"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





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domingo, 23 de julho de 2017

Polygonum lapathifolium L.

Nomes comuns:
Erva-bastarda; erva-pessegueira; mal-casada

Polygonum lapathifolium
Polygonum lapathifolium pertence à família Polygonaceae e posso dizer que esta é uma das mais complexas em termos de taxonomia. Mas, afinal, não é o que ultimamente se tem dito da maioria das famílias e géneros botânicos?
As plantas apresentam características tão variadas e complexas que se torna cada vez mais difícil decidir a melhor forma de as agrupar. A classificação dos seres vivos, conhecida como taxonomia, teve as suas origens na Antiga Grécia. Foi reformulada e vestida de novo há quase 300 anos, quando Linnaeus desenvolveu o sistema de nomenclatura binominal. Este sistema ainda hoje é utilizado, apesar das profundas transformações que, entretanto, sofreu. Os microscópios eletrónicos permitem que os cientistas observem os organismos com detalhe muito maior e o sequenciação de todos os genomas permite que se façam distinções mais exatas entre organismos intimamente relacionados. 

A classificação antiga baseou-se essencialmente em critérios morfológicos mas o desenvolvimento das técnicas de ADN revelam grande quantidade de informações sobre a semelhança e relação entre os organismos que, em muitos casos, podem ir contra a classificação morfológica tradicional. Infelizmente, a tecnologia de ADN ainda é muito cara e demorada.
  
Os desenvolvimentos tecnológicos e científicos nos últimos 50 anos também mudaram o foco de biólogos. Linnaeus acreditava que as espécies faziam parte do plano de criação divina (ainda não existia a teoria da evolução e da seleção natural desenvolvida por Charles Darwin) mas os cientistas de hoje querem entender a natureza da vida e o processo da evolução e baseiam-se no princípio da ascendência comum. 

Sabemos hoje que Linnaeus subestimou o número de plantas da Terra. Posteriormente mais e mais espécies foram sendo descritas em jornais e publicações. Na ignorância do trabalho uns dos outros, por vezes, as mesmas espécies acabaram sendo descritas e registadas com nomes diferentes por dois ou mais autores, gerando uma confusão que chegou aos dias de hoje. Essa é apenas uma das razões que contribui para a listas de sinónimos bastante extensas de algumas espécies. 

A verdade é que nem todos os problemas vêm do passado. Apesar dos novos e sofisticados meios que podem ser postos ao dispor dos cientistas faltam, muitas vezes, os fundos que sustentem e possibilitem as investigações. Outro problema é a falta de consenso que resulta da escolha dos caracteres para análise que, sendo múltiplos, nem sempre são coincidentes, cada cientista tendo a sua própria opinião sobre quais são os fundamentais, pelo que as conclusões também resultam diferentes. Todos concordam que é preciso aperfeiçoar os sistemas de classificação mas, perante a grandeza da tarefa, o consenso não será fácil de conseguir, a breve prazo.

Polygonum lapathifolium
A família Polygonaceae inclui de 43 a 55 géneros, abrangendo de 1100 a 1200 espécies que ocorrem numa grande variedade de habitats situados maioritariamente em zonas temperadas do hemisfério norte com algumas espécies em regiões tropicais e subtropicais. 
Os membros de Polygonaceae são morfologicamente muito variados. Desde que a família foi reconhecida por Jussieu em 1789 a taxonomia de Polygonaceae tem sido continuamente revista. Em causa estão, sobretudo, a circunscrição de subfamílias, tribos e géneros. Muito resumidamente, numa das mais recentes revisões, esta família foi dividida em duas subfamílias, Eriogonoideae e Polygonoideae.

