"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





sábado, 24 de novembro de 2012

Convolvulus arvensis L.

Nomes Comuns:
Corriola; Corriola-campestre; Corriola-mansa; Erva-garriola; Estende-braços; Engatateira; Garriola; Trepa-trepa; Verdeselha; Verdezelha; Verdisela; Verdiselha

Convolvulus arvensis é uma pequena perene da família Convolvulaceae e do género Convolvulus, o qual inclui muitas espécies consideradas daninhas e de grande poder invasivo. Apesar disso, algumas espécies deste género são cultivadas em jardins quer como trepadeiras quer como cobertura de solo, tirando partido do seu rápido crescimento e das cores vibrantes das suas grandes flores de aspeto delicado. Porém, tal não é o caso da Convolvulus arvensis que, embora de pequena envergadura e de aspeto delicado e inofensivo, é uma espécie altamente invasora.
Jardim de Rocha
Fonte: Jardins du Gué
Pessoalmente e apesar da sua comprovada má fama, considero que esta planta, ainda assim, pode ser utilizada com sucesso em certos tipos de jardins, sobretudo em jardins de rocha (dos quais sou fã), desde que haja o cuidado de a confinar ao espaço que lhe tenha sido destinado. Afinal é uma planta bem bonita e resistente e só poderá fazer mal se estiver no lugar errado, tal como acontece com tantas outras espécies.
Conforme o próprio nome indica, a Convolvulus arvensis é uma espécie essencialmente campestre (do latim arvense = que cresce em terra de cultivo); é nativa da Eurásia mas encontra-se disseminada por quase todo o mundo, tendo-se adaptado com sucesso a vários tipos de habitats, nomeadamente em zonas temperadas e nos trópicos.
Distribuição em Portugal
Fonte: Flora Digital de Portugal
Em Portugal é frequente em quase todo o território, constância essa que é confirmada pela quantidade de nomes vernáculos pela qual é conhecida no nosso país.
A Convolvulus arvensis floresce de abril a outubro, quer em campos incultos, beira de caminhos, pomares ou terrenos cultivados, manifestando natural preferência por terrenos repetidamente remexidos, onde melhor se propaga. È uma espécie indicadora de terrenos com riqueza de nutrientes de nível médio, não suportando solos muito fertilizados.
A Convolvulus arvensis produz uma cobertura de solo que pode ser muito densa, reproduzindo-se por sementes ou através do seu profundo e extensivo sistema radicular. Os seus rizomas, engrossados com reservas de carbohidratos e proteínas, podem atingir mais de 2 m de comprimento e as raízes mais de 7 m. Inicialmente, a raiz principal, que desponta do rizoma, enterra-se profundamente no solo; simultaneamente formam-se raízes laterais que são superficiais mas que por sua vez começam a crescer para baixo quando chegam perto dos 100 cm de comprimento; das raízes laterais podem surgir rebentos que darão origem a series sucessivas de novas plantas e respetivos sistemas radiculares.
Cada pedaço do extenso rizoma tem a possibilidade de criar raízes pelo que, numa tentativa de remover a planta de forma definitiva não basta arranca-la pois é praticamente impossível recolher todos os pedaços do sistema radicular, muito espalhado e profundamente enterrado. A própria maquinaria utilizada para lavrar os terrenos infestados ajuda a disseminar os pedaços de rizoma.
A Convolvulus arvensis não só priva as culturas de uma boa parte da água e nutrientes disponíveis, como ao crescer se enrola nas plantas cultivadas procurando suporte, envolvendo-as e muitas vezes, abafando-as por completo. Tendo em consideração a sua distribuição cosmopolita, rápido crescimento e abundancia de colonias, o impacto na economia de certos países é bastante desastroso, como é o caso dos Estados Unidos da América e do Canadá, pelo que a Convolvulus arvensis não só foi colocada no top 10 das piores plantas daninhas (Holm et al., 1977) como foi também considerada uma das plantas mais problemáticas para a agricultura. 
Curiosamente existe muita informação sobre os malefícios da Convolvulus arvensis na agricultura, principalmente nas plantações de cereais, mas pouco se sabe sobre o impacto desta espécie em pastagens e sobretudo em áreas naturais.

