"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





terça-feira, 30 de outubro de 2012

Artemisia campestris L. subsp. Maritima


Erva-lombrigueira, madorneira
A Artemisia campestris subsp. maritima pertence ao género Artemisia, um dos maiores géneros dentro da familia das Astereceae/Compositae. Este género inclui algumas espécies de morfologia tão diferenciada que se torna, por vezes, complicada a sua identificação mas na generalidade são espécies herbáceas ou arbustivas, ricas em óleos com comprovadas propriedades terapêuticas, uma das suas principais características em comum. Muitos destes componentes químicos tornaram-se indispensáveis na indústria farmacêutica mundial contemporânea e são utilizados no combate a certas doenças do tipo infecioso como por exemplo a malaria.
O facto é que a Artemisia campestris subsp.maritima consegue retirar dividendos de um solo pobre em água e quase sem nutrientes: toda a planta é fortemente aromática o que se deve à presença de tricomas glandulares distribuídos por quase toda a planta e que produzem os constituintes químicos e aromáticos.
Especificamente esta espécie tem sido usada em medicina popular na prevenção de distúrbios gástricos, hipertensão e reumatismo. É ainda vermífuga (daí o nome popular de erva-lombrigueira) e abortiva. Geralmente toma-se sob a forma de infusão para o que se usam os caules e as folhas. Contudo é necessário moderação no seu consumo e ter em conta que a planta é toxica quando ingerida crua.
Mapa de ocorrências registadas em Portugal por Flora on
A Artemisia campestris marítima é uma espécie frequente em quase todos os areais do litoral português e distribui-se de forma geral por todo o litoral atlântico temperado europeu. É de importância fundamental no equilíbrio dos ecossistemas pois serve de alimento às larvas de variadíssimos tipos de Lepidoptera (borboletas), algumas das quais se alimentam exclusivamente desta espécie, nomeadamente Bucculatrix diffusella, Bucculatrix pannonica e Coleophora settarii.
A Artemisia campestris subsp.maritima é uma espécie perene, provida de um rizoma do qual despontam raízes muito profundas para captar água em profundidade. Os caules, estriados e com alguma coloração castanha, são eretos, ascendentes (por vezes prostrados para resistir aos fortes ventos) e formam pequenos arbustos lenhosos que podem chegar aos 80 cm de altura.
As jovens plantas de Artemisia campestris marítima estão cobertas de pelos longos e macios os quais caiem posteriormente, tornando-se a planta glabrescente.
As folhas, sem pecíolo, dispõem-se de forma alternada nos caules e são carnudas devido às reservas de água e óleos que contêm; para diminuir a transpiração, as folhas estão protegidas por uma forte cutícula e o limbo é finamente recortado em segmentos curtos mas de formas variáveis desde a base até ao ápice, terminando numa ponta curta, aguda e rígida.
Ao contrário da maioria das espécies que se apressam a florescer logo que começa a primavera, tirando partido da grande atividade de insetos polinizadores, a Artemisia campestris marítima floresce e frutifica apenas no final do verão, geralmente de agosto a novembro. Desta forma resguarda as flores e os frutos dos grandes calores, sem ter de se  preocupar com o decréscimo de insetos nesta altura do ano pois é polinizada pelo vento.
As flores da Artemisia campestris marítima são minúsculas e agrupam-se em capítulos ovoides que por sua vez também se juntam em cachos muito densos e ramificados. Este tipo de inflorescência, em capítulos, é característico da família botânica das Asteraceae (também conhecida por Compositae) a que pertence esta espécie. As espécies desta família resolveram o problema da reprodução de forma muito engenhosa, conseguindo o máximo de eficiência com um minino de custos. Para tal, as flores muito pequenas e numerosas apresentam-se agrupadas de forma muito compacta sobre um recetáculo em forma de disco central, funcionando em equipa, por assim dizer. Assim, as pequenas flores no seu conjunto tornam-se mais visíveis e apelativas para os insetos polinizadores.
Nesta espécie as corolas das flores são amarelas com flores periféricas femininas, delgadas e compridas e flores centrais masculinas, tubulares e mais curtas. Os capítulos apresentam-se protegidos por um involucro de formato ovoide com brácteas ovadas com a parte central carnuda e de margem ampla e escariosa.
Os frutos, geralmente dispersos pelo vento, são cípselas cilíndricas muito pequenas de cor acastanhada, sem pelos nem papilho.
Outras espécies do género Artemisia são conhecidas e utilizadas em gastronomia como por exemplo o estragão (Artemisia dracunculus) que se usa para aromatizar pratos de peixe. Mas a espécie mais conhecida é a Artemisia absinthum, usada na confeção de uma bebida destilada, o absinto.
O Cuspo do Cuco:
Durante a primavera podem observar-se, nos ramos e folhas de várias espécies de plantas e arbustos das dunas, incluindo a Artemisia campestris maritima, pequenos aglomerados de uma substância branca que parece ser espuma. É o chamado Cuspo de cuco, segregado por um inseto, a cigarrinha espumosa (Philaenus spumarius), para proteger as suas ninfas enquanto se desenvolvem.
Philaenus spumarius - Foto Wikipedia
Este extraordinário inseto embora pouco visível é bastante comum podendo encontrar-se em praticamente todos os habitats, (exceto onde as temperaturas atingem os extremos) e alimentam-se de muitos tipos de plantas. Estes insetos locomovem-se correndo ou voando mas a sua maior habilidade são os saltos pois podem saltar mais de 100 vezes a sua altura (veja aqui mais detalhes).
As Galhas:
Também na primavera, a Artemisia campestris maritima apresenta umas bolinhas vermelhas ou esbranquiçadas que ao incauto passeante poderão parecer flores em formação ou frutos, mas que na realidade são galhas. As galhas variam de forma, de espécie para espécie e mais não são que uma modificação dos tecidos, para defesa dos órgãos da planta após o ataque de ácaros, insetos, vírus, batérias ou fungos. Geralmente os organismos galhadores são específicos à espécie mas confesso que não consegui, até à data, identificar o agressor da Artemisia campestris. Normalmente estes agentes depositam os seus ovos nas folhas ou no caule do hospedeiro ocasionando uma reação que leva ao espessamento dos tecidos criando assim, um espaço que funciona como casulo. É nesse espaço que as larvas se desenvolvem, parasitando a planta e aproveitando-se dos nutrientes que dela retiram. Quando chegam à fase adulta, os insetos deixam a proteção da galha e vão à sua vida.