Polygonum, grupo a que pertence a espécie em questão no "post" de hoje, Polygonum lapathifolium, é o género mais alargado da subfamília Polygonoideae
Linnaeus estabeleceu o género Polygonum em 1754 como uma unidade heterogénea e alargada, nela incluindo diversas espécies não relacionadas e que não sabia onde mais poderia colocar. Desde logo, Polygonum passou a ser considerado um dos grupos mais problemáticos e a representar um grande desafio para os taxonomistas. 
Não cabe aqui a resenha das diferentes interpretações e consequentes alterações que Polygonum sofreu ao longo da sua história, em que foi subdivido em números variáveis de seções e subseções, desmembrado em diferentes géneros e tratado como tribo Polygoneae

Em "sentido amplo", Polygonum compõe-se presentemente de grupos mais pequenos de "sentido restrito", situação confirmada por estudos moleculares recentes. 
Dentro do sentido amplo de Polygonum incluem-se vários géneros sendo que um deles é o género Polygonum (em sentido restrito) e também o género Persicaria, entre outros. Menciono aqui o género Persicaria (descrito por Miller em 1754) porque a espécie Polygonum lapathifolium é incluída nesse género por alguns botânicos/sistemas e classificada como Persicaria lapathifolia
O género Persicaria é mais um pomo de discórdia, sendo considerado por alguns como parte de Polygonum (no sentido amplo) ou sinónimo de Polygonum (no sentido restrito) e por outros, como género de direito próprio, fazendo parte da tribo Persicarieae. Todo o historial é, na realidade, muito complicado.
  
Enfim, depois de dissecado todo o material disponível sobre o assunto, a única conclusão a que se pode chegar é que não há conclusão nenhuma. Ou seja,  a exacta circunscrição e classificação infragenérica de Persicaria Mill. e Polygonum L. ainda são tema de debate.

Segundo o portal Flora-on (Sociedade Portuguesa de Botânica) ocorrem em Portugal 13 espécies do género Polygonum, na sua maioria autóctones. 
Polygonum lapathifolium, espécie autóctone de Portugal continental e Madeira, naturalizada nos Açores.
Polygonum lapathifolium é uma espécie autóctone de Portugal continental e arquipélago da Madeira. Também ocorre no arquipélago dos Açores, embora como espécie introduzida e naturalizada.

De forma geral Polygonum lapathifolium distribui-se pelas regiões temperadas do hemisfério norte (Europa, oeste asiático) e África do Sul.

Polygonum lapathifolium
Esta espécie infestante prefere os locais húmidos ou inundados, nitrogenados e em pleno sol.
Esta é uma infestante anual, especialmente problemática em culturas de regadio na primavera e verão. Vive em habitats perturbados por atividades humanas, preferencialmente húmidos, não só em solos cultivados mas também ao longo de margens de cursos de água e em valas de escoamento. É particularmente abundante em solos ricos em nutrientes e de consistência friável. Consegue conviver com situações pontuais de redução de humidade e nutrientes mas é exigente no que diz respeito à exposição solar, sendo intolerante à sombra.
Polygonum lapathifolium
Os caules, finos e de cor avermelhada, são formados por nós e entrenós.
O sistema radicular de Polygonum lapathifolium é superficial e fibroso. 
Os caules são herbáceos e crescem de forma ereta ou ascendente, podendo chegar aos 80 cm de altura. São hastes finas, lisas e lustrosas, mais ou menos ramificadas, de cor verde ou avermelhada e formadas por nós e entrenós.
Vem a propósito referir que o termo Polygonum deriva do grego: “poly” = muitos e “gonu” = joelhos, referindo-se aos múltiplos nós inchados presentes na constituição dos caules.
Polygonum lapathifolium
Algumas folhas apresentam uma mancha escura em forma de V.
As folhas dispõem-se de forma alternada, ligando-se ao caule por um pecíolo curto; são inteiras e lanceoladas ou elípticas, mais largas perto da base e estreitando progressivamente para o ápice, com alguns pelos curtos e rígidos protegendo as margens do limbo. Algumas, mas não todas, apresentam uma mancha escura na pagina superior do limbo em forma de V . 
Polygonum lapathifolium
Página superior da folha em que se notam as glândulas mencionadas no texto
 e ainda os bordos protegidos por pelos curtos e rígidos.
As folhas podem ser glabras ou ligeiramente pubescentes, com indumento de pelos curtos e densos na página superior e pelos curtos, espessos e emaranhados na página inferior ou apenas ao longo das nervuras. A superfície das folhas apresenta inconspícuas glândulas resinosas, translucidas ou amareladas, em ambas as páginas ou apenas na inferior.
Polygonum lapathifolium
As ócreas são formadas por duas estípulas unidas e que envolvem os nós do caule.
Tal como é característico da família Polygonaceae, esta espécie possui duas estipulas que são membranosas e estão unidas e enroladas em torno dos caules no ponto onde as folhas se inserem no caule, fundindo-se com ele e formando uma estrutura cilíndrica denominado ócrea. As ócreas de Polygonum lapathifolium apresentam nervuras tipicamente proeminentes e avermelhadas, com a borda truncada ou com cílios curtos, tornando-se mais escuras e escamando com a idade.
Polygonum lapathifolium - Ócrea

