"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





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quinta-feira, 11 de maio de 2017

Convolvulus tricolor L. subsp. tricolor

Convolvulus tricolor subsp. tricolor
Corriola e gloria-da-manhã são nomes populares que referenciam algumas espécies de grupos taxonómicos diferentes, mas todas incluídas na família Convolvulaceae. Em território português esta família é representada por 6 géneros, entre os quais Convolvulus, Calystegia (que são autóctones) e Ipomoea (espécies exóticas).
São plantas sobejamente conhecidas e facilmente identificáveis pelas suas características flores em forma de trombeta, quer vestidas de branco, rosa, azul ou violeta, extremamente atrativas para diversos tipos de insetos essenciais à sua reprodução. São também denominadas bons-dias, campanelas, verdizelas ou madrugadas, entre outros nomes partilhados pela maioria destas espécies.
Convolvulus tricolor subsp. tricolor
Fazendo jus aos seus apelidos populares, as flores de muitas destas espécies abrem antes do nascer do dia, aproveitando ao máximo a hora a que os insetos mais madrugadores já andam a procurar alimento. Contudo, a vida destas flores é muito breve pois murcham durante a tarde. Esta situação não é invulgar. Existem plantas cujas flores apenas ficam abertas durante alguns minutos (como é ocaso da hera, Hedera hélix); em contrapartida, outras há que duram mais de 10 dias. Cada caso é um caso e todas as situações têm uma razão. No caso presente parece que não se trata de uma mera programação genética. Alguns estudos sugerem que o tempo de abertura destas flores depende do tempo que levam a ser polinizadas. A rápida polinização resulta num emurchecimento mais rápido das pétalas, o que pode ser uma estratégia comportamental adaptativa para reduzir custos de energia decorrentes da manutenção das peças florais. Uma vez terminada a sua missão de atrair os polinizadores, deixaram de ser necessárias. 
Um dos suportes desta teoria reside no facto de flores ainda não polinizadas ficarem abertas durante mais tempo do que as já fecundadas, o que aumenta as probabilidades de uma polinização bem sucedida. Desta forma, a planta canaliza estas poupanças de energia na produção de mais flores, o que na realidade acontece de forma continuada durante todo o seu período de floração.
Convolvulus tricolor subsp. tricolor
A bela Convolvulus tricolor é uma destas espécies. Floresce por esta altura do ano, mais especificamente de março a junho, de preferência em terrenos secos e argilosos, em campos de cultivo, valas e bermas de caminho, pastagens e prados. 
Convolvulus arvensis - Veja mais AQUI

Convolvulus althaeoides - Veja mais AQUI

Ao contrário de outras espécies do mesmo género (Convolvulus arvensis ou Convolvulus althaeoides) que tantas vezes convivem nos mesmos habitats, esta não é uma espécie invasora. 
Cultivada em jardins pode acrescentar muito interesse como planta anual, desde que cultivada em pleno sol. O alegre colorido das suas corolas e os longos caules prostrados tornam-na especialmente indicada para cestos suspensos, jardins de rocha e bordaduras, onde o seu efeito pode ser verdadeiramente deslumbrante. 
Apesar de lhe faltarem os ímpetos invasores o seu cultivo generalizado como ornamental teve como consequência a naturalização fora das fronteiras de difusão natural da espécie, o que ocasionalmente torna difícil delimita-las com precisão.

