"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Parietaria judaica L.

Nomes comuns:
Alfavaca; alfavaca-da-cobra; alfavaca-de-cova; amarras; cobrinha; columbrina; erva-das-muralhas; erva-das-paredes; erva-de-Nossa-Senhora; erva-de-Santa-Ana; erva-de-Santana; erva-do-amorra; erva-dos-muros; erva-fura-paredes; fava-da-cova; helxina; parietária; pulitaina; pulitária; urtiga-mansa.


Faz agora precisamente um ano que partilhei com vocês alguns factos sobre as nossas amigas urtigas, com especial enfoque na espécie Urtica membranacea. Agora, é a vez de darmos especial atenção a outra espécie da mesma família (Urticacaeae), a Parietaria judaica. A principal e óbvia diferença entre estas duas espécies que, embora da mesma família pertencem a géneros diferentes, reside no facto de Parietaria judaica não ser agressiva ao toque por falta de pelos urticantes.
Parietaria judaica é uma daquelas plantas que fazem parte da minha memória de infância. Entre outras, esta era uma das espécies que a minha mãe procurava e recolhia para secar e fazer chá, sempre que passávamos férias na Beira Baixa. Não que esta seja uma planta especialmente bonita ou tenha alguma característica fora do vulgar. No entanto, ficou-me na memória o nome engraçado de alfavaca-de-cobra pelo qual é conhecida na região. Até hoje, não consegui entender a razão de tal epíteto, ou seja, em que sentido é que a cobra é para aqui chamada. Sabemos que a palavra alfavaca vem do árabe “al-habōqâ”, nome que os árabes davam às plantas aromáticas usadas em culinária ou como medicamento. Em português a palavra alfavaca é dado a certas espécies aromáticas, nomeadamente o manjericão, planta inteiramente diferente da incrível alfavaca-de-cobra. Terá esta servido de mezinha contra os efeitos da mordidela de cobra? Há quem assim o afirme mas é impossível agora confirma-lo. Os nomes vulgares que o povo usou para batizar as plantas foram verbalmente transmitidas de geração em geração, por vezes ao longo de séculos, sujeitas a diferentes interpretações causadas por deturpação da língua. O mesmo já não acontece com os nomes em latim ou latinizados usados na classificação científica, pois são usados e reconhecidos em qualquer parte do mundo.
Como erva medicinal Parietaria judaica já teve o seu momento de glória. As suas folhas eram usadas em chá para problemas de estômago e intestinos, inflamações da bexiga, patologias hepáticas e renais entre outras. Também tem efeito diurético. O seu uso mais conhecido tem a ver com o tratamento de hemorróidas, em banhos de assento, usando a água do cozimento das folhas. Há quem ainda a use, muitas vezes associada com as malvas e outras ervas. 

Alerta:
Os tratamentos continuados com ervas medicinais sejam elas quais forem, não devem ser conjugados com a toma de medicamentos pois podem interferir com a ação destes. Podem duplicar a ação dos medicamentos, impedir a sua absorção ou até impossibilitar a eliminação dos mesmos pelo organismo no tempo programado. Os acidentes mais graves têm sido registados em casos de intervenção cirúrgica pois podem bloquear a ação dos anestésicos ou o tempo de coagulação do sangue. Veja mais AQUI

