"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Geranium purpureum Vill.

Nomes comuns: 
Erva-de-são-roberto;
bico-de-grou; bico-de-grou-robertino;  
erva-de-são-roque; erva-roberta; pássara

Geranium purpureum
A expansão das atividades agrícolas conta-se entre os muitos fatores associados às atividades humanas que causaram perturbação no equilíbrio dos habitats naturais. O abate intensivo de florestas, realizado ao longo de milénios, levou ao declínio populacional de algumas espécies vegetais. Em contrapartida, outras espécies tiraram partido da situação e aumentaram as suas populações de forma significativa tendo-se adaptado a ambientes mais ou menos artificializados pela ação humana. Essas espécies denominam-se ruderais (do latim ruder = cascalho) e caracterizam-se por uma grande diversidade florística. 
Echium plantagineum
Flores de todas as cores e morfologias sucedem-se ao longo do ano, alegrando pequenos e grandes espaços e servindo de alimento a muitas espécies de insetos; muitas delas são aromáticas, outras já se tornaram indispensáveis na farmácia do povo. 
Dittrichia viscosa
Crescem em zonas rurais ou suburbanas de preferência em cascalheiras, montes de entulho, campos baldios, fendas de muros e beiras de caminhos. O tipo de solo é-lhes geralmente indiferente mas procuram espaços enriquecidos em matéria orgânica. Não é que sejam gulosas, embora da fama não se livrem. 
Papaver rhoeas
Mas a verdade é que elas necessitam do suprimento nutricional adequado  ao seu curto ciclo de vida, tendo não só  a obrigação de crescer rapidamente mas também desenvolver flores, frutos e sementes férteis, tudo no espaço de uma estação.
Geranium purpureum
Contudo nem todas as plantas que vemos a crescer em meios antropogénicos são estritamente ruderais, podendo encontrar-se também em ambientes mais naturais. É o caso de Geranium purpureum uma espécie silvestre que também é nitrófila e ruderal. É fácil encontrá-la na vizinhança das populações rurais, especialmente em espaços por onde transitam humanos e gado mas também em matagais, pinhais, sebes, taludes, na orla dos bosques ou sob coberto das árvores pois aprecia os locais sombreados mas não demasiado secos. Esta espécie é nativa do norte de África, sudoeste asiático e continente europeu, com especial incidência na região mediterrânica. E uma espécie autóctone muito comum em quase todo o território de Portugal continental assim como no arquipélago da Madeira. Também existe em algumas ilhas do arquipélago dos Açores, onde se naturalizou.
Pertence ao género Geranium o qual se inclui na família Geraniaceae que, como já AQUI vimos, são grupos cheios de interesse. 
Geranium purpureum
Geranium purpureum é uma pequena planta herbácea cuja altura varia entre os 10 ou 35 cm de altura. O seu ciclo de vida é anual e inicia-se no outono com a germinação das sementes, florescendo e frutificando de março a agosto do ano seguinte. Exala um forte odor que para alguns é agradavelmente aromático, para outros nem por isso, contudo não deixa de ser muito característico.
Geranium purpureum
Os caules são delgados, avermelhados e de seção cilíndrica; podem ser eretos, ascendentes ou mesmo prostrados e estão cobertos de pelos glandulares e não glandulares, sobretudo na parte superior; são ramificados desde a base e formam pequenas moitas.
Geranium purpureum
As folhas, com pelos em ambas as páginas, colocam-se nos caules de forma oposta, ligando-se a eles através de longos pecíolos.
Geranium purpureum
Apresentam limbo de contorno triangular ou pentagonal, profundamente dividido em 3 a 5 segmentos que por sua vez se subdividem em segmentos secundários oblongos. 
Geranium purpureum
