"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

As urzes - Géneros Daboecia, Erica e Calluna / Família Ericaceae

As urzes
Matos de altitude dominados por urzes
Fonte - BIOREDE (Departamento de biologia da Universidade de Aveiro)
Entre os muitos nomes adotados pelo povo das diferentes regiões do nosso país para designar os pequenos arbustos dos géneros Erica e Calluna, o termo urze é sem dúvida o mais comum, sendo praticamente transversal a todas estas espécies. Na verdade elas apresentam características morfológicas bastante semelhantes pelo que, à primeira vista podem prestar-se a uma certa confusão.
Existem no mundo aproximadamente 860 espécies de urzes das quais cerca de 760 ocorrem na África do Sul, estando na sua maioria concentradas no parque natural de Cape Floral Kingdom, localizado entre Cape Town e Port Elizabeth. Na Europa ocorrem 21 espécies e as restantes distribuem-se por algumas partes da África Austral, nomeadamente Madagáscar e Mascarene Islands.
De notar que as urzes africanas exibem uma enormíssima diversidade quer na forma, quer na cor e tamanho das suas flores. As urzes europeias apresentam flores pequenas reunidas em cachos longos e anafados.

As espécies nativas europeias dividem-se em três géneros, todos representados em Portugal: Daboecia, Erica e Calluna.

Género Daboecia:
O género Daboecia Inclui apenas 2 espécies, sendo uma delas endémica dos Açores.
Ambas diferem das espécies de Erica e Calluna por produzirem flores com uma corola bojuda substancialmente maior. As folhas também são maiores, com limbo alargado.

Daboecia cantabrica (Huds.) K. Koch
Nasce espontaneamente em áreas costeiras da Irlanda, França, Espanha e Portugal (do Minho à Beira Litoral). Distingue-se de Daboecia azorica por ter pelos na corola e ter folhas maiores.
Daboecia cantabrica
Esquerda - Fonte: Wikipedia / Foto de Merce/Madrid
Direita - Fonte: Wikipedia /Foto de Johan N.
Daboecia azorica Tutin & Warb.
Esta espécie encontra-se exclusivamente no Arquipélago dos Açores e dada a sua raridade é espécie protegida pela Convenção de Berna e pela Diretiva Habitats.
Distingue-se de Daboecia cantábrica por ter folhas mais pequenas e não ter pelos na superfície da corola.
Daboecia azorica
Fonte:  SIARAM - Flora vascular dos Açores
Género Erica
O género Erica é o que tem maior número de espécies no nosso país, sendo representado por 10 espécies. Seguem-se fotos de cada uma dessas espécies, disponibilizadas pelo Portal Flora-on, da Sociedade Portuguesa de Botânica. Para aceder ao ficheiro completo de fotos de cada uma das espécies basta clicar no link colocado por baixo de cada foto, em legenda.
Erica inclui arbustos perenes, de pequeno ou médio porte e ainda algumas espécies arbustivas. Identificam-se pelas suas folhas pequenas e lineares que se dispõem, viradas para fora, em verticilos de 3 ou 4, em torno dos ramos estreitos; as flores, muito numerosas e com corolas bojudas, agrupam-se em cachos muito alongados. As flores apresentam tons de rosa, claro ou escuro, lilás e por vezes branco.
As plantas deste género são conhecidas na língua inglesa por “heaths”.

Erica australis                                  Erica ciliaris
Fonte: Flora-on                                Fonte: Flora-on
Foto de Sérgio Chosas                      Foto de C E. Ramalho
Erica cinerea                                   Erica erigena
Fonte Flora-on                                Fonte Flora-on
Foto: Joana Camejo                      Foto: Miguel Porto
Erica lusitanica                                           Erica scoparia
Fonte: Flora-on                                           Fonte: Flora-on
Foto: Ana J.Pereira                                   Foto: J.D.Almeida
Erica tetralix                                                Erica umbellata
Fonte: Flora-on                                            Fonte: Flora-on
         Foto: A.J.Pereira                                         Foto: C.E.Ramalho    

Erica andevalensis                                         Erica arborea
                             Fonte: Flora silvestre mediterranea         Fonte: Flora-on - Foto de Miguel Porto    
             
