"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





quarta-feira, 29 de maio de 2013

Rosa sempervirens L.

Nome vulgar: Roseira-brava

Rosa sempervirens é uma espécie nativa da Europa mediterrânica e do norte de África e que ocorre em zonas de clima temperado. Em Portugal é frequente nas regiões mais próximas do litoral.
Embora cresça bem em qualquer tipo de solo, mostra no entanto, preferência pelos terrenos húmidos, profundos e frescos e com elevada percentagem de azoto. Pode encontrar-se na margem de riachos e ribeiras, bermas dos caminhos e orla dos matagais. Gosta de se entrelaçar em árvores, procurando apoio e alivio na sombra. É uma espécie muito vigorosa cujos ramos podem formar matagais muito densos e espinhosos ao ponto de, à primeira vista, poderem ser confundidos com silvados, com os quais, alias, por vezes se entrelaçam.
Rosa sempervirens é um arbusto vigoroso, de caules compridos, trepadores ou rastejantes, podendo chegar aos 6 metros de comprimento ou mais; são verdes ou avermelhados, não têm revestimento de pelos e estão providos de acúleos curvos em forma de foice e cujo ápice está virado para trás ou seja, para o caule onde estão inseridos.
Os acúleos não são espinhos: também são rígidos e aguçados mas enquanto que os espinhos estão ligados aos caules por feixes vasculares, os acúleos são uma estrutura independente sendo, por isso, facilmente destacáveis dos caules. Assim, ao contrário do que diz o ditado popular não há rosa com espinhos…
Nesta espécie as folhas são persistentes, coriáceas e muito brilhantes; dispõem-se de forma alternada nos ramos; são compostas por 2 ou 3 pares de folíolos, sem pelos. Os folíolos têm forma ovada ou lanceolada e terminam em ponta aguda e mais estreita que a restante parte do limbo, sendo as margens finamente dentadas.
Inflorescência corimbiforme de Rosa sempervirens
As flores, docemente perfumadas, são solitárias ou agrupadas em inflorescências corimbiformes,  inserindo-se no mesmo eixo a alturas diferentes mas abrindo ao mesmo nível. São hermafroditas pois estão equipadas com órgãos reprodutores femininos e masculinos funcionais.
O androceu inclui numerosos estames dispostos de forma circular.
No centro da flor o gineceu é composto por vários carpelos os quais estão encerrados dentro de um recetáculo de forma cónica, mais ou menos tapado por um disco no qual há um orifício por onde saem os estiletes.
Nesta espécie, os estiletes (tubos estreitos e ocos que ligam o estigma ao ovário) estão cobertos de pelos fracos e densos e estão ligados entre si, formando uma coluna em cuja parte superior estão os estigmas.
As bases das pétalas, sépalas e estames inserem-se neste recetáculo o qual aloja nectários na sua superfície interior tornando-se num pequeno reservatório de néctar que atrai uma variedade imensa de insetos polinizadores.
A corola, com 3 a 5 cm de diâmetro, é composta por 5 pétalas brancas com um ligeiro entalhe na extremidade.
As 5 sépalas, caducas, são ovadas mas estreitam-se perto da extremidade terminando em bico e encurvando-se em direção à base da flor quando as pétalas murcham; têm glândulas na face exterior e nas margens e caiem antes que o fruto amadureça.

Rosa sempervirens floresce e frutifica de maio a julho ou agosto. O fruto, de forma ovoide, é carnudo e torna-se vermelho na maturação, sendo resultante da fusão do recetáculo com a parte inferior do cálice, corola e ovário. Estes frutos, popularmente conhecidos por escaramujos, são alimento precioso para aves e mamíferos os quais são também agentes dispersores das sementes.
A Rosa sempervirens pertence à família das Rosaceae que inclui cerca de 3000 a 3500 espécies organizadas em cerca de 115 géneros, os quais se distribuem por todas as regiões do mundo, sendo mais frequentes nas regiões temperadas e subtropicais do hemisfério norte.
A família botânica Rosaceae é uma das mais importantes do ponto de vista económico pelo facto de incluírem muitas plantas cultivadas não só pelos seus frutos comestíveis (ex: morangueiro, marmeleiro, macieira, ameixeiras, cerejeiras, pessegueiro, damasqueiros, amendoeiras etc.), mas também pelo seu valor ornamental. Das plantas desta família que são cultivadas pelas suas flores, as rosas são as mais conhecidas.

