Nomes comuns:
Cardo-morto; tasna; tasneirinha
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| Senecio vulgaris |
Senecio vulgaris pertence às Asteraceae (vulgarmente conhecidas como
família dos malmequeres) e ao género Senecio, um
dos maiores géneros desta família. Na realidade Senecio é um mega género, um
dos maiores entre as Angiospermas (grupo de plantas que geram flores) e no
qual foram incluídas espécies morfologicamente tão diversificadas que o tornaram bastante confuso. Aparentemente, ao longo dos séculos, foram sendo “despejadas” neste género espécies difíceis de classificar, do que resultou um
grupo geneticamente artificial por ser polifilético, ou seja, não inclui o
ancestral comum de todos os indivíduos nele incluídos.
As primeiras classificações científicas basearam-se apenas nas
semelhanças morfológicas mas os novos métodos de biologia molecular permitem
ter uma visão mais abrangente e consistente com o princípio da ascendência
comum. O objetivo atual é classificar as espécies de modo a formar grupos
monofiléticos, os quais devem incluir todos as espécies do ascendente imediato
comum, incluindo o próprio ascendente imediato comum.
Assim, na tentativa de reorganizar o género Senecio de forma sustentada, foram feitas análises
filogenéticas e moleculares na sequência das quais muitas espécies
tradicionalmente incluídas no género Senecio
foram reclassificadas, sendo dele excluídas e atribuídas a outros géneros,
nomeadamente Jacobaea, Delairea, Kleinia,
Packera e mais 3 dezenas de géneros de nomes obscuros.
Apesar disso, o
processo está longe de estar terminado e Senecio
ainda inclui cerca de 1250 espécies muito diversificadas, incluindo anuais,
perenes herbáceas, arbustos, trepadeiras, suculentas, pequenas árvores e até
espécies aquáticas. A sua distribuição é muito ampla mas ocorrem principalmente
na região mediterrânica, Africa do Sul, Ásia temperada e continente americano.
Muitas destas espécies são problemáticas por terem comportamento invasivo difícil de controlar
fora dos seus habitats nativos; outras são tóxicas, tanto para animais como
para humanos, pois produzem alcalóides pirrolizidínicos cujo efeito cumulativo
provoca doenças do fígado que podem ser fatais. Em contrapartida, Senecio também inclui
espécies inofensivas e de grande valor no florescente comércio das plantas
ornamentais.
Tal como todos os nomes científicos, Senecio tem origem no latim, mais propriamente no vocábulo “senex”
que significa homem velho ou idoso, embora como alguém dizia, o género não seja
curvado, frágil, nem venha a adquirir natureza sábia com a idade. Corre mundo
que esta referência à velhice tem a ver com os frutos que, depois de maduros
(mas antes de abandonarem a planta), formam um tufo de pelos brancos que fazem
lembrar a barba branca de um homem idoso.
Pessoalmente não vejo grande lógica neste argumento uma vez que muitos outros géneros da família Asteraceae
apresentam frutos semelhantes. Contudo, tendo o vocábulo “senex” sido relacionado com
este género há quase 2000 anos pelo naturalista romano Plinio, pode assumir-se que, a existir qualquer
outra razão mais fundamentada, a mesma ter-se-á perdido na escuridão dos tempos.
Segundo a Sociedade Portuguesa de Botânica, através do portal
Flora-on, são 17 as espécies do género Senecio
que ocorrem em Portugal. Algumas são nativas e outras são exóticas (geralmente
escapadas dos jardins e assilvestradas). Também se registam algumas espécies
endémicas. Veja AQUI e depois, se desejar obter informações mais detalhadas
sobre cada espécie, basta clicar em cima das fotos.
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Distribuição de Senecio vulgaris em Portugal continental - Fonte Flora-on Informações disponibilizadas por: F.Clamote, P.V.Araújo, J.Lourenço,J.D.Almeida, A.Carapeto, A.J.Pereira, A.Silva, et al.(2015) |
Senecio vulgaris, tal como o nome
indica, é uma espécie comum e de ampla distribuição. Embora nativa do norte de
África, Ásia temperada e tropical e maioria dos países europeus desde a
Península Ibérica e bacia do mediterrâneo até à Rússia, hoje em dia está
presente em todos os continentes. Em Portugal é autóctone no continente e
Madeira e está naturalizada nos Açores.
