"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





domingo, 30 de janeiro de 2011

Erophaca baetica syn. Astragalus lusitanicus


Nas arribas do Caniçal, dezenas de espécies acordaram já da sua dormência invernal durante o qual fizeram as suas reservas de energia. O solo voltou a ser colonizado por pequenas plantas que vão crescer rapidamente,  retomando o seu árduo trabalho na produção de folhas, flores e frutos com sementes, para poderem perpetuar a espécie. Para muitas plantas, trata-se de uma verdadeira corrida contra o tempo pois há que deixar espaço para o desenvolvimento de outras espécies mais tardias.
A Erophaca baetica é uma planta herbácea perene muito vistosa que perde as folhas durante o período de descanso vegetativo.  É conhecida vulgarmente por Alfavaca-dos-Montes, Alfavaca-Sivestre, Erva-canudo e Tremoção e distribui-se um pouco por toda a Península Ibérica e Noroeste de África, vivendo tanto em terrenos cultivados como incultos.

Pertence à família das Leguminosae ou Fabaceae,  uma das maiores famílias botânicas, cuja principal característica é apresentar o fruto sob a forma de vagem.
É um pequeno arbusto herbáceo que habitualmente não excede os 70 cm.
Floresce de finais de janeiro a junho.

As  folhas são pinadas, isto é,  compostas por 8 a 12 pares de folíolos articulados ao longo do eixo comum.As flores, dispostas em cacho, são grandes e de corola branca, com o cálice avermelhado finamente coberto por pêlos.

Os frutos são vagens oblongas, intumescidas e cobertas de pêlos.
As sementes são arredondadas e lisas, de cor acastanhada.
Esta planta tem grande potencial tóxico, podendo provocar envenenamentos agudos e crónicos. Em regiões onde se use fazer o pastoreio há que evitar que os animais ingiram estas plantas pois na forma clínica aguda, a morte pode ocorrer em menos de 24 horas e a forma crónica pode conduzir à perda de tecido muscular e consequente morte dos animais afectados.

Texto e fotos de:
Fernanda Delgado do Nascimento  http://floresdoareal.blogspot.pt/

(exceto quando especificado).

Fotos - Arribas da Praia do Caniçal/Lourinhã

sábado, 29 de janeiro de 2011

Lobularia maritima subsp. maritima

A Lobularia maritima subsp. maritima (anteriormente Alyssum maritimum), é vulgarmente conhecida como alisso-doce, alyssum, flor-de-mel, tomelos, açafate-de-prata ou escudinha.
Pertence á família botânica das Brassicaceae, composta por mais de 3.000 espécies, entre as quais , algumas de grande importância para a alimentação humana, como por exemplo o rabanete, a couve, o nabo e a mostarda.

É uma espécie de estatura baixa, com caule lenhoso e bastante ramificado. As folhas são linear-oblongas e as flores são sempre brancas e têm 4 pétalas dispostas em cacho. A planta exala um perfume caracteristico, semelhante ao do mel, daí a origem do nome.
A Lobularia maritima subsp. maritima é nativa da região Mediterrânica e da Macaronésia (Canárias, Cabo Verde, Madeira e Açores), mas encontra-se naturalizada em muitas outras regiões. Surge espontânea em terrenos arenosos e com algum declive, sobretudo ao longo das costas do litoral e o seu periodo vegetativo é bastante curto, com floração de janeiro a maio.
Os exemplares acima foram fotografados nas dunas da Praia da Areia Branca
Esta planta deu origem a algumas variedades melhoradas com o fim de serem cultivadas como plantas ornamentais em jardins, assumindo o aspecto de pequenas moitas bastante mais compactas, de floração mais abundante e prolongada. As flores são brancas, rosa ou violeta. No entanto, estas variedades ornamentais são invasivas pois produzem grandes quantidades de semente e em consequência ressemeiam-se com muita facilidade, sendo difíceis de erradicar.
Nos jardins, esta planta que em condições favoráveis se poderá comportar como perene, é geralmente cultivada como anual dado que se torna deselegante a partir do segundo ano, cheia de caules desordenados e apresentando um grande decréscimo na produção de flores.



Estas duas plantas crescem no meu jardim.
Dá para ver a diferença entre a planta que cresce na natureza e luta pela sua sobrevivência, suportando os ventos maritimos, a falta de água e carência de nutrientes  e as plantas da mesma espécie que vivem mimadas, no jardim. Mas não é apenas uma questão de maiores cuidados mas também porque foram manipuladas genéticamente pelos viveiristas, para que as flores sejam mais abundantes e durem mais tempo.


