outro lado, a ação de sachar a terra com enxadas ou lavrar mecanicamente só ajuda a espalhar as sementes.
Mapa actual de distribuição de Cerastium glomeratum em Portugal continental
Fonte:  Flora-on    
Dados disponibilizados por J.Lourenço, J.D.Almeida, F.Clamote, P.V.Araújo, M.Porto, A.J.Pereira, A.Silva, P.Silveira, et al. (2015).

Embora a exata procedência de Cerastium glomeratum permaneça algo obscura, presume-se que seja de origem euroasiática mas é conhecida em quase todos os continentes como espécie introduzida e naturalizada. Em Portugal é autóctone do continente e arquipélago da Madeira e naturalizada nos Açores.
Cresce em muitos tipos de habitats quer naturais, quer antropizados, desde o nível do mar até 2000m de altitude: dunas, campos cultivados ou incultos, jardins, margens de caminhos, de preferência em áreas de solos perturbados e enriquecidos em nutrientes, demonstrando a sua natureza ruderal. O tipo de solo é-lhe indiferente mas precisa de alguma humidade e prefere exposição sombreada embora também cresça em pleno sol.
Cerastium glomeratum é uma planta anual de um tom de verde-claro e revestida de numerosos pelos compridos, densos e flexíveis que podem ser glandulares ou não. 
Os pelos glandulares residem essencialmente na parte superior da planta o que a torna algo pegajosa ao toque. A riqueza em nutrientes, a humidade do solo e o grau de exposição solar são três elementos que em conjunto ou cada um por si só, determinam o tamanho que as plantas de Cerastium glomeratum podem atingir na idade adulta. Algumas permanecem rasteiras com pouco mais de 5 cm, outras podem chegar aos 40 ou 45 cm de altura. Os caules, ramificados, são eretos ou ascendentes.
As folhas dispõem-se ao longo dos caules, a espaços regulares e em pares opostos. São folhas inteiras e simples, de forma oval ou elíptica com cerca de 2 ou 3 cm de comprimento. Não têm pecíolo e ambas as páginas estão cobertas de pelos.
A característica distintiva desta espécie é a forma como as flores se aglomeram em cimeiras compactas ou seja, em cachos densos, os quais se repetem sucessivamente. É um tipo de ramificação em que cada ápice se bifurca originando dois pedúnculos situados à mesma altura, de tal forma que os eixos florais se sucedem. Os pedicelos são do mesmo comprimento ou mais curtos que as sépalas.
Traduzido em termos técnicos dir-se-á que a inflorescência de Cerastium glomeratum é na realidade um dicásio (cimeira bípara) mas que aparece como uma cimeira multiflora muito contraída, também denominada glomérulo - de onde deriva o epiteto glomeratum que identifica a espécie.
Na base dos pedúnculos florais existem duas brácteas herbáceas e foliáceas.
As flores tem pedicelos que são mais curtos que as sépalas ou do mesmo comprimento (5 mm ou menos), os quais estão cobertos de pelos glandulares.
A corola, com diâmetro de 5 a 8 mm, é formada por 5 pétalas iguais, livres e cuja extremidade apresenta um entalhe no ápice. As flores raramente abrem por completo, por vezes nem chegam a abrir ou faltam algumas pétalas. Embora possam ser fecundadas por insetos estas flores estão vocacionadas para a autopolinização, caraterística assumida das plantas ruderais e que agiliza o processo de formação de sementes. Apesar disso estas pequeníssimas flores estão apetrechadas com nectários onde armazenam o delicioso e nutritivo néctar destinado a atrair insetos, especialmente abelhas, moscas e traças ou pequenas borboletas, o que acaba por ser um desperdício de energia (alguns géneros mais evoluídos dentro da família a que pertence Cerastium L. – Caryophyllaceae – já desenvolveram dispositivos que impedem o acesso aos nectários).
O cálice é constituído por 5 sépalas livres e lanceoladas, de cor verde as quais são mais curtas que as pétalas. As sépalas desta espécie têm margens membranosas e os pelos que as cobrem, na sua maioria glandulares, têm a particularidade de serem longos e compridos, ultrapassando o ápice das mesmas. As sépalas são persistentes, mantendo-se durante a frutificação.
As flores estão providas de órgãos reprodutores masculinos e femininos funcionais. Os estames são 10, com filetes esbranquiçados e anteras de cor amarelo-pálido. O ovário tem 5 carpelos e os correspondentes 5 estiletes de cor branca os quais são visíveis, juntinhos no centro da flor, entre os estames.
O período de floração prolonga-se desde o fim do inverno até meados do verão e cada planta completa o seu ciclo de vida em 3 ou 4 semanas. 
O fruto de Cerastium glomeratum é uma pequena cápsula alongada, de consistência algo semelhante a papel fino e mais comprida que as sépalas - mas com pouco mais de 1 cm de comprimento - que resulta da fusão dos 5 carpelos. 
Fonte: CalPhotos
Photographer: Jean Pawek