A Convolvulus arvensis é uma planta herbácea, glabra ou com indumento de pelos densos e fracos. Os caules, profusamente ramificados, são finos e longos, chegando a atingir 2 m ou mais, de comprimento; são volúveis (enrolando-se em hélice sobre um suporte) ou rastejantes, conforme a situação se lhe apresente.
As folhas, inteiras e de pecíolo alongado, são alternas embora cresçam em posições desiguais ao longo do caule; apresentam formato oblongo ou ovado-oblongo, umas vezes em forma de coração estilizado invertido, outras vezes em forma de seta.

De notar que a Convolvulus arvensis é uma espécie muito variável na morfologia e tamanho das folhas, assim como na cor da corola das flores e no maior ou menor desenvolvimento do indumento. Estas variações são, presumivelmente, resultado da influência de fatores ambientais, nomeadamente as condições de maior ou menor secura ou localizações  sujeitas a pisoteio.

As flores nascem solitárias ou em grupos de 2 ou 3, na axila das folhas, encimando pedúnculos angulosos e nos quais se podem ver um par de bracteolas lineares.
A corola, afunilada, é formada por 5 pétalas unidas de cor branca ou rosa-pálido, por vezes com uma faixas mais escuras entre as pétalas.
O cálice é composto por 5 sépalas densamente peludas, oblongas e separadas, de consistência coriácea e margens membranosas, sendo persistentes na frutificação.

Cada flor está provida de órgãos reprodutores femininos e masculinos funcionais. Os 5 estames, brancos e de tamanho desigual, estão ligados à base da corola e apresentam anteras também brancas e providas de papilas. O pistilo é composto por 2 estigmas lineares. É na base do tubo formado pela fusão das pétalas que se forma o néctar com que a Convolvulus arvensis premeia os numerosos polinizadores, sobretudo abelhas, vespas e borboletas que a visitam. A produção de néctar representa um esforço suplementar em termos de gasto de energia por parte da planta mas este incentivo aos insetos tem como objetivo leva-los a viajarem de flor em flor para conseguirem mais alimento, o que favorece a polinização cruzada. Sem o constante vai-e-vem dos insetos carregando o pólen de uma flor para a outra existiriam mais riscos de haver autopolinização, considerando que as flores se apresentam em grupos extensos.
Fruto e sementes
Fonte - Federal Noxious Weed of U.S.A.
Os frutos são cápsulas esféricas, glabras, de cor castanha e com sementes escuras e de superfície rugosa. Os frutos geralmente contêm de 1 a 4 sementes, cuja forma depende do número produzido no fruto; uma só semente é esférica mas ficam progressivamente mais estreitas conforme mais sementes são produzidas.

Após a maturação as sementes tornam-se impermeáveis e são muito persistentes podendo permanecer em dormência durante várias décadas (50 anos ou mais, se estiverem profundamente enterradas no solo). Geralmente as sementes caiem no solo perto da planta-mãe mas também podem ser arrastadas pela água ou serem comidas pelas aves que assim as transportam para outros locais; as sementes podem passar pelo processo digestivo das aves sem sofrerem grande prejuízo nas suas capacidades germinativas.


Enfim, podemos dizer que a Convolvulus arvensis é uma lutadora e será uma sobrevivente pois aparentemente calculou todas as opções e tomou todas as medidas possíveis no que toca ao sucesso da reprodução e sobrevivência da espécie. Espécie prevenida…

 Sinonimias:
Convolvulus arvensis L. subsp. arvensis
Convolvulus arvensis L. subsp. crispatus Franco


Fotos: Serra do Calvo / Lourinhã


domingo, 11 de novembro de 2012

Convolvulus althaeoides L.