                                                


Género Calluna
Este género tem apenas uma espécie, Calluna vulgaris, cuja distribuição é muito ampla. As plantas deste género são conhecidas na língua inglesa por “heathers”.
Embora semelhante a outras urzes no aspeto geral, Calluna tem carateristicas próprias, como veremos no próximo post, o qual será dedicado em exclusivo a esta espécie.
(Veja mais sobre Calluna vulgaris clicando AQUI).
Calluna vulgaris 
Na generalidade, as urzes do campo são espécies muito resistentes. Embora gostem de alguma humidade, suportam bem as secas estivais. A maioria das espécies também não se incomoda especialmente com o frio. Não só aguentam estoicamente as baixas temperaturas e a neve das regiões montanhosas como até parecem aprecia-las. Atrevo-me a pensar que, após as intempéries, elas fazem questão de se preparar para florescer mais profusamente e com mais cor, fazendo prova do seu forte carater e tenacidade. E se é certo que elas evocam o lado rude e agreste da natureza, em contrapartida não se lhes pode negar a fragrância e a beleza requintada das suas flores.

As urzes florescem de forma abundante e generosa. Cada pequena flor está provida de um disco nectarífero, cujo néctar, petisco delicado e nutritivo, atrai vários tipos de insetos, induzindo-os a colaborar nos processos de polinização. Por lá andam também, atarefadas, numerosas abelhas melíferas, recolhendo o néctar que irá enriquecer a sua produção de mel com sabor predominante a urze.

Em Portugal as urzes distribuem-se um pouco por todo o território, desde as dunas do litoral até as zonas montanhosas, medrando em solos pobres, de maior ou menor grau de acidez, consoante a espécie, mas nunca em solos com calcário, os quais são alcalinos. As urzes são, portanto, plantas silicícolas ou seja, indicadoras de solos não calcários, resultantes da erosão de rochas magmáticas ou metamórficas, como granitos, quartzitos, xistos e gnaisses.

As urzes crescem de forma espontânea em matagais, clareiras de bosques ou sob coberto de pinhais e sobreirais. Em zonas de matos baixos e solo ácido são espécies recorrentes, geralmente associadas a outras comunidades vegetais que partilham os mesmos gostos, nomeadamente estevas, tojos, carquejas e sargaços. Em épocas de floração, quem viaja pelas estradas do país não terá dificuldade em reconhece-las, sobretudo em zonas de pinhal, formando como que uma névoa rosada, raramente totalmente branca.

Sobre o solo ácido:
O pH (potencial hidrogénio) é um índice que mede o nível de acidez ou alcalinidade do solo ou de uma qualquer substancia, variando numa escala que vai do 0 a 14.
Quanto mais baixo é o índice mais acida será a substancia em questão. Assim, um pH ácido apresenta valores entre 1 e 6 enquanto 7 é neutro e de 8 a 14 é básico ou alcalino.
O pH do solo pode variar de região para região e tem a ver com vários elementos, entre eles o clima e os componentes edáficos.
A acidez ou a alcalinidade condicionam a atividade dos microrganismos presentes no solo e a disponibilidade de nutrientes, de forma que os solos ácidos são pobres enquanto os solos alcalinos apresentam maior produtividade. Num solo acido a decomposição dos restos orgânicos realiza-se muito lentamente e podem ocorrer toxicidades de alumínio e manganésio ao mesmo tempo que existe deficiência em nitrogénio, cálcio, fosforo e magnésio ou micronutrientes. Estes solos não aguentam adubação com estrume nem adubos químicos que contenham nitrogénio/azoto pois as plantas que neles vivem não o consegue processar. Contudo podem adubar-se com composto resultante de resíduos orgânicos.
Verdade seja dita que nos solos alcalinos, particularmente nos calcários, também existem algumas deficiências nomeadamente em fosforo, ferro, zinco, boro e manganésio, podendo ser corrigido com estrume, adubos químicos ou composto orgânico.
Pode corrigir-se a acidez do solo aplicando-lhe calcário. Para acidificar um solo alcalino junta-se-lhe enxofre, sulfato de alumínio ou quelatos de ferro.
Embora algumas das espécies que vivem em solos ácidos também sejam tolerantes aos solos alcalinos outras existem que apenas sobrevivem e se desenvolvem em solos ácidos. É caso das gardénias, camélias, rododendros/azáleas, entre outras espécies ornamentais muito apreciadas. As hortênsias são um caso curioso pois embora precisem ocasionalmente de um acidificante (quando as folhas começam a perder a cor verde ao longo das nervuras), dão-se bem tanto em terra ácida (neste caso as flores nascem azuis) como em terra alcalina (as flores tornam-se cor-de-rosa).