As estipulas, de forma ovada, são glabras embora providas de pelos finos nas margens.
Geranium purpureum
Tal como acontece com os caules, as folhas podem tornam-se avermelhadas, podendo apresentar vários tons de verde e vermelho, em simultâneo. O nome específico purpureum refere-se precisamente à coloração vermelha das folhas e caules.
Geranium purpureum
As pequeníssimas e delicadas flores surgem aos pares nas axilas das folhas superiores, no topo de pedúnculos longos e peludos, com pequenas bractéolas avermelhadas na base.
Cada corola é formada por 5 pétalas inteiras e de cor rosa-malva, com veios mais escuros, possivelmente linhas que conduzem os insetos polinizadores às bolsas de néctar, localizadas na base de cada pétala. 
Geranium purpureum
O cálice é composto por 5 sépalas estreitamente lanceoladas e mais curtas que as pétalas, com pelos glandulares densos e margens escariosas, firmes e translucidas. 
Geranium purpureum
Existem órgãos femininos e masculinos em cada uma destas flores. Os estames são 10, todos férteis e fornecem pólen amarelo a partir de anteras também amarelas. O ovário é formado pela união de 5 carpelos e dele emerge um estigma que se divide em 5 braços filiformes de cor rosa ou purpura.
A polinização é feita por insetos mas à semelhança de outras espécies do mesmo género (e.g. Geranium molle  e Geranium dissectum  ) o Geranium purpureum é autocompativel, ou seja, está preparado para complementar a fertilização através da  autopolinização, assegurando a produção de sementes viáveis, quer receba a vista dos insetos, quer não. Planta prevenida...
Geranium purpureum
O fruto de Geranium purpureum é formado por 5 mericarpos independentes, unidos por fibras denominadas aristas, a uma coluna alongada (em forma de bico de ave) a qual é formada pelo conjunto do estilete e estigma que se alongam e continuam a crescer até à maturação completa.
A dispersão das sementes das espécies do género Geranium é feita por expulsão violenta, como já vimos anteriormente. Tal acontece devido às propriedades higroscópicas das aristas (fibras que seguram os frutos). À medida que vão ficando desidratadas e distorcidas as aristas acumulam tensão semelhante à de um elástico esticado, de modo que, chegado o momento da rutura, se dobram repentinamente, catapultando as sementes a considerável distância da planta-mãe. Contudo, existem algumas diferenças de espécie para espécie na forma como este processo se desenrola. É como se cada uma delas necessitasse de impor alguma da sua personalidade própria, individualizando um processo demasiado uniforme e previsivel.
No caso de Geranium purpureum as sementes são catapultadas não só com  a membrana do mericarpo que as envolve, num processo semelhante ao de Geranium molle, mas também com  dois fios finos. Não se sabe exatamente para que servem estes fios mas possivelmente será para se agarrarem a qualquer outra planta, ferrramenta muito útil no caso de terrenos muito inclinados.
Semente de G.robertianum agarrada à arista e aos dois fios que lhe servem de freio, situação semelhante à de G.purpureum
Fonte
De notar que Geranium purpureum é muito semelhante a outra espécie do mesmo género Geranium robertianum L. com a qual pode facilmente ser confundida. Ambas as espécies têm características morfológicas muito semelhantes a olho nu e convivem nos mesmos habitats.
A principal diferença está no facto de que todas as partes de G.purpureum são mais pequenas que as de G. robertianum, especialmente no que diz respeito ao tamanho da flor. Outra diferença facilmente detetável é a cor das anteras que são amarelas no Geranium purpureum e laranja escuro no Geranium robertianum.

