"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





quarta-feira, 8 de maio de 2013

Muscari comosum (L.) Miller

Nomes comuns:
Jacinto-das-searas; jacinto-de-tapete;
jacinto-paniculato; cebolinha-de-flor-azul
Muscari comosum é uma planta bolbosa, assim designada porque se propaga de forma vegetativa através de um bolbo. O bolbo é um órgão subterrâneo em cuja estrutura se encontram já diferenciadas caules, folhas e flores e que além de dar origem à nova planta também lhe fornece nutrientes, alimentando-a, se necessário, durante os primeiros tempos de vida. Estas reservas permitem, por exemplo, que as bolbosas de floração invernal se antecipem e completem o seu ciclo de vida antes do desenvolvimento das plantas que surgem em massa com a chegada dos primeiros calores da primavera, beneficiando assim de mais espaço e luz do sol.
O bolbo do Muscari comosum é semelhante a uma cebola, de forma ovoide, com casca acastanhada e finas raízes adventícias, de cor branca. Geralmente encontra-se enterrado a uma profundidade considerável o que lhe permite resistir a grandes amplitudes térmicas e até suportar alguma seca.
Esquema de um bolbo de Muscari comosum cortado ao meio
Este bolbo é formado por um grande número de folhas grossas e carnudas dispostas em camadas perfeitamente sobrepostas as quais estão inseridas, na sua parte inferior, num prato ou disco basal. Se o cortarmos ao meio, podemos observar no seu interior, na parte central do bolbo, as peças de uma flor rudimentar as quais se desenvolverão posteriormente. As folhas exteriores do bolbo do Muscari comosum são secas e acastanhadas formando uma túnica de proteção em volta do bolbo. Com o engrossamento do bolbo e a respetiva maturidade formam-se bolbos mais pequenos na sua base, os chamados bolbilhos, que podem ser separados da mãe e replantados para formar novas plantas.
Chegado o final do inverno o bolbo do Muscari comosum começa a desenvolver-se, surgindo em primeiro lugar de 3 a 7 longas folhas basais, lineares, de cor verde pálido, de textura frouxa e juntas pela bainha.
As flores surgem posteriormente, durante o início da primavera, dispostas sobre um longo escapo ereto e formando um cacho de forma cónica, formado por pequenas flores pediceladas e bem apertadas; a distância entre as flores individuais vai alargando a medida que estas amadurecem, o que acontece de forma progressiva.
As cores das flores variam do azul pálido ao azul escuro, passando pelo azul violeta.
As flores individuais são compostas por 6 tépalas (conjunto de corola e cálice) fundidas, ficando com forma esférica ou obovoide e com a abertura denteada.
As flores terminais são estéreis e na antese, período de expansão das flores, estas assumem o aspeto de um vistoso penacho, com pedicelos compridos e carnudos. As flores restantes, mais modestas, são férteis.
O androceu (conjunto órgãos de reprodução masculinos) é formado por 6 estames e o gineceu (conjunto dos órgãos femininos) por um ovário súpero, do qual emerge o estilo.
Os frutos são capsulas ovais, com um pequeno entalhe no meio do ápice e 3 valvas angulosas que albergam no seu interior 2 sementes escuras e brilhantes.
Distribuição em Portugal
Fonte: Jardim Botânico UTAD
O Muscari comosum desenvolve-se rapidamente. No nosso país pode encontrar-se em floração/frutificação entre março e junho, dependendo da região (se entretanto não forem comidos pelas ovelhas e cabras). Tanto cresce ao sol como em situações de meia sombra, podendo ser utilizado com sucesso em vasos, nos jardins, dando uma bela pequena flor de corte.
Podemos encontra-lo em campos abertos e de vegetação baixa, searas, prados, clareiras dos bosques e ate em dunas do litoral.
Como espécie espontânea é originária da Europa central, região do mediterrânico, Península Ibérica e Macaronésia (Canárias, Madeira e Açores).
Em certos países do mediterrâneo oriental, nomeadamente  Grécia e Itália, estes bolbos são tradicionalmente consumidos quer cozinhados ou preparados em conserva.
Até há pouco tempo o Muscari comosum estava incluído na família das Liliaceae mas após revisão segundo novas normas vigentes foi reclassificado, tendo sido incluído numa família mais pequena, a família das Hyacinthaceae. Miguel Porto, no site do Herbário da Universidade de Coimbra explica-nos a situação:
“Tradicionalmente, esta família (Liliaceae) incluía uma miríade de espécies que, nas revisões mais recentes, já foram distribuídas por cerca de 30 famílias diferentes, pertencentes até a ordens diferentes! Isto significa somente que o que antes se chamava de “liliáceas” era um grupo bastante heterogéneo e artificial de plantas que, por serem todas morfologicamente semelhantes, foram incluídas na mesma família – mas à medida que se foram realizando estudos mais aprofundados, nomeadamente moleculares, percebeu-se que essa família era afinal uma mistura de coisas muito diferentes, com histórias evolutivas próprias. Como é natural, o problema está longe de ser solucionado.”

