"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Ruscus aculeatus L.

Nomes comuns:
Erva dos vasculhos; gilbarbeira; gilberbeira; pica-rato; 
sazevinho-menor; azevinho dos pobres

O Ruscus aculeatus é uma espécie perene. As ramificações que surgem desde a base formam um arbusto compacto e de forma arredondada, com cerca de 20 a 100 cm de altura.
Os caules, eretos, brotam a partir de um rizoma, ou seja um caule subterrâneo que se desenvolve na posição horizontal em relação ao solo e a partir do qual se formam, não só as raízes mas também as gemas que irão dar origem a novos indivíduos.
Fazendo parte da família das Asparageceae, o Ruscus aculeatus foi incluído no género Ruscus o qual integra umas 7 espécies de arbustos perenifólios nativos de algumas ilhas atlânticas europeias e da região mediterrânica.
Ocorrências em Portugal - Fonte: Flora on
Podemos encontra-lo em quase todos os tipos de solo mas mostra preferência por locais secos e férteis, em situações de sol ou alguma sombra, por vezes debaixo de arvores, nomeadamente em soutos ou montados; é também comum em matos tipicamente mediterrânicos formados por espécies de baixa altura, de folhas sempre verdes, pequenas e coriáceas; aclimata-se bem aos ventos marítimos, podendo por isso encontrar-se em arribas costeiras; suporta bem alguns períodos de seca mas em contrapartida é muito sensível ao frio.
Exemplar queimado pelo frio, apesar de se encontrar ao pé do mar onde não se registam geadas
Sendo que esta espécie vive em condições de secura, é interessante notar certas adaptações morfológicas e fisiológicas que lhe permitem a utilização da água e nutrientes de forma eficiente. Assim, de forma característica, este pequeno arbusto quase não apresenta folhas as quais foram gradualmente diminuindo de tamanho no decurso da evolução da planta, como meio de poupar água.
 As folhas foram substituídas por ramos de caules modificados, i.e. expansões de forma oval que são designados por cladódios e têm a aparência de folhas. Os cladódios, devido à sua textura coriácea resultam numa economia de água uma vez que reduzem consideravelmente a evaporação. Os cladódios, rígidos e terminando num acúleo (ponta curta, rígida e afiada), apresentam cor verde tal como os caules normais, devido à presença de clorofila. Curiosamente todas as partes da planta estão especialmente adaptados para poderem fazer a fotossíntese e as respetivas trocas gasosas.
Foto: Andrea Moro
Dipartimento di Scienze della Vita, Università di Trieste
As flores, muito pequenas, crescem isoladas no centro dos cladódios e apresentam órgãos reprodutores em sistema de separação de sexos, isto é, existem plantas com flores masculinas e plantas com flores femininas (flores dioicas). À primeira vista flores femininas e masculinas são semelhantes, apresentando o perianto (conjunto de cálice e corola) em forma de estrela com 6 peças florais livres e desiguais, de cor violácea ou esverdeada; as flores femininas têm um pistilo muito curto e o estigma esférico; as masculinas têm 3 estames, com anteras amarelas, cujos filetes estão soldados a todo o comprimento formando um tubo inserido na base da flor. 
Foto: WIKIPEDIA
As flores férteis dão origem ao fruto, uma baga globosa, inicialmente verde e depois vermelho vivo na maturação, contendo 1 ou 2 sementes volumosas e de cor amarelada. Estes frutos são a parte mais apelativa da planta e fazem as delícias de aves e de alguns pequenos mamíferos que ajudam a disseminar as sementes, através dos dejetos.

A planta propaga-se não só através das sementes mas também, por via vegetativa, a partir do rizoma.


O Ruscus aculeatus floresce e frutifica durante o inverno. As fotos com os frutos maduros incluidas neste "post" referem-se ao mês de fevereiro.



Há quem coma os rebentos jovens do Ruscus aculeatus, crus ou cozinhados, como se fossem espargos com os quais, aliás, estão aparentados pois pertencem à mesma família. Em contrapartida há que ter cuidado para não ingerir os frutos que são tóxicos, podendo ter efeito purgante, especialmente perigoso para as crianças.

Ruscus aculeatus possui grande número de propriedades medicinais sendo muito utilizado em fitoterapia como anti-inflamatório, vasoconstritor e diurético, especialmente eficaz no tratamento das hemorroidas.

