"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





sábado, 11 de novembro de 2017

Halimium halimifolium (L.) Willk.

Nome comum: Sargaça


Os fogos foram, desde sempre, um dos maiores problemas na bacia do Mediterrâneo. A geografia física da região parece favorecer a incidência de incêndios; e o tipo de clima em que são constantes os períodos de seca é, por si só, um factor de risco. 

Inicialmente o fogo era uma força da natureza, componente natural que surgia de forma mais ou menos periódica no ciclo vegetativo, permitindo um rejuvenescimento das populações e ajudando a criar um novo mosaico de comunidades vegetais.
No entanto, a entrada em cena do elemento humano (há cerca de 10, 000 anos nas regiões orientais e 4,000 nas terras do ocidente) veio perturbar o equilíbrio natural. O Homem não só usou o fogo como também abusou da sua força, utilizando-o de forma indiscriminada e gananciosa para desbastar as florestas e dessa forma conseguir novos campos para a agricultura e o pastoreio. De forma sistemática e constante, a paisagem do Mediterrâneo foi sendo moldada pelas actividades antropogénicas. Em consequência, flora e fauna foram-se adaptando aos distúrbios causados pelo Homem. 

Nada mudou desde que há milhares de anos o Homem chegou à região. Incúria, desleixo e atividades criminosas são parcialmente responsáveis pelos extensos fogos que todos os anos atingem a região. No passado verão, além dos prejuízos irreparáveis na flora e fauna, os incêndios causaram mortos, feridos e obrigaram à evacuação de cerca de 12 000 pessoas em Portugal, França, Córsega, Itália e Albânia. Cerca de 90% da área ardida na Europa localiza-se na bacia do Mediterrâneo.

No entanto, a flora mediterrânica é de uma diversidade riquíssima, sendo constituída por espécies resistentes, calejadas pelas muitas dificuldades que encontram: seca, solos pobres e fogo. A vegetação atual da bacia do Mediterrâneo resulta de milhares de anos de evolução, durante as quais as plantas adquiriram mecanismos que lhes permitem superar os efeitos dos fogos e dos fatores climáticos (como a seca de verão). 
Cada tipo de espécie desenvolveu diferentes métodos de sobrevivência para subsistir a distúrbios e perpetuar-se, bem como as comunidades a que pertencem. 

Na península Ibérica o tipo de vegetação arbustiva tipicamente mediterrânica prospera, muitas vezes, em campos agrícolas ou pastagens abandonados, em áreas florestais degradadas e nos cumes montanhosos. 
O pastoreio intensivo e os fogos continuam, em grande parte, a ser responsáveis pela degradação do solo. Vão desaparecendo as árvores e vai-se favorecendo a expansão de arbustos oligotróficos e pirofíticos, os quais, na realidade são muitíssimo úteis pois impedem a erosão dos solos.
- O termo oligotrófico usa-se para caracterizar plantas que prosperam melhor em ambientes muito pobres em nutrientes.
- Plantas pirofíticas são aquelas que ao longo de milhares de anos evoluíram no sentido de se defenderem dos fogos periódicos. Para tal, desenvolveram estratégias tais como: ajuste do seu crescimento anual à disponibilidade de água no solo; sistema radicular capacitado para minimizar as alterações resultantes da distribuição sazonal da precipitação anual; estômatos (aberturas nas folhas responsáveis pela transpiração) que abrem o fecham de acordo com a necessidade diária.
Entre eles distinguem-se:
- Pirofitos de resistência passiva, os quais contêm um alto teor de água nos seus tecidos como é o caso do Agave e outras suculentas ou possuem uma casca espessa como o sobreiro (Quercus suber);
- Pirofitos que rebrotam a partir de um enraizamento profundo ou devido a rebentos epicormicos (vulgarmente conhecidos como rebentos ladrões) como no caso do carrasco (Quercus coccifera) e do medronheiro, Arbustos unedo;
- Pirofitos cujas sementes são estimuladas a germinar pela ação do  fogo, como é o caso da espécie que hoje entra em cena, Halimium halimifolium.