Na verdade, houve recentemente nova reclassificação da responsabilidade do sistema APG, moderno sistema de taxonomia vegetal, tendo o Muscari Comosum sido incluído na família Asparagaceae ao mesmo tempo que Hyacinthaceae foi eliminada. Contudo esta solução não foi consensual havendo entidades que continuam a usar a classificação anterior. Para mais informação veja AQUI e aqui.
Sobre as plantas bolbosas: 
Bolbos, tubérculos, raízes tuberosas e rizomas são órgãos subterrâneos especializados que não só dão origem a novas plantas todos os anos, como também acumulam reservas de nutrientes permitindo às espécies sobreviver em condições desfavoráveis. Estes órgãos subterrâneos dão origem a dezenas de plantas espontâneas e ornamentais extremamente importantes do ponto de vista paisagístico e comercial e que na generalidade são designados por bolbosas.
Em viveiros e centros de jardinagem é possivel encontrar-se uma vasta gama de plantas bolbosas; algumas são replicas verdadeiras de bolbosas que vivem no estado selvagem, outras são híbridos obtidos através de polinização cruzada de variedades pertencentes à mesma espécie.
Depois de plantadas as bolbosas não dão muito trabalho e a grande variedade de tamanhos, cores e época de floração permitem a realização de uma infinidade de combinações.
As bolbosas podem plantar-se isoladas ou em grupos. Consoante a sua época de floração podemos combiná-las com outras, como por exemplo, alegrar um canteiro de vivazes cuja floração terminou ou ainda não começou ou então, integra-las na paisagem, formando manchas de cor.
A grande vantagem das bolbosas é a sua variedade, havendo espécies para todos os gostos, florindo de janeiro a dezembro, ao sol ou à sombra, baixas ou altas, de flores grandes ou pequenas, em vasos ou em plena terra.
A maioria das bolbosas que florescem na primavera semeiam-se no final do verão; elas necessitam de um período de baixas temperaturas para iniciar a rebentação (ex: Allium, Anemone, Crocus, Iris, Hyacinthus, narcissus, Tulipa, Galanthus, Scilla, Ornithoglum, Ixia, Freesia etc.
As bolbosas de verão/outono são muito friorentas pelo que, para que emitam raízes e se desenvolvam, requerem temperaturas mais ou menos elevadas e boa exposição solar. Estão neste caso as Begonia, Alstroemeria, Canna, Dalia, Gladioluss, Lilium, Agapanthus, Amaryllis entre tantas outras.
As plantas bolbosas passam, ao longo da sua vida, por várias fases. Quando a floração acaba e as folhas começam a murchar, os órgãos subterrâneos aproveitam para repor energias e engordar, ficando em estado de vida latente até à próxima estação. 

Fotos: Serra do Calvo / Lourinhã


domingo, 21 de abril de 2013

Chamaemelum fuscatum (brot.) Vasc.