Dentro desta cápsula formam-se minúsculas sementes de cor castanha ou alaranjada, as quais são libertadas pela parte superior. A abertura apresenta 10 pequenos dentes (múltiplos do número dos carpelos), os quais podem ser eretos ou ligeiramente curvados para fora.
O formato tubular e ligeiramente curvo desta cápsula está na origem do nome que designa o género: Cerastium deriva do grego “Kerastes” que uns dizem que se traduz por corno e outros por trombeta.

Cerastium glomeratum pode ser facilmente confundida com outras espécies do mesmo género, nomeadamente com Cerastium fontanum, espécie perene, mas com flores maiores embora menos compactadas. Mas a principal diferença reside na morfologia das sépalas que em Cerastium glomeratum estão revestidas de pelos bastante mais compridos e que ultrapassam o ápice; os pelos das sépalas de Cerastium fontanum são definitivamente mais curtos. Veja fotos de Cerastium fontanum AQUI.

Cerastium glomeratum pode ser também confundida com Stellaria media, do género irmão Stellaria, ambos da família Caryophyllaceae. Contudo, não é difícil diferenciá-las se tomarmos em consideração os seguintes pontos principais: enquanto as folhas de Stellaria media têm peciolos, as de Cerastium glomeratum são sésseis; a forma das folhas é diferente entre estas duas espécies; as pétalas de Stellaria media são bipartidas e as de Cerastium glomeratum só são fendidas até um terço do seu comprimento; Stellaria media tem 3 estiletes e Cerastium glomeratum tem 5. Veja fotos de Stellaria media AQUI.

A família Caryophyllaceae, à qual pertencem todas as espécies acima referenciadas, inclui 86 géneros, com mais de 2200 espécies, que ocorrem praticamente no mundo inteiro mas com maior incidência em regiões temperadas e quentes do Hemisfério norte. Embora muitas espécies sejam de pequeníssimas dimensões, anuais e infestantes das culturas, outras têm interesse económico pois são cultivadas como ornamentais, sendo as mais conhecidas os cravos (Dianthus L.) e a Gypsophila L.

Fotos de Cerastium glomeratum: Serra do Calvo.


terça-feira, 14 de abril de 2015

Veronica persica Poir.

Nome comum:
Verónica-da-pérsia
Veronica persica é uma pequena herbácea originária do sudoeste asiático, presumivelmente da região da antiga Pérsia, de onde derivou o seu nome específico. Foi introduzida na Europa nos finais do seculo XVIII ou início do seculo XIX, como planta de jardim. Através do vento ou por movimentação de terras acabou por escapar para os campos onde se assilvestrou, encontrando-se nesta altura confortavelmente naturalizada em muitas regiões de clima temperado de todo o globo.
A primeira autoridade cientifica a descrever e classificar esta espécie foi o botânico e explorador francês Jean Louis Marie Poiret (1755-1834). A publicação foi feita em 1808 na Encyclopédie Methodique, Botanique, suplemento, pagina 542 e da qual constam os detalhes morfológicos da espécie, assim como a seguinte informação:
“Esta planta cresce na Pérsia. É cultivada no Jardin des Plantes de Paris.” 