O género Rosa inclui mais de 100 espécies e ainda milhares de variedades, híbridos e cultivares sendo que Rosa sempervirens é uma das 15 roseiras silvestres cuja ocorrência é assinalada em Portugal pela Flora-on.
Este é um género que apresenta grandes dificuldades na identificação das espécies. Do seu sistema de reprodução resulta numa grande plasticidade morfológica, existindo múltiplas variedades e subespécies o que dificulta o seu reconhecimento e caraterização. Em colonias de uma determinada espécie é possível encontrarem-se indivíduos que mostram polimorfismos indicadores de prováveis hibridações com espécies próximas, as quais resultam de falhas do mecanismo de isolamento reprodutivo. Essas hibridações podem advir de um cruzamento simples de gametas (células sexuais) masculinos com femininos; ou podem ser hibridações introgressivas, nas quais ocorre uma infiltração de genes de uma espécie para a outra devido a cruzamentos específicos e sucessivos. A complexidade taxonómica do género Rosa também se deve, em parte à poliploidia e à apoximia.
A maioria dos híbridos das rosas silvestres não têm valor taxonómico pois são indivíduos cuja morfologia é ambígua sendo por isso impossível, senão imprudente, tentar carateriza-los. Muitos deles florescem e frutificam pouco ou esporadicamente.

Generalidades:
Os numerosos cultivares de Rosa que se usam em jardinagem procedem de hibridizações muito diversas feitas a partir de rosas silvestres nomeadamente Rosa moschata, Rosa gallica, Rosa damascena, Rosa wichuraiana, Rosa californica e Rosa rugosa. As rosas silvestres existem há mais de 12 ou 15 milhões de anos e são as flores cultivadas mais antigas em todo o mundo, provavelmente trabalhadas desde há cerca de 4500 anos. Ao longo da história as rosas têm sido submetidas a uma seleção intensa no sentido de conseguir novas variedades mais atrativas, com flores maiores e novas cores. Contudo as rosas não têm apenas valor ornamental pois são também utilizadas na culinária, além de libertarem óleos e essências utilizados na perfumaria e cosmética (não esquecendo a famosa água de rosas), faltando ainda mencionar as suas qualidades fitoterápicas.

As rosas estão entre as flores mais populares, havendo em vários países do mundo jardins especializados em exibir exclusivamente espécies e variedades de rosas, os chamados rosarium.
As roseiras dividem-se em três grupos:
- As espécies silvestres, que crescem espontâneas na natureza.
- As rosas antigas, variedades que existiam até 1867, ano em que foi criado o primeiro hibrido de rosa-chá “La France”.
São pouco conhecidas do grande público pois a oferta de novos cultivares é tão grande que entretanto estas espécies deram lugar a outras e ficaram fora de moda. Aos poucos vão ressurgindo, sobretudo através de colecionadores. São espécies muito robustas e resistentes, não requerem tantos cuidados e têm menos problemas com pragas e doenças.


- As rosas modernas, variedades posteriores a 1867

Este é o grupo mais popular nos dias que correm e o que oferece maior número de variedades. Mais de 95% das roseiras comercializadas pertencem a este grupo.
Ouvi falar de algumas variedades de origem portuguesa mas ao que parece estão completamente, ou quase, esquecidas. A variedade Bela Portuguesa ou “Belle Portugaise” (flores gigantes, de cor rosa) criada pelo botânico Francês Henri Cayeux, responsável pelo Jardim Botânico de Lisboa no final do séc. XIX não existe à venda no nosso país, podendo, no entanto ser importada de viveiros ingleses. Doutras variedades como Lusitânia, Estrela de Portugal e Palmira Feijão restaram os nomes para a posteridade.
Muita gente já ouviu falar das rosas de Santa Teresinha (trepadeira com rosinhas de cor rosa, minúsculas mas bem formadas e perfeitas, segundo lembro dos meus tempos da escola primaria) mas essas também não se conseguem encontrar à venda.

