"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Dittrichia viscosa (L.) W. Greuter subsp. viscosa

Sinónimos:
Dittrichia viscosa (L.) W. Greuter subsp. viscosa
Inula viscosa, Dittrichia maritima, Dittrichia angustifolia, Dittrichia revoluta

Nomes comuns:
Tágueda; énula-peganhosa; erva-dificil-cheirosa; tádega; tágueda-prostrata; táveda-de-folhas-estreitas; táveda-de-folha-de-charuto

Foto de Rickjpelleg. Fonte Wikimedia commons
A Dittrichia viscosa é muito comum no nosso país não só na faixa litoral mas também em muitas regiões do interior.
É uma espécie originária da região mediterrânica. Foi introduzida noutros continentes onde prolifera em regiões de clima temperado, sendo considerada uma planta altamente invasora em certos continentes como por exemplo a Australia e os Estados Unidos, onde faz grandes estragos sobretudo em regiões de maior pluviosidade. Aparentemente as raizes libertam substâncias que inibem a germinação de outras plantas e além do mais é uma planta toxica para o gado. O contacto com a nossa pele pode causar alergias. Espalha-se rapidamente ao longo de caminhos e estradas, rachas nos muros de pedra e sente-se feliz em terrenos degradados, sendo uma das primeiras espécies a renascer após um fogo. É uma planta robusta e muito resistente às condições adversas e embora prefira os solos húmidos não tem quaisquer problemas em conviver com a falta de água.

A Dittrichia viscosa floresce desde junho até novembro. Talvez devido à falta de concorrência de outras flores nos finais do outono, a Dittrichia viscosa atrai numerosos insetos, nomeadamente abelhas e vespas e sobretudo borboletas, que dela se alimentam.
A linda borboleta da foto é uma Utetheisa pulchella. Para ver mais fotos desta borboleta clique aqui e aqui.

A Dittrichia viscosa é uma espécie perene que cresce a partir de uma roseta basal e forma arbustos bem ramificados que podem chegar a ter 1,5 m de altura.
Os ramos são eretos, lenhosos na base e cobertos de pelos glandulosos (inchados no ápice)
que tornam a planta pegajosa ao tato. Estes estão na origem do seu nome (viscosa) e exalam um odor característico que nem todos consideram agradável.
As folhas são numerosas, não têm pecíolo e quase abraçam o caule; são oblongo-lanceoladas terminando com ápice agudo e dispõem-se no caule de forma alternada; podem ter as margens dentadas ou não; à semelhança dos caules, as folhas estão cobertas por pelos glandulosos cujo odor se sente mais fortemente quando esmagadas.
O óleo essencial que se obtém a partir do esmagamento dos caules e folhas desta planta tem sido utilizado em medicina tradicional desde tempos imemoriais aproveitando as suas propriedades como diurética, analgésica, antirreumática e cicatrizante.
A planta é bastante visível e facilmente identificável durante a época de floração graças às centenas de pequenas flores que produz e que se dispõem em inflorescências do tipo panícula ou seja em cachos de flores, de pedúnculos ramificados, no qual os ramos vão diminuindo da base para o vértice, assumindo forma conica.


A Dittrichia viscosa pertence ao género Dittrichia (até há pouco estava incluída no género Inula) o qual compreende 5 espécies de plantas pertencentes às Asteraceae também denominada Compositae, família botânica com o maior número de espécies entre as plantas com flor (angiospérmicas). Muitas espécies desta família são utilizadas na alimentação humana devido ao seu valor biológico, como por exemplo o girassol e a alface. Esta família inclui aproximadamente 50.000 espécies divididas em 900 géneros, sendo as flores a característica mais marcante deste grupo pois são quase sempre do tipo malmequer.
Estas são as chamadas inflorescências em capítulo, as quais se caracterizam por agruparem centenas de pequenas flores num “arranjo” vistoso que representa um autêntico trabalho de equipa pois embora o capítulo se assemelhe a uma única flor, na realidade é composto por conjuntos de flores com estrutura e funções diferentes, as quais podem variar conforme a espécie.
As inflorescências da Dittrichia viscosa têm cerca de 2 cm de diâmetro. As flores que as compõem, entre 40 a 60, de dimensão muito reduzida e de cor amarelo brilhante, agrupam-se de forma muito compacta sobre um receptáculo em forma de disco. As flores da periferia deste disco são liguladas, isto é, apresentam um prolongamento para o exterior em forma de pétala a que se chama lígula. As flores liguladas, entre 10 a 16, são estéreis e têm como única função “alindar” o conjunto, para atrair os insetos polinizadores. As flores do centro do disco são tubulares e possuem órgãos reprodutores femininos e masculinos. Apesar de pouco vistosas são elas que asseguram a perpetuação da espécie, concentrando as suas energias na produção de sementes. De modo geral, a auto-polinização é evitada, porque quando os órgãos reprodutores femininos de um capítulo amadurecem, já o pólen do mesmo foi levado pelos insetos para outros indivíduos da mesma espécie, por terem os órgãos masculinos amadurecido mais cedo.
O conjunto formado pelas flores e pelo receptáculo está protegido por um invólucro de brácteas que são folhas modificadas com a função de proteger toda a estrutura. Estas dispõem-se em 4 a 5 filas, de forma imbricada, tal como as telhas de um telhado.