Urzes de viveiros, cultivares e híbridos
Fonte: White Flower Farm
Há muito que as urzes ganharam reputação como espécies bastante decorativas, sendo resistentes, elegantes e não exigindo cuidados especiais. São muito apreciadas para fins ornamentais e apropriadas para uma ampla gama de situações, podendo ser plantadas diretamente no solo ou em vasos, uma vez que seja assegurado o grau adequado de acidez do substrato.
Por estas razões diversas espécies de urzes têm sido cultivadas para criar variedades com diferentes características sobretudo quanto ao porte e à cor. E assim surgiu no comércio das plantas ornamentais uma incrível quantidade de cultivares, ascendendo a muitas centenas. Em certos países podem ser adquiridos cultivares com todas as opções imagináveis, desde plantas anãs a arbustivas ou de medio porte e até rastejantes. A folhagem pode variar do amarelo mais claro ao verde mais escuro, passando pelo laranja e o bronze. Também se encontram cultivares de flores simples, dobradas e de cores variadas, nomeadamente branco puro, vários tons de rosa, salmão, lilás, malva, roxo ou vermelho. Além disso, todos esses cultivares são geralmente classificados de acordo com o período de floração havendo espécies que florescem entre junho e julho, outras que florescem em agosto e setembro, outras ainda que dão flor de outubro a dezembro.

Yurigahara Park - Japão
Em geral plantam-se as urzes, em pleno sol ou meia sombra, em manchas de vários pés da mesma variedade, formando tapetes de cores mistas quer em bordaduras ou em jardins de rocha. Estes tapetes coloridos ficam espetaculares se forem plantados contra um fundo de pequenas coníferas para dar altura ao conjunto que de outra forma seria uma extensão relativamente incaracterística. Embora as urzes costumem ficar melhor quando plantadas em grupo também se podem produzir bonitos exemplares isolados. Quando o solo do jardim não é ácido a solução é plantar as urzes em vasos, em substrato apropriado à venda nos viveiros. Se apesar de tudo quisermos coloca-las no solo, o substrato calcário terá de ser substituído por terra acida até à profundidade de 30 cm, pelo menos. As variedades pequenas colocam-se a intervalos de 20 cm a 40 cm conforme sejam de menor ou maior porte. Há que ter em conta que se as regas forem efetuadas com água calcária, o substrato vai perdendo acidez pelo que se deve juntar um acidificante varias vezes por ano. Pode também cobrir-se o solo com agulhas de pinheiro as quais são acidificantes e atuam como cobertura de solo, mantendo a humidade durante mais tempo. Raras são as ervas que conseguem medrar perto do pé de uma urze. É que estas plantas têm propriedades alelopáticas, isto é, elas produzem metabólitos secundários ou seja, compostos químicos que, uma vez libertados no solo, impedem que outras espécies cresçam e se desenvolvam de forma normal.
Quando as urzes são jovens e ainda não estão estabelecidas não se deve deixar secar completamente o substrato. Rega-las demais também não é solução pois as raízes irao com certeza apodrecer sobretudo se estiverem em vasos.
As urzes não precisam nem gostam de grandes adubações, sobretudo porque não conseguem processar o nitrogénio presente nos adubos generalistas. Ainda assim podemos enriquecer a terra gasta com um pouco de adubo especial para plantas acidas, também recomendado para gardénias, camélias e azáleas/rododendros.
Azalea ‘Hinodegiri’in full flower in Yate, Bristol
As urzes pertencem à família botânica Ericaceae, atualmente com cerca de 4000 espécies agrupadas em 126 géneros. Esta família possui uma grande diversidade de espécies, algumas muito belas, circunstancia que lhe confere uma grande importância económica a nível mundial, sobretudo devido ao florescente comércio das plantas ornamentais (Ex: Rododendros/Azáleas e urzes).
Mas o poderio económico desta espécie também tem a ver com espécies que são cultivadas pelos seus frutos, sobretudo espécies do género Vaccinium, nomeadamente Vaccinium myrtillus (“cranberry” ou mirtilo vermelho) e  Vaccinium corymbosum (“blueberry” ou mirtilo azul) os quais são ricos em antioxidantes e têm ação bacteriana.
Vaccinium myrtillus e  Vaccinium corymbosum 
O consumo de mirtilos é recomendado pela sua eficácia no combate a infeções urinárias, sobretudo no capítulo da prevenção, dificultando a fixação de baterias na bexiga.
Medronheiro com frutos maduros
Fonte: Wikipedia
Arbustus unedo, o nosso bem conhecido medronheiro, usado para fazer licores e aguardentes, também pertence à família Ericaceae. Os seus frutos têm um forte poder antibacteriano sendo ricos em compostos com importante atividade biológica, ácidos gordos insaturados, nomeadamente ómega 3 e 6, fitoesteróis e triterpenóides. 
Arbustus unedo é uma árvore frutífera muito ornamental que fica bem em qualquer jardim que disponha de algum espaço. Ao contrário da maioria das Ericaceae tem a vantagem de ser indiferente ao pH, crescendo bem tanto em solos ácidos como alcalinos.