Fotos: Serra do Calvo/Lourinhã


terça-feira, 21 de maio de 2013

Lithodora prostrata (Loisel.) Griseb. subsp. prostrata SYN Glandora prostrata (Loisel.) D.C. Thomas


Nomes comuns:
Erva-das-sete-sangrias; sargacinha; sargacinho

Lithodora prostrata é uma planta perene que forma um pequeno arbusto de ramos flexíveis, prostrados ou ascendentes, os quais são ramificados desde a base e se dispõem irregularmente em ângulos bastante abertos; geralmente atingem os 50 ou 60 cm de comprimento.
Distribuição em Portugal
Fonte: Jardim Botânico UTAD
Pode encontrar-se em todo o sudoeste europeu beneficiando do clima atlântico-mediterrânico. Cresce em taludes, matagais, pinhais e sobreirais e especialmente em charnecas de solos ácidos onde predominam as urzes, os tojos e outros pequenos arbustos adaptados aos climas secos.
Muitas vezes procura o amparo de plantas mais lenhosas como é o caso do exemplar que aqui trago hoje, o qual se encontra enredado numa Cistus crispus. Crescendo em matos cerrados onde o espaço livre está todo ocupado, não lhe resta outra alternativa que não seja espreitar por entre os ramos das mais lenhosas, para poder aproveitar o sol.
A Lithodora prostrata pertence à Boraginaceae, família que inclui cerca de 2700 espécies entre ervas, arbustos e trepadeiras, algumas de valor ornamental. Podem ser encontradas espécies desta família em quase todo o mundo, distribuindo-se principalmente pelas regiões temperadas e tropicais.
As folhas da Lithodora  prostrata são oblongas ou elípticas, não tem pecíolo e apresentam o nervo medio muito marcado; estão cobertas de pelos os quais são mais compridos na parte da frente e mais curtos e em maior numero na parte inferior da folha. Estes pelos, comuns a muitas plantas mas cujas características variam consoante as espécies, contribuem para o controle da transpiração, constituindo também um polo de atração dos insetos polinizadores.
As flores são muito pequenas mas bem visíveis devido à cor, geralmente de um azul intenso (por vezes com flores também em tons rosados, na mesma planta).
As flores agrupam-se em inflorescências definidas de 6 a 14 flores em que o eixo principal tem crescimento limitado, terminando numa flor. Esta espécie tem uma floração muito prolongada, as flores vão abrindo aos poucos, permanecendo florida durante largos meses embora de forma relativamente esparsa.
Esta planta é por vezes utilizada como cobertura de solo em jardins onde, com boa exposição solar e água à disposição, assume uma forma compacta e com floração profusa e prolongada.
A corola é formada por 5 pétalas arredondadas, acetinadas na face exterior devido à camada de pelos finos, curtos e superficiais que a cobrem; são soldadas na base formando um tubo peludo e também de aspeto acetinado no qual se inserem, a diferentes níveis os 5 estames do androceu. Na garganta deste tubo forma-se um anel de pelos muito densos e brancos. O cálice, constituído por 5 sépalas mais ou menos soldadas na base, continuam a crescer até o fruto atingir a maturação.
As flores têm brácteas providas de pelos densos e de formato oval ou elíptico, por vezes lineares, as quais são mais largas que o cálice.
O gineceu é constituído por 4 carpelos arredondados de onde sai um estilete que termina no estigma.
Os frutos, característicos das famílias Boraginaceae, são clusas, ou seja, frutos indeiscentes do tipo esquizocarpo o qual se separa em quatro partes na maturação, formando quatro frutos parciais, quase ovoides; a casca, algo coriácea está ligada às sementes, protegendo-as e fornecendo-lhes nutrientes durante a germinação.
Esta espécie floresce e frutifica de dezembro a abril ou maio.

A Lithodora prostrata é utilizada em medicina alternativa devido às suas alegadas propriedades antisséticas, hipotensora e redutora dos níveis de colesterol, sendo geralmente utilizada sob a forma de infusões.