Sinonímias:
Artemisia campestris L. ssp. maritima (DC.) Arcangeli
Artemisia campestris L. ssp. lloydii (Rouy) Coutinho
Artemisia campestris L. var. maritima DC.
Artemisia crithmifolia L.
Artemisia gayana Besser
Artemisia lloydii (Rouy) Hill



Fotos: Praia da Areia Branca/Areal sul - Lourinhã



terça-feira, 2 de outubro de 2012

Smilax aspera L.

Salsaparrilha

A Smilax aspera, vulgarmente conhecida por salsaparrilha, é mais uma espécie que sofreu reavaliação (veja aqui -Sobre a classificação cientifica), tendo sido transferida da família das Liliaceae para uma família mais pequena, a Smilacaceae. Esta família inclui cerca de 315 espécies repartidas por 2 géneros, sendo o mais importante o género Smilax ao qual pertence a espécie Smilax aspera. Do género Smilax fazem parte cerca de 300 a 350 espécies, na sua maioria trepadoras com ampla implantação predominantemente em zonas de clima temperado, tropical e subtropical.
Ocorrências em Portugal. Fonte: Flora on
A Smilax aspera distribui-se pelas regiões da bacia do Mediterrâneo incluindo a Península Ibérica, oeste asiático e algumas regiões do noroeste africano.
Não se pode dizer que seja uma espécie muito frequente em Portugal mas é, sem dúvida, uma componente essencial nos matos perenifólios tipicamente mediterrânicos formados por árvores e arbustos de pequena altura em que predominam os Cistus, os Juniperus, Quercus coccifera, Pistacia lentiscus, Daphne gnidium, Phillyrea angustifólia,  Lonicera implexa e Rhamnus alaternos, entre outras.
A Smilax aspera não é esquisita no que diz respeito ao tipo de solo nem é uma espécie particularmente friorenta pelo que podemos encontrá-la em habitats bastante variados. Suporta bem os períodos de seca e embora goste do calor e prefira o sol pleno, tolera alguma sombra. 
A Smilax aspera é uma vigorosa trepadora, perene, áspera e sem pelos; cresce a partir de um rizoma, subterrâneo, geralmente alongado, volumoso e muito ramificado.
Os caules são angulosos e muito longos, podendo chegar aos 15 metros de comprimento; são lenhosos e embora delgados e flexíveis, são muito fortes; estão providos de acúleos (formações rígidas e afiadas semelhantes a espinhos) e ao crescerem enrolam-se em hélice nos troncos e copa de árvores e arbustos, procurando suporte para se elevarem, com a ajuda de gavinhas.
Crescendo sem controlo, os caules da Smilax aspera podem tornar um bosque impenetrável devido ao emaranhado dos seus caules aculeados. Mas nem tudo são desvantagens pois já vi certos arbustos de tal forma manietados pelos caules da Smilax aspera que se tornam abrigo inexpugnável para alguns animais, nomeadamente perdizes e coelhos quando, em épocas de caça, necessitam de refúgio onde os cães não se atrevam a entrar.
As folhas da Smilax aspera demonstram grande plasticidade morfológica podendo apresentar variações no tamanho e na forma e até na quantidade de acúleos. Estas variações têm a ver com o local onde crescem os espécimes, dependendo da exposição aos ventos e à radiação solar. As folhas dos indivíduos que crescem em locais mais abrigados são geralmente cordiformes (formato ovado-triangular, lembrando um coração), enquanto em locais mais desabrigados ou sujeitos a pastoreio, as folhas tendem progressivamente a ser mais estreitas e alongadas (sagitadas, ou seja, em forma de seta).
De resto, as folhas são pecioladas e posicionam-se de forma alterna nos caules; são inteiras, com acúleos na margem e ocasionalmente apresentam manchas brancas; a sua consistência coriácea ajuda a planta a poupar as suas reservas de água e nutrientes através da redução da transpiração.
As folhas estão munidas de duas estípulas que crescem a partir dos nós e que se transformaram em gavinhas bastante longas e enroladas. O limbo das folhas apresentam 5 ou 7 veios principais, mais ou menos paralelos, que se unem no ápice e estão ligados entre si por uma rede de veios secundários.
A Smilax aspera é uma espécie dioica pois produz apenas flores unissexuadas, sistema em que as flores femininas e as masculinas se desenvolvem em indivíduos diferentes.
As flores, muito perfumadas aparecem no fim do verão e implantam-se na axila das folhas e na extremidade dos caules; são minúsculas, com 6 tépalas livres e agrupam-se em cachos de 5 a 30 flores unissexuais de cor branca, com laivos rosados.

As flores masculinas apresentam 6 estames livres e proeminentes, com anteras esbranquiçadas.

As flores femininas têm ovário dividido em 3 compartimentos com 3 estigmas sesseis.