As folhas são comestíveis, quer cruas, quer cozinhadas e não só são uma boa fonte de fibras como são também ricas em minerais (fosforo, ferro e cálcio) e vitaminas A, B1, B2, B3 e C. O sabor das folhas cruas lembra o do pepino mas se cozinhadas tornam-se mais suaves, permitindo que haja uma boa ligação com o sabor de outros alimentos. Apesar de fibrosos, os caules também são comestíveis.
Parietaria judaica é também uma planta bastante apreciada por certos tipos de borboletas cujas larvas se alimentam das suas folhas, como é o caso da Vanessa atalanta.
Vanessa atalanta: vulgarmente conhecida como red admiral ou Almirante vermelho europeu é bastante frequente em Portugal podendo ser observada em todo o país. Veja mais informações AQUI.
Foto de Didier Descouens / Fonte: Wikimedia Commons
Apesar das suas qualidades como erva medicinal, alguns de nós precisamos de ter cuidado com a Parietaria judaica. Os seus pequeníssimos grãos de pólen são muito abundantes e voláteis, além de persistirem longamente no ar que respiramos, provocando agravamento nos sintomas de asma e rinites alérgicas de quem é mais sensível ao pólen desta planta. 
A planta floresce de março a outubro e por vezes durante o ano inteiro, se o inverno for suave. Este longo período de florescimento e a alta produção de flores são atributos associados às plantas de habitats perturbados e portanto são características esperadas numa espécie ruderal como é o caso de Parietaria judaica.
No âmbito das chamadas ervas “daninhas” as Parietaria (género com 10 espécies das quais 3 existem Portugal) parecem ser as que motivam mais alergias. Contudo, são as gramíneas a principal fonte deste mal que atinge quase um terço da população. Também existem árvores cujo pólen nos pode causar alergia como é o caso da oliveira, dos eucaliptos ou dos carvalhos, apesar das suas flores serem tão pequenas que mal damos por elas. São precisamente os grãos de pólen mais pequenos que causam as maiores alergias; eles andam em suspensão no ar mas não os vemos. O seu efeito maléfico é potenciado nas cidades devido às partículas da poluição que alteram a sua configuração e os tornam mais agressivos.
Parietaria judaica encontra-se um pouco por todo o território nacional, sendo nativa de Portugal continental e Arquipélago da Madeira e introduzida nos Açores. Esta espécie é autóctone de toda a bacia mediterrânica (sul da Europa e norte de África) incluindo a Ásia menor. A planta foi introduzida noutros países podendo agora também ser encontrada em países do norte da Europa, na costa ocidental dos Estados Unidos e na Austrália. Cresce principalmente em terrenos pedregosos, rachas dos pavimentos, em paredes e muros antigos em cujas fendas se vai acumulando terra e lixo que tornam o solo rico em nitrogénio e onde as raízes encontram a frescura de que a planta necessita. É muito frequente aparecer em hortas e jardins cujo solo regado e nitrogenado muito aprecia. No entanto, é nas grandes cidades cujos ambientes estão altamente perturbados devido às contínuas movimentações do solo e à poluição que o seu efeito alergénico mais se faz sentir. Na verdade, alguns estudos sugerem que a poluição de metais pesados aumenta a capacidade reprodutiva desta espécie o que demonstra uma alta plasticidade fenotípica, capacidade que lhe permite alterar a sua morfologia de acordo com as condições ambientais. Esta característica é considerada como promotora do sucesso de espécies expansivas e invasoras (Rejmánek 1996).
O nome genérico Parietaria (que derivou da palavra latina paries = muro, parede) refere precisamente as suas preferências em termos de habitat. O epíteto judaica que designa a espécie foi-lhe dado por Lineu, autoridade que primeiro publicou a descrição da espécie em 1756 em Flora Palaestina, com base em espécies trazidas da antiga região da Judeia. Esta obra foi realizada em colaboração com Bengt Johan Strand (naturalista sueco 1738-1790) e é basicamente uma compilação das espécies coletadas por Frederic Hasselquist. Em resposta aos lamentos de Lineu quanto à falta de informação sobre a história natural da Palestina, este naturalista sueco (1722-1752) que tinha sido colega de Lineu na Universidade de Uppsala e era seu seguidor, empreendeu uma expedição à Palestina, Chipre, Egito e Asia Menor onde recolheu bastantes espécies. Esta expedição durou cerca de 3 anos. No regresso Hasselquist faleceu mas a sua coleção de plantas chegou a casa em segurança permitindo o seu estudo e classificação científica.
Os caules estão cobertos de pelos densos
Parietaria judaica é uma erva perene cujos caules formam pequenas moitas de 20 a 60 cm de altura e muito ramificadas. Os caules, de cor verde acastanhada ou avermelhados, são eretos ou prostrados. Estes tornam-se ligeiramente lenhosos na base e estão cobertos de pelos densos.
As folhas não apresentam estipulas. São alternas, com pecíolos de 3 a 12 cm, inteiras, ovais ou lanceoladas, de cor verde-escuro, quase glabras ou pubescentes. 
A página superior das folhas está coberta de pelos
Os pelos curtos e irregulares que cobrem as folhas, sobretudo na página inferior e ao longo das nervuras fazem com que se agarrem à roupa. 
Pagina inferior das folhas
Lembro-me que em criança eu e os meus companheiros quase nos “vestíamos” destas folhas, cobrindo a nossa roupa com elas. Esta característica deve-se à presença de cistólitos. Estes são pequenas estruturas (que no caso desta planta são puntiformes) existentes nas paredes das células epidérmicas das folhas e que são formados por carbonato de cálcio.
As flores são minúsculas e reúnem-se em inflorescências que se formam na axila das folhas, desde a base até ao topo dos ramos. Cada inflorescência consiste numa flor central que é feminina, rodeada por 3 ou mais flores que são hermafroditas (com órgãos masculinos e femininos). Este conjunto está protegido por brácteas pubescentes, as quais formam um invólucro em volta das flores. De início as flores apresentam-se de cor esverdeada, tornando-se avermelhadas com a maturação.
Nenhuma destas flores possui pétalas. 
As pétalas e sépalas coloridas ou perfumadas que vemos nas flores de tantas outras espécies não são produzidas em benefício da beleza mas sim porque precisam de atrair insetos polinizadores. Esses “artifícios” de que se socorrem para completar o seu ciclo reprodutivo com sucesso custam caro e são um encargo enorme em termos de energia. Ora, a Parietaria judaica prescindiu dos atavios e evoluiu no sentido de não ficar dependente dos insetos, adaptando-se à polinização pelo vento.
Assim, vejamos como se organiza esta espécie em termos de reprodução: o perianto (conjunto das peças florais que rodeiam os órgãos sexuais da flor) é formado por 4 lóbulos que formam um tubo coberto de alguns pelos finos, tubo este que é acrescente, ou seja, continua a crescer mesmo depois da fecundação. 