NOTA sobre as estípulas:
Apenas cerca de um terço das angiospermas (grupo das plantas que dão fruto a partir da fecundação do ovário de uma flor, o maior e mais moderno grupo de plantas, englobando cerca de 230 mil espécies) possuem estipulas. Estas aparecem aos pares e variam de espécie para espécie, em tamanho e morfologia; podem ser estruturas laminares, glândulas, pelos, espinhos ou escamas; algumas são caducas e outras são perenes; por vezes são insignificantes, outras vezes são de tal forma desenvolvidas que se confundem com verdadeiras folhas, ajudando no processo da fotossíntese; podem transformar-se em gavinhas, para ajudar no crescimento vertical da planta ou em espinhos, como forma de reduzir a predação por vertebrados herbívoros; em muitas espécies as estipulas são pequenas e residuais, sem nenhuma função óbvia; noutras espécies evoluíram para nectários extraflorais atraindo formigas (com as quais estabelecem interações mutualistas, de que beneficiam tanto as plantas como as formigas).
A função primitiva das estipulas permanece algo obscura e a maioria das angiospermas que não as tem, não parece sentir-lhes a falta. Contudo, a ausência destas estruturas é tão importante como a sua presença, pois é um fator fundamental na identificação das espécies.

Polygonum lapathifolium - inflorescência
As flores de Polygonum lapathifolium agrupam-se em inflorescências cilíndricas, do tipo espiciforme, em que as flores sésseis se inserem de forma densa sobre um eixo alongado geralmente coberto de pequenas glândulas, assemelhando-se a uma espiga com cerca de 5 a 7 cm de comprimento. Estas inflorescências são longas, esguias e flexíveis, curvando-se para baixo de forma bastante atraente. Esta característica é única e marca a diferença em relação a outras espécies do mesmo género que apresentam inflorescências mais ou menos eretas.
Polygonum lapathifolium - flores agrupadas na inflorescência
As flores nunca abrem por completo. Cada pequena flor, com apenas cerca de 3 mm de comprimento apresenta 4 tépalas unidas na base. As tépalas são segmentos indistintos que constituem o perianto, fazendo as vezes de sépalas e pétalas e em cujo interior se situam os órgãos reprodutores masculinos e femininos. As tépalas apresentam uma gradação de cores que vai desde o branco até ao rosa-claro passando pelo esverdeado e apresentam glândulas amareladas na sua superfície. 
Polygonum lapathifolium
As setas indicam o contorno das nervuras das tépalas em forma de ancora, característico desta espécie.
Os pequenos pontos amarelos são as glândulas.
De forma característica, as tépalas apresentam uma nervação distintamente bifurcada, as nervuras curvando-se para baixo perto do ápice, com contorno semelhante a uma âncora. Este é um detalhe morfológico distintivo e único nesta espécie. 
O ovário tem 2 estiletes ligados pela base. Os estames são 6.

A floração ocorre desde o fim da primavera até ao fim do verão e dura cerca de mês e meio a dois meses.
As tépalas mantêm-se na planta durante a maturação dos frutos. Estes são aquénios que uma vez maduros apresentam cor muito escura e são brilhantes, de forma ovóide, por vezes grosseiramente triangulares e com os lados ligeiramente côncavos.
Polygonum lapathifolium
Frutos imaturos

Polygonum lapathifolium
As setas indicam os frutos maduros

Esta planta ressemeia-se naturalmente em locais que lhe sejam favoráveis, sendo esta a única forma de dispersão da espécie. Em média cada planta produz cerca de 800 a 850 sementes, as quais germinam principalmente durante a primavera. Para que a germinação se processe as sementes necessitam de passar pelos frios do inverno, quebrando a dormência.