Os frutos são bagas carnudas e arredondadas, inicialmente avermelhadas e depois negras, na maturação. No seu interior encontram-se de 1 a 3 sementes pequenas e arredondadas, lisas ou ligeiramente rugosas. Estas bagas são uma importante fonte de alimento para as aves.
A raiz da Smilax aspera tem sido usada em medicina tradicional e remédios caseiros por alegadamente possuir propriedades sudoríferas, depurativas e diuréticas.
Em meados do seculo passado a raiz desta planta foi muito utilizada como ingrediente de uma bebida não alcoólica chamada salsaparilha (precursora da CocaCola) e que foi muito popular em Portugal e Espanha, a par do xarope de groselha e do capilé.

Os nomes comuns atribuídos à espécie Smilax aspera são muito variados:
Alagacão; alagação; alegação; alegra-campo; alegra-cão; legação;
recama; salsaparrilha; salsaparrilha-bastarda; salsaparrilha-brava;
salsaparrilha-do-reino; salsaparrilha-indigena; salsaparrilha-indígena;
salsaparrilha-rugosa; silvamar



Sobre as espécies:
homoicas, monoicas, dioicas ou polígamas

Cerca de 70% das angiospérmicas (grupo de plantas que produzem flores e que constituem o maior grupo de plantas terrestres) produz flores homóicas, ou seja, as suas flores são autossuficientes pois estão providas de órgãos reprodutores funcionais tanto femininos como masculinos. Há quem lhes chame flores perfeitas, completas ou hermafroditas.

Mas, há espécies que produzem apenas flores unissexuadas, ou seja, flores exclusivamente femininas ou masculinas as quais podem crescer na mesma planta ou em plantas separadas. Quando flores femininas e masculinas se desenvolvem na mesma planta, esta diz-se monoica; as plantas que geram flores masculinas ou femininas, em indivíduos separados, chamam-se dioicas.

A maioria das plantas é homoica, porque a natureza se organizou de modo a não desperdiçar energia. Este é, sem dúvida, o sistema mais eficiente e rentável visto que todas as flores da mesma planta são férteis e produtoras de semente.

Nas plantas monoicas e dioicas, mais raras na natureza, o gasto de energia é maior uma vez que tanto flores masculinas como femininas representam um gasto de energia mas apenas as femininas darão origem a sementes. Estes sistemas são característicos de plantas nativas das regiões desérticas e dos trópicos e ao que se sabe terão evoluído a partir de plantas primitivamente homoicas. O que levou as plantas a evoluir neste sentido não está ainda bem esclarecido, no entanto tem sido interpretado como forma de adaptação às condições do meio ambiente para, por um lado aumentar a variabilidade genética e por outro, reduzir os riscos de extinção das espécies causada pela autopolinização.

Mais raras ainda são as espécies polígamas que usam sistemas combinados e bastante complexos, em que flores hermafroditas podem coexistir com flores masculinas e/ou com flores femininas, apenas para dar um exemplo. Na realidade as combinações possíveis são múltiplas e comprovam o esforço na adaptação das plantas ao meio que as rodeia, para desta forma rentabilizar ao máximo os recursos, reduzindo os custos energéticos.

A natureza é inteligente, tendo feito as adaptações necessárias no sentido de produzir mais, com menores meios e apostando na diversidade. Que exemplo para todos nós, as aulas sobre a eficiência das plantas deviam ser obrigatórias!

Também é incrível pensar que, adaptações que levaram milhões de anos a serem aperfeiçoadas, poderão ser agora de certo modo escusadas, num mundo global em que tantas espécies foram transportadas para habitats diferentes dos seus de origem. Credivelmente as plantas continuarão a adaptar-se aos novos habitats, numa permanente procura da perfeição. Como serão, daqui a milhões de anos, espécies que hoje nos são tão familiares? Isto é, se tiver sobrado algum do mundo vegetal, tal como o conhecemos...

Fotos: Arribas do Caniçal / Lourinhã


segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Ruscus aculeatus L.