A- flor de Geranium purpureum
B- flor de Geranium robertianum

Por Yeo, 1973
Fonte - Pavol Elias Jun.Dept of Botany, Slovak University of Agriculture


Devido à sua semelhança morfológica há quem considere que G.purpureum e G. robertianum são subespécies ou híbridos, contudo para a maioria dos cientistas não restam duvidas de que se trata de espécies diferentes. Algumas das diferenças estão registadas neste quadro:
Fonte - Pavol Elias Jun.Dept of Botany, Slovak University of Agriculture

À esquerda - semente de Geranium purpureum
À direita - semente de Geranium robertianum
Fonte
O forte e característico odor exalado pela planta deve-se aos componentes que entram na sua composição química, com referência especial para os taninos. Estes metabólitos secundários dão-lhe o sabor amargo mas também lhe conferem  as suas propriedades terapêuticas, sendo usada pelas populações em infusões e cataplasmas,  há centenas de anos. Diz o povo que tem propriedades anti-inflamatórias, antibacterianas, antidiarreicas, anticancerígenas, entre outras e que é especialmente eficaz como purificadora do sangue e do fígado. 
A utilização de certas plantas como medicamentos é praticamente tão antiga como a espécie humana e está mais do que provado que as espécies vegetais continuam a ter grandes potencialidades farmacêuticas. Mas, como em tudo, é necessário observar certas regras e seguir os conselhos de quem tem os conhecimentos necessários. Se resolver fazer a recolha pessoalmente certifique-se que identificou corretamente a planta e que nenhuma outra vem misturada. Por outro lado informe-se sobre quais são as partes da planta que deve usar e qual a forma correta de o fazer.

Fotos de Geranium purpureum: Serra do Calvo e Caniçal/Lourinhã.


quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Geranium dissectum L.

Nomes comuns: Bico-de-pomba, coentrinho

Geranium dissectum
Geranium dissectum é mais uma mimosa herbácea do género Geranium o qual se inclui na família Geraniaceae (Veja informações sobre este género e família AQUI). 
Esta é uma espécie anual, que rapidamente esgota o seu ciclo de vida. Mas quase não se dá por isso; embora definhe com o verão, logo ressurge com as primeiras chuvas de outono, recomeçando a partir de semente e trabalhando arduamente até voltar a dar fruto, num circulo continuo de esperança.
Geranium dissectum
Geranium dissectum é nativa da Europa (exceto o extremo norte), Macaronésia, noroeste de África, Médio Oriente e também sudoeste e centro asiático. Encontra-se como espécie introduzida e naturalizada no continente americano (norte e sul), Japão, Austrália e Hawai.
É frequente em quase todas as regiões do nosso território, sendo uma espécie autóctone de Portugal continental e do arquipélago da Madeira. Foi introduzida nos Açores, onde se está naturalizada.
Esta planta raramente é encontrada em pastagens ricas, parecendo preferir áreas abrigadas, pouco ervadas e onde o solo é fofo por ter sido recentemente remexido ou de alguma forma perturbado, nomeadamente na beira de caminhos, orla dos bosques, campos cultivados ou baldios. Gosta de terrenos húmidos mas tolera o solo moderadamente seco e pedregoso, desde que seja rico em nutrientes. 
Geranium dissectum
Curiosamente estas plantas não são consumidas pelo gado pois são ricas em metabólitos secundários (taninos) que atuam como defensores contra o ataque de herbívoros, tornando o seu sabor desagradável. O tanino é antisetico, altamente adstringente e tónico, pelo que toda esta planta, sobretudo a raíz, é muito usada em medicina alternativa, no tratamento de um um amplo leque de distúrbios alimentares. Também é útil no tratamento de feridas e inflamações. Recomenda-se que a colheita das plantas seja feita durante a sua floração não só para evitar confusões com espécies parecidas mas principalmente porque o teor em tanino é maior. Por esta mesma razão a recolha de folhas e sementes deve ser realizada antes da maturação dos frutos. Após a colheita devem ser colocadas a secar em lugar fresco e escuro e depois usadas em chás e infusões. Nunca é demais salientar que a ingestão de qualquer planta deve ser feita sob aconselhamento de quem tem os conhecimentos necessários. Existe a crença que “por ser natural, não pode haver mal” mas não esqueçamos que todas as plantas têm alguma dose de toxicidade.
Geranium dissectum
Em redor da raiz principal, geralmente muito longa, surgem caules simples ou múltiplos formando uma espécie de roseta e que podem ir dos 10 aos 50 cm de comprimento nas plantas adultas.
Geranium dissectum
Os caules ramificam-se  a partir da base ou dos nós, têm aparência robusta e podem ser eretos ou ascendentes, desenvolvendo primeiro uma pequena extensão no sentido horizontal, encurvando-se depois até assumirem uma postura quase vertical; são densamente pubescentes estando cobertos por pelos fracos e densos, não glandulares.