Distinguem-se duas subespécies:
- Convolvulus tricolor subsp. tricolor que se  distribui sobretudo pela região mediterrânica: Portugal, Espanha, França, Itália, Grécia, Marrocos e Argélia. É cultivada como adventícia na Turquia, Creta, Líbano, Medio oriente e Paquistão.
- Convolvulus tricolor subsp. cuprianus que se distribui pelo mediterrâneo central: Malta, Sicília, Marrocos, Argélia e Tunísia.
Estas duas subespécies diferenciam-se pelas sépalas do cálice que na subespécie tricolor se dividem em duas partes dissemelhantes, ao contrário do que acontece na subespécie cuprianus.
As plantas ibéricas correspondem à subespécie tricolor que em Portugal cresce de forma espontânea no Algarve, Baixo Alentejo, Beira Litoral, Estremadura, Ribatejo e Trás-os-Montes e também no arquipélago da Madeira.
Convolvulus tricolor subsp. tricolor
Convolvulus tricolor subsp. tricolor é uma herbácea, de hábito prostrado ou ascendente. Os caules, de cor avermelhada, são simples ou escassamente ramificados e estão revestidos de pelos densos, particularmente na parte superior. 
Convolvulus tricolor subsp. tricolor- caule
Estas plantas são anuais ou raramente, perenes de vida curta. Muitas vezes iniciam o seu ciclo de vida no Outono através da formação de uma roseta de folhas ao nível do solo. No final do Inverno regista-se um rápido alongamento dos caules e internós da roseta, de modo que os caules se esticam até aos 45 ou 50 cm de comprimento. Após a floração e uma vez maduros todos os frutos, os caules secam e morrem. Entretanto, na base da planta podem formar-se rebentos que darão origem a uma nova roseta de folhas que se tornará visível no outono seguinte. Neste tipo de crescimento a roseta de folhas protege as gemas de renovo do vento, do sol, do frio e dos herbívoros e está perfeitamente adaptado ao tipo de clima mediterrânico caracterizado pelos verões quentes, secos e ventosos e os invernos frios e chuvosos.
Convolvulus tricolor subsp. tricolor - folhas superiores
Na ausência de pecíolo, as folhas inserem-se nos caules diretamente pela base do limbo, de forma atenuada; são inteiras, com nervuras bem vincadas, glabras ou pubescentes, com pelos mais compridos nas margens. Forma e tamanho do limbo variam ligeiramente entre as folhas inferiores que são espatuladas ou oblanceoladas com um pequeno chanfro a meio do ápice e as superiores que são espatuladas ou oblongas com ápice obtuso.
Convolvulus tricolor subsp. tricolor
As flores têm corolas azuis com o centro em tons de branco e amarelo. Crescem solitárias no topo de longos pedúnculos eretos que emergem da axila das folhas superiores os quais apresentam 2 bractéolas de forma linear. Estes pedúnculos são eretos durante a floração mas encurvam durante a frutificação, não só pelo peso acrescido do fruto mas também porque continuam a crescer e se tornam um pouco mais longos.
Convolvulus tricolor subsp. tricolor - Bractéolas e cálice
Convolvulus tricolor subsp. tricolor - Cálice
O cálice é mais ou menos acampanulado, com as 5 sépalas diferenciadas em duas partes morfologicamente diferentes. A inferior tem forma oblonga, convexa e é ligeiramente coriácea durante a floração. A parte superior é mais curta, amplamente ovada e as extremidades herbáceas terminam de forma aguda e ligeiramente curva. O crescimento do cálice prossegue mesmo depois da fecundação e até o fruto atingir a maturação.
Convolvulus tricolor subsp. tricolor - flor aberta e flores enroladas em botão
A corola é afunilada e em forma de trombeta, morfologia que resulta da fusão das 5 pétalas que a constituem. Quando a flor ainda está em botão, as peças florais (sépalas e pétalas) apresentam-se dobradas umas sobre as outras de forma contorcida ou espiralada, parecendo um guarda-chuva bem enrolado. 
Convolvulus tricolor subsp. tricolor - pétalas vincadas pelo enrolamento apertado
Curiosamente, quando as flores abrem, as pétalas apresentam vincos nos pontos onde estavam dobradas. 
Convolvulus tricolor subsp. tricolor - o limbo das pétalas é reforçado por 5 nervuras
De forma característica existem 5 nervuras bem visíveis a meio do limbo de cada uma das pétalas, as quais não só reforçam a arquitetura floral como também encurvam as pétalas para fora e ajudam no processo do desenrolar da corola quando ela se abre na ântese. 
A corola apresenta 3 bandas transversais de cores bem diferenciadas, amarela na base, branca na zona intermédia e azul-violeta na parte superior. Estas bandas coloridas formam padrões visuais destinados a guiar os insetos em direção ao néctar e ao pólen, disponível no centro da flor.
  Convolvulus tricolor subsp. tricolor
Nesta foto veem-se os filetes dos estames unidos formando uma coluna, as anteras com as suas listas azuis e ainda, os dois braços do estigma emergindo de entre os estames.
Estas flores apresentam órgãos reprodutores masculinos e femininos. Os estames são 5, com filetes comprimidos formando um a coluna curta que torneia o estilete, mas deixa abertas 5 estreitas passagens que conduzem ao néctar. Assim, ao entrar na flor, o corpo do inseto toca nos estigmas, ao mesmo tempo que fica empoado de pólen. 
As anteras são lisas e brancas mas com duas linhas azuladas. 
O disco nectarífero é intrastaminal ou seja, posiciona-se em forma de anel no centro da flor, em redor do ovário e dos estames. 
O ovário é pubescente e dele desponta um estilete que se divide em dois estigmas de cor branca. 
Convolvulus tricolor subsp. tricolor
Fruto capsular em vias de maturação, envolvido pelo cálice
O fruto é uma cápsula arredondada, pubescente até à maturação e dentro da qual se encontram 4 sementes de cor muito escura.