Nomes comuns:
Erva dos vasculhos; gilbarbeira; gilberbeira; pica-rato; 
sazevinho-menor; azevinho dos pobres

O Ruscus aculeatus é uma espécie perene. As ramificações que surgem desde a base formam um arbusto compacto e de forma arredondada, com cerca de 20 a 100 cm de altura.
Os caules, eretos, brotam a partir de um rizoma, ou seja um caule subterrâneo que se desenvolve na posição horizontal em relação ao solo e a partir do qual se formam, não só as raízes mas também as gemas que irão dar origem a novos indivíduos.
Fazendo parte da família das Asparageceae, o Ruscus aculeatus foi incluído no género Ruscus o qual integra umas 7 espécies de arbustos perenifólios nativos de algumas ilhas atlânticas europeias e da região mediterrânica.
Ocorrências em Portugal - Fonte: Flora on
Podemos encontra-lo em quase todos os tipos de solo mas mostra preferência por locais secos e férteis, em situações de sol ou alguma sombra, por vezes debaixo de arvores, nomeadamente em soutos ou montados; é também comum em matos tipicamente mediterrânicos formados por espécies de baixa altura, de folhas sempre verdes, pequenas e coriáceas; aclimata-se bem aos ventos marítimos, podendo por isso encontrar-se em arribas costeiras; suporta bem alguns períodos de seca mas em contrapartida é muito sensível ao frio.
Exemplar queimado pelo frio, apesar de se encontrar ao pé do mar onde não se registam geadas
Sendo que esta espécie vive em condições de secura, é interessante notar certas adaptações morfológicas e fisiológicas que lhe permitem a utilização da água e nutrientes de forma eficiente. Assim, de forma característica, este pequeno arbusto quase não apresenta folhas as quais foram gradualmente diminuindo de tamanho no decurso da evolução da planta, como meio de poupar água.
 As folhas foram substituídas por ramos de caules modificados, i.e. expansões de forma oval que são designados por cladódios e têm a aparência de folhas. Os cladódios, devido à sua textura coriácea resultam numa economia de água uma vez que reduzem consideravelmente a evaporação. Os cladódios, rígidos e terminando num acúleo (ponta curta, rígida e afiada), apresentam cor verde tal como os caules normais, devido à presença de clorofila. Curiosamente todas as partes da planta estão especialmente adaptados para poderem fazer a fotossíntese e as respetivas trocas gasosas.
Foto: Andrea Moro
Dipartimento di Scienze della Vita, Università di Trieste
As flores, muito pequenas, crescem isoladas no centro dos cladódios e apresentam órgãos reprodutores em sistema de separação de sexos, isto é, existem plantas com flores masculinas e plantas com flores femininas (flores dioicas). À primeira vista flores femininas e masculinas são semelhantes, apresentando o perianto (conjunto de cálice e corola) em forma de estrela com 6 peças florais livres e desiguais, de cor violácea ou esverdeada; as flores femininas têm um pistilo muito curto e o estigma esférico; as masculinas têm 3 estames, com anteras amarelas, cujos filetes estão soldados a todo o comprimento formando um tubo inserido na base da flor. 
Foto: WIKIPEDIA
As flores férteis dão origem ao fruto, uma baga globosa, inicialmente verde e depois vermelho vivo na maturação, contendo 1 ou 2 sementes volumosas e de cor amarelada. Estes frutos são a parte mais apelativa da planta e fazem as delícias de aves e de alguns pequenos mamíferos que ajudam a disseminar as sementes, através dos dejetos.

A planta propaga-se não só através das sementes mas também, por via vegetativa, a partir do rizoma.


O Ruscus aculeatus floresce e frutifica durante o inverno. As fotos com os frutos maduros incluidas neste "post" referem-se ao mês de fevereiro.



Há quem coma os rebentos jovens do Ruscus aculeatus, crus ou cozinhados, como se fossem espargos com os quais, aliás, estão aparentados pois pertencem à mesma família. Em contrapartida há que ter cuidado para não ingerir os frutos que são tóxicos, podendo ter efeito purgante, especialmente perigoso para as crianças.