O nome vernáculo erva-dos-vasculhos, que entre outros se dá ao Ruscus aculeatus, tem a ver com o facto de em tempos menos prósperos se terem utilizado os seus ramos como vassouras, principalmente nas aldeias, por serem rígidos, ásperos e muito duráveis.
Contudo, a colheita do todo ou parte do Ruscus aculeatus que cresça de forma espontânea nos nossos campos está muito restringida a nível europeu. Tal como o Ilex aquifolium (azevinho), o Ruscus aculeatus é muito procurado como planta ornamental para jardins e também como elemento decorativo em arranjos de flores. Assim, devido às colheitas excessivas estas espécies encontram-se em risco fazendo, por essa razão, parte da lista de espécies protegidas no âmbito da Directiva-Habitat-Fauna-Flora, 1992.


Sobre a classificação científica...

Nos tempos que correm a espécie Ruscus aculeatus está incluída na família das Asparagaceae. De notar que esta planta foi alvo de recente reclassificação tendo feito parte da família das Lilaceae e também da família das Ruscaceae, em sistemas de classificação anteriores.
Pode dizer-se que tem havido alguma falta de consenso entre os taxonomistas acerca da família ou do género a que determinada planta deve pertencer.
A classificação científica moderna ainda assenta as suas bases no sistema do biólogo sueco Lineu do seculo XVIII que agrupou as plantas de acordo com as suas semelhanças morfológicas, conceito que provou ser demasiado limitado tendo em conta a diversificação das espécies. Desde então, muitas espécies foram reclassificadas de acordo com novos conceitos sobretudo baseados no princípio de Darwin que agrupa as espécies com base na evolução a partir de um ancestral comum, dando menor importância às características morfológicas partilhadas. Inevitavelmente estas reclassificações, que aliás nem sempre foram consensuais, fomentaram alguma confusão devido à discrepância que se pode encontrar em diferentes manuais da especialidade. Felizmente muita coisa poderá mudar com a recente evolução da sistemática molecular. Através do acesso a toda a informação hereditária das espécies pela descodificação do ADN certamente será possível chegar a um consenso alargado e instituir um sistema de classificação que não suscite dúvidas. Assim, é expectável que no futuro muitas mais revisões na classificação das espécies sejam aprovadas por quem de direito. É também de prever que, tendo em conta a quantidade de espécies em causa este possa ser um processo complicado e moroso, pelo que teremos de conviver com informações díspares e navegar em algumas incertezas durante bastante mais tempo…


Fotos: Arribas do Caniçal / Lourinhã



domingo, 2 de setembro de 2012

Iris foetidissima L.

A Iris foetidissima é conhecida em Portugal pelo nome popular de Lírio fedorento, designação esta que demonstra a confusão que por vezes se faz entre iris e lírios.