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| Senecio vulgaris |
Senecio vulgaris adapta-se a uma
grande variedade de habitats mas ocorre principalmente em ambientes ruderais,
migrando ocasionalmente para campos cultivados. É uma conhecida infestante cuja
ação é muitas vezes inconsequente nos habitats nativos mas que pode provocar
estragos consideraveis nos paises onde foi introduzida. Ainda assim, é uma espécie
estabilizadora dos ecossistemas ao providenciar abrigo e alimento a uma
grande variedade de espécies de escaravelhos, moscas, traças e borboletas.
Sendo considerada uma planta toxica para certos mamiferos e humanos
(devido à presença de alcalóides pirrolizidínicos em todas as partes da planta,
mas especialmente nas flores e folhas) podemos constatar, face às informações
contraditórias, que os malefícios que possam advir da sua ingestão têm a ver
com a quantidade consumida, tanto mais que os efeitos são cumulativos. Contudo
alguns animais parecem imunes a estes alcaloides. As sementes são muito
apreciadas por pequenas aves (ex tentilhões), os quais também se alimentam das
folhas. Também as cabras e os coelhos incluem as folhas de Senecio vulgaris na sua dieta, ao contrário de ovelhas, vacas e
cavalos que a evitam.
Senecio vulgaris tem um longo
historial como planta medicinal. Esta erva foi, no passado, muito utilizada
pelas suas propriedades antihelminticas, antiescorbúticas, diafureticas,
diuréticas e purgativas mas, face ao conhecimento de casos fatais envolvendo
animais e pessoas, a planta foi desaconselhada, acabando por cair em desuso, quer na medicina caseira quer no pasto.
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| Senecio vulgaris |
Senecio vulgaris é uma planta herbácea de raízes finas e abundantes, cujo caule ereto pode crescer até cerca de 40 cm de altura, embora na maioria
dos casos não ultrapasse os 20 cm.
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| Senecio vulgaris |
Os vários caules surgem a partir de uma roseta basal e são ocos, simples e ramificados de forma
irregular, especialmente na parte superior onde se formam as inflorescências. Os
caules, as folhas e uma grande parte dos pedúnculos das flores ora estão
cobertos de pelos esbranquiçados, muito finos, macios e flexíveis, semelhantes
a teias de aranha, ora são glabros.
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| Senecio vulgaris |
As folhas, de consistência carnuda, dispõem-se de forma alternada e
são mais ou menos profundamente recortadas; as folhas inferiores são
espatuladas isto é, são achatadas e oblongas, mais estreitas na base e
alargando progressivamente em direção ao ápice que é arredondado; as folhas
superiores são mais profundamente recortadas embora de forma irregular; o
pecíolo é inexistente e a base das folhas é alargada e envolve parcialmente o
caule (amplexicaule).
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| Senecio vulgaris |
As flores são minúsculas, todas em forma de tubo e de cor amarela;
agrupam-se em capítulos, característica marcante da família das Asteraceae, a
que pertence esta espécie. Os capítulos não são solitários, isto é, juntam-se a
outros, formando corimbos terminais mais ou menos densos, geralmente originados
no mesmo pedúnculo. Os pedúnculos são pouco firmes, do que resulta que os
capítulos se apresentem pendentes.
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| Senecio vulgaris |
O capítulo de Senecio vulgaris caracteriza-se por apresentar muitas
flores tubulares e de tamanho reduzido, agrupadas de forma muito compacta
diretamente sobre um recetáculo em forma de disco, dando a ideia de que se
trata de uma única flor.
Em muitas espécies da família Asteraceae as flores periféricas deste disco prolongam-se para o
lado de fora formando lígulas, semelhantes a pétalas, como no caso dos
malmequeres, mas tal não acontece no caso de Senecio vulgaris, cujas flores são
todas tubulares.