Corriola-rosada
Convolvulus althaeoides L. - Familia Convolvulaceae
Uma das carateristicas das espécies da família Convolvulaceae são as suas flores, muitas vezes de cores vistosas e variadas, com corolas grandes em forma de trompeta ou funil, o que as torna facilmente identificáveis.
Ipomea purpurea  (Wikipedia) - Familia Convolvulaceae
São geralmente plantas herbáceas que, na generalidade, gozam de má fama, sendo consideradas plantas daninhas e invasoras, com tarefa difícil no que toca à sua erradicação. São consideradas daninhas apenas por se encontrarem no local errado, coitadas, pois as suas flores são de tão delicada beleza que não podem deixar de ser admiradas! Mas convém frisar que nem todas as espécies desta familia são consideradas inimigo a abater. Por exemplo, a espécie com maior destaque dentro da família Convolvulaceae e com importância económica é a Ipomea batatas, a nossa conhecida e deliciosa batata doce, consumida em quase todo o mundo, tanto por seres humanos como por animais.
Flor de Ipomea batatas = batata doce (Wikipedia) - Família Convolvulaceae
Algumas espécies da familia Convolvulaceae são ainda utilizadas como plantas ornamentais, sendo denominadas vulgarmente e de forma genérica,“Glória da manhã” pois as suas flores abrem de manhã para fecharem ao anoitecer.
Ipomea tricolor (Wikipedia) - Familia Convolvulaceae
Convolvulus é um dos 57 géneros em que se dividem as cerca de 1600 espécies da família botânica Convolvulaceae. O género Convolvulus no qual se inclui a Convolvulus althaeoides agrupa mais de 200 espécies, amplamente distribuídas por países de clima temperado e tropical e importantes na manutenção do equilíbrio dos ecossistemas visto que são alimento exclusivo das larvas de várias espécies de borboletas.
A Convolvulus althaeoides é uma pequena herbácea de aspeto aveludado e de hábitos rastejantes ou trepadores que cresce a partir de rizomas ramificados.
Embora incluida no rol das plantas que se comportam agressivamente como daninhas invasoras devo dizer que nos terrenos agricolas que rodeiam as arribas do Caniçal, tive de me esforçar para encontrar uma escassa meia duzia de exemplares de Convolvulus althaeoides, solitários na sua maioria e de crescimento discreto. (O mesmo não se poderá dizer da sua congénere Convolvulus arvensis que se mostra bastante menos inibida, como veremos posteriormente).
Os caules da Convolvulus althaeoides, longos, delgados e cobertos de pelos curtos, crescem prostrados ou volúveis quase sempre apoiados noutras espécies, nas quais se enrolam procurando suporte e acabando muitas vezes por abafá-las.
As folhas, de um lindo tom de verde azulado, estão dispostas de forma alternada, com um peciolo bastante visivel; têm forma triangular-ovada e são inteiras na base da planta mas tornam-se cada vez mais recortadas à medida que sobem nos caules.
De março a agosto as flores surgem solitárias ou em grupos de 3 nas axilas das folhas, no topo de um pedicelo mais comprido que o da folha axilar.
A corola, afunilada, é formada por 5 pétalas unidas, de cor rosa forte.
O centro das flores onde estão situados os orgãos masculinos (androceu) e femininos (gineceu), assim como o nectário, é de um rosa mais escuro. Os 5 estames são brancos e desiguais, com anteras lisas de cor violeta.
As flores da Convolvulus althaeoides são muito efémeras durando pouco mais de um dia e como todas as da sua espécie abrem de manhã e fecham ao cair da noite, para logo serem substituidas por uma nova flor, na manhã seguinte.
O cálice é formado por 5 sépalas que persistem na formação do fruto; são  livres mas desiguais, sobrepostas  e  com margens membranosas.
Fruto imaturo (Wikipedia)

Fruto com as sementes (Wikipedia)
Os frutos são capsulas globosas, sem pelos, maiores que o cálice e dentro da qual se encontram as  sementes, negras, achatadas e muito enrugadas.
A Convolvulus althaeoides surge de forma espontânea em toda a área mediterrânica, Madeira e Canárias.
Ocorrências de Convolvulus althaeoides em Portugal continental
Fonte: Flora Digital de Portugal
Prefere os locais soalheiros e os solos bem drenados, na beira dos caminhos, em terrenos agricolas ou campos incultos. É facil de aclimatar e uma vez bem instalada pode eventualmente tornar-se invasora, embora não tanto como outras espécies do mesmo género. Em certos paises é aproveitado o seu potencial como planta ornamental, pois a delicadeza dos seus caules e flores torna-a especialmente apropriada para arranjos em cestos suspensos e jardins de rochas.