As iris, pertencentes ao género com o mesmo nome, fazem parte da família das Iridaceae ao passo que os lírios são do género Lilium e se incluem na família das Liliaceae.
As flores do lirio e da iris são muito diferentes
Embora haja alguma semelhança no tipo de folhas (lineares e estreitas), existem diferenças fundamentais, sendo a estrutura das flores a mais notória.
A Iris foetidissima distribui-se pelo sudoeste europeu, região mediterrânica ocidental, incluindo o Norte de Africa e territórios da Macaronesia, excepto Cabo verde. É relativamente frequente em algumas regiões de Portugal, mostrando preferência por habitats ensolarados, com solos húmidos mas bem drenados e ricos em nutrientes. Contudo desde que bem estabelecida suporta bem alguma seca, e grandes variações de temperatura assim como o ar marítimo, crescendo alegremente em condições de sombra e seca onde outras espécies de iris não se desenvolveriam.
Podemos encontra-la na orla dos bosques, falésias marítimas, margens de ribeiras, muitas vezes ao abrigo de silvas, madressilvas e outros arbustos e ainda debaixo de arvores, em olivais e montados.
Iris foetidissima é uma espécie perene que cresce a partir de um rizoma, ou seja, um caule subterrâneo no qual a planta armazena nutrientes e que é provido de raízes grossas e carnudas e outras finas e de cor amarelada. O rizoma cresce na posição horizontal e ao longo do seu corpo levemente cilíndrico desenvolvem-se gemas que permitem a propagação vegetativa da planta.
Para conseguir novas plantas a partir do rizoma basta cortar-lhe um pedaço que contenha duas ou três gemas, sem contudo estragar as raízes ou as folhas. Esta operação deve ser feita entre os meses de setembro e dezembro. Antes de plantar devem aparar-se as longas folhas, dando-lhes a forma de leque. Ao colocar o rizoma no covacho, devem espalhar-se as raízes por baixo da zona onde estão as folhas e deve deixar-se a parte superior do rizoma exposta ao ar mas compactando o solo à volta das raízes. Veja mais detalhes aqui e aqui.
Os rizomas da Iris foetidissima são tóxicos se ingeridos pelo que são pouco utilizados na fitoterapia moderna. Contudo, no passado eram utilizados sobretudo no tratamento de afeções cutâneas provocadas por fungos.
As folhas, numerosas e de um verde lustroso, são longas, estreitas, com textura rija e emergem do rizoma, formando uma roseta basal.  
As únicas folhas caulinares são as que acompanham os escapes florais e essas são curtas e opostas, transformando-se gradualmente em brácteas.
Dizem os entendidos que as folhas desta espécie, quando esmagadas, exalam um cheiro "nauseabundo" a carne grelhada e foi nessa conformidade que foi apelidada de foetidissima. Contudo parece-me um batismo muito infeliz, por injusto. E não bastou ser fétida, teve que ser foetidissima, no superlativo! Pois aqui estou eu, em tempo de crise, em defesa desta espécie e do bife grelhado. Embora seja um prato apreciado pela maioria das populações, até consigo entender que haja quem não goste do cheiro de carne grelhada mas convenhamos que dificilmente se lhe poderá chamar fétido. Aliás as minhas próprias tentativas para induzir as folhas a exalar algum odor mais repugnante, foram em vão. O cheiro libertado, embora um pouco acre, é suave e não é de todo desagradável.
As folhas da Iris foetidissima formam um tufo muito apreciado em jardins, conservando a sua cor e a bela estrutura durante o ano inteiro.
A floração dá-se durante a primavera, principalmente durante o mês de maio e é muito fugaz.
As flores são muito delicadas mas quase insignificantes se as compararmos com outras espécies de iris. Estas surgem solitárias ou em grupos de 2 ou 3, no topo de um escape floral relativamente curto. Na realidade, as flores abrem muito em baixo, ficando quase escondidas dentro das folhas; as cores são muito suaves, em tons amarelo pálido, cinzento e alfazema.
As flores são características do género Iris, com 3 segmentos interiores e 3 segmentos exteriores; os interiores são pétalas e os exteriores são sépalas.
As flores, de simetria bilateral, possuem órgãos reprodutores femininos e masculinos, ambos funcionais. Os estames são 3.
As flores são polinizadas principalmente por abelhas e moscas entre outros insetos ocasionais, como borboletas e traças.
Polinizadas as flores e acabado o seu curto tempo de vida, os ovários incham e transformam-se em frutos os quais são a principal atração desta espécie. Começam por ser capsulas de cor verde divididas em 3 lóculos, no seu interior.
Quando as sementes estão maduras, as capsulas rompem-se e revelam as lindas e decorativas sementes vermelhas ou alaranjadas, as quais se mantêm na planta durante todo o outono e que são muitas vezes aproveitadas para fazer arranjos florais.
A cor vibrante e o enganador aspeto carnudo do tegumento que envolve por completo cada semente destina-se a encorajar a dispersão por animais. Acontece que as aves debicam as sementes contando com um bom almoço mas geralmente depressa percebem que têm pouco alimento e logo as largam no solo. Mas, o objetivo da planta foi alcançado.
Estas sementes podem dar origem a novas plantas, cada semente levando cerca de ano e meio para germinar, seguidos de 2 a 3 anos até florescer.
O género Iris é incrivelmente diversificado. Algumas espécies são tolerantes à seca enquanto que outras necessitam de um lago ou de um ribeiro para poderem florescer. O nome vem do grego e está relacionado com o arco-iris referindo-se à variedade de cores disponibilizado por estas espécies.
As cores e tamanho das flores variam de forma espetacular. Este género está amplamente distribuído por todas as regiões temperadas do hemisfério norte abrangendo de 260 a 300 espécies e ainda numerosas cultivares. As cultivares resultam do melhoramento de uma certa variedade de planta que a torne diferente de todas as outras no que diz respeito a resistência a doenças, a cor ou porte sem que no entanto tenha sido geneticamente modificada. Para que uma nova cultivar possa ser registada tem de manter características iguais em todas as plantas da mesma cultivar durante um espaço de tempo necessariamente longo. Dada a sua espetacularidade são plantas muito usadas em jardins e outros fins ornamentais. No entanto existem muitas espécies que se podem encontrar crescendo de forma espontânea. 
Dentro do género Iris e segundo o portal da Flora-on, podemos encontrar em Portugal 8 espécies silvestres sendo que 3 delas são endemismos ibéricos:
Iris boissieri
Iris subbiflora
Iris Taitii
Existe ainda uma outra espécie que é um endemismo português:
Iris Xiphium var. lusitânica