As folhas, cobertas de pelos curtos, apresentam contorno circular e nervuras bem marcadas que irradiam de um ponto central. São profundamente recortadas formando 5 lóbulos estreitos e irregulares que por sua vez também são recortados na metade superior. Aliás, o nome especifico dissectum, identificativo desta espécie, deriva da união do prefixo grego dis (= 2) com o termo latino sectus (= fenda ou fissura), numa clara referência aos recortes das suas folhas, primariamente divididas em 5 segmentos e depois subdivididas. (Jaeger 80,234).  
As primeiras folhas aparecem isoladas na extremidade de longos pecíolos dispondo-se alternadamente em espiral; as folhas caulinares dispõem-se de forma oposta e não só são mais pequenas que as basais mas também têm pecíolos mais curtos; na sua base existem 2 estipulas, de forma triangular e tingidas de vermelho.
Geranium dissectum

Pormenor das estipulas de Geranium dissectum

NOTA sobre as estípulas:
Apenas cerca de um terço das angiospermas (plantas com flor, o maior e mais moderno grupo de plantas, englobando cerca de 230 mil espécies) possuem estipulas. Estas aparecem aos pares e variam de espécie para espécie, em tamanho e morfologia; podem ser estruturas laminares, glândulas, pelos, espinhos ou escamas; algumas são caducas e outras são perenes; por vezes são insignificantes, outras vezes são de tal forma desenvolvidas que se confundem com verdadeiras folhas, ajudando no processo da fotossíntese; podem transformar-se em gavinhas, para ajudar no crescimento vertical da planta ou em espinhos, como forma de reduzir a predação por vertebrados herbívoros; em muitas espécies as estipulas são pequenas e residuais, sem nenhuma função óbvia; noutras espécies evoluíram para nectários extraflorais atraindo formigas (com as quais estabelecem interações mutualistas, de que beneficiam tanto as plantas como as formigas).
A função primitiva das estipulas permanece algo obscura e a maioria das angiospermas que não as tem, não parece sentir-lhes a falta. Contudo, a ausência destas estruturas é tão importante como a sua presença, pois é um fator fundamental na identificação das espécies.
Geranium dissectum
As flores de Geranium dissectum despontam geralmente aos pares na extremidade de um pedúnculo longo que parte das axilas das folhas e que se divide em dois pedicelos curtos, um para cada flor e os quais estão densamente cobertos de pelos glandulares.
Geranium dissectum
São flores diminutas, mas muito bonitas na sua simplicidade; quase parecem tímidas mas curiosas, pela forma como se escondem e ficam a espreitar por entre a densa folhagem musgosa. Sem prejuízo do prazer que retiramos da sua presença no campo ou em algum recanto abandonado na cidade, devo dizer que qualquer das espécies silvestres de Geranium  tem lugar num jardim, seja qual for o seu estilo. Podem ser-nos muito úteis se as usarmos como cobertura de solo, preenchendo espaços que de outra forma ficam à mercê de ervas não desejadas. A verdade é que quando planeamos os nossos canteiros geralmente damos toda a importância às espécies de flores e arbustos que lhe podem dar visibilidade e esquecemo-nos do solo que por vezes tanto trabalho nos dá a mondar. As plantas de cobertura estão a ser cada vez mais utilizadas pois não só nos permitem poupança de esforço na luta contra as ervas indesejadas mas também fornecem sombra ao solo, mantendo a humidade, protegendo-o da erosão e propiciando a reciclagem dos nutrientes.
Geranium dissectum
As flores de Geranium dissectum apresentam 5 pétalas de cor rosada em cuja base existem glândulas nectaríferas; o ápice de cada pétala é ligeiramente chanfrado, embora não tão profundamente como no Geranium molle