As espécies Ericaceae distribuem-se pelo mundo inteiro (exceto a Antártica) e são, na sua generalidade, amantes dos solos pobres e com propriedades ácidas. Uma caraterística da maioria das plantas desta família é a ausência de pelos radiculares o que dificulta a absorção dos nutrientes. Como forma de contornar esta particularidade as plantas de Ericaceae estabelecem relações simbióticas com fungos do solo (micorrizas), os quais são vitais para o seu desenvolvimento. Estes fungos formam uma rede que se entrelaça nas raízes da planta para as quais transferem os nutrientes minerais e agua que absorvem do solo. Em contrapartida as plantas fornecem os açúcares de que os fungos necessitam para sobreviver mas que não conseguem sintetizar.


sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Abutilon theophrasti Medikus

Nomes comuns:
Folhas-de-veludo, malvão, juta-da-china

Foi no recanto do jardim reservado ao cultivo de frutos e legumes que vi pela primeira vez esta linda herbácea de folhas aveludadas. Quase escondida pela produção exuberante dos tomateiros, só em finais do verão dei por ela. Pelo seu pequeno tamanho  - considerando os padrões de exigência de uma planta anual - é possível que tenha germinado tardiamente. 
Apesar das flores incipientes era óbvio que já tinha florido anteriormente pois foram os frutos que primeiro chamaram a minha atenção. Era um exemplar solitário e completamente diferente das outras ervas que costumam invadir os canteiros da pequena horta. Certamente foi trazida de longe por alguma pequena ave, talvez, quem sabe, uma oferenda ou proposta de amizade... 
Deixei passar algumas semanas enquanto observava o seu desenvolvimento e tentava identifica-la. Entretanto, abriram as flores de tom amarelo e amadureceram os frutos mas Infelizmente as chuvas que este ano chegaram precocemente e de forma persistente deterioraram o que restava dos tomates e foi necessário arranca-los rapidamente, o mesmo acontecendo com as infestantes habituais que este ano atacaram com força redobrada. 
Quando dei por isso, da bela planta nem rasto, devidamente despejada juntamente com as suas “comadres” no contentor apropriado aos lixos biológicos. Mas, mais ano menos ano, ela voltará seguramente a germinar no mesmo local, pois algumas sementes terão ficado no solo. Quando tal acontecer, se eu desejar deixa-la crescer terei de ter o cuidado de recolher os frutos antes que as sementes amadureçam, evitando assim a sua proliferação. É que, identificada a espécie, Abutilon theophrasti, fiquei a saber que é uma infestante exótica e altamente invasora, habitual em grandes plantações de milho e soja. No nosso país a sua presença está assinalada principalmente no Douro litoral e Ribatejo.