Ainda sobre as Iris:
As Iris já eram plantadas na Asia, em jardins, há mais de 2000 anos. Existem dois grupos: as anãs que crescem a partir de bolbos (as únicas que se dão bem em vasos e dentro de casa) e as mais altas, as Iris de jardim, o grupo mais conhecido, cujas espécies crescem a partir de rizomas, florescendo nos mais variados e espetaculares matizes. As mais largamente cultivadas têm sépalas com barbas mas também existem espécies sem barbas e outras com flores semelhantes a orquídeas, com cristas nas sépalas. Há ainda as iris aquáticas.


A Iris germanica é, entre as espécies do género Iris  com barbas nas sépalas, a que mais contribuiu para a formação dos populares hibridos atuais
Foto de Christian 75

A Iris squalens é outra das espécies com barbas.
Foto de BerndH

A Iris sibirica é uma espécie sem barbas.
Tanto pode ser cultivada numa bordura de canteiro como à volta de um lago de jardim pois aprecia o solo húmido.
Foto de Derek Ramsey
A Iris japonica apresenta sépalas com crista em vez de barbas.
Foto de Nagano pref. Japan

A Iris pseudacorus é frequente nos nossos rios e pauis. Pode adaptar-se às condições de bordadura mas a sua verdadeira beleza revela-se quando plantada nos lagos. Hoje em dia esta planta está a ser utilizada para purificar águas poluidas pois as suas raizes consomem os poluentes geralmente resultantes dos excessos quimicos na agricultura, sem prejuizo aparente para a planta.
Foto de Stahlkocher

Infelizmente, como acontece cada vez mais frequentemente, tanto no reino vegetal como no reino animal,a lamentar o facto de algumas espécies de Iris estarem em perigo de extinção, quer pela degradação do seu habitat, quer devido ao excesso de recolha de exemplares para comercialização.


Fotos de Iris foetidissima - Praia do Caniçal / Lourinhã



domingo, 12 de agosto de 2012

Myoporum laetum G. Forst.

