"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





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terça-feira, 22 de novembro de 2016

Delairea odorata Lem., syn: Senecio mikanioides Walpers

Nomes comuns:
Erva-de-São-Tiago; erva-de-santiago; 
trepadeira-do-Natal; tasneirinha-de-correr 

Foi em fevereiro passado que nos demos a conhecer, eu e a Delairea odorata. No espaço de dias, aquilo que parecia o habitual coberto de um muro de sustentação constituído por diversas espécies de heras, cobriu-se de cascatas de flores amarelas, numa explosão de cor e brilho. Até aquele dia não me tinha dado conta desta espécie trepadeira e ela já tinha vários metros de altura. Das duas uma, ou andei muito distraida ou a "plantinha" se disfarçou bem enquanto tomava conta do local.
De forma sub-repticia, germinou numa linha de escoamento de águas da chuva, a 100 metros da minha casa e, de forma determinada lá foi crescendo, apoiando-se aqui e ali nas plantas mais fortes que foi encontrando no caminho, como quem faz uma escalada. Uma coisa é certa, no ano anterior não estava lá. 
Contudo, o mais surpreendente estava para vir, quando uns dias mais tarde me deparei com nova trepadeira da mesma espécie, dissimulada na beira da sebe de heras que protege o meu jardim do vento sul do inverno. A planta nasceu fora do meu terreno, alimentada pela humidade de uma regueira que corre num nível muito inferior ao do meu muro e lá foi subindo, subindo, até chegar onde queria, para florir por entre as folhas da hera e os losangos da rede, espreitando primeiro de forma algo tímida e depois, criando ânimo, apresentando-se em toda a sua beleza e esplendor.
Esta é uma espécie exótica nativa da África do Sul mais especificamente das regiões de Natal e Cabo, onde o clima é tipicamente mediterrânico (verões quentes e secos e invernos chuvosos). Foi introduzida na Europa meridional e noutras partes do mundo nomeadamente na Califórnia, sudoeste da Austrália, Nova Zelândia, sudoeste asiático onde ocorre até cerca de 650 m de altitude. Apesar do clima do Hawaii ser mais quente que o do habitat nativo, também aí esta espécie se naturalizou, embora apenas ocorra entre os 800 e os 2000 m de altitude, onde as temperaturas são mais frescas.
Delairea odorata foi introduzida na Europa em meados do século XIX, com fins ornamentais, tendo sido incentivado o seu cultivo em jardins e estufas em função da beleza das suas florações suavemente perfumadas e também devido ao seu rápido crescimento e fácil propagação. Contudo, Delairea odorata mostrou-se traiçoeira. POssivelmente apreciadora da liberdade, depressa cortou as “amarras” e fazendo transportar a suas numerosas e leves sementes para fora dos jardins e viveiros, com a ajuda do vento, foi naturalizar-se onde melhor lhe convinha. O pior é que se verificou que não é uma planta recomendável devido à sua tendência em competir com a vegetação autóctone. 
Delairea odorata cresce rapidamente e de forma agressiva. Apesar de não ter gavinhas ou raízes aéreas facilmente encontra forma de subir até às árvores e arbustos mais altos, enrolando-se nos seus troncos e subindo de forma progressiva, privando-os de luz e em casos mais graves, sufocando-os de forma letal. Quando não encontra suporte vertical, Delairea odorata forma tapetes densos que cobrem totalmente o solo matando a vegetação nativa, não só tapando-lhes a luz solar mas também alimentando-se dos seus nutrientes e impedindo que se reproduzam por semente.
Aparentemente as sementes de Delairea odorata não têm nenhum mecanismo que lhe induza dormência pelo que germinam rapidamente, quer se encontrem à superfície ou semi-enterradas no solo e conseguem fazê-lo numa ampla gradação de temperaturas. As sementes são viáveis durante décadas pelo que os bancos de sementes desta espécie se vão acumulando no subsolo.
Encontra-se de preferência em locais húmidos como margens de linhas de água, pastagens, bosques húmidos, beira dos caminhos florestais e ambientes ruderalizados, perto de habitações.
Esta espécie invade geralmente as zonas litorais onde o clima é mais fresco e também mais húmido, o que não impede que ocorra em locais moderadamente secos ou até mesmo secos. É resistente a geadas ligeiras e existem registos da sua presença em arribas do litoral onde está exposta aos salpicos salgados da água do mar. Tanto cresce em pleno sol como na sombra e não é esquisita no que toca ao tipo de solo desde que seja fértil. É, pois, uma espécie com feitio acomodaticio e flexivel, cuja excelente adaptabilidade é a chave do seu sucesso como planta invasora.
De notar que não só altera o habitat das espécies nativas mas também afeta a vida da fauna, com especial incidência nas zonas ribeirinhas pois possui alcaloides bastante tóxicos capazes de envenenar os ambientes aquáticos. A planta também é considerada tóxica para o gado e para os humanos.
Delairea odorata é, como já vimos, uma trepadeira vigorosa, de folhagem perene, cujos caules longos e volúveis são herbáceos em quase toda a sua extensão exceto na base que é algo lenhosa. 
Os caules volúveis.
Os caules emitem ramificações que rapidamente crescem e, sendo bastante fracos e flexíveis, logo procuram suporte, enrolando-se em qualquer estrutura que encontrem à sua beira. Com o tempo tornam-se mais grossos, embora não excedendo os 10 mm de espessura. O seu aspeto é carnudo e partem-se com facilidade, enraizando com facilidade a partir do mais pequeno pedaço. Também os nós que tocam no solo criam raizes com facilidade. São verdes, por vezes avermelhados, glabros (sem pelos) e com seção cilíndrica. 
As folhas lobadas são semelhantes às da hera.
As folhas surgem na extremidade de longos pecíolos; são finas mas de aspeto carnudo com limbos de cor verde, encerado e brilhante; dispõem-se nos caules de forma alternada e estão divididas em vários lobos triangulares com a base recortada, de forma muito semelhante às folhas de hera; são fragrantes quando esmagadas. As folhas da parte superior da planta são mais pequenas que as da parte de baixo.
As florinhas reúnem-se em capítulos, que por sua vez constituem os corimbos.