Em face da sua ampla distribuição, hábito infestante e a sua relativa intolerância à sombra, Polygonum lapathifolium é potencialmente prejudicial em qualquer tipo de cultura de sementeira onde geralmente ocorre, brotando ao mesmo tempo que a sementeira se desenvolve.
A juntar aos seus efeitos competitivos, Polygonum lapathifolium serve de hospedeira a um significativo número de pragas prejudiciais à agricultura, nomeadamente o vírus do mosaico do pepino (CMV), Fusarium oxysporum que ataca as culturas do feijão, tomate ou espinafre, nematóides da haste da cebola, entre outros.
Em contrapartida, esta espécie é tremendamente importante para a vida selvagem. O néctar segregado pelas flores atrai moscas, vespas, abelhas e até pequenas borboletas. Uma enorme variedade de besouros e larvas de borboletas alimentam-se das folhas e outras partes da planta. Nas zonas húmidas as sementes são também uma fonte importante de alimento para varias espécies de patos e outras aves mais pequenas. Contudo, esta espécie não é do agrado dos herbívoros mamíferos devido ao seu sabor amargo e apimentado.

Polygonum lapathifolium pode ser confundida com Polygonum persicaria que é também autóctone no nosso país e que, muitas vezes, ocorre nos mesmo habitats.
Diferença nas ócreas das duas espécies que podem ser confundidas.
Foto da ócrea de Poligonum persicaria de Miguel Porto/Flora-on
A diferença mais óbvia entre as duas espécies reside na ócrea que em Polygonum persicaria é claramente ciliada ao contrário do que acontece com Polygonum lapathifolium

Em tempos idos, Polygonum lapathifolium foi usada em medicina tradicional. À semelhança do que acontece com outras espécies da mesma família esta planta contém compostos orgânicos com ação terapêutica no tratamento de algumas patologias. As propriedades antioxidantes, hepatoprotetoras e anti-inflamatórias devem-se à presença de substâncias químicas complexas de composição variada produzidas através dos metabólitos secundários e que existem nas partes aéreas da planta, nomeadamente Calconaflavonóides e ácido gálico.

Os metabólitos secundários:
As plantas sintetizam um enorme número de químicos, de natureza muito diversificada. Estes químicos podem ser divididos em metabólitos primários e secundários.

Os metabólitos primários incluem os químicos essenciais para o crescimento e desenvolvimento de todas as plantas, como a fotossíntese ou o metabolismo respiratório.

Os metabólitos secundários são estrutural e quimicamente muito mais diversificados que os metabólitos primários e referem-se a compostos presentes em células especializadas que, não sendo diretamente essenciais, são, ainda assim, necessários para a sobrevivência das plantas.
Os metabólitos secundários são capazes de responder eficazmente às situações de stress, aparentemente atuando como defesa (contra herbívoros, micróbios, viroses ou plantas concorrentes) como sinalização (para atrair polinizadores e animais dispersores das sementes) e também como antioxidantes e protetores da radiação solar.

Existem milhares de metabólitos secundários e são eles os responsáveis pelas propriedades terapêuticas registadas em tantas plantas consideradas medicinais.

Fotos: Abelheira/Lourinhã



quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Rhamnus alaternus L.

Nomes comuns:
Aderno-bastardo; aderno-bravo;
espinheiro-cerval; sanguinho-das-sebes

Rhamnus alaternus é um arbusto perenifólio autóctone da região mediterrânica. Distribui-se pelo sul da Europa desde Portugal à Turquia e de Marrocos a Israel. Pode encontrar-se também na Austrália e Nova Zelândia onde foi introduzido como espécie ornamental tendo-se naturalizado e adquirido comportamento invasor, competindo com as espécies nativas por espaço e nutrientes. Mais recentemente foi introduzida nos Estados Unidos onde escapou dos jardins para a natureza. Para já, não é considerada uma planta naturalizada nesse país mas tem-se dado tão bem que já chamou a atenção dos defensores do meio ambiente e o seu cultivo tem sido alvo de objeções pelos impactos negativos que poderá vir a ter nos ecossistemas locais. Na sua condição de planta exótica, uma espécie está livre dos tradicionais inimigos naturais que, na terra de origem, com ela evoluíram e a mantêm dentro dos limites.
Distribuição em Portugal
Fonte: Jardim Botânico da UTAD
No sul da Europa e norte de África, de onde é nativa, Rhamnus alaternus não é uma espécie problemática, antes pelo contrário. Ocorre de forma dispersa em bosques e matagais, solos pedregosos e até terrenos arenosos da beira-mar, geralmente associada a outras espécies tipicamente mediterrânicas, nomeadamente Phillyrea angustifolia, Pistacia lentiscus, Quercus coccifera, Smilax aspera, Asparagus aphyllus, Cistus crispus, Cistus salvifolius, entre outras espécies já descritas neste blog.