Nomes comuns:
Margaça-de-inverno; margaça-fusca

Finalmente, depois de muitas semanas de ausência forçada, eis-me de volta ao inventario e estudo da flora da região onde tenho vivido nos últimos anos.
A chuva abundante e humidade persistente do inverno passado favoreceram uma flora primaveril prolífera, em variedade e cor. Por esta altura, inúmeras espécies florescem alegremente e de forma exuberante, apressando-se a completar os seus ciclos de vida; algumas mais raras, outras nem por isso. E embora me sinta feliz sempre que encontro uma raridade ou alguma espécie ainda desconhecida para mim, mais feliz me sinto ao reencontrar “velhas amigas” que, rebrotando ano após ano, asseguram a necessária continuidade e estabilidade dos ecossistemas; a sua beleza sempre renovada, resistência e capacidade de adaptação já são reconhecidas e esperadas, mas nunca deixam de me surpreender. Estão neste caso os malmequeres, nome genérico pelo qual são conhecidas múltiplas espécies muito semelhantes e por vezes difíceis de distinguir entre si.
Diferentes espécies de malmequeres crescem em campos e beiras de caminhos e rodovias durante praticamente todo o ano, salpicando a paisagem de branco e amarelo e alegrando a alma de quem neles repara. Pertencem à família Asteraceae ou Compositae, a maior família de plantas de flor e talvez a mais conhecida, pois estamos constantemente a cruzar-nos com exemplares que a ela pertencem, tanto nas cidades como nos campos, em praticamente todas as regiões do planeta (margaridas, crisântemos, cardos etc.). No seu todo, a família das Asteraceae/Compositae compreende cerca de 23000 espécies, as quais estão organizadas em 1500 géneros. Quase todas exibem uma certa exuberância que não as deixa passar despercebidas, desde as espécies ornamentais às silvestres, sejam elas grandes e vistosas ou tão pequenas que poderiam passar despercebidas. Muitas das espécies silvestres evoluíram a partir da região mediterrânica enquanto a maior parte das espécies ornamentais tiveram origem na Africa do Sul.
Por estes dias, em que o solo argiloso da região da Lourinhã ainda se encontra saturado de água, a espécie de malmequer que mais se destaca é o Chamaemelum fuscatum, de pétalas brancas e “olho” amarelo. Floresce aqui e ali durante a maior parte do ano, especialmente desde o outono até ao verão mas o grande “boom” regista-se no final do inverno.
Na generalidade, pode encontrar-se em terrenos cultivados ou de pousio mas sempre em locais encharcados ou margens de pequenas ribeiras temporárias e outros locais húmidos. A floração terminará logo que o solo fique ressequido com os primeiros calores da primavera mas o Chamaemelum fuscatum continuará a florescer em pequenas colónias ate ao verão, em locais que se mantenham húmidos, graças às regas.

Esta é uma espécie nativa da região mediterrânica ocidental tendo-se espalhado por outras regiões do globo. Em Portugal encontra-se um pouco por todo o território continental, nas terras baixas, pois não gosta de altitudes superiores a 500 ou 600 metros.
O Chamaemelum fuscatum é uma pequena erva anual que pode ir dos 5 aos 40 cm de altura. É fortemente aromática quando manipulada. Os caules são eretos ou ascendentes, sem pelos e geralmente ramificados na metade inferior onde podem apresentar cor avermelhada.
As folhas são muito recortadas e de aspeto ligeiramente suculento.

A parte interessante desta espécie, assim como de todas as outras incluídas na família das Asteraceae = Compositae, é a inflorescência. Esta apresenta-se solitária no topo de um pedúnculo e aparenta ser uma singela flor mas… não é. Na realidade, cada “flor” não é apenas uma flor mas sim um conjunto delas, todas trabalhando em equipa, unidas no propósito de obter grandes resultados com o mínimo de dispêndio de energia. A estratégia encontrada por estas espécies parece bastante complexa mas na realidade funciona de forma muito simples… ou será ao contrário? De uma ou de outra forma o processo é simplesmente brilhante.
Senão, vejamos: as flores são muito pequeninas e para não passarem despercebidas aos insetos elas começaram por se arrumar, muito apertadinhas, num recetáculo em forma de disco, geralmente amarelo, o qual é rodeado, nesta espécie, por pétalas brancas (noutras espécies podem ser amarelas). Este arranjo floral é comum a todas as espécies da família das Asteraceae, (também chamadas Compostas ou Compositae, pela razão óbvia) e denomina-se capítulo. Em linhas gerais, o capítulo é um tipo de inflorescência composto por flores diminutas em forma de tubo que se agrupam de forma muita compacta sobre um recetáculo em forma de disco ligeiramente hemisférico e que constitui o que chamamos o “olho” do malmequer.
As flores da periferia do disco e apenas essas, estão providas de estruturas alongadas semelhantes a pétalas e que são denominadas lígulas; estas rodeiam as flores do disco e dão-lhe o aspeto de uma única flor. São as flores do centro do conjunto, apertadinhas no seu disco, que vão dar origem às múltiplas sementes pois são férteis, dispondo de órgãos reprodutores femininos e masculinos. As poucas flores da periferia, ou seja as que estão equipadas com pétalas (lígulas) são geralmente estéreis e a sua função é meramente decorativa. São elas que atraem os insetos polinizadores, tornando o conjunto apetecível. Assim, através de uma muito inteligente divisão de tarefas cada planta consegue maximizar a sua produção de sementes, limitando ao mínimo o dispêndio de energia na captação do interesse dos polinizadores.