Book contributed by Missouri Botanical Garden -  Peter H. Raven Library
Para consultar este livro do qual consta a primeira publicação de Veronica persica (página 542), clique AQUI.
Mapa da distribuição de Veronica persica em Portugal continental.
Esta espécie também está presente nos Arquipélagos dos Açores e da Madeira
Fonte: Jardim Botanico da UTAD
Veronica persica é uma planta infestante, embora frágil e não muito agressiva. Cresce em campos de cultivo ou incultos, beira dos caminhos, jardins, áreas arrelvadas e todo o tipo de áreas perturbadas. É uma planta ruderal, característica de zonas antropizadas cujos solos apresentam concentrações elevadas de nitratos em consequência dos excessos de adubação.
Veronica persica é uma erva anual, herbácea que gera vários caules, por vezes bastante ramificados desde a base, formando um espesso emaranhado nas plantas mais desenvolvidas. 
Os caules podem ir dos 10 aos 40 cm de comprimento e são prostrados embora se tornem eretos na parte terminal, onde surgem as flores. 

Ocasionalmente podem enraizar nos nós que estejam em contacto com o solo.

Os caules estão cobertos de pelos tectores simples e compridos os quais não produzem nenhum tipo de secreção mas que neste caso se supõe que auxiliem na diminuição da incidência luminosa, minimizando a transpiração e na defesa contra insetos fitófagos.

Pelos do mesmo tipo apresentam-se dispersos em ambas as páginas das folhas. Estas tem pecíolos curtos e são inteiras, com as margens grosseiramente  dentadas. O limbo é arredondado ou oval, o ápice é obtuso e a base é simples, em forma de coração.

As folhas da parte inferior inserem-se nos caules de forma oposta e as da extremidade superior são alternas.
As flores surgem solitárias na parte superior dos caules, nascendo na axila das folhas e apresentando pedicelos bastante mais compridos que as folhas axilantes correspondentes, sendo curvados na parte terminal.
A corola, com apenas 6 a 12 mm de diâmetro, é formada por 4 pétalas dispostas em forma de taça, unidas na base e com a extremidade arredondada.
As pétalas são de cor azul claro, com o centro branco e apresentam estrias mais escuras as quais geralmente tem a finalidade de guiar os insetos polinizadores para o centro, onde estão posicionados as bolsas de néctar e os órgãos reprodutores.
Uma das pétalas é mais estreita que as restantes e também apresenta uma tonalidade mais clara.
O cálice é formado por 2 pares de sépalas divergentes, de cor verde, ovado-lanceolados, soldadas na base e mais curtas que a corola e também providas de pelos nas margens e no veio central.
As flores são hermafroditas ou melhor dizendo, são perfeitas, pois possuem órgãos reprodutores masculinos e femininos funcionais. Os dois únicos estames apresentam anteras gordas e vistosas; o ovário, com dois carpelos unidos, tem um único estilo, o qual é bastante longo e persistente na frutificação, bem visível pois ultrapassa as paredes do fruto. A polinização é feita por insetos, no entanto, como acontece com as outras espécies ruderais, Veronica persica também recorre à autopolinização como medida preventiva, em virtude de ter ciclos de vida rápidos e tamanho diminuto. Além disso as flores são sensíveis à intensidade da luz, fechando durante a noite e em dias nublados, o que diminui ainda mais o tempo de exposição aos insetos.
Em condições favoráveis Veronica persica floresce durante a maior parte do ano; de forma mais ou menos exuberante, dependendo do clima e das condições atmosféricas locais, podem sempre encontrar-se algumas plantas desta espécie. A floração é mais intensa quando a primavera se faz anunciar mas podemos dizer que é uma daquelas ervas persistentes que só interrompem a floração com temperaturas muito baixas retomando a sua atividade logo que o inverno se torna mais suave. Contudo, tendem a secar no verão quando a intensidade do sol e a escassez de água assim o determinam.
Cada flor dá origem a um fruto seco coberto de pelos glandulares e que deixa sair as sementes pela parte superior; é composto por dois carpelos cujas paredes estão unidas, formando uma capsula achatada, larga e baixa, com  dois lóculos, contendo 5 a 20 sementes de cor amarelada, rugosas e que medem cerca de 1 a 2 milimetros.
Veronica persica é semelhante a muitas espécies do mesmo género pelo que pode facilmente ser confundida com elas. Uma das formas de identificar esta espécie reside no seu fruto característico o qual, embora tenha a habitual forma de coração, crescendo aninhado entre as sépalas do cálice, se diferencia das outras espécies por ter os dois lóculos e as sépalas marcadamente divergentes.