Estames de Parietaria judaica com as anteras brancas em evidência.
Foto de Hectonichus. Fonte Wikimedia Commons.
O androceu, ou seja a parte masculina das flores hermafroditas consiste em 4 estames que, enquanto a flor permanece fechada não têm altura suficiente pelo que são obrigados a ficar curvados dentro dela, em tensão. A emissão de pólen para a atmosfera ocorre quando a flor abre e os elásticos filamentos dos estames se endireitam bruscamente. 
Diagrama 1
O diagrama 1 mostra os estados de desenvolvimento de uma flor bissexual de Parietaria judaica.
      a) Fase de recetividade feminina com o estilete e o estigma prontos para receber o pólen lançado por outras flores para que se efetive a fecundação.
      b)  Início da fase de crescimento do perianto em que o estilete e o estigma murcham e caiem.
      c) Fase de crescimento está completa.
     d) Aliviada a tensão, os estames desenrolam-se de forma súbita libertando o pólen de forma explosiva. 

O ovário, quer nas flores hermafroditas quer nas femininas, é superior e consiste num único carpelo do qual emerge um estilete com um estigma cujo ápice é formado por vários pelos, ficando semelhante a um pincel.
As flores femininas são as primeiras a amadurecer e só depois amadurecem as flores hermafroditas. No entanto as flores hermafroditas desta espécie são protogínicas, ou seja, os seus órgãos masculinos só amadurecem depois dos femininos terem cumprido a sua parte e deixarem de estar recetivos. Desta forma a planta consegue evitar a autopolinização, apesar de que existem indícios de que tal é possível, uma vez que parece existir autocompatibilidade.
Diagrama 2

O diagrama 2 representa a sequência dos estados de desenvolvimento sexual numa inflorescência de Parietaria judaica. A recetividade dos órgãos femininos está representado a cinzento escuro e a dos masculinos está assinalado com pontilhado cinzento mais claro.
     a) Estrutura da inflorescência: uma flor feminina no centro, rodeada de 6 a 7 flores bissexuais (hermafroditas).
      b) A flor central feminina fica recetiva 3 dias antes das flores bissexuais.
   c) Quando a recetividade feminina das flores bissexuais da periferia se inicia o estigma da flor central unissexual já murchou; este processo desenrola-se em serie, de forma escalonada; a recetividade feminina de uma inflorescência dura até 6 dias.
    d) Após a fase feminina inicia-se a libertação do pólen. Esta também se processa de forma escalonada, passando de uma flor bissexual para a seguinte; o processo completa-se em 1-5 dias, dependendo das condições ambientais.