Halimium halimifolium é uma espécie nativa da região oeste mediterrânica, cobrindo as regiões que vão de Portugal à Itália e de Marrocos até à Tunísia.
Em Portugal ocorre em todo o litoral a sul de Aveiro e também Ribatejo, Baixo Alentejo e Algarve.
O seu habitat natural são sobretudo os areiais costeiros, os pinhais e sobreirais, constituindo os chamados matagais xerofilicos, situação em que se associam espécies que se adaptaram a meios secos e que sobrevivem com quantidades de água reduzidas. Formam um tipo de vegetação que caracteriza os climas mediterrânicos (ex: sobreiro, carrasco, alecrim, rosmaninho, alfazema, tojo, esteva e tantas outras já descritas neste blogue), espécies especialmente resistentes aos fogos.
Halimium halimifolium forma um pequeno arbusto ereto e muito ramificado que pode chegar aos 150 cm de altura. 
O exemplar identificado nas fotos que acompanham este texto é, contudo, bastante mais pequeno, mal ultrapassando os 30 cm, sendo que o ano foi seco e a planta não teve possibilidades de se desenvolver em todo o seu potencial. 
Cultivada em jardins é uma espécie muito ornamental e apreciada não só pelo colorido das flores mas também pelos tons prateados da folhagem.
O eixo central é algo lenhoso com a superfície em tons avermelhados. Os caules estão densamente cobertos por pelos estrelados ( irradiando de um centro, como os raios de uma estrela) que são hialinos (transparentes e sem cor) nos caules mais jovens,dando-lhe uma cor prateada e são vermelho-acastanhados nos caules mais velhos.
As folhas são elípticas ou lanceolado-espatuladas, com pecíolo curto, opostas e de cor verde-acinzentada, cobertas por pelos densos em ambas as páginas, os quais permitem algum alivio ao refletirem os raios solares.
As flores agrupam-se em inflorescências terminais, frouxas ou densas. Os pedicelos da inflorescência estão cobertos de pelos estrelados e/ou peltados de cor avermelhada.
O cálice é constituído por 5 sépalas desiguais e cobertas, em proporção variável, por pelos peltados ou estrelados. As duas sépalas externas são pequenas e de forma linear (podendo estar reduzidas a uma única) e estão parcialmente unidas às internas que são 3, maiores e acrescentes na frutificação, o que significa que acompanham o crescimento do fruto.
A corola possui 5 pétalas iguais de cor amarelo-dourado que podem ter, ou não, manchas escuras na base.
Cada flor possui órgãos reprodutores masculinos e femininos. O ovário é tricarpelar, dando origem a um fruto com 3 valvas. Dele desponta um estilete curto com estigma de cor branca e em forma de clava. Os estames, todos de cor amarela são numerosos e de tamanho irregular.
As flores abrem de manhã cedo e duram apenas algumas horas, logo sendo substituídas por outras. No momento em que as pétalas abrem, a maior parte das anteras já começaram a libertar o pólen o qual é imediatamente recolhido pelos primeiros insetos visitantes. Estas flores não produzem néctar pelo que a única atração é o pólen. Ao fim de 11 a 12 horas as flores já terão todas sido polinizadas razão pela qual as pétalas caiem, não sendo já necessárias.
O maior grupo de insetos visitantes são do género coleoptera tais como escaravelhos, joaninhas, gorgulhos.


O fruto é uma cápsula que permanece inclusa no cálice persistente. É deiscente e de forma ovóide, com o ápice coberto de pelos estrelados. Abre-se por 2 ou 3 valvas dentro das quais existem numerosas sementes acastanhadas.


Em condições naturais a percentagem de germinação é relativamente baixa, entre os 20 e os 30 %, o que pode indicar a presença de uma dormência primária da maioria das sementes, dormência essa que se inicia durante as fases iniciais ou finais do desenvolvimento da semente na planta-mãe e está associada à existência de uma grande dureza da capa exterior. Esta capa extra-dura registada numa grande percentagem de sementes torna-as impermeáveis à humidade e ao oxigénio. Ou seja, parece evidente que a planta produz uma pequena proporção de sementes de cobertura mole e germinação fácil que asseguram a manutenção das populações e uma alta percentagem de sementes de capa dura que garantem a criação de um banco de sementes no solo. Seguindo o seu curso natural esta dormência poderá ser quebrada através da deterioração progressiva em resultado da humidade da chuva, erosão mecânica, ação microbiana ou altas temperaturas provocadas pelo fogo.