Esta espécie, foi recentemente reclassificada, passando do género Lithodora para o género Glandora, tendo-lhe sido atribuído o nome de Glandora prostrata. Contudonome anterior permanece valido como sinónimo pois, uma vez atribuídos e aceites pelas autoridades competentes, os nomes científicos são validos para sempre. 
Era no género Lithodora, um dos 150 géneros que fazem parte da família Boraginaceae, que se incluíam até há bem pouco tempo, as 5 espécies que se podem encontrar na Península Ibérica, nomeadamente Lithodora prostrata, Lithodora fruticosa, Lithodora diffusa, Lithodora nitida e Lithodora oleifolia, sendo que as três últimas são endemismos ibéricos. Segundo a Flora Iberica apenas uma destas espécies, a Lithodora fruticosa, está ainda no género Lithodora. Contudo, as restantes espécies foram parar ao género Glandora, pequeno género com apenas 6 espécies. Esta divisão deve-se a diferenças nos carateres morfológicos da estrutura da semente e da flor. No género Lithodora as pétalas são glabras (sem pelos) na sua face externa ou com apenas alguns pelos nos lóbulos enquanto que no género Glandora as pétalas são acetinadas devido à camada de pelos finos, curtos e superficiais na sua face externa. Por outro lado as espécies incluídas no género Glandora apresentam flores longistilas e brevistilas, resultantes de dimorfismo no comprimento dos estiletes e dos estames e também no tamanho dos grãos de pólen. No caso específico da Lithodora prostrata syn Glandora prostrata acresce ainda o facto de os estames estarem inseridos a vários níveis no tubo da corola.
Estes dimorfismos genéticos do sistema reprodutivo têm como objetivo evitar a autopolinização e potenciar a fecundação cruzada.
Ainda segundo a Flora Iberica, estudos recentes de filogenia molecular demonstram que o novo género Glandora tem tudo a ver com os géneros Buglossoides, Aegonychon, Lithospermum, Macromeria e Onosmodium . Pelo contrário, Lithodora relaciona-se com os géneros Paramoltkia, Mairetis, Halacsya e Neatostema

O que é a Heterostilia – flores longistilas, medistilas e brevistilas
Heterostilia é uma forma de polimorfismo morfológico em que flores hermafroditas da mesma planta apresentam estiletes e estames de tamanhos diferentes. Esta situação está geralmente associada a um sistema genético de auto incompatibilidade tornando as espécies hermafroditas incapazes de se reproduzirem sexualmente por autopolinização, favorecendo assim a polinização cruzada. Uma vez que a autopolinização pode levar ao enfraquecimento na eficácia reprodutiva das sementes, a heterostilia funciona como mecanismo de segurança.
Nas espécies heterostilicas  coexistem 2 tipos de flores (distilia) ou 3 tipos de flores (tristilia), na mesma planta. 
A forma mais comum é a distilia, partilhada por cerca de 25 famílias de Angiospermas e na qual se insere a espécie acima descrita. Nas espécies com distilia existem plantas com flores longistilas (estiletes compridos e estames curtos, ficando o estigma acima dos estames) e indivíduos com flores brevistilas (estiletes curtos e estames longos, ficando o estigma abaixo das anteras).
A tristilia é uma situação mais rara na qual, para além de flores longistilas e brevistilas, existem flores medistilas (estiletes medios). Veja mais detalhes AQUI.

Fotos - Serra do Calvo/Lourinhã




sábado, 11 de maio de 2013

Chrysanthemum coronarium L. syn Glebionis coronaria

NOMES VULGARES:
Pampilho-ordinário; pampilho; malmequer;
beijos-de-estudante; pajito; sejamos-amigos;
pampilho-vulgar; pimpilho.
O Chrysanthemum coronarium é um vistoso malmequer que se distribui por toda a região mediterrânica, sudoeste asiático e Macaronésia (Açores, Madeira, Canárias...).
Distribuição em Portugal
Fonte: Jardim Botânico UTAD
Por esta altura do ano vai florescendo no noroeste e centro/sul de Portugal, colonizando montes de entulho, terrenos cultivados e incultos, bermas de caminhos. Não necessita de muita água mas prefere os terrenos alcalinos e ricos em nutrientes, sendo uma espécie indicadora de riqueza em nitrogénio.
É uma planta anual, aromática e glabra pois raramente apresenta pelos. Os caules podem ir dos 20 cm ao 100 cm de altura e são geralmente ramificados na metade superior.
As folhas dispõem-se forma alternada no caule e são muito divididas.
As flores reúnem-se em inflorescências do tipo capítulo, tal como é característico das espécies da família Asteraceae, na qual o Chrysanthemum coronarium se encontra classificado.
(Para informações mais detalhadas  clique  em http://floresdoareal.blogspot.pt/2013_04_01_archive.html )

