"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Crucianella maritima L.

Granza-da-praia; Granza-marítima; Rubia-da-praia


Esta é mais uma planta psamófila, ou seja, perfeitamente adaptada aos solos arenosos. A Crucianella maritima é caracteristica dos sistemas dunares e vive na parte mais recuada das dunas frontais,  estendendo-se para as dunas secundárias, as quais são um pouco mais ricas em matéria orgânica e menos fustigadas pelos ventos do norte e salpicos salgados.

A Crucianella maritima distribui-se por toda a região mediterrânica ocidental, formando comunidades de pequenos arbustos vivazes, de ramos retorcidos e lenhosos na base.


Os caules podem atingir até cerca de 50 cm de altura, os mais jovens de porte ascendente e os mais velhos por vezes ligeiramente prostrados.


As folhas desta espécie são mais um exemplo de como as plantas encontram soluções inteligentes que lhes permitem fazer face às duras condições dos habitats onde vivem.


Assim, podemos ver que as folhas da Crucianella maritima adotaram uma disposição densamente imbricada que lhes permite uma menor exposição aos agentes responsáveis pela desidratação, tal como o sol e os ventos fortes; as folhas, de consistência algo coriácea apertam-se em redor do caule em filas de 4, desencontradas como as telhas de um telhado e terminam numa ponta curta e rígida; as margens das folhas são esbranquiçadas, firmes mas elásticas.




As flores, possuidoras de orgãos masculinos e femininos, são solitárias e nascem nas axilas das folhas, ao longo dos caules, de forma que lembra uma espiga; o peciolo é curto ou mesmo inexistente; o cálice é minúsculo e a corola, de cor amarela, é constituida por 5 pétalas que formam um tubo estreito e comprido, ultrapassando largamente as brácteas, semelhantes a folhas; a extremidade das pétalas curva-se para o interior.

A Crucianella maritima floresce e frutifica de março a setembro.
O fruto é uma capsula minúscula de formato ovoide, geralmente contendo 2 sementes.

A Crucianella marítima pertence à família botânica das Rubiaceae a qual é constituída por mais de 13.000 espécies distribuídas por cerca de 650 géneros, na sua maioria arbustos e árvores. Esta é uma das maiores famílias botânicas de plantas produtoras de flor (angiospérmicas) e a sua importância a nível global é muito relevante sobretudo porque uma das espécies desta família é a planta do café, do género Coffea, utilizada para fazer uma das bebidas mais consumidas em todo o mundo.  

Fotos: Praia da Areia Branca/Areal Sul



 

domingo, 2 de outubro de 2011

Linum usitatissimum subsp. angustifolium (Huds.) Thell.

Linho


O Linum angustifolium cresce como planta bienal ou perene em locais secos e ensolarados, de solos calcários ou neutros.

Em Portugal, de uma forma geral, distribui-se por todo o território, desde o litoral até às terras altas do interior, desde que não sejam ultrapassados os 1000 metros de altitude.


Não sendo uma espécie especifica das zonas costeiras podemos, ainda assim, encontrar algumas pequenas colónias na primeira linha das dunas do Areal Sul, na Praia da Areia Branca; ladeiam um dos caminhos mas em posição abrigada dos ventos do norte.


Esta planta tem caules cilíndricos e compridos, prostrado-ascendentes ou ascendentes, geralmente ramificados. As folhas, esparsas, são finas e de margem lisa, alternas e sem pecíolo.


As flores, de cor azul claro (por vezes, brancas) com nervuras bem marcadas de um tom mais escuro, têm 5 pétalas, 5 sépalas e 5 estames.


Os estames apresentam-se unificados e as sépalas, que constituem o cálice, crescem separadas uma das outras e persistem durante a frutificação. As flores possuem órgãos reprodutores masculinos e femininos e são maioritariamente polinizadas por abelhas e vespas.
Floresce e frutifica de março a agosto.


O fruto é uma cápsula globosa dividida em 5 cavidades onde se formam as sementes.


As sementes são achatadas, brilhantes e relativamente pequenas, de cor variável entre o amarelo e o castanho claro.
O Linum angustifolium pertence à família botânica das Linaceae a qual inclui cerca de 120 espécies distribuídas por 10 géneros, dos quais o género Linum é sem dúvida o mais importante. Por sua vez o género Linum tem 20 espécies que se distribuem pelos climas temperados da Europa e da Ásia e 50 espécies espalhados pelo continente americano.