Convolvulus fernandesii – endemismo português:
Dentro do género Convolvulus podem encontrar-se 8 a 10 espécies no nosso território. Dentre elas a espécie mais interessante, pela sua raridade, é a Convolvolus fernandesii porque é um endemismo português, que apenas se pode encontrar na Serra da Arrábida, nas escarpas, entre fendas e afloramentos rochosos, no curto espaço da costa que vai de Sesimbra ao Cabo Espichel. Esta é uma espécie protegida ao abrigo do Estatuto Directiva de Habitats 92/43, como espécie prioritária do Anexo II e anexo IV.

Para mais informações sobre Convolvulus fernandesii clique em:
e também aqui 

Fotos de Convolvulus althaeoides - Arribas do Caniçal / Lourinhã


terça-feira, 30 de outubro de 2012

Artemisia campestris L. subsp. Maritima


Erva-lombrigueira, madorneira
A Artemisia campestris subsp. maritima pertence ao género Artemisia, um dos maiores géneros dentro da familia das Astereceae/Compositae. Este género inclui algumas espécies de morfologia tão diferenciada que se torna, por vezes, complicada a sua identificação mas na generalidade são espécies herbáceas ou arbustivas, ricas em óleos com comprovadas propriedades terapêuticas, uma das suas principais características em comum. Muitos destes componentes químicos tornaram-se indispensáveis na indústria farmacêutica mundial contemporânea e são utilizados no combate a certas doenças do tipo infecioso como por exemplo a malaria.
O facto é que a Artemisia campestris subsp.maritima consegue retirar dividendos de um solo pobre em água e quase sem nutrientes: toda a planta é fortemente aromática o que se deve à presença de tricomas glandulares distribuídos por quase toda a planta e que produzem os constituintes químicos e aromáticos.
Especificamente esta espécie tem sido usada em medicina popular na prevenção de distúrbios gástricos, hipertensão e reumatismo. É ainda vermífuga (daí o nome popular de erva-lombrigueira) e abortiva. Geralmente toma-se sob a forma de infusão para o que se usam os caules e as folhas. Contudo é necessário moderação no seu consumo e ter em conta que a planta é toxica quando ingerida crua.
Mapa de ocorrências registadas em Portugal por Flora on
A Artemisia campestris marítima é uma espécie frequente em quase todos os areais do litoral português e distribui-se de forma geral por todo o litoral atlântico temperado europeu. É de importância fundamental no equilíbrio dos ecossistemas pois serve de alimento às larvas de variadíssimos tipos de Lepidoptera (borboletas), algumas das quais se alimentam exclusivamente desta espécie, nomeadamente Bucculatrix diffusella, Bucculatrix pannonica e Coleophora settarii.
A Artemisia campestris subsp.maritima é uma espécie perene, provida de um rizoma do qual despontam raízes muito profundas para captar água em profundidade. Os caules, estriados e com alguma coloração castanha, são eretos, ascendentes (por vezes prostrados para resistir aos fortes ventos) e formam pequenos arbustos lenhosos que podem chegar aos 80 cm de altura.
As jovens plantas de Artemisia campestris marítima estão cobertas de pelos longos e macios os quais caiem posteriormente, tornando-se a planta glabrescente.
As folhas, sem pecíolo, dispõem-se de forma alternada nos caules e são carnudas devido às reservas de água e óleos que contêm; para diminuir a transpiração, as folhas estão protegidas por uma forte cutícula e o limbo é finamente recortado em segmentos curtos mas de formas variáveis desde a base até ao ápice, terminando numa ponta curta, aguda e rígida.
Ao contrário da maioria das espécies que se apressam a florescer logo que começa a primavera, tirando partido da grande atividade de insetos polinizadores, a Artemisia campestris marítima floresce e frutifica apenas no final do verão, geralmente de agosto a novembro. Desta forma resguarda as flores e os frutos dos grandes calores, sem ter de se  preocupar com o decréscimo de insetos nesta altura do ano pois é polinizada pelo vento.