Para comparar os frutos de varias espécies do género Veronica clique AQUI.

A média de sementes geradas por cada planta de Veronica persica é de 6500 as quais caem no chão perto da planta-mãe e estão logo prontas para germinar, se as condições o permitirem. Uma minoria de sementes é levada pelas aves ou pelo vento, por vezes ainda agarradas à planta original, já seca. As sementes permanecem viáveis durante 30 anos ou mais. Assim, havendo movimentação de terras que as soterrem por longo tempo, nada está perdido para ela; basta-lhe aguardar pacientemente o dia em que verá de novo a luz do sol para então rapidamente germinar.

Em fitoterapia usam-se as partes aéreas desta planta a qual parece ter propriedades estimulantes, expetorantes, digestivas, sudoríferas e antirreumáticas.
Aliás, Veronica persica pertence ao género Veronica cujas espécies são caracterizadas pela presença de importantes metabólitos secundários denominados glucoseideos bis-sesquiterpenos e iridoides. 
Muitos destes produtos naturais são de grande interesse devido à sua atividade farmacológica, nomeadamente os iridoides. Estes representam um largo grupo de monoterpenos que ocorrem na natureza de forma amplamente disseminada principalmente em certas famílias, nomeadamente nas Plantaginaceae, família em que se inclui o género Veronica. Estudos recentes e extensivos revelaram que os iridoides demonstram uma vasta gama de bioactividades com efeitos neuroprotetores, antinflamatorios, hepaprotetores, cardioprotetores e imunomoduladores. Tambem foram relatadas propriedades citostáticas, antioxidantes, antimicrobianas, hipoglicemiantes, hipolipemiantes, coleréticas, antiespasmódicas e purgativas, destacando-se as bioactividades antibacterianas, anticoagulantes, antifúngicas e antiprotozoárias. Os glicosídeos iridóides mais espalhados no género Veronica são aucubina e catalpol.
Estes metabólitos secundários e outros, são também extremamente importantes na quimiotaxonomia, ajudando os cientistas na sua complicada tarefa de fazer a revisão da classificação científica das plantas. Complementando os dados morfológicos disponíveis, contribuem para melhor inventariar e descrever a biodiversidade e para melhor compreender as relações filogenéticas entre os organismos.
Tradicionalmente o género Veronica compreendia entre 250 a 300 espécies distribuídas fundamentalmente pelas zonas temperadas do hemisfério norte, principalmente Europa e Ásia. Contudo, estudos recentes apoiados em dados moleculares determinaram alterações que ampliaram o número de espécies para 450, passando a incluir também algumas espécies do hemisfério sul.
Segundo o portal Flora-on estão presentes em Portugal 20 espécies deste género. Confira AQUI.
Na generalidade, as espécies do género Veronica são nativas de uma grande diversidade de habitats: prados húmidos ou secos, pastos, encostas rochosas e regiões arborizadas, desde o nível do mar até às regiões de clima alpino nos Himalaias, a 5000 m de altitude. Incluem espécies anuais ou perenes, muitas delas apropriadas para jardins, podendo ser usadas numa multiplicidade de situações, dependendo do gosto e da imaginação. Existem espécies rasteiras que são perfeitas para cobertura de solo e jardins de rocha, como é o caso da V. persica e espécies mais altas e sofisticadas que são adequadas para sebes ou como exemplares isolados. As flores podem ser brancas, rosa ou azuis, com estames de vistosas anteras. Muitos cultivam-nas não apenas pela sua beleza mas também porque atraiem muitos insetos, sendo alimento para as larvas de vários tipos de borboletas.
Seguem-se dois exemplos, entre as muitas espécies do género Veronica que são cultivadas, manipuladas e hibridizadas, sendo posteriormente comercializadas com fins ornamentais:
Veronica spicata 'Rosea'
Autor: 
Ghislain118 (AD)
Fonte Wikimedia Commons

"Veronica austriaca". Licensed under CC BY-SA 3.0 via Wikimedia Commons
Veronica é um género muito grande e complexo estando a ser sujeito a diferentes estudos sistemáticos e filogenéticos com consequentes alterações na taxonomia que nem sempre são consensuais. É o caso de algumas espécies do género Hebe que foram mudadas para o género Veronica, situação que ainda não foi aceite por uma parte da comunidade cientifica.
O género Veronica, inicialmente incluído na família Scrophulariaceae foi recentemente transferido para a família Plantaginaceae (APG 2003) , família em que também se inserem as espécies do género Plantago. 