SOBRE A ORIGEM DAS PLANTAS ORNAMENTAIS:

Certas plantas têm sido cultivadas com fins ornamentais desde há milhares de anos, não só pela beleza das suas flores ou folhagem e exuberância das suas cores mas também pelo perfume que exalam. Estas plantas foram seleccionadas a partir de exemplares da flora silvestre, existentes na natureza. Progressivamente as espécies foram sendo melhoradas através de sucessivos cruzamentos entre os exemplares mais bem dotados. Daqui resultou uma imensa variedade de formas e híbridos com mais e melhores cores, flores maiores, de floração mais prolongada e maior resistência às doenças, aos frios ou à seca.

Texto e fotos de:
Fernanda Delgado do Nascimento  http://floresdoareal.blogspot.pt/
(exceto quando especificado).


quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Oxalis pes-caprae



A Oxalis pes-caprae é uma pequena planta que forma densos tapetes verdes, pontilhados de belas flores amarelas e que se encontra por quase todo o lado,  desde janeiro até ao inicio da Primavera. O impacto visual é de grande beleza.
Mas, cuidado, trata-se de uma planta invasora!


A Oxalis pes-caprae é vulgarmente conhecida por azeda, azedinha, trevo-azedo, azedinha-amarela, erva-azeda-amarela, erva-canária, erva-mijona, entre outros nomes.
É uma planta vivaz que se reproduz quase exclusivamente através de um bolbo profundamente enterrado no solo. As sementes são raras nas espécies naturalizadas fora da sua área natural. A parte aérea da planta, que morre no fim da época de floração para voltar a surgir no início do ciclo, é um tufo formado por caules muito juntos, com cerca de 20 cm de altura encimados por flores de pétalas amarelas. As folhas são em forma de trevo, com 3 folíolos em forma de coração.
Produz muitos bolbilhos que facilmente se fragmentam e dispersam, aumentando assim a sua distribuição e originando extensas colónias onde domina, competindo com as espécies nativas. Prefere as terras cultivadas e sítios descampados sobretudo em solos argilosos, mas também invade as áreas naturais.

Com o aproximar da noite, e a falta de luz, as flores da Oxalis pes-caprae fecham-se, para reabrirem no dia seguinte, quando o sol vai alto e as aquece. O mesmo acontece quando há vento fresco, pois as flores parecem friorentas.

Pertence à família botânica das Oxalidaceae, sendo que as plantas desta família são tóxicas se ingeridas em grandes quantidades. A intoxicação é decorrente da formação de oxalato de cálcio, a partir do ácido oxálico solúvel presente nas folhas. A ingestão desencadeia primariamente vómitos, diarreia e dores abdominais, resultantes da acção irritante do ácido oxálico nas mucosas digestivas e intestinais. O quadro pode ser agravado pelo desencadeamento da hipocalcemia e de lesões renais.  Em miúdos,  todos nós ou pelo menos a maioria, já experimentámos sugar os pecíolos das folhas e nos deliciámos com a acidez do suco.  Em vista do acima exposto, convém recomendar moderação aos apreciadores. 

A Oxalis pes-caprae é originária da África do sul. Foi introduzida com fins ornamentais em Portugal e na região do Mediterrâneo no século XVIII. Rapidamente se adaptou e se tornou invasora causando prejuízos avultados nas plantações agrícolas. Esta invasora é também um grave problema em vários países do mundo, nomeadamente norte de África, sudoeste asiático, Paquistão e Índia. Também se espalhou pela Austrália, Nova Zelândia, Japão e China. Na América chegou à Califórnia, Arizona, Florida e também América do Sul. 

NOTA:

Nos seus habitats naturais esta espécie possui um sistema de reprodução complexo com 3 formas florais (Heterostilia - veja AQUI e AQUI) contudo, na área invasora "observou-se a alteração da estratégia reprodutiva para uma reprodução exclusivamente assexuada em resultado de efeitos fundadores que levaram apenas à introdução do morfotipo pentaploide de estilete curto. A forma introduzida não só perdeu os morfotipos florais compatíveis para a reprodução sexuada, como também é aparentemente estéril do ponto de vista citológico". Recentemente, os membros de uma equipa de investigadores dasnUniversidades de Coimbra e Vigo  encontraram novos morfotipos florais e citotipos na região oeste da bacia Mediterrânea. O aparecimento destas novas formas abre a possibilidade para a reprodução sexuada (a produção de sementes foi descrita pela primeira vez) e constitui um novo meio de dispersão e fonte de variabilidade genética. 