Rhamnus alaternus pertence à família Rhamnaceae que se divide em cerca de 50 géneros; entre eles o género Rhamnus inclui cerca de 100 espécies de arbustos e pequenas árvores nativas das regiões temperadas e subtropicais do hemisfério norte. 
Segundo o portal Flora-on, são 3 as espécies deste género presentes em Portugal. 

Rhamnus alaternus é utilizada frequentemente em programas de reflorestação na região mediterrânica, sobretudo em zonas áridas e rochosas, por ser uma espécie robusta e que suporta bem a sede. Além do mais, possui uma capacidade notável de regeneração que lhe permite sobreviver aos incêndios, com o rebrotamento de novos ramos originados a partir do seu raizame profundo. É uma espécie de crescimento relativamente rápido sendo bastante apreciada em jardins, providenciando estrutura e enquadramento, tendo a vantagem de conservar as belas folhas durante o ano inteiro. Rhamnus alaternus não tem preferência pelo tipo de solo e embora goste de uma boa exposição solar suporta bem a sombra intermitente. Relaciona-se bem com os ventos marítimos mas as suas raízes fragilizam-se com as geadas pelo que se lhe deve fazer proteção invernal, se for o caso.
Apesar de ser um arbusto de grande envergadura o seu tamanho pode ser restringido e a sua forma educada através da poda pois adapta-se muito bem à topiaria. Também é adequada para formar sebes e corta-ventos.

Embora insignificantes, as suas flores são abundantes e segregam o nutritivo néctar que atrai borboletas e abelhas. Posteriormente as flores transformam-se em frutos semelhantes a bagas, primeiro verdes, depois vermelhas e em seguida negras.

Na sua plenitude Rhamnus alaternus pode alcançar 8 metros de altura ou até mais. Os numerosos ramos glabros e de aspeto robusto que despontam das raízes ramificam-se de forma alternada e apresentam-se bastante emaranhados; em conjunto com a folhagem, formam uma copa compacta e arredondada. 

Os ramos mais jovens possuem uma casca lisa, de coloração castanha ou avermelhada. Com o avançar dos anos, e à medida que os ramos engrossam, a casca torna-se acinzentada e mais espessa. 


As folhas persistem neste arbusto o ano inteiro e são alternas ou quase opostas; são inteiras, pecioladas, terminando numa ponta aguda e rígida; de nervuras bem visíveis, a sua consistência é coriácea, a forma é oval e as margens estão serradas de forma algo irregular, apresentando dentes pequenos e escassos.

O verde das folhas é intenso e lustroso na pagina superior das folhas mas mais claro na pagina inferior onde as nervuras são mais visíveis. Dependendo da incidência dos raios solares as folhas apresentam tons azulados.

Rhamnus alaternus é uma planta dioica, ou seja, ao contrário da maioria das plantas de flor, em que o mesmo individuo apresenta flores com órgãos reprodutores dos dois sexos, nesta espécie as flores masculinas (com estames) e as femininas (com estigma, estilete, e ovário) ocorrem em plantas separadas. Assim, para que se forme semente é necessário haver plantas com flores masculinas na proximidade de plantas com flores femininas.
Veja mais sobre a dioicia AQUI.



As flores, em forma de taça, são abundantes mas minúsculas, de cor esverdeada ou amarelada e agrupam-se em cachos densos, com pedicelos curtos.
As flores masculinas juntam-se em espigas alongadas, pendentes, não têm pétalas e apresentam 4 ou 5 estames.
As femininas dispõem-se em cachos eretos e podem ter pétalas muito curtas mas geralmente são inexistentes.
Flores masculinas 
Fonte: Commons Wikimedia 

Flores femininas (pormenor da foto de JDAlmeida)
Fonte Flora-on 
O cálice é constituído por 5 sépalas que, nas flores masculinas se dobram bruscamente para baixo, enquanto nas flores femininas permanecem eretas, conforme é visível nas fotos.
As flores são polinizadas por insetos ou por ação do vento. Não dispondo de pétalas ou sépalas vistosas e chamativas, a principal atração para os insetos polinizadores reside na oferta de néctar, depositada num disco nectarífero.