Os capítulos desta espécie podem atingir os 6 a 7 cm de diâmetro. As flores assentam num disco convexo; as centrais, de cor amarela, são tubulosas e hermafroditas, cada uma delas dispondo de órgãos reprodutores femininos e masculinos funcionais; as flores da periferia são férteis, femininas e providas de lígulas brancas com a base amarela. (por vezes podem apresentar as lígulas completamente amarelas embora esta variedade seja rara).
O involucro que envolve o capítulo é composto por duas camadas de brácteas em que as exteriores têm margem membranosa e seca, de cor acastanhada.
O androceu consta de 5 estames e o gineceu tem um ovário com um único compartimento do qual surge um estilo solitário, com dois estigmas.
Os frutos são cípselas, sem papilho (tufo de pelos).

Esta espécie, que em tempos pertenceu ao género Chrysanthemum, foi transferida em 1999, segundo uma norma do ICBN (International Code of Botanical Nomenclature), para o pequeníssimo género Glebionis, tomando o novo nome de Glebionis coronaria. Contudo, como é sabido, os antigos nomes científicos que entretanto lhe foram sendo atribuídos continuam validos, pelo que teremos muito tempo para nos habituarmos à nova nomenclatura. Outras espécies espontâneas que anteriormente também faziam parte do género Chrysanthemum foram igualmente excluídas, ficando este género para uso exclusivo das espécies cultivadas e de grande importância económica.

Fotos: Pena Seca/Lourinhã


quarta-feira, 8 de maio de 2013

Muscari comosum (L.) Miller

Nomes comuns:
Jacinto-das-searas; jacinto-de-tapete;
jacinto-paniculato; cebolinha-de-flor-azul
Muscari comosum é uma planta bolbosa, assim designada porque se propaga de forma vegetativa através de um bolbo. O bolbo é um órgão subterrâneo em cuja estrutura se encontram já diferenciadas caules, folhas e flores e que além de dar origem à nova planta também lhe fornece nutrientes, alimentando-a, se necessário, durante os primeiros tempos de vida. Estas reservas permitem, por exemplo, que as bolbosas de floração invernal se antecipem e completem o seu ciclo de vida antes do desenvolvimento das plantas que surgem em massa com a chegada dos primeiros calores da primavera, beneficiando assim de mais espaço e luz do sol.
O bolbo do Muscari comosum é semelhante a uma cebola, de forma ovoide, com casca acastanhada e finas raízes adventícias, de cor branca. Geralmente encontra-se enterrado a uma profundidade considerável o que lhe permite resistir a grandes amplitudes térmicas e até suportar alguma seca.
Esquema de um bolbo de Muscari comosum cortado ao meio
Este bolbo é formado por um grande número de folhas grossas e carnudas dispostas em camadas perfeitamente sobrepostas as quais estão inseridas, na sua parte inferior, num prato ou disco basal. Se o cortarmos ao meio, podemos observar no seu interior, na parte central do bolbo, as peças de uma flor rudimentar as quais se desenvolverão posteriormente. As folhas exteriores do bolbo do Muscari comosum são secas e acastanhadas formando uma túnica de proteção em volta do bolbo. Com o engrossamento do bolbo e a respetiva maturidade formam-se bolbos mais pequenos na sua base, os chamados bolbilhos, que podem ser separados da mãe e replantados para formar novas plantas.
Chegado o final do inverno o bolbo do Muscari comosum começa a desenvolver-se, surgindo em primeiro lugar de 3 a 7 longas folhas basais, lineares, de cor verde pálido, de textura frouxa e juntas pela bainha.
As flores surgem posteriormente, durante o início da primavera, dispostas sobre um longo escapo ereto e formando um cacho de forma cónica, formado por pequenas flores pediceladas e bem apertadas; a distância entre as flores individuais vai alargando a medida que estas amadurecem, o que acontece de forma progressiva.
As cores das flores variam do azul pálido ao azul escuro, passando pelo azul violeta.
As flores individuais são compostas por 6 tépalas (conjunto de corola e cálice) fundidas, ficando com forma esférica ou obovoide e com a abertura denteada.
As flores terminais são estéreis e na antese, período de expansão das flores, estas assumem o aspeto de um vistoso penacho, com pedicelos compridos e carnudos. As flores restantes, mais modestas, são férteis.
O androceu (conjunto órgãos de reprodução masculinos) é formado por 6 estames e o gineceu (conjunto dos órgãos femininos) por um ovário súpero, do qual emerge o estilo.
Os frutos são capsulas ovais, com um pequeno entalhe no meio do ápice e 3 valvas angulosas que albergam no seu interior 2 sementes escuras e brilhantes.
Distribuição em Portugal
Fonte: Jardim Botânico UTAD
O Muscari comosum desenvolve-se rapidamente. No nosso país pode encontrar-se em floração/frutificação entre março e junho, dependendo da região (se entretanto não forem comidos pelas ovelhas e cabras). Tanto cresce ao sol como em situações de meia sombra, podendo ser utilizado com sucesso em vasos, nos jardins, dando uma bela pequena flor de corte.
Podemos encontra-lo em campos abertos e de vegetação baixa, searas, prados, clareiras dos bosques e ate em dunas do litoral.
Como espécie espontânea é originária da Europa central, região do mediterrânico, Península Ibérica e Macaronésia (Canárias, Madeira e Açores).
Em certos países do mediterrâneo oriental, nomeadamente  Grécia e Itália, estes bolbos são tradicionalmente consumidos quer cozinhados ou preparados em conserva.
Até há pouco tempo o Muscari comosum estava incluído na família das Liliaceae mas após revisão segundo novas normas vigentes foi reclassificado, tendo sido incluído numa família mais pequena, a família das Hyacinthaceae. Miguel Porto, no site do Herbário da Universidade de Coimbra explica-nos a situação:
“Tradicionalmente, esta família (Liliaceae) incluía uma miríade de espécies que, nas revisões mais recentes, já foram distribuídas por cerca de 30 famílias diferentes, pertencentes até a ordens diferentes! Isto significa somente que o que antes se chamava de “liliáceas” era um grupo bastante heterogéneo e artificial de plantas que, por serem todas morfologicamente semelhantes, foram incluídas na mesma família – mas à medida que se foram realizando estudos mais aprofundados, nomeadamente moleculares, percebeu-se que essa família era afinal uma mistura de coisas muito diferentes, com histórias evolutivas próprias. Como é natural, o problema está longe de ser solucionado.”