Ruscus aculeatus possui grande número de propriedades medicinais sendo muito utilizado em fitoterapia como anti-inflamatório, vasoconstritor e diurético, especialmente eficaz no tratamento das hemorroidas.

O nome vernáculo erva-dos-vasculhos, que entre outros se dá ao Ruscus aculeatus, tem a ver com o facto de em tempos menos prósperos se terem utilizado os seus ramos como vassouras, principalmente nas aldeias, por serem rígidos, ásperos e muito duráveis.
Contudo, a colheita do todo ou parte do Ruscus aculeatus que cresça de forma espontânea nos nossos campos está muito restringida a nível europeu. Tal como o Ilex aquifolium (azevinho), o Ruscus aculeatus é muito procurado como planta ornamental para jardins e também como elemento decorativo em arranjos de flores. Assim, devido às colheitas excessivas estas espécies encontram-se em risco fazendo, por essa razão, parte da lista de espécies protegidas no âmbito da Directiva-Habitat-Fauna-Flora, 1992.


Sobre a classificação científica...

Nos tempos que correm a espécie Ruscus aculeatus está incluída na família das Asparagaceae. De notar que esta planta foi alvo de recente reclassificação tendo feito parte da família das Lilaceae e também da família das Ruscaceae, em sistemas de classificação anteriores.
Pode dizer-se que tem havido alguma falta de consenso entre os taxonomistas acerca da família ou do género a que determinada planta deve pertencer.
A classificação científica moderna ainda assenta as suas bases no sistema do biólogo sueco Lineu do seculo XVIII que agrupou as plantas de acordo com as suas semelhanças morfológicas, conceito que provou ser demasiado limitado tendo em conta a diversificação das espécies. Desde então, muitas espécies foram reclassificadas de acordo com novos conceitos sobretudo baseados no princípio de Darwin que agrupa as espécies com base na evolução a partir de um ancestral comum, dando menor importância às características morfológicas partilhadas. Inevitavelmente estas reclassificações, que aliás nem sempre foram consensuais, fomentaram alguma confusão devido à discrepância que se pode encontrar em diferentes manuais da especialidade. Felizmente muita coisa poderá mudar com a recente evolução da sistemática molecular. Através do acesso a toda a informação hereditária das espécies pela descodificação do ADN certamente será possível chegar a um consenso alargado e instituir um sistema de classificação que não suscite dúvidas. Assim, é expectável que no futuro muitas mais revisões na classificação das espécies sejam aprovadas por quem de direito. É também de prever que, tendo em conta a quantidade de espécies em causa este possa ser um processo complicado e moroso, pelo que teremos de conviver com informações díspares e navegar em algumas incertezas durante bastante mais tempo…


Fotos: Arribas do Caniçal / Lourinhã



domingo, 2 de setembro de 2012

Iris foetidissima L.

A Iris foetidissima é conhecida em Portugal pelo nome popular de Lírio fedorento, designação esta que demonstra a confusão que por vezes se faz entre iris e lírios.