Segundo a Flora Iberica o Rhamnus alaternus tem tendência para apresentar alguns dimorfismos sexuais e as plantas masculinas têm frequentemente uma floração mais abundante, embora apresentem menor envergadura e folhas mais pequenas.
Estudos feitos em Itália (os quais poderão eventualmente servir de referência a outras regiões do Mediterrâneo) concluíram que as colónias de Rhamnus alaternus são formadas por maior número de plantas masculinas do que femininas; as flores masculinas são mais abundantes e parecem florescer regularmente todos os anos enquanto as plantas femininas produzem fruto de dois em dois anos (Aronne e Wilcock 1995).

Esta espécie floresce no final do inverno ou início da primavera e os frutos ficam maduros a partir do início do verão, ou seja, mais cedo do que outras produtoras de bagas (cujos frutos só amadurecem em meados do verão ou no outono). Esta frutificação precoce representa uma vantagem evolutiva tendo em conta que coincide com a época da reprodução de potenciais frugívoros e pássaros dispersores de sementes.

Os frutos são carnudos e arredondados, inicialmente vermelhos e depois negros, quando completamente maduros. No interior da polpa encontram-se de 2 a 4 pequenas sementes estando cada uma delas encerrada num invólucro duro, semelhante a um caroço, o endocarpo, o qual se abre espontaneamente depois de seco, expelindo as sementes e lançando-as a uma pequena distância. 

Curiosamente, nesta espécie, o endocarpo só libera as sementes depois de estar limpo de polpa. A polpa tem de ser removida pelos dispersores de sementes, quer pelos pássaros ou por pequenos mamíferos, através dos seus processos digestivos ou pelos insetos, depois dos frutos terem caído para o solo.

Raízes, casca, folhas e frutos de Rhamnus alaternus são ricos em emodina (um composto secundário derivado das antraquinonas). São utilizados na indústria, nomeadamente na fabricação de corantes, medicamentos e cosméticos. A emodina possui uma poderosa ação laxante, principal razão pela qual esta espécie tem sido utilizada, desde a Antiguidade, com fins terapêuticos.

Os metabólitos secundários e a emodina:
Todos sabemos que as plantas sintetizam um enorme número de químicos, de natureza muito diversificada. Estes químicos podem ser divididos em metabólitos primários e secundários.
Os metabólitos primários incluem os químicos essenciais para o crescimento e desenvolvimento de todas as plantas, como a fotossíntese ou o metabolismo respiratório.
Os metabólitos secundários são estrutural e quimicamente muito mais diversificados que os metabólitos primários e referem-se a compostos presentes em células especializadas que, não sendo diretamente essenciais, são, ainda assim, necessários para a sobrevivência das plantas.
Os metabólitos secundários são capazes de responder eficazmente às situações de stress, aparentemente atuando como defesa (contra herbívoros, micróbios, viroses ou plantas concorrentes) como sinalização (para atrair polinizadores e animais dispersores das sementes) e também como antioxidantes e protetores da radiação solar.
A emodina é um importante metabólito secundário do grupo das antraquinonas. Sabe-se que desempenha um papel relevante na adaptabilidade e sobrevivência de certas plantas, tendo sido registado em 17 famílias botânicas, distribuídas por climas tropicais, subtropicais e temperados. É mais comum entre algumas espécies de Fabaceae (Cassia spp), Polygonaceae (Rheum, Rumex e Polygonum spp) e Rhamnaceae (Rhamnus e Ventilago spp) mas recentemente foi também assinalada em algumas espécies de Asteraceae e Poaceae. A emodina tem muitas propriedades, podendo atuar como inseticida natural, protegendo raízes, caules, folhas e frutos contra a ação de organismos transmissores de doenças. Pode ainda limitar a herbivoria feita por insetos fitófagos e o consumo dos frutos enquanto estão verdes, protegendo as sementes e evitando a sua dispersão antes de estarem maduras ou a sua precoce destruição pelos predadores.
A emodina pode distribuir-se por todos os órgãos das plantas ou apenas por alguns. Também apresenta níveis de concentração desiguais conforme os órgãos da planta ou a estação do ano e até mesmo conforme a hora do dia, o que reflete a diversidade de trajetórias evolutivas e as diferentes funções adaptativas que pode ter.