Todo o conjunto desta estrutura (recetáculo, flores do disco e flores periféricas) é mantido no seu lugar por um involucro formado por folhas modificadas chamadas brácteas (brácteas involucrais), de forma oval, com margens escariosas e de cor escura. De notar que cada uma das florinhas tubulares que formam o centro da inflorescência também estão protegidas por um involucro de brácteas (brácteas interflorais) cuja margem é também de cor escura.

Os frutos designam-se por cípselas; são frutos secos (com uma única semente) de forma ovoide e ligeiramente comprimidos lateralmente. Em muitas espécies da família Asteraceae/Compositae estes frutos são providos de um tufo de pelos numa das extremidades os quais ajudam na sua dispersão pelo vento e pelos animais. Estes pelos, designados por papus ou papilho, são estruturas filiformes, vestígios das sépalas que formam os cálices florais. Contudo o fruto do Chamaemelum fuscatum não tem papilho.

Involucro de Anthemis arvensis
Foto Wikipedia
À primeira vista o Chamaemelum fuscatum pode ser confundido com outros pequenos malmequeres que florescem na mesma época e nos mesmos habitats, como é o caso do Anthemis arvensis. Contudo, há uma característica que facilmente nos permite distingui-los, para o que basta comparar os cálices de ambas as espécies: as brácteas que protegem o cálice do Chamaemelum fuscatum apresentam margens de cor mais escura, enquanto as do Anthemis arvensis são quase transparentes.

O Chamaemelum fuscatum é uma espécie do género Chamaemelum o qual inclui 4 espécies; embora inicialmente descrito no género Anthemis pelo grande botânico português Avelar Brotero do séc. XIX com o nome de Anthemis fuscatum esta espécie foi reclassificada em 1966 e incluído no género Chamaemelum por outro botânico português, João de Carvalho e Vasconcellos.

Esquema geral de um capítulo de Chaemaemelum fuscatum, em dois estádios do desenvolvimento, do lado esquerdo durante a floração e do lado direito aquando da maturação dos frutos. As flores e frutos foram desenhados afastados para melhor compreensão porque na realidade, estes encontram-se dispostos de forma muito compacta. 
Fonte: Herbário da Universidade de Coimbra

  Fotos: Zambujeira/Serra do Calvo - Lourinhã



sábado, 26 de janeiro de 2013

Asparagus aphyllus L.

Nomes Comuns:
Corruda-maior; Espargo-bravo; Espargo-bravo-maior;
Espargo-maior-do-monte;
Espargo-silvestre-maior; Espargueta

Asparagus aphyllus é uma espécie de origem mediterrânica que cresce espontaneamente em zonas arenosas e secas do sul da Europa, norte de África e oeste asiático, em falésias, matos, terrenos incultos, beira dos caminhos, em solos preferencialmente ácidos.
Ocorrências em Portugal. Fonte: Flora on