Geranium dissectum
As 5 sépalas são eretas, de forma elíptica, livres e agudas; os pelos interiores são simples e os exteriores estão providos de glândulas. No caso desta e outras espécies do género Geranium as sépalas não se limitam a proteger o botão floral; elas permanecem para proteger também o fruto até à maturação. Isto é, as sépalas abrem quando as pétalas se expandem na ântese mas quando estas terminam a sua função e definham, as sépalas fecham-se de novo sobre os frutos em formação, para voltar a abrir quando as sementes engrossam e ficam até estas amadurecerem por completo. 
Geranium dissectum
Inicialmente as sépalas apresentam tamanho semelhante ao das pétalas mas continuam a crescer até à maturação dos frutos.
Foto Wikipedia by Fornax
Cada flor apresenta órgãos reprodutores masculinos e femininos. Os órgãos masculinos são constituídos por 10 estames todos férteis, dispostos em duas séries; as anteras, geralmente de cor azul-violeta, produzem pólen de um tom azulado.
Entre os estames podem ver-se os cinco braços estigmáticos (correspondentes aos 5 carpelos que constituem o ovário), de linda cor purpura e cuja estrutura tem a consistência apropriada para recolher os grãos de pólen; estes serão de imediato encaminhados para o ovário, através do tubo denominado estilete, por forma a permitir que os óvulos aí presentes sejam fecundados. O ovário de Geranium dissectum, tal como acontece com as outras espécies do género, é formado por 5 carpelos que vão dar origem a um fruto com 5 mericarpos, cada um com a sua semente, os quais crescem e se desenvolvem em redor do estilete. 
Geranium dissectum
O estilete cresce continuamente até à maturação, expandindo-se e transformando-se numa estrutura colunar semelhante a um bico de pássaro.
As flores de Geranium dissectum florescem e frutificam de março a julho ou agosto, dependendo da disponibilidade de água no solo. Apesar da oferta de néctar, numa tentativa de atrair polinizadores, existe o risco de não se registarem suficientes visitas de insetos. É que estas plantas podem passar despercebidas não só pelo tamanho diminuto das suas flores mas também pelo seu hábito rasteiro. Por outro lado a época fértil dos seus estames e pistilos coincide com uma altura do ano em que os insetos têm muito que comer, não sabendo para onde se virar com tantos banquetes à sua disposição. Desta forma, Geranium dissectum socorre-se da autopolinização, situação que é favorecida pela proximidade física de estigmas e estames, tanto mais que aqueles ficam recetivos quando as anteras dos estames ainda não derramaram todo o seu pólen.
Frutos de Geranium dissectum
O fruto de Geranium dissectum é constituído por um agrupamento de 5 sementes situadas na base da coluna (bico); cada semente está encerrada dentro de uma cápsula (mericarpo) que está ligada à coluna através de uma haste denominada arista que, ao expulsar as sementes fica arqueada, em forma de vírgula. Inicialmente a arista faz parte da estrutura da coluna mas gradualmente vai-se separando.
A parte interessante acontece quando as sementinhas ficam maduras e têm de deixar o aconchego da casa materna para ficarem por sua conta e risco. Tendo em conta que o objetivo de cada planta é a perpetuação da sua espécie, não só a produção de sementes é importante como também a estratégia para a sua dispersão tem de ser bem pensada para ser apropriada e eficaz. As espécies Geraniaceae, geralmente de baixa envergadura, adotaram um sistema de dispersão muito interessante que catapulta as sementes a distâncias consideráveis, numa tentativa de expandir o seu território mas evitando a concorrência direta com as suas vizinhas da mesma espécie.
Existem pequenas diferenças, de espécie para espécie, na forma como a dispersão é realizada mas basicamente todos os processos têm a ver com as propriedades higroscópicas da camada interior das aristas (segmentos que ligam os mericarpos à coluna) que, ao ficarem desidratadas, vão criando tensão semelhante à de um elástico esticado. Chegado o momento da rutura as aristas dobram ou torcem repentinamente, arremessando as sementes de forma violenta.
Esquema 1 - Fonte
a) mericarpo posicionado em angulo reto aguardando o momento de catapultar a semente
b) posição pós-expulsão da semente
c) o involucro do mericarpo ainda ligado à arista e à coluna
d) semente
Há um pormenor interessante a considerar, ou seja, estando as sementes encerradas no mericarpo, em que momento se abrem “as portas” para que as sementes possam ser expelidas, sem que escapem antes de tempo?
Esquema 2 - Fonte
É preciso recordar que os mericarpos correspondem aos carpelos e que os mesmos são folhas modificadas dobradas sobre si mesmas. Uma vez que as bordas estão viradas para o interior, esta cápsula só abre para dentro e assim sendo, é legítimo pensar que quando o mericarpo explode violentamente, não resta outra opção à sementinha que não seja a de embater violentamente contra a parede. A verdade é tal não acontece porque esta dificuldade foi prevista pelas espécies Geranium e é superada de formas diferentes consoante as espécies. 
Fonte Flora-on
Foto de Ana Júlia Pereira, mostrando invólucros e aristas presos à coluna, após a expulsão das sementes