Nota:
Algo semelhante acontece com as centenas de milhar de metabólitos secundários já conhecidos, muitos deles responsáveis pelas propriedades terapêuticas registadas em tantas plantas consideradas medicinais. Daí que a recolha dessas plantas seja, tradicionalmente, condicionada aos fatores ambientais, por forma a potenciar os seus efeitos (época do ano, hora do dia, recolha diurna ou noturna, etc.)

No que diz respeito a Rhamnus alaternus a emodina está presente em todas as partes da planta, mas os níveis de concentração variam conforme os órgãos e os seus requisitos, sendo também influenciados por fatores ambientais.
Do ponto de vista ecológico seria de esperar que a concentração de emodina nos frutos maduros fosse consideravelmente mais baixa, tendo em conta que a polpa recompensa os dispersores de sementes e que as sementes deveriam ser menos atrativas, para conseguir repelir os predadores. De facto, assim é. Os níveis de emodina são 8 vezes mais elevados nas folhas do que nos frutos verdes (polpa e sementes) e nos frutos maduros os níveis encontrados na polpa são 14 vezes mais baixos do que nas sementes.
A concentração de emodina na polpa dos frutos verdes torna-os moderadamente tóxicos (dependendo das doses ingeridas) devido às suas propriedades laxantes. A sua concentração aumenta nos primeiros estágios da maturação atingindo um pico antes dos frutos estarem maduros, caindo para um mínimo quando os frutos amadurecem. A estratégia da planta é impedir que os frutos e sementes sejam ingeridos antes de tempo, uma vez que o seu objetivo principal se prende com a reprodução e a propagação da espécie. De facto muitas espécies de aves parecem sensíveis à variação na concentração da emodina preferindo consumir os frutos maduros, tanto mais que a frutificação desta espécie ocorre numa época do ano em que não faltam alimentos. Outras espécies, no entanto, parecem dar mais importância aos hidratos de carbono, lípidos e proteínas que podem retirar da polpa dos frutos, em detrimento das consequências. Não que uns pássaros sejam mais inteligentes que os outros. O que parece é que no Mediterrâneo as aves nativas coevoluiram com o Rhamnus alaternus e há muito que aprenderam com o que podem contar; outras aves, possivelmente migratórias ou naturalizadas, ainda não conseguem fazer a discriminação adequada. Em países onde o Rhamnus alaternus foi introduzido (e é, portanto, exótica), o mesmo acontece com as aves nativas, que ainda não adquiriram o conhecimento desta planta.
Contudo, mesmo quando os frutos amadurecem, o seu sabor não encoraja a grandes banquetes. Na realidade esta é uma estratégia evolutiva pois a planta prefere que venham muitos “clientes” mas que cada um coma pouco de cada vez, não vendo com bons olhos os que ficam por ali a repetir o almoço. Senão vejamos:
As propriedades laxantes da emodina presente nos frutos de Rhamnus alaternus, provocam alterações na digestão das pequenas aves mesmo quando estes estão maduros, provocando diarreias. Se as aves ingerem uma maior quantidade de frutos de uma vez (por consequência, ingerindo maior quantidade de emodina) a digestão processa-se rapidamente e sendo lógico pensar que elas vão ficando por ali perto, as defecações, que fatalmente surgirão a intervalos curtos, são feitas perto da planta. Quando as aves ingerem apenas alguns frutos e depois voam para outros lugares na procura de alimento mais saboroso, a digestão é retardada pela ingestão de outros componentes. Desta forma não só os compostos digestivos da ave dispõem de mais tempo para processar a polpa e dela retirarem mais nutrientes, como as defecações serão feitas em locais mais afastados e mais apropriados à germinação das sementes. Recordo que, nesta espécie, o endocarpo só liberta as sementes quando está limpo de polpa uma vez que a emodina nela contida inibe a sua germinação.
A emodina também tem propriedades alelopáticas, isto é, a sua composição química impede que outras plantas cresçam em seu redor, inibindo a concorrência por espaço e nutrientes.