Halimium halimifolium é uma espécie com grande variabilidade morfológica, sobretudo com diferenças ao nível dos pelos que cobrem as sépalas. São consideradas duas subespécies. Ambas ocorrem em Portugal mas com distribuição diferente:
Halimium halimifolium subespécie halimifolium:
- Caracterizada por sépalas unicamente com pelos peltados, amarelados, as vezes com alguns pelos estrelados, hialinos nas margens e no ápice.
Em Portugal ocorre principalmente na região do Algarve (Flora Iberica).
Halimium halimifolium subespécie multiflorum:
- Caracterizada por sépalas cobertas de pelos peltados amarelados misturados com numerosos pelos estrelados hialinos.
Esta é a espécie mais comum em Portugal (Flora Iberica).
e - pelos peltados: apresentam todas as células no mesmo plano, formando um escudo.
f - pelos estrelados: irradiam de um centro para a periferia, como os raios de uma estrela.
Halimium halimifolium subsp. multiflorum
Desenho de Flora Iberica
Esta espécie foi originalmente incluída no género Cistus. De facto, Cistus halimifolius é o nome original desta espécie (basiónimo) o qual lhe foi atribuído por Lineu em Species Plantarum (1753): Cistus, devido à semelhança das flores com espécies desse género e halimifolius por ter folhas acinzentadas semelhantes às de uma espécie de outro género que vive em ambientes salgados das regiões costeiras, Atriplex halimus
Porém, cerca de um século mais tarde a espécie foi transferida do género Cistus para o género Halimium pelo botânico alemão Wilkomm, tendo sido o termo com que Lineu designou a espécie (halimifolius) alterado para halimifolium.
(os termos halimus, halimifolius, halimifolium todos derivam do grego "hals, halós"= mar, sal).
Os géneros Cistus e Halimium pertencem ambos à família Cistaceae e são reconhecidos como géneros distintos apesar de partilharem algumas características, como por exemplo o número de cromossomas (2n = 18), sendo que as espécies dos outros géneros da mesma família possuem números de cromossomas diferentes. 
A distinção entre estes dois géneros foi baseada principalmente em carateres morfológicos: 
- Cistus tem flores rosa ou brancas com 5 lóculos em cada ovário (exceto Cistus ladanifer que tem entre 6 e 12). 
- Halimium tem flores amarelas ou brancas com 3 lóculos em cada ovário. 
Contudo, flores brancas com 4 lóculos em cada ovário podem ser encontrados em ambos os géneros (Demoly, 1998). Também o número de sépalas pode apresentar-se variável num e noutro destes géneros, podendo registar-se uma sobreposição de características morfológicas e as transições entre os dois géneros são contínuas. Existe compatibilidade entre as espécies dos dois géneros pelo que hibridizam com facilidade tendo dado origem a espécies separadas que foram colocadas no género xHalimiocistus.
O género Cistus distribui-se desde o Mediterrâneo ocidental até às montanhas do Cáucaso ao passo que Halimium está confinado ao Mediterrâneo ocidental, com pequenas ocorrências na Grécia.
Como vimos, as 20 espécies de Cistus e as 7 de Halimium estão separadas desde o século XVIII. O híbrido destes dois géneros (x Halimiocistus) contém 3 espécies.
Em 2006, foi proposto (Demoly J.P.) que todas as espécies de Halimium e xHalimiocistus fossem incluídas no género Cistus.
Halimium halimifolium floresce entre os meses de março a agosto.

Várias espécies da família Cistaceae, principalmente dos géneros Cistus e Halimium são muito apreciadas como ornamentais em jardinagem, pela beleza da folhagem, colorido das flores. Os anglo-saxónicos chamam-lhes rockroses, ou seja, rosas das rochas. Apesar de tolerantes aos solos pobres em nutrientes e resistentes aos períodos de seca, quando cultivadas em jardins estas plantas beneficiam muito se lhes for dar dado algum cuidado extra, incluindo algum composto nas raízes e não as deixando passar muita sede.

Fotos de Halimium halimifolium: Serra do Calvo/Lourinhã

Para mais informações e fotos sobre o género Cistus pode consultar a seguinte lista de espécies já descritas neste blogue:

Cistus crispus (roselha)
Cistus monspeliensis (sargação)
Cistus salvifolius (estevinha)


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