SOBRE AS PLANTAS INVASORAS:

A invasão biológica por espécies exóticas é considerada a segunda maior causa da perda de biodiversidade, sendo apenas ultrapassada pela destruição dos habitats. Estas espécies denominadas invasoras ocorrem um pouco por toda a parte, e de forma tão frequente que chegamos a pensar que são espécies nativas.
Muitas plantas exóticas foram introduzidas no nosso país quer como plantas ornamentais, quer para controlo da erosão ou exploração florestal. As plantas foram comercializadas durante anos, acabaram por se naturalizar e de repente demo-nos conta que se tornaram invasoras. Infelizmente espécies não nativas continuam a ser importadas, especialmente ao nível de plantas ornamentais.
No entanto, nem todas as espécies introduzidas se tornam invasoras.
As espécies exóticas tornam-se invasoras quando têm a capacidade de aumentar muito as suas populações, sem a intervenção humana, ameaçando a sobrevivência das espécies endémicas, chegando a sufocá-las até à morte, nos casos mais graves. Estas espécies tornam-se excepcionalmente competitivas devido a multiplos factores, sendo um deles  a falta dos inimigos naturais que existiam no seu habitat de origem.
Por outro lado, há espécies introduzidas que se aclimatam naturalmente e se mantêm dentro de certos limites, sem ameaçar as espécies nativas e até contribuindo para aumentar a biodiversidade da área. A estas chamamos plantas naturalizadas, podendo as mesmas permanecer estáveis e com uma população em equilíbrio, durante muito tempo, ou mesmo para sempre. Muitas delas tornaram-se indispensáveis na nossa alimentação. Os pessegueiros, por exemplo, têm origem na China, os tomates são nativos dos Andes, as abóboras, milho e batata vieram das Américas, apenas para citar alguns casos.
No entanto, também pode acontecer que, através de algum fenómeno natural ou não, se originem clareiras ou espaços desocupados (por exemplo através de um fogo ou desmatamento), que estimule o aumento da sua distribuição, podendo assim a espécie vir a tornar-se invasora.
Em posts posteriores, terei ocasião de mencionar mais alguns exemplos de plantas invasoras.

Texto e fotos de:
Fernanda Delgado do Nascimento  http://floresdoareal.blogspot.pt/
(exceto quando especificado).

Fotos - Arribas da Praia do Caniçal/Lourinhã

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Calendula arvensis


 
A Primavera ainda vem longe mas, apesar dos presentes rigores invernais, as encostas do litoral e os campos em redor, já se vão colorindo com os tons dourados das Calendula arvensis e os amarelos brilhantes dos Oxalis pes-caprae.
 
 
A Calendula arvensis é uma planta originária da Europa meridional sendo vulgarmente conhecida no nosso país por erva-vaqueira, malmequer-dos-campos e calêndula. É, de facto, semelhante à Calendula officinalis, cultivada nos jardins, porém menos vigorosa e com flores bastantes mais pequenas e de cor mais clara.
É uma planta da família das Compositae (Asteraceae) que é a maior família botânica, compreendendo mais de 20.000 espécies. Distribui-se por todo o país, vivendo em colónias, tanto em terrenos arenosos como em terrenos cultivados ou incultos e também na beira dos caminhos.

A Calendula arvensis fecha as pétalas ao cair da noite, voltando a abri-las completamente, apenas em horas de sol pleno. A intima relação desta planta com o sol reflete-se ainda no seu nome, o qual deriva do latim Calendae, que está na origem da palavra calendário, que por sua vez se baseia no ciclo solar.
É uma planta anual, isto é, o seu ciclo total, desde a semente até a planta adulta, e desta até a floração e produção de novas sementes, ocorre dentro de uma estação de crescimento, que pode durar apenas alguns meses ou mesmo semanas. Apenas as sementes se mantêm em estado de dormência, dando origem a novas plantas da mesma espécie, na estação de crescimento  seguinte.
No litoral batido pelo vento, raramente excede os 30 cm de altura . No entanto, em locais mais abrigados pode chegar aos 80 cm de altura.
 
É uma planta muito ramificada, ligeiramente pubescente, com alguns caules erectos e outros prostrados.  

As folhas da Calendula arvensis são oblongo-lanceoladas, planas ou onduladas, as inferiores providas de pecíolo  e  arredondadas no ápice e longamente atenuadas para a base. As superiores são relativamente amplexicaules, isto é, envolvem parcialmente o eixo do caule.
 