A ântese (período em que a flor está aberta) começa nas inflorescências basais e processa-se de forma gradual até chegar às flores na parte superior dos caules o que permite que os caules continuem a crescer e a formar mais inflorescências. Este padrão de crescimento possibilita, simultaneamente, o crescimento vegetativo e reprodutivo. Esta é mais uma estratégia que permite o alastramento da espécie.
Após a maturação os periantos das flores bissexuais secam e caiem, ficando debaixo da planta-mãe o que pode resultar num grande banco de sementes naquele pedaço de solo. No entanto, em solos duros e impermeáveis, estes periantos secos, ainda envolvendo as sementes, podem ser arrastados pelas chuvas e ventos fortes.
Por sua vez, os periantos secos das flores femininas e respetivas sementes ficam agarrados às brácteas do invólucro, formando uma estrutura que pode ajudar na dispersão pelo vento ou a flutuar na água.
Os pelos que cobrem os periantos e o invólucro de brácteas são uma ajuda extra na dispersão das sementes ao agarrarem-se ao pelo dos animais ou à roupa e calçado dos passeantes.
Os frutos são pequenos, ovais e brilhantes, de cor escura.
Fruto de Parietaria judaica ao centro, à esquerda brácteas do invólucro e à direita o perianto da flor.
Foto de Leo Michels (Usage:Public Domain).
Muitas vezes Parietaria judaica é confundida com a sua congénere Parietaria officinalis que é muito semelhante mas que não cresce na Península Ibérica. 
Parietaria officinalis
Foto de Franz Xaver. Fonte: Wikimedia Commons
Segundo a Flora Iberica a P. judaica distingue-se de P. officinalis por ser uma erva prostrada ou ascendente com folhas até 5 a 7 cm de comprimento e com perianto tubular até 3 ou 3,5 mm na frutificação. Por seu lado, P. officinalis é uma planta ereta,com folhas até 12 cm de comprimento e com perianto acampanulado até 2,75 ou 3 mm na frutificação.

Parietaria judaica pertence ao género Parietaria um dos cerca de 50 da família Urticaceae, uma das grandes famílias botânicas englobando com mais de 2000 espécies largamente distribuídas pelas regiões tropicais, menos comum nas zonas temperadas, registando-se a maior concentração de géneros e espécies na Ásia tropical. As espécies desta família apresentam uma notável variedade morfológica. Sob o ponto de vista taxonómico é uma família difícil, parcialmente devido ao facto de muitos dos carateres de diagnóstico necessitarem de ser observadas ao microscópio para que haja uma identificação precisa, devido ao seu tamanho diminuto. Por outro lado, muitas espécies foram originalmente classificadas com base apenas em semelhanças morfológicas o que nem sempre comprova a relação entre as espécies tendo-se registado alguns casos de homoplasias, ou seja, as características morfológicas semelhantes são coincidência, tendo surgido independentemente, não representando proximidade genética. Assim, à semelhança do que acontece com tantas outras famílias, Urticaceae tem sofrido bastantes alterações  em resultado de análises filogenéticas as quais permitem estabelecer a relação evolutiva das espécies e determinar a importância relativa dos traços morfológicos para a classificação cientifica.


Local das fotos de Parietaria Judaica da autoria deste blogue: Serra do Calvo/Lourinhã



sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Urtica membranacea Poir.