No caso de Geranium dissectum o que acontece é o seguinte: algum tempo antes da deiscência os mericarpos posicionam-se em ângulo reto em relação à coluna central; entretanto as bordas do mericarpo separam-se mas logo surge uma franja de pelos suficientemente fortes para segurar as sementes no seu lugar mas sobejamente elásticos para permitir-lhes escapar quando se der a “explosão”. Após a expulsão, as aristas e invólucros dos mericarpos ficam ligados à coluna, enrolando-se para cima mas ficando presos pelas extremidades superiores.
Assim, enquanto no Geranium molle os mericarpos são ejetados de forma completa (com invólucro do mericarpo, semente e arista), no caso de Geranium dissectum apenas as sementes são catapultadas.

NOTA:
As espécies silvestres do género Geranium são por vezes muito semelhantes sendo fácil confundi-las. Existem, no entanto, algumas características que permitem a sua identificação. Geranium molle e Geranium dissectum são as duas espécies mais comuns no nosso território. Apesar de G. dissectum apresentar folhas com segmentos mais estreitos do que G. molle, nem sempre é seguro diferencia-las pela folhagem pois existe grande variabilidade. A forma mais fiável é através dos pelos das sépalas que em G. dissectum são todos curtos e em G. molle coexistem dois tipos de pelos de tamanhos diferentes, como podemos observar no seguinte quadro comparativo da Flora-on:

Fotos de Ana Júlia Pereira
Fotos de Geranium dissectum: Serra do Calvo/Lourinhã 



sábado, 15 de novembro de 2014

Geranium molle L.