Nome comum: Mióporo ou Mióporo-acuminado

A Myoporum laetum, espécie originária da Nova Zelândia, pertence à família Scrophulariaceae e ao género Myoporum. É um arbusto que, desde que disponha do espaço, pode crescer até aos 10 metros de altura ou mais, tomando o aspeto de uma árvore de copa arredondada e espessa.
Foi introduzida com grande sucesso no litoral de Portugal, com fins ornamentais, sendo utilizada em sebes vivas por ser de crescimento muito rápido e aguentar bem as podas. É também resistente à seca, à salinidade e aos ventos fortes, podendo viver em solos arenosos. Por outro lado beneficia das temperaturas mais suaves características dos invernos costeiros pois não aguenta geadas.
Em tempos não muito distantes a Myoporum laetum tornou-se muito popular em certas estâncias de veraneio do litoral, tendo sido plantada entusiasticamente em redor de vivendas, parques de campismo e afins. Para tal contribuíram os viveiristas de plantas que promoveram esta espécie como substituto de outras mais dispendiosas e de crescimento mais lento, nomeadamente o buxo. Com o passar dos anos a Myoporum laetum perdeu a sua popularidade pois o seu rápido crescimento levou ao engrossamento dos seus ramos tornando as sebes menos compactas, ficando por vezes nuas na base.
Algures no tempo a planta assilvestrou-se pelo que agora podemos encontra-la naturalizada e convivendo com a flora local, em pequenos bosques, na beira dos caminhos e até em áreas urbanas. Apesar da presença dominante desta espécie em certos locais do país, tal parece dever-se principalmente ao seu cultivo de forma exagerada, numa determinada época. Em alguns países, no entanto, a planta é considerada invasora como acontece nos Estados Unidos, nomeadamente no estado da Califórnia.
Sendo um arbusto, a Myoporum laetum apresenta-se ramificado desde a base, podendo alguns dos caules fundir-se formando um único tronco aparente. Os caules e ramos jovens são lisos e de aspeto robusto, enquanto os mais velhos apresentam casca mais grossa, rugosa e fissurada ficando, por vezes, distorcidos e quebrados em virtude do peso que suportam.
As folhas, membranáceas e sem pelos dispõem-se nos caules de forma alternada; têm forma lanceolada, elíptica, ou obovada estreitando-se na base em direção ao pecíolo e apresentam um ápice agudo e ligeiramente curvo (acuminado); a margem é inteira, por vezes serrilhada na parte superior, sobretudo em folhas mais jovens.
As folhas da Myoporum laetum são de cor verde brilhante e na página superior apresentam múltiplas glândulas puntiformes e translucidas, por vezes visíveis à vista desarmada e que libertam uma substancia toxica especialmente prejudicial para animais, principalmente bovinos, ovinos e caprinos, que possam inadvertidamente ingerir as folhas após a queda de ramos durante temporais ou depois das podas.
Aliás a palavra que designa o género deste arbusto Myoporum deriva do grego e alude precisamente às glândulas existentes nas folhas.
As folhas esmagadas são por vezes utilizadas como repelente de insetos.
As flores da Myoporum laetum estão providas de órgãos reprodutores masculinos e femininos funcionais e dispõem-se no topo de pedicelos finos, a partir das axilas das folhas.
As flores podem ser solitárias ou dispor-se em cimeiras densas com 5 a 10 flores campanuladas.
Cada flor, de tamanho diminuto, tem 5 pétalas brancas de formato arredondado, peludas no seu interior e completamente salpicadas por inúmeras manchas de cor purpura.
As 5 sépalas que formam o cálice são triangulares e sobrepõem-se ligeiramente na base. Os 4 ou 5 estames são bastante salientes e peludos.
Os frutos, reunidos em cachos, são carnudos, ovoides ou globosos.
Inicialmente de cor verde, os frutos tomam a cor purpura escuro quando maduros.
No interior dos frutos encontra-se um pequeno caroço de consistência óssea dentro do qual se encontra a semente. Os frutos são comestíveis e geralmente muito docinhos.

 Sinonímias:
- Myoporum tenuifolium auct., non G. Forst., Fl. Ins.
Austr.: 44 (1786)
- Myoporum acuminatum auct., non R. Br., Prodr.: 515 (1810)


Fotos - Serra do Calvo / Lourinhã


quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Euphorbia paralias L.

Morganheira-das-praias

A Euphorbia paralias é uma das muitas espécies que podemos encontrar nas orlas marítimas crescendo nas dunas primárias, fixando as areias e contribuindo para a consolidação do cordão dunar. É também uma das primeiras plantas a colonizarem as areias nuas que, arrastadas pelo vento, poderão dar origem a novas dunas, ao encontrarem uma planta que as segure. É, pois, uma espécie de grande importância no litoral português.
A Euphorbia paralias distribui-se por todo o litoral da Península Ibérica, litoral mediterrânico europeu e norte de África, litoral atlântico desde o Magreb até ao Mar do Norte, Madeira e Canárias.
Esta espécie foi introduzida na Austrália e de tal forma se deu bem no seu novo habitat (onde não encontrou inimigos naturais que restringissem o seu desenvolvimento) que se tornou extremamente invasiva, crescendo exuberantemente e formando novas colonias em qualquer areal disponível, abafando as espécies nativas e alterando a estrutura das praias.
Trata-se de um problema semelhante ao que acontece nos areais de Portugal com o chorão, Carpobrotus edulis, planta exótica importada da África do Sul e que também cresce indiscriminadamente impedindo o correto desenvolvimento da vegetação local.