Nomes comuns:
Urtiga; urtiga caudada; 
urtiga-de-caudas; urtiga-menor-caudada

Em todos os solos saudáveis existem miríades de sementes de diferentes tipos de ervas que crescem de forma espontânea. De cada vez que os solos são remexidos ou recebem a frescura da chuva invernal umas quantas germinam, crescem e produzem flores e frutos, completando o ciclo que leva a que mais sementes sejam depositadas nos solos. Sob o ponto de vista do agricultor ou do jardineiro elas são um aborrecimento e uma carga de trabalhos, porque se não forem retiradas prejudicam o rendimento agrícola ou a estética do canteiro das flores. 
Generalizando, habituámo-nos a classificar de “daninhas” todas estas ervas que aparecem sem serem cultivadas, independentemente de causarem dano ou não. Tal termo é incorreto e altamente injusto, uma vez que a mesma erva pode ser daninha ou benéfica, consoante o local e a situação em que se encontra, e na medida em que é, ou não, desejada por nós, humanos. A verdade é que ainda não se encontrou o vocábulo certo para designar as plantas espontâneas cujo valor comercial não é reconhecido e que, não manifestando comportamentos sistematicamente agressivos e invasores, são fundamentais para a manutenção da biodiversidade e a saúde do meio ambiente. De facto, elas são o sinal de que que a natureza luta por todos os meios para criar os equilíbrios entre a vegetação, o solo e a fauna. Estas ervas, que podem ser também arbustos, protegem os solos da erosão provocada pela chuva e pelos ventos, contribuem para manter a humidade dos solos ao reduzir o aquecimento da superfície pela radiação solar e providenciam alimento e abrigo à fauna selvagem. E, uma vez mortas, a sua massa verde decompõe-se e incrementa os teores de matéria orgânica e nutrientes no solo, além de que as espécies maiores mobilizam o solo através do desenvolvimento radicular.
Mesmo as plantas mais simples podem ser uma mais-valia num jardim, criando estruturas ou servindo de cobertura de solo ou até aligeirando o efeito de plantas mais elaboradas, pelo que não deve ser esquecida a vertente ornamental.
Muitas destas ervas ou as suas sementes, não só são comestíveis, como também muito nutritivas, representando uma fonte adicional de vitaminas e minerais. Outras fornecem óleos essenciais utilizados em perfumaria ou são utilizadas na farmacopeia popular devido às propriedades curativas que possuem. 
Curiosamente, estas ervas parecem perceber que só podem contar consigo próprias. Por isso mesmo, as estratégias que adoptam para sobreviver são verdadeiramente inteligentes. Um dos problemas que enfrentam é a seca, sobretudo em regiões que não são especialmente dadas a chuva. Felizmente, neste outono e inverno têm recebido um reforço extra de humidade e ei-las a aproveitar as condições favoráveis, enquanto duram. Por exemplo, as urtigas estão belíssimas e com ar saciado. O quê? Urtigas? É verdade, vamos falar de urtigas, uma riqueza ao dispor da nossa saúde e do meio ambiente, mas barbaramente desperdiçada.  
Urtica membranacea
As urtigas, ervas incómodas e de má fama, estão rotuladas como “daninhas” pela maioria dos nossos contemporâneos. Aparecem de forma abundante e sem serem convidadas nas nossas hortas e jardins e dão um trabalhão a quem se quer livrar delas, já para não falar da forma como elas se sabem defender. 
Urtica membranacea - pelos urticantes
É que, toda a planta se encontra coberta de pelos de sílica chamados urticantes, os quais se assemelham a agulhas hipodérmicas e que, ao serem tocados de forma descuidada, injetam na pele um conjunto de compostos químicos (entre eles, o acido fórmico) que causam ardor e sensação de queimadura durante algumas horas. Estas picadelas e o respetivo desconforto que causam não são prejudiciais para a generalidade das pessoas, antes pelo contrário, elas estimulam a circulação (sei de quem se tenha curado das frieiras com as picadelas das urtigas) e sabemos que em gerações passadas era costume fustigarem as partes do corpo com urtigas para aliviar dores musculares e reumáticas.
Urtica membranacea
Na realidade, as urtigas são injustamente desprezadas e descarta-las é um desperdício que resulta em nosso prejuízo. Tudo o que sabemos ou já lemos sobre os efeitos benéficos das urtigas não caberia num único livro. Para começar, as urtigas são um ótimo auxiliar na agricultura ou jardinagem. O seu rico teor em minerais tem efeito regulador sobre o ferro e azoto do solo, estimulando o crescimento das plantas e os seus compostos químicos e conferindo-lhes proteção contra pragas e doenças. As urtigas podem ser diretamente incorporadas no solo ou partidas em pedaços e colocadas nos covachos de plantação, nomeadamente de flores, tomateiros ou batateiras e outros, servindo de fertilizante e protetor ao mesmo tempo. Na compostagem as urtigas aceleram a decomposição dos resíduos. A calda de urtigas obtida através da maceração das plantas em água durante 4 dias é um poderoso inseticida natural e se se deixar macerar durante um par de semanas obtém-se um chorume que é utilizado como fertilizante. No que me diz respeito, já há anos que reservo um espaço só para as urtigas (para prevenir pragas e doenças) embora não desdenhe das que vão nascendo noutros canteiros.