As inflorescências de Delairea odorata são corimbos muito densos que surgem na axila das folhas na extremidade dos ramos e que são constituídos por numerosos capítulos (de 15 a 50). 
Aqui, as flores ainda estão fechadas o que nos permite observar as brácteas que formam
 o invólucro e as bractéolas abaixo dos invólucros.
As 8 a 12 florinhas que formam cada capítulo inserem-se num recetáculo em forma de disco, formando um conjunto que é protegido por umas 8 a 10 brácteas de cor verde que formam um invólucro cilíndrico com metade do tamanho das flores. Na base do invólucro existem 2 (por vezes 4) bractéolas, também de cor verde e que são características desta espécie e por conseguinte, importantes para a sua identificação. 
As florinhas abertas apresentando os bordos lobados e os braços estigmáticos aguardando pelo pólen.

As florinhas, de um amarelo brilhante são afuniladas, com corolas em forma de tubo com bordos divididos em 5 lobos revirados para fora. Ao contrário de muitas outras espécies da mesma família (Asteraceae) as florinhas de Delairea odorata não têm lígulas, semelhantes a pétalas. Todas as flores são perfeitas, ou seja, estão equipadas com órgãos reprodutores masculinos e femininos. Os filamentos dos estames são um pouco mais compridos que as corolas e juntamente com as anteras formam uma espécie de cone. Emergindo do ovário, o estilete é filiforme e termina num estigma com dois braços, distintamente salientes e cujas extremidades são truncadas e divididas em segmentos filamentosos paralelos e muito finos formando uma espécie de franja. Curiosamente, o estilete e os estames desta espécie estão unidos na base, formando uma coluna comum, separando-se apenas na parte superior. 
As flores são suavemente perfumadas o que justifica o epiteto especifico de odorata. 
As flores são polinizadas por insetos, não havendo registo de autopolinização. De facto esta é uma espécie protândrica, ou seja, as anteras amadurecem antes dos órgãos femininos. Acontece que as anteras abrem e libertam o polen enquanto as florinhas ainda estão fechadas mas a autopolinização nesta fase parece pouco provável porque os estigmas ainda estão unidos e mantêm-se muito apertadinhos dentro da corola fechada. A polinização acontece apenas depois que o estilete se tiver alongado para um nível superior ao das anteras, altura em que se divide em dois braços, expondo a superfície estigmática que é recetiva ao pólen trazido de outras plantas pelos insetos.
Cada florinha de cada capitulo se transforma numa semente com a sua coroa de pelos fofos, o papilho.