Abutilon theophrasti é por vezes cultivada em jardins mas aparece principalmente em áreas de resíduos, bermas dos caminhos, terrenos baldios, na proximidade de currais e em campos cultivados ou incultos. Na realidade é uma espécie tipicamente ruderal e infestante que coloniza os habitats modificados pelo Homem e enriquecidos com os fertilizantes das práticas agrícolas. 
A área de distribuição nativa de Abutilon theophrasti vai do sudeste asiático até ao centro da região mediterrânica. Na China já era cultivada intensamente há 3000 anos. Era utilizada principalmente para obter fibras usadas na confeção de fios, cordas, tapetes, sacos, pano grosso, sapatos, redes de pesca, papel e na calafetagem de barcos; em medicina alternativa usavam-na para tratar febres, disenteria e problemas estomacais; como alimento, as sementes, de sabor semelhante às do girassol, eram consumidas cruas (depois de tratadas para perderem o gosto amargo) ou usadas para fazer farinha depois de secas. Hoje em dia, contudo, existem alternativas mais rentáveis e saborosas pelo que se pode dizer que a planta deixou de ser apelativa.
Entretanto, através do Mediterrâneo, Abutilon theophrasti foi abrindo caminho para a Europa e o resto do mundo.
Abutilon theophrasti foi introduzida na América do Norte pelos ingleses antes de 1750, como uma potencial produtora de fibras. A ideia dos investidores era conseguir uma fonte de fibras que os tornasse autossuficientes nesse campo, em vez de estarem dependentes das fibras importadas.
No mundo de hoje, em que dispomos de uma variedade imensa de materiais sintéticos, é difícil imaginar como as fibras vegetais eram importantes para a sociedade de há centenas de anos. Todos os setores da vida doméstica ou comercial estavam delas dependentes, de uma forma ou outra. As fibras eram usadas não só na confeção de têxteis, cestaria, manufactura do papel mas também na construção civil, pesca e navegação marítima. Por exemplo, as correntes metálicas só foram introduzidas nos navios em meados do século XIX, sendo até então utilizadas grande quantidade de cordas, compridas e grossas, manufaturadas a partir de fibras vegetais.
Convento de Cristo - Tomar
Um belo exemplo do estilo Manuelino, em que as cordas se salientam como elemento decorativo
Podemos fazer apenas uma pálida ideia dos quilómetros de cordame que foram necessários durante a campanha dos descobrimentos, da dificuldade em conseguir tamanha quantidade de fibras e de quantas plantas foram sacrificadas para que novos mundos fossem alcançados. As cordas eram de tal forma importantes que constituíram um dos elementos decorativos mais repetidos pelos artistas do estilo Manuelino.
No Novo Mundo o projeto de uma indústria própria para a produção de fibras através de Abutilon theophrasti foi alvo dos esforços dos agricultores americanos durante mais de um século, mas nunca foi um sucesso comercial. Em vez disso, o plantio persistente desta planta tornou-a numa praga agrícola causando prejuízos avultados, chegando atualmente a reduzir as colheitas de milho e soja em cerca de 34%, só nos Estados Unidos e Canadá, apesar do uso intensivo de herbicidas. O mesmo se passa em alguns países do sudeste europeu, nomeadamente Alemanha, Republica Checa e Hungria.
De notar que cada planta de Abutilon theophrasti produz entre 800 a 17000 sementes as quais se mantêm viáveis no solo durante 4 a 5 décadas estabelecendo um banco de sementes tão abundante e resistente que torna praticamente impossível o controlo da espécie. Uma vez germinada, a planta torna-se altamente competitiva, concorrendo com as espécies agrícolas pela luz do sol, espaço no solo, por água e nutrientes. Além disso segrega substâncias alelopáticas cuja composição química impede que outras plantas se desenvolvam em seu redor.
Abutilon theophrasti é uma espécie anual que se desenvolve a partir de um caule ereto e vigoroso o qual se ramifica na parte superior formando um pequeno arbusto que pode alcançar mais de 1,5 m de altura.
O caule e os ramos estão densamente cobertos por curtos pelos estrelados e simples que lhe dão um toque aveludado.
As folhas têm peciolos longos e dispõem-se nos ramos de forma alternada; a venação é palminérvea; quanto à forma, as folhas são cordiformes (em forma de coração) ou arredondadas, com a extremidade aguda e ligeiramente curva; as margens apresentam pequenos dentes; são discolores porque a face superior tem um tom de verde diferente da página inferior; ambas as faces estão cobertas por pelos que as tornam macias e aveludadas ao toque.
As flores, providas de órgãos reprodutores masculinos e femininos, surgem na axila das folhas superiores e agrupam-se em inflorescências do tipo cimeira ou são solitárias. A corola é formada por 5 pétalas de um tom amarelo intenso, de forma obovada e com um pequeno entalhe na extremidade. O cálice é constituído por 5 sépalas cobertas por pelos e unidas na metade inferior e que continuam a crescer até à maturação dos frutos. Não existe epicálice. O androceu é formado por numerosos estames fundidos até certa altura, formando um tubo ao redor do ovário e depois livres entre si. A fecundação faz-se principalmente por autopolinização embora também possa ocorrer polinização cruzada com auxílio de insetos.
O fruto de Abutilon theophrasis é um esquizocarpo, densamente coberto por pelos, primeiro de cor verde, tornando-se quase preto ao atingir a maturação. 
O esquizocarpo é semelhante a uma cápsula circular, maior que o cálice e constituída por 12 a 15 mericarpos presos a uma coluna central e que permanecem intactos até à maturação. Os mericarpos estão dispostos como os gomos de uma laranja, e têm 3 faces: a dorsal ligeiramente côncava e estreita e as laterais planas, lisas e glabras.
Parte superior do esquizocarpo com sementes maduras
Foto de Invasive.org