É a espécie Linum usitatissimum  que fornece as bem conhecidas e excelentes fibras têxteis; esta é uma espécie cultivada que terá derivado da espécie espontânea Linum angustifolium, nativa da região mediterrânica. Curiosamente parece ter havido alguma indecisão na classificação destas duas espécies uma vez que partilham os mesmos nomes científicos (ver sinónimos no final do “post”). Este não é caso único e assim acontece porque por vezes as diferenças entre as plantas são tão diminutas que se torna difícil, mesmo para os especialistas, classifica-las como sendo da mesma espécie ou subespécie ou espécie distinta. Hoje em dia, em que se pode recorrer ao ADN através da bioinformática está tudo mais facilitado. Assim, estudos recentes da RAPD (ver detalhes aqui) comprovam que as espécies Linum usitatissimum, Linum angustifolium e Linum bienne são estreitamente aparentadas, não só no aspecto morfológico mas também no que diz respeito à componente genética.

O linho tem sido cultivado desde há milhares de anos, não só pelos seus caules dos quais se extraem as fibras para o fabrico de tecidos mas também pelas suas sementes oleaginosas que são usadas para fins comerciais e medicinais.
A espécie  Linum angustifolium foi uma das primeiras fibras a ser utilizada na confeção de texteis, havendo evidencias da sua  utilização que datam de 8000 a.c. Vários povos da antiguidade, entre os quais os egípcios e os hebreus, teciam o linho de forma muito perfeita e usavam-no em velas de barcos, decoração de interiores e sobretudo nos ritos funerários. A cultura do linho era de primordial importância para economia destes povos, a ponto de ser referida no Antigo Testamento. A cultura do linho terá sido introduzido na Península Ibérica há mais de 4.500 anos, conforme comprovado por vestígios arqueológicos encontradas no Algarve.


As sementes do linho têm também grande importância económica pois depois de moidas, delas se extrai o óleo de linho (mais puro e prensado a frio) e o óleo de linhaça (fervido e com aditivos) os quais têm multiplas utilizações na indústria como por exemplo no fabrico de vernizes e na diluição de tintas para pintura artística, forragem para animais, entre outros.
As sementes de linho têm comprovadas propriedades medicinais, muito variadas, desde  antiespasmódico, analgésico e antiinflamatório até efeitos reguladores de colesterol e da diabetes. O óleo de linho pode ainda ser utilizado na culinária.
 
SOBRE A CLASSIFICAÇÃO DAS PLANTAS:
Vem a propósito relembrar que a classificação científica das espécies é muito importante para facilitar a organização e compreensão da enorme variedade de plantas existentes.
Os nomes populares variam conforme as regiões mas não são exclusivos, podendo plantas diferentes ser conhecidas pelo mesmo nome, o que origina confusões.
Assim, para que haja uniformidade a nível mundial, optou-se por estabelecer um nome científico binominal, em latim, do qual consta o género botânico ao qual pertence a planta e ainda a espécie da mesma. Assim o nome científico de uma planta é o mesmo em qualquer parte do mundo, independentemente da língua de cada país, não havendo lugar a confusões na sua identificação. Apesar de tudo, acontece que por vezes uma planta apresenta vários nomes científicos que mais não são que duplicações no registo das espécies. Também acontece que certas espécies adquiriram novos nomes por terem sido reclassificadas.
Nestes casos o nome científico principal é o que se refere à primeira classificação das espécies; os restantes vigoram como sinónimos, havendo registos que relacionam uns nomes com os outros, nesta conformidade.
A classificação científica que usamos hoje em dia baseia-se no sistema deixado por Lineu (Carolus Linnaeus, botânico e zoólogo sueco que viveu no século XVIII). O sistema de Lineu agrupa as espécies tendo em conta apenas as características morfológicas comuns, formando uma hierarquia (Reino, ordem, família, género, espécies e subespécies). (ver mais detalhes aqui)
Alterações na classificação das espécies têm sido frequentes nos últimos tempos, em primeiro lugar porque mudaram os conceitos e à luz da teoria de Darwin (princípio de ascendência comum) todas as plantas deveriam ser classificadas tendo em conta a sua evolução a partir de um ancestral comum. Por outro lado, com o desenvolvimento da sistemática molecular (área importante dentro da genética molecular) tem sido mais eficiente a classificação das espécies, sendo expectavel que, no futuro, haja profundas revisões na classificação de muitas espécies. Se assim acontecer passará a haver um sistema de classificação com base na semelhança genética em detrimento dos antigos critérios morfológicos. Com o auxilio da bioinformática são utilizados os métodos da biologia molecular e é feita a análise do genoma (constituição genética), através de técnicas de informática.