Depois de polinizadas as flores dão origem a inúmeros frutos denominados cipselas e que são constituídos por uma semente quase cilíndrica e uma coroa de pelos denominada papilho.
Semente e papilho.
Impulsionado pelo vento, o papilho ajuda a semente a viajar longas distâncias, numa ou mais viagens de parapente.
 
Distribuição de Delairea odorata em Portugal continental. Fonte.
Em Portugal Delairea odorata distribui-se pelo litoral norte e centro do território continental, na ilha da Madeira e na maioria das ilhas dos Açores. Geralmente floresce durante o inverno, entre os meses de janeiro e março.
A forma mais efetiva de evitar a sua dispersão é o arranque manual, tendo o cuidado de descartar em local próprio todos os pedaços da planta, pois ela não se reproduz só por semente, mas também vegetativamente. Qualquer segmento de caule que caia no chão ou seja transportada pela água, tem boas probabilidades de enraizar. Não deve, pois, ser adicionada aos resíduos de jardim.
O método mais utilizado na sua erradicação inclui produtos químicos, os quais são nocivos para a fauna e flora e que cada vez são menos eficazes no seu objetivo pois as plantas vão criando resistência aos químicos, embora continuem a poluir o ambiente.
Nos últimos anos têm sido estudados métodos de controlo biológico que não degradem ainda mais o ambiente. Foi proposto utilizar-se a traça (Digitivalvadelaireae) e a mosca (Parafreutretaregalis), inimigos naturais da planta na Africa do sul e que poderão causar grande dano comendo as folhas de Delairea odorata, minando os caules e neles colocando o seus ovos. Nos Estados Unidos, nomeadamente no estado da Califórnia, que é o estado mais atingido, foi já  autorizada a largada da traça acima referida, pela USDA-APHIS Technical Advisory Group on Biological Control of Weeds.  

Delairea odorata pertence à família Asteraceae, a maior das famílias botânicas de plantas de flor. Esta planta em particular está muito relacionada com o género Senecio no qual já esteve incluída com o nome Senecio Mikanioides, classificação que muitos continuam a usar. No entanto esta espécie foi transferida para o género Delairea do qual é a única representante. A principal característica que a diferencia de Senecio são as bractéolas que se situam na base do invólucro. 

No que diz respeito à taxonomia esta espécie tem um historial muito confuso devido à sua publicação quase simultânea por dois autores diferentes. 
A primeira descrição cientifica da planta e da sua inclusão no género Delairea Lem. foi publicada em 1844 por Lemaire que a descreveu como “espécie distinta diferindo de parentes próximos pelo papilho unisseriado, capítulos com flores todas hermafroditas, etc”.
Em 1845 Walpers publicou a descrição de uma planta largamente cultivada na Alemanha (só posteriormente  se percebeu que era a mesma a que se referia Lemaire) e que ele denominou Senecio mikanioides Otto ex Walpers ou Senecio mikanioides Wapers, mencionando que já se lhe tinha referido numa anterior publicação, embora sem carater formal. 
Numa publicação posterior, a planta foi confirmada no género Senecio por Harvey (1894). Mais recentemente, em 1986 e também em 1992 o botânico Jeffrey publicou varias revisões do género Senecio, tendo voltado a incluir a planta no género Delairea com o nome cientifico Delairea odorata Lem., baseando-se na forma acampanulada do limbo da corola e outras características morfológicas. Entretanto, cada vez mais taxonomistas se põem de acordo com a nova classificação. Apesar disso, nota-se ainda uma grande habituação ao nome antigo, o que não é de estranhar.