Nome comum: Bico-de-pomba-menor

Geranium molle
Geranium molle é uma espécie de origem europeia (desde a Península Ibérica e bacia do Mediterrâneo até à Escandinávia), arquipélagos da Madeira e Canárias, Ásia temperada e tropical e Norte de África. Foi introduzida no arquipélago dos Açores, África do Sul, Austrália e continente americano onde se naturalizou, sendo considerada uma erva invasora em algumas destas regiões.
Esta planta é frequente praticamente em todas as regiões do nosso país, embelezando a beira dos caminhos, muros de pedra e terrenos incultos ou de pousio, contribuindo para a riqueza nutritiva e a regularização da humidade dos solos. Também consegue desenvolver-se em situações de grande pressão ambiental, quer em terrenos degradados por lixos e entulhos, quer na proximidade de habitações citadinas. Geralmente cresce associada a outras plantas de morfologia semelhante, sejam do mesmo género ou de géneros aparentados, nomeadamente G.dissectum, G. rotundifolium, G. purpureum e também Erodium malacoides e E. moschatum. Falaremos destas espécies em futuras publicações e da melhor forma de as distinguir.
Geranium molle
Se lhe for permitido crescer em jardins, Geranium molle torna-se muito útil como cobertura de solo, impedindo a proliferação de ervas indesejadas. Espalha-se pelo chão em comprimento ou se preferirmos, pode crescer em altura desde que lhe providenciemos apoio. É uma planta anual mas cresce rapidamente e ressemeia-se com facilidade, sendo no entanto relativamente fácil restringir-lhe o tamanho. Cresce bem em locais sombreados mas prefere o sol pleno.
Geranium molle é uma espécie da família Geraniaceae e está incluída no género Geranium. Pode ver mais detalhes sobre esta família e género AQUI