Esta espécie forma um pequeno arbusto perene e de aspeto compacto, fortemente espinhoso, semelhante aos tojos. Os seus longos ramos, muito ramificados, podem alcançar cerca de 1 metro de comprimento. Estes nascem a partir de caules subterrâneos cheios de nutrientes de reserva (rizomas) os quais se situam próximo da superfície do solo, o que facilita a disseminação vegetativa da planta.
Os jovens rebentos de origem subterrânea (turiões) são inicialmente moles, depois vigorosos mas flexíveis e alongados à medida que vão crescendo. Acabam por vergar com o próprio peso criando hábitos prostrados, a não ser que encontrem suporte num muro, árvore ou arbusto.
 As estruturas (filódios) que cobrem os caules e que têm aparência de escamas durante a fase de crescimento e de espinhos na maturidade, são na realidade verdadeiras folhas que se transformaram, possivelmente como medida de adaptação a situações repetidas de secura.
Os filódios de Asparagus aphyllus agrupam-se em fascículos de 1 a 7 unidades, de tamanho desigual, em que o central é mais grosso e comprido que os restantes.
Esta característica ajuda-nos a distinguir a Asparagus aphyllus de outras espécies do mesmo género que também crescem espontâneas em Portugal, nomeadamente a Asparagus acutifolius, que é muito semelhante.
A Asparagus aphyllus floresce e frutifica durante o verão. É uma espécie dioica ou seja, as plantas são masculinas ou femininas pois cada individuo gera flores de um único sexo.
As flores, pequenas e de cor amarelo esverdeado, brotam em grupos de 3 a 6 das axilas dos filódios, no topo de um pedicelo curto cuja base está rodeada de brácteas; são compostas por 3 sépalas + 3 pétalas quase juntas na base, de consistência algo carnuda e ligeiramente fragrantes. As flores masculinas têm seis estames eretos e robustos com anteras amarelas. As flores femininas mostram um estigma curto com estilo ligeiramente inchado.
 
Os frutos, dentro do qual se encontram de 1 a 3 sementes, são bagas de estrutura esférica, pequenas e duras, inicialmente verdes e depois negras, na maturação.
A Asparagus aphyllus pertence à família das Asparagaceae (após ter sido recentemente transferida da família Liliaceae) e ao género Asparagus. Este género inclui tanto espécies silvestres como espécies cultivadas, as quais são usadas como alimento ou com fins ornamentais. A espécie mais conhecida neste género é a Asparagus officinalis, cujos jovens rebentos são os conhecidos espargos, apreciados em todo o mundo pelo seu delicado sabor e baixo valor calórico. Contudo os rebentos jovens da espécie silvestre Asparagus aphyllus também são tenros e comestíveis, cozidos ou mesmo crus, apesar do seu sabor um pouco amargo.

A palavra Asparagus significa“rebento” e vem do latim sparagus que por sua vez deriva do grego aspharagos e anteriormente do persa asparag. Aphyllus refere-se ao facto de ser uma planta espinhosa.

Fotos: Serra do Calvo / Lourinhã


terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Calamintha nepeta (L.) subsp. nepeta


Nomes comuns:
Erva-das-azeitonas; Nêveda; Calaminta

Calamintha nepeta é uma espécie da família Lamiaceae e do género Calamintha o qual inclui cerca de 20 espécies nativas das regiões temperadas da Europa, noroeste de África e regiões asiáticas próximas ao mar Mediterrânico.
Em Portugal pode encontrar-se a Calamintha nepeta um pouco por todo o pais, na berma dos caminhos, em terrenos incultos, aterros, montes de entulho, na orla dos pinhais, azinhais e montados. É uma espécie bastante resistente ao frio (zona de rusticidade 5 a 9) pelo que não é de admirar que, em certas regiões do nosso pais ainda esteja em flor nesta época do ano. A Calamintha nepeta não se incomoda com um pouco de seca e embora prefira crescer em sol pleno também aparece em terrenos algo sombreados. Não tem preferência no que diz respeito ao tipo de solo, desde que tenha boa drenagem e seja moderadamente nitrificado.
Calamintha nepeta é uma planta herbácea e perene que se pode reproduzir através de estolhos e que se ressemeia com facilidade. Contudo, não tem a agressividade das hortelãs, suas parentes, pelo que não é considerada uma espécie invasora. Pode ser muito útil em jardins, fazendo um efeito maravilhoso em bordaduras, jardins de rocha e como cobertura de solo, sendo ainda excelente em vasos. Para além de produzir flores até muito tarde na estação, é também uma planta agradavelmente aromática.