As flores da Artemisia campestris marítima são minúsculas e agrupam-se em capítulos ovoides que por sua vez também se juntam em cachos muito densos e ramificados. Este tipo de inflorescência, em capítulos, é característico da família botânica das Asteraceae (também conhecida por Compositae) a que pertence esta espécie. As espécies desta família resolveram o problema da reprodução de forma muito engenhosa, conseguindo o máximo de eficiência com um minino de custos. Para tal, as flores muito pequenas e numerosas apresentam-se agrupadas de forma muito compacta sobre um recetáculo em forma de disco central, funcionando em equipa, por assim dizer. Assim, as pequenas flores no seu conjunto tornam-se mais visíveis e apelativas para os insetos polinizadores.
Nesta espécie as corolas das flores são amarelas com flores periféricas femininas, delgadas e compridas e flores centrais masculinas, tubulares e mais curtas. Os capítulos apresentam-se protegidos por um involucro de formato ovoide com brácteas ovadas com a parte central carnuda e de margem ampla e escariosa.
Os frutos, geralmente dispersos pelo vento, são cípselas cilíndricas muito pequenas de cor acastanhada, sem pelos nem papilho.
Outras espécies do género Artemisia são conhecidas e utilizadas em gastronomia como por exemplo o estragão (Artemisia dracunculus) que se usa para aromatizar pratos de peixe. Mas a espécie mais conhecida é a Artemisia absinthum, usada na confeção de uma bebida destilada, o absinto.
O Cuspo do Cuco:
Durante a primavera podem observar-se, nos ramos e folhas de várias espécies de plantas e arbustos das dunas, incluindo a Artemisia campestris maritima, pequenos aglomerados de uma substância branca que parece ser espuma. É o chamado Cuspo de cuco, segregado por um inseto, a cigarrinha espumosa (Philaenus spumarius), para proteger as suas ninfas enquanto se desenvolvem.
Philaenus spumarius - Foto Wikipedia
Este extraordinário inseto embora pouco visível é bastante comum podendo encontrar-se em praticamente todos os habitats, (exceto onde as temperaturas atingem os extremos) e alimentam-se de muitos tipos de plantas. Estes insetos locomovem-se correndo ou voando mas a sua maior habilidade são os saltos pois podem saltar mais de 100 vezes a sua altura (veja aqui mais detalhes).
As Galhas:
Também na primavera, a Artemisia campestris maritima apresenta umas bolinhas vermelhas ou esbranquiçadas que ao incauto passeante poderão parecer flores em formação ou frutos, mas que na realidade são galhas. As galhas variam de forma, de espécie para espécie e mais não são que uma modificação dos tecidos, para defesa dos órgãos da planta após o ataque de ácaros, insetos, vírus, batérias ou fungos. Geralmente os organismos galhadores são específicos à espécie mas confesso que não consegui, até à data, identificar o agressor da Artemisia campestris. Normalmente estes agentes depositam os seus ovos nas folhas ou no caule do hospedeiro ocasionando uma reação que leva ao espessamento dos tecidos criando assim, um espaço que funciona como casulo. É nesse espaço que as larvas se desenvolvem, parasitando a planta e aproveitando-se dos nutrientes que dela retiram. Quando chegam à fase adulta, os insetos deixam a proteção da galha e vão à sua vida.

Sinonímias:
Artemisia campestris L. ssp. maritima (DC.) Arcangeli
Artemisia campestris L. ssp. lloydii (Rouy) Coutinho
Artemisia campestris L. var. maritima DC.
Artemisia crithmifolia L.
Artemisia gayana Besser
Artemisia lloydii (Rouy) Hill



Fotos: Praia da Areia Branca/Areal sul - Lourinhã



terça-feira, 2 de outubro de 2012

Smilax aspera L.