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As flores estão em plena floração, notando-se os braços estigmáticos. Nesta foto notam-se bem os dois tipos de brácteas. |
O conjunto de flores reunidas em cada capítulo é, em Senecio
vulgaris, protegida por um invólucro de formato cilíndrico formado por duas
camadas de brácteas. As brácteas da camada basal formam uma espécie de epicálice,
são algo triangulares e bastante mais curtas que as da camada interior; são as
brácteas da camada interior que constituem a maior parte do invólucro, sendo
mais compridas e estreitas, envolvendo todas as flores até à maturação do fruto
e dando a ideia de que as "flores" nunca abrem, mesmo quando estão em plena
floração. Estas brácteas involucrais possuem a ponta manchada de negro de forma característica da espécie e no seu conjunto assemelham-se a garras ou dentes.
As manchas da camada inferior são as mais visíveis.
As flores possuem órgãos reprodutores funcionais, tanto femininos
como masculinos mas de tão apertadinhas não se distinguem os estames à vista
desarmada. No entanto os braços do estigma são perfeitamente visíveis. Além
de poder ser polinizada por insetos esta espécie também recorre à
autopolinização razão pela qual prescinde das “pétalas” que apenas servem de
chamariz mas que envolvem grande gasto de energia.
Esta planta é muito prolífera, florescendo praticamente durante o
ano inteiro. Geralmente o seu ciclo de vida leva apenas 5 a 6 semanas a
completar e geralmente formam-se 3 gerações em cada ano, cada planta produzindo
cerca de 1700 sementes.
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| Senecio vulgaris |
Cada pequena flor aninhada dentro dos capítulos produz um fruto seco com uma
só semente, de cor acastanhada, oblonga e provida de um tufo de pelos brancos
numa das extremidades, chamado pappus ou papilho. Estes tufos são constituídos por pelos sedosos e compridos que por ação do vento levam as sementes para
longe - por vezes a 2 a 3 metros de distancia- quais pequenos para-quedas de
brinquedo.
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| Senecio vulgaris |
As sementes permanecem apertadinhas dentro do invólucro até à sua
completa maturação. Nessa altura, o invólucro abre-se completamente,
curvando-se as brácteas bruscamente para baixo. Ao mesmo tempo, as sementes ainda
ligadas ao recetáculo deixam de estar comprimidos e abrem como um harmónio,
formando uma espécie de pom-pom de cor branca, formado pelos pappus ou papilhos.
Apesar do aspeto humilde que lhe é conferido pelo seu pequeno
tamanho e pelas flores pouco chamativas, Senecio
vulgaris é uma espécie suficientemente interessante para suscitar alguma controvérsia e diversos estudos e teorias têm sido apresentados por botânicos que questionam as suas origens, o seu grau de toxicidade, resistência ao fungo Puccinia lagenophorae e a certos tipos de herbicidas. Também as estratégias de
adaptação de Senecio vulgaris a diferentes tipos de habitats têm motivado
estudos sobre os processos evolutivos e adaptativos das plantas em geral, face aos recursos
ambientais.
Senecio vulgaris é basicamente uma
planta ruderal. Pode ser encontrada em terrenos cultivados ou incultos mas é
principalmente dos habitats humanizados que ela gosta mais. Ocorre
preferencialmente na beira dos caminhos, cascalheiras, locais de despejo de
restos de materiais de construção e outros lixos, brechas no alcatrão ou nas
pedras dos passeios, enfim, todos os locais de solo remexido ou perturbado
devido à remoção da camada superficial e que se tornaram repentinamente
mais ricos em azoto e outros nutrientes. Estes distúrbios podem acontecer pela
ação humana ou devido a catástrofes (inundações, derrocadas). As perturbações
do habitat também podem advir da destruição de plantas maduras de uma
comunidade instalada num local fértil (incêndio, pastoreio demasiado intensivo,
passagem de maquinas agrícolas, herbicidas). Neste caso toda a biomassa
destruída que fica no local aumenta o nível de nutrientes disponíveis no solo, ao mesmo tempo que o menor número
de plantas diminui a competição. Estes locais geralmente
apelidados de “perturbados” apresentam um alto índice de distúrbio mas em
contrapartida têm uma baixa intensidade de stress
(neste sentido, stress refere-se a uma combinação de variáveis ambientais que retardam
o crescimento: falta de nutrientes disponíveis, alta ou baixa temperatura, baixa
disponibilidade de água).