Os caules peludos e de seção quadrangular formam um arbusto baixo e largo; são razoavelmente ramificados e decumbentes, isto é, desenvolvem-se sobre o solo, apenas com a extremidade ascendente. As folhas, opostas, são peludas e glandulosas, com contorno oval ou circular e com margens levemente dentadas, estando os dentes dirigidos para o ápice. As manchas esbranquiçadas que muitas vezes apresentam as folhas inferiores, são características desta espécie.

As folhas produzem um aroma muito agradável, numa mistura de limão com menta pelo que são muito apreciadas como condimento na cozinha mediterrânica e para fazer infusões; também constam do conjunto de ervas utilizadas para curtir azeitonas, daí o nome comum de erva-das-azeitonas.

A Calamintha nepeta foi, em tempos,muito utilizada como planta medicinal devido às suas propriedades antiespasmódicas, sudoríferas e expetorantes, mas o seu uso decaiu nos tempos modernos. Afinal, até as plantas estão sujeitas às inconstâncias da moda… Relegada para a medicina caseira há quem a utilize para acalmar cólicas e outros problemas digestivos e ainda como remedio para gripes e constipações.

A planta floresce a partir de julho e as suas flores atraem muitos insetos, principalmente abelhas, que aproveitam o néctar oferecido aos polinizadores. As flores surgem nas axilas das folhas e dispõem-se em cimeiras de 3 a 9 flores pedunculadas. O cálice é formado por 5 sépalas unidas formando um tubo com 13 nervuras peludas mas que se tornam glabras quando secam. Os 5 dentes que este tubo apresenta estão divididos em 2 partes ou seja, os 3 dentes superiores estão virados para cima e os 2 inferiores, são mais compridos e ciliados.
As brácteas são semelhantes a folhas.
 
A corola, cor-de-rosa ou lilas, é também formada por um tubo que se abre em dois lábios, o superior bilobulado, inteiro ou com um pequeno entalhe a meio do ápice e o inferior, trilobulado e com o lóbulo central maior que os laterais. Este é o formato característico das flores das espécies da família Lamiaceae.
Cada flor dispõe de órgãos reprodutores femininos e masculinos, ambos funcionais. O androceu consta de 4 estames curvados e convergentes. O gineceu é constituído por um ovário súpero dividido em 4 partes (que vão dar origem ao fruto) e de cuja zona central surge o estilo, com o estigma dividido em dois braços desiguais. O disco nectarífero situa-se debaixo do ovário.
Os frutos, globosos e de cor acastanhada são abundantes e servem de alimento às pequenas aves granívoras, numa época do ano em que não abundam as sementes; são tetraquénios, ou seja são formados por quatro pequenas nozes, cada uma com sua semente.
A Calamintha nepeta pode apresentar grande variabilidade quanto à pilosidade e tamanho dos caules e folhas e também no que diz respeito à disposição das flores e ao tamanho do cálice e da corola. Tal pode acontecer, inclusive, entre os indivíduos de uma mesma colónia o que por vezes dificulta a identificação, criando confusões, o que explica a enorme quantidade de sinónimos. A própria quantidade de essências contidas nas plantas varia muito, dependendo do local onde esta habita.


Ainda sobre a família das Lamiaceae:

Conhecida internacionalmente como família das mentas ou hortelãs, as Lamiaceae são um grande grupo de plantas de flor em que se incluem cerca de 7500 espécies catalogadas em mais de 200 géneros. É constituída por espécies herbáceas e arbustos semilenhosos largamente difundidas pelo mundo inteiro, mas com particular incidência na região mediterrânica e Medio Oriente. São sobretudo espécies aromáticas, produtoras de óleos essenciais. A presença de óleos essenciais através de pelos glandulosos ou de glândulas epidérmicas e a forma das flores (bilabiadas) são duas das características marcantes da família Lamiaceae, anteriormente denominada Labiatae.
É grande a importância económica das espécies Lamiaceae, sendo que os óleos essenciais são usados em medicina alternativa, aromaterapia, perfumaria e na indústria dos cosméticos.
Espécies de vários géneros, dentro desta família, são muito apreciadas em Portugal, estando intrinsecamente ligadas aos nossos hábitos e costumes. São geralmente utilizadas pelas suas propriedades aromáticas, condimentares, ornamentais ou medicinais:
Salvia (salva)
Ocimum (manjericão)
Origanum (oregão)
Thymus (tomilho)
Mentha (hortelãs)
Lavandula (alfazema e rosmaninho)
Romarinus (alecrim)
Melissa (erva-cidreira)
entre outras…

Fotos: Serra do Calvo / Lourinhã


quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

É NATAL....