Os legítimos dispersores de sementes:
Os frutos de Rhamnus alaternus são uma fonte de alimento para as aves e pequenos mamíferos (morcegos e roedores) mas, do ponto de vista reprodutivo da planta, nem todos são “amigos”. As aves granívoras, que se alimentam essencialmente de sementes, e os roedores, são predadores de sementes pois danificam-nas, mastigando-as juntamente com a polpa. Pelo contrário, as aves frugívoras e os morcegos, entre outros vertebrados, são os que contribuem para a proliferação da planta. É que eles procuram essencialmente a polpa, sem causar prejuízo às sementes. Contudo entre as aves frugívoras há dois comportamentos que é preciso distinguir. Existem os “consumidoras de polpa” que se limitam a debicar os frutos, deixando-os nos ramos ou fazendo-os cair acidentalmente no solo ao pé da planta-mãe. Em contrapartida os “legítimos dispersores de sementes” engolem os frutos inteiros no local ou carregam-nos no bico, levando-os para longe. Neste caso, depois de digeridas, as sementes são regurgitadas ou defecadas, intactas e despidas da polpa. Estes são os “legítimos dispersores das sementes”. No entanto até eles podem causar dano, o que acontece se ingerirem os frutos verdes, antes de as sementes serem viáveis. Assim, do ponto de vista evolutivo e tendo em conta o sucesso reprodutivo e a consequente proliferação da espécie, os frutos deparam-se com alguns problemas. Se por um lado têm de ser simultaneamente atrativos para os agentes frugívoros dispersores e não-atrativos para os predadores de sementes, por outro lado eles têm de encontrar formas de não serem ingeridos ou destruídos antes do amadurecimento completo.
Em resumo, a contribuição dos frugívoros para o crescimento e desenvolvimento das plantas tem a ver com a forma como é feita a dispersão das sementes, estando em causa não só a quantidade mas também a qualidade com que esta é feita.
A quantidade da dispersão é fundamentalmente determinada pelo número de visitas feitas à planta e o número de sementes consumidas em cada visita.
A qualidade na dispersão é baseada no desgaste da polpa feito pelos sucos digestivos e nas condições em que as sementes são posteriormente depositadas.
A interação de Rhamnus alaternus com os pássaros dispersores tem sido alvo de estudos no terreno que comprovam consequências tanto positivas como negativas para a planta.
No que diz respeito à quantidade, o aspeto positivo é que a dispersão de sementes de Rhamnus alaternus, numa altura em que não há outras bagas maduras, evita uma competição interespecífica, sendo a dispersão provavelmente maior do que se outras espécies também tivessem bagas maduras. Qualitativamente, a baixa densidade da chuva de sementes (sementes germinadas no locais da deposição dos dejetos) tem a vantagem de reduzir a quantidade de plântulas nascidas, diminuindo a competição entre as futuras plantas.
O aspeto negativo tem a ver com a pequena quantidade de dispersores de sementes, em conjunto com a natural abundância de outros recursos - estas aves também apreciam os artrópodes (insetos, aranhas, centopeias) – o que indicia um número limitado de visitas para remoção dos frutos, resultando em muitas sementes que ficam por dispersar. Por outro lado, o comportamento territorial das aves em época de nidificação reduz as distâncias entre a planta e o local da defecação. Apesar disso a ação dos dispersores de sementes provou ser razoavelmente eficaz na remoção da polpa através dos sucos digestivos, promovendo a capacidade de germinação.
Estes estudos constataram a presença de algumas aves bem nossas conhecidas e ficamos a saber que elas são “legítimas dispersoras de sementes” (pelo menos no que diz respeito a Rahmnus alaternus):
Sylvia melanocefala (toutinegra-de-cabeça-preta) – Veja AQUI e AQUI
Sylvia undata (Felosa-do-mato ou Toutinegra-do-mato) – Veja AQUI
Sylvia atricapilla (toutinegra-de-barrete-preto) – Veja AQUI e AQUI
Erithacus rubecula (Pisco-de-peito-ruivo) – Veja AQUI
Turdus merula ( Melro-preto) – Veja AQUI

Fotos de Rhamnus alaternus: Serra do Calvo/Lourinhã.