Fotos de Veronica persica: Serra do Calvo/Lourinhã 


quinta-feira, 26 de março de 2015

Senecio vulgaris L.

Nomes comuns:
Cardo-morto; tasna; tasneirinha

Senecio vulgaris
Senecio vulgaris pertence às Asteraceae (vulgarmente conhecidas como família dos malmequeres) e ao género Senecio, um dos maiores géneros desta família. Na realidade Senecio é um mega género, um dos maiores entre as Angiospermas (grupo de plantas que geram flores) e no qual foram incluídas espécies morfologicamente tão diversificadas que o tornaram bastante confuso. Aparentemente, ao longo dos séculos, foram sendo “despejadas” neste género espécies difíceis de classificar, do que resultou um grupo geneticamente artificial por ser polifilético, ou seja, não inclui o ancestral comum de todos os indivíduos nele incluídos.
Espécie ornamental Senecio Rowleyanus
Fonte - Wikipedia
As primeiras classificações científicas basearam-se apenas nas semelhanças morfológicas mas os novos métodos de biologia molecular permitem ter uma visão mais abrangente e consistente com o princípio da ascendência comum. O objetivo atual é classificar as espécies de modo a formar grupos monofiléticos, os quais devem incluir todos as espécies do ascendente imediato comum, incluindo o próprio ascendente imediato comum. 
Assim, na tentativa de reorganizar o género Senecio de forma sustentada, foram feitas análises filogenéticas e moleculares na sequência das quais muitas espécies tradicionalmente incluídas no género Senecio foram reclassificadas, sendo dele excluídas e atribuídas a outros géneros, nomeadamente Jacobaea, Delairea, Kleinia, Packera e mais 3 dezenas de géneros de nomes obscuros. 
Espécie ornamental Senecio elegans 
Fonte - Wikipedia
Apesar disso, o processo está longe de estar terminado e Senecio ainda inclui cerca de 1250 espécies muito diversificadas, incluindo anuais, perenes herbáceas, arbustos, trepadeiras, suculentas, pequenas árvores e até espécies aquáticas. A sua distribuição é muito ampla mas ocorrem principalmente na região mediterrânica, Africa do Sul, Ásia temperada e continente americano. Muitas destas espécies são problemáticas por terem comportamento invasivo difícil de controlar fora dos seus habitats nativos; outras são tóxicas, tanto para animais como para humanos, pois produzem alcalóides pirrolizidínicos cujo efeito cumulativo provoca doenças do fígado que podem ser fatais. Em contrapartida, Senecio também inclui espécies inofensivas e de grande valor no florescente comércio das plantas ornamentais.
Fruto de Senecio gallicus 
Tal como todos os nomes científicos, Senecio tem origem no latim, mais propriamente no vocábulo “senex” que significa homem velho ou idoso, embora como alguém dizia, o género não seja curvado, frágil, nem venha a adquirir natureza sábia com a idade. Corre mundo que esta referência à velhice tem a ver com os frutos que, depois de maduros (mas antes de abandonarem a planta), formam um tufo de pelos brancos que fazem lembrar a barba branca de um homem idoso. 
Futo de Reichardia Gaditana
Pessoalmente não vejo grande lógica neste argumento uma vez que muitos outros géneros da família Asteraceae apresentam frutos semelhantes. Contudo, tendo  o vocábulo “senex” sido relacionado com este género há quase 2000 anos pelo naturalista romano Plinio,  pode assumir-se que, a existir qualquer outra razão mais fundamentada, a mesma ter-se-á perdido na escuridão dos tempos. 