No meu jardim predominam as espécies autóctones. No entanto não dispenso uma ou outra espécie adaptada que pelas suas características me dão muito prazer. É o caso deste lindo Hibiscus que invariavelmente me presenteia com uma profusa floração que se estende do verão até à primavera seguinte. É este o meu presente para todos os que amavelmente acompanham este blog e me mimam com os seus comentários.
Desejo a todos muita alegria na época festiva que se aproxima e que o Futuro permita a realização dos sonhos que alimentam a nossa Esperança.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Solanum nigrum L.

Nomes comuns:

Erva-das-bugalhinhas; erva-do-bicho; erva-dos-bugalhos; erva-moira; erva-moira-da-baga-preta; erva-moira-mortal; erva-moira-negra; erva-moira-sem-pelos; erva-moura; erva-nociva; erva-noiva; erva-santa; fona-de-porca; solano; tomateiro-bravo; tomateiro-do-diabo

A um inverno frio e de escassas chuvas seguiu-se um verão quente e completamente seco. Como consequência, muitas plantas surpreendidas com uma tal estiagem, não tiveram como se desenvolver por completo; digamos que entraram em “modo de espera”, aguardando por condições mais favoráveis, previsivelmente na próxima primavera. Mas felizmente o outono chegou cedo, muito chuvoso, ansioso por colmatar as deficiências causadas pela ausência de água. Às chuvas regulares e intensas aliaram-se as suaves temperaturas que por norma se registam nesta região e se prolongam até bastante tarde na estação, criando-se assim condições para que algumas plantas, como por exemplo indivíduos da espécie Solanum  nigrum, ainda fossem a tempo de produzir flores, frutos e sementes antes da chegada dos frios de janeiro.
A Solanum nigrum pertence à família Solanaceae e ao género Solanum. Esta família botânica é um grupo bastante alargado com cerca de 2000 espécies organizadas em quase 100 géneros, sendo que mais de metade pertence ao género Solanum. Solanaceae agrupa espécies de grande importância económica, não só plantas ornamentais (as populares petúnias!!!) mas também várias espécies comestíveis e essenciais na alimentação humana nomeadamente as pimentas e os pimentões, a dispendiosa frutinha physalis, e ainda, (incluídas no género Solanum) as beringelas, o tomate, e a indispensável batata.
Também a planta do tabaco se inclui na família Solanaceae assim como varias espécies sobejamente conhecidas pelos seus componentes tóxicos ou alucinogénios como a Datura a Mandragora, e a Atropa belladonna, entre outras.
A maioria das espécies do género Solanum são originárias da América do Sul. No entanto, das cerca de 1500 espécies que fazem parte deste género, 15 espécies são nativas da flora europeia. A Solanum nigrum é nativa da Eurásia tendo sido introduzida noutras partes do globo, estendendo-se, hoje em dia, também pelo continente americano, Africa do Sul e Austrália. Tão bem se tem dado por terras alheias que é considerada uma das ervas infestantes mais cosmopolitas. Em Portugal pode encontrar-se praticamente em todo o território.
É uma infestante das culturas de verão preferindo os terrenos ricos em azoto, húmidos e algo sombreados. Facilmente aparece no nosso jardim ou quintal e também em depósitos de entulhos, campos incultos ou cultivados, pomares, beiras de caminhos ou terrenos baldios.
A Solanum nigrum é uma planta geralmente anual que raramente excede os 60 cm de altura. É herbácea, por vezes lenhosa na base e provida de alguns pelos glandulosos. No seu todo a Solanum nigrum é algo semelhante à rama da batateira, sua congénere, embora as flores sejam mais pequenas.
Os caules, ocos, decumbentes ou eretos, são suficientemente ramificados para formar um pequeno arbusto.
As folhas, dispostas alternadamente nos caules, são pecioladas, inteiras, ovadas e com margens ligeiramente recortadas ou dentadas. De notar que a forma, cor e tamanho das folhas podem variar de acordo com os fatores ambientais, tal como a composição do solo e as condições de humidade.
As inflorescências são formadas por 5 a 10 flores, frouxas, solitárias, com pedúnculos eretos mas pendentes que encurvam fortemente na frutificação; a corola tem 5 pétalas de forma ligeiramente ovada e de cor branca; o cálice campanulado é formado por 5 sépalas, persistentes na frutificação; os 5 estames, de filamentos curtos e unidos na parte inferior, são iguais e têm grandes anteras amarelas. As flores são hermafroditas ou melhor dizendo, estão providas de órgãos reprodutores femininos e masculinos.
Os frutos são bagas semelhantes a pequenos tomates, inicialmente de cor verde e que se tornam negros e lustrosos quando maduros; as numerosas pequenas sementes que se encontram no seu interior são elipsoides e achatadas.
Existem muitas plantas com características semelhantes que podem ser confundidas com a Solanum nigrum e só assim se justifica a variedade incrível de nomes populares e sinonímias associados a esta espécie. A fim de impôr “ordem na casa” foi criado o Solanum nigrum complex que inclui espécies Solanum distintas embora morfologicamente semelhantes ou seja, formas intermediárias de hibridização e cuja classificação causa controvérsia entre os taxonomistas.
Quase todas as espécies Solanum são toxicas e a Solanum nigrum não é exceção; na realidade tem fama de ser muito toxica devido às elevadas concentrações de alcaloides como a solanina, solamargina e solasodina os quais que são produzidos pela planta, supostamente como defesa contra os predadores (fungos e insetos). Estes alcaloides concentram-se especialmente nas partes verdes da planta a qual, segundo certas correntes de opinião, é muito nociva para humanos e gado, chegando a ser fatal quando ingerida. No entanto, a Solanum nigrum é cultivada como legume em varias regiões de Africa e da América do Norte onde as folhas jovens e rebentos são ingeridos em sopas e guisados, sempre bem cozidas, sendo incluídas também em pratos tradicionais na Etiópia, Gana, África do sul e Indonésia. Até na Europa, nomeadamente Creta, Grécia e Turquia as folhas jovens são usadas em saladas de legumes, depois de cozidas. Os frutos, consumidos maduros (a concentração dos alcaloides é muito maior nos frutos verdes), são muitas vezes utilizados para fazer doce e para decorar tartes e bolos.
Estudos recentes comprovam que a planta não é potencialmente venenosa, havendo graus variáveis de toxicidade dependendo das características do solo e do clima onde vive cada planta.
Em todo o caso, tendo em consideração que esta espécie pode ser confundida com outras, há que ter cuidado e consumi-la moderadamente e apenas quando houver reconhecimento absoluto. Recomenda-se especial cuidado em não a confundir com a Atropa belladonna, espécie da mesma família e que é uma das plantas mais tóxicas encontradas no hemisfério ocidental. 
  