Sinónimos:
Linum usitatissimum subsp. angustifolium (Huds.) Thell. 1912
Linum tenuifolium L. 1754
Linum stocksianum Boiss. 1854
Linum siculum C.Presl 1826
Linum pyrenaicum Pourr. 1788
Linum marginatum Poir. in Lam. 1814
Linum hispanicum Mill. 1768
Linum cribrosum Rchb. 1842
Linum angustifolium var. ambiguum (Jord.) P.Fourn. 1937
Linum angustifolium proles ambiguum (Jord.) Rouy
Linum angustifolium Huds. 1778
Linum ambiguum Jord. [1848]
Linum agreste Brot. 1804
Cathartolinum agreste Rchb. 1837
Adenolinum angustifolium (Huds.) Rchb.
Linum elatum Salisb. 1796
Linum perenne (L.) Vill.

Fotos - Dunas do Areal Sul/Praia da Areia Branca- Lourinhã


quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Helichrysum italicum (Roth) G.Don subsp.picardii (Boiss. & Reut.) Franco

Perpétua-das-areias; erva-caril



  

O Helichrysum italicum picardii é uma espécie da família das Asteraceae/Compositae e do género Helichrysum o qual inclui cerca de 500 espécies nativas da Europa, África, Ásia e Australia. É um género muito heterogéneo e não consensual, tendo algumas das espécies sido reclassificadas, especialmente as espécies australianas.

A espécie Helichrysum picardii distribui-se por todo o sul da Europa, sendo uma planta característica de climas mediterrânicos.
É uma planta vivaz de base lenhosa que forma um pequeno arbusto de cerca de 25 a 50 cm de altura. Os caules do Helichrysum picardii são geralmente angulosos, ascendentes, ramificados e revestidos de pelos, os quais são usados pela planta para refletir a luz solar e assim encontrar algum alívio, protegendo-se da excessiva luminosidade.
As folhas, de cor verde acinzentado nas duas faces devido aos pelos moles que formam uma espécie de enfeltrado,  são alternas, inteiras, lineares, muito estreitas e alongadas. Este tipo de folhas resulta da adaptação às condições agrestes do habitat onde vive, evitando a perda de água por transpiração.


Da forma caraterística da família Asteraceae/Compositae, as flores estão agrupadas em capítulos, sendo que as pequenas florinhas que os compõem são todas de forma tubulosa e de cor amarela. De notar que as flores marginais são femininas e as do disco (recetáculo) são masculinas e femininas.
Esquema de um capítulo em que todas as flores são tubulosas

No caso particular do Helichrysum picardii os capítulos reunem-se em corimbos densos, isto é, em cachos em que os capítulos se situam mais ou menos ao mesmo nível.
Esquema de um corimbo em que os capítulos estão reunidos densamente



O invólucro é pequeno e oblongo-cilindrico e revestem-no três camadas de brácteas imbricadas (sobrepostas como as telhas de um telhado).

A planta floresce e frutifica de maio a setembro.
As flores são polinizadas por insetos, tanto mais que as plantas deste género são fonte de alimento para várias espécies de borboletas.
Os seus frutos caiem pela acção da gravidade, espalhando-se no solo perto da planta mãe;  estes são cipselas de cor castanha, muito pequenos, com papilho de pelos brancos, curtos e ásperos.

Em Portugal, o Helichrysum italicum picardii é uma espécie bastante comum nos solos arenosos das dunas do litoral, onde por vezes constitui a vegetação dominante. Contudo, em muitos países é já uma espécie em vias de extinção em algumas regiões, tendo ganho o estatuto de protegida, como é o caso da França. Muitas vezes é cultivada como planta ornamental pois é uma planta aromática de folhagem e flores muito vistosas. Também é usada frequentemente em “pot-pourris” e em arranjos de flores secas, beneficiando do facto de manter as suas cores mesmo depois de seca, o que está na origem do nome popular “perpétua-das-areias”.

O nome científico que designa o género Helichrysum refere-se às suas flores amarelas e deriva do grego “helikhrusos” (“hélix” que significa espiral e “Khrusos” que significa ouro). 

Embora esta espécie seja conhecida por erva do caril ou “curry plant”, a verdade é que apesar do intenso aroma a caril, o sabor não tem nada a ver com o caril indiano. O verdadeiro pó de caril é uma mistura de especiarias que na generalidade pode incluir sementes de mostarda, pimentas, malaguetas, coentros, gengibre, canela, cominhos, açafrão, cardamomo, noz- moscada, alecrim etc.



Sinónimos:
Helichrysum stoechasvar. serotinum (Boiss.) Batt.
Helichrysum stoechas var.fontanesii (Cambess.) Batt.
Helichrysum serotinumsubsp.picardii (Boiss.& Reut.) Galbany& al.
Helichrysum picardiiBoiss. & Reut.
Helichrysum stoechasvar.serotinum (Boiss.) Batt.