As iris, pertencentes ao género com o mesmo nome, fazem parte da família das Iridaceae ao passo que os lírios são do género Lilium e se incluem na família das Liliaceae.
As flores do lirio e da iris são muito diferentes
Embora haja alguma semelhança no tipo de folhas (lineares e estreitas), existem diferenças fundamentais, sendo a estrutura das flores a mais notória.
A Iris foetidissima distribui-se pelo sudoeste europeu, região mediterrânica ocidental, incluindo o Norte de Africa e territórios da Macaronesia, excepto Cabo verde. É relativamente frequente em algumas regiões de Portugal, mostrando preferência por habitats ensolarados, com solos húmidos mas bem drenados e ricos em nutrientes. Contudo desde que bem estabelecida suporta bem alguma seca, e grandes variações de temperatura assim como o ar marítimo, crescendo alegremente em condições de sombra e seca onde outras espécies de iris não se desenvolveriam.
Podemos encontra-la na orla dos bosques, falésias marítimas, margens de ribeiras, muitas vezes ao abrigo de silvas, madressilvas e outros arbustos e ainda debaixo de arvores, em olivais e montados.
Iris foetidissima é uma espécie perene que cresce a partir de um rizoma, ou seja, um caule subterrâneo no qual a planta armazena nutrientes e que é provido de raízes grossas e carnudas e outras finas e de cor amarelada. O rizoma cresce na posição horizontal e ao longo do seu corpo levemente cilíndrico desenvolvem-se gemas que permitem a propagação vegetativa da planta.
Para conseguir novas plantas a partir do rizoma basta cortar-lhe um pedaço que contenha duas ou três gemas, sem contudo estragar as raízes ou as folhas. Esta operação deve ser feita entre os meses de setembro e dezembro. Antes de plantar devem aparar-se as longas folhas, dando-lhes a forma de leque. Ao colocar o rizoma no covacho, devem espalhar-se as raízes por baixo da zona onde estão as folhas e deve deixar-se a parte superior do rizoma exposta ao ar mas compactando o solo à volta das raízes. Veja mais detalhes aqui e aqui.
Os rizomas da Iris foetidissima são tóxicos se ingeridos pelo que são pouco utilizados na fitoterapia moderna. Contudo, no passado eram utilizados sobretudo no tratamento de afeções cutâneas provocadas por fungos.
As folhas, numerosas e de um verde lustroso, são longas, estreitas, com textura rija e emergem do rizoma, formando uma roseta basal.  
As únicas folhas caulinares são as que acompanham os escapes florais e essas são curtas e opostas, transformando-se gradualmente em brácteas.
Dizem os entendidos que as folhas desta espécie, quando esmagadas, exalam um cheiro "nauseabundo" a carne grelhada e foi nessa conformidade que foi apelidada de foetidissima. Contudo parece-me um batismo muito infeliz, por injusto. E não bastou ser fétida, teve que ser foetidissima, no superlativo! Pois aqui estou eu, em tempo de crise, em defesa desta espécie e do bife grelhado. Embora seja um prato apreciado pela maioria das populações, até consigo entender que haja quem não goste do cheiro de carne grelhada mas convenhamos que dificilmente se lhe poderá chamar fétido. Aliás as minhas próprias tentativas para induzir as folhas a exalar algum odor mais repugnante, foram em vão. O cheiro libertado, embora um pouco acre, é suave e não é de todo desagradável.