A Urtica membranacea protege os legumes e e as flores de pragas e doenças
As urtigas são riquíssimas em vitaminas do grupo B, C e K, betacaroteno (pigmento antioxidante) e também em minerais como o ferro e o magnésio, oligoelementos, cálcio, sais, fosfatos e ainda aminoácidos (entre eles a lisina, muito importante na absorção do cálcio) e proteínas.
Em tempos, as urtigas já fizeram parte da cozinha dos portugueses. Foram caindo em desuso à medida que a vida das populações rurais foi melhorando. Hoje em dia regista-se um renovado interesse pelas espécies silvestres e a urtiga faz parte da lista. Até já foi instituída a Confraria da Urtiga, sediada em Fornos de Algodres. Esta associação tem como objetivo a valorização e divulgação da urtiga, bem como de outros vegetais silvestres.
Usam-se como qualquer outro legume de folha, por exemplo em sopas, refogados, omeletas, misturada com arroz ou em esparregado. Utilizam-se apenas as folhas pois os caules são muito fibrosos, sendo aconselhável a manipulação da planta com luvas. Os pelos urticantes perdem ação poucas horas depois de colhidas ou logo que metidas em água a ferver. A textura das folhas, depois de cozinhadas, não é tão aveludada como o espinafre mas também não é tão áspera como a nabiça. O gosto é pouco pronunciado, pode ser mesmo considerado agradável, embora um pouco diferente, o que não deixa de ser estimulante para o paladar. As folhas podem secar-se e ser usadas para fazer infusões. As infusões preparam-se colocando algumas folhas de urtigas verdes ou secas num recipiente sobre o qual se despeja água a ferver. Deixa-se repousar por 10 minutos e está pronta a beber, recomendando-se 2 a 3 chávenas por dia durante períodos de 3 semanas. O seu efeito benéfico pode ser potenciado através da combinação com outras ervas medicinais. Preferencialmente devem colher-se as folhas antes de a planta dar flor pois é nessa altura que são mais ricas nos seus princípios ativos (evitar de recolhe-las na beira das estradas ou em locais igualmente poluídos). O processo de secagem é simples: basta colocar as plantas em local seco e escuro durante cerca de 3 semanas.
As urtigas têm variadas e extensas propriedades terapêuticas, sendo usadas não só a nível interno, através de chás, mas também a nível externo por meio de cataplasmas e compressas. Fortalecem o sistema imunitário e são um poderoso fortificante geral, depurativo, regenerador do sangue e estimulante das funções digestivas. Um dos seus compostos é a serotonina  que atua no cérebro regulando o humor, sono, apetite, ritmo cardíaco, temperatura corporal, sensibilidade à dor, movimentos e as funções intelectuais. Os teores de ferro, silício e de vitaminas B2 e B5 dão-lhe um excelente poder remineralizador, ajudando a combater a queda do cabelo e fortalecendo as unhas, além de que são muito eficazes no tratamento da acne, eczema, psoríase e outras afeções cronicas da pele. As urtigas também previnem a anemia pois contêm muita vitamina C, indispensável para a absorção do ferro. E também são diuréticas, reduzem o ácido úrico e auxiliam nos casos de gota e pedra nos rins; retardam a hipertrofia da próstata; aliviam as artroses, artrites e as afeções reumáticas; o seu poder hipoglicemiante ajuda a baixar o teor de açúcar no sangue; estimulam a irrigação sanguínea de todas as partes do corpo, controlam as hemorragias, amenizam os sintomas da rinite alérgica, sinusite e asma, etc. Entretanto, continuam a ser feitos estudos sobre as potencialidades das urtigas e vão surgindo notícias e relatos de cura de tumores malignos através de tratamentos com urtigas.
As urtigas pertencem ao género Urtica, um dos 45 géneros da família Urticaceae.
Em Portugal crescem de forma espontânea 4 espécies de urtigas , todas elas partilhando as mesmas ou semelhantes características terapêuticas. A espécie de urtiga mais comum entre nós é a Urtica membranacea. Esta espécie é nativa de Portugal continental e Arquipélago da Madeira, tendo sido introduzida no Arquipélago dos Açores.
Urtica membranacea - raiz
A Urtica membranacea cresce e dá-se bem em qualquer tipo de solo, de preferência em pleno sol mas também em locais sombrios.  Gosta de solos húmidos e perturbados, ricos em matéria orgânica. Sendo uma erva de características ruderais encontra-se mais facilmente em locais frequentados pelo Homem, perto de habitações, berma dos caminhos, muros rurais, campos cultivados e remexidos.  
É uma planta anual de vida longa, podendo ser encontrada desde o princípio do inverno até ao fim da primavera, prolongando-se pelo verão se se mantiverem as condições ideais de humidade do substrato.
Urtica membranacea - caule 
Os caules são simples eretos, ascendentes, canelados e raramente ramificados desde a base; normalmente chegam aos 30 ou 40 cm de altura embora se possam encontrar plantas bastante mais altas. Por vezes os caules apresentam-se de cor avermelhada e apresentam pelos urticantes.