O Carpobrotus edulis tomou conta deste espaço, sufocando as plantas locais que lutam para sobreviver

Tanto no que diz respeito à Euphorbia paralias na Austrália como à Carpobrotus edulis em Portugal, a palavra de ordem é arrancar pela raiz sempre que possível, podendo deixar no terreno os exemplares em causa, para que se decomponham.
A linda borboleta europeia Hyles euphorbiae que põe os seus ovos em plantas do género Euphorbia e cujas larvas se alimentam das suas folhas e brácteas, tem sido introduzida de forma intensiva em países onde as Euphorbias causam problemas, para que atuem como agente biológico no controlo do crescimento das suas colonias. 
A Euphorbia paralias é uma espécie halófita, ou seja, tolerante à salinidade que resulta da sua proximidade com o mar. É uma espécie perene, rizomatosa, provida de uma raiz ereta e muito longa, apta para captar água em profundidade. Os múltiplos caules, lenhosos na parte inferior, são quase todos eretos e da mesma altura, não apresentando pelos e podendo atingir os 70 cm de altura. Os caules crescem a partir de uma base lenhosa, no entanto ramos laterais podem surgir caso aconteça a planta ficar parcialmente soterrada pela areia que se acumula à sua volta, arrastada pelo vento.
As folhas, muito numerosas, inteiras e sem pecíolo, carnudas e de aspeto lustroso, estão revestidas de uma forte cutícula, características estas que lhes permitem evitar uma excessiva perda de água, por transpiração. Pela mesma razão, as folhas ascendentes, dispõem-se de forma imbricada, ou seja, umas sobre as outras tal como as telhas num telhado, de forma a poder recolher alguma água resultante das humidades noturnas, tão frequentes nas orlas marítimas. As folhas superiores são maiores que as inferiores.


Tal como muitas espécies do mesmo género, a Euphorbia paralias produz uma seiva branca de aspeto leitoso que é segregada quando a planta é ferida e que é também uma adaptação à falta de água pois a sua função é estancar a perda de seiva, acelerando a cicatrização dos tecidos. Este líquido é toxico, devendo ser evitado o seu contato com a pele, olhos e mucosas.

As inflorescências da Euphorbia paralias são muito peculiares e características do género a que pertence.
Esta é uma espécie monóica pois apresenta inflorescências formadas por flores femininas e flores masculinas separadas, num mesmo individuo (ao contrário do que acontece com a maioria das flores que tem órgãos reprodutores femininos e masculinos numa mesma flor).
Cada flor feminina, solitária, está praticamente reduzida a um ovário trilocular no topo de um pedicelo e está cercada por vários estames, cada um deles resultante de uma flor masculina.
Todo o conjunto, chamado ciato, está protegido por um involucro em forma de cálice, formado por duas ou mais brácteas e provido de 4 ou 5 glândulas que segregam um néctar que atrai os insetos polinizadores.
Cada ciato é solitário e tem um pedúnculo distinto mas de cada um deles emergem vários pedúnculos que se bifurcam dando origem a sucessivos novos ciatos, em várias camadas.
O conjunto dos ciatos têm a vantagem de dar mais visibilidade à planta por forma a torna-la mais atraente para os agentes polinizadores.
A floração ocorre de março até ao final do verão.
Os frutos são capsulas arredondadas de casca granulada e marcada por 3 sulcos profundos. No interior existem 3 sementes ovoides as quais são expelidas a uma distância de 1 a 2 metros, sendo disseminadas pelas formigas ou pelo vento.
Uma planta vigorosa pode produzir até 5000 sementes por ano. Sendo tolerantes ao sal e bastante resistentes, estas sementes podem viajar nas correntes marinhas por 1 ou 2 anos e ainda assim conservar 50 % da sua viabilidade, podendo germinar ao encontrarem o lugar mais propício para o fazer.

A Euphorbia paralias pertence às Euphorbiaceae, familia botânica de grande importância que inclui espécies de grande valor económico, nomeadamente: a Hevea sp, vulgo seringueira, de onde se extrai a látex usado na manufatura da borracha; a Ricinus communis fonte do óleo de rícino; a mandioca que é a base da alimentação em varias regiões do globo e ainda algumas espécies ornamentais muito populares como a Poinsetia, muito vendida especialmente na época do Natal, devido às suas folhas semelhantes a pétalas de flores vermelhas. Esta família inclui cerca de 6000 espécies repartidas por 222 géneros. O género Euphorbia, ao qual pertence a Euphorbia paralias é um dos mais difundidos e de maior diversidade morfológica. A variedade dentro deste género é sem dúvida surpreendente, existindo espécies de pequeno porte, outras de porte arbustivo ou arbóreo e até algumas que são semelhantes a catos gigantes. Apesar de tal diversidade de formas, todas partilham a estrutura particular das flores, o que as torna tão características.


Fotos: Praia da Areia Branca/Areal Sul - Lourinhã