Salsaparrilha

A Smilax aspera, vulgarmente conhecida por salsaparrilha, é mais uma espécie que sofreu reavaliação (veja aqui -Sobre a classificação cientifica), tendo sido transferida da família das Liliaceae para uma família mais pequena, a Smilacaceae. Esta família inclui cerca de 315 espécies repartidas por 2 géneros, sendo o mais importante o género Smilax ao qual pertence a espécie Smilax aspera. Do género Smilax fazem parte cerca de 300 a 350 espécies, na sua maioria trepadoras com ampla implantação predominantemente em zonas de clima temperado, tropical e subtropical.
Ocorrências em Portugal. Fonte: Flora on
A Smilax aspera distribui-se pelas regiões da bacia do Mediterrâneo incluindo a Península Ibérica, oeste asiático e algumas regiões do noroeste africano.
Não se pode dizer que seja uma espécie muito frequente em Portugal mas é, sem dúvida, uma componente essencial nos matos perenifólios tipicamente mediterrânicos formados por árvores e arbustos de pequena altura em que predominam os Cistus, os Juniperus, Quercus coccifera, Pistacia lentiscus, Daphne gnidium, Phillyrea angustifólia,  Lonicera implexa e Rhamnus alaternos, entre outras.
A Smilax aspera não é esquisita no que diz respeito ao tipo de solo nem é uma espécie particularmente friorenta pelo que podemos encontrá-la em habitats bastante variados. Suporta bem os períodos de seca e embora goste do calor e prefira o sol pleno, tolera alguma sombra. 
A Smilax aspera é uma vigorosa trepadora, perene, áspera e sem pelos; cresce a partir de um rizoma, subterrâneo, geralmente alongado, volumoso e muito ramificado.
Os caules são angulosos e muito longos, podendo chegar aos 15 metros de comprimento; são lenhosos e embora delgados e flexíveis, são muito fortes; estão providos de acúleos (formações rígidas e afiadas semelhantes a espinhos) e ao crescerem enrolam-se em hélice nos troncos e copa de árvores e arbustos, procurando suporte para se elevarem, com a ajuda de gavinhas.
Crescendo sem controlo, os caules da Smilax aspera podem tornar um bosque impenetrável devido ao emaranhado dos seus caules aculeados. Mas nem tudo são desvantagens pois já vi certos arbustos de tal forma manietados pelos caules da Smilax aspera que se tornam abrigo inexpugnável para alguns animais, nomeadamente perdizes e coelhos quando, em épocas de caça, necessitam de refúgio onde os cães não se atrevam a entrar.
As folhas da Smilax aspera demonstram grande plasticidade morfológica podendo apresentar variações no tamanho e na forma e até na quantidade de acúleos. Estas variações têm a ver com o local onde crescem os espécimes, dependendo da exposição aos ventos e à radiação solar. As folhas dos indivíduos que crescem em locais mais abrigados são geralmente cordiformes (formato ovado-triangular, lembrando um coração), enquanto em locais mais desabrigados ou sujeitos a pastoreio, as folhas tendem progressivamente a ser mais estreitas e alongadas (sagitadas, ou seja, em forma de seta).
De resto, as folhas são pecioladas e posicionam-se de forma alterna nos caules; são inteiras, com acúleos na margem e ocasionalmente apresentam manchas brancas; a sua consistência coriácea ajuda a planta a poupar as suas reservas de água e nutrientes através da redução da transpiração.
As folhas estão munidas de duas estípulas que crescem a partir dos nós e que se transformaram em gavinhas bastante longas e enroladas. O limbo das folhas apresentam 5 ou 7 veios principais, mais ou menos paralelos, que se unem no ápice e estão ligados entre si por uma rede de veios secundários.
A Smilax aspera é uma espécie dioica pois produz apenas flores unissexuadas, sistema em que as flores femininas e as masculinas se desenvolvem em indivíduos diferentes.
As flores, muito perfumadas aparecem no fim do verão e implantam-se na axila das folhas e na extremidade dos caules; são minúsculas, com 6 tépalas livres e agrupam-se em cachos de 5 a 30 flores unissexuais de cor branca, com laivos rosados.

As flores masculinas apresentam 6 estames livres e proeminentes, com anteras esbranquiçadas.