Geranium molle
O nome específico molle vem do latim e significa mole ou suave, numa clara referência ao tipo de pelos que cobrem as diferentes partes da planta, os quais são brancos e macios, uns maiores que os outros; os pelos mais curtos estão providos de glândulas secretoras de substâncias aromáticas, ao contrário dos pelos compridos que não possuem glândulas. Esta é uma característica própria que nos permite distinguir esta espécie de outras semelhantes.
Os caules de Geranium molle são muito ramificados, tenros e frágeis, eretos ou ascendentes e podem chegar aos 60 cm de comprimento.
Geranium molle
Na generalidade, as folhas apresentam um contorno arredondado bem visível mas o limbo apresenta recortes profundos formando entre 5 a 7 lóbulos, os quais por sua vez também se encontram recortados, terminando num ápice arredondado.
A maior parte da folhagem nasce ao nível do solo formando uma espécie de roseta à qual as folhas estão ligadas por longos pecíolos. 
Geranium molle
Em contrapartida, as folhas dos caules superiores são de tamanho bastante mais pequeno e mostram pecíolos muito reduzidos.
Geranium molle
De forma geral, as pequenas flores nascem em grupos de 2 ou 3, na axila das folhas superiores e estão providas de longos pedúnculos, os quais são eretos durante a floração mas que se curvam para baixo quando se inicia a frutificação. 
Geranium molle
São flores pequenas mas muito mimosas, com 5 pétalas de cor rosa ou lilás, apresentando um entalhe profundo no ápice que parece dividir cada pétala em duas. Durante a floração esta característica permite distingui-la de imediato de outras espécies da mesma família.  
Geranium molle
As 5 sépalas que formam o cálice apresentam cor verde e são livres, eretas e algo rígidas; externamente, estão cobertas por pelos curtos glandulares e por pelos compridos mas sem glândulas; embora sejam ligeiramente mais curtas que as pétalas, continuam a crescer após a floração e até à maturação do fruto.
Pormenor dos órgãos reprodutivos da flor de Geranium molle.
Fonte: Wikipedia
As flores estão munidas de órgãos reprodutivos masculinos e femininos funcionais. Os 10 estames, fusionados na base, apresentam anteras bilobadas de um bonito tom azulado; dispõem-se em duas séries em redor do ovário, de forma que os 5 da série externa estão opostos às pétalas e alternam com os 5 da série interna que se situam opostos às sépalas; na base de cada um destes últimos existe uma glândula nectarífera. Encaixados entre os estames podem ver-se os 5 braços estigmáticos de aspeto aveludado e bela cor púrpura, cuja missão é recolher os grãos de pólen que serão conduzidos ao ovário através do estilete.
Geranium molle
Esta espécie floresce durante a primavera e verão, época do ano em que a concorrência é grande entre as plantas que precisam de ser polinizadas. Alimento não falta aos insetos que têm muito por onde escolher e as flores do Geranium molle tentam compensar a pouco visibilidade que lhes confere o seu diminuto tamanho, oferecendo néctar aos polinizadores. Ainda assim, imprevistos podem acontecer e Geranium molle prefere jogar pelo seguro. Isto é, sendo que o verdadeiro objetivo das plantas é a perpetuação da sua espécie através da produção de frutos, quantas mais sementes produzir, melhor. Nesta conformidade Geranium molle não fecha as portas à autopolinização, a qual, nesta espécie, é favorecida pela proximidade física de estigmas e estames, tanto mais que aqueles ficam recetivos quando as anteras dos estames da série exterior ainda não derramaram todo o seu pólen. É verdade que entre as plantas silvestres a polinização cruzada é mais comum e aparentemente desejável como forma de promover a variabilidade genética. No entanto, em certas situações a autopolinização pode ser mais vantajosa. Este é mais um assunto interessante que teremos de deixar para uma futura publicação.
Frutos imaturos de Geranium molle: protegido pelas sépalas do cálice o ovário (formado por 5 compartimentos que irão dar origem a 5 sementes) começa a inchar e a coluna em forma de bico de ave começa a alongar-se.
O fruto de Geranium molle é um esquizocarpo. Este é constituído por um conjunto de 5 cápsulas ou mericarpos, cada um deles com a sua semente. 
Mericarpos de Geranium molle, em redor da coluna à qual estão ligados por uma arista.
Fonte
Estes 5 mericarpos estão agrupados em volta de uma coluna alongada (formada pelo conjunto dos órgãos do pistilo – ovário, estilete e estigma), estrutura essa que, após a fecundação, se alonga e continua a crescer até à maturação das sementes, ficando semelhante a um bico de ave. 
Ilustração de semente e arista de Geranium molle
Fonte
Cada mericarpo está ligado à coluna central através de uma arista, formação delgada, longa e rígida, constituída por tecidos especializados e sensíveis à humidade. 
Nesta foto apresentada pela Flora-on, Ana Júlia Pereira captou dois momentos chave na dispersão das sementes da espécie Geranium molle, o "antes" e o "depois": 
À esq.  o fruto maduro nos momentos que antecedem a expulsão das semente
À dta.  o cálice vazio após as sementes terem sido catapultadas
Através das suas propriedades higroscópicas, as aristas têm um papel preponderante no complexo sistema de dispersão. À medida que as sementes amadurecem as aristas vão ficando desidratadas e distorcidas, produzindo tensão (semelhante à de um elástico esticado) que se acumula na estrutura até que, chegado o momento da rutura as aristas se dobram repentinamente, catapultando as sementes a considerável distância da planta-mãe. No caso desta espécie as sementes seguem viagem ainda envoltas no invólucro do mericarpo (noutras espécies, o invólucro rasga-se e apenas as sementes são ejetadas).  De notar, contudo, que no Geranium molle a arista nem sempre acompanha o mericarpo, havendo situações em que fica agarrada à coluna.
Esquema de expulsão do carpelo típica de Geranium molle
Fonte
Embora não existam estudos que comprovem propriedades medicinais em Geranium molle, a verdade é que esta planta tem sido usada sob a forma de chás e infusões desde tempos antigos, na terapia de muitas maleitas, nomeadamente no tratamento de feridas ou úlceras e no alívio de dores musculares e articulares.


NOTA:
As espécies silvestres do género Geranium são por vezes muito semelhantes havendo a possibilidade de facilmente as confundirmos. Existem, no entanto, algumas características que permitem a sua identificação. Geranium molle e Geranium dissectum são as duas espécies mais comuns no nosso território. Apesar de G. dissectum apresentar folhas com segmentos mais estreitos do que G. molle, nem sempre é seguro diferencia-las pela folhagem pois existe grande variabilidade. A forma mais fiável é através dos pelos das sepalas que em G. dissectum são todos curtos e em G. molle existem dois tipos de pelos de tamanhos diferentes, como podemos observar no seguinte quadro comparativo da Flora-on:



Fotos de Geranium molle: Serra do Calvo/Lourinhã.