Sob o ponto de vista taxonómico Convolvulus tricolor inclui-se na complexa família Convolvulaceae, subfamília Convolvuloideae, tribo Convolvuleae e género Convolvulus.

Convolvulaceae:
A família Convolvulaceae, inclui cerca de 1650 espécies, agrupadas em diversas subfamílias e/ou tribos e 55 géneros que se concentram em regiões de clima tropical e subtropical, com apenas 10 % das espécies nas zonas temperadas. A família apresenta aspetos morfológicos bem definidos, como as flores em forma de trombeta e outras características bem marcantes próprias de climas secos. De forma geral, são plantas eretas ou prostradas e até trepadeiras volúveis que se enrolam sobre si próprias ou nas plantas vizinhas. Foi esta característica que deu nome à família o qual deriva do latim “convolvo” ou "convolvere"= entrelaçar.
Esta família conta com muitas espécies adventícias, ou seja naturalizadas, cuja distribuição está ligada a atividades humanas de dispersão intencional. Em contrapartida, a quota de endemismos é bastante grande.
Uma das características anatómicas mais percetíveis das Convolvulaceae é a existência de células foliares e/ou radiculares que segregam resinas glicosidicas (metabolitos secundários), responsáveis pelas propriedades purgativas, analgésicas e alucinogénicas de algumas espécies desta família.

Sob o ponto de vista taxonómico Convolvulaceae não tem sofrido muitas alterações desde que foi descrita por Jussieu em Genera Plantarum, em 1789. Contudo, a capacidade que exibe na diversificação e capacidade de colonização de regiões afastadas por todo o mundo, tem suscitado o interesse dos botânicos e diversos estudos têm sido realizados nas últimas décadas. Não é, pois, de admirar que se suscitem duvidas e se proponham alterações tal como acontece com a maioria das famílias de angiospermas.