As flores femininas têm ovário dividido em 3 compartimentos com 3 estigmas sesseis.

Os frutos são bagas carnudas e arredondadas, inicialmente avermelhadas e depois negras, na maturação. No seu interior encontram-se de 1 a 3 sementes pequenas e arredondadas, lisas ou ligeiramente rugosas. Estas bagas são uma importante fonte de alimento para as aves.
A raiz da Smilax aspera tem sido usada em medicina tradicional e remédios caseiros por alegadamente possuir propriedades sudoríferas, depurativas e diuréticas.
Em meados do seculo passado a raiz desta planta foi muito utilizada como ingrediente de uma bebida não alcoólica chamada salsaparilha (precursora da CocaCola) e que foi muito popular em Portugal e Espanha, a par do xarope de groselha e do capilé.

Os nomes comuns atribuídos à espécie Smilax aspera são muito variados:
Alagacão; alagação; alegação; alegra-campo; alegra-cão; legação;
recama; salsaparrilha; salsaparrilha-bastarda; salsaparrilha-brava;
salsaparrilha-do-reino; salsaparrilha-indigena; salsaparrilha-indígena;
salsaparrilha-rugosa; silvamar



Sobre as espécies:
homoicas, monoicas, dioicas ou polígamas

Cerca de 70% das angiospérmicas (grupo de plantas que produzem flores e que constituem o maior grupo de plantas terrestres) produz flores homóicas, ou seja, as suas flores são autossuficientes pois estão providas de órgãos reprodutores funcionais tanto femininos como masculinos. Há quem lhes chame flores perfeitas, completas ou hermafroditas.

Mas, há espécies que produzem apenas flores unissexuadas, ou seja, flores exclusivamente femininas ou masculinas as quais podem crescer na mesma planta ou em plantas separadas. Quando flores femininas e masculinas se desenvolvem na mesma planta, esta diz-se monoica; as plantas que geram flores masculinas ou femininas, em indivíduos separados, chamam-se dioicas.

A maioria das plantas é homoica, porque a natureza se organizou de modo a não desperdiçar energia. Este é, sem dúvida, o sistema mais eficiente e rentável visto que todas as flores da mesma planta são férteis e produtoras de semente.

Nas plantas monoicas e dioicas, mais raras na natureza, o gasto de energia é maior uma vez que tanto flores masculinas como femininas representam um gasto de energia mas apenas as femininas darão origem a sementes. Estes sistemas são característicos de plantas nativas das regiões desérticas e dos trópicos e ao que se sabe terão evoluído a partir de plantas primitivamente homoicas. O que levou as plantas a evoluir neste sentido não está ainda bem esclarecido, no entanto tem sido interpretado como forma de adaptação às condições do meio ambiente para, por um lado aumentar a variabilidade genética e por outro, reduzir os riscos de extinção das espécies causada pela autopolinização.

Mais raras ainda são as espécies polígamas que usam sistemas combinados e bastante complexos, em que flores hermafroditas podem coexistir com flores masculinas e/ou com flores femininas, apenas para dar um exemplo. Na realidade as combinações possíveis são múltiplas e comprovam o esforço na adaptação das plantas ao meio que as rodeia, para desta forma rentabilizar ao máximo os recursos, reduzindo os custos energéticos.

A natureza é inteligente, tendo feito as adaptações necessárias no sentido de produzir mais, com menores meios e apostando na diversidade. Que exemplo para todos nós, as aulas sobre a eficiência das plantas deviam ser obrigatórias!

Também é incrível pensar que, adaptações que levaram milhões de anos a serem aperfeiçoadas, poderão ser agora de certo modo escusadas, num mundo global em que tantas espécies foram transportadas para habitats diferentes dos seus de origem. Credivelmente as plantas continuarão a adaptar-se aos novos habitats, numa permanente procura da perfeição. Como serão, daqui a milhões de anos, espécies que hoje nos são tão familiares? Isto é, se tiver sobrado algum do mundo vegetal, tal como o conhecemos...

Fotos: Arribas do Caniçal / Lourinhã