As inflorescências são capítulos, isto é, as flores da periferia são muito diferentes das situadas no interior do disco central. As flores marginais são liguladas (em forma de pequena língua) e são femininas. As flores do disco são tubulosas, amarelas, alaranjadas, castanhas ou púrpura, sendo as mais internas funcionalmente masculinas.
Toda esta estrutura está envolvida por brácteas,  que são folhas modificadas com função de protecção e que aqui exercem uma função análoga à das sépalas nas flores não compostas.
 
 
Os frutos da Calendula arvensis são cipselas desiguais, as marginais são incurvadas e espinhosas, as outras são naviculares (em forma de quilha de barco). Desta forma fica facilitada a dispersão das sementes.


Fotos - Arribas da Praia do Caniçal e Dunas do Areal sul/Areia Branca

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

LOURINHÃ - AS ARRIBAS E AS DUNAS DA REGIÂO OESTE


A poucos quilómetros do norte da grande Lisboa, a região da costa Oeste, é um espaço cheio de luz, onde o mar e o campo se fundem. Percorrer o Oeste é descobrir a cada passo um motivo de interesse, num cenário rico em paisagens, valiosas do ponto de vista ambiental, desde as zonas costeiras até aos planaltos, no interior.


Os caminhos que levam ao Forte de Paimogo (construído a partir de 1674) são bordejados de plantas silvestres. Aqui podemos ver Echium plantagineum, espécie botânica que floresce durante todo o verão e que serve de alimento às larvas de várias espécies de borboletas.

Brassica nigra - planta medicinal, também conhecida como mostarda-preta.
Cirsium vulgare - Cardo muito decorativo que floresce na beira dos caminhos, de junho a setembro.

A região da Lourinhã, compreendida entre o paralelo de Peniche e o de Torres Vedras, apresenta significativo interesse geológico, mas não só. A região da Lourinhã é muito rica (porventura a mais rica em Portugal, e das mais ricas a nível europeu) de restos de dinossauros do Jurássico superior, onde ocorrem associados a numerosos restos de outros vertebrados - peixes, tartarugas, crocodilos e mamíferos.

Nas arribas junto da vila da Lourinhã, equipas de paleontólogos têm encontrado numerosos fósseis de dinossauros, incluindo o mais importante ninho de ovos de dinossauro do mundo, os quais podem ser observados no Museu da Lourinhã.
Na zona costeira, alternando com imponentes falésias, são inúmeras as praias de areia limpa e fina onde se espraia um mar, de águas brilhantes, em variados tons de azul.
    
Os pequenos promontórios rochosos formados por rochas do Jurássico e Cretácico funcionam como esporões naturais, levando à acumulação de areias e à formação de praias.


"As praias são em geral estreitas, desenvolvendo-se na base das falésias, sendo a Praia da Areia Branca uma das excepções pois, devido à morfologia da costa apresenta maior largura. Esta região caracteriza-se pela existência de dunas, inserindo-se na classe das rampas eólicas. Este sistema dunar está instalado num vale largo, que forma reentrâncias na linha de costa, proporcionando a formação de praias largas. A conjugação de ventos fortes, praias largas e uma topografia em forma de rampa, originada pela foz do Rio Grande, levam a que as areias, impulsionadas pelo vento, migrem para o interior.
Na Areia Branca, devido ao declive acentuado da margem do vale, as areias formam dunas espessas, sendo mesmo possível distinguir a sobreposição de três pulsações dunares distintas. Nestes casos existe continuidade entre a praia, a duna frontal e as dunas transgressivas, verificando-se que continua a ocorrer alimentação ao sistema dunar". (Fonte)

Praia da Areia Branca, vista da duna frontal. Ao fundo, a linha costeira que leva ao Forte de Paimogo.



SOBRE OS SISTEMAS DUNARES:
As dunas são estruturas móveis resultantes da acumulação de areias transportadas pelo vento, em cujo processo de formação as plantas têm um papel fundamental. Os ecossistemas costeiros estabelecem a transição entre os sistemas marinho e terrestre e constituem barreiras naturais a fenómenos de galgamento do mar, a inundações e erosão provocados por ventos marítimos. Por outro lado, são também sistemas de armazenamento natural de areia para a compensação da perda de sedimentos provocada pela erosão. Estes sistemas garantem os processos de dinâmica costeira e diversidade dos sistemas naturais incluindo a estrutura dunar, os habitats naturais e as espécies de flora e fauna.

Texto e fotos de:
Fernanda Delgado do Nascimento  http://floresdoareal.blogspot.pt/
(exceto quando especificado).