Segundo a Sociedade Portuguesa de Botânica, através do portal Flora-on, são 17 as espécies do género Senecio que ocorrem em Portugal. Algumas são nativas e outras são exóticas (geralmente escapadas dos jardins e assilvestradas). Também se registam algumas espécies endémicas. Veja AQUI e depois, se desejar obter informações mais detalhadas sobre cada espécie, basta clicar em cima das fotos.  
Distribuição de Senecio vulgaris em Portugal continental - Fonte Flora-on
Informações disponibilizadas por:
 F.Clamote, P.V.Araújo, J.Lourenço,J.D.Almeida, A.Carapeto, A.J.Pereira, A.Silva, et al.(2015)
Senecio vulgaris, tal como o nome indica, é uma espécie comum e de ampla distribuição. Embora nativa do norte de África, Ásia temperada e tropical e maioria dos países europeus desde a Península Ibérica e bacia do mediterrâneo até à Rússia, hoje em dia está presente em todos os continentes. Em Portugal é autóctone no continente e Madeira e está naturalizada nos Açores.
Senecio vulgaris
Senecio vulgaris adapta-se a uma grande variedade de habitats mas ocorre principalmente em ambientes ruderais, migrando ocasionalmente para campos cultivados. É uma conhecida infestante cuja ação é muitas vezes inconsequente nos habitats nativos mas que pode provocar estragos consideraveis nos paises onde foi introduzida. Ainda assim, é uma espécie estabilizadora dos ecossistemas ao providenciar abrigo e alimento a uma grande variedade de espécies de escaravelhos, moscas, traças e borboletas.
Sendo considerada uma planta toxica para certos mamiferos e humanos (devido à presença de alcalóides pirrolizidínicos em todas as partes da planta, mas especialmente nas flores e folhas) podemos constatar, face às informações contraditórias, que os malefícios que possam advir da sua ingestão têm a ver com a quantidade consumida, tanto mais que os efeitos são cumulativos. Contudo alguns animais parecem imunes a estes alcaloides. As sementes são muito apreciadas por pequenas aves (ex tentilhões), os quais também se alimentam das folhas. Também as cabras e os coelhos incluem as folhas de Senecio vulgaris na sua dieta, ao contrário de ovelhas, vacas e cavalos que a evitam.

Senecio vulgaris tem um longo historial como planta medicinal. Esta erva foi, no passado, muito utilizada pelas suas propriedades antihelminticas, antiescorbúticas, diafureticas, diuréticas e purgativas mas, face ao conhecimento de casos fatais envolvendo animais e pessoas, a planta foi desaconselhada, acabando por cair em desuso, quer na medicina caseira quer no pasto.

Senecio vulgaris
Senecio vulgaris é uma planta herbácea de raízes finas e abundantes, cujo caule ereto pode crescer até cerca de 40 cm de altura, embora na maioria dos casos não ultrapasse os 20 cm. 
Senecio vulgaris
Os vários caules surgem a partir de uma roseta basal e são ocos, simples e ramificados de forma irregular, especialmente na parte superior onde se formam as inflorescências. Os caules, as folhas e uma grande parte dos pedúnculos das flores ora estão cobertos de pelos esbranquiçados, muito finos, macios e flexíveis, semelhantes a teias de aranha, ora são glabros.
Senecio vulgaris
As folhas, de consistência carnuda, dispõem-se de forma alternada e são mais ou menos profundamente recortadas; as folhas inferiores são espatuladas isto é, são achatadas e oblongas, mais estreitas na base e alargando progressivamente em direção ao ápice que é arredondado; as folhas superiores são mais profundamente recortadas embora de forma irregular; o pecíolo é inexistente e a base das folhas é alargada e envolve parcialmente o caule (amplexicaule).
Senecio vulgaris
As flores são minúsculas, todas em forma de tubo e de cor amarela; agrupam-se em capítulos, característica marcante da família das Asteraceae, a que pertence esta espécie. Os capítulos não são solitários, isto é, juntam-se a outros, formando corimbos terminais mais ou menos densos, geralmente originados no mesmo pedúnculo. Os pedúnculos são pouco firmes, do que resulta que os capítulos se apresentem pendentes.
Senecio vulgaris
O capítulo de Senecio vulgaris caracteriza-se por apresentar muitas flores tubulares e de tamanho reduzido, agrupadas de forma muito compacta diretamente sobre um recetáculo em forma de disco, dando a ideia de que se trata de uma única flor. 
Em muitas espécies da família Asteraceae as flores periféricas deste disco prolongam-se para o lado de fora formando lígulas, semelhantes a pétalas, como no caso dos malmequeres, mas tal não acontece no caso de Senecio vulgaris, cujas flores são todas tubulares. 
As flores estão em plena floração, notando-se os braços estigmáticos.
Nesta foto notam-se bem os dois tipos de brácteas.
O conjunto de flores reunidas em cada capítulo é, em Senecio vulgaris, protegida por um invólucro de formato cilíndrico formado por duas camadas de brácteas. As brácteas da camada basal formam uma espécie de epicálice, são algo triangulares e bastante mais curtas que as da camada interior; são as brácteas da camada interior que constituem a maior parte do invólucro, sendo mais compridas e estreitas, envolvendo todas as flores até à maturação do fruto e dando a ideia de que as "flores" nunca abrem, mesmo quando estão em plena floração. Estas brácteas involucrais possuem a ponta manchada de negro de forma característica da espécie e no seu conjunto assemelham-se a garras ou dentes. As manchas da camada inferior são as mais visíveis.