Fotos:Serra do Calvo/Lourinhã


quinta-feira, 26 de março de 2015

Senecio vulgaris L.

Nomes comuns:
Cardo-morto; tasna; tasneirinha

Senecio vulgaris
Senecio vulgaris pertence às Asteraceae (vulgarmente conhecidas como família dos malmequeres) e ao género Senecio, um dos maiores géneros desta família. Na realidade Senecio é um mega género, um dos maiores entre as Angiospermas (grupo de plantas que geram flores) e no qual foram incluídas espécies morfologicamente tão diversificadas que o tornaram bastante confuso. Aparentemente, ao longo dos séculos, foram sendo “despejadas” neste género espécies difíceis de classificar, do que resultou um grupo geneticamente artificial por ser polifilético, ou seja, não inclui o ancestral comum de todos os indivíduos nele incluídos.
Espécie ornamental Senecio Rowleyanus
Fonte - Wikipedia
As primeiras classificações científicas basearam-se apenas nas semelhanças morfológicas mas os novos métodos de biologia molecular permitem ter uma visão mais abrangente e consistente com o princípio da ascendência comum. O objetivo atual é classificar as espécies de modo a formar grupos monofiléticos, os quais devem incluir todos as espécies do ascendente imediato comum, incluindo o próprio ascendente imediato comum. 
Assim, na tentativa de reorganizar o género Senecio de forma sustentada, foram feitas análises filogenéticas e moleculares na sequência das quais muitas espécies tradicionalmente incluídas no género Senecio foram reclassificadas, sendo dele excluídas e atribuídas a outros géneros, nomeadamente Jacobaea, Delairea, Kleinia, Packera e mais 3 dezenas de géneros de nomes obscuros. 
Espécie ornamental Senecio elegans 
Fonte - Wikipedia
Apesar disso, o processo está longe de estar terminado e Senecio ainda inclui cerca de 1250 espécies muito diversificadas, incluindo anuais, perenes herbáceas, arbustos, trepadeiras, suculentas, pequenas árvores e até espécies aquáticas. A sua distribuição é muito ampla mas ocorrem principalmente na região mediterrânica, Africa do Sul, Ásia temperada e continente americano. Muitas destas espécies são problemáticas por terem comportamento invasivo difícil de controlar fora dos seus habitats nativos; outras são tóxicas, tanto para animais como para humanos, pois produzem alcalóides pirrolizidínicos cujo efeito cumulativo provoca doenças do fígado que podem ser fatais. Em contrapartida, Senecio também inclui espécies inofensivas e de grande valor no florescente comércio das plantas ornamentais.
Fruto de Senecio gallicus 
Tal como todos os nomes científicos, Senecio tem origem no latim, mais propriamente no vocábulo “senex” que significa homem velho ou idoso, embora como alguém dizia, o género não seja curvado, frágil, nem venha a adquirir natureza sábia com a idade. Corre mundo que esta referência à velhice tem a ver com os frutos que, depois de maduros (mas antes de abandonarem a planta), formam um tufo de pelos brancos que fazem lembrar a barba branca de um homem idoso. 
Futo de Reichardia Gaditana
Pessoalmente não vejo grande lógica neste argumento uma vez que muitos outros géneros da família Asteraceae apresentam frutos semelhantes. Contudo, tendo  o vocábulo “senex” sido relacionado com este género há quase 2000 anos pelo naturalista romano Plinio,  pode assumir-se que, a existir qualquer outra razão mais fundamentada, a mesma ter-se-á perdido na escuridão dos tempos. 