Esta família foi dividida em 3 ou 4 subfamílias que por sua vez se subdividem num numero de tribos variável, oscilando entre 3 e 12. Embora, de forma geral, tenha havido consenso no que diz respeito à relação entre estes grupos, existe ainda alguma controvérsia quanto à sua classificação taxonómica. Um dos pomos de discórdia é o grupo Cuscutoideae or Cuscutaceae, cujo único género Cuscuta (também presente em Portugal) alguns botânicos prefeririam segregar da família por serem espécies parasitas com especificidades a nível da corola e embrião.
Certos autores também discordam sobre a delimitação de alguns géneros dentro da família baseando-se nas variações do tamanho, forma ou pubescência das brácteas, sépalas, corola e pólen e também tendo em conta a forma e divisão dos estigmas e algumas características diferentes nas sementes.
Ipomoea batatas (flor da batata-doce)
Foto de H.Zell. Fonte Wikimedia commons
O maior género desta família é Ipomoea com 500 a 600 espécies, de distribuição tropical e no qual se inclui a espécie alimentar Ipomoea batatas, a nossa conhecida e apreciada batata-doce.
Na região mediterrânica e mais especificamente em Portugal, os géneros autóctones mais representativos da família Convolvulaceae são Calystegia e Convolvulus, os quais estão estreitamente relacionados. A característica mais evidente que diferencia os dois géneros reside na existência de bractéolas grandes e empoladas no género Calystegia que quase escondem as sépalas, como podemos rever em Calystegia soldanella
Calystegia soldanella. Veja mais AQUI
Convolvulus:
Estudos muito recentes estimam que o género Convolvulus inclui cerca de 200 espécies que se distribuem por todos os continentes, em regiões de clima temperado e subtropical. O seu maior centro de diversidade situa-se na área geográfica próxima ao mar Mediterrânico e Ásia Ocidental, com outros centros de diversidade na Ásia Oriental e na América do Sul temperada, no sul e no leste da África e na Australásia, ou seja, as três zonas temperadas do hemisfério sul.
É um género característico de habitats pedregosos e arenosos, essencialmente secos, desde o nível do mar até aos 3000 mt de altitude. 
Algumas espécies são invasoras e altamente prejudiciais em campos cultivados, outras são economicamente importantes no comércio das plantas ornamentais e até no ramo farmacêutico. 
Na generalidade, são espécies subcosmopolitas, mas algumas são endemismos e ocorrem em áreas muito restritas.

Convolvulus fernandesii é uma das espécies de distribuição confinada a uma determinada região. Na realidade é um endemismo português. É muito rara e a sua distribuição mundial restringe-se à Serra da Arrábida, mais especificamente ao curto espaço da costa que vai de Sesimbra ao Cabo Espichel. Floresce durante a primavera e cresce nas escarpas, entre fendas e afloramentos rochosos, em locais quase inacessíveis, razão pela qual terá passado despercebida durante séculos. Foi publicada no Boletim da Sociedade Broteriana pelo botânico português Pinto da Silva (P.Silva &Teles)  apenas em 1980.
Convolvulus fernandesii - Foto de Sérgio Chozas
Fonte Flora-on
É um arbusto perenifólio de caules volúveis e entrelaçados. Os caules mais velhos são glabrescentes e lenhosos mas as hastes mais jovens são pubescentes. As folhas são pecioladas, elípticas ou oblongo-elípticas, com o ápice arredondado ou truncado. As flores, em grupos de 3 a 6, reúnem-se em inflorescências axilares, são pedunculadas e apresentam bractéolas. As 5 pétalas são brancas e estão unidas tomando a forma afunilada característica da família e do género. As sépalas são obovadas ou elípticas com pontas curtas, agudas e rígidas.
Esta é uma espécie protegida ao abrigo do Estatuto Directiva de Habitats 92/43, como espécie prioritária do Anexo II e anexo IV.
Veja mais sobre esta espécie AQUI e AQUI.

Fotos:
Calystegia soldanella: Praia da Areia Branca/Lourinhã
Convolvulus tricolor subsp. tricolor: Zambujeira e Areia Branca/Lourinhã
Convolvulus arvensis: Serra do Calvo/Lourinhã
Convolvulus althaeoides: Arribas do Caniçal /Lourinhã



sábado, 24 de novembro de 2012

Convolvulus arvensis L.