Basónimo:(Nome cientifico já em desuso, mas válido como sinónimo)
Helichrysum picardi.(Boiss.&Reuter)

Fotos: Dunas do Areal Sul/Praia da Areia Branca-Lourinhã


sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Cirsium arvense (L.) Scop.

Cardo-das-vinhas; cardo-hemorroidal; cardo-rasteiro


É com a espécie Cirsium arvense que concluo o ciclo que dediquei às plantas espinhosas que se podem encontrar na faixa litoral, que vai da Praia da Areia Branca ao Forte de Paimogo.

O Cirsium arvense é uma planta do género Cirsium (ver detalhes aqui), nativa da Eurásia mas que podemos encontrar em quase todas as regiões temperadas do globo. Foi introduzida no continente americano durante o século XVII onde ganhou o estatuto de planta invasora, proliferando vigorosamente, para arrelia e transtorno dos agricultores de cereais. A contaminação das sementes dos cereais parece ser responsável por grande parte da dispersão da espécie por outros continentes.

O Cirsium arvense não só se reproduz através de sementes como também se espalha por via subterrânea, através de rizomas, formando assim grandes colónias. Quando arrancada do solo forma novas plantas a partir de qualquer pequeno pedaço de raiz que tenha ficado. Por estas razões é muito difícil de erradicar.


Tal como muitas outras espécies espinhosas, o Cirsium arvense é uma planta nitrófila, o que quer dizer que tem especial preferência por solos enriquecidos com matéria orgânica e por consequência com alto teor de nitrogénio/azoto. Embora possamos encontrá-lo em solos leves, arenosos e secos, o Cirsium arvense prefere os solos profundos, frescos e bem arejados, como pastagens, campos cultivados ou não cultivados, beiras de caminhos e terrenos remexidos.


É uma planta perene, ereta e ramificada podendo atingir mais de um metro de altura. Os caules, de cor verde, são ocos, estriados, e apresentam alguns pelos esparsos. Ao contrário da maioria dos cardos e outras plantas com eles aparentadas, o Cirsium arvense não tem espinhos nos caules.

As folhas, verdes, são mais claras na página inferior, com alguns pelos; a margem das folhas provida de dois ou três espinhos, é dentada e ondulada, de forma que as curvas salientes alternam com as curvas reentrantes. As folhas não têm peciolos e as suas bases envolvem o caule.


As flores, de cor lilás, agrupam-se em numerosos e pequenos capitulos esféricos, com pedunculos revestidos de alguns pelos; todas as flores têm a aparência de tubos finos e compridos formados por 5 pétalas unidas, separando-se apenas na extremidade exterior.


 O involucro tem 5 camadas de brácteas sobrepostas como as telhas de um telhado, com pontas aguçadas, de cor purpura, sendo a última camada ligeiramente pubescente.


Ao contrário da maioria das plantas verdes em que o mesmo individuo apresenta orgãos reprodutores dos dois sexos, o  Cirsium arvense é geralmente uma planta dioica. Ou seja, na espécie Cirsium arvense as flores masculinas (com estames) e as femininas (com estigma, estilete, e ovário) ocorrem em plantas separadas. Aparentemente as plantas de sexos diferentes necessitam estar à distancia máxima de 100 m para poderem ser polinizadas.


A planta floresce e frutifica de junho a agosto.



Os frutos são cipselas de cor amarelada, de forma cilíndrica ou cónica, achatados e com um papilho de sedas muito abundantes que facilitam a dispersão pelo vento.  Diferenciam-se das outras espécies do género Cirsium por serem mais pequenos.



Cada planta produz entre 3000 a 5000 sementes as quais são um alimento muito importante para várias espécies de aves, geralmente canoras, nomeadamente tentilhões, pintaroxos, pintassilgos, papa-figos, verdilhões, etc.


A folhagem do Cirsium arvense também serve de alimento a mais do que 20 espécies de borboletas.

À semelhança da maioria das plantas silvestres, o Cirsium arvense tem sido utilizado ao longo dos tempos em medicina caseira, devido às suas propriedades terapeuticas. Todas as partes da planta são utilizáveis, nomeadamente em situações inflamatórias. Os banhos contra as hemorroidas devem estar na origem de um dos nomes pelo qual a planta é conhecida popularmente.

Este cardo é muito nutritivo, sendo por vezes utilizado em culinária embora não seja o mais saboroso.

Fotos: Arribas do Caniçal e Serra do Calvo- Lourinhã