As folhas da Iris foetidissima formam um tufo muito apreciado em jardins, conservando a sua cor e a bela estrutura durante o ano inteiro.
A floração dá-se durante a primavera, principalmente durante o mês de maio e é muito fugaz.
As flores são muito delicadas mas quase insignificantes se as compararmos com outras espécies de iris. Estas surgem solitárias ou em grupos de 2 ou 3, no topo de um escape floral relativamente curto. Na realidade, as flores abrem muito em baixo, ficando quase escondidas dentro das folhas; as cores são muito suaves, em tons amarelo pálido, cinzento e alfazema.
As flores são características do género Iris, com 3 segmentos interiores e 3 segmentos exteriores; os interiores são pétalas e os exteriores são sépalas.
As flores, de simetria bilateral, possuem órgãos reprodutores femininos e masculinos, ambos funcionais. Os estames são 3.
As flores são polinizadas principalmente por abelhas e moscas entre outros insetos ocasionais, como borboletas e traças.
Polinizadas as flores e acabado o seu curto tempo de vida, os ovários incham e transformam-se em frutos os quais são a principal atração desta espécie. Começam por ser capsulas de cor verde divididas em 3 lóculos, no seu interior.
Quando as sementes estão maduras, as capsulas rompem-se e revelam as lindas e decorativas sementes vermelhas ou alaranjadas, as quais se mantêm na planta durante todo o outono e que são muitas vezes aproveitadas para fazer arranjos florais.
A cor vibrante e o enganador aspeto carnudo do tegumento que envolve por completo cada semente destina-se a encorajar a dispersão por animais. Acontece que as aves debicam as sementes contando com um bom almoço mas geralmente depressa percebem que têm pouco alimento e logo as largam no solo. Mas, o objetivo da planta foi alcançado.
Estas sementes podem dar origem a novas plantas, cada semente levando cerca de ano e meio para germinar, seguidos de 2 a 3 anos até florescer.
O género Iris é incrivelmente diversificado. Algumas espécies são tolerantes à seca enquanto que outras necessitam de um lago ou de um ribeiro para poderem florescer. O nome vem do grego e está relacionado com o arco-iris referindo-se à variedade de cores disponibilizado por estas espécies.
As cores e tamanho das flores variam de forma espetacular. Este género está amplamente distribuído por todas as regiões temperadas do hemisfério norte abrangendo de 260 a 300 espécies e ainda numerosas cultivares. As cultivares resultam do melhoramento de uma certa variedade de planta que a torne diferente de todas as outras no que diz respeito a resistência a doenças, a cor ou porte sem que no entanto tenha sido geneticamente modificada. Para que uma nova cultivar possa ser registada tem de manter características iguais em todas as plantas da mesma cultivar durante um espaço de tempo necessariamente longo. Dada a sua espetacularidade são plantas muito usadas em jardins e outros fins ornamentais. No entanto existem muitas espécies que se podem encontrar crescendo de forma espontânea. 
Dentro do género Iris e segundo o portal da Flora-on, podemos encontrar em Portugal 8 espécies silvestres sendo que 3 delas são endemismos ibéricos:
Iris boissieri
Iris subbiflora
Iris Taitii
Existe ainda uma outra espécie que é um endemismo português:
Iris Xiphium var. lusitânica