As flores possuem órgãos reprodutores funcionais, tanto femininos como masculinos mas de tão apertadinhas não se distinguem os estames à vista desarmada. No entanto os braços do estigma são perfeitamente visíveis. Além de poder ser polinizada por insetos esta espécie também recorre à autopolinização razão pela qual prescinde das “pétalas” que apenas servem de chamariz mas que envolvem grande gasto de energia.
Esta planta é muito prolífera, florescendo praticamente durante o ano inteiro. Geralmente o seu ciclo de vida leva apenas 5 a 6 semanas a completar e geralmente formam-se 3 gerações em cada ano, cada planta produzindo cerca de 1700 sementes.
Senecio vulgaris
Cada pequena flor aninhada dentro dos capítulos produz um fruto seco com uma só semente, de cor acastanhada, oblonga e provida de um tufo de pelos brancos numa das extremidades, chamado pappus ou papilho. Estes tufos são constituídos por pelos sedosos e compridos que por ação do vento levam as sementes para longe - por vezes a 2 a 3 metros de distancia- quais pequenos para-quedas de brinquedo. 
Senecio vulgaris
As sementes permanecem apertadinhas dentro do invólucro até à sua completa maturação. Nessa altura, o invólucro abre-se completamente, curvando-se as brácteas bruscamente para baixo. Ao mesmo tempo, as sementes ainda ligadas ao recetáculo deixam de estar comprimidos e abrem como um harmónio, formando uma espécie de pom-pom de cor branca, formado pelos pappus ou papilhos.

Apesar do aspeto humilde que lhe é conferido pelo seu pequeno tamanho e pelas flores pouco chamativas, Senecio vulgaris é uma espécie suficientemente interessante para suscitar alguma controvérsia e diversos estudos e teorias têm sido apresentados por botânicos que questionam as suas origens, o seu grau de toxicidade, resistência ao fungo Puccinia lagenophorae e a certos tipos de herbicidas. Também as estratégias de adaptação de Senecio vulgaris a diferentes tipos de habitats têm motivado estudos sobre os processos evolutivos e adaptativos das plantas em geral, face aos recursos ambientais.