Nomes Comuns:
Corriola; Corriola-campestre; Corriola-mansa; Erva-garriola; Estende-braços; Engatateira; Garriola; Trepa-trepa; Verdeselha; Verdezelha; Verdisela; Verdiselha

Convolvulus arvensis é uma pequena perene da família Convolvulaceae e do género Convolvulus, o qual inclui muitas espécies consideradas daninhas e de grande poder invasivo. Apesar disso, algumas espécies deste género são cultivadas em jardins quer como trepadeiras quer como cobertura de solo, tirando partido do seu rápido crescimento e das cores vibrantes das suas grandes flores de aspeto delicado. Porém, tal não é o caso da Convolvulus arvensis que, embora de pequena envergadura e de aspeto delicado e inofensivo, é uma espécie altamente invasora.
Jardim de Rocha
Fonte: Jardins du Gué
Pessoalmente e apesar da sua comprovada má fama, considero que esta planta, ainda assim, pode ser utilizada com sucesso em certos tipos de jardins, sobretudo em jardins de rocha (dos quais sou fã), desde que haja o cuidado de a confinar ao espaço que lhe tenha sido destinado. Afinal é uma planta bem bonita e resistente e só poderá fazer mal se estiver no lugar errado, tal como acontece com tantas outras espécies.
Conforme o próprio nome indica, a Convolvulus arvensis é uma espécie essencialmente campestre (do latim arvense = que cresce em terra de cultivo); é nativa da Eurásia mas encontra-se disseminada por quase todo o mundo, tendo-se adaptado com sucesso a vários tipos de habitats, nomeadamente em zonas temperadas e nos trópicos.
Distribuição em Portugal
Fonte: Flora Digital de Portugal
Em Portugal é frequente em quase todo o território, constância essa que é confirmada pela quantidade de nomes vernáculos pela qual é conhecida no nosso país.
A Convolvulus arvensis floresce de abril a outubro, quer em campos incultos, beira de caminhos, pomares ou terrenos cultivados, manifestando natural preferência por terrenos repetidamente remexidos, onde melhor se propaga. È uma espécie indicadora de terrenos com riqueza de nutrientes de nível médio, não suportando solos muito fertilizados.
A Convolvulus arvensis produz uma cobertura de solo que pode ser muito densa, reproduzindo-se por sementes ou através do seu profundo e extensivo sistema radicular. Os seus rizomas, engrossados com reservas de carbohidratos e proteínas, podem atingir mais de 2 m de comprimento e as raízes mais de 7 m. Inicialmente, a raiz principal, que desponta do rizoma, enterra-se profundamente no solo; simultaneamente formam-se raízes laterais que são superficiais mas que por sua vez começam a crescer para baixo quando chegam perto dos 100 cm de comprimento; das raízes laterais podem surgir rebentos que darão origem a series sucessivas de novas plantas e respetivos sistemas radiculares.
Cada pedaço do extenso rizoma tem a possibilidade de criar raízes pelo que, numa tentativa de remover a planta de forma definitiva não basta arranca-la pois é praticamente impossível recolher todos os pedaços do sistema radicular, muito espalhado e profundamente enterrado. A própria maquinaria utilizada para lavrar os terrenos infestados ajuda a disseminar os pedaços de rizoma.
A Convolvulus arvensis não só priva as culturas de uma boa parte da água e nutrientes disponíveis, como ao crescer se enrola nas plantas cultivadas procurando suporte, envolvendo-as e muitas vezes, abafando-as por completo. Tendo em consideração a sua distribuição cosmopolita, rápido crescimento e abundancia de colonias, o impacto na economia de certos países é bastante desastroso, como é o caso dos Estados Unidos da América e do Canadá, pelo que a Convolvulus arvensis não só foi colocada no top 10 das piores plantas daninhas (Holm et al., 1977) como foi também considerada uma das plantas mais problemáticas para a agricultura. 
Curiosamente existe muita informação sobre os malefícios da Convolvulus arvensis na agricultura, principalmente nas plantações de cereais, mas pouco se sabe sobre o impacto desta espécie em pastagens e sobretudo em áreas naturais.

