"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





domingo, 12 de agosto de 2012

Myoporum laetum G. Forst.

Nome comum: Mióporo ou Mióporo-acuminado

A Myoporum laetum, espécie originária da Nova Zelândia, pertence à família Scrophulariaceae e ao género Myoporum. É um arbusto que, desde que disponha do espaço, pode crescer até aos 10 metros de altura ou mais, tomando o aspeto de uma árvore de copa arredondada e espessa.
Foi introduzida com grande sucesso no litoral de Portugal, com fins ornamentais, sendo utilizada em sebes vivas por ser de crescimento muito rápido e aguentar bem as podas. É também resistente à seca, à salinidade e aos ventos fortes, podendo viver em solos arenosos. Por outro lado beneficia das temperaturas mais suaves características dos invernos costeiros pois não aguenta geadas.
Em tempos não muito distantes a Myoporum laetum tornou-se muito popular em certas estâncias de veraneio do litoral, tendo sido plantada entusiasticamente em redor de vivendas, parques de campismo e afins. Para tal contribuíram os viveiristas de plantas que promoveram esta espécie como substituto de outras mais dispendiosas e de crescimento mais lento, nomeadamente o buxo. Com o passar dos anos a Myoporum laetum perdeu a sua popularidade pois o seu rápido crescimento levou ao engrossamento dos seus ramos tornando as sebes menos compactas, ficando por vezes nuas na base.
Algures no tempo a planta assilvestrou-se pelo que agora podemos encontra-la naturalizada e convivendo com a flora local, em pequenos bosques, na beira dos caminhos e até em áreas urbanas. Apesar da presença dominante desta espécie em certos locais do país, tal parece dever-se principalmente ao seu cultivo de forma exagerada, numa determinada época. Em alguns países, no entanto, a planta é considerada invasora como acontece nos Estados Unidos, nomeadamente no estado da Califórnia.
Sendo um arbusto, a Myoporum laetum apresenta-se ramificado desde a base, podendo alguns dos caules fundir-se formando um único tronco aparente. Os caules e ramos jovens são lisos e de aspeto robusto, enquanto os mais velhos apresentam casca mais grossa, rugosa e fissurada ficando, por vezes, distorcidos e quebrados em virtude do peso que suportam.
As folhas, membranáceas e sem pelos dispõem-se nos caules de forma alternada; têm forma lanceolada, elíptica, ou obovada estreitando-se na base em direção ao pecíolo e apresentam um ápice agudo e ligeiramente curvo (acuminado); a margem é inteira, por vezes serrilhada na parte superior, sobretudo em folhas mais jovens.
As folhas da Myoporum laetum são de cor verde brilhante e na página superior apresentam múltiplas glândulas puntiformes e translucidas, por vezes visíveis à vista desarmada e que libertam uma substancia toxica especialmente prejudicial para animais, principalmente bovinos, ovinos e caprinos, que possam inadvertidamente ingerir as folhas após a queda de ramos durante temporais ou depois das podas.
Aliás a palavra que designa o género deste arbusto Myoporum deriva do grego e alude precisamente às glândulas existentes nas folhas.
As folhas esmagadas são por vezes utilizadas como repelente de insetos.
As flores da Myoporum laetum estão providas de órgãos reprodutores masculinos e femininos funcionais e dispõem-se no topo de pedicelos finos, a partir das axilas das folhas.
As flores podem ser solitárias ou dispor-se em cimeiras densas com 5 a 10 flores campanuladas.
Cada flor, de tamanho diminuto, tem 5 pétalas brancas de formato arredondado, peludas no seu interior e completamente salpicadas por inúmeras manchas de cor purpura.
As 5 sépalas que formam o cálice são triangulares e sobrepõem-se ligeiramente na base. Os 4 ou 5 estames são bastante salientes e peludos.
Os frutos, reunidos em cachos, são carnudos, ovoides ou globosos.
Inicialmente de cor verde, os frutos tomam a cor purpura escuro quando maduros.
No interior dos frutos encontra-se um pequeno caroço de consistência óssea dentro do qual se encontra a semente. Os frutos são comestíveis e geralmente muito docinhos.

 Sinonímias:
- Myoporum tenuifolium auct., non G. Forst., Fl. Ins.
Austr.: 44 (1786)
- Myoporum acuminatum auct., non R. Br., Prodr.: 515 (1810)

Texto e fotos de:
Fernanda Delgado do Nascimento  http://floresdoareal.blogspot.pt/
(exceto quando especificado).

Fotos - Serra do Calvo / Lourinhã

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Euphorbia paralias L.

Morganheira-das-praias

A Euphorbia paralias é uma das muitas espécies que podemos encontrar nas orlas marítimas crescendo nas dunas primárias, fixando as areias e contribuindo para a consolidação do cordão dunar. É também uma das primeiras plantas a colonizarem as areias nuas que, arrastadas pelo vento, poderão dar origem a novas dunas, ao encontrarem uma planta que as segure. É, pois, uma espécie de grande importância no litoral português.
A Euphorbia paralias distribui-se por todo o litoral da Península Ibérica, litoral mediterrânico europeu e norte de África, litoral atlântico desde o Magreb até ao Mar do Norte, Madeira e Canárias.
Esta espécie foi introduzida na Austrália e de tal forma se deu bem no seu novo habitat (onde não encontrou inimigos naturais que restringissem o seu desenvolvimento) que se tornou extremamente invasiva, crescendo exuberantemente e formando novas colonias em qualquer areal disponível, abafando as espécies nativas e alterando a estrutura das praias.
Trata-se de um problema semelhante ao que acontece nos areais de Portugal com o chorão, Carpobrotus edulis, planta exótica importada da África do Sul e que também cresce indiscriminadamente impedindo o correto desenvolvimento da vegetação local.