Senecio vulgaris é basicamente uma planta ruderal. Pode ser encontrada em terrenos cultivados ou incultos mas é principalmente dos habitats humanizados que ela gosta mais. Ocorre preferencialmente na beira dos caminhos, cascalheiras, locais de despejo de restos de materiais de construção e outros lixos, brechas no alcatrão ou nas pedras dos passeios, enfim, todos os locais de solo remexido ou perturbado devido à remoção da camada superficial e que se tornaram repentinamente mais ricos em azoto e outros nutrientes. Estes distúrbios podem acontecer pela ação humana ou devido a catástrofes (inundações, derrocadas). As perturbações do habitat também podem advir da destruição de plantas maduras de uma comunidade instalada num local fértil (incêndio, pastoreio demasiado intensivo, passagem de maquinas agrícolas, herbicidas). Neste caso toda a biomassa destruída que fica no local aumenta o nível de nutrientes disponíveis no solo, ao mesmo tempo que o menor número de plantas diminui a competição. Estes locais geralmente apelidados de “perturbados” apresentam um alto índice de distúrbio mas em contrapartida têm uma baixa intensidade de stress (neste sentido, stress refere-se a uma combinação de variáveis ambientais que retardam o crescimento: falta de nutrientes disponíveis, alta ou baixa temperatura, baixa disponibilidade de água).
Resumindo, espécies que, tal como a Senecio vulgaris, prosperam em ambientes com alto índice de perturbação mas com baixa intensidade de stress, são chamadas ruderais. São geralmente plantas anuais cuja estratégia é crescer depressa e concluir rapidamente os seus ciclos de vida, produzindo grande quantidade de sementes. São as primeiras a florir e as primeiras a deitar semente e geralmente morrem logo após a maturação dos frutos. Há quem lhes chame oportunistas mas eu diria que têm sentido de oportunidade e instinto de sobrevivência da espécie. Esta estratégia foi adotada em função das condições de perturbação em que vivem, isto é, têm que se despachar a produzir sementes para perpetuar a espécie, não vá acontecer nova degradação no local que ponha em risco a vida da planta antes de poder produzir frutos. Neste aspeto, as plantas ruderais diferem de forma consistente de outras plantas que adotaram diferentes estratégias de vida.

Ruderais, Competidoras e Tolerantes ao stress:
Parece não haver duvida que existe uma estreita ligação entre a taxa de crescimento de cada espécie e a sua ocorrência num determinado habitat. Esta é a ideia essencial das teorias desenvolvidas por alguns botânicos, entre eles J. P. Grime proeminente professor da Universidade de Sheffield no Reino Unido e autor de Universal adaptive strategy theory. De acordo com a UAST as estratégias das plantas são moldadas pelas possíveis combinações de dois fatores que fazem parte da vida das plantas: stress e perturbação. Já acima vimos como as Ruderais criaram estratégias que lhes permitem escolher habitats com alto grau de perturbação e baixo nível de stress, os quais são pouco competitivos em termos de espaço (no início dos distúrbios) garantindo a formação de comunidades florísticas variadas e abundantes. Se (ou quando) terminarem os fatores de perturbação num determinado local, ao mesmo tempo que se for dando o gradual decréscimo em perturbação, aumentam os níveis de stress e há-de chegar o dia em que as ruderais terão de procurar novo lugar para viver. É então que chegam as Stress-tolerators (Tolerantes ao stress) cuja estratégia lhes permite um lugarzinho em habitats com alto grau de stress e baixo nível de perturbação. São geralmente perenes com taxas de crescimento lento, folhas perenes, altas taxas de retenção de nutrientes e baixa plasticidade fisiológica. Muitas dessas espécies são freqüentemente encontradas em ambientes muito frios ou aridos, sombra profunda, solos deficientes em nutrientes e níveis extremos de pH.
Numa terceira categoria, as Competitors (Competidoras) são espécies de plantas que se desenvolvem em áreas de baixa intensidade tanto de stress como de perturbação. Destacam-se pela competição biológica pois dado que estes são os ambientes mais favoráveis para o desenvolvimento, os nutrientes sofrem grande solicitação. Estas plantas conseguem suplantar as outras rentabilizando os recursos disponíveis da forma mais eficiente, através de uma combinação de características favoráveis, incluindo a taxa de crescimento rápido, de alta produtividade (crescimento em altura, extensão, e massa de raízes), e alta capacidade de plasticidade fenotípica. Esta última característica permite que as competidoras sejam altamente flexíveis no aspeto morfológico ao mesmo tempo que ajustam a distribuição dos recursos ao longo das várias partes da planta conforme necessário, ao longo da estação de crescimento.

Estes são apenas os vértices de um triângulo, entre os quais existem muitas combinações possíveis.

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Fotos de Senecio vulgaris: Serra do Calvo/Lourinhã