Cada mericarpo contém 2 ou 3 sementes que são libertadas através de uma abertura situada no ápice. As sementes, achatadas e glabras, apresentam coloração escura e forma de rim.
A floração ocorre principalmente durante os meses de julho e agosto.
Uma vez iniciada a floração cada planta produz sementes de forma contínua até à chegada dos primeiros frios. As sementes amadurecem cerca de 20 dias após a abertura das flores. Cada esquizocarpo produz entre 25 a 45 sementes pelo que uma planta grande pode produzir varias centenas de mericarpos e milhares de sementes. As sementes maduras sao rapidamente disseminadas pelo vento, agarradas ao pelo de algum animal ou misturadas com as colheitas. De notar que passam incolumes pelo trato digestivo dos animais, se deglutidas.
Abutilon theophrasti pertence à familia Malvaceae que constitui uma das grandes famílias botânicas, abarcando atualmente mais de 4225 espécies, agrupadas em cerca de 243 géneros. Até há pouco tempo esta família era bem mais pequena mas após estudos filogenéticos, passou a englobar outras famílias.
Esta família reúne espécies que se distribuem por todos os continentes (exceto as regiões mais frias), havendo uma maior representatividade nos trópicos. É constituída principalmente por trepadeiras, herbáceas, arbustos e árvores estando o cacaueiro (Theobroma cacao)  e os algodoeiros (Gossypium spp) entre os seus representantes mais conhecidos. Muitas espécies desta família têm importância relevante em paisagismo. As espécies arbóreas de grande porte são indicadas para arborização de grandes parques e jardins enquanto certas espécies arbustivas, como os Hibiscus spp ou Abutilon spp também podem ser usadas em jardins familiares, em maciços ou como exemplares isolados. Estas espécies têm grande potencial ornamental. Desenvolvem-se bem na terra ou em vaso e têm a vantagem de ter uma floração muito abundante e prolongada.
Abutilon theophrasti está hoje em dia incluída no género Abutilon mas já esteve incluída no género Sida com o nome de Sida abutilon L. (basónimo de Abutilon theophrasti Medikus).

- Para ver um pequeno filme sobre a planta Abutilon theophrasti e a forma de recolher as fibras, clique AQUI.
- Clicando AQUI pode aceder a uma galeria de fotos de híbridos de Abutilon, especialmente preparados para fins ornamentais. 