Cada flor produz um fruto cilíndrico (cipsela) que se assemelha a uma pequena bola fofa esbranquiçada. Esta é composta por um grupo de sementes de cor acastanhada que tem um papilho de cerca de 15 sedas suaves, no topo. Cada semente tem cerca de 2mm de comprimento e o papilho cerca de 5 mm de comprimento. Estima-se que cada planta de tamanho médio poderá produzir uma media de 600 a 700 flores por ano, cada uma dando origem a cerca de 50 sementes viáveis, sendo pois, plantas muito prolíferas.



Fotos: Praia da Areia Branca/Lourinhã

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Lythrum junceum Banks et Solander ex Russell

Sinonímias:
Lythrum graefferi Tem.
Lythrum graefferi Tem. F. album P. Silva

Erva-sapa; Salgueirinha; Salicária-dos-juncos


A Lythrum junceum é uma planta herbácea, perene, de pequeno porte, podendo alcançar os 50 cm de altura. Distribui-se pela região mediterrânica, noroeste de África e Macaronésia (Açores, Madeira, Canárias e Cabo Verde).
Apesar de ser uma planta que vive preferencialmente em locais húmidos, podemos encontrá-la também nos sistemas dunares onde surge associada à vegetação que acompanha as linhas de água. Contudo, os exemplares que apresento neste “post” foram fotografados na parte mais recuada das arribas da Praia do Caniçal por onde correm vários córregos, até meados do verão.
Os caules da Lythrum junceum são eretos, com seção quadrangular (com os quatro ângulos bem visíveis), ramificados desde a base e desprovidos de pelos.


As folhas são sésseis (não têm pecíolo) e têm uma única nervura; as inferiores são de forma oblongo-ovalada e dispõem-se no caule geralmente de forma oposta; as superiores vão-se estreitando progressivamente e inserem-se de forma alternada.

As flores nascem solitárias na axila das folhas superiores; o pedúnculo, mais ou menos curto, dilata-se na parte superior dando lugar ao receptáculo que nesta espécie apresenta forma tubular cilíndrica e que está rodeado por 6 sépalas triangulares, sem cor e transparentes mas com manchas avermelhadas nos bordos; a corola é composta por 6 pétalas de cor rosa-púrpura.


Tal como a maioria das plantas de flor (angiospermae), as flores da Lythrum junceum possuem órgãos de reprodução tanto masculinos (androceu) como femininos (gineceu) o que pode dar origem à auto polinização ou seja à transferência do pólen da antera para o estigma da mesma flor.


A autopolinização pode levar a um enfraquecimento na produtividade de uma espécie pelo que, para evitar que tal aconteça, as espécies socorrem-se de  alguns truques que funcionam como dispositivos de segurança e que variam de espécie para espécie.
No caso da Lythrum junceum, em cada planta existem três tipos de flores em que os 12 estames assumem comprimentos diferentes (curto, médio e comprido), havendo uma coordenação com o comprimento do estilete e estigma, na proporção inversa, tal como se pode ver no esquema acima apresentado.
Um inseto que visite estas flores em busca de néctar recolhe o pólen numa especifica parte do corpo de modo que o pólen da flor com estames curtos  será depositado sobre os estigmas da flor com estilete também curto e vice-versa.

A planta floresce e frutifica de junho a setembro.
O fruto da Lythrum junceum é uma cápsula cilíndrica que contém numerosas sementes ovóides e que se abre separando-se em duas valvas.