Na verdade, houve recentemente nova reclassificação da responsabilidade do sistema APG, moderno sistema de taxonomia vegetal, tendo o Muscari Comosum sido incluído na família Asparagaceae ao mesmo tempo que Hyacinthaceae foi eliminada. Contudo esta solução não foi consensual havendo entidades que continuam a usar a classificação anterior. Para mais informação veja AQUI e aqui.
Sobre as plantas bolbosas: 
Bolbos, tubérculos, raízes tuberosas e rizomas são órgãos subterrâneos especializados que não só dão origem a novas plantas todos os anos, como também acumulam reservas de nutrientes permitindo às espécies sobreviver em condições desfavoráveis. Estes órgãos subterrâneos dão origem a dezenas de plantas espontâneas e ornamentais extremamente importantes do ponto de vista paisagístico e comercial e que na generalidade são designados por bolbosas.
Em viveiros e centros de jardinagem é possivel encontrar-se uma vasta gama de plantas bolbosas; algumas são replicas verdadeiras de bolbosas que vivem no estado selvagem, outras são híbridos obtidos através de polinização cruzada de variedades pertencentes à mesma espécie.
Depois de plantadas as bolbosas não dão muito trabalho e a grande variedade de tamanhos, cores e época de floração permitem a realização de uma infinidade de combinações.
As bolbosas podem plantar-se isoladas ou em grupos. Consoante a sua época de floração podemos combiná-las com outras, como por exemplo, alegrar um canteiro de vivazes cuja floração terminou ou ainda não começou ou então, integra-las na paisagem, formando manchas de cor.
A grande vantagem das bolbosas é a sua variedade, havendo espécies para todos os gostos, florindo de janeiro a dezembro, ao sol ou à sombra, baixas ou altas, de flores grandes ou pequenas, em vasos ou em plena terra.
A maioria das bolbosas que florescem na primavera semeiam-se no final do verão; elas necessitam de um período de baixas temperaturas para iniciar a rebentação (ex: Allium, Anemone, Crocus, Iris, Hyacinthus, narcissus, Tulipa, Galanthus, Scilla, Ornithoglum, Ixia, Freesia etc.
As bolbosas de verão/outono são muito friorentas pelo que, para que emitam raízes e se desenvolvam, requerem temperaturas mais ou menos elevadas e boa exposição solar. Estão neste caso as Begonia, Alstroemeria, Canna, Dalia, Gladioluss, Lilium, Agapanthus, Amaryllis entre tantas outras.
As plantas bolbosas passam, ao longo da sua vida, por várias fases. Quando a floração acaba e as folhas começam a murchar, os órgãos subterrâneos aproveitam para repor energias e engordar, ficando em estado de vida latente até à próxima estação. 