Fotos de Abutilon theophrasti: Serra do Calvo/Lourinhã.



domingo, 21 de dezembro de 2014

Neste Natal...


Arribas do Caniçal
Num dia tão luminoso como foi o de hoje, eu diria que o próprio sol se aliou a um esplendoroso céu de tom azul-cobalto para comemorar o solstício de inverno. Assim se inicia a estação mais fria do ano no hemisfério norte, época em que a maioria das plantas parece adormecida. Em contrapartida está na altura dos trabalhos profundos no jardim. Há que recolher as folhas murchas, podar os arbustos e árvores, limpar o solo de ervas não desejadas e principalmente arranjar os canteiros e fazer as sementeiras que irão dar vida e cor na primavera e inicio do verão. Este ano seja ousado e aproveite para fazer algumas experiências pois essa é a parte divertida da jardinagem. Semeie plantas autóctones; estão menos sujeitas a doenças, são económicas no gasto de agua e manutenção, estão adaptadas ao nosso clima e são muito apreciadas principalmente em países estrangeiros onde a jardinagem é levada muito a sério. Saiba como conseguir as sementes de espécies nativas em Sementes de Portugal.

Como presente de Natal para todos quantos têm tido a amabilidade de seguir este blog trago algumas fotos de uma espécie autóctone que floresce brevemente em maio mas cujas flores se transformam em lindos frutos que alegram o meu jardim durante todo o outono e inverno. Esta espécie é a Iris foetidissima. Veja mais detalhes AQUI.





Desejo alegres festividades para todos. Mas, acima de tudo, que o ano de 2015 vos traga a concretização dos sonhos ainda não realizados.

"Foi o tempo que dedicaste à tua rosa que fez a tua rosa tão importante"
O pequeno príncipe - Antoine de Saint-Exupéry



quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Centro da flor com

Nome Comum: Gerânio-peludo

Geranium rotundifolium é o tema de hoje. Assim se encerra o ciclo Geranium no qual foram incluídas algumas espécies pertencentes ao referido género e que, até à data, observei pessoalmente nesta região.
Geranium rotundifolium partilha com as suas congéneres a frescura verde-musgosa das folhas, o recato das flores rosadas e a determinação em adaptar-se ao meio ambiente e até expandir-se. Apesar de partilharem os mesmos espaços e recursos, não rivalizam nem se enfrentam, antes se entrelaçam docemente numa quase promiscuidade. Contudo, no seu jeito manso cada uma destas espécies consegue imprimir a sua personalidade própria, destacando-se das demais.
Na aparente uniformidade característica de Geranium descobrem-se algumas dissemelhanças merecedoras de algo mais do que aquilo que foi dito no texto introdutório AQUI e foram elas que me levaram a dar atenção individualizada a cada uma destas espécies, perfeitamente merecida, embora necessariamente repetitiva em alguns aspetos.  
Geranium rotundifolium é nativa do norte de África e sul da Europa, sobretudo da região mediterrânica, tendo sido introduzida noutras partes do mundo onde está naturalizada. Nos últimos anos tem-se registado alguma expansão para norte da Europa, estando mais abundante em locais onde era extremamente rara e aparecendo esporadicamente em países setentrionais onde nunca antes tinha sido vista. São os seus atributos ecológicos e fisiológicos, aliás partilhados por outras espécies do mesmo género e já antes mencionados, que lhe permitem adaptar-se com tal sucesso a ambientes humanizados.
No nosso país está presente como espécie nativa em Portugal continental e arquipélago da Madeira e naturalizada no arquipélago dos Açores. Os seus habitats naturais são locais sombreados nas orlas dos bosques, pinhais e dunas. Aparece ainda na beira dos caminhos, orla dos campos cultivados ou de pousio, fendas dos muros e outros locais de perfil ruderal mas com boa humidade edáfica.
Geranium rotundifolium reproduz-se por semente e tem apenas um ciclo vegetativo, ou seja, é uma espécie anual. Germina logo que chegam as primeiras chuvas de outono e floresce e frutifica, espalhando novas sementes, a partir de março. De todas as espécies Geranium que crescem espontaneamente em Portugal, Geranium rotundifolium é a que tem uma floração mais prolongada, podendo ainda nesta altura do ano, nos fins de dezembro, ver-se alguns indivíduos com flores e frutos.
Com 10 a 40 cm de comprimento, os caules são tenros e verdes ou com coloração avermelhada. São eretos ou ascendentes e estão cobertos de pelos suaves compridos não glandulíferos e também por pelos glandulíferos curtos, situação que se repete em todas as partes da planta.
As primeiras folhas formam uma roseta. Conforme se desenvolvem os caules, as novas folhas dispõem-se neles de forma oposta. Quase todas as folhas apresentam longos pecíolos. O limbo foliar, com 5 ou mais nervuras, é arredondado, peludo e está dividido em 7 a 9 lóbulos pouco pronunciados, os recortes não excedendo metade da aba da folha; ambas as faces estão cobertas com pelos geralmente não glandulosos.
As folhas desta planta são muito arredondadas se as compararmos com outras do mesmo género. O termo rotundifolium que dá nome à espécie reflete essa característica e deriva do latim: rotundus = redonda e folius= folha.
As flores, de tamanho diminuto nascem aos pares no topo de um pedúnculo comum que se subdivide. As 5 pétalas, de cor rosa ou lilás são iguais, inteiras, livres e direitas na extremidade. 
As 5 sépalas que envolvem o botão floral e que formam o cálice são livres, mais curtas que as pétalas e de forma ovalada, terminando numa ponta curta, aguda e rígida. São de cor verde, com estrias mais escuras e densamente cobertas de pelos glandulíferos e não glandulíferos.
Centro da flor em que se veem as anteras amarelas e os braços estigmáticos de cor purpura
As flores são completas, ou seja, dispõem de órgãos reprodutores masculinos e femininos. No androceu existem 10 estames férteis cujos filetes estão cobertos de pelos finos na metade inferior e que se dilatam progressivamente em direção à base, onde se encontram os nectários. As anteras amarelas produzem pólen da mesma cor.
O pistilo tem um ovário formado por 5 carpelos encimado pelos correspondentes 5 estiletes e estigmas de cor purpura ou rosa escuro.
O fruto de Geranium rotundifolium é um esquizocarpo formado por 5 mericarpos independentes, unidos por fibras denominadas aristas a uma coluna alongada (em forma de bico de ave), a qual é formada pelo conjunto do estilete e estigma que se alongaram e continuaram a crescer até à maturação completa.
A dispersão das sementes das espécies do género Geranium é feita por explosão  violenta, como já vimos AQUI, AQUI  e AQUI. Tal acontece devido às propriedades higroscópicas das aristas. À medida que vão ficando desidratadas e distorcidas as aristas acumulam tensão semelhante à de um elástico esticado, de modo que, chegado o momento da rutura, se dobram repentinamente, catapultando as sementes a considerável distância da planta-mãe. 
Fonte Flora-on
Foto de João D. Almeida
Como vimos, as sementes das espécies Geranium desprendem-se de baixo para cima e quando a coluna se curva, por vezes arrasta consigo tiras da epiderme da coluna as quais ficam encaracoladas ou fazendo arco, ficando o mericarpo agarrado na extremidade quando as sementes são ejetadas para fora dele.


À primeira vista Geranium rotundifolium pode ser confundido com Geranium molle. Ambas as espécies se distinguem por vários fatores mas o principal é a morfologia das flores cujas pétalas têm margens inteiras em G. rotundifolium e entalhadas em G. molle.
Quadro comparativo entre as flores de Geranium molle - à esquerda e Geranium rotundifolium à direita
Fonte: Flora-on
Foto de Geranium molle - Ana Julia Pereira
Foto de Geranium rotundifolium -  Patricia Pinto Silva

Já constatamos que, do ponto de vista terapêutico popular, as espécies Geranium são muito apreciadas e Geranium rotundifolium não é exceção. Esta planta é usada pelas suas propriedades adstringentes e analgésicas.

Fotos de Geranium rotundifolium: Serra do Calvo - Lourinhã.