A Lythrum junceum é uma planta do género Lythrum e pertence à família das Lythraceae a qual é constituída por ervas quase sempre herbáceas, que se distribuem por 30 géneros e cerca de 600 espécies; algumas delas são cultivadas como ornamentais como por exemplo plantas dos géneros Cuphea e Lagerstroemia; outras espécies desta família são conhecidas desde a antiguidade como é o caso da Lawsonia inermis da qual se extraia a hena, tinta utilizada para fazer pinturas no corpo, pintar o cabelo, as unhas, peles de animais, tecidos de lã e seda. Durante o império romano as matronas usavam a hena para pintar os cabelos e as unhas, tal como o tinham feito Cleopatra e Nefertiti, no Antigo Egito.

Fotos: Arribas da Praia do Caniçal/Lourinhã


terça-feira, 8 de novembro de 2011

Ononis ramosissima Desf

Joina-das-areias


A Ononis ramosissima é uma espécie perene, que forma arbustos de pequeno porte, de ramos pouco lenhosos e eretos.

Os caules são geralmente muito ramificados desde a base e estão cobertos, assim como todo o resto da planta, por um conjunto de pelos e glândulas que lhes dá um aspeto pegajoso ao tato.

Esta é uma espécie psamófila, isto é, bem adaptada aos solos secos e arenosos do litoral: a forma arredondada ajuda-a a resistir aos ventos fortes e o indumento de pelos glandulosos reflete a luz do sol para poder resistir ao excesso de luminosidade e à falta de humidade.
Distribui-se por todo o mediterrâneo ocidental e por quase todo o litoral da Península Ibérica. Em Portugal encontra-se não só em quase todo o litoral centro e sul, mas também se prolonga para as regiões do interior, vivendo em terrenos pedregosos, baldios, ravinas e matos rasteiros.
As folhas da Ononis ramosissima posicionam-se de forma alternada e são formadas por 3 folíolos de forma oval, alongados e dentados nas margens.

Na base das folhas dispõem-se pequenos apêndices de forma laminar chamados estipulas, mais curtos que o pecíolo.

As flores desta espécie são muito vistosas e fazem lembrar uma borboleta,a chamada flor do tipo papilionáceo (do francês “papillon”), estrutura típica da subfamília Faboideae/ Papilionoideae .

As sépalas que formam o cálice são 5, compridas e estreitas, parcialmente unidas e persistentes na frutificação.
A corola é formada por 5 pétalas desiguais, dispostas de modo característico e altamente especializado em atrair os insetos polinizadores: a pétala maior chamada estandarte, situada em posição superior é, pelo seu tamanho e forma, o foco de atração para os polinizadores; as duas pétalas laterais denominadas asas funcionam como pista de aterragem; e as duas inferiores, unidas apenas no ápice, formam a chamada quilha. A flor possui órgãos de reprodução femininos (carpelo = ovário, estilete e estigma) e masculinos (estames) os quais estão encobertos pelas pétalas que formam a quilha. Quando os insetos pousam nas asas, a quilha baixa e dessa forma é favorecido o contacto do insecto com os estames e o estigma, levando o pólen colado ao corpo.
Na Ononis ramosissima todas as pétalas são de cor amarela mas o estandarte apresenta também veios de cor avermelhada.

A planta floresce e frutifica de abril a junho.
Os frutos sao pequenas vagens  subcilindricas cobertas de pelos glandulosos com 3 a 8 sementes de cor acastanhada.

Sobre a importância das leguminosas:
A espécie Ononis ramosissima está incluída no género Ononis que por sua vez pertence à família das Fabaceae (também denominada Leguminosae), uma das maiores famílias botânicas e cujas espécies estão largamente distribuídas por todos os continentes, com exceção da Antártida. Esta família, que inclui cerca de 730 géneros e mais de 19,000 espécies tem como característica comum o fruto em forma de vagem, particularidade que é exclusiva deste grupo.

A Fabaceae/Leguminosae subdivide-se ainda em três subfamílias com características morfológicas muito distintas (geralmente identificáveis através do tipo de flor), sendo que a Faboideae ou Papilionoideae, à qual pertence a Ononis ramosissima, é a que tem maior importância económica a nível mundial pois inclui espécies fundamentais na alimentação humana como sejam a soja, o feijão, o amendoim, o grão-de-bico, o tremoço, as ervilhas ou as favas, apenas para mencionar as mais conhecidas. 
Na generalidade, são plantas de hábitos variados podendo ser herbáceas, trepadeiras, arbustos e árvores. Muitas espécies são também utilizadas como ornamentais, outras têm grande valor comercial ou industrial devido aos produtos que delas podem ser extraídos, nomeadamente o tanino, substância usada na indústria do couro, já para não falar dos corantes, tinturas, colas, vernizes etc.
  