Fotos: Serra do Calvo / Lourinhã


domingo, 21 de abril de 2013

Chamaemelum fuscatum (brot.) Vasc.


Nomes comuns:
Margaça-de-inverno; margaça-fusca

Finalmente, depois de muitas semanas de ausência forçada, eis-me de volta ao inventario e estudo da flora da região onde tenho vivido nos últimos anos.
A chuva abundante e humidade persistente do inverno passado favoreceram uma flora primaveril prolífera, em variedade e cor. Por esta altura, inúmeras espécies florescem alegremente e de forma exuberante, apressando-se a completar os seus ciclos de vida; algumas mais raras, outras nem por isso. E embora me sinta feliz sempre que encontro uma raridade ou alguma espécie ainda desconhecida para mim, mais feliz me sinto ao reencontrar “velhas amigas” que, rebrotando ano após ano, asseguram a necessária continuidade e estabilidade dos ecossistemas; a sua beleza sempre renovada, resistência e capacidade de adaptação já são reconhecidas e esperadas, mas nunca deixam de me surpreender. Estão neste caso os malmequeres, nome genérico pelo qual são conhecidas múltiplas espécies muito semelhantes e por vezes difíceis de distinguir entre si.
Diferentes espécies de malmequeres crescem em campos e beiras de caminhos e rodovias durante praticamente todo o ano, salpicando a paisagem de branco e amarelo e alegrando a alma de quem neles repara. Pertencem à família Asteraceae ou Compositae, a maior família de plantas de flor e talvez a mais conhecida, pois estamos constantemente a cruzar-nos com exemplares que a ela pertencem, tanto nas cidades como nos campos, em praticamente todas as regiões do planeta (margaridas, crisântemos, cardos etc.). No seu todo, a família das Asteraceae/Compositae compreende cerca de 23000 espécies, as quais estão organizadas em 1500 géneros. Quase todas exibem uma certa exuberância que não as deixa passar despercebidas, desde as espécies ornamentais às silvestres, sejam elas grandes e vistosas ou tão pequenas que poderiam passar despercebidas. Muitas das espécies silvestres evoluíram a partir da região mediterrânica enquanto a maior parte das espécies ornamentais tiveram origem na Africa do Sul.
Por estes dias, em que o solo argiloso da região da Lourinhã ainda se encontra saturado de água, a espécie de malmequer que mais se destaca é o Chamaemelum fuscatum, de pétalas brancas e “olho” amarelo. Floresce aqui e ali durante a maior parte do ano, especialmente desde o outono até ao verão mas o grande “boom” regista-se no final do inverno.
Na generalidade, pode encontrar-se em terrenos cultivados ou de pousio mas sempre em locais encharcados ou margens de pequenas ribeiras temporárias e outros locais húmidos. A floração terminará logo que o solo fique ressequido com os primeiros calores da primavera mas o Chamaemelum fuscatum continuará a florescer em pequenas colónias ate ao verão, em locais que se mantenham húmidos, graças às regas.

Esta é uma espécie nativa da região mediterrânica ocidental tendo-se espalhado por outras regiões do globo. Em Portugal encontra-se um pouco por todo o território continental, nas terras baixas, pois não gosta de altitudes superiores a 500 ou 600 metros.
O Chamaemelum fuscatum é uma pequena erva anual que pode ir dos 5 aos 40 cm de altura. É fortemente aromática quando manipulada. Os caules são eretos ou ascendentes, sem pelos e geralmente ramificados na metade inferior onde podem apresentar cor avermelhada.
As folhas são muito recortadas e de aspeto ligeiramente suculento.