O Carpobrotus edulis tomou conta deste espaço, sufocando as plantas locais que lutam para sobreviver

Tanto no que diz respeito à Euphorbia paralias na Austrália como à Carpobrotus edulis em Portugal, a palavra de ordem é arrancar pela raiz sempre que possível, podendo deixar no terreno os exemplares em causa, para que se decomponham.
A linda borboleta europeia Hyles euphorbiae que põe os seus ovos em plantas do género Euphorbia e cujas larvas se alimentam das suas folhas e brácteas, tem sido introduzida de forma intensiva em países onde as Euphorbias causam problemas, para que atuem como agente biológico no controlo do crescimento das suas colonias. 
A Euphorbia paralias é uma espécie halófita, ou seja, tolerante à salinidade que resulta da sua proximidade com o mar. É uma espécie perene, rizomatosa, provida de uma raiz ereta e muito longa, apta para captar água em profundidade. Os múltiplos caules, lenhosos na parte inferior, são quase todos eretos e da mesma altura, não apresentando pelos e podendo atingir os 70 cm de altura. Os caules crescem a partir de uma base lenhosa, no entanto ramos laterais podem surgir caso aconteça a planta ficar parcialmente soterrada pela areia que se acumula à sua volta, arrastada pelo vento.
As folhas, muito numerosas, inteiras e sem pecíolo, carnudas e de aspeto lustroso, estão revestidas de uma forte cutícula, características estas que lhes permitem evitar uma excessiva perda de água, por transpiração. Pela mesma razão, as folhas ascendentes, dispõem-se de forma imbricada, ou seja, umas sobre as outras tal como as telhas num telhado, de forma a poder recolher alguma água resultante das humidades noturnas, tão frequentes nas orlas marítimas. As folhas superiores são maiores que as inferiores.


Tal como muitas espécies do mesmo género, a Euphorbia paralias produz uma seiva branca de aspeto leitoso que é segregada quando a planta é ferida e que é também uma adaptação à falta de água pois a sua função é estancar a perda de seiva, acelerando a cicatrização dos tecidos. Este líquido é toxico, devendo ser evitado o seu contato com a pele, olhos e mucosas.
As inflorescências da Euphorbia paralias são muito peculiares e características do género a que pertence.
Esta é uma espécie monóica pois apresenta inflorescências formadas por flores femininas e flores masculinas separadas, num mesmo individuo (ao contrário do que acontece com a maioria das flores que tem órgãos reprodutores femininos e masculinos numa mesma flor).
Cada flor feminina, solitária, está praticamente reduzida a um ovário trilocular no topo de um pedicelo e está cercada por vários estames, cada um deles resultante de uma flor masculina.
Todo o conjunto, chamado ciato, está protegido por um involucro em forma de cálice, formado por duas ou mais brácteas e provido de 4 ou 5 glândulas que segregam um néctar que atrai os insetos polinizadores.
Cada ciato é solitário e tem um pedúnculo distinto mas de cada um deles emergem vários pedúnculos que se bifurcam dando origem a sucessivos novos ciatos, em várias camadas.
O conjunto dos ciatos têm a vantagem de dar mais visibilidade à planta por forma a torna-la mais atraente para os agentes polinizadores.
A floração ocorre de março até ao final do verão.
Os frutos são capsulas arredondadas de casca granulada e marcada por 3 sulcos profundos. No interior existem 3 sementes ovoides as quais são expelidas a uma distância de 1 a 2 metros, sendo disseminadas pelas formigas ou pelo vento.
Uma planta vigorosa pode produzir até 5000 sementes por ano. Sendo tolerantes ao sal e bastante resistentes, estas sementes podem viajar nas correntes marinhas por 1 ou 2 anos e ainda assim conservar 50 % da sua viabilidade, podendo germinar ao encontrarem o lugar mais propício para o fazer.

A Euphorbia paralias pertence às Euphorbiaceae, familia botânica de grande importância que inclui espécies de grande valor económico, nomeadamente: a Hevea sp, vulgo seringueira, de onde se extrai a látex usado na manufatura da borracha; a Ricinus communis fonte do óleo de rícino; a mandioca que é a base da alimentação em varias regiões do globo e ainda algumas espécies ornamentais muito populares como a Poinsetia, muito vendida especialmente na época do Natal, devido às suas folhas semelhantes a pétalas de flores vermelhas. Esta família inclui cerca de 6000 espécies repartidas por 222 géneros. O género Euphorbia, ao qual pertence a Euphorbia paralias é um dos mais difundidos e de maior diversidade morfológica. A variedade dentro deste género é sem dúvida surpreendente, existindo espécies de pequeno porte, outras de porte arbustivo ou arbóreo e até algumas que são semelhantes a catos gigantes. Apesar de tal diversidade de formas, todas partilham a estrutura particular das flores, o que as torna tão características.

Texto e fotos de:
Fernanda Delgado do Nascimento  http://floresdoareal.blogspot.pt/
(exceto quando especificado).

Fotos: Praia da Areia Branca/Areal Sul - Lourinhã