Segundo a Sociedade Portuguesa de Botânica, através do portal Flora-on, são 17 as espécies do género Senecio que ocorrem em Portugal. Algumas são nativas e outras são exóticas (geralmente escapadas dos jardins e assilvestradas). Também se registam algumas espécies endémicas. Veja AQUI e depois, se desejar obter informações mais detalhadas sobre cada espécie, basta clicar em cima das fotos.  
Distribuição de Senecio vulgaris em Portugal continental - Fonte Flora-on
Informações disponibilizadas por:
 F.Clamote, P.V.Araújo, J.Lourenço,J.D.Almeida, A.Carapeto, A.J.Pereira, A.Silva, et al.(2015)
Senecio vulgaris, tal como o nome indica, é uma espécie comum e de ampla distribuição. Embora nativa do norte de África, Ásia temperada e tropical e maioria dos países europeus desde a Península Ibérica e bacia do mediterrâneo até à Rússia, hoje em dia está presente em todos os continentes. Em Portugal é autóctone no continente e Madeira e está naturalizada nos Açores.
Senecio vulgaris
Senecio vulgaris adapta-se a uma grande variedade de habitats mas ocorre principalmente em ambientes ruderais, migrando ocasionalmente para campos cultivados. É uma conhecida infestante cuja ação é muitas vezes inconsequente nos habitats nativos mas que pode provocar estragos consideraveis nos paises onde foi introduzida. Ainda assim, é uma espécie estabilizadora dos ecossistemas ao providenciar abrigo e alimento a uma grande variedade de espécies de escaravelhos, moscas, traças e borboletas.
Sendo considerada uma planta toxica para certos mamiferos e humanos (devido à presença de alcalóides pirrolizidínicos em todas as partes da planta, mas especialmente nas flores e folhas) podemos constatar, face às informações contraditórias, que os malefícios que possam advir da sua ingestão têm a ver com a quantidade consumida, tanto mais que os efeitos são cumulativos. Contudo alguns animais parecem imunes a estes alcaloides. As sementes são muito apreciadas por pequenas aves (ex tentilhões), os quais também se alimentam das folhas. Também as cabras e os coelhos incluem as folhas de Senecio vulgaris na sua dieta, ao contrário de ovelhas, vacas e cavalos que a evitam.

Senecio vulgaris tem um longo historial como planta medicinal. Esta erva foi, no passado, muito utilizada pelas suas propriedades antihelminticas, antiescorbúticas, diafureticas, diuréticas e purgativas mas, face ao conhecimento de casos fatais envolvendo animais e pessoas, a planta foi desaconselhada, acabando por cair em desuso, quer na medicina caseira quer no pasto.

Senecio vulgaris
Senecio vulgaris é uma planta herbácea de raízes finas e abundantes, cujo caule ereto pode crescer até cerca de 40 cm de altura, embora na maioria dos casos não ultrapasse os 20 cm. 
Senecio vulgaris
Os vários caules surgem a partir de uma roseta basal e são ocos, simples e ramificados de forma irregular, especialmente na parte superior onde se formam as inflorescências. Os caules, as folhas e uma grande parte dos pedúnculos das flores ora estão cobertos de pelos esbranquiçados, muito finos, macios e flexíveis, semelhantes a teias de aranha, ora são glabros.
Senecio vulgaris
As folhas, de consistência carnuda, dispõem-se de forma alternada e são mais ou menos profundamente recortadas; as folhas inferiores são espatuladas isto é, são achatadas e oblongas, mais estreitas na base e alargando progressivamente em direção ao ápice que é arredondado; as folhas superiores são mais profundamente recortadas embora de forma irregular; o pecíolo é inexistente e a base das folhas é alargada e envolve parcialmente o caule (amplexicaule).
Senecio vulgaris
As flores são minúsculas, todas em forma de tubo e de cor amarela; agrupam-se em capítulos, característica marcante da família das Asteraceae, a que pertence esta espécie. Os capítulos não são solitários, isto é, juntam-se a outros, formando corimbos terminais mais ou menos densos, geralmente originados no mesmo pedúnculo. Os pedúnculos são pouco firmes, do que resulta que os capítulos se apresentem pendentes.
Senecio vulgaris
O capítulo de Senecio vulgaris caracteriza-se por apresentar muitas flores tubulares e de tamanho reduzido, agrupadas de forma muito compacta diretamente sobre um recetáculo em forma de disco, dando a ideia de que se trata de uma única flor. 
Em muitas espécies da família Asteraceae as flores periféricas deste disco prolongam-se para o lado de fora formando lígulas, semelhantes a pétalas, como no caso dos malmequeres, mas tal não acontece no caso de Senecio vulgaris, cujas flores são todas tubulares. 
As flores estão em plena floração, notando-se os braços estigmáticos.
Nesta foto notam-se bem os dois tipos de brácteas.
O conjunto de flores reunidas em cada capítulo é, em Senecio vulgaris, protegida por um invólucro de formato cilíndrico formado por duas camadas de brácteas. As brácteas da camada basal formam uma espécie de epicálice, são algo triangulares e bastante mais curtas que as da camada interior; são as brácteas da camada interior que constituem a maior parte do invólucro, sendo mais compridas e estreitas, envolvendo todas as flores até à maturação do fruto e dando a ideia de que as "flores" nunca abrem, mesmo quando estão em plena floração. Estas brácteas involucrais possuem a ponta manchada de negro de forma característica da espécie e no seu conjunto assemelham-se a garras ou dentes. As manchas da camada inferior são as mais visíveis.