Resumindo, espécies que, tal como a Senecio vulgaris, prosperam em
ambientes com alto índice de perturbação mas com baixa intensidade de stress, são chamadas ruderais. São
geralmente plantas anuais cuja estratégia é crescer depressa e concluir
rapidamente os seus ciclos de vida, produzindo grande quantidade de sementes. São
as primeiras a florir e as primeiras a deitar semente e geralmente morrem logo
após a maturação dos frutos. Há quem lhes chame oportunistas mas eu diria que
têm sentido de oportunidade e instinto de sobrevivência da espécie. Esta
estratégia foi adotada em função das condições de perturbação em que vivem,
isto é, têm que se despachar a produzir sementes para perpetuar a espécie, não vá acontecer nova degradação no local que ponha em risco a vida da planta antes de poder produzir frutos. Neste aspeto, as plantas ruderais diferem de forma consistente de
outras plantas que adotaram diferentes estratégias de vida.
Ruderais, Competidoras e Tolerantes ao stress:
Parece não haver duvida que existe uma estreita ligação entre a
taxa de crescimento de cada espécie e a sua ocorrência num determinado habitat.
Esta é a ideia essencial das teorias desenvolvidas por alguns botânicos, entre
eles J. P. Grime proeminente professor da Universidade de
Sheffield no Reino Unido e autor de Universal adaptive strategy theory. De acordo com a UAST as estratégias das plantas são moldadas pelas possíveis combinações
de dois fatores que fazem parte da vida das plantas: stress e perturbação. Já acima vimos
como as Ruderais criaram estratégias que lhes permitem escolher habitats com
alto grau de perturbação e baixo nível de stress, os quais são pouco
competitivos em termos de espaço (no início dos distúrbios) garantindo a formação de comunidades florísticas variadas e abundantes. Se (ou quando) terminarem os
fatores de perturbação num determinado local, ao mesmo tempo que se for dando o
gradual decréscimo em perturbação, aumentam os níveis de stress e há-de chegar
o dia em que as ruderais terão de procurar novo lugar para viver. É então que
chegam as Stress-tolerators (Tolerantes ao stress) cuja estratégia lhes permite
um lugarzinho em habitats com alto grau de stress e baixo nível de perturbação.
São geralmente perenes com taxas de crescimento lento, folhas perenes, altas
taxas de retenção de nutrientes e baixa plasticidade fisiológica. Muitas dessas
espécies são freqüentemente encontradas em ambientes muito frios ou aridos,
sombra profunda, solos deficientes em nutrientes e níveis extremos de pH.
Numa terceira categoria, as Competitors (Competidoras) são espécies
de plantas que se desenvolvem em áreas de baixa intensidade tanto de stress como
de perturbação. Destacam-se pela competição biológica pois dado que estes são os ambientes mais favoráveis para o
desenvolvimento, os nutrientes sofrem grande solicitação. Estas plantas conseguem
suplantar as outras rentabilizando os recursos disponíveis da forma mais
eficiente, através de uma combinação de características favoráveis, incluindo a
taxa de crescimento rápido, de alta produtividade (crescimento em altura,
extensão, e massa de raízes), e alta capacidade de plasticidade fenotípica.
Esta última característica permite que as competidoras sejam altamente
flexíveis no aspeto morfológico ao mesmo tempo que ajustam a distribuição dos
recursos ao longo das várias partes da planta conforme necessário, ao longo da
estação de crescimento.
Estes são apenas os vértices de um triângulo, entre os quais existem muitas combinações possíveis.
Leia mais AQUI e AQUI.
Fotos de Senecio vulgaris: Serra do Calvo/Lourinhã