Uma característica muito importante das leguminosas em geral e das espécies da subfamília Papilionoideae/Faboideae em particular, é o facto de serem capazes de converter o nitrogénio atmosférico (azoto) em moléculas proteicas as quais são aproveitadas pela própria planta para seu desenvolvimento e o das plantas em seu redor. Isto acontece devido a uma relação simbiótica com bactérias dos géneros Bradirhizobium e Rhizobium que se fixam nas raízes das leguminosas através de nodosidades, visíveis a olho nu. Em contrapartida, as bactérias recebem das plantas os açúcares produzidos durante a fotossíntese. Esta simbiose permite não só a sobrevivência das referidas bactérias mas também que espécies de leguminosas possam desenvolver-se sem problemas em solos pobres em azoto e matéria orgânica.
Aconselham as boas práticas ecológicas que se aproveitem os benefícios oferecidos pela natureza pelo que quando as leguminosas são colhidas convém deixar as suas raízes ricas em nitrogénio no solo pois vão contribuir para o enriquecer. Aliás, na agricultura moderna há quem prefira utilizar adubos verdes para enriquecer o solo, em detrimento dos adubos químicos. Este processo consiste em cultivar leguminosas de crescimento rápido, as quais são cortadas e enterradas no mesmo local, antes de florescerem e criarem sementes. Esta prática promove o enriquecimento do solo com azoto e outros nutrientes, além de melhorar a estrutura dos terrenos, protegendo-os da seca e limitando o desenvolvimento das ervas daninhas.

Veja mais detalhes sobre o assunto aqui .

Fotos: Dunas do Areal Sul/Praia da Areia Branca - Lourinhã    



quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Crucianella maritima L.

Granza-da-praia; Granza-marítima; Rubia-da-praia


Esta é mais uma planta psamófila, ou seja, perfeitamente adaptada aos solos arenosos. A Crucianella maritima é caracteristica dos sistemas dunares e vive na parte mais recuada das dunas frontais,  estendendo-se para as dunas secundárias, as quais são um pouco mais ricas em matéria orgânica e menos fustigadas pelos ventos do norte e salpicos salgados.

A Crucianella maritima distribui-se por toda a região mediterrânica ocidental, formando comunidades de pequenos arbustos vivazes, de ramos retorcidos e lenhosos na base.


Os caules podem atingir até cerca de 50 cm de altura, os mais jovens de porte ascendente e os mais velhos por vezes ligeiramente prostrados.


As folhas desta espécie são mais um exemplo de como as plantas encontram soluções inteligentes que lhes permitem fazer face às duras condições dos habitats onde vivem.


Assim, podemos ver que as folhas da Crucianella maritima adotaram uma disposição densamente imbricada que lhes permite uma menor exposição aos agentes responsáveis pela desidratação, tal como o sol e os ventos fortes; as folhas, de consistência algo coriácea apertam-se em redor do caule em filas de 4, desencontradas como as telhas de um telhado e terminam numa ponta curta e rígida; as margens das folhas são esbranquiçadas, firmes mas elásticas.




As flores, possuidoras de orgãos masculinos e femininos, são solitárias e nascem nas axilas das folhas, ao longo dos caules, de forma que lembra uma espiga; o peciolo é curto ou mesmo inexistente; o cálice é minúsculo e a corola, de cor amarela, é constituida por 5 pétalas que formam um tubo estreito e comprido, ultrapassando largamente as brácteas, semelhantes a folhas; a extremidade das pétalas curva-se para o interior.

A Crucianella maritima floresce e frutifica de março a setembro.
O fruto é uma capsula minúscula de formato ovoide, geralmente contendo 2 sementes.

A Crucianella marítima pertence à família botânica das Rubiaceae a qual é constituída por mais de 13.000 espécies distribuídas por cerca de 650 géneros, na sua maioria arbustos e árvores. Esta é uma das maiores famílias botânicas de plantas produtoras de flor (angiospérmicas) e a sua importância a nível global é muito relevante sobretudo porque uma das espécies desta família é a planta do café, do género Coffea, utilizada para fazer uma das bebidas mais consumidas em todo o mundo.  

Fotos: Praia da Areia Branca/Areal Sul