As flores possuem órgãos reprodutores funcionais, tanto femininos como masculinos mas de tão apertadinhas não se distinguem os estames à vista desarmada. No entanto os braços do estigma são perfeitamente visíveis. Além de poder ser polinizada por insetos esta espécie também recorre à autopolinização razão pela qual prescinde das “pétalas” que apenas servem de chamariz mas que envolvem grande gasto de energia.
Esta planta é muito prolífera, florescendo praticamente durante o ano inteiro. Geralmente o seu ciclo de vida leva apenas 5 a 6 semanas a completar e geralmente formam-se 3 gerações em cada ano, cada planta produzindo cerca de 1700 sementes.
Senecio vulgaris
Cada pequena flor aninhada dentro dos capítulos produz um fruto seco com uma só semente, de cor acastanhada, oblonga e provida de um tufo de pelos brancos numa das extremidades, chamado pappus ou papilho. Estes tufos são constituídos por pelos sedosos e compridos que por ação do vento levam as sementes para longe - por vezes a 2 a 3 metros de distancia- quais pequenos para-quedas de brinquedo. 
Senecio vulgaris
As sementes permanecem apertadinhas dentro do invólucro até à sua completa maturação. Nessa altura, o invólucro abre-se completamente, curvando-se as brácteas bruscamente para baixo. Ao mesmo tempo, as sementes ainda ligadas ao recetáculo deixam de estar comprimidos e abrem como um harmónio, formando uma espécie de pom-pom de cor branca, formado pelos pappus ou papilhos.

Apesar do aspeto humilde que lhe é conferido pelo seu pequeno tamanho e pelas flores pouco chamativas, Senecio vulgaris é uma espécie suficientemente interessante para suscitar alguma controvérsia e diversos estudos e teorias têm sido apresentados por botânicos que questionam as suas origens, o seu grau de toxicidade, resistência ao fungo Puccinia lagenophorae e a certos tipos de herbicidas. Também as estratégias de adaptação de Senecio vulgaris a diferentes tipos de habitats têm motivado estudos sobre os processos evolutivos e adaptativos das plantas em geral, face aos recursos ambientais.