A Convolvulus arvensis é uma planta herbácea, glabra ou com indumento de pelos densos e fracos. Os caules, profusamente ramificados, são finos e longos, chegando a atingir 2 m ou mais, de comprimento; são volúveis (enrolando-se em hélice sobre um suporte) ou rastejantes, conforme a situação se lhe apresente.
As folhas, inteiras e de pecíolo alongado, são alternas embora cresçam em posições desiguais ao longo do caule; apresentam formato oblongo ou ovado-oblongo, umas vezes em forma de coração estilizado invertido, outras vezes em forma de seta.

De notar que a Convolvulus arvensis é uma espécie muito variável na morfologia e tamanho das folhas, assim como na cor da corola das flores e no maior ou menor desenvolvimento do indumento. Estas variações são, presumivelmente, resultado da influência de fatores ambientais, nomeadamente as condições de maior ou menor secura ou localizações  sujeitas a pisoteio.

As flores nascem solitárias ou em grupos de 2 ou 3, na axila das folhas, encimando pedúnculos angulosos e nos quais se podem ver um par de bracteolas lineares.
A corola, afunilada, é formada por 5 pétalas unidas de cor branca ou rosa-pálido, por vezes com uma faixas mais escuras entre as pétalas.
O cálice é composto por 5 sépalas densamente peludas, oblongas e separadas, de consistência coriácea e margens membranosas, sendo persistentes na frutificação.

Cada flor está provida de órgãos reprodutores femininos e masculinos funcionais. Os 5 estames, brancos e de tamanho desigual, estão ligados à base da corola e apresentam anteras também brancas e providas de papilas. O pistilo é composto por 2 estigmas lineares. É na base do tubo formado pela fusão das pétalas que se forma o néctar com que a Convolvulus arvensis premeia os numerosos polinizadores, sobretudo abelhas, vespas e borboletas que a visitam. A produção de néctar representa um esforço suplementar em termos de gasto de energia por parte da planta mas este incentivo aos insetos tem como objetivo leva-los a viajarem de flor em flor para conseguirem mais alimento, o que favorece a polinização cruzada. Sem o constante vai-e-vem dos insetos carregando o pólen de uma flor para a outra existiriam mais riscos de haver autopolinização, considerando que as flores se apresentam em grupos extensos.
Fruto e sementes
Fonte - Federal Noxious Weed of U.S.A.
Os frutos são cápsulas esféricas, glabras, de cor castanha e com sementes escuras e de superfície rugosa. Os frutos geralmente contêm de 1 a 4 sementes, cuja forma depende do número produzido no fruto; uma só semente é esférica mas ficam progressivamente mais estreitas conforme mais sementes são produzidas.

Após a maturação as sementes tornam-se impermeáveis e são muito persistentes podendo permanecer em dormência durante várias décadas (50 anos ou mais, se estiverem profundamente enterradas no solo). Geralmente as sementes caiem no solo perto da planta-mãe mas também podem ser arrastadas pela água ou serem comidas pelas aves que assim as transportam para outros locais; as sementes podem passar pelo processo digestivo das aves sem sofrerem grande prejuízo nas suas capacidades germinativas.


Enfim, podemos dizer que a Convolvulus arvensis é uma lutadora e será uma sobrevivente pois aparentemente calculou todas as opções e tomou todas as medidas possíveis no que toca ao sucesso da reprodução e sobrevivência da espécie. Espécie prevenida…

 Sinonimias:
Convolvulus arvensis L. subsp. arvensis
Convolvulus arvensis L. subsp. crispatus Franco


Fotos: Serra do Calvo / Lourinhã


domingo, 13 de maio de 2012

Calystegia soldanella (L. ) R. Br.