Ainda sobre as Iris:
As Iris já eram plantadas na Asia, em jardins, há mais de 2000 anos. Existem dois grupos: as anãs que crescem a partir de bolbos (as únicas que se dão bem em vasos e dentro de casa) e as mais altas, as Iris de jardim, o grupo mais conhecido, cujas espécies crescem a partir de rizomas, florescendo nos mais variados e espetaculares matizes. As mais largamente cultivadas têm sépalas com barbas mas também existem espécies sem barbas e outras com flores semelhantes a orquídeas, com cristas nas sépalas. Há ainda as iris aquáticas.


A Iris germanica é, entre as espécies do género Iris  com barbas nas sépalas, a que mais contribuiu para a formação dos populares hibridos atuais
Foto de Christian 75

A Iris squalens é outra das espécies com barbas.
Foto de BerndH

A Iris sibirica é uma espécie sem barbas.
Tanto pode ser cultivada numa bordura de canteiro como à volta de um lago de jardim pois aprecia o solo húmido.
Foto de Derek Ramsey
A Iris japonica apresenta sépalas com crista em vez de barbas.
Foto de Nagano pref. Japan

A Iris pseudacorus é frequente nos nossos rios e pauis. Pode adaptar-se às condições de bordadura mas a sua verdadeira beleza revela-se quando plantada nos lagos. Hoje em dia esta planta está a ser utilizada para purificar águas poluidas pois as suas raizes consomem os poluentes geralmente resultantes dos excessos quimicos na agricultura, sem prejuizo aparente para a planta.
Foto de Stahlkocher

Infelizmente, como acontece cada vez mais frequentemente, tanto no reino vegetal como no reino animal,a lamentar o facto de algumas espécies de Iris estarem em perigo de extinção, quer pela degradação do seu habitat, quer devido ao excesso de recolha de exemplares para comercialização.


Fotos de Iris foetidissima - Praia do Caniçal / Lourinhã