Senecio vulgaris é basicamente uma planta ruderal. Pode ser encontrada em terrenos cultivados ou incultos mas é principalmente dos habitats humanizados que ela gosta mais. Ocorre preferencialmente na beira dos caminhos, cascalheiras, locais de despejo de restos de materiais de construção e outros lixos, brechas no alcatrão ou nas pedras dos passeios, enfim, todos os locais de solo remexido ou perturbado devido à remoção da camada superficial e que se tornaram repentinamente mais ricos em azoto e outros nutrientes. Estes distúrbios podem acontecer pela ação humana ou devido a catástrofes (inundações, derrocadas). As perturbações do habitat também podem advir da destruição de plantas maduras de uma comunidade instalada num local fértil (incêndio, pastoreio demasiado intensivo, passagem de maquinas agrícolas, herbicidas). Neste caso toda a biomassa destruída que fica no local aumenta o nível de nutrientes disponíveis no solo, ao mesmo tempo que o menor número de plantas diminui a competição. Estes locais geralmente apelidados de “perturbados” apresentam um alto índice de distúrbio mas em contrapartida têm uma baixa intensidade de stress (neste sentido, stress refere-se a uma combinação de variáveis ambientais que retardam o crescimento: falta de nutrientes disponíveis, alta ou baixa temperatura, baixa disponibilidade de água).
Resumindo, espécies que, tal como a Senecio vulgaris, prosperam em ambientes com alto índice de perturbação mas com baixa intensidade de stress, são chamadas ruderais. São geralmente plantas anuais cuja estratégia é crescer depressa e concluir rapidamente os seus ciclos de vida, produzindo grande quantidade de sementes. São as primeiras a florir e as primeiras a deitar semente e geralmente morrem logo após a maturação dos frutos. Há quem lhes chame oportunistas mas eu diria que têm sentido de oportunidade e instinto de sobrevivência da espécie. Esta estratégia foi adotada em função das condições de perturbação em que vivem, isto é, têm que se despachar a produzir sementes para perpetuar a espécie, não vá acontecer nova degradação no local que ponha em risco a vida da planta antes de poder produzir frutos. Neste aspeto, as plantas ruderais diferem de forma consistente de outras plantas que adotaram diferentes estratégias de vida.

Ruderais, Competidoras e Tolerantes ao stress:
Parece não haver duvida que existe uma estreita ligação entre a taxa de crescimento de cada espécie e a sua ocorrência num determinado habitat. Esta é a ideia essencial das teorias desenvolvidas por alguns botânicos, entre eles J. P. Grime proeminente professor da Universidade de Sheffield no Reino Unido e autor de Universal adaptive strategy theory. De acordo com a UAST as estratégias das plantas são moldadas pelas possíveis combinações de dois fatores que fazem parte da vida das plantas: stress e perturbação. Já acima vimos como as Ruderais criaram estratégias que lhes permitem escolher habitats com alto grau de perturbação e baixo nível de stress, os quais são pouco competitivos em termos de espaço (no início dos distúrbios) garantindo a formação de comunidades florísticas variadas e abundantes. Se (ou quando) terminarem os fatores de perturbação num determinado local, ao mesmo tempo que se for dando o gradual decréscimo em perturbação, aumentam os níveis de stress e há-de chegar o dia em que as ruderais terão de procurar novo lugar para viver. É então que chegam as Stress-tolerators (Tolerantes ao stress) cuja estratégia lhes permite um lugarzinho em habitats com alto grau de stress e baixo nível de perturbação. São geralmente perenes com taxas de crescimento lento, folhas perenes, altas taxas de retenção de nutrientes e baixa plasticidade fisiológica. Muitas dessas espécies são freqüentemente encontradas em ambientes muito frios ou aridos, sombra profunda, solos deficientes em nutrientes e níveis extremos de pH.
Numa terceira categoria, as Competitors (Competidoras) são espécies de plantas que se desenvolvem em áreas de baixa intensidade tanto de stress como de perturbação. Destacam-se pela competição biológica pois dado que estes são os ambientes mais favoráveis para o desenvolvimento, os nutrientes sofrem grande solicitação. Estas plantas conseguem suplantar as outras rentabilizando os recursos disponíveis da forma mais eficiente, através de uma combinação de características favoráveis, incluindo a taxa de crescimento rápido, de alta produtividade (crescimento em altura, extensão, e massa de raízes), e alta capacidade de plasticidade fenotípica. Esta última característica permite que as competidoras sejam altamente flexíveis no aspeto morfológico ao mesmo tempo que ajustam a distribuição dos recursos ao longo das várias partes da planta conforme necessário, ao longo da estação de crescimento.

Estes são apenas os vértices de um triângulo, entre os quais existem muitas combinações possíveis.

Leia mais AQUI e AQUI.

Fotos de Senecio vulgaris: Serra do Calvo/Lourinhã