Nomes comuns:
Couve-marinha; Soldanela

A Calystegia soldanella é uma espécie característica de dunas e areais costeiros, vivendo na linha mais recuada das praias, muitas vezes em concorrência com os banhistas.
Podemos encontrá-la em quase todos os continentes, em zonas costeiras de clima temperado, coabitando com outras plantas psamófilas. Na nossa costa partilha o seu habitat com plantas como Otanthus maritimus, Medicago marítima, Eryngium maritimum, Pancratium maritimum e Ammophila arenaria, entre outras.

A Calystegia soldanella, incluída na família das Convolvulaceae,  pertence ao género Calystegia o qual inclui 25 espécies. As espécies deste género podem ser confundidas com o género Convolvulus, da mesma família, ao qual muito se assemelham.

As espécies do género Calystegia são alimento preferencial, senão exclusivo, para as larvas de algumas borboletas.

A Calystegia soldanella é uma planta perfeitamente adaptada às duras condições existentes no meio onde cresce, exposta aos ventos fortes e carregados de partículas de sal, às amplitudes térmicas muito acentuadas, com luminosidade excessiva e escassez de água e nutrientes. Para sobreviver neste meio adverso a planta desenvolveu a forma prostrada, com raízes muito profundas para poder captar água em profundidade.

Esta é uma planta herbácea e vivaz cuja parte aérea se renova anualmente, na primavera, a partir de um rizoma subterrâneo, rico em nutrientes. O rizoma é levemente cilíndrico, grosso e ramificado e cresce de forma horizontal, tendo a capacidade de produzir touceiras que dão origem a novas plantas. Esta forma de propagação vegetativa permite que a planta se reproduza mesmo que uma época desfavorável não lhe permita a produção de sementes.

Os caules são rastejantes, ramificados e de seção poligonal; quando feridos ou cortados segregam um líquido leitoso chamado latex que serve como acelerador na cicatrização.

Devido às movimentações das areias provocadas essencialmente pelos ventos, muitas vezes os caules da Calystegia soldanella encontram-se enterrados no solo.

  
 As folhas são arredondadas e em forma de rim, com contornos em forma de orelha, na base; são de cor verde escuro, mais claras na pagina inferior e com veios bem visíveis; são suculentas o que lhes permite armazenar água e estão ainda providas de uma cutícula cerosa que minimiza a transpiração; dispõem-se no caule de forma alternada e o pecíolo é comprido, maior do que a própria folha.

As flores, muito atrativas, são polinizadas por insetos. Crescem solitárias nas axilas das folhas, no topo de um pedúnculo comprido, com 2 bracteolas grandes e ovadas, de cor verde pálido.

As bracteolas estão inseridas no pedicelo, envolvendo as 5 sépalas ovadas, de margens sobrepostas, que formam o cálice da flor, característica que diferencia a Calystegia soldanella de outras espécies semelhantes, do género Convolvulus, em que as brácteas se dispõem abaixo do cálice.

A corola, grande e de forma afunilada, é formada por 5 lóbulos soldados, de coloração rosada com veios médios esbranquiçados, formando uma estrela no interior da flor.

Na prefloração a corola apresenta-se retorcida.



A planta possui órgãos reprodutores femininos e masculinos. Os 5 estames, produtores de pólen, estão inseridos na base da corola e apresentam filamentos compridos que terminam em anteras de forma alongada.

O conjunto dos órgãos do pistilo (ovário, estilo e estigma) repousam sobre os nectários de coloração amarela onde é segregado e armazenado o néctar que se destina a atrair os insetos polinizadores. O estilo, comprido e de cor branca, termina em dois estigmas grossos, da mesma cor. 



A Calystegia soldanella floresce e frutifica de abril a julho.
O fruto é uma capsula esférica ou ovoide formada por duas valvas que contêm 3 ou 4 sementes duras, escuras e lisas.


Fotos: Praia da Areia Branca / Lourinhã