A parte interessante desta espécie, assim como de todas as outras incluídas na família das Asteraceae = Compositae, é a inflorescência. Esta apresenta-se solitária no topo de um pedúnculo e aparenta ser uma singela flor mas… não é. Na realidade, cada “flor” não é apenas uma flor mas sim um conjunto delas, todas trabalhando em equipa, unidas no propósito de obter grandes resultados com o mínimo de dispêndio de energia. A estratégia encontrada por estas espécies parece bastante complexa mas na realidade funciona de forma muito simples… ou será ao contrário? De uma ou de outra forma o processo é simplesmente brilhante.
Senão, vejamos: as flores são muito pequeninas e para não passarem despercebidas aos insetos elas começaram por se arrumar, muito apertadinhas, num recetáculo em forma de disco, geralmente amarelo, o qual é rodeado, nesta espécie, por pétalas brancas (noutras espécies podem ser amarelas). Este arranjo floral é comum a todas as espécies da família das Asteraceae, (também chamadas Compostas ou Compositae, pela razão óbvia) e denomina-se capítulo. Em linhas gerais, o capítulo é um tipo de inflorescência composto por flores diminutas em forma de tubo que se agrupam de forma muita compacta sobre um recetáculo em forma de disco ligeiramente hemisférico e que constitui o que chamamos o “olho” do malmequer.
As flores da periferia do disco e apenas essas, estão providas de estruturas alongadas semelhantes a pétalas e que são denominadas lígulas; estas rodeiam as flores do disco e dão-lhe o aspeto de uma única flor. São as flores do centro do conjunto, apertadinhas no seu disco, que vão dar origem às múltiplas sementes pois são férteis, dispondo de órgãos reprodutores femininos e masculinos. As poucas flores da periferia, ou seja as que estão equipadas com pétalas (lígulas) são geralmente estéreis e a sua função é meramente decorativa. São elas que atraem os insetos polinizadores, tornando o conjunto apetecível. Assim, através de uma muito inteligente divisão de tarefas cada planta consegue maximizar a sua produção de sementes, limitando ao mínimo o dispêndio de energia na captação do interesse dos polinizadores.

Todo o conjunto desta estrutura (recetáculo, flores do disco e flores periféricas) é mantido no seu lugar por um involucro formado por folhas modificadas chamadas brácteas (brácteas involucrais), de forma oval, com margens escariosas e de cor escura. De notar que cada uma das florinhas tubulares que formam o centro da inflorescência também estão protegidas por um involucro de brácteas (brácteas interflorais) cuja margem é também de cor escura.

Os frutos designam-se por cípselas; são frutos secos (com uma única semente) de forma ovoide e ligeiramente comprimidos lateralmente. Em muitas espécies da família Asteraceae/Compositae estes frutos são providos de um tufo de pelos numa das extremidades os quais ajudam na sua dispersão pelo vento e pelos animais. Estes pelos, designados por papus ou papilho, são estruturas filiformes, vestígios das sépalas que formam os cálices florais. Contudo o fruto do Chamaemelum fuscatum não tem papilho.

Involucro de Anthemis arvensis
Foto Wikipedia
À primeira vista o Chamaemelum fuscatum pode ser confundido com outros pequenos malmequeres que florescem na mesma época e nos mesmos habitats, como é o caso do Anthemis arvensis. Contudo, há uma característica que facilmente nos permite distingui-los, para o que basta comparar os cálices de ambas as espécies: as brácteas que protegem o cálice do Chamaemelum fuscatum apresentam margens de cor mais escura, enquanto as do Anthemis arvensis são quase transparentes.

O Chamaemelum fuscatum é uma espécie do género Chamaemelum o qual inclui 4 espécies; embora inicialmente descrito no género Anthemis pelo grande botânico português Avelar Brotero do séc. XIX com o nome de Anthemis fuscatum esta espécie foi reclassificada em 1966 e incluído no género Chamaemelum por outro botânico português, João de Carvalho e Vasconcellos.

Esquema geral de um capítulo de Chaemaemelum fuscatum, em dois estádios do desenvolvimento, do lado esquerdo durante a floração e do lado direito aquando da maturação dos frutos. As flores e frutos foram desenhados afastados para melhor compreensão porque na realidade, estes encontram-se dispostos de forma muito compacta. 
Fonte: Herbário da Universidade de Coimbra

  Fotos: Zambujeira/Serra do Calvo - Lourinhã