As folhas dispõem-se nos caules de forma oposta e são ovais ou arredondadas quanto à forma, com margens dentadas, com dentes quase tão compridos quanto largos. Ambas as páginas têm nervuras bem visíveis e pelos urticantes, flexíveis na base. O pecíolo é mais curto que o limbo. 
Urtica membranacea - Estipulas
Veja nota sobre a utilidade das estipulas AQUI.
Nos nós existem 4 estipulas, duas de cada lado do caule, em lados opostos, estando soldadas aos pares o que dá a ideia de serem apenas 1 de cada lado do nó.
Urtica membranacea - estipulas 
Urtica membranacea é uma espécie dióica, ou seja, as plantas ou são masculinas ou são femininas. Por vezes estas plantas podem ser monóicas, embora raramente. Neste caso apresentam flores masculinas + flores femininas na mesma planta.
As flores, de tamanho diminuto, reúnem-se em inflorescências que nascem nas axilas das folhas e estão dispostas em cachos estreitos, também semelhantes a espigas simples e arredondadas, implantadas em redor de um eixo roliço. 
Urtica membranacea - planta masculina
As plantas masculinas apresentam inflorescências mais compridas que os pecíolos das folhas e posicionam-se na parte superior da planta. 
Nas flores masculinas as peças florais que rodeiam os órgãos sexuais (perianto) são 4 lóbulos iguais e de forma arredondada, livres, membranosos, pubescentes e avermelhados; os 4 estames são salientes e existem rudimentos de um ovário.


Inflorescência masculina de Urtica membranacea em processo de amadurecimento, antes dos estames se tornarem visiveis


Urtica membranacea - inflorescência masculina (pormenor das flores em que os estames estão bem visíveis)
Nas plantas femininas as flores estão mais resguardadas, posicionando-se sempre abaixo do topo da planta. 
Urtica membranacea - planta feminina (foram removidas algumas das folhas para melhor se poderem observar as inflorescências)
As flores femininas formam cachos mais curtos que os pedicelos; as 4 peças do perianto são esverdeadas, membranosas e desiguais, sendo as duas internas maiores e persistentes na maturação do fruto; os órgãos sexuais exibem pequenos estaminódios (estames estéreis) e um ovário supero unilocular (apenas um compartimento) do qual surge um estilete simples com estigma capitado (em forma de cabeça).
Urtica membranacea - inflorescências com flores femininas
Urtica membranacea - flores femininas
Os frutos são ovóides, achatados e brilhantes e estão envoltos pelas duas peças internas do perianto que são persistentes.
Termino deixando-lhe um link para este video. Não deixe de ver.

Fotos: Serra do Calvo/Lourinhã