A Solanum nigrum é utilizada em fitoterapia desde a Antiguidade reconhecendo-se-lhe propriedades como sudorífero, analgésico, sedativo e narcótico, entre outras.
FACTOS sobre outras espécies Solanum:
A batata - Solanum tuberosum
A planta da batata também produz componentes tóxicos que fazem parte da defesa natural da planta. Estes alcaloides encontram-se debaixo da pele do tubérculo mas sendo as batatas adequadamente armazenadas, a concentração dos mesmos mantem-se baixa, não afetando o ser humano. No entanto, por vezes encontram-se batatas com a pele esverdeada, situação indicadora do aumento da concentração dos alcaloides e nesse caso a ingestão do tubérculo pode provocar envenenamento.
O tomate – Solanum lycopersicum
Outra espécie do género Solanum, o tomate, hoje em dia largamente consumido no mundo inteiro, com benefícios indiscutíveis para a saúde humana, já foi alvo de preconceitos, tendo sido considerado venenoso. A verdade é que esta espécie também contém o alcaloide toxico, a solanina, que está presente nos tomates verdes. Não sendo verdadeiramente prejudicial ingerir o fruto ainda verde (a não ser para quem tenha predisposição para artrite, reumatismo ou gota ou outras contraindicações), é contudo mais saudável consumi-lo maduro.

 Fotos: Serra do Calvo / Lourinhã